Desafiando o inimigo: o esporte e as lutas anticoloniais na Guiné

25/05/2013

Por Victor Andrade de Melo

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Da mesma forma que foi utilizado pelas autoridades governamentais tendo em vista os intuitos de manutenção do império português, o esporte também foi mobilizado pelas lideranças das lutas anticoloniais na Guiné Portuguesa (futura Guiné Bissau). Pode-se observar tal dimensão em algumas iniciativas de um dos principais personagens das lutas pela independência, um dos mais importantes intelectuais e líderes africanos do pós-Segunda Grande Guerra: Amílcar Cabral.

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Filho de cabo-verdianos, nascido na Guiné Portuguesa (em 1924), com oito anos Amílcar chegou a Cabo Verde, acompanhando seu pai, Juvenal Cabral, personagem de certa proeminência na história do arquipélago, que retornava à sua terra natal. Desde o tempo em que fora aluno de destaque no importante Liceu Gil Eanes (Mindelo, Ilha de São Vicente), Amílcar esteve envolvido com agremiações esportivas e associações juvenis, nas quais começou a tomar consciência da situação das colônias. Bom jogador de futebol, era apaixonado pelo esporte em geral.

Em 1945, Amílcar se deslocou para Lisboa, para estudar, como bolsista, no Instituto Superior de Agronomia. Por lá esteve envolvido com as atividades da Casa dos Estudantes do Império, do Clube Marítimo Africano, da Casa de África e do Centro de Estudos Africanos, instituições nas quais se formou uma parte importante das lideranças das lutas anticoloniais.

Cabral era presença constante nos eventos esportivos, se destacando nas diversas equipes de futebol que integrou. A sua paixão pelo esporte pode ser vista na caricatura realizada por um colega de turma, José Carlos Sousa Veloso, publicada no livro de final de curso (1945-1946) do Instituto Superior de Agronomia: é retratado de uniforme, meiões e chuteiras; nas mãos tem livros de Engels, Lênin e Dostoievski; seu amor por Cabo Verde é explicitado por suas lágrimas caindo sobre a representação do arquipélago em um globo.

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Desde que regressou à Guiné, em 1952, na condição de engenheiro agrônomo a serviço do Ministério do Ultramar, Amílcar se mobilizou para criar um clube esportivo para os naturais da província, vislumbrando que a agremiação deveria investir na elevação do nível cultural dos associados. Em 1954, funda o Clube Desportivo e Recreativo de Bissau. Nas suas palavras:

Antes de darmos início à luta armada, decidimos criar organizações africanas. Em 1954 começamos por criar organizações recreativas, já que era impossível nessa altura dar-lhes um caráter político. Isso foi importante não por causa da ideia de criar uma associação, mas porque o colonialismo não o permitiu, o que provou às grandes massas de jovens que se tinham entusiasmado por esta ideia, que sob o domínio português os africanos não tinham quaisquer direitos. Isso deu-nos mais coragem para outras ações, para difundir outras ideias e para fazer avançar a luta.

O clube fora concebido como uma estratégia para gestar um espaço para a realização de atividades políticas, em um momento em que estava restrita a possibilidade de reunião. Tinha também a intenção de garantir o que Cabral compreendia ser um direito básico de todos: o acesso a práticas esportivas, recreativas, artísticas. Amílcar, enfim, enxergava a iniciativa como uma alternativa para despertar a consciência da população para sua condição colonial, para conclamá-la a participar mais ativamente de ações de contestação.

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Essa foi, na verdade, uma estratégia política comum na trajetória de Amílcar Cabral: “formar pequenos grupos para discutir diversos assuntos culturais, relacionados com a literatura e poesia, por exemplo, e, ao mesmo tempo, ir destacando os elementos mais conscientes para, numa fase posterior, desenvolver um trabalho mais político e mais arriscado” (TOMÁS, 2008, p. 88).

Ao conclamar a juventude a participar dos movimentos anticoloniais, Cabral explicitava sua visão acerca da importância do esporte como estratégia de aglutinação, que precisa, contudo, depois ser superada com outro tipo de envolvimento:

Nessa grande batalha da justiça contra a injustiça, a juventude guineense e cabo-verdiana tem de desempenhar um papel importante. E é por isso que a nossa juventude se organiza cada vez mais, abandona o campo de futebol ou de basquetebol e todos os divertimentos fáceis, para se preparar  cuidadosamente para, no campo de batalha, empregar todas as suas forças, toda a sua inteligência, pela vitória da causa de nossos povos.

Essa postura era coerente com a sua ideia de que a cultura popular deveria formar a base para a luta anticolonial. Para ele, inclusive, não se tratava de negar, mas sim de reavaliar as bases culturais coloniais, as utilizando para fins de contraposição, de construção de uma nova ordem social.

No caso do futebol, antes mesmo da iniciativa de criação do Desportivo e Recreativo de Bissau, Cabral já se oferecera e atuara como técnico de equipes locais da Guiné. Na verdade, como o grupo inicial de engajados com suas propostas era formado majoritariamente por cabo-verdianos, tratava-se também de uma alternativa para buscar maior proximidade com os guineenses. Abílio Duarte lembra que:

O Cabral destinou-me ao Sporting, que era o clube mais anti-caboverdiano naquela altura. Entretanto, as coisas foram andando…Do meu lado, quebrei a vidraça da cachupa: acabei por estabelecer um relacionamento profundo com os guineenses, sem romper contudo os meus laços com os cabo-verdianos. Havia um casulo em que os cabo-verdianos viviam. Formavam um mundo à parte, só seu.

