Modernidade e esporte em Salvador

08/02/2010

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

          Na Bahia as ações iniciais de remodelação urbana e de reconfiguração dos comportamentos de seus habitantes, exigências da modernidade, aconteceram mais fortemente no primeiro governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916).

          Neste período os moradores de Salvador conviviam com carências em vários setores da vida pública, com a cidade presa a uma lógica econômica que se não impedia, limitava um maior crescimento e um “progresso”, vivendo fora dos padrões propalados pela modernidade. Por isso, a elite soteropolitana exigia mudanças, num apelo por algo que fizesse a cidade diferente, livre dos vícios “envelhecidos” e livre da “miséria”.

          O que existiu em Salvador foi à tentativa de instalação de um projeto de modernidade, tal como ocorrera no Rio de Janeiro, um projeto que atuaria na reforma urbana da cidade, mas que também mudaria os hábitos e modos de vida da população, alterando assim o cenário da cidade e o cotidiano de seus moradores. Salvador buscava modernizar-se, por sentir-se presa ao seu passado colonial, uma cidade que ainda se via como “atrasada”. Para tal, Salvador teve de conviver com dificuldades que em muito limitavam qualquer aspiração, já que não possuía recursos em seus cofres para tocar o projeto, fazendo isto com que a reforma urbana fosse numa menor escala do que se esperava, frustrando suas elites.

          Em Salvador a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Neste ponto, vemos um dos conflitos deste ideal de modernidade, já que para a construção destas novas cidades, muito do que existia fora colocado abaixo, provocando resistências. Se ruas, avenidas, praças e edifícios foram construídos, outros espaços tradicionais foram derrubados e mais, se uma nova cultura afrancesada era incorporada pela elite, práticas culturais populares foram relegadas, negadas. Todavia, esta ação modernizadora que por vezes mais parecia à ação de um rolo compressor, não fez apagar as marcas já fincadas em solo baiano, marcas estas que estavam colocadas na população que resistira a este processo ou ao menos tentara isto, marcas que ficaram nas limitações deste civilizar-se das cidades, muito por conta das próprias limitações do projeto político. Desta forma, se por um lado crescia uma cidade com aspectos modernos, ricos, por outro não deixava de existir uma pobre, popular.

          Fundamental é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações da modernidade, já que é nela que se apoiam as perspectivas de mudanças do cotidiano das cidades, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir-se um novo povo, com uma nova cultura. Neste caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a alta e moderna cultura. O que se opera realmente é uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação do poder desta elite e as reformas urbanas advindas da modernidade são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava este princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que este mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites e também esta muita das vezes assume para si as práticas populares.

          Podemos compreender que a modernidade vivida em Salvador tentou exatamente descentrar seu povo, levando-o a incorporar o que se via como de mais “civilizado” para a época, exatamente a cultura europeia. Queria-se com isso alterar as identidades locais, construídas nas bases de um país que até então lidara com influências diversas, mesclando-as num contexto associado às especificidades de cada cidade, o que se queria era sobrepujar uma pela outra. Todavia, a modernidade “implantada” acabou sendo reconstruída numa leitura peculiar, acontecendo a partir das formas com que se efetivaram e de sua assimilação ou não pela população.

          É neste cenário e sob estas condições que em Salvador se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, já que este era um dos elementos desta que se mostrava como uma nova era, a modernidade, mas isto já foi visto em outros posts.


Um blogue para acompanhar: Goiabada

25/01/2010

Por Rafael Fortes

Ao longo de 2009, desenvolvi o hábito de frequentar alguns blogues. Ele surgiu na passagem de 2008 para 2009, quando, através do hilário Futepoca, conheci O Biscoito Fino e a Massa, do professor Idelber Avelar. Nos últimos dois ou três meses, infelizmente, pouco tenho podido acompanhar textos na internet – por meia dúzia de motivos que não cabe comentar. Entre os blogues preferidos, há tanto os que abordam temas variados quanto aqueles focados e específicos.

Sobre surfe, costumo ler o Goiabada. Nele, Julio Adler, jornalista e surfista, analisa as competições e compartilha ideias, conhecimento e descobertas – Adler cavuca informação como poucos – sobre filmes e música. Outros temas aparecem com parcimônia – por exemplo, o (bom) futebol, do qual o blogueiro é apreciador. Conheci o Goiabada por indicação do Claudio da Matta, que fez uma longa e excelente entrevista com Adler (vale a pena ler!) em 2005 e a publicou em seu Surfe Pensado.

