Futebol e narcotráfico: uma releitura do caso de Pablo Escobar na Colômbia

22/08/2016

por Eduardo de Souza Gomes

Em tempos de Jogos Olímpicos, peço licença nesse texto para abordar de forma mais específica o futebol colombiano. Desde a Copa do Mundo ocorrida em 2014 no Brasil, onde a seleção colombiana alcançou as quartas de final (seu melhor desempenho na história da competição até o presente momento), o futebol do país tem tido grande destaque no cenário sul-americano e mundial.

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Colombianos comemorando um gol na Copa do Mundo de 2014. Foto: Reprodução.

Colombianos comemorando um gol na Copa do Mundo de 2014. Foto: Reprodução.

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Muito desse sucesso se deve ao clube Atlético Nacional, da cidade de Medellín. Nos últimos anos, o clube se tornou o maior campeão nacional do país, vencendo quatro dos últimos sete campeonatos colombianos. Além disso, expandiu suas fronteiras e alcançou duas finais continentais, tendo sido vice-campeão da Copa Sul-Americana em 2014 e campeão da Copa Libertadores da América em 2016.

O sucesso continental do Nacional de Medellín, ao conquistar a mais importante competição da América do Sul em julho de 2016, além de colocar novamente em evidência o futebol colombiano no continente em que está inserido, fez também com que fosse resgatada a memória do primeiro título da competição conquistada pela equipe, no ano de 1989.

Essa primeira conquista é, até hoje, muito contestada pelos torcedores rivais do Nacional, por um motivo simples: a provável influência do narcotraficante Pablo Escobar no desenvolvimento do futebol no clube, o que de acordo com os rivais é uma mancha que desvaloriza essa primeira conquista continental da equipe.

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Atletas do Nacional de Medellín comemoram a conquista da Copa Libertadores da América 2016. Fonte: www.conmebol.com

Atletas do Nacional de Medellín comemoram a conquista da Copa Libertadores da América 2016.
Fonte: http://www.conmebol.com

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Nesse texto buscaremos problematizar as possíveis relações existentes entre Pablo Escobar e o futebol na Colômbia. Não tendo até o momento realizado pesquisas mais profundas sobre esse período do futebol colombiano, me proponho mais a levantar questões acerca de trabalhos, sejam jornalísticos ou acadêmicos, já realizados, do que concretizar alguma hipótese baseada em investigação empírica.

Diversos indícios dos anos 1970 e 1980, apontam para a influência de diferentes cartéis de drogas em clubes de futebol na Colômbia. Como exemplo, podemos citar a relação dos irmãos Orejuela com o America de Cali e de Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano”, com o Millonarios de Bogotá. Todavia, opto nesse texto por problematizar especificamente a relação existente entre Pablo Escobar e os clubes de Medellín, principalmente o Atlético Nacional. Entendo que, apesar de não desconsiderar as influências que o famoso narcotraficante exerceu no mundo do futebol, essa relação deve ser relativizada. Principalmente se analisarmos algumas das teorias jornalistas já desenvolvidas sobre o fato, onde em muitos momentos, é afirmado que o sucesso do Nacional de Medellín nos anos 1980, e por consequência do futebol colombiano, se deu exclusivamente pela grande influência exercida pelo famoso narcotraficante.

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Torcida do Millonarios chegou a levar para os estádios uma bandeira em homenagem a Gonzalo Gacha, “El Mexicano”. Fonte: www.doentesporfutebol.com.br

Torcida do Millonarios chegou a levar para os estádios uma bandeira em homenagem a Gonzalo Gacha, “El Mexicano”. Fonte: http://www.doentesporfutebol.com.br

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Essa teoria se justifica, claro, por possíveis evidencias que demonstram a influência de Escobar no futebol de Medellín. Como exemplo, podemos citar o assassinato do arbitro assistente Álvaro Ortega, em 1989. Em um confronto entre as equipes do America e do Independiente de Medellín, ocorrido na cidade de Cali, a equipe local venceu por 2×1, tendo sido um gol do Medellín anulado pelo assistente. Em novo confronto entre as equipes ocorrido em Medellín no mesmo ano, em que terminou com empate sem gols e também com atuação do assistente, Ortega foi assassinado após a partida. Para muitos, não existem dúvidas de que tal assassinato teria sido uma retaliação de Escobar pelo gol anulado anteriormente.

Porém, mesmo com fatos como esse e entendendo que o futebol se demonstrava como um importante campo da sociedade colombiana que se fez propicio para o investimento por parte dos narcotraficantes, de forma que servisse, entre outros fatores, para a lavagem de dinheiro ganho ilegalmente, sempre questionei a profundidade que Escobar teria tido nesse processo. Esse questionamento surge, como dito anteriormente, não por pesquisas próprias já concretizadas, mas sim por evidenciar uma falta de sustentação em trabalhos realizados sobre a temática.

