A inserção da mulher no universo cultural do esporte

28/01/2012

por Silvana Goellner

A história das mulheres no universo cultural do esporte brasileiro é marcada por rupturas, persistências, transgressões, avanços e recuos. Desde meados do século XIX, elas se fazem presentes nas arenas esportivas como espectadoras e praticantes. No entanto, é a partir  das primeiras décadas do século XX que essa participação se  ampliou e consolidou.   

Com a independência do Brasil,  a chegada de imigrantes europeus e a propagação dos ideais  higienistas,  esse contexto gradativamente  começou a se alterar, em especial para as mulheres da elite, visto que  tinham maior acesso aos bens culturais, à escolarização  e às novidades advindas do  continente europeu, dentre as quais,  a  prática da ginástica e de algumas modalidades esportivas tais como o  turfe, o remo, a  natação, a esgrima, o  tênis, o arco e flecha e o  ciclismo.

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Ciclista, Porto Alegre, 1896. Fonte: Centro de Memória do Esporte - UFRGS

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Por certo que a presença de mulheres exercitando-se fisicamente  se traduzia como uma novidade nesse tempo,  pois sob a égide do romantismo na literatura, as imagens associadas às mulheres brasileiras eram imagens românticas. Mulheres lânguidas e gráceis, portadoras de gestualidades comedidas e delicadas, cuja educação estava voltada, prioritariamente,  para  o casamento e a maternidade. Essa imagem, mesmo que fosse bastante divulgada na literatura e em outros espaços sociais,  não perdurou por muito tempo. Os médicos, em especial, os higienistas, iniciaram a proclamar os benefícios que o exercício físico trazia para as mulheres proporcionando-lhes melhores condições orgânicas não só para  enfrentar a  maternidade mas, inclusive, para embelezá-las. A prática esportiva passou a ser identificada, também, como um espaço de exercício de sociabilidade,  cuja adesão colocava em evidência  atitudes e hábitos pertinentes a  um modo moderno e  civilizado de ser.

É necessário lembrar, ainda, que nos primeiros anos do século XX a população brasileira era composta, majoritariamente,  por  negros escravos ou descendentes. Essa composição étnica se tornou alvo de diferentes intervenções em nível nacional cujos objetivos estavam direcionados para o refinamento  da raça visto que os negros eram considerados como seres inferiores.  Baseados na teorização darwinista de que a atividade física atuava no robustecimento orgânico e, portanto, no aprimoramento da espécie, buscava-se  uma educação corporal   e esportiva que, pautada por um estatuto científico e ao mesmo tempo moral, estivesse articulada à medicina e às normas jurídicas fortalecendo a raça branca – ideal imaginário de um povo ameaçado pela mestiçagem.

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Partida de Tênis – Clube Atlético Paulistano, 1918. Fonte: Museu da Imagem e do Som.

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Médicos,  intelectuais, militares, dirigentes políticos, professores, instrutores de atividades físicas se integraram a esse projeto e, através da especificidade de sua intervenção no plano social e educacional, não pouparam esforços para consolidá-lo. Das várias ações desenvolvidas em prol deste fortalecimento,  destaca-se uma delas: o fortalecimento do corpo feminino, pois acreditava-se que  a regeneração físico-moral de uma população só se completaria se o aprimoramento físico também se estendesse à mulher, identificada então como  “a célula-mater da nação”.

Esse argumento figura no  primeiro livro escrito por um autor brasileiro sobre  educação física e  esporte para mulheres,  publicado no ano de 1930, no qual se lê:  

 Nunca será demasiado encarar a importância do esporte  para a mulher. Quanto mais nos aprofundarmos nos estudos tendentes a efetivar a eugenia da raça, nas pesquisas destinadas a solucionar os problemas relativos à saúde humana, a dar ao homem e à mulher o máximo de sua eficiência física para a vida, mais nos compenetramos da importância capital da Educação Física feminina. É mister que nos convençamos da verdade irrefutável desse dogma – a mulher precisa de esporte! Precisamos identificar a mulher com a prática racional dos exercícios físicos, educá-la para uma compreensão elevada dessa forma salutar de atividade que, tanto contribui para a conservação de sua saúde e de sua beleza, para a manutenção de sua mocidade e de sua eficiência (RANGEL SOBRINHO, 1930, p. 21).

 Nesse contexto a imagem da  mulher maternal, bela e feminina  revela um desejo produzido e expresso pelo imaginário social de um país que identificava na mulher um elemento  importante para a sua modernização.  Juventude, beleza, ousadia, disposição, saúde,  perseverança, dedicação, prudência, representavam virtudes possíveis de serem conquistadas diante  a participação das mulheres em diferentes espaços sociais, dentre eles, aqueles nos quais se realizavam as atividades físicas e esportivas.

Essa “nova mulher”  ao mesmo tempo que mostrava-se como uma figura inovadora era, também, observada como alguém que desestabilizava a representação da mulher romântica voltada para a família,  o recato e a honra. A prática esportiva, o cuidado com a aparência, a mudança de atitude, o desnudamento do corpo, o uso de artifícios estéticos, conferiam a essa imagem novos contornos externando, como possíveis, outras experiências que não apenas aquelas valorizadas como integrantes de sua “natureza”.

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Uma delas: não sei como ela tem coragem de usar um malliot tão indecente. Fonte: Revista de Ed. Physica, n. 45, agosto de 1940

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Enfim,  para além das questões nacionalistas de fortalecimento do corpo feminino, a inserção da mulher no esporte não resulta apenas desse investimento. Deve ser observada não como uma concessão mas como uma conquista de diferentes mulheres para as quais o esporte representava, também, um espaço de visibilidade não apenas como espectadora ou co-participe de uma aparição, mas, fundamentalmente, como sua principal protagonista. Ainda que o discurso da maternidade sadia e do aprimoramento da raça fosse marcadamente produzido e reproduzido não foi apenas em seu favor que o as mulheres aderiram à sua prática: ele sinalizava novos tempos diante dos quais o arcaico confinamento das mulheres no interior do espaço privado simbolizava falta de cultura e de civilização. O esporte modernizou a mulher!

Para refletir:

Se nos primórdios da história do esporte no Brasil a  participação das mulheres restringia-se quase que predominantemente  a assistência e ao acompanhamento de seus maridos e familiares,  na atualidade,  ela é infinitamente  mais ampla e diversificada: as mulheres deixaram de ocupar apenas o espaço de espectadoras para tornarem-se,  também,  praticantes, atletas, técnicas, gestoras, árbitras, comentadoras,… 

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Jogadoras de basquetebol - Década de 1930. Fonte: Clube Esperia – São Paulo.

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Todavia, isso não significa afirmar que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades no campo esportivo ou que preconceitos quanto à participação feminina inexistam. Não é raro, ainda hoje,  encontrar nas escolas de primeiro e segundo graus disparidades relevantes no que se refere ao acesso de meninas e meninos nas atividades esportivas realizadas nas aulas de educação física. Essa mesma situação pode ser observada nos espaços de lazer, na gestão esportiva, no investimento de clubes, enfim, em diversos instâncias nas quais o esporte se desenvolve.

