Jorge Ben e o surfe

09/11/2009

Por Rafael Fortes

Jorge Ben sem óculos escuros, de short, na praia, cantando “a onda do momento, o surfe”? Pois, é.

Conhecido por numerosas composições sobre o futebol e o Flamengo, no fim dos anos 1970 o papa do que hoje se chama samba-rock rendeu-se ao surfe. Naquele momento, a modalidade vivia seu primeiro boom no Brasil. O título, “Waimea 55.000″, é uma referência ao campeonato Waimea 5.000, etapa do Circuito Mundial de surfe então realizada no Rio de Janeiro e patrocinada pela loja carioca Waimea Surf Shop. “Eu vou surfando e cantando / eu vou”, versava meu cantor favorito na faixa, divulgada no programa Fantástico, da TV Globo, em 1979, e disponibilizado no Youtube:

O clipe é uma pérola. Para não me estender muito, fico com três observações. Primeiro, o vídeo conta com algumas características típicas de boa parte dos filmes de surfe, como a exibição de mulheres de biquíni e os enquadramentos de câmera em close-up nas bundas femininas.

Segundo, contém uma imagem do frescobol – aquele que, há quem alegue, é o único esporte inventado no Rio de Janeiro. E uma sequência de surfe de joelho (kneeboard), uma das diversas modalidades esportivas que aproveitam as ondas.

Terceiro, mostra o processo artesanal de fabricação de pranchas, mencionado ironicamente na letra: “essa prancha parece até um submarino, aí / isso é que dá fazer prancha no fundo do quintal, Paulinho”.

Comprovando a força da febre do surfe no Rio de Janeiro e em outras cidades do litoral brasileiro, no ano seguinte, no LP “Alô Alô, Como Vai”, o atual Benjor gravava “Solitário Surfista“:

A letra, igualmente simpática à modalidade, convida o “solitário surfista” a exibir seu repertório: “e mostre um front side, um cut back / Um back side, um loop”

*  *  *

A ideia de fazer este texto surgiu meses atrás, quando vi o vídeo de Waimea 55.000″ (que eu desconhecia) no excepcional blogue Goiabada, do surfista e jornalista Julio Adler. Embora fã de Ben, eu tampouco conhecia “Solitário Surfista”, do disco “Alô Alô, Como Vai” (1980). Passei a conhecer nos comentários do mesmo post do Goiabada, graças à contribuição do leitor Gabiru. Bênção ao potencial e à prática colaborativa da internet!

Nota: de acordo com texto de divulgação disponível no sítio do cantor, “Waimea 55.000″ foi incluída como faixa-bônus no relançamento em CD de “Dádiva”, de 1984. Na discografia oficial, que se atém aos lançamentos originais, a canção não consta no LP.


Esporte e arte na Inglaterra do século XVIII

02/11/2009

por Victor Andrade de Melo

 

Na Inglaterra, em 1688, depois de anos de tensões, nas quais a questão religiosa foi central, James II é deposto e substituído por Guilherme de Orange, casado com a filha do antigo rei, Maria II, que assumiu, conjuntamente com seu marido, o trono. Com a assinatura da Declaração de Direitos, que fora aprovada no Parlamento, encerra-se o Absolutismo Inglês.

 

mary

Rainha Maria II

Depois da Revolução Gloriosa, burgueses e proprietários de terra foram alçados ao controle do poder, representados por um Parlamento que passa a submeter a Coroa. Esse pioneirismo vai criar as condições econômicas e culturais para que o capitalismo possa se desenvolver; a Inglaterra será a ponta de lança da Revolução Industrial.

Nesse cenário, na Inglaterra do século XVIII precocemente se estabeleceu a configuração do lazer, a nova dinâmica da diversão no âmbito da modernidade. Esse contexto sociocultural, em grande medida, nos permite entender o desenvolvimento pioneiro do esporte, algo que esteve claramente representado nas obras de arte do momento. Vejamos, por exemplo, “Um dia esportivo em Bidston Hill” (1865), de William Davis.

davis

Óleo sobre tela, 30,1 x 40,1 cm. Acervo de Tate Colletion/Londres/Londres

Nos anos iniciais do século XVIII, o termo “sporting” era usado para designar as atividades de diversão que a gentry realizava no campo, comumente com o uso de animais: especialmente corridas de cavalo e caça, mas também a pesca e, algumas vezes, brigas de animais, estas de caráter mais popular. Muitos foram os quadros que expuseram tais costumes sob a insígnia de esporte.

Uma bela obra que bem representa um desses costumes é “Membros do Carrow Abey Hunt”, de Philip Reinagle, (1780, óleo sobre tela, 11,7 x 15,5 cm; acervo de Tate Colletion/Londres/Londres),  que retrata uma conversa de distintos cavalheiros, membros de um clube de caça; ainda compõe a cena seus cães farejadores.

reinagle

Trata-se de uma clara imagem do novo estilo de vida “esportivo”, comum entre os privilegiados economicamente. Esse artista, aliás, pintou muitos outros quadros com temas semelhantes.

Outra atividade comumente retratada foi a caça à raposa. Em “A caça à raposa do Conde de Darlington” (1805), de John Nost Sartorius, vemos o futuro primeiro Duque de Cleveland cercado de correligionários e cães, preparando-se para mais um dia de atividade na sessão de 1804/1805.

 sartorius

Essa busca do campo para atividades de diversão tinha sentidos simbólicos claros: era um elemento de status e distinção, não acessível a todos, nem mesmo a uma parte da burguesia. Os quadros do século XVIII, contudo, também retratam outras atividades menos apreciadas pelas elites e de maior popularidade entre outras camadas sociais. Por exemplo, é de se destacar o grande número de quadros de James Pollard em que os galos de briga são os personagens centrais, retratados como verdadeiros esportistas. Esse é o caso de “Herói de Yorshire” (1792).

pollard

Outro artista cuja obra é de grande interesse para pensarmos essas práticas populares é Samuel Henry Alken. Destacamos “Luta de touros” (c.1800) e “Luta de ursos” (c.1800).

luta.touros

urso

 Na verdade, Samuel estava longe de exaltar essas atividades e procurava expressar a crueldade que existia ao seu redor. Devemos lembrar que seu pai, Henry Thomas Alken, também pintor e seu professor, chegou a escrever, em 1825, o livro Os esportes nacionais da Grã-Gretanha, fartamente ilustrado, no qual comenta e critica essas antigas formas de diversão. Os Alkens produziram muitas gravuras, grande parte delas com tom irônico, exibindo e contestando vários aspectos das brigas de animais.