O fato da sociedade colombiana, como já nos destacou Hobsbawm em seu livro Tempos Interessantes (2002), conviver com a violência de forma constante durante praticamente todo o século XX (e com mais força a partir dos anos 1940, com o período de La Violencia), faz com que esse aspecto seja naturalizado dentro da sociedade como um todo. Durante a década de 1980, não seria impossível relacionar o futebol aos narcotraficantes, dada a grande influência que esses possuíam em diferentes setores do país. Mas, no caso de Pablo Escobar, até onde teria ido essa influência no futebol?

O filho de Escobar, Juan Pablo Escobar, escreveu uma biografia sobre o pai, intitulada “Pablo Escobar: meu pai” e diminuiu a importância de sua participação no futebol. Além de afirmar que seu pai era um torcedor fanático do Independiente de Medellín, o que contraria o possível investimento para o maior rival local Nacional ser campeão continental, Juan Pablo Escobar destaca que a maior parte das histórias que relacionam seu pai ao futebol, inclusive as que tratam de assassinatos e compras de jogos, não passam de lendas. Em entrevista recente, afirmou que:

A figura do meu pai é utilizada para inventar quantidade de mentiras em torno de sua história, seu personagem. Diziam que ele havia comprado a Libertadores de Nacional de Medellín, em 1989. Os paraguaios (do Olimpia) sempre acreditaram que ele era torcedor do Nacional, porque queriam justificar sua derrota, colocando a responsabilidade em meu pai. Não tenho porque ocultar essas coisas. Meu pai é responsável direto por histórias muito mais graves, essa (influência) seria uma besteira, não é o caso. Nunca foi dono de nenhuma equipe. Era fanático, gostava, assistia às partidas, escutava pelo rádio, mas nunca foi dono de jogadores, nada disso. Os gols que erraram uns, os pênaltis que erraram outros, meu pai não tinha a mão tão larga para interceder nisso. Se apoiasse o Nacional seria como defender um rival. Nacional e Independiente é como Boca Juniors e River Plate. São da mesma cidade e são rivais de morte. Isso é uma incoerência. Creio que se fala nisso porque não aceitam as derrotas.

Claro que os usos da memória de Juan Pablo Escobar devem ser problematizados. Afinal, se acreditar em tudo que se fala sobre a relação de Pablo Escobar com o futebol pode ser um equívoco, ignorar sua participação nesse esporte poderia também, no mínimo, beirar a ingenuidade. Porém, o entendimento da participação de Escobar no mundo futebolístico colombiano deve ser feito com maior rigor e análise, de forma que possamos desconstruir certos mitos. É fato que são esses mitos, muitas das vezes, que dão vida ao esporte. Todavia, mesmo sem desconsiderar as tradições já inventadas sobre essa e outras temáticas, realizar uma análise que problematize com maior rigor, não só esse, mas qualquer fato histórico, se faz necessário. Isso, claro, não nos impede de pensar como os mitos e tradições se disseminaram e se refletiram socialmente em forma de identidades ou memória, sendo a percepção desse caminho um dos exercícios mais interessantes e fascinantes do cientista humano e social.

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Pablo Escobar dando o pontapé inicial em uma partida de futebol em Medellín. Foto: Reprodução.

Pablo Escobar dando o pontapé inicial em uma partida de futebol em Medellín. Foto: Reprodução.

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A relação do narcotráfico com outros clubes de futebol (algo que também precisa ser melhor investigado e problematizado, apesar de já ser mais evidenciado), como os já mencionados no início do texto, pode também ser um fator que leva muitas das vezes a naturalização das relações de Pablo Escobar com esse esporte. Afinal, se o narcotráfico se fez presente com força no futebol, seria natural que o maior narcotraficante também o fizesse. Clubes como o América de Cali, que chegou a vencer por cinco vezes seguidas o campeonato nacional de 1982 a 1986, e chegou a três finais consecutivas da Copa Libertadores da América entre 1985 e 1987 com um time caro e repleto de jogadores estrangeiros, despertaram os olhares para aqueles que já desconfiavam da relação existente entre o futebol e os narcotraficantes. Mas então podemos perguntar: será que somente a influência do narcotráfico determinou o sucesso dos clubes colombianos nesse período?

Se analisarmos a conquista do Nacional de Medellín em 1989, por exemplo, veremos que mais que o “dinheiro sujo” e os possíveis jogos comprados, existia uma grande equipe. Equipe essa que, diferente do rival America de Cali, era formada por grandes nomes colombianos do quilate de Higuita, Andres Escobar, Perea e Leonel Álvarez. Somado a grandes jogadores do país que atuavam em outros clubes, como Valderrama, Rincón, Valencia, Asprilla, Aristizábal, Valenciano, entre outros, se fez possível a formação de um selecionado nacional que conseguiu pela primeira vez levar a Colômbia para três Copas do Mundo seguidas entre 1990 e 1998. Em 1994, inclusive, a Colômbia havia sido inicialmente apontada como uma das favoritas para o título, depois de ter realizado uma ótima eliminatórias, onde venceram a Argentina por 5×0 em 1993, no estádio Monumental de Nuñez.