Ainda assim é extremamente relevante enfatizar: entre rupturas e conformismos, as mulheres há muito estão presentes no esporte brasileiro ainda que, muitas vezes, o discurso oficial as tenha deixado nas zonas de sombra.

Referências bibliográficas:

RANGEL SOBRINHO, O.  Educação Physica Feminina. Rio de Janeiro: Typografica do Patronato, 1930.

 


Os caçadores de “players” suburbanos: o celeiro de craques

23/01/2012
Por Nei Santos Junior

         No dia 5 de abril de 1919, a Gazeta Suburbana publicou na coluna “Dizem…” um fato que perseguia as agremiações da periferia da cidade: os “caçadores de players” suburbanos.

         Formado por representantes da Liga Metropolitana, esses indivíduos atraiam os jogadores da região com a promessa de emprego e algumas regalias, enxergando nos jogadores da zona suburbana a oportunidade de fortalecer as suas equipes. Para o historiador João Malaia, com a popularização do futebol, jogadores da zona suburbana começavam a se destacar em clubes menores, passando a despertar interesse das grandes agremiações dos bairros da zona Sul, aqueles clubes com potencial para lotar os estádios e ter rendimentos anuais na casa de centenas e milhares contos de réis [1].

         Com a entrada dos players suburbanos nos jogos da Metropolitana, os órgãos da “grande imprensa” carioca começavam a destacar essas transformações, como apontou o cronista d’O Imparcial:

 Para os sportsmen que entendem que a entidade suburbana não preenche os fins progressivos do desenvolvimento sportivo da nossa terra, como de quando em vez se propala nas rodas desportivas, levamos ao conhecimento daquelles que de facto se interessam pelo progresso do football, o escandaloso caso de suborno, de vantajosas promessas de bons empregos, de gordas gorjetas que estão sendo postas em prática aos jogadores da Suburbana para se filiarem aos diversos clubes das três divisões da Metro.
Já sobe a numero superior de 20 players que se transferiram com malas e bagagem para a entidade da Rua Buenos Aires.
E depois digam que a Suburbana não é o celeiro da Metropolitana [2].

          A transformação da Liga Suburbana num “celeiro” [3] de players para a Metropolitana colocava em xeque os valores morais tão apreciados pelos clubes dos bairros chics da cidade. Lentamente, esses jogadores, fruto de um “escandaloso caso de suborno”, apareciam ano após ano em clubes de equipes consideradas pequenas e, com isso, o cenário da Metropolitana ganhava novos ares. Para Malaia, a vantagem de se trazer um jogador suburbano, era que ele não mantinha qualquer vínculo com qualquer clube filiado à Liga Metropolitana e, portanto, não havia que esperar o período de um ano sem jogar, imposto pela famosa “Lei do estágio” [4].

‘C’est lla Mem chose’!”. Fonte: O Imparcial, 4 de março de 1919.

         A fim de evitar tamanho desastre, a Gazeta Suburbana se dedicava em acompanhar as ações que movimentavam esse mercado, publicando uma série de notícias sobre as transações que envolviam jogadores oriundos da zona suburbana. Logo, uma chamaria a atenção até mesmo do próprio cronista.

         Surpreso com a escalação do Vasco da Gama na apresentação do torneio “Initium”, revelando em seu team “vários elementos do Engenho de Dentro” [5], dentre eles, Nelson (Chauffer), Pederneiras e Quintanilha, os principais responsáveis pelo tricampeonato, o redator questiona: “mas será mesmo possível que esses players abandonem seu glorioso club para jogar por um club estranho a elles, como o Vasco?” [6] Espantado, o mesmo responde, “não queremos crer, mas… em todo caso… esperemos os acontecimentos” [7].

Fonte: MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934).

         De maneira geral, os jogadores suburbanos começavam a perceber que essa prática poderia ser um meio rentável para o seu sustento. Mesmo recebendo uma fatia mínima das rendas adquiridas com a venda de ingressos, esse indivíduo se convertia cada vez mais em um verdadeiro trabalhador urbano, servindo como objeto do espetáculo que se tornara o futebol da época.


[1] MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010

[2] O Imparcial, 25 de janeiro de 1919.

[3] Expressão ainda utilizada na atualidade para definir um local onde se produzem bons jogadores.

[4] MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010.

[5] Gazeta Suburbana, 5 de abril de 1919, p.3.

[6] Gazeta Suburbana, 5 de abril de 1919, p.3.

[7] Gazeta Suburbana, 5 de abril de 1919, p.3.

Manual de sobrevivência na calçada: um guia prático para pedestres e ciclistas nas novas ciclovias da Zona Oeste do Rio de Janeiro

15/01/2012

Por Valeria Guimarães

As novas ciclovias, que começaram a ser construídas no segundo semestre do ano passado, são resultado do plano estratégico da Prefeitura chamado “Rio, capital da bicicleta”, com o objetivo de “incentivar o uso da bicicleta como modal de transporte e ampliar a infra-estrutura existente”. De acordo com a Prefeitura, o Rio já é a cidade com o maior número de ciclovias do país. 

 É claro também que essas ciclovias estão diretamente relacionadas à construção da “marca” Rio de Janeiro, caracterizada por profundas intervenções urbanísticas e pela redefinição dos modelos de gestão urbana, tão debatidos neste blog. Esses projetos em grande parte se inspiram no projeto de revitalização da cidade de Bogotá. Uma das metas do prefeito Eduardo Paes até o final de 2012 é dotar a cidade de uma malha de 300 km de ciclovias, superando a capital colombiana e garantindo assim o título de cidade da América Latina com o maior número de ciclovias.

Até aí não haveria nada demais (não vou entrar no mérito da execução das obras, qualidade dos materiais utilizados, licitações). Mas quando as ciclovias são projetadas e implantadas – eu diria até improvisadas – pelo poder público em cima da calçada, em bairros onde é intenso o fluxo de pedestres e de ciclistas, o melhor é tomar alguns cuidados básicos para evitar situações que vem se repetindo cotidianamente.

Vou me deter apenas à rota inaugurada em 2011 que liga os bairros da Praça Seca e Vila Valqueire. A intenção é evitar que mais algum leitor que precisar circular pela área venha a sofrer com os desagradáveis problemas trazidos pelas ciclovias projetadas sobre a calçada e, obviamente, para levantar uma discussão sobre o custo social de uma gestão urbana que nos impõe projetos modernizadores que não levam em conta o bem-estar da população nem as particularidades de cada canto dessa imensa cidade.

Para desfrutar e sobreviver às novas ciclovias sobre as calçadas, procurando manter a segurança e as relações de civilidade entre moradores, comerciantes, ciclistas e pedestres nos trechos afetados, elaborei algumas dicas que podem ser bastante úteis, baseadas numa coleção de sustos a partir da minha  “observação participante”:

Dicas para quem for pegar um ônibus nas calçadas equipadas com ciclovias:

1. Ao pegar o ônibus, não corra, muito menos em ziguezague. Nunca se sabe se atrás de você tem uma bicicleta.

2. Ao descer do ônibus, certifique-se de que o veículo esteja totalmente parado e escolha bem aonde você vai por os pés: pode ser na ciclovia (o ponto de ônibus fica dentro da “faixa compartilhada”) ou numa das temidas barras de ferro dispostas ao longo de sua extensão e, inclusive, no próprio ponto de ônibus.