Esse olhar tem relação com o aumento de iniciativas de controle, diretamente relacionadas à configuração dos novos sentidos e significados da modernidade ligados aos interesses da consolidação do capitalismo, ao novo formato do espaço urbano (a cidade industrial), à ideia de autocontrole tão propagada no âmbito do espírito Vitoriano.

A partir de 1835, as brigas de animais se tornaram ilegais na Inglaterra, mas, de fato, elas persistiram durante muitos anos depois. As práticas tradicionais não foram eliminadas de uma hora para outra, até mesmo porque faziam parte do cotidiano e de uma tradição eminentemente masculina, não poucas vezes também atraindo e envolvendo indivíduos das elites. Algumas lutas, como o boxe, ainda que bastante modificadas nesse processo, ainda mantém marcas desse passado mais distante.

 boxe 

Enfim, a construção de um novo modelo de sociedade e de cidade, as tensões acerca das definições de novos símbolos sociais, passava pelas atividades de lazer e por aquilo que era considerado, ou não, como esporte, que adquiriria novos formatos no decorrer do século XIX, já próximos do que hoje entendemos como tal, isso é, mais “civilizado”.

 mulheres

 


Honduras: Golpe e Futebol

26/10/2009

Desde 28 de junho as ruas de Tegucigalpa foram palco de diversas manifestações. Com o golpe que depôs Manuel Zelaya ainda em seus pijamas, ondas de violência e conflito tomaram por diversas vezes as ruas, seguidos por medidas como toque de recolher e restrições à atuação da imprensa. No entanto, na noite do dia 14 de outubro, a manifestação popular que tomou as ruas era de outra estirpe. Nada de gás lacrimogêneo ou agressão policial. O que havia era a festa pela classificação da seleção nacional para a Copa do Mundo de 2010.

Com a vitória da seleção sobre o tradicional rival El Salvador e um gol dos Estados Unidos contra a Costa Rica nos últimos minutos de jogo, os hondurenhos carimbaram seu passaporte para a África do Sul e por uma noite seus problemas políticos foram deixados de lado, com partidários de ambos os lados se abraçando em uma fraternal festa popular.

Torcedores hondurenhos comemorando a classificação para a Copa do Mundo de 2010 nas ruas de Tegucigalpa.

Torcedores hondurenhos comemorando a classificação para a Copa do Mundo de 2010 nas ruas de Tegucigalpa.

No dia seguinte, no entanto, a festa já tomava contornos políticos mais claros e a disputa passava a ser sobre quem receberia os louros pela classificação, Manuel Zelaya ou Roberto Micheletti. Como presidente em exercício, Micheletti saiu na frente nessa disputa. Decretou feriado nacional no dia 15, uma quinta-feira, e foi ao ar en rede nacional de televisão para celebrar a conquista hondurenha.

Micheletti ainda fez com que o ônibus da delegação, que chegava na capital e se dirigia à catedral de Tegucigalpa agradecer à Nossa Senhora de Suyapa, padroeira do país, mudasse seu percurso e fizesse uma parada junto ao palácio onde funciona o governo, para que Micheletti recebesse os jogadores.

Já Zelaya, em sua posição de exilado político em sua própria casa, se reuniu com alguns colaboradores na embaixada brasileira para assistir a partida e, alguns dias depois, teria recebido a camisa autografada do capitão da equipe hondurenha, Amado Guevara, e posado para fotos. O presidente deposto afirma que os jogadores da seleção nacional são heróis que resistem ao golpe, mas que não possuem a liberdade para expressar suas oppiniões.

A relação entre a federação de futebol e o governo é profunda em Honduras, e não apenas no pós-golpe. A Federación Nacional Autónoma de Fútbol de Honduras (FENAFUTH) é autônoma só no nome. O presidente da federação, Rafael Leonardo Callejas Romero, fora presidente do país de 1990 a 1994 e José Rafael Ferrari, presidente da comissão de seleções da entidade, é um dos barões da mídia hondurenha, possuindo os maiores canais de televisão do país, além de um grande aliando de Roberto Micheletti. Rafael Callejas, acusado de corrupção ao abandonar o governo pelo derrotado Partido Nacional, Callejas buscou refugio junto ao futebol hondurenho. Mesmo no governo de Zelaya, do Partido Liberal, a federação hondurenha buscou ligações com o governo. Callejas nomeou Zelaya como “Presidente de Honra” da seleção, título que Zelaya perdeu juntamente com o golpe.

A realidade é que o binômio futebol e política andam juntos há anos em Honduras. Há 40 anos atrás, uma disputa de futebol entre Honduras e El Salvador pelas eliminatórias para a Copa de 70 – a mesma que ocorrera em 14 de outubro último – foi o estopim de uma breve batalha conhecida como Guerra do Futebol, sobre a qual já escrevi em outro artigo. Agora, como há 40 anos, o futebol é envolvido em um novo conflito em Honduras, ainda que de ordem interna. Futebol e política, uma vez mais, andam de mãos dadas.