Trata-se de um exemplo tão bacana quanto raro de vida inteligente e fora dos lugares-comuns no jornalismo sobre surfe. Na verdade, no jornalismo esportivo em geral, porque o ramerrame futebolístico, convenhamos, é de doer. O jornalista articula conhecimento enciclopédico de datas, nomes, baterias, campeonatos e resultados com uma análise que foge do óbvio e um texto que dá gosto de ler. Em vez de entregar tudo de mão beijada para o leitor, instiga a saber mais. E traz generosas doses de bom humor e de opiniões polêmicas e originais.

Diferentemente da maioria do material produzido por aí sobre os campeonatos, no Goiabada as implicações comerciais e políticas que permeiam as regras e o funcionamento dos campeonatos da ASP – problemas que alcançam vários esportes além do surfe – são levadas em consideração na análise. Por exemplo, ao discutir os critérios que fazem certas manobras serem mais valorizadas, argumenta que elas têm a ver não apenas com o espírito do tempo de uma determinada época, mas também com a nacionalidade, o idioma e os patrocinadores dos surfistas que as realizam.

Para ficar com dois exemplos entre os textos recentes, recomendo uma lida nestes, reproduzidos da coluna de Adler nas revistas  Surf Portugal e Hardcore: 1) “O diabo é o quase“, em que articula João Saldanha, moscas, seleção de 1982 e os dois primeiros colocados no WCT (Circuito Mundial de Surfe) de 2009; e 2) “Tropical, camarada“, em que a defesa da mestiçagem feita pelo grande Darcy Ribeiro serve como mote para esquadrinhar o desempenho histórico dos brazucas no WCT masculino. Ou seja, as duas últimas colunas republicadas no blogue partem de livros. Coisa fina: trata-se de João Saldanha e Darcy Ribeiro.

Fica, portanto, a dica: um blogue para ler, acompanhar e ter acesso a uma penca de informações – discos, músicas, filmes, entrevistas, campeonatos, vídeos, fotografias, análises, previsões, crônicas – que Adler fuça por aí e compartilha com os leitores. Uma janela para conhecer e entender o passado, o presente e, por que não, o futuro do esporte.


O GUARANY: UM PRADO POPULAR NO RIO DE JANEIRO DO SÉCULO XIX

18/01/2010

Por Victor Andrade de Melo

Sede social do Derby Club, Praça da Constituição

Houve um tempo em que  turfe era como hoje é o futebol; na verdade, até mais! Nos fins de semana, na década final do século XIX, a população do Rio de Janeiro invadia os hipódromos para acompanhar as corridas, ter alguns momentos de diversão, encontrar amigos, flertar e, fundamentalmente, apostar algum dinheiro nas patas dos cavalos. Era gente dos mais diferentes estratos econômicos e grupos sociais, alocados obviamente, em distintos espaços nas tribunas.

O turfe era uma atividade popular, mas somente se considerarmos o aspecto do consumo do espetáculo esportivo. Se as oportunidades de prática de esportes eram bastante limitadas até mesmo para as elites, ainda mais restritas eram as possibilidades para os indivíduos das camadas populares. Os mais “nobres” Jockey Club e Derby Club, ainda que aceitassem a presença do povo nas competições, sempre deixavam claro o seu lugar, criando muitas formas de garantir que se tratava de uma prática que concedia status e distinção aos mais abastados.

Contudo, chegaram a organizar-se agremiações mais populares de corridas de cavalos, como aquelas que realizavam suas atividades no prado da Vila Guarany, no bairro de São Cristóvão. Sobre esse espaço, afirma Cássio Costa (1961):

“as arquibancadas eram de madeira e sem cobertura e os animais que tomavam parte em sua carreira, em sua maioria, eram peludos ou já afastados das pistas do Jockey Club e do Prado Vila Isabel. Um pradozinho de 3a ordem”.

Seguindo o clube Prado Guarany, três outras sociedades de curta duração lá organizaram atividades: O Sport Club, o Hippódromo Fluminense e o Sport Fluminense. Essas agremiações contavam muitas vezes com a presença de bom público, devido aos preços mais baixos de entradas e de apostas, mas também porque se ajustavam mais ao gosto das camadas populares. Embora tivessem instalações menos luxuosas, cavalos “feios e de segunda categoria” e um programa muito confuso, muitas corridas animadas foram no Guarany realizadas.

Mais do que atrair os mais populares, não poucas vezes ali foram encontrados, até mesmo disfarçados e escondidos, indivíduos que pertenciam às elites ou por elas transitavam. Por exemplo, é sabido que se envolveram em confusões no Guarany o capitão de mar-e-guerra Eduardo Wandellok, depois almirante e Ministro da Marinha, e o dr. Bricio Filho, renomado jornalista. José do Patrocínio chegou a ser diretor do Hippódromo Fluminense.

