Os clubes esportivos de Belo Horizonte – Parte 1

28/09/2009

Por André Schetino

O Minas Tênis Clube

Em Belo Horizonte, tal qual em outras cidades que passam a conviver com as práticas esportivas, percebemos o papel central ocupado pelos clubes esportivos. Alguns desses clubes tornaram-se grandes representantes do esporte nacional. Outros, mesmo ocupando um papel intermediário ou mesmo reduzido no que diz respeito à representação esportiva de alto nível (competições nacionais e internacionais), merecem o mérito por terem sobrevivido desde o período de sua inauguração até a atualidade.

Na capital mineira os clubes esportivos proliferaram desde a chegada dos primeiros esportes na cidade. Primeiro, timidamente e com alguma dificuldade, onde percebemos muitas fusões ou clubes com poucos anos de existência. Assim foi com os clubes de ciclismo. Com o crescimento e o desenvolvimento econômico de Belo Horizonte, aumenta não só o número desses clubes, como também sua longevidade. Resolvi dedicar dois posts (este e o próximo, em dezembro) a alguns clubes da cidade, especialmente desse período de maior estabilidade. Tais clubes se constituíram como ” clubes de lazer”, tradicionais espaços de diversão e convívio do belo horizontino. Nestes clubes também se desenvolveram os esportes ditos “amadores”, que na verdade nada mais eram do que todos os esportes organizados na cidade, à exceção do futebol.

No texto de hoje darei atenção ao maior e mais tradicional clube da cidade: o Minas Tênis Clube.

Sede social do Minas Tênis I, inaugurada em 1939. Fonte: http://www.minastenisclube.com.br/Cmi/Pagina.aspx?611

O clube é com certeza o mais importante da cidade. Foi inaugurado em 1937, depois que um grupo da elite mineira arrendou o parque público da prefeitura- o Balneário Santo Antônio – na época o maior parque esportivo do país. O clube possuía, inicialmente, departamentos de tênis,  basquetebol, voleibol, natação, ginástica infantil, ginástica masculina e feminina, xadrez, esgrima, badminton e serviços médicos e hidroterápicos. Até o ano de 1980, os presidentes do clube eram indicados pelo governador do Estado. Atualmente, o clube centraliza a elite dos esportes olímpicos de alto nível em Belo Horizonte. Possuí títulos nacionais de voleibol masculino e feminino, natação, judô, investindo também na ginástica, tênis, basquete e futsal. Além disso, o clube conta com grande número de associados, que utilizam de suas 4 sedes espalhadas pela cidade. Desde sua inauguração até os dias de hoje, o clube segue como representante da elite belo horizontina.

Com o objetivo de preservar sua tradição, o clube conta com um centro de memória, instalado na sede principal, à Rua da Bahia. O espaço, aberto a visitação e consulta, conta com acervo de mais de fotografias, documentos, troféus e medalhas, clipping de notícias nos jornais desde 1938, e objetos da memória dos 73 anos do clube mineiro.

O crescimento do Minas Tênis Clube, além de referendar a excelência nos esportes olímpicos de alto rendimento na cidade, acabou também por centralizar tais práticas em sua instituição. Isso acabou por transformar também o papel de outros clubes na cidade.

É o que veremos no próximo post, quando finalizarei esta pequena série sobre os clubes de lazer de Belo Horizonte, falando sobre outras agremiações da capital mineira. Até lá.

Contato: andreschetino@pop.com.br

Sede social do Minas Tênis I, inaugurada em 1939 – Fonte: http://www.minastenisclube.com.br/Cmi/Pagina.aspx?598

Bem vindo a Pueirópolis

13/07/2009

Belo Horizonte é uma cidade nova, republicana, nascida no ano de 1897. Foi planejada para ser a nova capital de Minas Gerais, substituindo Ouro Preto, símbolo da herança tanto colonial quanto imperial de nosso país. A cidade nasceu sob os ideais modernos, pensados desde o seu traçado às práticas incentivadas para a população: diversões como cafés, teatros, e também os esportes. O ciclismo e o turfe foram os primeiros que tiveram seu desenvolvimento apoiado na nova capital: a construção de um velódromo, no Parque Municipal, e do Prado Mineiro, no bairro homônimo que naquele momento situava-se na periferia da cidade.

Porém, os modernos sports advindos da Europa não vingaram na cidade. Num curto período de tempo, tanto o ciclismo quanto o turfe caíram em desuso. Tal fato incomodava setores da elite belo horizontina. Como práticas tão em voga nas modernas capitais européias e também na capital federal não eram devidamente prestigiadas por seus moradores? A questão extrapolava os esportes e recaía sobre a preferência da população pelo recolhimento, ao invés das diversões nos espaços da cidade. O belo horizontino era considerado, por parte da imprensa, como “fogo de palha”. E a moderna capital transformava-se, nos jornais da época, na cidade do tédio, na pacata Pueirópolis, como nos mostra Marilita Rodrigues:

Essas representações refletem a distância que ainda existia da Belo Horizonte “Cosmopolita” que se queria, que se sonhava para a capital de Minas, da Belo Horizonte “pueirópolis”, pacata, sem a vida  smart daquele tempo. Não seria uma expressão de uma cultura daqueles seus habitantes? Outras análises ainda se fazem necessárias para essa resposta, pois naquele período a cidade contava, ainda, com apenas pouco mais de um ano de vida. Mas, na imagem da cidade, o esporte já trazia a sua marca(…) (RODRIGUES, 2006, p. 115)

 

Marilita nos mostra como essa marca surgia a partir de outras práticas esportivas e de lazer, como a malha, prática das ruas, que por seu caráter popular era “condenada” pelos entusiastas de sports mais nobres, como o ciclismo e o turfe. Além disso, novos trabalhos vem surgindo com objetivo de aprofundamento das análises sobre o lazer nos primeiros anos de Belo Horizonte.

Os sentidos acerca da história do esporte e demais diversões na cidade pouco a pouco vão sendo construídos. Fato é que ao planejarem a cidade, seus idealizadores planejaram também os corpos, os costumes e os modos de vida da população que lá viveria, talvez não sabendo que planejar indivíduos não fosse tão simples quanto planejar ruas e construções. O cidadão Belo Horizonte viveu portanto no contraste, nas tensões entre as práticas projetadas para a nova capital e as práticas efetivas, construídas nas relações entre os habitantes e a nova cidade.

Esse é o ponto de partida dessa coluna, que discutirá o esporte na cidade de Belo Horizonte. Mesmo com o traço cultural do recolhimento, da desconfiança e do recato, está dado o pontapé inicial: existe vida na cidade de Pueirópolis.

 André Schetino

andreschetino@pop.com.br

Para saber mais:

RIBEIRO, Raphael Rajão. A bola em meio a ruas alinhadas e a poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte, 1904-1921. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais –Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2007.

Disponível em: http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/VGRO-7AXN6H

RODRIGUES, Marilita Aparecida Arantes. Constituição e enraizamento do esporte na cidade: uma prática moderna de lazer na cultura urbana de Belo Horizonte (1894-1920). Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais –  Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2006.

Disponível em: http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/VCSA-6XTGT2