 Aristides Pereira, futuro primeiro presidente de Cabo Verde (1975-1991), também lembra que, até por não haver possibilidades de falar sobre política, se interessava muito: “pela camada jovem guineense, principalmente desportistas, e procurava incutir-lhes o gosto e a necessidade de aprender para além da instrução primária a que estavam confinados por lei”.

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Foto da seleção de futebol da Província Portuguesa da Guiné. Disponível em: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com.br/2011/10/guine-6374-p8947-notas-de-leitura-292.html

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O futebol foi, portanto, uma das estratégias perspectivadas para tentar romper as desconfianças históricas que existiam entre cabo-verdianos e guineenses, o que não era de se estranhar já que muitos originários do arquipélago ocuparam postos ligados à administração da Guiné.

Mesmo que supostamente disfarçado o aspecto político, a Polícia de Segurança Pública (PSP) não tardou a desconfiar da iniciativa de criação do Desportivo e Recreativo de Bissau:

o Engenheiro Amílcar Cabral e a sua mulher comportaram-se de maneira a levantar suspeitas de atividades contra a nossa presença nos territórios de África com exaltação de prioridade de direitos dos nativos e, como método de difundir as suas ideias por meios legalizados, o Engenheiro pretendeu e chegou a requerer juntamente com outros nativos, a fundação de uma agremiação desportiva e recreativa de Bissau, não tendo o Governo autorizado.

 Os agentes policiais não estavam equivocados. Hoje se sabe que a experiência do clube foi uma das significativas iniciativas que antecederam e contribuíram para a criação do PAIGC. Segundo o próprio Amílcar:

As tentativas de organizações coletivas situam-se a partir de 1953. Os elementos ditos “assimilados” ou “civilizados” organizam-se a principio nas zonas urbanas. Em 1954 um grupo de nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde tinha em vista fundar uma associação desportiva e recreativa, cujo objetivo secreto era o desenvolvimento da luta anticolonial. As autoridades opuseram-se a sua formação com o pretexto de que os estatutos inseriam uma cláusula segundo o qual os “indígenas” podiam ser admitidos como membros. Perante este obstáculo, um grupo de assalariados e comerciantes, funcionários e estudantes criou o MING (Movimento para a Independência da Guiné). Finalmente em setembro de 1956, no meio de uma reunião realizada em Bissau, o MING cede lugar ao PAIGC.

 Mesmo que a ideia do Desportivo e Recreativo de Bissau não tenha avançado, é fato que muitos dos líderes guineenses das lutas anticoloniais na Guiné estiveram envolvidos com as iniciativas de Cabral e/ou com outras agremiações esportivas locais: Bobo Keita, Carlos Correia, Constantino Teixeira e Nino Vieira, entre outros.

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Estádio Sarmento Rodrigues, posteriormente rebatizado para Estádio Lino Correa.

Estádio Sarmento Rodrigues, posteriormente rebatizado para Estádio Lino Correa.

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Para mais informações:

MELO, Victor Andrade de. (Des)mobilização para a luta: o esporte como estratégia nos conflitos da Guiné Portuguesa (décadas de 50 e 60 do século XX). Métis: História e Cultura, v. 10, n. 19, pp. 215-236, jan.-jun. 2011.

Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/viewArticle/1746

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Lançamento de livros

23/05/2013

visao de campo - convite

Dia 29/5, quarta-feira, véspera de feriado, serão lançados três livros da Coleção Visão de Campo:

- Pesquisa Histórica e História do Esporte, de Victor Andrade de Melo, Maurício Drumond, Rafael Fortes e João Manuel Casquinha Malaia Santos

- Esporte e Lazer na África: Novos Olhares, organizado por Augusto Nascimento, Marcelo Bittencourt, Nuno Domingos e Victor Andrade de Melo

- Olho no Lance: Ensaios sobre Esporte e Televisão, organizado por Bernardo Borges Buarque de Hollanda, João Manuel Casquinha Malaia dos Santos, Luiz Henrique de Toledo e Victor Andrade de Melo

Será no Botequim Vaca Atolada, a partir das 19h (até as 23h). Fica na Rua Gomes Freire, 533, Lapa, Rio de Janeiro.


DITADURAS E A BOLA: ARGENTINA (1978)

20/05/2013

A morte de Jorge Rafael Videla, ditador argentino entre 1976 e 1981, ocorrida na última sexta-feira, dia 17 de maio, me fez repensar e reescrever o post que me cabia nesta segunda-feira. Primeiro me veio a dúvida: eu sabia que iria chover artigos de jornalistas esportivos e outros sobre a ditadura militar argentina e o futebol após a morte do ditador. Deveria eu, então, escrever mais um artigo sobre o tema? Depois de pensar um pouco, encarando a tela do computador tal qual César frente ao Rubicão, decidi ir em frente e começar uma série sobre ditaduras e futebol, na qual dedicarei o primeiro post a Videla e à Argentina. Alea jacta est.