Na verdade, esses clubes foram mesmo marcados pelas confusões. Como lembra Luiz Edmundo (1957):

“Qual velho não se lembrará, hoje, do famoso prado que se chamou Vila Guarany, cognominado Maxixe, que existiu para as bandas da Praia Formosa e do qual se pode dizer que, sendo o mais tribofeiro entre todos os de seu tempo, foi, ainda, o que mais sofreu a ação violenta e justa da massa popular, que vivia constantemente a depredá-lo?”.

Os “tribofes” eram comuns e fartamente divulgados pelos jornais, confusões das mais diferentes ordens: suborno de jóqueis, árbitros que ocasionalmente se equivocavam com os resultados (já que na época não havia muitos recursos eletrônicos); árbitros subornados que “fabricavam resultados”; alguns episódios descaradamente desonestos. Muitas vezes essas ocorrências eram seguidas de violência, depredação dos hipódromos, surra nos jóqueis e proprietários dos animais. Normalmente esses conflitos eram mais graves exatamente no Guarany, embora também fossem constantes nos clubes chics.

Encaro os “tribofes” como uma forma de participação ativa do público. Excluído da possibilidade de influenciar na direção do espetáculo, relegado ao pior lugar dos hipódromos, considerado mero coadjuvante, o público reagia da forma que era possível. Ao se sentir burlado, encerrava qualquer pretensão de “civilidade” e utilizava os recursos de que dispunha: destruía, simbólica e literalmente, a farsa montada.

Os clubes que funcionaram no Guarany vieram a falir em função de sua própria desonestidade e/ou desorganização, mas também muito em decorrência das restrições impostas pelos clubes “nobres” da cidade.  Seus nomes, por exemplo, não eram citados nos livros e periódicos. Nos jornais, suas atividades não conseguiam muito espaço; quando conseguiam, era de forma pejorativa. Quando algumas agremiações se uniram na chamada “Sociedades Solidárias”, o pessoal do prado da Vila Guarany não foi convidado.

Quando o Sport Fluminense resolveu organizar páreos nas quintas-feiras, para fugir da concorrência, os clubes chics resolveram tomar medidas mais diretas. Começaram a proibir cavalos de correr naqueles espaços e até tentaram impedir a frequência dupla: quem fosse visto na Vila Guarany teria proibida sua entrada nos outros hipódromos. O Diário de Notícias, de 16 de outubro de 1886, noticia tal decisão:

 

“UM PRADO EM ESTADO DE SÍTIO – reuniram-se anteontem na secretaria do Jockey Club, os diretores dos Prados Vila Isabel, Derby Club e Jockey Club resolveram que fossem proibidos de correr nos seus prados os jóqueis e animais que corressem no Sport Fluminense, dando como motivo desta resolução não ser o Sport Fluminense uma sociedade constituída debaixo das condições necessárias”.

 

O Sport Fluminense a princípio não se incomodou com tais imposições e sequer dava atenção para a imprensa, que não divulgava suas atividades. Seu perfil, seus intuitos e seu público alvo eram outros. Contudo, com o tempo viu as ações dos outros clubes obterem resultados, reduzindo-se rapidamente o seu número de inscrições e de público, até que definitivamente extinguiu-se; mesmo porque, ao contrário das outras agremiações, não podia contar com as benesses das autoridades governamentais.

Os desenhos das pistas de 4 hipódromos da cidade (o do Prado Guarany não foi incluído na publicação)

Não se pode sequer considerar que os clubes do Prado Guarany chegaram a ser grandes rivais no aspecto financeiro. Em 1887, enquanto o Jockey Club vendeu 114.824 poules e lucrou 2:499$400 e o Derby Club vendeu 297.224 e lucrou 6:778$900, o Hippodromo Fluminense e o Sport Fluminense (criados e extintos no decorrer do referido ano), somados, venderam 21.085 poules e lucraram 524$700.

Os clubes “nobres”, na verdade, vislumbravam o que poderiam perder se essas agremiações mais populares aumentassem sua popularidade e/ou modificassem o sentido da prática do turfe na cidade. Tratava-se de uma estratégia de seleção e controle, de garantia de manutenção dos sentidos originais concebidos para o esporte, ligados aos interesses dos mais poderosos.

 Trata-se, de fato, de uma tensão que marca desde os primórdios a constituição do campo esportivo.


Os Mega Eventos Esportivos como Palco de Afirmação Nacional, ou Considerações Após o Ataque em Cabinda

11/01/2010

A Copa Africana de Nações (CAN) se iniciou oficialmente ontem, dia 10/01/10, com o empate entre Angola e Mali. No entanto o torneio teve seu verdadeiro início no dia 08, sexta-feira passada, com o ataque do braço armado do grupo separatista FLEC (Frente de Libertação do Estado de Cabinda) à delegação do Togo, resultando na morte do motorista angolano, de um auxiliar-técnico e do assessor de imprensa togoleses.