Peru y Palermo – A batalha monumental

19/10/2009

Por Alvaro Vicente do Cabo

A Argentina na semana passada confirmou sua presença na Copa do Mundo da África do Sul, com muito suor, rivalidade, polêmicas e “chupadas” maradonianas, após a vitória sobre o Uruguai em mais uma centenária batalha com muita pancadaria.
Entretanto, para os argentinos antes do clássico rio-platense tinha o Peru no meio do caminho, rivalidade também histórica e que gera confrontos acirrados e controvertidos.
Quarenta anos atrás os argentinos ficaram de fora do seu último torneio mundial, como ocorrera em 1938, 1950 e 1954, porém nesses anos não disputaram as eliminatórias, ao serem desclassificados pelos peruanos que tinham como craque Teófilo Cubillas e jogadores como Perico Leo, Gallardo e Chumpitaz.
Os argentinos estavam no Grupo 1 com Bolívia e Peru e após serem derrotados por ambas equipes na primeira fase, venceram os bolivianos e empataram com os peruanos no dia 31 de agosto de 1969 com o placar de 2 x 2 em pleno Estádio de la Bombonera. A forte equipe peruana classificou-se para a Copa do México sob o comando técnico do gênio Didi, craque bi-campeão nas Copas de 1958 e 1962, exaltado em todo país, inclusive pelo General Alvarado no retorno a capital Lima.
Na Copa do Mundo da Argentina em 1978 realizada no auge da ditadura militar de Jorge Videla, com certeza ocorreu a disputa mais polêmica. Em uma partida muito contestada que o jornalista e advogado argentino em seu livro Pablo LLonto “La verguenza de todos” sobre o torneio mundial de 1978 qualifica como “el partido mas largo de la Historia” , os argentinos derrotaram por 6×0 uma boa equipe peruana, classificando-se assim para disputar a final contra a Holanda e eliminando o invicto Brasil no saldo de gols. Decorridos mais de 30 anos, as acusações de que o resultado tinha sido acertado, de que o goleiro Quiroga, argentino naturalizado peruano teria facilitado, que o Peru teria recebido carregamentos de cereais argentinos para entregar a partida pairam sobre um obscuro jogo de futebol e a Argentina conquistou seu primeiro título.
Nas eliminatórias para a Copa do México de 1986, argentinos e peruanos disputam novamente uma vaga. Em partida emocionante realizada em 30 de junho de 1985 no Estádio Monumental de Nuñez os argentinos precisavam do empate e perdiam a partida até os 36 minutos do segundo tempo, quando o atacante Ricardo Gareca empatou o jogo. É importante lembrar que Maradona estava em campo e que 1 ano depois seria o grande maestro na conquista do bi-campeonato mundial argentino.
Neste sentido, o jogo Argentina e Peru realizado no sábado dia 10 constituiu em mais um capítulo importante nas disputas futebolísticas entre as duas seleções. Apesar do Peru se encontrar na lanterna das eliminatórias sul-americanas, novamente o confronto ganhou contornos de dramaticidade.
Acompanhando a imprensa argentina nas duas semanas anteriores a disputa percebe-se uma crônica de um herói anunciado, Martin Palermo. Sim ele mesmo, “grandalhão”, “desengonçado”, que perdeu três pênaltis pela seleção na mesma partida 10 anos atrás, rótulo que não prescreve. Maior artilheiro da história do Boca Juniors, nos 10 dias que antecederam o confronto com os peruanos, “San Martin” era quase uma unanimidade desde as ruas de Buenos Aires até o calçadão da austral Ushuaia, passando pelos guias turísticos da geleira de Perito Moreno Os “hinchas” do River Plate também clamavam por “San Martin Palermo”, o libertador.
Após vencer Gana em um amistoso no dia 30 de outubro com dois gols do centroavante o diário “Olé” estampou “ Alto Peru – La Seleccíon cascoteó el área a un Ghana flojito y Palermo tuvo siempre ahí, hizo los dos goles e demonstró que pode ser el 9 grandote para acompañar a Messi. Insua fué el outro destacado en Córdoba”.
Um incrível gol de Palermo no clássico contra o Vélez Sarzfield dia 04 , de cabeça quase do meio campo, virando a partida para o Boca que não estava bem no Torneo Apertura 2009 na Bombonera, manteve o atacante na mídia impressa e televisiva, além das discussões nos bares.
A semana que antecedeu a partida foi marcada por matérias sobre o experiente jogador que com 35 anos se transformou em uma demanda da opinião pública argentina, apesar de ao longo da sua vitoriosa carreira ter sido muito criticado.
Todavia, o técnico Maradona deixou o jogador no banco de reservas, aumentando a expectativa dos torcedores presentes n Estádio e em toda Nação do Ushuaia a Tucuman.
Um jogo de baixo nível técnico, porém emocionalmente intenso caracterizou mais essa “batalha monumental”. No primeiro tempo um sonolento 0×0 entre as duas seleções, com ligeiro domínio argentino.
Um gol do atacante Gonzalo “Pipita” Higuaín recebendo passe de Pablo Aimar, que retornava a seleção albi-celeste deixou os argentinos em vantagem logo aos dois minutos do segundo tempo, e parecia indicar que a o Peru seria batido facilmente. Porém a “esquadra inca” equilibrou a partida e passou a pressionar a seleção argentina, fato que deixou perplexos a todos presentes no Estádio.
A tormenta que caía na cidade de Buenos Aires, além da pressão peruana e a entrada do atacante Palermo aumentaram o clima dramático da partida.
Aos 45 minutos, após falha do experiente Mascherano, o peruano Rengifo marcou de cabeça o gol de empate que parecia estabelecer o resultado final. Incredulidade, revolta e tristeza entre os argentinos
De repente em um bate e rebate na área peruana aos 47 minutos da etapa final, surge o pé de Martin Palermo que impedido coloca a bola nos fundos das redes e a Argentina com uma importante vantagem para o jogo com o Uruguai. Festa, alívio e devoção ao herói anunciado que cumpria sua difícil tarefa. Maradona se joga no gramado encharcado, Palermo vira segundo a imprensa desde San Martin o libertador até Martin Fierro , o herói nacional, a Argentna derrota o Peru por 2 x1. Coisas do futebol.
O jornal La Nacion estampa no dia seguinte a seguinte manchete na primeira folha “ Outro milagro de Palermo salvó la Argentina del papelón. A los 47 minutos del segundo tiempo, bajo un temporal, el hombre de los goles impossibles hizo el triunfo por 2-1 sore Perú y permite soñar con la classificación; el rendimiento, en cambio, volvió a dejar muchas dudas”. No caderno de esportes, página 2: “Agónico. Martin Palermo rescató al selecionado del abismo. La Argentina estaba perdida, condenada a un empate con Perú que le dejaba al borde de la eliminación, pero apareció el N. 9 para salvar la muy mala actuación de un equipo de carácter esquelético”
No periódico Olé: “Palermo Inmortal. El grito de Palermo fue el grito de todos. El Loco metió un gol agónico que mantiene con vida la Selección y le da outro giro a su propria leyenda. Deche jugar en Uruguay.”.
“ El hombre que hace llover”, título da crônica escrita pelo jornalista Juan Pablo Varsky para o La Nacion no dia 12 de outubro não jogou contra o Uruguai, mas com certeza seu decisivo gol será lembrado e a sua trajetória legendária continuará descrita como heróica pela imprensa argentina. Palermo ajudou bastante Maradona a conseguir a classificação, que aproveitou para mandar indelicadamente todos seus críticos mamarem, agora resta saber se o carismático jogador também disputará uma Copa do Mundo, ou ficará em Buenos Aires “chupando o dedo”.