 

3. Em dias de muito sol, vento ou chuva forte, o melhor mesmo é ficar exposto às intempéries enquanto aguarda a sua condução. Não use guarda-chuva como alternativa ao abrigo que lhe foi retirado. Isso dificultará a sua visão das bicicletas.

 Para os pedestres que ainda insistem em usar o que sobrou das calçadas, o melhor é seguir alguns conselhos básicos:

1. Use um retrovisor para andar na calçada e cuidado máximo nos trechos compartilhados.

Se possível, tente se manter fora da ciclovia, mesmo nos trechos de grande estreitamento da calçada.

2. Se você tem criança na faixa de 2 a 4 anos, oriente-a a não andar olhando para os lados. Um galo na cabeça pode esperar por ela, já que as barras de ferro estão logo ali na sua direção.

 3. Carrinhos de bebês tornam-se potencialmente perigosos na calçada-ciclovia. No estreitamento da calçada, você pode, sem querer, ir parar na ciclovia (ver foto abaixo).

 4. Não faça como o rapaz que vinha lendo seu texto universitário em apagada fotocópia, forçando a leitura bem próximo ao rosto: as barras de ferro não costumam ser benevolentes com quem anda distraído. Além da dor física, você ainda terá que encarar os risinhos disfarçados… Mas sempre aparece alguém solidário nessa hora, contando histórias de outros acidentes semelhantes naquela ciclovia-calçada.

5.Ao sair de casa, da padaria, da creche com seu filho pequeno, do comércio local em geral, para pisar na calçada, pare, olhe e escute. E segure muito bem a mão de sua criança. É mínima a distância entre a porta de muitos estabelecimentos e a ciclovia.

6. Criançada de férias: ao correr atrás da pipa voada, não se esqueça que na calçada agora, oficialmente, também tem trânsito de veículos e um monte de barras de ferro para machucar vocês.

 7. Alunos dessa escola: a alternativa mais segura de acesso é utilizar velocípedes ou bicicletas na extinta calçada. 

Se você é morador e a ciclovia passa rente ao seu portão, fique atento a essas recomendações:

1. A dica principal é fazer um seguro de acidentes pessoais. Ao abrir o portão de sua casa, pense bastante se vale a pena por os pés na calçada.

 2. Seria mais prudente se você instalasse alarmes sonoros tanto no seu portão de garagem quanto no portão menor.

 

3. Se você tem carro, cuidado com as barras de ferro (instaladas na maior parte do percurso) ao sair e entrar na sua garagem. O prejuízo será todo seu.

 Motoristas e motociclistas:

 Já está muito complicado, mas se alguns de vocês continuarem utilizando a calçada-ciclovia como “via expressa” para driblar os engarrafamentos, qual será o futuro dos pedestres e ciclistas?

 Para os ciclistas, redobrar o cuidado é mais do que necessário:

1. Não corra na calçada-ciclovia: ao menor sinal de pedestre, obstáculos e todo tipo de surpresas que aparecem na sua frente, você não terá tempo de frear e a tendência é ziguezaguear e se chocar contra as barras de ferro, o poste ou sabe0se lá o quê.

 2. Esteja atento a tudo no seu caminho: desde pessoas e animais trafegando na ciclovia até as surpresas mais inusitadas, como este bueiro sem tampa e as estacas de advertência, alertando para a falta de manutenção na pista…

  

… e este hidrante (!), preservado no “projeto” que improvisou a ciclovia na calçada.

A ciclovia é sua. Use-a e desfrute-a com prazer e muita atenção. Ah, sim:  não se esqueça que a calçada, de direito, (também) pertence ao pedestre.

Que a mobilidade é um dos mais importantes temas contemporâneos e um imperativo para a sobrevivência das grandes cidades, ninguém tem dúvida. Que a bicicleta é um equipamento fantástico de locomoção, lazer, promoção de uma vida saudável (se utilizada sem exageros) e “ecologicamente correto”, também parece ser consensual.  Adequar as cidades para uma melhor mobilidade com a construção de ciclovias deveria, em tese, ser um dos maiores acertos nas políticas públicas de planejamento urbano. Mas, seria esse exemplo uma adequação para a mobilidade?

Antes de finalizar, registro aqui dois sustos que passei para escrever este post: ao percorrer o que sobrou da calçada bem rente a um portão de garagem, quase fui atropelada por um motorista que simplesmente tinha a intenção de sair de sua residência, não de atropelar uma pedestre numa microfatia do que sobrou de sua calçada. No reflexo, fui parar involuntariamente na ciclovia e, adivinhem, um inocente ciclista vinha passando bem na hora. Foram só dois muitos sustos…

Boa sorte em 2012 e menos sustos a todos que transitam por essas mal traçadas calçadas-ciclovias, especialmente às crianças e bebês que ficaram sem calçada na porta da escola e da creche.

 


Esportes e publicidade: violência, cigarros e preconceito

09/01/2012

Por João Malaia

 

Um dos temas mais interessantes em nosso campo de investigação é a origem da utilização dos esportes como objeto da publicidade. Nosso colega Victor já publicou um belo artigo sobre o tema. (http://www.rbceonline.org.br/revista/index.php/RBCE/article/viewArticle/207)

A partir da leitura desse texto e de algumas pesquisas realizadas por mim anteriormente me veio a ideia de expôr um pouco disso aqui no blog. Apresentarei algumas imagens de peças publicitárias publicadas em alguns dos mais importantes das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, nas décadas de 1910 e 1920, além de uma ou outra peça mais contemporânea. Dividi esta apresentação em três partes: violência, cigarros e mulheres. Tais reflexões merecem um aprofundamento maior, mas servem aqui apenas de estímulos para futuras pesquisas.

1. Violência.

Sem dúvida, um dos temas mais interessantes: peças publicitárias que explicitavam a violência das práticas esportivas, principalmente a do futebol. Se na década de 1910, as casas de materiais esportivos faziam sua publicidade apenas com fotos e/ou desenhos de seus equipamentos, no início da década de 1920, a Casa Stamp inovou. Vejamos uma publicidade da Casa Sportmann [sic], publicado na Fon!Fon!, de 24 de maio de 1913:

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Podemos observar que apenas artigos de futebol são mostrados, apesar do texto apontar para materiais para “lawn-tennis”. A diferença com a publicidade da Casa Stamp é notória. Publicada em O Imparcial, em 12 de agosto de 1920, a peça é reveladora de como o futebol passava a ser percebido na entrada daquela década:

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Pode-se perceber que, a par das diferenças, o que ainda se tornava necessário afirmar é que os produtos eram importados da Europa. No entanto, a mais explícita publicidade a tratar do tema da violência no futebol foi a da aveia Quaker, publicada dia 2 de maio de 1923, no jornal carioca A Noite. No texto da peça, afirma-se que só a aveia daquela marca forneceria “músculos fortes, grande energia e absoluta resistência à fadiga”, sendo o segredo do sucesso “em um sport tão violento como o football“:

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Se a publicidade é capaz de formar opiniões e juízos de valor sobre a sociedade, talvez fosse interessante uma análise desses discursos publicitários para um melhor entendimento sobre as diversas percepções que a sociedade tinha em relação ao futebol, bem como as mudanças na maneira de encarar as práticas esportivas no período.