Separado do resto do país pela República Democrática do Congo, Cabinda é um enclave angolano que desde a independência de Angola luta por sua separação. Cabinda surgiu após a Conferência de Berlim, em 1885, que dividiu o continente africano entre as nações colonizadoras européias. Após a Conferência, a região do Congo foi dividida em 3, a saber: o Congo Belga (ex-Zaire e atual República Democrática do Congo), o Congo Francês (atual República do Congo) e o Congo Português, atual Cabinda. Em 1956, Portugal decide anexar Cabinda à administração do governador-geral de Angola, visando otimizar suas despesas com o império ultramar. Não é de se admirar, então, que logo após a independência de Angola, em 11 de novembro de 1975, os movimentos pela independência de Cabinda, então unidos sob o FLEC, exigem sua independência de Angola, alegando uma independência histórica de Angola. Outro fator fundamental a ser levado em consideração é a grande riqueza do enclave, responsável por aproximadamente 80% do petróleo produzido em Angola, segundo maior produtor de petróleo do continente africano.

No sentido de estabilizar seu domínio sobre o território e demonstrar à comunidade internacional que a região está sob controle, Angola decidiu fazer de seu maior município, também chamado Cabinda, uma das sedes da CAN, juntamente com Luanda, Benguela e Lubango. Para manter a segurança das seleções do Grupo B (Costa do Marfim, Burkina Faso, Gana e Togo), o governo angolano montou um forte esquema de segurança, que não foi seguido pela delegação togolesa.

A grande aposta de Angola ao se candidatar e investir enormes somas para sediar o torneio continental vai ao encontro de um movimento de afirmação nacional de grande poder simbólico, movimento que teve início no Brasil com a organização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, no Rio. Sediar um mega evento esportivo certamente envolve muito mais do que “organizar uma bela festa”. Em especial entre países em desenvolvimento, a organização de tais mega eventos é na realidade um meio de afirmação simbólica dos países sede junto à comunidade internacional. Afirmação de que são economicamente fortes, capazes de arrecadar as somas necessárias, capazes de atender as rigorosas exigências das Instituições Internacionais que organizam o evento (seja essa a FIFA, o COI ou mesmo a CAF), e também de que são politicamente estáveis, elemento que o governo angolano procurava afirmar ao estabelecer Cabinda como sede.

Como José Eduardo dos Santos, atual presidente de Angola, destacou, organizar tal evento “traduz o prestígio que o país tem vindo a conquistar no concerto das nações”, e é na verdade um grande desafio para o país sede, uma vez que é também um palco de destaque para os mais distintos movimentos contestatórios, como em Munique. Com o incidente em Cabinda, a realização da Copa Africana de Nações em Angola pode não ter o efeito desejado. No entanto, caso a seleção angolana se sagre campeã, o incidente pode se tornar apenas um pequeno contratempo, se comparado aos louros do título.

Novos ataques podem ocorrer, uma vez que grupos armados da FLEC mantém a ameaça sobre as delegações sediadas no enclave. Mas acredito que não veremos novos incidentes. As forças militares angolanas, que já tinham o controle sobre a cidade de Cabinda, estarão ainda mais reforçadas e atentas, e com certeza nenhuma outra delegação irá retornar pela estrada que atravessa a floresta, onde o ataque aos togoleses aconteceu. Agora só nos resta torcer, dentro das quatro linhas, é claro.


Retrospectiva sob outra perspectiva – Registros futebolísticos peculiares em 2009