Para os que não são tão ligados à história da Argentina ou das ditaduras, um breve panorama: Videla foi um dos líderes da Junta de Comandantes que assumiu o poder na Argentina após o golpe de 24 de março de 1976, juntamente com o brigadeiro Orlando Ramón Agosti e com o Almirante Emilio Eduardo Massera. Como representante do exército, principal força armada argentina, seu papel era de destaque, sendo nomeado presidente. Sequestros, torturas, prisões e execuções, não necessariamente nessa ordem, eram a ordem do dia no novo regime que se impunha ao país hermano. O terror encobriu a sociedade argentina. Sem conseguir despertar o entusiasmo e a adesão explícita da população, o esporte aparecia como um dos meios de se exaltar a pátria. E a Copa do Mundo caía nos braços da Junta Militar como um presente vindo dos céus, advinda da escolha feita pelo Congresso da FIFA em 1968.

Mas como – o leitor mais ingênuo pode se perguntar a – a FIFA permitiria a realização de uma Copa do Mundo em um país onde os direitos humanos estavam sendo claramente violados? E os outros quinze países que participariam da competição? Disputariam eles o troneio em meio a tal cenário? A resposta é simples e cruel. A FIFA não só confirmaria a realização da competição, como se congregaria com a Junta Militar argentina em uma ode ao poder de realização, de ordem e de apoio a Videla e seu regime. De frente à situação, o presidente da FIFA, João Havelange (eleito em 1974) buscava a confirmação de que a Copa do Mundo de fato ocorreria, enquanto Videla buscava afirmar a capacidade que o regime militar teria em disciplinar a sociedade e apresentar um país sem conflitos aparentes em meio ao certame.

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João Havelange e Jorge Videla na tribuna de honra do Monumental de Nuñez na final da Copa do Mundo de 1978.

A FIFA já havia apoiado a Copa de 1934 na Itália fascista e não teria problemas éticos em apoiar a Junta Militar. No entanto, o mesmo não poderia ser dito de todos os envolvidos. Paul Breitner, lateral esquerdo alemão, e Johan Cruyff não compareceram ao torneio por motivos ideológicos (anos mais tarde, Cruyff teria alegado motivos pessoais como razão para não participar da Copa). Já Jorge Carrascosa, capitão da seleção argentina, abandonara a seleção em 1977, alegando não estar de acordo com a Ditadura Militar que governava o país. O consenso não era total e a ditadura demonstrava rachaduras em seu revestimento de paz e felicidade, armado para a Copa.

Mas nem todos aderiram ao boicote da seleção argentina, é claro. O que não significa dizer, no entanto, que os que de fato se envolveram aderiram ao regime. Há muito mais em jogo ao se decidir pela participação ou pelo boicote de uma seleção em uma Copa do Mundo disputada em casa. Há a paixão pelo jogo, a carreira profissional e o sonho de ser campeão mundial em seu país, por exemplo. César Luis Menotti, técnico da seleção argentina desde 1974 que liderou a seleção de seu país à vitória, era ativista político e membro do Partido Comunista. Anos mais tarde, Menotti declarava que jogava pelas pessoas, e não pelo regime. O futebol não seria um momento de disfarce do regime, mas o de escape das pessoas, onde poderiam desfrutar do prazer e da paixão que não tinham fora do estádio. O povo merecia o campeonato.O julgamento da participação de atletas argentinos sem levar em consideração tais elementos é um problema encontrado em diversos trabalhos sobre o tema, o qual não devemos repetir, mas aprofundar ainda mais em trabalhos futuros.  

A questão, mais do que se os jogadores deveriam ou não ter participado da seleção no período da ditadura, reside nos significados possíveis de tal participação. Por um lado, a participação argentina e sua vitória na competição foram utilizadas como importante ferramenta de propaganda pela ditadura de Videla. Mas por outro, ofereceram ao povo algo pelo qual sonhar e aspirar.

Termino com as palavras de Claudio Tamburrini, um estudante de filosofia e jogador profissional, e também um ativista político que fora encarcerado e escapou em março de 1978, citadas por Eduardo Archetti:

O que é essa fascinação do esporte que torna possível que torturados e torturadores se abracem depois de gols marcados pela seleção nacional?Durante a Copa do Mundo de 1978, os argentinos – incluindo eu – trocaram o julgamento político crítico da situação de seu país pela euforia esportiva. Os esportes, e em particular o futebol, produzem paixões. As paixões nem sempre ajudam quando se tomam decisões. Apoiar a seleção nacional de um país que está sujeito a uma ditadura é um exemplo de cara irracionalidade, mas talvez salutar a um povo. Dada a imperfeição da vida e da história, talvez seja racional celebrar os triunfos no futebol à parte do contexto político concreto de uma sociedade. Os argentinos deveriam comemorar o título novamente… Luque, Fillol, Kempes e Bertoni, junto com os outros heróis de 1978, deveriam retornar ao estádio do River Plate. Agora eles seriam campeões inquestionáveis. Desta vez, Videla está na prisão (Perfil, junho de 1998, p. 14, apud Archetti, 2006, p. 142, tradução minha).

Tamburrini, a situação hoje é ainda melhor. Videla morreu na prisão.

 

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ARCHETTI, Eduardo P. Argentina 1978: military nationalism, football essentialism, and moral ambivalence. In: TOMLINSON, Alan; YOUNG, Christopher. National identity and global sporting events. Albany: SUNY Press, 2006.


Racismo na “partida mais longa da História” ?

13/05/2013

O capítulo seis do livro “La verguenza de todos – el dedo en la llaga del Mundial de 78” de Pablo Llonto que se dedica exclusivamente a analisar as circunstâncias nebulosas que envolveram a realização da partida entre Argentina e Perú pela segunda fase da Copa do Mundo de 1978 tem como sugestivo título a partida mais  longa da História em função das diversas denúncias veladas ou mais recentemente explícitas sobre irregularidades dentro e fora dos gramados.