2. Cigarros

Quem poderia imaginar, nos dias de hoje, que os esportes foram objeto de publicidade para cigarros? Pois a situação era por demasiado comum. Em post anterior, mostrei como a empresa de cigarros “Veado”, impulsionou as vendas dos seus cigarros com um concurso nacional para se escolher o mais popular jogador do Brasil. Mas são muitas as peças. Uma das mais interessantes é dos cigarros “Olympicus”, cujo maço continha desenhos de todos os clubes da primeira e da segunda divisão da principal liga de esportes da cidade do Rio de Janeiro, a Liga Metropolitana de Desportes Terrestres. Seu distintivo, assim como o da Confederação Brasileira de Desportes, também estavam presentes no maço:

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O interessante aqui, não é só o fato dos clubes emprestarem seus símbolos para impulsionar as vendas de cigarro. Mas é ver como, através da disposição dos símbolos do futebol no maço, podemos enxergar a própria estrutura de poder do futebol carioca naquele período. Publicada em O Imparcial, de 28 de agosto de 1921, a montagem é singularmente reveladora. Ao centro, os escudos das duas instituições reguladoras do esporte. Em cima, a da associação nacional, a CBD, em baixo, a sua representante para a organização dos esportes na cidade do Rio de Janeiro, a LMDT. Os três grandes clubes estão dispostos no canto superior do desenho (Fluminense, Botafogo e Flamengo). O America, time menor que os grandes, mas maior que os pequenos encontra-se ao lado do Flamengo, ligeiramente abaixo, mas acima de Bangu, São Christovão e Andaraí, os pequenos da primeira divisão. Do lado esquerdo (lembremos que nós lemos da esquerda para a direita), os times da segunda divisão daquele ano: Carioca, Americano, Palmeiras, Mangueira, Mackenzie, Villa Izabel e Vasco da Gama, clube dos portugueses que começava dar traços de que poderia, um dia, vir a ameaçar o poderio dos grandes, com seu time recheado de jogadores das classes mais baixas da cidade. Sugestivo que, apesar de tal processo só se efetivar dois anos depois, o distintivo do clube ocupe o lado exatamente oposto ao dos grandes clubes.

Apesar de fugir um pouco de nosso período de análise, seria impossível falar de cigarros e de esporte e não lembrar dos comerciais televisivos da Hollywood, nas décadas de 1970 e 1980. Apenas para recordar, posto aqui um video de um comercial da empresa em que, durante uma partida de tênis, a plateia fuma cigarros daquela marca e, após a contenda entre os jogadores, os mesmos relaxam…fumando cigarro!

3. Mulheres

As peças do período apontam, desde aquele período, para a valorização da beleza e de um corpo saudável. Em uma das mais significativas que encontrei foi a do Instituto “Physioplastico” do Rio de Janeiro, publicada na Fon!Fon!, em 27 de junho de 1912. Não há figuras, mas a chamada do texto é sensacional: “Pelo culto da bellesa”. O texto faz uma afirmação contundente: “a bellesa é o mais precioso capital da mulher”. Nessa mesma linha de valorização da beleza e do corpo, a peça do “Composto Ribott”, um xarope à base de ferro e fósforo, publicada na revista paulista A Cigarra, em 12 de julho de 1918, aponta não só para o culto da beleza (não só feminina, diga-se de passagem), mas também para o preconceito de quem não a possui:

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A mulher, sussurra ao homem a seu lado e aponta para o casal ao fundo dizendo a seguinte frase: “Olha para aquelle par de rachiticos, porque não tomarão COMPOSTO RIBOTT, para ganhar força, vigor e energia?”. Os trajes do homem de corpo atlético lembram os praticantes de atividades aquáticas. A mulher, esbelta e de pernas grossas é aquela que observou a “par de rachiticos”.

Mas mais significativa ainda, para observarmos a produção de um discurso publicitário que se usava dos esportes e criava determinados tipos de preconceitos, foi a peça que encontrei na Folha de São Paulo, de 20 de dezembro de 1967. Posto aqui esta última imagem e não faço comentários. Deixo a reflexão para o leitor e para a leitora.

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Futebol na Rússia e na União Soviética no século XX – o caso do clube Spartak Moscou

01/01/2012

Por Jorge Knijnik*

Nélson Rodrigues dizia que “toda unanimidade é burra”. Mas eu creio que algo praticamente unânime entre os frequentadores deste blog é o prazer da leitura. Segurar um livro que na verdade nos “segura” e faz com que “viajemos” com ele para todos os lugares é uma experiência absolutamente divina, uma das melhores coisas da vida.

Foi isso o que ocorreu comigo há alguns meses. Eu li com uma curiosidade, uma intensidade e uma emoção incríveis as quase 350 páginas do livro Spartak Moscow: A History of the People’s Team in the Worker’s State (Spartak Moscou – Uma historia do time do povo no Estado dos Trabalhadores), escrito por Robert Edelman e publicado em 2009 pela Cornell University Press. É sobre este livro, cheio de história(s) do esporte e do futebol que eu gostaria de comentar.

Na verdade, se eu fosse um “videomaker” e fosse filmar o livro de Robert Edelman, eu poderia fazê-lo usando três ângulos diferentes, usando formatos tão diversos que acabaria fazendo três filmes absolutamente distintos.

Usando este livro como roteiro, eu poderia filmar um documentário histórico muito bem detalhado, mostrando a historia do clube Spartak e as relações entre futebol e as gigantescas mudanças histórico-sociais que abalaram a Rússia (e a União Soviética) durante o século XX.

Entretanto, eu poderia usar o mesmo livro para produzir um filme sobre esportes, contando a história de um dos mais famosos times russos, o Spartak – o filme mostraria suas vitórias e derrotas, seus títulos, suas táticas inovadoras. Neste filme, eu colocaria depoimentos dos jogadores, técnicos e dirigentes do Spartak, e também mostraria as emoções de sua enorme legião de fãs, mostrando assim a paixão que todos tinham (e têm) pelo futebol do Spartak.

Agora, o mesmo livro ainda me possibilitaria produzir um eletrizante filme policial, no qual o espectador ficaria sem folego durante duas horas, e sempre se perguntando: “E agora? O que vai rolar?”, pois este filme falaria dos bastidores de um estado-policial, no qual o maior rival do Spartak (o Dínamo Moscou) era o clube apoiado pela policia secreta, era o time do órgão do Estado que a qualquer momento podia mandar os seus rivais esportivos direto para a cadeia e para os gélidos campos de concentração soviéticos.