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Equipe do Nacional campeã da Libertadores em 1989. Foto: Reprodução.

Equipe do Nacional campeã da Libertadores em 1989. Foto: Reprodução.

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Ou seja, estamos falando da até então maior geração de jogadores colombianos na história do país, que fizeram com que esse esporte consolidasse uma identidade nacional na Colômbia, sem agora ter a necessidade de investir em atletas estrangeiros, como havia ocorrido anteriormente no período El Dorado, nos primórdios da profissionalização do futebol entre 1948 e 1954.

É óbvio que não devemos deixar de apurar se ocorreram, não só com o Nacional, mas também com outros clubes, manipulações de resultados e influências de narcotraficantes nos jogos das equipes. Punições já foram realizadas em casos semelhantes, sendo as mais famosas na Itália. A atual pentacampeã nacional Juventus, por exemplo, foi rebaixada para a segunda divisão em 2006, devido um esquema de manipulação de resultados que havia lhe rendido o bicampeonato italiano em 2005/06, conquistas essas que foram cassadas.

O que levanto nesse texto é que, mesmo com a influência do narcotráfico, a Colômbia teve de fato grandes nomes nesse período no futebol, que em muitas das vezes são ofuscados pelo momento negro em que o país estava inserido. E notadamente sobre o caso de Pablo Escobar, destaco que pesquisas mais profundas devem ainda ser realizadas, de forma que nos possibilite melhor compreender a relação existente entre um dos maiores narcotraficantes da história e o esporte mais popular do planeta.

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E o Rio de Janeiro já foi quase “olímpico”…

15/08/2016

Por Karina Cancella

Em 1922, o Brasil comemoraria o centenário de sua independência política de Portugal. Para celebrar esse momento, foi planejado um programa de festividades compreendendo uma Exposição Internacional do Centenário da Independência, que contaria com a presença de autoridades nacionais e internacionais e pavilhões monumentais para receber as 14 nações estrangeiras que aceitaram os convites (ARQUIVO NACIONAL, 2016), e Jogos Esportivos Internacionais. Focando nesse segundo evento, foram organizados os “Jogos Olímpicos Latino-Americanos” ou “Jogos Atléticos Sul Americanos” ou “Jogos do Centenário” (as três nomenclaturas foram utilizadas para designar o mesmo evento). As negociações e organizações em torno da realização do evento iniciaram-se com dois anos de antecedência, em 1920, antes mesmo da primeira participação do Brasil em Jogos Olímpicos, que ocorreria na edição daquele ano na Antuérpia.

Em 12 de maio de 1920, foi publicada no jornal carioca “O Imparcial” uma notícia sobre a chegada ao Brasil do enviado extraordinário do Comitê Olímpico Internacional (COI) e Diretor Atlético da Young Men’s Christian Association (YMCA) Sr. Elwood Brown, que foi responsável pela organização dos Jogos Interaliados de 1919 no Pershing Stadium em Paris, e seguia em viagem de divulgação do movimento olímpico pela América do Sul.[1]

Nessa visita, Brown realizou estudos sobre a possibilidade de se estabelecer no continente um comitê organizador dos “Jogos Atléticos Sul Americanos”, composto por um representante de cada país, e com função de realizar jogos continentais a cada dois anos. Esse comitê deveria ter a estrutura baseada na do COI. Propôs-se, então, que o primeiro evento nesse formato fossem os jogos previstos para serem realizados em 1922 no Rio de Janeiro, capital do Brasil naquele momento, como parte das comemorações do centenário da independência do País. A proposta era de que, com esse modelo organizacional, o esporte mundial passasse a ter o calendário estruturado da seguinte forma: campeonatos nacionais anuais, eventos continentais a cada dois anos e Jogos Olímpicos de quatro em quatro anos.[2] Às vésperas da participação do País nos Jogos da Antuérpia, a delegação brasileira recebeu a aprovação olímpica para a realização dos Jogos Latino-Americanos de 1922: “a comissão dos Jogos Olímpicos em reunião desta noite aprovou uma moção reconhecendo os Jogos Latino-americanos de 1922 como parte integrante do movimento olímpico… (Jornal do Brasil, 24 ago. 1920, p. 6)” (NETO-WACKER; WACKER, 2010, p. 153).