            O autor, advogado militante de causas políticas contra os abusos da ditadura argentina, representante de familiares de desaparecidos durante o regime autoritário e jornalista que trabalhou em importantes periódicos como Clarín, El Gráfico, La Razón  faz uma análise extremamente crítica sobre a Copa do Mundo de 1978  em seu livro publicado pela Editora Madres de la Plaza de Mayo, que apesar de instigante, carece de preocupação com as fontes como grande parte dos trabalhos jornalísticos.

A hipótese de que alguns jogadores peruanos podem ter sido subornados para “entregar a partida”, fato muito complexo de ser provado é um dos argumentos centrais do capítulo que sugere indícios racistas tanto na divisão do plantel e acusações aos jogadores que supostamente teriam entregue o jogo, quanto no próprio comportamento da torcida argentina.

O defensor negro Manzo é um dos principais acusados de ter se vendido, inclusive segundo o autor por declarações posteriores de outros jogadores como Oblitas, Quiroga e Chumpitaz. Ele era o único jogador que atuava entre os titulares pelo modesto Municipal e o fato de ter se transferido no ano seguinte ao mundial para a equipe argentina do Velez Sarsfield reforçaria segundo o autor as suspeitas em torno dele., pois o ex-técnico do Velez Antonio Antonio D´Acorso e o preparador físico Jorge Fernadez teriam afirmado que o jogador confessara que todos os jogadores peruanos receberam dinheiro, menos ao atacante Juan José Muñante que atuava no México. (LLONTO,161)

O autor abre espaço para a defesa de Manzo reproduzindo algumas declarações do jogador e esclarece que efetivamente o grupo estava “rachado” entre os jogadores do Sporting Cristal e do Alianza Lima que formavam a base da equipe peruana. Um possível conflito racial é apontado por Llonto que afirma que “para muchos jugadores de Cristal ellos eran los lindos y lós de Alianza lós negros feos”. (LLONTO, 2005,131)  e Manzo que era negro e de uma equipe de menor expressão acredita que acabou sendo uma espécie de “bode expiatório”:

A mí me hundieron, me dejaron en el suelo – defiende dese um olvido que nunca imaginó- Por que mi culparan a mi solo? Porque en ese equipe había cinco jugadores de Cristal, cinco de Alianza. Y yo era el único que jugaba en el Municipal. Yo no pertenecía a ningun grupo. Y me tiraron abajo. Sé que abló Oblitas, luego Quiroga. Si a ese ló encontro le pegaria. Por esa falsa version me cerraran las puertas. Nadie me dio La oportunidad de desarrolarme en lo que amo, el fútbol, y en cambio yo crio chanchos y hago trabajos de albañileria. (LLONTO, 2005, P. 160)

Situação oposta ocorre com a estrela do time o atacante Muñante que por jogar no México e ter um ótimo salário não é mencionado como suspeito de suborno por nenhum jornalista ou companheiro mesmo não fazendo parte de nenhum grupo . O fato  de quase ter marcado um gol aos dois minutos de jogo desferindo potente chute na trave ajuda a proteger a sua imagem e segundo o autor foi utilizada também durante muito tempo como prova de idoneidade da própria seleção peruana.

É importante destacar que apesar do Peru já estar eliminado na segunda fase do Mundial, fato que poderia gerar um relaxamento natural, o time fez uma bela campanha no seu grupo de origem, empatando com a vice-campeã mundial Holanda 0×0, e vencendo Escócia e Irã respectivamente por 3×1 e 4×1, sendo considerado assim um adversário difícil de enfrentar apesar da solidariedade existente entre as ditaduras de Jorge Videla e Morales Bermudez.

ANÚNCIO FRATERNAL AEROPERU

ANÚNCIO FRATERNAL AEROPERU

A surpresa com o resultado elástico, a postura de alguns jogadores e mesmo  decisões controvertidas do técnico Marcos Calderón na escalação da equipe e nas substituições durante a partida relatadas pelo jornalista ajudam a fortalecer as teorias a respeito da culpabilidade dos jogadores peruanos no resultado da partida e o possível suborno de alguns atletas.

Todavia os argumentos se fragilizam devido à falta de fontes mais concretas, à apresentação de declarações aparentemente contraditórias de diferentes jogadores e a identificação do zagueiro Manzo como o “principal vilão” pelos depoimentos de alguns jogadores, mas que aparece também as vezes paradoxalmente como o injustiçado na construção do texto.

Las seis cruces de Manzo le pesan desde 1978 y si bien algunos esperán aún “la confésion , el ex defensor cumple una condena moral que lo acompañará hasta la muerte: “Las puertas se me cerraron- recuerda con odio. – Hasta mi família mi dio la espalda. Caí en el trago. La única que me ayudó fué Mercedes, mi segunda esposa. Una vez fue pedir ayuda a Teófilo Cubillas que había sido designado funcionario en el Instituto Peruano del Deporte. ‘Ya regreso´, me dijo y hasta ahora estoy esperando. A mi me pusieron como único culpable y cometieron una injusticia tremenda. (LLONTO, 2005, P. 162)

A construção da vilania como um processo de enquadramento da memória em algumas partidas de futebol históricas é um elemento corriqueiro onde os jornalistas tem a função de senhores da memória e acabam selecionando os fatos que serão lembrados e como eles são contados ou resignificados.