04/01/2010
Com o findar de mais um ano diversos artigos jornalísticos, programas televisivos, mensagens de e-mails e até conversas de botequim versam sobre uma pseudo-retrospectiva dos principais acontecimentos daquele ciclo que se encerra. No âmbito esportivo, isto fica muito claro, principalmente nos veículos e canais especializados como o Jornal o Lance, e as emissoras de tv a cabo SPORTV e ESPN. Neste último mês me recordo por exemplo de um especial com 180 gols internacionais, fato que apesar de toda a minha paixão pelo futebol me deixou cansado.
Poderia seguir o óbvio e relatar nesta página os melhores momentos de partidas como a final da Copa das Confederações na África do Sul vencidas pelo Brasil sobre os Estados Unidos, a partida final do brasileirão na qual o Flamengo derrotou dramaticamente o Grêmio, sagrando-se hexacampeão brasileiro, ou a final do Mundial Interclubes vencido pelo Barcelona com gol de peito do argentino bola de ouro da FIFA Lionel Messi na prorrogação sobre o Estudiantes de la Plata do craque Verón, porém acredito que muitos amantes da bola já estejam também enfadados e devidamente informados sobre esses “jogos para sempre”.
Isto posto, pretendo nessas linhas registrar visões pitorescas do futebol que presenciei em viagens ao longo de 2009, momentos únicos de amor pelo esporte mais popular do mundo no Chile, Brasil e Argentina, onde o prazer de estar com uma bola estava acima do prestígio de ser campeão, da motivação econômica ou da busca de uma vaga para uma Copa do Mundo.
Futbolito na Ilha de Páscoa. Isolada no Oceano Pacífico, a 3.720 km do Chile e 4.025 do Tahiti está localizada este pequeno paraíso que desde 9 de setembro de 1888 foi incorporado politicamente ao Chile apesar da sua cultura milenar Rapa Nui e da nítida influência polinésia nos seus habitantes.
Ilha vulcânica de impressionantes moais (enormes esculturas de pedras), do mito do Homem Pássaro, de ótimas ondas, da festa cultural do Tapati com um povo bronzeado e hospitaleiro que sobrevive atualmente da pesca, artesanato e turismo, o futebol também está presente nos domingos em um campo esburacado no centro da vila defronte a Praia de Hanga Roa.
No mês de Janeiro, quando visitei a ilha estava sendo disputado um torneio de Futbolito, como o soçaite brasileiro com 6 na linha e um goleiro. Várias partidas de 20 minutos são realizadas no campão, desde às 14:00 até o entardecer, pois o mesmo é dividido em dois com balizas no meio. Muitos jovens e turistas assistem as disputas e no final do dia rola um grande peladão onde todos podem participar. O torneio dura 4 semanas e a final ocorre junto com o Tapati, que é um evento cultural que mobiliza toda a ilha.
É curioso que no ano de 2009 ocorreu a primeira partida oficial na ilha. Pela Copa do Chile o tradicional Colo-Colo venceu um selecionado de nativos por 4×0, constituindo assim, apesar da goleada sofrida, em um marco histórico para o futebol rapa nui.
Fortaleza em julho. Pesquisadores do esporte brigam com a bola nas areias da Praia de Iracema. Após uma frutífera semana de debates e discussões no Simpósio Temático de História do Esporte na ANPUH/NACIONAL realizada na capital cerarense uma pelada na praia de “eternos” 20 minutos encerra as atividades. Alguns dos integrantes deste blog como Maurício Drumond, Ricardo Bull, Luiz Carlos Santana, Rafael Fortes e Leonardo Bahiense, além do cronista que vos escreve suaram bastante para empatar em 1 a 1 com o combinado do Paraná/São Paulo

Pesquisadores/atletas

capitaneado por Miguel Archanjo, José Carlos Mosko e o arqueiro André Capraro, além do reforço carioca ilustre de Antônio Jorge Soares pela ponta. Os técnicos Victor Melo e Luiz Carlos Ribeiro coordenaram suas respectivas equipes e ficaram satisfeitos com o diplomático placar apesar da baixa qualidade técnica da peleja. Mais um “jogo par sempre” se lembrar e rir bastante.
Fim do Mundo. Na Terra del Fuego, cidade de Ushuaia, canal de Beagle, antiga colônia penal e importante porto de saída para a Antártida, presenciei em outubro a realização de um torneio abrasador, a Copa da Patagônia argentina. Fui informado no campo que o campeão se classifica para Série C do Campeonato Argentino pelo técnico de uma das principais equipes da região,os “Cuervos del Sur”, cujo uniforme é igual ao do San Lorenzo de Almagro.
Temperatura em torno de dois graus com muito vento. Estava retornando de uma visita ao Parque Nacional da Terra del Fuego onde tinha nevado bastante, quando avistei um campo e “locos por fútbol” em torno dele. Maluco também, desci do ônibus do passeio que estava com minha esposa e acompanhei o primeiro tempo da equipe dos funcionários do Município de Ushuaia que vestia o uniforme argentino contra o time Arturo Pont formado por chilenos que vivem na região. A beleza da localização do campo a beira da Bahia de Ushuaia cercada por montanhas nevadas como o Glaciar Martial, o Cerro Godoy e o Cerro Roy é indescritível,  talvez a imagem de uma jogada registre palidamente  o momento.

Fut-tênis no Perito Moreno. Ainda pela Patagônia Argentina em uma excursão a geleira Perito Moreno, a partir da cidade de El Calafate presenciei e joguei fut-tênis com os guias locais.
Após uma caminhada na geleira com um grupo de turistas em um lugar incrível percebi que uma das principais formas de lazer dos guias era disputar em uma pequena área um jogo de controle de bola com os pés misturando regras do tênis com o vôlei. No momento que os turistas estão lanchando ou enquanto não chega um novo grupo a "Fut-tênis em Perito Morenoprincipal diversão para muitos dos guias são essas acirradas disputas de mais um jogo onde o amor a bola é o que predomina.
Assim sendo, enquanto a bola rolava nos estaduais, nas eliminatórias para a Copa do Mundo da África do Sul, na Libertadores, no Brasileirão, Champions League e tantos outros torneios nacionais e internacionais é importante lembrar que ela também corre nas peladas de praia entre amigos, nos confins da Patagônia e até na distante e isolada Ilha de Páscoa. Com certeza a pelota está em todo o Mercosul e em vários locais inóspitos de todo o planeta.