O evento, no entanto:

[…] embora obedecendo as condições dos Jogos Olímpicos, não terão absolutamente o caráter oficial de olimpíada. Esses jogos continentais efetuados de dois em dois anos, tomarão o caráter de preparatórios para as olimpíadas internacionais, levadas a efeito de quatro em quatro anos.[3]

A organização dos Jogos Esportivos ficou sob responsabilidade da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e conforme os acordos estabelecidos, a CBD receberia do governo federal um crédito de 300 contos de réis, em duas parcelas, para custear o processo de organização dos jogos. (SARMENTO, 2006). Para a realização das provas das competições previstas, era necessária a preparação de um espaço apropriado, um estádio com padrões internacionais. Sobre essa necessidade, o jornal “O Imparcial” informou, em abril de 1921, que seria concedido um terreno na Praia Vermelha ao Clube de Regatas Flamengo para construção de um espaço esportivo completamente novo para o recebimento das competições do centenário.[4] Dois meses depois, o mesmo periódico noticiou que, além do terreno, seria também concedido um empréstimo de mil contos de réis para as obras.[5]

Ao longo do ano de 1921, a imprensa carioca cobriu todo o processo de preparação do evento, e especificamente o jornal “O Imparcial” publicou diversas notícias sobre os “Jogos Atléticos Sul-Americanos de 1922”, destacando as formas de aquisição de materiais, as discussões sobre a construção dos novos espaços para realização das competições, ações realizadas pelos clubes esportivos em todo o país e seletivas para escolha dos representantes brasileiros no evento.[6]

No entanto, do ponto de vista dos observadores do Comitê Olímpico Internacional, as ações efetivas para a organização do evento estavam demorando mais do que eles esperavam. Por conta desse cenário, o COI enviou um representante ao Brasil para verificar a real viabilidade de realização dos Jogos em 1922. Após analisar a situação em que se encontrava o país, o Sr. Hopkins telegrafou ao COI informando ao Barão Pierre de Coubertin que o Brasil nada havia feito até aquele momento. Após o relato, foi dado um mês de prazo para que as ações de organização fossem efetivamente iniciadas ou o evento poderia ser transferido ou até mesmo cancelado (TORRES, 2012). Os jornais destacavam que:

[…] a incapacidade do Brasil em realizar os jogos se justificava primeiramente pelo fato de que o país atravessava uma grave crise econômica provocada por uma “crise do café, uma inflação em alta e, especialmente, uma crise fiscal” iniciada “na segunda metade de 1920” ainda durante o governo de Epitácio Pessoa, chegando “ao auge em 1922”. Apesar desse cenário econômico, o governo federal já direcionava parte de suas verbas para a Exposição do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro. (MORAES, 2009, p. 27).

Além da problemática da crise financeira pela qual o país atravessava, um ponto em específico fez com que as ações não avançassem conforme os planejamentos iniciais. O empréstimo de 300 contos de réis feito pelo Governo Federal à CBD para cobrir as despesas do evento não estavam mais disponíveis no caixa da entidade. No início de 1922, uma nova diretoria assumiu a Confederação e identificou a ausência do valor para dar seguimento aos procedimentos de organização dos Jogos. (MORAES, 2009).

Essas polêmicas e problemas no processo de organização do evento fizeram com que o COI considerasse a retirada do reconhecimento ao evento. Por intervenção de Elwood Brown, que via o fracasso desse projeto como um possível problema nas relações com o COI, o Comitê reconsiderou e decidiu dar mais tempo ao Brasil para que as questões fossem resolvidas. A YMCA no país acompanhou de perto todo o processo de organização e chegou a elaborar um plano de contingência que previa a realização dos Jogos Latino-Americanos em Montevidéu, Uruguai, em 1923, caso o Brasil não conseguisse cumprir os prazos. (TORRES, 2012).

Para a resolução dessa complexa situação, algumas sugestões foram apresentadas para que não se perdesse a oportunidade de realização do evento com chancela do COI. Levantou-se incialmente a possibilidade de transferência do evento para a cidade de São Paulo. Como segunda opção, foi considerado entregar a organização nas mãos do Fluminense Football Club, que assumiria a responsabilidade de gerir as verbas públicas destinadas à organização dos Jogos. Como terceira opção, um empréstimo poderia ser contraído pela CBD junto ao Banco do Brasil para ampliação das arquibancadas da Rua da Guanabara e modificações no campo do Flamengo a fim de receber as provas de atletismo e futebol. Após meses e:

[…] uma longa série de acusações entre CBD e o governo federal, os jornais noticiavam o resultado das conversações que se seguiram durante todo o primeiro trimestre de 1922. O governo abriria um crédito de 1.3000:000$ para serem aplicados nos jogos, transporte e hospedagem dos atletas, sendo essa quantia restituída com as rendas provenientes dos jogos e “[…] o saldo que porventura for apurado, pertencerá a Confederação, a qual também ficará de posse dos materiaes adquiridos para a execução dos festejos sportivos”. O governo se responsabilizaria também pela impressão dos programas e regulamentos, e pela cunhagem das medalhas. Com as verbas, o projeto do Centenário foi posto em prática. (MORAES, 2009, p. 28-29).

Com o novo empréstimo contraído, finalmente a organização do evento seria iniciada. Para evitar novos problemas dessa natureza, os representantes da YMCA no país passaram a dialogar diretamente com o governo da cidade por considerar a nova direção da CBD inexperiente e desorganizada. O então prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio, garantiu o apoio do governo federal e assegurou aos membros da YMCA e do COI que todos os esforços seriam empreendidos para que os Jogos fossem realizados com sucesso e também manter o reconhecimento do COI ao evento. Para isso, foi então designada uma nova comissão organizadora, sob presidência do Coronel do Exército Estellita Werner, e dando ao Fluminense maiores poderes na organização das competições. (TORRES, 2012).