Porem, como eu sou apenas um leitor sortudo (e não um péssimo “moviemaker”) eu encontrei todos estes aspectos reunidos neste maravilhoso livro: Spartak Moscou, a historia do time do povo é um livro repleto de detalhes e com inúmeras fontes, as quais fazem a alegria de qualquer um interessado na historia social do esporte.  O autor, sempre que possível, apresenta os dados históricos e simultaneamente questiona a versão oficial, chamando atenção para o fato de que o livro conta com fontes que são humanas! “Memórias falham. As pessoas contam histórias para si mesmas e acabam acreditando nelas” (p. 38). Essa frase, em conjunto com os esforços que o autor coloca para encontrar fontes as mais variadas possíveis, faz com que este livro seja um recurso extremamente valioso para o leitor com interesse na história social dos clubes europeus de futebol, sobretudo russos.

O livro começa na pré-história do futebol russo, na transição entre os séculos XIX e XX. Edelman mostra como as mudanças que ocorriam na sociedade russa, que passava por uma grande e acelerada urbanização, estavam causando uma “fluidez” nas identidades pessoais e sociais. Neste quadro, o autor demonstra como o futebol foi um agente essencial na construção de novos laços sociais entre os homens jovens que migravam para as cidades russas. O esporte era um dos espaços privilegiados para a construção de novas masculinidades, diferentes e diametralmente opostas àquela masculinidade tradicional do camponês russo, que era a norma vigente na Rússia ate então. Edelman afirma que “o futebol forneceu aos diversos tipos de Moscovitas, ricos e pobres, um jeito novo e diferente de mostrarem em um espaço publico sua masculinidade, sua forca física e virilidade” (p. 40). 

Tanto o futebol russo como o soviético sempre foram espaços dominados por homens, e Edelman argumenta que a questão das identidades sociais foi central na historia do Spartak. Jovens trabalhadores, que não tinham acesso aos campos esportivos das elites, jogavam futebol em qualquer espaço que encontrassem, sobretudo nas ruas (parece a América do Sul!). Estes jogos eram chamados de “futebol marginal” (dikki) e foram essenciais para a “pré-história do Spartak” (p. 16). Ao apresentar as raízes daquilo que se tornaria o Spartak, Edelman chama a atenção para o fato de que “o ímpeto para a criação do time não veio de cima, mas sim das ruas de Krasnaia Presnia” (p. 50). A autonomia e a espontaneidade encontradas naqueles jovens trabalhadores que jogavam nas ruas, e que se tornaram os fundadores do Spartak, são hoje consideradas a verdadeira “ideologia Spartakiana”. Essas raízes do Spartak influenciaram a identidade e a masculinidade destes jovens fundadores do time. Mais tarde, durante o século XX, a enorme legião de fãs do Spartak era formada por trabalhadores (o povo) que incorporaram uma masculinidade agressiva, indisciplinada e rebelde, diferente e oposta a masculinidade rígida, militarizada e disciplinada demonstrada pelos bem-comportados torcedores do Dínamo Moscou.

Krasnaia Presnia (Presnia é o bairro onde o clube nasceu e Krasnaia significa a cor vermelha, adjetivo apenso ao nome do bairro para simbolizar a revolução de 1917) foi o time que veio a se tornar o Spartak. Ele se localizava em uma região de trabalhadores braçais, lotada de fabricas, cortiços e favelas – e também cheia de grupos de bandidos que faziam daquela uma área perigosa e violenta. Foi na região de Presnia que os irmãos Starostin  cresceram. Aleksandr, Pavel, Anatoly and Nikolai Starostin possuíam uma condição social levemente melhor que seus vizinhos. Eles se educaram e cresceram ao mesmo tempo nas arriscadas ruas de Presnia – onde o futebol acabava por fornecer uma segura rede social de proteção  para os jovens meninos contra “um mundo de bebidas, drogas, apostas ilegais, sexo facil e assassinatos” (p. 29) – e em escolas comerciais que seus pais podiam pagar. Foi em uma destas escolas que Nikolai, o mais velho dos Starostin, foi introduzido ao futebol.

Conhecer a família Starostin é essencial para entender tanto o desenvolvimento do Spartak quanto do próprio futebol russo – mas também para entender como Edelman transforma o seu livro em uma apaixonante historia futebolística. Edelman conta as historias dos irmãos Starostin, que jogaram juntos no Spartak e viraram ídolos do futebol soviético. O autor mostra como Nikolai, o primogênito e líder dos irmãos Starostin não era somente um jogador e o capitão do time, mas também era um empresário de visão extraordinária, que colocou o Spartak no topo do futebol russo, e o trouxe para este futebol o reconhecimento internacional.

É neste momento do livro que “os três formatos de filme” que eu falei no início, começam a se reunir em uma coisa só. Sem se afastar um milímetro das suas rigorosas e detalhadas fontes históricas, Edelman relata as glórias do Spartak Moscou – cuja torcida gritava bei militsia (“peguem os policiais!”) quando eles jogavam contra o Dínamo Moscou, um clássico que parava a cidade, literalmente. O autor mostra as evoluções táticas do time, seus altos e baixos, seus jogos incríveis… E mostra tudo isso de um modo no qual fica claro que ser torcedor do Spartak durante o stalinismo era uma maneira de dizer “não” a polícia secreta, ao passo que torcer para o Spartak na época pós-stalinista era um jeito de dizer “sim” para as desejadas mudanças sociais. Ao mesmo tempo, Edelman conta a excitante historia dos irmãos Starostin, que conseguiram prosperar dentro do futebol russo, atraindo muita inveja no interior de um estado-policial no qual milhares eram assassinados ou enviados para campos de trabalhos forcados, em meio a uma atmosfera de intriga politica e terror. A cada página a curiosidade do leitor vai crescendo, afinal a grande duvida é saber se os irmãos Starostin serão mandados para os campos de prisioneiros, e afinal o que poderá acontecer com o Spartak sem eles.

Edelman continua contando a história dos Starostin e do Spartak, usando todas as fontes disponíveis. O leitor não consegue se desgrudar do livro, que conta com fotos incríveis do futebol no início do século XX, além de três apêndices com os resultados do Spartak e o “hall da fama” do autor, e mais 22 páginas com notas detalhadas para cada capítulo, e um index final muito claro.

É importante mencionar que o trabalho de Edelman foi premiado, em 2009, como o melhor livro da Associação Norte-Americana de Historia do Esporte. Independentemente do tipo de “moviemaker” que você seja, com certeza se beneficiara muito com esta leitura. Spasibo, Edelman, por nos contar historias tão excepcionais em um livro tão delicioso!  

http://www.cornellpress.cornell.edu/book/?GCOI=80140100191990

http://www.spartak.com/en/main/

* Esta crônica “baixou” na minha cabeça em uma ensolarada manha de domingo em Sydney, quando dirigia meu carro escutando e dançando com Lobão e sua indefectível ‘Radio Bla’. De modo que dedico esta resenha a todos e todas que “não conseguem controlar”, sobretudo aos meus queridos amigos Antenor Nicanor,  Marcelo Massa e Marcos Waca – sabem lá porque!


Futebol e literatura: O templo dos encontros

25/12/2011

 

Por Edônio Alves

Para o brasileiro que ama futebol, esses dois meses que formam o interstício que vai de uma temporada a outra, no calendário das disputas da bola pelo País afora, são como que um período tedioso em que a alegria de ir aos estádios é substituída pela ansiedade de que tudo comece novamente. Ou seja: que a bola role de novo e que o time de cada um de nós possa, no novo ano que se inicia, recuperar o tempo perdido e fazer uma campanha digna do título nacional ou da conquista da tão desejada taça mundial.