O fim das touradas?

19/12/2009

por Victor Andrade de Melo

Em outro post, exatamente aquele que deu início a nosso blog (http://historiadoesporte.wordpress.com/2009/05/), já tínhamos falado algo sobre as touradas, especificamente sobre as que ocorriam no Rio de Janeiro do século XIX.

Tratar o tema, na sua relação com a história do esporte, trata-se de um esforço de captar as peculiaridades de uma prática anterior à configuração moderna do fenômeno esportivo, que com esse em determinado momento dividiu a construção de sentidos e significados (no início do século XIX), que foi perseguida por não se adequar às novas dimensões simbólicas da modernidade, mas que ainda assim permaneceu dada a sua inserção profunda em algumas culturas, como se pode perceber em algumas regiões de Portugal e Espanha.

Não surpreende, assim, que as corridas de touro tenham sido uma temática constante na obra de muitos artistas espanhóis, em muitos momentos distintos (tais como Francisco Goya, Salvador Dali e destacadamente Picasso, um dos grandes nomes da arte moderna), e mesmo de artistas de outros países, como o francês Edouard Manet.

Pois bem, ontem (18 de dezembro de 2009), naquele país que é mais comumente mais identificado com a prática, a Espanha, um passo foi dado para a proibição das touradas. O Parlamento da Catalunha acatou um abaixo-assinado de 180 mil assinaturas, liderado pelo movimento “Plataforma Prou!” (http://www.prou.cat/castellano/index.php), e por apenas 8 votos decidiu transformar o pedido de proibição em um projeto de lei que terá que ser discutido no ano de 2010.

O “Prou” (Basta!, em catalão) é uma iniciativa legislativa popular apoiada por muitos cidadãos da Catalunha, mas também muito contestada, inclusive por espanhóis de outras regiões autônomas, especialmente daquelas mais ligadas a ideia de uma Espanha unida.

A princípio, parece difícil que esse movimento tenha sucesso por toda a Espanha. É verdade que, lembremos, a tradicional caça às raposas foi também extinta na Inglaterra. Mas por lá essa estava relacionada aos costumes de um pequeno, ainda que poderoso, estrato populacional. As touradas estão profundamente enraizadas em algumas regiões espanholas (e portuguesas).

De qualquer forma, é de se destacar essas ações coletivas que estabelecem tensões ao redor da prática. Além disso, por todo o país há outros movimentos, como o “Gallicia mellor sen touradas” (http://www.galiciamellorsentouradas.org/).

De outro lado, não são poucos os que são a favor, embora não se posicionem tão claramente, e seguem sendo muitos os festivais de touros espalhados por todo o país. Os embates ao redor da questão são incríveis: tradição versus modernidade, identidades nacionais versus identidades locais, a lógica do espetáculo versus a manutenção de um conjunto de valores.

 De qualquer forma, para nós historiadores do esporte, uma questão merece destaque: é interessante ver uma vez mais como os objetos que nos dizem respeito em diferentes níveis dramatizam as múltiplas tensões de uma certo quadro social.


PAPO FINAL: FUTEBOL E LITERATURA NA ABI

16/12/2009

Texto e fotos por: Edônio Alves

A relação entre o futebol e a literatura foi o tema que encerrou, ontem (15/12), os debates da edição deste ano do projeto “Futebol-arte: a arte do futebol”, que acontece toda primeira terça-feira de cada mês na Associação Brasileira de Imprensa-ABI, na rua Araújo Porto Alegre, 71, centro do Rio de Janeiro, sempre às 19h30min.

      Desta vez, a conversa, animada e descontraída – com a participação do público – , reuniu o jornalista Ruy Castro, consagrado autor da biografia do jogador Garrincha, o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro-UERJ, Victor Hugo Adler e a mediação dinâmica do jornalista Marcelo Barreto, que apresenta o programa “Redação SPORTV” do canal especializado em esportes das Organizações Globo.

       A idéia geral do evento da ABI, que também recebe o apoio de outras instituições ligadas ao esporte em geral, e ao futebol em particular, a exemplo do canal SporTV, do site livrosdefutebol.com, do Grupo de Literatura e Memória do Futebol- MemoFut e do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer da UFRJ, é promover uma série de debates com a participação do público sobre o futebol e alguns domínios conexos tais como o Jornalismo (tema do primeiro encontro), o Samba, o Rádio, o Cinema, as Artes Plásticas, a História, a Dança e a Literatura.