A ideia de construção de um novo estádio foi então abandonada e optou-se pela realização de melhorias no estádio que já havia construído na cidade, o do Fluminense Football Club, que havia recebido os jogos do Campeonato Sul-Americano de Futebol em 1919. (CANCELLA, 2014).

As bases de organização dos Jogos do Centenário foram definidas pela CBD e publicadas na revista “Ilustração Brasileira” em março de 1922.[7] Os critérios para participação nos jogos determinavam que os esportistas deveriam ser “súditos” de países da América Latina e destacava a obrigatoriedade de serem considerados amadores de acordo com os regulamentos internacionais de cada esporte. A condição deveria ser reconhecida pela federação nacional do Brasil e pelas federações de cada país que enviasse concorrentes e os participantes poderiam ser latino-americanos por nascimento ou naturalizados.

O programa foi composto por um amplo quadro de modalidades atléticas e aquáticas, com locais de competição em diferentes regiões da cidade, envolvendo espaços públicos, privados (clubes) e das Forças Armadas. (CANCELLA, 2014).

Os Jogos foram abertos em 13 de setembro de 1922, com uma grande “parada desportiva”, aos moldes da parada militar realizada no dia 07 de setembro.[8] No evento de abertura, esportistas civis e militares desfilaram lado a lado nas delegações dos países participantes: Argentina, Chile, México, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Estados Unidos da América, Grã-Bretanha, Japão, Portugal e Brasil. (TORRES, 2012). Estiveram também presentes nos Jogos três representantes do COI: Sr. Elwood Brown, Sr. Jess Hopkins e o Conde Baillet-Latour, representando o Barão de Coubertin que não pode comparecer.[9]

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Fotografias da parada desportiva do Centenário ocupando página inteira da Revista da Semana. Fonte: Revista da Semana 23 de setembro de 1922, p. 28.

A presença de países de fora da América Latina desfilando na abertura do evento pode causar certa estranheza. No entanto, esse episódio ocorreu porque as Forças Armadas atuaram em conjunto com a CBD no processo de organização do eventos por meio de suas ligas esportivas e com representantes em cargos de gestão na comissão organizadora. Por conta dessa aproximação, foram idealizadas competições especificamente para as delegações militares que estariam presentes nas comemorações para serem realizadas em paralelo aos eventos esportivos principais, sendo elas da América Latina ou não. As provas passaram a ser divulgadas na imprensa como “latino-americanas”, “militares” ou “navais”, mas muitas vezes a divulgação dos resultados se confundia e a distinção entre os eventos se tornava complexa.

Além das competições militares, fazia também parte do programa dos Jogos do Centenário o VI Campeonato Sul-Americano de Futebol, com participação de Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Brasil. A competição enfrentou graves problemas com relação à organização e arbitragem, o que levou o Uruguai a abandonar o campeonato. Ao final, o Brasil sagrou-se campeão, vencendo o Paraguai. (MALAIA, 2011; MORAES, 2009).

O processo de organização dos Jogos de uma maneira geral foi bastante conturbado. A realização das competições também enfrentou alguns problemas sérios, especialmente com relação à organização e arbitragem não somente no futebol mas em diversas modalidades, como remo, atletismo e esgrima. Delegações inteiras e atletas individualmente se recusaram a competir ou se retiraram das competições por conta desses problemas. Como exemplo, todos os resultados das provas de atletismo não obtiveram reconhecimento oficial da Confederação Sul-Americana de Atletismo por conta de problemas na realização das provas e erros de arbitragem. A decisão foi tomada na reunião de 1924 da entidade e os resultados e recordes não foram homologados. (TORRES, 2012). Essa decisão resultou na desfiliação da CBD, que somente retornaria a fazer parte da Confederação sul-americana na década de 30. Os resultados de 1922 somente foram revalidados pela Confederação Sul-Americana de Atletismo no ano de 2012, 90 anos após a realização do evento. (IG ESPORTE, 2012).

Os Jogos do Centenário, de acordo com os relatos recolhidos na imprensa da época, conseguiu uma importante mobilização da população carioca. Além dos eventos esportivos, os pavilhões da Exposição Internacional também apresentavam grande atrativo, com público expressivo durante toda a sua realização. No “Atlas do Esporte no Brasil”, há o seguinte dado sobre o evento:

O número de espectadores dos Jogos, ainda segundo a ACM, chegou a 162.000 pessoas, quantitativo expressivo para a época, pois a assistência representou cerca de 15% da população da cidade, montante jamais atingido posteriormente. Em suma, os Jogos de 1922 no Rio de Janeiro consistiram num megaevento esportivo considerando os meios mobilizados e a participação da população local, embora não tenham sido reconhecidos até recentemente como tal. (SILVA, 2006, p. 17).