Palermo LA NACION


A LETRA E A BOLA II

13/10/2009

ESCRITORES E JOGADORES: AS EXPERIÊNCIAS DE CAMPO

Foto: Tiago Santana

Foto: Tiago Santana

 Por Edônio Alves

No primeiro artigo escrito para este blog, no qual nos propusemos realizar uma conversa sistemática sobre a relação do futebol com a literatura – texto intitulado: A letra e a bola: futebol e literatura no Brasil -, apresentamos a idéia geral que a meu ver preside a interação entre essas duas formas de arte e de comunicação estética.

Dizíamos, a princípio (clique aqui para ler o texto), que neste particular, a relação entre os dois campos se dá em dois níveis principais. Um estrutural – a literatura apanharia o futebol enquanto matéria significante, tema do nosso primeiro ensaio -, e outro motivacional: o futebol entraria na literatura como uma extraordinária fonte de preocupações temáticas, com toda a sua gama (ou amálgama) de personagens, tipos humanos, situações, aporias existenciais constitutivas, vicissitudes potenciais que encena, desafios socioculturais que coloca a nossa frente; enfim, o futebol se apresentaria à literatura como uma espécie de espaço de representação em que a sua dimensão ficcional se realiza na prática vivencial enquanto um jogo.

Dizíamos também que essas duas formas de linguagem se constituem de elementos estruturais em comum: tanto num jogo de futebol como numa peça literária, por conseguinte, há sempre uma narração, e, portanto, um narrador ou vários narradores-autores em campo: os jogadores, os locutores esportivos, os repórteres de TV etc, pelo lado do futebol; e as figuras textuais de linguagem – um técnico, um juiz, um goleiro, um torcedor, um observador distanciado e onisciente, conforme o caso, enfim – pelo lado da literatura.

Dizíamos que também nos dois casos, há sempre um tempo a ser decorrido e que, portanto, a coisa se transforma num domínio em que o tempo precisa ser dominado, embora isso seja impossível técnica e conceitualmente falando. Falávamos ainda que se há sempre uma narração, existem personagens e, a partir deles, ações que se desenvolvem no tempo e no espaço; e que, por último, tudo isso  forma um enredo em que se constituem uma partida de futebol em si, ou uma peça literária em particular, seja ela um conto, um romance ou um poema, gênero este de que demos um exemplo demonstrativo naquela oportunidade.

Vamos, portanto, desta feita, tratar aqui da manifestação prática destes aspectos todos da relação da literatura com o futebol. Isto é, tomarmos a partir da análise rápida de um gênero literário – o conto -, a questão no seu segundo desdobramento já apontado: o aproveitamento do futebol pela literatura no seu âmbito motivacional, na sua capacidade de haurir do rico universo do futebol a sua matéria temática de expressão.

E já que vamos tratar do âmbito motivacional, ou seja, dos aspectos do motivo ou do assunto, tomemos como exemplo demonstrativo o tema da motivação mesma, entendida esta como o ato ou o efeito de motivar, acepção tal que, oriunda do campo da psicologia humana, quer expressar a idéia de ter-se motivo para agir, fazer algo, empreender ações no tempo e no espaço, enfim, por obra da nossa força interior (o ânima para os gregos) fazer as coisas andarem. E isto, acrescento, valendo tanto para a vida na sua concepção geral quanto para o jogo de futebol, na sua configuração particular.

Pois bem! Escolhemos aqui dois contos de futebol que pode nos auxiliar no entendimento das questões acima propostas para a interação literatura e futebol. O primeiro chama-se “Novatos”, de autoria do escritor gaúcho Cláudio Lovato Filho. O outro intitula-se “Na boca do túnel”, do escritor carioca Sérgio Sant’ Anna. Ambos têm em comum o fato de serem narrativas ficcionais que têm como personagem-chave a figura do treinador de futebol e, por intermédio dele, expressarem uma reflexão refinada sobre o universo intrínseco do jogo de futebol, mas, também, a partir dele, abordarem a esfera extrínseca da vida no seu âmbito mais geral. Resumindo para simplificar: discutem, por intermédio da ficção literária, o jogo da vida e o jogo da bola.

Começaríamos dizendo que o conto de Cláudio Lovato Filho toma o tema da motivação por um dos seus aspectos correlatos: a influência do tempo sobre ela; ou dito de maneira mais genérica, a ação do tempo sobre todas as coisas; as físicas e as metafísicas; as materiais e as imateriais; todos os corpos e todos os espíritos, enfim. Só que o viés da abordagem – diretamente intrínseca ao universo do futebol -, foca o conflito dilemático entre a paciência de esperar para agir versus a urgência de realizar, e é aqui que flagramos, através da segura exposição de um narrador em terceira pessoa, as reflexões do velho treinador de futebol, Ary Santamaria, às voltas com uma questão atinente ao escopo do futebol, mas, também, a todo o universo como um todo, no qual habitamos e no qual só temos uma atitude geral a tomar enquanto nele vivemos: ou realizamos as coisas no seu devido tempo ou esperamos o tempo certo para realizá-las, coisa que nunca sabemos ao certo.