       Na edição deste ano, vários nomes ligados ao futebol participaram das discussões, a exemplo de figuras conhecidas como os jornalistas Renato Maurício Prado, Eraldo Leite, Guilherme Roseguini, Vanessa Riche, Luiz Mendes, Álvaro de Oliveira Filho, Marina Araújo e Marcelo Barreto, o mediador de ontem. Representando a academia, nomes como os dos professores Maurício Murad, Celso Branco, Victor de Andrade Melo e Ronaldo Helal, além do cineasta José Carlos Asbeg (diretor do filme “1958: o ano em que o mundo descobriu o Brasil”) e o sambista Walter Alfaiate. Ver outras edições aqui.

                                                                                                     

      Na sua intervenção, o jornalista Ruy Castro explicou ao público as motivações pessoais e o processo através do qual construiu uma das mais detalhadas e bem escritas biografias sobre um jogador de futebol já produzidas no mundo. Detalhou a metodologia própria de pesquisa que adotou para a confecção do livro e o percurso um tanto difícil que a obra seguiu no mercado editorial brasileiro. Deu ainda suas opiniões sobre como o futebol pode ser apropriado pela literatura e outras formas de arte. É partidário da idéia de que o futebol é irredutível e impermeável à literatura de ficção, tema um tanto controverso.

 

 

    

      Já o professor da UERJ, Victor Hugo Adler, esmiuçou, com exemplos, as possíveis maneiras como os elementos constituintes e estruturais do futebol – sendo o homem e sua condição a centralidade do processo – podem render boa literatura (de ficção ou não)  e, portanto, uma continuidade do “jogo”  através da fruição da leitura. Ao final dos debates e em clima de confraternização natalina, os organizadores do evento sortearam livros de presente à platéia. Fica, agora, o convite à edição do projeto no ano que vem já que os organizadores do evento na ABI prometem boas novidades.


Os clubes esportivos de Belo Horizonte – parte 2

14/12/2009

Por André Schetino

Diversão longe da praia

Finalizamos hoje nossa conversa sobre os clubes esportivos de Belo Horizonte, tratando de outras importantes agremiações. Se vimos o nascimento e domínio do Minas Tênis Clube no cenário esportivo da cidade, devemos também destacar um momento onde os clubes esportivos e de lazer experimentaram seus anos dourados. A partir dos anos iniciais da década de 1940 vimos surgir e multiplicar inúmeras associações esportivas e recreativas ligadas a diversas entidades. Grupos de empresários, empresas públicas e privadas inauguraram suas sedes sociais na capital.
Em 1940 surge o Olympico Club, o segundo clube social de Belo Horizonte, com a criação de sua primeira quadra na casa da família Magalhães Pinto, cujo governador do estado também deu nome ao estádio do Mineirão, em 1965. Dois anos mais tarde, o Iate Clube Belo Horizonte, obra que integrou o complexo da Pampulha, de Oscar Niemeyer. O clube se destaca pela cultura dos esportes náuticos na cidade, que se constituíam como símbolo da modernidade e do status da elite mineira.

Praticante de esqui aquático na Lagoa da Pampulha (ano desconhecido). Fonte: http://www.iatebh.com.br/

Pouco mais tarde, o Barroca Tenis Clube, de 1957, é mais um clube que participa da consolidação da cultura esportiva de Belo Horizonte. Esses clubes também participaram do cenário esportivo da cidade, especialmente através do esporte amador, como o  basquete, o voleibol, o tênis, a natação e o futsal. Mas destaco aqui outro aspecto. Os clubes foram um lugar privilegiado para vivência do lazer. Os clubes realizavam – e ainda realizam – bailes de carnaval, colônias de férias, gincanas, torneios, serestas, atividades que proporcionam o encontro e a convivência entre seus associados. Em Belo Horizonte, esses eventos e a vida nos clubes eram potencializados em uma cidade que não possui um grande espaço público de convívio como a praia. Durante o ano com frequência regular nas atividades promovidas, e especialmente no verão, os clubes da cidade ficam superlotados de pessoas buscando diversão.

Sede do Barroca Tênis Clube (ano desconhecido). Fonte: http://www.barrocanet.com/site/institucional-2/

Piscinas lotadas no Pampulha Iate Clube (ano desconhecido). Fonte: http://www.iatebh.com.br/

Predomina hoje em dia a percepção de que os clubes têm perdido frequentadores e passado por dificuldades em sua sobrevivência, devido as modificações noe stilo de vida nas cidades e dificuldades financeiras. A despeito disso, clubes como o Olympico, o Iate, o Barroca e muitos outros sobrevivem como espaços legítimos de lazer para os belo horizontinos.