Cerca de um ano após a realização dos Jogos de 1922, o Conde de Baillet-Latour, membro do COI, relatou o seguinte:

Os Jogos do Rio, como um todo, não foram perfeitos, mas as críticas das quais têm sido objeto foram muito exageradas… Eles foram um espelho que reflete exatamente a situação dos esportes dos países que participaram, e as causas de sua imperfeição são originárias de defeitos que afligiram as autoridades e atletas em geral na América Latina… (NETO-WACKER; WACKER, 2010, p. 158-159).

A realização desses eventos tinha como um dos objetivos a afirmação de uma imagem internacional do Brasil como país organizado e moderno. No entanto, devido aos grandes problemas envolvendo desvios de verbas, atrasos nas obras, arbitragens parciais e falta de organização esse projeto inicial de projeção de uma imagem internacional positiva não se manifestou como esperado. Já a mobilização da população em torno de um sentimento nacional teve seu relativo sucesso. A grande participação de espectadores na Exposição Nacional e nos Jogos Esportivos é um dado a ser observado nesse sentido.

O Brasil e o Rio de Janeiro, então, receberam um evento “quase” olímpico em 1922. Sem ser considerado um evento olímpico em si pelas exigências do COI, os Jogos do Centenário foram reconhecidos como parte integrante do movimento olímpico e um instrumento importante na divulgação dos ideais do COI na América Latina em um período de expansão da influência do Comitê pelo mundo.

Referências:

ARQUIVO NACIONAL. A Exposição de 1922: Memória e Civilização. Exposições Virtuais do Arquivo Nacional. Disponível em: <http://www.exposicoesvirtuais.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=257&gt;. Acesso em: 05 mai. 2016.

CANCELLA, K. O esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

IG ESPORTE. Confederação revalida Jogos Olímpicos Latino-americanos de 1922. Publicada em 22 set. 2012. Disponível em: <http://esporte.ig.com.br/maisesportes/2012-09-22/confederacao-revalida-jogos-olimpicos-latino-americanos-de-1922.html&gt;. Acesso em: 10 mai. 2016.

MALAIA, J. A Diplomacia do pé: o Brasil e as competições esportivas sul-americanas de 1919 e 1922. Tempo e Argumento, v. 3, n. 2, p. 43-76, jul. – dez. 2011.

MORAES, H. Jogadas Insólitas: Amadorismo e Processo de Profissionalização no Futebol Carioca (1922-1924). 2009. 163 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.

NETO-WACKER, M.; WACKER, C. Brazil goes Olympic: Historical Fragments from Brazil and the Olympic Movement until 1936. Kassel: Agon-Sportverlag, 2010.

SARMENTO, C. A regra do jogo: uma história institucional da CBF. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006.

SILVA, J. Gestão da Segurança em Megaeventos Esportivos. In: DaCosta, Lamartine (Org.). Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006, p. 17-20.

TORRES, C. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012.

[1] O Imparcial, 12 de maio de 1920, p. 8.

[2] O Imparcial, 26 de maio de 1920, p. 7.

[3] O Imparcial, 26 de maio de 1920, p. 7.

[4] O Imparcial, 06 de abril de 1921, p. 12.

[5] O Imparcial, 30 de junho de 1921, p. 8.

[6] O Imparcial 30 de março de 1921, p. 9; O Imparcial 31 de março de 1921, p. 9-11; O Imparcial 06 de abril de 1921, p. 9, 12; O Imparcial 07 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 09 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 12 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 15 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de abril de 1921, p. 8; O Imparcial 22 de abril de 1921, p. 8; O Imparcial 23 de abril de 1921, p. 11; O Imparcial 24 de abril de 1921, p. 10; O Imparcial 26 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 27 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 30 de abril de 1921, p. 7; O Imparcial 01 de maio de 1921, p. 8; O Imparcial 05 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 07 de maio de 1921, p. 11; O Imparcial 14 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 22 de maio de 1921, p. 11; O Imparcial 02 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 03 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 06 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 11 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 13 de junho de 1921, p. 10; O Imparcial 16 de junho de 1921, p. 10; O Imparcial 17 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 18 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 25 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 30 de junho de 1921, p. 8; O Imparcial 05 de julho de 1921, p. 10; O Imparcial 06 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 08 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 11 de setembro de 1921, p. 8-9.

[7] Ilustração Brasileira, março de 1922, p. 72-74.

[8] Revista Fon Fon 23 de setembro de 1922; Revista da Semana 23 de setembro de 1922.

[9] O Imparcial, 03 de setembro de 1922, p. 8.


3, 2, 1… Colombia en los Juegos Olímpicos

01/08/2016

Por:
David Quitián

Esta semana empieza la trigésimo primera edición de los Juegos Olímpicos de la era moderna. Los “Juegos Olímpicos de verano” –como también se les conoce- se realizarán en la estación de invierno del hemisferio sur; detalle nominal que delata la eugenesia del evento inventado por el Barón Pierre Fredy de Coubertin (1863-1937).