 A questão que se coloca para o personagem em questão é a seguinte, nas palavras do próprio narrador da história:

“O velho treinador tinha jogadores demais que entravam muito bem durante a partida, mas que, quando colocados em campo desde o início, sumiam em pouco tempo, murchavam, tornavam-se menos do que medíocres. Eram prata-da-casa, promessas de craque, o clube apostava neles, a torcida também, mas ainda não estavam prontos. O legendário Ary Santamaría, treinador de muitas batalhas, sabia que só o tempo faria com que amadurecessem. Mas estava preocupado com as expectativas criadas em torno deles. O clube queria resultados imediatos”.

A partir desse problema prático, toda uma ampla reflexão sobre a vida no geral, refletida no jogo de futebol em particular, é acionada neste conto que realça o poder da experiência transfigurada literariamente na pessoa de um treinador de futebol, para demonstrar uma bem elaborada intersecção do futebol com a vida; da palavra literária com o futebol, e deste com a frágil condição humana.  Se não, vejamos, na seqüência da abordagem pelo técnico da questão do aproveitamento, no jogo, dos seus ainda imaturos jogadores:

“Para muitos era um mistério do futebol. Não para o experiente Santamaria. Ele sabia do que se tratava. Já enfrentara a dificuldade muitas vezes antes. Tinha a ver, acima de tudo, com motivação. Os garotos precisavam sentir a urgência de encontrarem uma solução para a partida. Quando entravam faltando 25 ou 20 minutos, colocavam fogo no jogo, infernizavam a vida dos defensores adversários, assumiam integralmente a missão de salvar o time. Também tinha tudo a ver com o fato de entrarem em campo descansados, claro. Pegavam os zagueiros e os volantes já com a língua de fora e barbarizavam para cima deles. Habilidosos, os meninos tinham gás de sobra e um rico repertório de jogadas, e surpreendiam a todos.

“Quando começavam jogando, porém, caíam logo nas garras do sistema defensivo adversário, tornavam-se presas fáceis de zagueiros e volantes rodados. Dosavam mal a energia, corriam demais no início. Com poucos minutos de jogo já haviam informado as técnicos e jogadores oponentes todo o seu acervo de truques com a bola e sem ela. Acabavam sendo anulados com 10 ou 15 minutos de jogo. Eles iam melhorar, claro. Com o tempo aprenderiam a guardar forças para distribuí-la ao longo de toda a partida, simplificariam algumas jogadas, guardariam aquele drible especial para o momento mais oportuno, aprenderiam a ser venenosos e a dar o bote na hora mais apropriada, na situação mais aguda. Aprenderiam a se fazer de mortos. O jogo jamais perderia a graça para eles só por estarem muito marcados. Mas o clube queria resultados a curto prazo”.

O problema da motivação – e da ação do tempo sobre ela – é enfrentado pelo treinador Santamaria na perspectiva de que essa ação é benéfica às coisas; pelo ângulo de que há sempre um tempo certo para se fazer algo, consistindo a sabedoria humana na paciência bíblica de saber esperar para agir corretamente, conforme o ensinamento do Eclesiastes de que “há tempo para se plantar e há tempo para se colher”, e por aí vai.

Tanto que num certo momento da narrativa, ele se pega pensando na ex-mulher, Júlia, já falecida, e do quanto ele próprio já tinha sido um jovem precipitado e impaciente. Enfim: o encaminhamento da narrativa se dá para uma saída otimista da questão para a qual o narrador aponta um caminho alvissareiro:

“O velho treinador Ary Santamaria pensou então que no ano seguinte ele também teria de estar melhor. Porque tanto os seus garotos quanto ele próprio, assim como todas as outras pessoas, seriam sempre novatos nesta vida”.

“Apesar da melancolia que não parava de crescer dentro dele, Santamaria ainda sentia-se abraçado pela confortante sensação de que sempre se poderá ficar melhor enquanto houver tempo e se tiver espírito inquieto”.

 Já no conto de Sérgio Sant’ Anna, contudo, o problema toma outra direção. A peça é uma narrativa refinadíssima em que um técnico de futebol, transfigurado em narrador de primeira pessoa – um narrador-personagem – faz também apuradas reflexões sobre a filosofia do jogo da bola e da própria vida, num sentido mais geral, quando esta e este, por razões de contingências especiais, formam um conjunto de fatores sobre os quais se fundem para sustentar uma existência particular. Trata-se aqui, mais particularmente ainda, das experiências de um treinador que assiste a derrota por 7 a 1 do seu time de subúrbio frente a um dos grandes clubes do futebol carioca, no momento em que pressente que está prestes, pela chegada da velhice (simbolizada pelos números acachapantes do placar inexorável e injusto), a abandonar não só o campo do jogo, mas, sobretudo, o da própria existência que se esvai.

O tempo da história é o da duração do próprio jogo – desde a preleção para os seus jogadores no vestiário até o seu final, com o Maracanã já às escuras – durante o qual a palavra reflexiva e contundente de um senhor já experimentado na arte de comandar técnica, tática e disciplinarmente grupos heterogêneos de homens em interação, conjectura sobre o sentido ou inutilidade da vida, e, por extensão, do próprio jogo de futebol que a ele lhe dar sentido. Além de – por uma atitude reflexa – refletir sobre a própria validade da reflexão, o que, neste caso, transformada em literatura, implica o próprio papel desta arte como forma de conhecimento humano. Um narrador que muito bem podia ser definido assim, numa operacional paráfrase ao poeta Fernando Pessoa: “O que em mim conta, está pensando!”

 Aqui, pois – em paralelo com a abordagem anterior do mesmo tema – o que está em jogo enquanto investimento temático extrínseco é a motivação para a vida; a busca de um sentido geral para a existência; a redescoberta de um valor essencial à integridade subjetiva com a qual, através dos sentidos que atribuímos às coisas, justificamos a nossa existência no mundo.