         Este é um período, por assim dizer, em que começamos a sentir saudade do clima dos estádios; da alegria de encontrar os amigos para vermos juntos as atuações do time do coração; da festa que é, para o brasileiro, o campo de futebol às quartas-feiras e domingos do Brasil.

         A literatura, arte através da qual analiso a também arte do futebol, tem o condão de pautar várias questões que dizem respeito ao homem-torcedor; aquela pessoa que tem no futebol um grande motivo existencial.      Sendo assim, trago a seguir – para os seguidores deste nosso blog esportivo – uma pequena análise de um conto que versa sobre o lugar desses encontros em que a magia do jogo da bola aos pés nos encanta e vivifica.  Boa Leitura.

 ***

 Estádio

 Autor: Antonio Barreto

Através de uma mímese direta, sustentada basicamente por diálogos (o que naturaliza e presentifica a situação evocada), vozes e sons ambientes de várias espécies, este conto narra o ambiente e o clima de um dia de jogo importante num estádio de futebol, num domingo qualquer do Brasil.

A partida é entre o Clube Atlético Mineiro, o Galo das Minas Gerais, e o Flamengo do Rio de Janeiro, e o que faz justificar seu título, Estádio, e a sua proposta narrativa, são as diferentes situações justapostas pelo narrador, que se coloca como uma câmera de TV, ou melhor, um microfone de áudio que, a partir da sua movimentação pelo espaço físico dentro e ao redor do Estádio, tudo colhe e espalha, compondo a típica paisagem humana que se forma nos domingos de futebol pelo Brasil afora.

O pano de fundo da narrativa é contar a história de um pai que leva o filho a um jogo de futebol junto com as possíveis implicações que esta experiência, a princípio lúdica, pode trazer para a vida de um cidadão comum desta nação do futebol. Todavia, o que se quer mesmo (e talvez aqui esteja condensada toda a cota de criação do seu autor, o escritor Antonio Barreto, neste seu intento ficcional sobre o tema) é montar, a partir desse pequeno plot narrativo, um extenso painel do mundo dos estádios de futebol em dias de jogos.

Para tanto, a narrativa começa em terceira pessoa apenas no parágrafo inicial e descamba em seguida para a mímese direta, mais apta, conforme a estratégia do autor, a formar na mente do leitor as imagens evocativas do objeto em descrição.

“Pai e filho. Mar de gente querendo entrar. Mar de cambistas. Mar de autoridades. Mar de bandeiras e torcidas organizadas. Mar de pivetes. Mar de camelôs. Mar de guardadores. Mar de assaltantes. Mar de polícia. Mar de meninos e mulheres. Mar de churrasquinho, cachaça e cerveja. Mar de esperanças. A frase pichada na parede da bilheteria: Futebol é o ópio do povo. E o alto-falante: Atenção, senhor Jéferson Macário Ribeiro de Araújo, seus documentos foram encontrados. Favor comparecer urgentemente ao saguão principal, na seção de achados e perdidos…”.

Pronto! A partir deste ponto, o leitor acompanha numa síntese condensada de imagens e sons, um sem número de situações prototípicas da condição, eventual, provisória – ou mais estável, definidora do seu lugar no mundo social – do homem dos estádios, aquele que no dizer de Ivan Ângelo, “não está sozinho, não é um, é parte, pertence a uma irmandade, é cavaleiro de uma ordem que tem cores, brasão e bandeira”.[1]

“Quer que olhe o carro, doutor?”

Este diálogo-síntese (diálogo porque pressupõe um interlocutor que a este pedido responde, mesmo que com o silêncio) dá o mote para o desfecho da pequena história – no meio de tantas outras sugeridas pelo interior do texto – do pai que leva o filho para o jogo de futebol no estádio.

“Olha lá! O time tá inteirinho, ta completinho! Um dia cê me leva pra ser mascote, pai, que nem aqueles meninos lá? Aquilo é tudo filho da gente granfina, filho, diretores do time, sabe como? Não é pra gente pobre que nem nós não, né pai? Isso aí, filho. Cê fechou bem a porta da Brasília? Fechei pai, já falei.

O desfecho dessa história num país como o Brasil é, talvez, bastante previsível, embora não o seja o encaminhamento dado para ela pelo narrador deste conto razoável sobre futebol escrito por Antonio Barreto. Talvez mais do que o desfecho em si importe mais a condição do micro-universo social representado pelo estádio de futebol que brota da do seu entrecho, da articulação das muitas outras histórias paralelas que o autor faz desfilar a partir desta outra, e de mais outras, e de mais outras…até o ponto final.

“Por que você disse pra soltar o homem, pai? Olhei nos olhos deles, filho. Não é bandido não, eu conheço. Conhece como, pai? Um dia te conto filho. Eu também já fui… Vamos voltar pro jogo, vamos? E a Brasília, pai? Depois a gente resolve isso… E a volta a pé pra casa, pai? Volta, mas se quiser, pode subir nas minhas costas. Posso? Pode. Posso gritar, pai? Pode filho: Paiêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê”.

 A OBRA:

Para ler o conto, Estádio, na íntegra, ver: Contos Brasileiros de Futebol, organizada por Cyro de Mattos, e publicada pela Editora LGE de Brasília, em 2005.

O AUTOR:

Antonio de Pádua Barreto Carvalho nasceu em Passos (MG) em 13 de junho de 1954. Reside em Belo Horizonte desde 1973. Morou também em algumas cidades do Oriente Médio, onde trabalhou como projetista de Engenharia Civil, na construção de estradas, pontes e ferrovias. Tem vários prêmios nacionais e internacionais de literatura, para obras inéditas e publicadas, nos gêneros: poesia, conto, romance e literatura infanto-juvenil. Participa também de várias antologias nacionais e estrangeiras de poesia e contos. Foi redator do Suplemento Literário do Minas Gerais, articulista e cronista do jornal Estado de Minas e da revista “Morada”, de Belo Horizonte. Colabora com textos críticos, poemas e artigos de opinião para “El Clarín” (Buenos Aires), “Ror” (Barcelona); “Zidcht” (Frankfurt), “Somam” (Bruxelas), entre outros periódicos. Atualmente coordena a coleção “Para Ler o Mundo”, da Editora Scipione, São Paulo, cujo objetivo é criar condições de recepção e produção de textos verbais e não-verbais, de diferentes gêneros e esferas de circulação, visando atender às necessidades lingüístico-discursivas dos alunos do ensino médio brasileiro. Publicou, entre outros, os seguintes livros: O sono provisório (1978) e Vasta fala (1988), de poesia; Os ambulacros das holotúrias (1990) e Reflexões de um caramujo (1993), de contos, além de A barca dos amantes (1990) e A guerra dos parafusos (1993), romance.


[1] Está observação provém de uma frase inclusa no conto-crônica, O homem do Maracanã, deste autor, e está publicado na coletânea, A vez da bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro, que inclui nomes de escritores-jornalistas como Lourenço Diaféria e Daniel Piza, e foi editada pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo, em 2004.