Se Manzo será sempre lembrado e a honra e responsabilidade dos peruanos sempre colocada em questão, outro personagem também se tornou uma referência inesquecível: Ramón Quiroga.

O fato do goleiro Ramón Quiroga, ser um argentino da cidade de Rosário naturalizado peruano desencadeou muitas suspeitas sobre a sua atuação e a possível contribuição com o seu país de origem.

O arqueiro, cujo apelido era “Chupete”, jogava no Sporting Cristal e era reconhecido tanto no Peru como na Argentina pela mídia esportiva por sua capacidade técnica e espírito de liderança. Porém a sua própria escalação na partida teria sido contestada por alguns jornalistas e segundo o autor mesmo entre os jogadores, visto que o Peru já estava eliminado e a situação do atleta era no mínimo incômoda:

Entretanto diferentemente do que ocorre com relação ao defensor Manzo e outros jogadores peruanos, cuja possibilidade de terem se vendido é factível de ser interpretada no livro, Pablo Llonto em sua argumentação concernente a Quiroga praticamente o absolve e não deixa margens para especulações sobre a sua idoneidade.

O fato de ter atuado é justificado por ser em sua cidade natal, pela presença da mãe e amigos, e por ser o estádio do seu clube de coração o Rosário Central. Os gols que levou seriam indefensáveis e surgiram devido à apatia dos outros jogadores peruanos e o fato dele ter sido convocado para a Copa de 1982 seria uma prova contundente para a mídia especializada peruana da sua capacidade técnica e idoneidade moral.

Quiroga fue convocado una vez más al selecionado para el mundial de España 1982 y era evidente que con la mano en el corazón, todo el pueblo sabía que si alguién se había vendido en la vergonzosa goleada, ese no era “Chupete” . Todo analista tenia claro que con cualquier arquero peruano, aquela noche de Rosário se comían una docena de goles. No por coruptos sino por malos. (LLONTO,2005, P.15)

Ademais as declarações do jogador são reproduzidas como “verdades praticamente absolutas” mesmo sendo bem questionáveis do ponto de vista ético na minha interpretação. A acusação aos jogadores negros, sobretudo Manzo e Rojas além do técnico da equipe Marcos Calderón,  vinte anos depois e a referência aos brasileiros por levantarem suspeitas sobre a sua atuação não são devidamente questionadas pelo autor:

En privado o en publico, Quiroga tenía siempre la misma resposta: Yo no me vendí, esas fueron huevadas que inventaron los brasileños porque quedaron fuera del Mundial. La única verdad es que nosotros fuimos un desastre. Quién no tiene una noche negra una vez en la vida? Quien puede dudar de la diferencia que existe entre el fútbol argentino y peruano. LLONTO, 2005,P.159)

QUIROGA PROFETA

QUIROGA PROFETA

Além desta referência aos “brasileiros” feita por Quiroga, o autor ao longo do capítulo também por duas vezes insinua que representantes do país teriam oferecido como incentivo uma ”mala branca” de cerca de seis mil dólares a cada jogador peruano. Fato plausível, mas infelizmente novamente sem indicação da suposta fonte pelo autor.

Enquanto as acusações feitas aos brasileiros de “mala branca” são afirmadas com veemência, a polêmica em torno do goleiro argentino que defendia a seleção peruana é tratada de forma parcial o que na minha visão, denota uma certa cumplicidade do autor com os argumentos que inocentam o arqueiro, buscando enquadrá-lo como uma figura honrada na memória sobre a partida.

Mas será que internamente “Chupete”, ao sair do gramado do Estádio “Gigante del Arroyo” em direção ao fúnebre vestiário peruano,  não estava junto com milhões de torcedores argentinos que segundo o autor bradavam efusivamente por todo país: “Siga ,siga,siga el baile/ al compás del tamboril/que esta noche los cogimos/a lós negros do Brasil “y” Y llora/ y llora/ y llora Brasil llora”. (LLONTO, 2005, P. 151).

* O presente post foi adaptado do artigo Argentina 6 x 0 Peru. “A partida mais longa da História das Copas do Mundo” por dois jornalistas memorialistas argentinos apresentado no XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (INTERCOM) .

LLONTO, Pablo. La verguenza de todos: el dedo en la llaga del Mundial 78. 1.ed. Buenos Aires. Ed. Ass. Madres de Plaza de Mayo, 2005.

IMAGENS: JORNAL EL CLARÍN/COPA DE 1978.


Educação física encenada: a gymnanstica-espetáculo em diferentes instituições na Corte

05/05/2013

por Fabio Peres[i]

As apresentações de ginástica – como mostramos no último post – se tornaram um dos espetáculos mais fascinantes e divertidos da sociedade carioca no século XIX. As inúmeras exibições realizadas nos teatros e circos faziam parte de um conjunto de diversões presente na cidade. Não por acaso, as modalidades e designações de tais apresentações eram bastante variadas: ginástico-dramáticas (inseridas em uma narrativa teatral); ginástico-acrobáticas (com ênfase nas acrobacias, por exemplo, de equilíbrio e trapézio); equestre-ginásticas (performances de ginastas em cavalos); ginástico-tauromáquicas (com touros) ou apenas ginásticas, entre outras[ii].