 Neste sentido, veja-se um dos trechos da narrativa que aponta justamente para a falta de sentido de todas as coisas, conforme o ângulo que se olha o mundo ou a posição e circunstância em que se encontra o observador:

“Uma reflexão sobre o futebol, num momento depressivo, quando o seu time perde por quatro a zero quase a terminar o primeiro tempo e você está ali, na boca do túnel, no banco cavado no cimento, tendo uma perspectiva do campo da qual se vêem principalmente pernas correndo de um lado para ou­tro em busca de uma pequena esfera de couro, em meio a rugidos ferozes da platéia, pode levá-lo a perguntar-se, numa ânsia súbita de abandono ou entrega ao destino, à velhice, à morte, se faz algum sentido isso: homens e mulheres de todas as idades a gritar numa paixão histérica por algo que não passa de uma bola entrando nesse ou naquele gol? Caralho, para uma pessoa sensata, que diferença isso pode fazer?”

 Contudo faz, sim, a diferença, o buscar sentido para as coisas, mesmo que através de um jogo – no caso o futebol – em que em última instância a vida se representa. Continuemos com as reflexões do nosso treinador-narrador:

“O silêncio, no vestiário, durante o princípio do intervalo, só é quebrado pelas respirações, que demoram a voltar ao normal. O que pode dizer um téc­nico já derrotado no meio tempo? Mandar, no desespero, como um general que reunisse os frangalhos dos seus soldados para a fase decisiva de uma bata­lha em que não pode render-se, que se lançassem todos ao ataque? Como um touro crivado de bandeirilhas que investisse para a morte?

Não, isso só faria aumentar o fragor da nossa derrota.

- Vocês não seguiram minhas instruções – eu disse, frio, mantendo a mes­ma calma que criou um mito em torno da minha pessoa.  – Vamos fazer, agora, como se fosse um outro jogo que ainda estivesse zero a zero. Vamos usar pelo menos isso a nosso favor: a tranqüilidade dos que nada têm a perder.

    – O Jair, por exemplo, está ali quieto, chupando uma laranja. É um indiferen­te ou um estóico, sei lá. Se dependesse dele, seria até possível virar um jogo desses. Bom, não exageremos, não seria impossível, ao menos, reduzir a diferença na contagem?

- Vamos continuar a fazer… Ou melhor, vamos começar a fazer o que eu mandei desde o princípio. Usar os pontas entrando em diagonal, para não le­var mais um monte de gols e pelo menos não perder a dignidade.

Foi o que eu disse, em meio a um silêncio de morte, mas não pude evitar que uma gota de suor pingasse do meu rosto sobre o terno branco. Já não sou mais o mesmo, penso, tirando um lenço azul do bolso.

O que se pode dizer de mim em poucas palavras? Que uso, mesmo nas tardes de verão, um terno imaculado? Que não suo (e para um bom entende dor isso  bastaria)? Que sou uma múmia do futebol que se recusa a morrer (e a vida, para mim, sempre foi o futebol)?”

Com esta indagação pessoal do personagem-narrador  entramos, por fim, no outro aspecto da relação do futebol com a literatura que propugnávamos no texto anterior: o âmbito estrutural que informa estes dois campos de ação e de linguagem humanas, desdobrado na idéia de que a literatura também apanharia o futebol enquanto matéria significante; matéria semiológica sustentada em afinidades constitutivas comuns, pois que a palavra – quando literária – também se sustenta numa relação fluida, sempre em curso, nunca parada, sempre transitiva, do seu corpo físico (o significante lingüístico) para com a coisa que representa (designa): o seu referente a que empresta sentido; o objeto representado. Assim como o futebol, que tem a peculiaridade de ser, na sua multiplicidade fenomênica, uma linguagem singular, posto que não verbal, uma supralinguagem também baseada numa unidade de sentido relacional e objetivamente móvel, cambiante, reversível, que é a relação do corpo humano com uma bola; algo liso e fluido, esférico, sem quinas, pontas, dorso ou face, igual a si mesmo em todas as direções de superfícies.

 Em decorrência disso, dizíamos que a literatura, por ser também uma supralinguagem só redutível a si mesma, está apta a captar o mundo na sua realidade mutável e cambiante, na sua operação alucinante de ser e de não ser, simultaneamente; no seu aspecto de realidade palpável e de irrealidade alucinatória onde, às vezes, o que parece ser, não é; e o que é não parece ser. Uma linguagem esférica, elíptica, portanto, como as curvas de uma bola no ar, apta a produzir, na forma e no conteúdo, a formulação das maiores questões humanas numa operação em que a palavra entra ao mesmo tempo como tema e como veículo deste tema, ou das questões que ele enseja.

 Pois é justamente isso que acontece nessa nossa exemplificação demonstrativa da matéria literária em si mesma – na rápida leitura desses dois contos em análise – com a conclusão das indagações do personagem da história sobre sua própria pessoa; sua condição de treinador de futebol e de narrador literário. Uma boa formalização literária tematizando o futebol em que forma e conteúdo se fundem numa matéria só. Uma matéria que é vida e que é palavra; que é realidade e que é ficção; que, no seu horizonte de limite, demonstra, na prática, que os dois campos mantém uma relação de interação mútua tanto como formas de expressão estética combinatórias e complementares (o jogo dá texto e o texto dá jogo) quanto como fonte de inspiração intrínseca geminada (pode haver jogadas de letra e letra de jogadas) como já demonstrávamos no exemplo do poema do artigo anterior.

Foto: Ed Viggiani

Foto: Ed Viggiani

 Concluamos tudo com a auto-inquirição do nosso personagem-narrador:

 “Eu, um discurso que se articula e se pretende íntegro e real para si e para os outros? Mas não será isso uma convenção, artifício que a qualquer momento poderá estilhaçar-se, esse eu que pronuncia para si e para os outros tal discurso, texto (imaginário?)? Esse eu que se transforma em outro na medida em que dele falo?

 Mas é como se apenas assim, através deste discurso, tornasse-me eu existente, a ilusão se materializasse, o caos se estruturando para formar uma reali­dade além da alucinação. Como se desse modo, somente, pudesse eu sentar­-me outra vez no banco próximo ao gramado, compreender-me dentro de uma função, a de técnico de um time derrotado. Sabendo, estoicamente, que tem de haver alguém que faça esse papel, como tem de existir um modesto bandei­rinha (que às vezes querem enganar), gandulas, espectadores, funcionários do estádio, todos nós acreditando – ou fingindo acreditar – no jogo”.  