 


Índios do Brasil Sport Club

19/12/2011

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

No Alto Rio Negro, pintura corporal indígena estiliza o time do coração. Fonte: Pedro Martinelli

Alguém que visite uma aldeia indígena talvez se surpreenda com a quantidade e a intensidade de uso dos campos de futebol, às vezes praticado todos os dias. Mas quando e de que maneira teria começado o fascínio dos índios brasileiros pelo esporte bretão?

No final dos anos 50, durante pesquisa etnográfica entre os Xavante, no Mato Grosso, o antropólogo Maybury-Lewis registrou em seu diário “a paixão, ou pode-se mesmo dizer, o vício do futebol”. De acordo com ele, já naquela época, “todos jogavam, jovens e velhos, e a toda hora”.

Para outras etnias, porém, o esporte começou antes disso. Em 1929, índios Karajá, da Ilha do Bananal, conheciam seu primeiro clube: o “Esporte Clube Índio Carajá”. Iniciativa de funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (criado em 1910 e substituído em 1967 pela atual Funai), o clube, além de “promover a instrução física da mocidade forte e saudável da tribo através de teams de water polo”, conforme diziam alguns documentos da época, também organizava partidas de futebol entre equipes de índios versus “civilizados”. Infelizmente, ainda não descobri quem levava a melhor nessas pelejas.

Nos anos 20, índios Karajá jogavam football e water polo. Fonte: Museu do Índio

Para muitos povos indígenas, o contato com esportes acompanhou a expansão das fronteiras agrícolas nacionais. Para algumas aldeias Kaigang, por exemplo, quase poder-se-ia dizer que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil apresentou-lhes a bola, o goal, o keeper e tudo mais que geralmente seguiu a expansão global do foot-ball. Em 1905, o início da construção da ferrovia deflagrou um violento conflito, que só fez se intensificar na medida em que avançavam locomotivas pelas tradicionais terras Kaingang. Em 1912, depois de estabelecida relação relativamente pacífica com alguns grupos, organizou-se visita de alguns deles até São Paulo. Levaram-nos à delegacia, ao cinema, aos quartéis, mas também aos clubes nas margens do Tietê, onde puderam entrar em contato com práticas até então estranhas e desconhecidas, como o law-tenis e o futebol. Por volta de 1928, índios Kaingang e Terena do Posto Indígena Araribá, no Oeste Paulista, já formavam equipes para disputar suas próprias partidas.

Nos anos 20, índios Kaingang e Terena do Posto Indígena Araribá disputavam partidas de futebol. Fonte: Museu do Índio

Anos depois, nos idos de 1940, ainda mais familiarizados com o jogo de chutar a bola com os pés, índios do Posto Cacique Doble, no Rio Grande do Sul, participavam do “Kaingang Futebol Clube”, que além do plantel futebolístico, ainda organizava atividades como grupos de escoteiros.

Perfilados e uniformizados, crianças do grupo de escoteiros do Kaingang Futebol Clube pousam para foto no campo de futebol. Fonte: Museu do Índio

Há quilômetros e quilômetros dali, a noroeste de Cuiabá, estações telegráficas inauguradas pela Comissão Rondon (1908-1915) também levavam consigo novos hábitos e costumes, entre os quais, o da prática de esportes. Nesses casos, quase poder-se-ia dizer que esportes chegavam através de um fio. Após o estabelecimento de estações telegráficas, logo se providenciava a criação de núcleos populacionais nas suas imediações, cujo propósito era “disseminar a civilização no sertão”. Para o “progresso moral e mental” – conforme diziam – criavam-se escolas que, entre outras coisas, ensinavam a ginástica sueca e o futebol.

Fotografias e filmes documentários produzidos pela Comissão Rondon registraram alguns dos primeiros contatos de povos indígenas com os esportes. Acima, “índios Paresi jogando futebol”. Fonte: Museu do Índio

Apesar de em larga medida ter sido disseminado com propósitos coloniais, o esporte foi criativamente apropriado por povos indígenas. Contrariando intenções iniciais pelas quais tais práticas foram difundidas, atualmente, elas servem a causas muito diversas, desde mobilizações políticas mais gerais até o fortalecimento de identidades étnicas. No século XXI, gostemos ou não, esportes também constituem parte das mais autênticas tradições indígenas – se é que ainda faz algum sentido falar em “autenticidade” de tradições.

Meninas Caiapó, como quaisquer crianças brasileiras, ou quase, jogam futebol com bola improvisada em São Felix do Xingu, no Pará. Fonte: Ricardo Moraes / Reuters (UOL)

_________________
[1] Interessados em mais detalhes sobre o assunto, podem consultar em breve artigo de minha autoria, na Revista Pensar a Prática, número especial, no prelo: “A igreja, o Estado e a bola: história do esporte entre índios do Brasil Central” (http://www.revistas.ufg.br/index.php/fef).


1949: pílulas sobre o esporte em Belo Horizonte

12/12/2011
por André Schetino
O ano vai terminando, e com ele meu último post da temporada 2011 aqui do História(s) do Sport. Recebi por email a indicação do vídeo abaixo, que divido com vocês. Trata-se de Belo Horizonte em 1949, em um filme produzido pelo Escritório de Serviços Estratégicos Americanos em colaboração com o Escritório de Coordenação dos Negócios Inter-americanos dos E.U.A.
Vale lembrar que que o período em questão é de grande desenvolvimento para a cidade, marcado pela industrialização, os investimentos do Prefeito Juscelino Kubitschek e a busca por parceiros comerciais para a capital mineira, naquele momento a 7ª do país e com pouco mais de 200mil habitantes.
O vídeo é longo, são 17 minutos ao todo (divididos em 2 partes), e aborda diversos aspectos do desenvolvimento de Belo Horizonte. Na primeira parte o destaque é a indústria da mineração, que alavancava a economia do Estado. Destaco a segunda parte do vídeo, especialmente a partir dos 5’22” onde o lazer e o esporte entram em cena.
Primeiro ao mostrar o Parque Municipal, que podemos considerar como o berço do esporte na cidade. Lá ocorreram competições de ciclismo, jogos de futebol, patinação, tenis e muitos outros. O Parque até hoje é um dos espaços privilegiados para o lazer na cidade, famoso por estar sempre lotado aos domingos para os passeios em família ou de casais de namorados.
Além disso, o Minas Tennis Clube, que já foi tema do meu segundo post aqui no blog sobre os clubes esportivos da cidade. As imagens são belíssimas, com destaque para as exibições de ginástica. No Iate Clube, na recém construída Pampulha, os esportes náuticos faziam sucesso àquela época. Além, é claro, do Cassino (onde hoje se localiza o Museu de Arte).
Desejo a  todos os leitores ótimas festas de fim de ano, e um 2012 com muitas alegrias. Um abraço!

Em favor do cotidiano: lazer e políticas culturais em Goiânia

08/12/2011

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

É com grande alegria que compartilho aqui mais um trabalho, dessa vez, dedicado a estudar os equipamentos culturais de Goiânia, bem como seu modo de distribuição pela cidade e suas relações com as politicas de lazer e de cultura: “‘Em favor do cotidiano: lazer e políticas culturais em Goiânia” (Ed. da PUC-Goiás, 2011).