Es la primera vez que las justas realizadas por el Comité Olímpico Internacional, COI, se escenifican en una nación lusófona y en suelo sudamericano. De esa forma Brasil comparte con México una doble coincidencia: ser los únicos países de América Latina que fueron sede y que –además- asumieron el doble reto de organizar también una Copa Mundo de fútbol en un lapso de dos años (México lo hizo a la inversa: Olímpicos en 1968 y Mundial en 1970).

Jorge Perry fue el primer colombiano en Olímpicos (el desmayo en su debut contribuyó a su leyenda).

              Jorge Perry Villate fue el primer colombiano en Juegos Olímpicos (el desmayo en su debut contribuyó a su leyenda).

Colombia inició su historia olímpica antes de constituir una entidad filial del COI: fue en Los Ángeles 1932 y desde entonces, con la excepción de Helsinki 1952, nunca dejó de participar en el programa atlético que tributa a la diosa griega Nike. Esa primera participación se dio con un boyacense de ascendencia inglesa y española que logró ser admitido para la prueba del maratón: Jorge Perry Villate apenas correría 10 kilómetros de la competencia, pero ganó medalla al mérito de la organización y pasó a la historia como el primer atleta olímpico del país.

Esa participación brindó el empujón que faltaba para que el Comité Olímpico Colombiano, COC, fuese creado el 03 de julio de 1936, días antes del siguiente programa olímpico en Berlín en el que competirían 5 atletas en representación del pabellón patrio. La fecha de creación de la entidad olímpica nacional fue motivo de celebración hace pocas semanas cuando se recordó la octogésima efeméride: en la fundación del COC –hace 80 años- estuvieron representantes del tenis, basquetbol, fútbol y atletismo; con la veeduría de periodistas de El Tiempo, El Espectador y El Mundo al Día.

Son en total 19 participaciones, para un total de 826 deportistas, de ellos 228 mujeres. La primera participación femenina fue en las justas de México a las que acudieron cinco atletas; pero fue desde los primeros juegos del milenio, en Sidney 2000, cuando la presencia de ellas alcanzó tal vigor al punto de superar la representación masculina en Londres 2012 (46 hombres y 58 mujeres) y estar igualada para el torneo en suelo carioca: al momento de publicar este post se han clasificado 73 mujeres y 75 hombres.

María Isabel Urrutia levantó en arranque 110 y en envión 135 kgs para ganar el oro en Sidney 2000

María Isabel Urrutia levantó en arranque 110 y en envión 135 kgs para ganar el oro en Sidney 2000

Sin embargo la eficacia femenina es superior: de las 19 medallas cosechadas en la historia de los juegos, nueve han sido conquistadas por ellas. Una razón más para el orgullo femenino es que los dos únicos oros fueron ganados por mujeres: María Isabel Urrutia en la prueba de levantamiento de pesas (75 kgs) en Sidney 2000 y Mariana Pajón en bicicrós hace cuatro años.

Las 19 medallas sumadas por las delegaciones colombianas a lo largo de los juegos (una en promedio por cada edición), se distribuyen así: 11 de bronce, 6 de plata y 2 de oro. Todas obtenidas en deportes individuales, en ocho disciplinas distintas, que incluyen pódiums de dos de los deportes nacionales: el ciclismo y el boxeo. La estadística es esta:

• Halterofilia: 4 (1 oro, 2 plata, 1 bronce)
• Ciclismo: 4 (1 oro, 1 plata, 2 bronce)
• Tiro deportivo: 2 (2 plata)
• Atletismo: 2 (1 plata, 1 bronce)
• Boxeo: 3 (3 bronces)
• Lucha: 2 (2 bronces)
• Judo: 1 (1 bronce)
• Taekwondo: 1 (1 bronce)

Esas cifras permiten plantear algunas generalidades que merecen mayor desarrollo en otro espacio académico:

• Las mujeres son más eficaces y su progreso es más notorio (9 medallas en 11 juegos)
• Los atletas afrocolombianos han ganado más del 50% de las medallas (10 de las 19)
• Antioquia (7 medallas, una de oro), Valle del Cauca (4 medallas, una de oro) ratifican internacionalmente su supremacía en el ámbito colombiano.
• Medellín es la ciudad de más campeones olímpicos (4), seguida por Barranquilla (2)
• La costa atlántica, como región, es la otra gran aportante de atletas y medallas olímpicas (5 preseas)
• El boxeo en Colombia es caribeño: casi la totalidad de los clasificados por ese deporte son costeños y los tres bronces cosechados hasta el momento son de pugilistas de esa región.
• Las medallas de halterofilia y boxeo han sido cosechadas por afrocolombianos; las de ciclismo por andinos (todos de Antioquia).
• Los logros en ciclismo demuestran que este es el deporte nacional por excelencia: 2 hombres y 2 mujeres (ambas han sido abanderadas) han colectado medallas en tres de las cuatro pruebas olímpicas del ciclismo: la ruta, la pista y el BMX.