Contato: andreschetino@pop.com.br


No ar, novo número da Recorde

13/12/2009

Está no ar a edição de dezembro de 2009 da Recorde: Revista de História do Esporte, publicação do Sport, grupo de pesquisa do pessoal aqui do blogue. Na capa, uma charge bem bacana mostrando Amílcar Cabral, um dos líderes da luta anticolonialista nos países africanos de língua portuguesa. O que ele tem a ver com o esporte? Clica lá e dá uma olhada!


Nas montanhas dos talibãs

07/12/2009

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

Por volta do dia 31 de julho desse ano, três montanhistas desapareceram ao realizarem caminhadas no Curdistão, região localizada na intercessão dos territórios da Turquia, do Iraque, do Irão, da Síria, da Armênia e do Azerbeijão! Recentemente o episódio veio a público através de relativa difusão nos meios de comunicação brasileiros.

A prática do montanhismo expõe seus praticantes a certos níveis de risco, que tentam ser minimizados o mais possível. Acidentes, porém, sempre podem acontecer. Nesse caso, entretanto, o desaparecimento dos montanhistas, que foi assunto nos noticiários, não se tratou exatamente de acidente. No início de agosto, o governo dos Estados Unidos, que desde 1979 não tem relações diplomáticas com o Irã, fora informado através da embaixada da Suíça em Teerã, que três norte-americanos haviam sido detidos por soldados iranianos depois de atravessarem sem autorização a fronteira do país. O casal Shane Bauer e Sarah Shourd, que há pouco mais de um ano viviam em Damasco, na Síria, resolveram ir com o ex-colega de faculdade Joshua Fattal para um despretensioso passeio de fim de semana pelas montanhas do Iraque. Ao que parece, os desavisados esportistas cruzaram por engano as mal demarcadas fronteiras entre Irã, Iraque e Curdistão, quando então foram presos para averiguações. De acordo com recente declaração do vice-ministro do exterior iraniano, Ali Reza Salari, a prisão é para investigar o “motivo verdadeiro” da entrada dos montanhistas no país.

Não é preciso perspicácia para perceber que o lugar por onde caminhavam os montanhistas é pouco recomendado à passeios. Mesmo assim, turistas têm curiosamente insistido na visita à lugares desse tipo. O bom senso parece às vezes sucumbir ao desejo de apreciar paisagens espetaculares. Existem, inclusive, agências de turismo especializadas na organização de viagens esportivas dessa natureza, com destaque à destinos em zona de conflito. A Great Game Travel, por exemplo, tem como carro chefe o oferecimento de pacotes turísticos ao Afeganistão, cujo ponto alto é o treking pelas belas montanhas do vale do Bamiyan, mountain bike ao redor dos lagos de Band-i-Amirno, ou quem sabe uma estadia compulsória e por tempo indeterminado nas cavernas dos talibãs.

Montanhistas caminham por algum longínquo e perigoso ponto da Eurásia.

No Paquistão, com outras operadoras, a cordilheira do Karakoram é o que justifica a ânsia de aventurar-se num país que sofre com uma insistente instabilidade política. Sucessivas guerras com a Índia, disputas internas e nem mesmo a participação paquistanesa na guerra do Golgo ao lado da Arábia Saudita desanimam os intrépidos turistas. Suas nervosas máquinas fotográficas parecem simplesmente desconhecer o medo e o perigo.

No Nepal, a desconfortável posição geopolítica do páis, expremida entre a China e a Índia, tampouco a guerra civil entre as forças do governo e o Exército Popular de Libertação, tambem não desencorajam o ímpeto expedicionário dos montanhistas. Ao contrário, aliás, esportistas de toda parte visitam o país na esperança mesmo de poder encontrar e interagir com os rebeldes. Segundo a Associação de Agentes de Montanhismo do Nepal, na região de Khumbu, onde fica o monte Everest, é comum que turistas a caminho da montanha ofereçam dinheiro para apoiar a causa da insurreição popular, que de orientação maoísta e liderada pelo Partido Comunista do país, luta contra o regime monárquico e o expansionismo indiano. Talvez por isso as próprias lideranças maoístas já tenham declarado oficialmente que não pretendem fazer mal aos turistas. Montanhistas, por seu turno, se entusiasmam com o recibo atualmente oferecido pelos maoístas em favor dos donativos. O tal recibo, nas mãos dos turistas, se converte numa espécie de macabra recordação.

Agora, com a inevitável intimidade nas relações, guerrilheiros têm já deixado de lado o pudor. Ao invés de ficarem esperando a procura espontânea de viajantes mais destemidos, eles mesmos tomam a iniciativa do encontro. Pousam para fotos com suas beretas e Aks-47 em punho e pedem contribuições em dinheiro. Ninguém nunca negou.