O livro é resultado de uma pesquisa realizada ao longo de 2010, com apoio da Rede Cedes, Centro de Desenvolvimento do Esporte Recreativo e do Lazer, do Ministério do Esporte.

“Quantas instalações dedicadas às artes, à cultura e ao lazer existem em Goiânia? Onde estão localizadas? Quais os critérios que orientam suas formas de distribuição social e geográfica? Para responder tais perguntas, este livro realiza um inventário dos equipamentos culturais de Goiânia, analisando-os à luz do contexto social mais geral da cidade. Cruzando e confrontando informações diversas, avaliaram-se as oportunidades disponíveis aos cidadãos de Goiânia para o acesso e o usufruto do lazer e da cultura. Nesse sentido, o esforço das políticas culturais da cidade aparece como veículo privilegiado para o atendimento das expectativas de consumo cultural dos privilegiados. Grupos com elevado poder de compra, moradores das áreas nobres e muitos anos de escolaridade são, em suma, os principais beneficiados por essas políticas. De que maneira então o poder público deve subsidiar ações nessa área? Como o Estado deve assumir o compromisso com a promoção cultural? Em favor do cotidiano: lazer e políticas culturais em Goiânia oferece suas reflexões a respeito”.

Para fazer download do livro completo, clique Em Favor do Cotidiano


“Os Trombadinhas” (1979)

05/12/2011

 

Ana M. Nascimento e Silva, na personagem de   “Arlete:        “- Você é o Pelé?

Edson Arantes do Nascimento, no personagem de “Pelé”:       –  Não, eu sou o Jô Soares,  sua piranha!”

 

Este diálogo, na parte final de “Os Trombadinhas”, consta de uma lista no you tube, intitulada “As 10 maiores pérolas do cinema nacional”… merecidamente  (http://www.youtube.com/watch?v=bmg026ejP7k&feature=player_detailpage).  E não é o único atrativo desse filme de 1979, dirigido pelo insuspeito Anselmo Duarte. Trata-se, inclusive, de seu último longa metragem. A bem da verdade, muitos acham que não se trata de um desfecho de ouro na brilhante carreira do ator/diretor que, nada mais nada menos, é o ganhador do maior prêmio já recebido por um filme nacional, a Palma de Ouro de Cannes, pelo Pagador de Promessas, de 1962. Opinião por opinião, lá vai a minha: é imperdível!

Não se trata de um ‘puta’ filme… longe disso. Mas 32 anos depois, essa fita ganha traços de registro histórico, elementos de saudosismo e um charme cômico impagável. Para além da antológica sequencia acima resumida, outras tantas merecem destaque na galeria de passagens memoráveis do nosso cinema. E a história?  Pueril e às raias do non sense.

Um empresário, vivido por Paulo Goulart, encontra-se num carro que atropela um jovem meliante em fuga, um trombadinha. A partir daí o empreendedor assume a causa desses meninos. Após diálogos inverossímeis com um juiz e policiais, resolve escalar Pelé para ajuda-lo na tarefa; mas como assessor da policia!!  Edson Arantes, interpretando Pelé, passa a acompanhar “Bira”, personagem do ator Paulo Vilaça, o qual vira seu ‘parceiro’ de rondas e perseguições. Já na primeira carreira atrás de um suspeito, Pelé se vê frustrado pela agilidade do pequeno assaltante. Pelé não jogava mais, tinha acabado de voltar do Cosmos (o que é mostrado no início da produção), portanto, admite que já “não está em forma”. Nesse momento há um corte para uma sequencia na qual ele volta a treinar… para poder dar conta de alcançar os ágeis trombadinhas!

É isso, o filme é um “policial”, no qual o rei do futebol coloca todo o gênio que desenvolveu nas quatro linhas a serviço da polícia, em nome da causa da salvação das criancinhas. É um filme com tese social. O problema, como defende o rei, não são as crianças, mas os verdadeiros criminosos, adultos, que as exploram. Dentre essas figuras surge um intermediário do varejo, o seu “Manteiga” (Sergio Hingst), e um grande empresário, Renato (Francisco Di Franco). Ambos acabam mal, por conta da ação detetivesca e heroica do craque. Seu manteiga é uma espécie de versão paulista do velho Fagin, o líder do bando de delinquentes juvenis da história de Oliver Twist, escrita por Dickens, ao fim da primeira metade do XIX.

            Há, como mencionamos, indeléveis traços de época. Todos, quase literalmente, usam calças boca larga; referir-se a Pelé como “negão”, a um de seus pupilos negros de “zulu’, a um outro de “crioulinho’ ainda não era politicamente incorreto. A menção velada, mas inequívoca ao comércio de cocaína é verbalizada de forma, hoje, ridiculamente cifrada. Renato, o vilão mor convida um empresário ganancioso e inacreditavelmente ingênuo a “diversificar” seus negócios:

“- Bota pó nessa jogada que você vai logo ter mais capital! (…)

Talco, pó de arroz…”

Esse era um negócio mais sério, só para os bandidos “barra pesada”. A película inclui ainda sequencias de perseguição em carros e hilárias cenas de briga. Nestas, Pelé faz um misto de lutador de Kung fu e Homem de seis milhões de dólares (a referência a essa série da década de 1970 parece clara demais; desde as sequencias de saltos e “dribles” em câmera lenta   – o maior recurso técnico de então para ilustrar as habilidades biônicas do personagem Steve Austin-,   ao modelito usado por Pelé, um conjunto bege, que é a cara do guarda roupas do ciborgue americano).

Pelé, o empresariado consciente, a polícia (devidamente reforçada pelo detive/jogador), fazem sua parte. Mas é preciso mais. Apesar da boa vontade desse escrete do bem, o problema persistiria, como é explicitado na última tomada.  Haveria muitas explicações para essa permanência, mas fico com aquela que remete à densidade intelectual dos perpetradores do escuso negócio de exploração de menores, ilustrada nesse diálogo:

Gibi (bandido concorrente de Manteiga):   “ – [Arlete] tinha um encontro comigo e nem deu sinal [já estava presa].   O manteiga deve ter armado uma arapuca pra ela!

Bandido 2:   – C´est la vie,  c’est la vie, mon chéri!.

Gibi: – Para com essa merda de inglês!

Bandido 2: – Não é inglês, seu burro! É alemão!”.

 

Se não der vontade de ver o filme depois disso, me demito-me desse blog,  entende?

Grande abraço; bom natal e fim de ano para todos!

 

Fontes:

http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/trombadinhas/trombadinhas.asp

http://seriesedesenhos.com/br2/br2/index.php?option=com_content&view=article&id=2533&Itemid=68

http://terrivialidades.wordpress.com/2011/06/20/os-trombadinhas-1979-um-manifesto-ideologico-sobre-a-delinquencia-juvenil-na-sociedade-contemporanea-e-o-pele-policial/

http://www.revistazingu.net/2011/10/os-trombadinhas-2

Consultadas  em 04 12 2011.


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