No entanto, o caráter, por assim dizer, espetacular da ginástica não ficava restrito apenas às apresentações realizadas nos teatros e circos. A partir da segunda metade do Império brasileiro, as exibições de ginástica eram também encenadas em outros espaços e instituições sociais da cidade, como clubes e entidades associativas, estabelecimento militares, eventos esportivos e em escolas públicas e privadas.

Diferente do que se possa imaginar, essas apresentações, embora não fossem cotidianas, faziam parte das rotinas anuais de cada um desses espaços que constituíam a rede de instituições e, por conseguinte, dos laços sociais e das sociabilidades presentes na Corte.  Em festas, datas comemorativas, encerramentos anuais ou em visitas de autoridades e personalidades ilustres, a ginástica era apresentada, ou melhor, representada.

Em 17 de novembro 1857, por exemplo, o periódico Correio Mercantil noticiava a visita do imperador ao Arsenal de Guerra, onde assistiu, no estabelecimento de ginástica, a realização de exercícios executados pelos alunos. Na verdade, não era raro dom Pedro II visitar, em diversas ocasiões, não apenas instituições de educação militar como também as estabelecimentos de ensino civis, sejam eles públicos (como a Companhia de Menores, o Colégio Pedro II e a Escola Normal), sejam eles privados (como o Colégio Abílio), presenciando as aulas e apresentações de ginástica[iii].

Sem dúvida, tal assistência era de natureza diversa da dos espetáculos teatrais e circenses. Contudo, a mera presença do imperador atribuía, como destacava diversos periódicos da época, um caráter especial aos exercícios realizados, os quais adquiriram traços e marcas de exibição.

De forma semelhante, alguns espaços associativos lançavam mão de apresentações de ginástica em suas comemorações e eventos. O Real Club Ginástico Português, por ocasião da comemoração do Tricentenário de Camões, elaborou um sarau literário, artístico e dançante, no qual a programação contava com diversos “trabalhos” de ginástica, que entremeavam a abertura do evento (com declamações em homenagem à Camões na abertura do evento) e o baile, que viria a seguir[iv].

O Congresso Ginástico Português, por sua vez, realizou a festa comemorativa do seu 6º aniversário, em 14 de agosto de 1880, apresentando – após o hino do Congresso e um pot-pourri do Guarany – uma exibição de ginástica sob a direção do professor Athanazio Bastos. De acordo com a Gazeta da Tarde os alunos foram aplaudidos entusiasticamente, recebendo em seguida buquês de flores pela execução dos exercícios. Em seguida, depois de algumas formalidades, deu-se início ao baile, “sempre animado”, que se prolongou até às 6h da manhã[v].

Além disso, alguns eventos esportivos também contavam apresentações de ginástica. O Club Olympico Guanabarense, em Niterói, dispunha de exercícios de esgrima e trabalhos de ginástica, realizados pelos alunos do Real Club Ginástico Português para entreter o público nos intervalos das corridas (ver Figura 1).

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Figura 1: Anúncio do Club Olympico Guanabarense, em Niterói, publicado na Gazeta de Notícias de 20 de abril de 1884, em que os alunos do Real Club Ginástico Português, da cidade do Rio de Janeiro, se apresentaram nos intervalos das corridas.

Outras exibições especiais de ginástica se davam em eventos específicos realizados nas escolas. O Colégio Aquino, no final de julho de 1880, realizara uma Festa da Educação, na qual houve apresentação de Ginástica Pedagógica de duas turmas. Uma composta por 50 alunos menores de 10 anos e outra com 50 alunos de 10 a 13 anos. Tal festa foi marcada, de acordo com a Gazeta de Notícias (02/08/1880), por diversos ritos e homenagens. Anteriormente, em 1877, o mesmo colégio produziu uma Festa de Educação Física, em que – segundo o jornal O Globo de 11 e 12 de junho – a “perfeição e regularidade dos exercícios de gymnastica [...] colheram repetidos applausos do público ali presente“.

De igual modo, o Colégio Abílio, do renomado Dr. Abílio César Borges, realizava anualmente Festas de Educação Física, que contava com uma programação extensa e detalhada (ver Figura 2).

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Figura 2: Anúncio da Festa de Educação Física, publicado no Diário do Rio de Janeiro de 03 de abril de 1875.

Ainda que não se possa estabelecer uma equivalência exata entre o colégio Ateneu do romance homônimo de Raul Pompéia e o Colégio Abílio, do qual o autor fora aluno, a descrição bastante detalhada da Festa de Educação Física em seu romance, publicado 1888, dá-nos uma ideia da dimensão espetacular, estética e mesmo erótica das apresentações de ginástica (Melo & Peres, 2013):

“Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio [...] No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) [...]Eu ia carregado, no impulso da multidão. [...] Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar [...]. Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. ‘Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da princesa.’ A princesa imperial, Regente nessa época [...] Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável. [...] Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; segunda, as maças; terceira, as barras. Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais. Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor. Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correção suprema. [...] Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade. O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava (Pompéia, 1991; grifos nossos).

Diante desse cenário, em que as exibições de ginástica estavam presentes em diversos espaços sociais da cidade, não nos parece precipitado defender que a dimensão espetáculo da ginástica se constituiu, ao longo do Império, em uma linguagem específica, cuja força simbólica era capaz convergir determinados valores, estruturas narrativas e experiências estéticas. Por certo, cada um desses espaços e instituições possuía especificidades que dialogava e, ao mesmo tempo, constituía tal linguagem. Mas isso fica para um próximo post.