 ***

 Para maior aprofundamento no tema, ler:

 CARNEIRO, Flávio. PASSE DE LETRA: FUTEBOL & LITERATURA. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

FRANCO JR, Hilário. A DANÇA DOS DEUSES: FUTEBOL, SOCIEDADE, CULTURA. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PEDROSA, Milton. GOL DE LETRA. Rio de Janeiro: Editora Gol, 1967.

COSTA, Flávio Moreira da. (org.). 22 CONTISTAS EM CAMPO. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

LOVATO FILHO, Cláudio. O BATEDOR DE FALTAS. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.


Cineclube Sport – 13 de outubro – Um dia em Setembro

10/10/2009

Convidamos a todos para mais uma sessão do Cineclube Sport, no dia 13 de outubro, às 18 horas, sala 320f, IFCS/UFRJ.

Nesse mês vamos exibir Munique 1972 – Um dia em setembro, de Kevin Macdonald.

munique
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário, Munique, 1972 – Um Dia em Setembro é mais completa reconstituição de atentado terrorista que chocou o mundo no início dos anos 70. Conheça a verdadeira história que inspirou o recente Munique, de Steven Spielberg. Munique, Jogos Olímpicos de 1972. 8 terroristas palestinos fazem 11 atletas da delegação israelense como reféns. Através de imagens de arquivo, depoimentos de parentes das vítimas, de autoridades e políticos alemães, e do depoimento inédito do único terrorista sobrevivente, o diretor Kevin MacDonald mostra todos os detalhes deste trágico evento histórico. Com narração do ator Michael Douglas e produção do renomado Arthur Cohn (Amadeus), Munique, 1972 é um filme simplesmente essencial.

(Sinopse por Netmovies – http://www.netmovies.com.br/filmes/munique-1972-um-dia-em-setembro.html):

Depois da exibição da película, contaremos com a contribuição de Maurício Drumond, especialista em História Política do Esporte.

Aguardamos todos la!


Eventos

09/10/2009

De 10 a 14 de maio de 2010, o Museu do Futebol (São Paulo, SP) sediará o I Simpósio de Estudos sobre Futebol. As inscrições estão abertas.

*  *  *

Duas mostras de cinema:

1) Mostra Cineducando, de 13 a 25 de outubro, na Caixa Cultural (Centro do Rio, perto da Estação Carioca do Metrô).

2) 4a. Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Percorre 16 capitais brasileiras em outubro e novembro. Aqui no Rio começa hoje, dia 9.


O macho acuado: o homem do século XXI por Leonardo Bahiense

06/10/2009

 

Na esteira da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, houve a construção do que convencionou-se chamar de moral burguesa. A mulher deveria ser casta até o casamento e dedicar-se à família e aos filhos. Esta moral foi fortalecida por contos de fada, por exemplo, “Chapeuzinho Vermelho”. A bem da verdade, o conto existe desde os tempos medievais, contudo, servia bem aos interesses da classe burguesa em ascensão em meados do século XVIII. Nele, vemos uma menina ser comida por um lobo. A tragédia se dá por Chapeuzinho não ter respeitado as ordens da mamãe de seguir diretamente para a casa da vovó - a tarefa da menina era levar doces para a velhinha. “Comer” aqui tem um duplo sentido. Comer no sentido literal, isto é, Chapeuzinho no estômago do lobo e comer no sentido metafórico, quer dizer, com conotação sexual – esta segunda perspectiva torna-se mais clara quando atenta-se para a cor da roupa da menina: vermelho (cor que lembra sexo, mestruação, emoções violentas). Tal conto era um alerta para as filhas de famílias burguesas que deviam respeitar as mães, de sorte a preservarem a pedra preciosa – o hímem intocado – e serem mulheres respeitadas, leia-se, prontas para o matrimônio.

Qual o papel do homem nessa nova moral? Os homens deviam ser provedores, leia-se, disponibilizar os bens do capitalismo nascente à família, notadamente à esposa. As mulheres lutaram contra o “fantasma de Chapeuzinho”, isto é, buscaram se emancipar do sexo masculino. Não aceitaram ser coadjuvantes da história e utilizaram todos os meios disponíveis para isso – já foi dito que os esportes, como o tênis e o ciclismo foram mobilizados politicamente pelas mulheres, no alvorecer do século XX, como instrumentos por meios dos quais elas redimensionaram a sua auto-imagem. E os homens? Eles parecem acuados, continuando a aceitar o papel social que lhes impuseram no século XVIII. Não por outra razão trabalham mais do que seus corpos podem aguentar – o que não significa dizer que as mulheres também não labutem – visto que, por pressões sociais, não conseguem redefinir a noção de masculino. A expressão “homem não chora” parece ainda determinar o que a tessitura social espera do macho no século XXI. Resultado: corpos masculinos doentes, deprimidos, melancólicos. Diante de tal instabilidade, o álcool, o cigarro, as drogas e o sexo representam possibilidades fortuitas de gratificação. As convenções sociais em relação ao macho, levam-no também a uma outra atitude: a agressividade gratuita. O que é igualmente problemático. Os gays representam uma questão à parte. Desde o final do século XIX procuraram construir identidades alternativas ao masculino. Os homoeróticos de São Francisco, Califórnia, naquela época, já se associavam aos médicos com o intuito de serem reconhecidos como enfermos. A estratégia aqui era a seguinte: sendo doentes não podiam ser culpabilizados por sua homossexualidade. Tal artifício não livrou-os do preconceito e, em várias partes do mundo – de São Paulo a Tel Aviv – são uma das principais vítimas da violência. Ser macho não é apenas ter um pênis entre as pernas; é uma construção simbólica. Lutemos por uma nova masculinidade!