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Na prática talvez não houvesse uma delimitação muito clara entre tais modalidades, sendo que uma designação ou os sentidos associados a ela não excluíssem uma outra modalidade.

[iii] Ver exemplos nos periódicos Correio Mercantil (05/12/1859), Diário do Rio de Janeiro (18/09/1860), Gazeta.de.Noticias (28/10/1881) e  Diário do Rio de Janeiro (14/12/1873).

[iv] Gazeta de Noticias (11 e 12/06/1880 e 14/06/1880)

[v] Gazeta da Tarde (16/08/1880).


Colonialismo, feminismo e vida esportiva

28/04/2013

por Sílvio Marcus de Souza Correa (UFSC)

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Durante o colonialismo houve a introdução de uma série de práticas esportivas na África. No caso dos territórios sob domínio colonial alemão, alguns esportes foram praticados também por mulheres. Vale lembrar que uma das particularidades do colonialismo alemão foi um projeto de emigração de mulheres brancas para a África com o firme propósito de fazer valer uma política racial em defesa da “germanidade” (WILDENTHAL, 2001; DIETRICH, 2007). Para e realização de tal projeto foi de supina importância a Liga Feminina (Frauenbund) da Sociedade Alemã de Colonização (Deutsche Kolonial Gesellschaft).

Das quatro colônias alemãs na África, a do sudoeste africano (atual Namíbia) foi aquela com maior presença de alemães e, por conseguinte, a colônia com maior número de modalidades esportivas. Em 1912, a população branca no sudoeste africano era em torno de 15.000 pessoas (WESSELING, 2005:364). A maioria era de origem alemã. Esse número representava, no entanto, quase 3 vezes mais o número de brancos na África Oriental Alemã (atual Tanzânia).

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Mulheres em exercício de tiro ao alvo. National Archive of Namibia (Windhoek) PhotoNr.02535

Mulheres em exercício de tiro ao alvo. National Archive of Namibia (Windhoek) PhotoNr.02535

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Na Alemanha do final do século XIX, mulheres praticavam também remo, ciclismo, ginástica e outras modalidades de atletismo. Mas o solo arenoso e pedregoso da Namíbia não favoreceu o ciclismo, assim como os seus rios – que não têm água corrente todo o ano – impediam a prática regular de esportes aquáticos. Outras modalidades careciam de equipamentos e algumas delas eram realizadas de forma esporádica, mas o calendário de torneios e apresentações das sociedades esportivas favoreceu o treinamento, a regularidade dos exercícios e, por conseguinte, a difusão de alguns esportes.

Sociedade de tiro, sociedade de ginástica, sociedade de corridas de cavalo, clube de tênis e ainda outras organizações esportivas foram sendo criadas nas colônias alemãs da África e, em todas elas, as mulheres alemãs fizeram parte da assistência dos eventos esportivos como também participaram ativamente de alguns deles.

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Tenistas em Windhoek (Namíbia) Koloniales Bildarchiv der Stadt- und Universitätsbibliothek Frankfurt a.M Photo Nr. 080-2996-115; ilustração de uma tenista do Clube de Tênis da Baía de Lüdertiz (fundado em 1910) In XI Gau-, Turn- und Sportfest, Lüderitzbucht, 1939 (National Library of Namibia, Windhoek).

Tenistas em Windhoek (Namíbia) Koloniales Bildarchiv der Stadt- und Universitätsbibliothek Frankfurt a.M Photo Nr. 080-2996-115; ilustração de uma tenista do Clube de Tênis da Baía de Lüdertiz (fundado em 1910) In XI Gau-, Turn- und Sportfest, Lüderitzbucht, 1939 (National Library of Namibia, Windhoek).

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A ginástica foi uma das principais práticas esportivas durante o colonialismo alemão no sudoeste africano (CORREA, 2012a). Várias sociedades de ginástica (Turnvereine) foram fundadas ainda no final do século XIX em localidades como Swakopmund, Baía de Lüderitz e Windhoek, na Namíbia. Inicialmente, as sociedades de ginástica eram masculinas. Mas as mulheres passaram a fazer parte delas a partir da década de 1910. Essas sociedades organizavam torneios (masculinos e femininos) com regularidade. Mesmo depois que a Namíbia deixou de ser uma colônia alemã, as sociedades de ginástica continuaram a promover suas gincanas e torneios.

Tanto a orientação esportiva feminina durante o II Reich, quanto aquela que vigorou à época do III Reich, teve uma política do corpo influenciada pela disciplina militar e pelo racismo. As mulheres alemãs que foram para a África praticavam alguns esportes não apenas como uma forma de entretenimento, mas sobretudo como um treinamento militar com finalidades físicas e morais ajustadas à ideologia do germanismo.

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Torneio de ginástica na Baía de Lüderitz (Namíbia), 1939

Torneio de ginástica na Baía de Lüderitz (Namíbia), 1939

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Se o número de mulheres brancas era reduzido na África do início do século XX, sem dúvida, foi na colônia alemã do sudoeste africano onde houve o maior envolvimento delas com o incipiente campo esportivo. A cultura esportiva e o feminismo na Alemanha do II Reich, a participação de mulheres alemãs no projeto de imigração e a fundação de sociedades esportivas nas colônias favoreceram uma incipiente vida esportiva feminina na Namíbia sob domínio colonial alemão, provavelmente, mais do que em qualquer outra parte da África antes de 1914. Cabe a ressalva que mulheres negras estavam excluídas de qualquer prática esportiva nas colônias alemãs da África.

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Liga feminina, escola colonial e esporte

28/04/2013

por Ana Carolina Schveitzer (bolsista PIBIC/CNPq)

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A Liga Feminina (Frauenbund) da Sociedade Alemã de Colonização (Deutsche Kolonial Gesellschaft) teve um papel importante na promoção da imigração de mulheres brancas para as colônias alemãs no continente africano (BECHHAUS-GERST e LEUTNER, 2009). Criada em 1908 e com sede em Berlim, a Liga Feminina arrecadava fundos através de eventos, palestras e doações. Os recursos angariados eram utilizados para preparar as mulheres e para financiar suas viagens para as colônias alemãs na África.

O número de suas associadas era pouco mais de 4.000 entre 1908 e 1910, mas houve um aumento para 18.500 em 1914 (TODZI, 2008). Muitas mulheres alemãs, ainda que nunca tivessem ido para a África, se envolviam com a “questão da mulher nas colônias”, e faziam doações, assistiam as palestras da Liga Feminina, contribuíram e apoiaram o projeto colonial alemão.

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Fontes iconográficas: SCHMEIDT, Wilhelm R.; WOLCKE-RENK, Irmtraud. Deutsch-Südwets-Afrika: Fotos aus der Kolonialzeit 1884-1918, pp.112-113 (Fotografia 1 e 3): Condessa Schenk von Staufenberg no salto sobre obstáculo de um hipódromo em Berlim, in: Revista Sport im Bild. nr. 16. 1913

Fontes iconográficas: SCHMEIDT, Wilhelm R.; WOLCKE-RENK, Irmtraud. Deutsch-Südwets-Afrika: Fotos aus der Kolonialzeit 1884-1918, pp.112-113 (Fotografia 1 e 3): Condessa Schenk von Staufenberg no salto sobre obstáculo de um hipódromo em Berlim, in: Revista Sport im Bild. nr. 16. 1913

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A vida esportiva feminina nas colônias não se reduzia somente a prática de algum esporte, mas também fazia parte dela a participação em eventos esportivos. Tanto na tribuna durante uma apresentação esportiva quanto no salão nobre dos hotéis – nos quais ocorriam premiações e bailes organizados por uma ou outra sociedade esportiva – a presença feminina era imprescindível para as sociabilidades em torno do campo esportivo na África sob domínio colonial alemão (CORREA 2012b).

Na Alemanha do II Reich, havia uma Escola Colonial em Wietzenhausen e outra em Weilbach, onde as candidatas recebiam uma formação para sua adaptação à vida na África. Para isso, além de técnicas agrícolas e domésticas, ensinava-se noções de higiene tropical e de outros cuidados com o corpo, inclusive por meio da ginástica e de outras práticas esportivas.

Na Alemanha, foi aberta ainda a Escola Colonial de Rendsburg durante a República de Weimar e cujas atividades se prolongaram no período do III Reich. As jovens e mulheres recebiam aulas de ginástica, além de outras práticas esportivas e de lazer. Elas aprendiam também a cavalgar e a atirar. Elas recebiam uma formação de “mulher-soldado”.

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Prática de atletismo, tiro e equitação na Escola colonial de Rendsburg no período entre-guerras. Koloniales Bildarchiv der Stadt- und Universitätsbibliothek Frankfurt a.M

Prática de atletismo, tiro e equitação na Escola colonial de Rendsburg no período entre-guerras.
Koloniales Bildarchiv der Stadt- und Universitätsbibliothek Frankfurt a.M

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Referências:

BECHHAUS-GERST, M.; LEUTNER, Mechthild (Hg.) Frauen in den deutschen Kolonien, Berlin: CH Links Verlag, 2009.

CORREA, Sílvio M. de S. Colonialismo, Germanismo e Sociedade de Ginástica no Sudoeste Africano. Recorde: Revista de História do Esporte.v. 5, n. 2, julho-dezembro de 2012 (a).

CORREA, Sílvio M. de S. Sociabilidades numa pequena cidade portuária do sudoeste africano (1884-1914). Revista Urbana (Dossiê Cidades e Sociabilidades), Unicamp, v.4, n.5, 2012 (b).

CORREA, Sílvio M. de S. As corridas de cavalos no sudoeste africano sob domínio colonial alemão (1884-1914). Trabalho apresentado no II Conferência internacional sobre desporto e lazer  no continente africano: práticas e identidades. Lisboa, 2012 (c).

 DIETRICH, Anette. Weiße Weiblichkeiten: Konstruktionen von „Rasse“ und Geschlecht im deutschen Kolonialismus. Bielefeld: Transcript Verlag, 2007.

SCHMEIDT, Wilhelm R.; WOLCKE-RENK, Irmtraud. Deutsch-Südwets-Afrika: Fotos aus der Kolonialzeit 1884-1918.

TODZI, Kim Sebastian. Rassifizierte Weiblichkeit. Der „Frauenbund der deutschen Kolonialgesellschaft“ zwischen weiblicher Emanzipation und rassistischer Unterdrückung, Universität Hamburg, 2008.

WESSELING, Henri. Les empires coloniaux européens 1815-1819, Paris: Gallimard, 2004.

 WILDENTHAL, Lora. German women for empire (1884-1945), Durham: Duke University Press, 2001.


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