Os clubes esportivos de Belo Horizonte – Parte 1

28/09/2009

Por André Schetino

O Minas Tênis Clube

Em Belo Horizonte, tal qual em outras cidades que passam a conviver com as práticas esportivas, percebemos o papel central ocupado pelos clubes esportivos. Alguns desses clubes tornaram-se grandes representantes do esporte nacional. Outros, mesmo ocupando um papel intermediário ou mesmo reduzido no que diz respeito à representação esportiva de alto nível (competições nacionais e internacionais), merecem o mérito por terem sobrevivido desde o período de sua inauguração até a atualidade.

Na capital mineira os clubes esportivos proliferaram desde a chegada dos primeiros esportes na cidade. Primeiro, timidamente e com alguma dificuldade, onde percebemos muitas fusões ou clubes com poucos anos de existência. Assim foi com os clubes de ciclismo. Com o crescimento e o desenvolvimento econômico de Belo Horizonte, aumenta não só o número desses clubes, como também sua longevidade. Resolvi dedicar dois posts (este e o próximo, em dezembro) a alguns clubes da cidade, especialmente desse período de maior estabilidade. Tais clubes se constituíram como ” clubes de lazer”, tradicionais espaços de diversão e convívio do belo horizontino. Nestes clubes também se desenvolveram os esportes ditos “amadores”, que na verdade nada mais eram do que todos os esportes organizados na cidade, à exceção do futebol.

No texto de hoje darei atenção ao maior e mais tradicional clube da cidade: o Minas Tênis Clube.

Sede social do Minas Tênis I, inaugurada em 1939. Fonte: http://www.minastenisclube.com.br/Cmi/Pagina.aspx?611

O clube é com certeza o mais importante da cidade. Foi inaugurado em 1937, depois que um grupo da elite mineira arrendou o parque público da prefeitura- o Balneário Santo Antônio – na época o maior parque esportivo do país. O clube possuía, inicialmente, departamentos de tênis,  basquetebol, voleibol, natação, ginástica infantil, ginástica masculina e feminina, xadrez, esgrima, badminton e serviços médicos e hidroterápicos. Até o ano de 1980, os presidentes do clube eram indicados pelo governador do Estado. Atualmente, o clube centraliza a elite dos esportes olímpicos de alto nível em Belo Horizonte. Possuí títulos nacionais de voleibol masculino e feminino, natação, judô, investindo também na ginástica, tênis, basquete e futsal. Além disso, o clube conta com grande número de associados, que utilizam de suas 4 sedes espalhadas pela cidade. Desde sua inauguração até os dias de hoje, o clube segue como representante da elite belo horizontina.

Com o objetivo de preservar sua tradição, o clube conta com um centro de memória, instalado na sede principal, à Rua da Bahia. O espaço, aberto a visitação e consulta, conta com acervo de mais de fotografias, documentos, troféus e medalhas, clipping de notícias nos jornais desde 1938, e objetos da memória dos 73 anos do clube mineiro.

O crescimento do Minas Tênis Clube, além de referendar a excelência nos esportes olímpicos de alto rendimento na cidade, acabou também por centralizar tais práticas em sua instituição. Isso acabou por transformar também o papel de outros clubes na cidade.

É o que veremos no próximo post, quando finalizarei esta pequena série sobre os clubes de lazer de Belo Horizonte, falando sobre outras agremiações da capital mineira. Até lá.

Contato: andreschetino@pop.com.br

Sede social do Minas Tênis I, inaugurada em 1939 – Fonte: http://www.minastenisclube.com.br/Cmi/Pagina.aspx?598

Na terra com os olhos no céu

21/09/2009

 

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

A implementação de recursos tecnológicos no esporte tem permitido muitas e agudas transformações nas diversas formas de praticá-lo. Entre as vivências esportivas em meio à natureza tal afirmação mostra-se particularmente verdadeira. O surgimento de certas modalidades praticamente só se tornou possível graças ao papel desempenhado por novos materiais e equipamentos. O caso do vôo livre é emblemático nesse sentido.   

Em 1951, o norte-americano Francis Rogallo registrou a patente das suas “asas flexíveis”, um novo tipo de suporte para o vôo que já vinha sendo rudimentarmente desenvolvido pelo próprio Rogallo desde 1947. A NASA, que estudava um meio de re-introduzir cápsulas espaciais na órbita da terra por meio de um pára-quedas direcionável se interessou pelo invento e deu início ao projeto PARASEV (Paraglider Rescue Vehicle), utilizando uma estrutura metálica de asas flexíveis, apoiada num triciclo e rebocada por avião. Uma vez em vôo, desconectava-se a asa, que seguia planando até o solo.

Disponível em:http://neuronioshiperativos.blogspot.com/2007/11/histria-do-asa-delta-o-invento-que-saio.html

Disponível em: http://neuronioshiperativos.blogspot.com/2007/11/histria-do-asa-delta-o-invento-que-saio.html

 

Nos anos 60, o australiano John Dickenson, inspirado nas asas flexíveis de Rogallo, cria um novo modelo semelhante, mas com varas de bambu e velas de plástico, mais tarde substituídas por alumínio e nylon. Em 1963, também na Austrália, Dickenson realiza seu primeiro vôo rebocado por um barco, em espetáculos, ao que parece, bastante populares na ocasião. Em 1966, Al Hartig segue as tentativas de aprimoramento, fazendo desenhos de asas mais semelhantes com os modelos que conhecemos atualmente. Consta que foi em 1968 que Bill Moyes – exímio acrobata que se apresentava em asas rebocadas – realizou o primeiro vôo na Austrália partindo de um ponto fixo e elevado.

O espetaculoso Bill Moyes em ação

O espetaculoso Bill Moyes em ação. Disponível em: http://www.moyes.com.au/gallerydetail.asp?ID=6&Cat=

 

 Assim, novas tecnologias iam servindo como suporte para a experimentação de outras possibilidades corporais. Com o incremento desses recursos, até mesmo formas mais agudas e intensas de vôo tornavam-se possíveis.

Claro que entre sua mera concepção e sua popularização muitos outros aspectos para além da tecnologia pura e simples iriam interferir. Mas isso pode ser assunto para outras oportunidades.