Mariana Pajón es llamada la "reina de las pistas" del bicicrós. Medalla de oro del BMX en Londres 2012

Mariana Pajón es llamada la “reina de las pistas” del bicicrós. Medalla de oro del BMX en Londres 2012 y con posibilidades de repetir en Rio. 

Se viene el encendido de la pira olímpica, la cuenta regresiva ya es de un dígito. En breve comenzará a escribirse el libreto de unos juegos que –a juzgar por el cubrimiento de los medios nacionales- puede parecerse en emoción a lo vivido en el Mundial de Brasil 2014: habrá más periodistas colombianos que nunca (especialmente de pequeños medios regionales) y puede darse la llegada de un número de aficionados que se acerque a los 120 mil que vinieron hace dos años.

Por ahora la sensación es que son unos juegos “casi en casa” (de hecho, la Selección femenina de fútbol juega cerca de la frontera, en Manaos) y eso puede estimular una faena parecida a la histórica cifra de ocho medallas conseguidas en Londres 2012.

Llegan estos juegos en medio de un clima de efervescencia por el reciente título de Atletico Nacional en Copa Libetadores y de los podiums de los ciclistas (los “escarabajos”) en el Giro de Italia y el Tour de France.

Se da la largada para RIO 2016 y los que podemos estar en la “cidade maravilhosa” agradecemos la feliz oportunidad.

Twitter: @quitiman


JOGOS OLÍMPICOS, UM MOMENTO DE PROTESTOS?

26/07/2016

por Maurício Drumond

Manifestações políticas não são novidades em Jogos Olímpicos. A decepção com o suposto legado que o evento propiciaria à cidade e as avassaladoras crises política e econômica são o combustível ideal para alimentar tais protestos. Às vésperas da cerimônia de abertura, as antecipações à possíveis manifestações populares – com euforia ou preocupação, dependendo de seu posicionamento político – começam a entrar em pauta; ainda que dividam espaço com outras questões como a possibilidade de atentados terroristas, problemas organizacionais e doping, entre outros.

Por aqui, as manifestações organizadas durante a Copa das Confederações em 2013 também marcaram o imaginário nacional sobre a participação contestatória popular e os grandes (ou mega) eventos esportivos. E com ela, a forte resposta policial engendrada durante a Copa do Mundo de 2014, com uma série de prisões preventivas que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Anistia Internacional (AI) definiram como “graves violações dos direitos e liberdades democráticas”, de acordo com o jornal El País.

Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), manifestou-se com o velho mantra do Comitê: “Os Jogos Olímpicos não têm relação com a política”, disseram repetidas vezes diferentes presidentes do COI. Mas a história nos ensina uma diferente lição. Desde sua primeira edição, na cidade de Atenas, em 1896, os Jogos foram por diversas vezes alvo de interesses políticos.

As Olimpíadas de Berlim em 1936, realizadas em pleno regime nazista, já demonstravam o forte simbolismo político ligado ao esporte. Hitler não poupara esforços para construir a imagem internacional de uma grande e bem sucedida Alemanha. Pela primeira vez, os Jogos eram aparelhados pelo Estado e a imagem de uma nação era arquitetada e projetada através do ideal olímpico.

 

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Berlim, 1936.

Já as Olimpíadas de Melbourne, em 1956, foram palco do primeiro boicote oficial. Em tempos de Guerra Fria, a Espanha, a Suíça e os Países Baixos se recusaram a participar dos Jogos, em protesto contra a invasão soviética da Hungria após a Revolução Húngara daquele ano. Já os egípcios, libaneses e iraquianos não compareceram ao evento contra a presença francesa na questão do Canal de Suez. Os Jogos de Melbourne também não contaram com a participação da República Popular da China, que demandava a exclusão de Taiwan da competição.

Devido ao apartheid, regime de segregação racial, a África do Sul foi banida de qualquer competição internacional e ficou de fora das Olimpíadas de 1964, em Tóquio. A sanção só foi revogada na década de 90, após o fim do apartheid, nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Nos Jogos de 1976, em Montreal, 22 nações africanas se recusaram a participar devido à não exclusão da Nova Zelândia da competição. Esses países pediam a eliminação da delegação neozelandesa pelo fato de que seu time de rúgbi (os “All Black”) havia rompido o isolamento esportivo decretado à África do Sul, que fora banida das competições esportivas internacionais como meio de pressão contra seu sistema segregacionista. Já o Comitê Olímpico Internacional alegava que o rúgbi não era um esporte olímpico, e que por isso o caso fugia de sua alçada. A Nova Zelândia fez valer seu peso político e levou 84 atletas aos Jogos.

As duas Olimpíadas seguintes foram palco dos mais famosos boicotes olímpicos, em 1980 e 1984, nos Jogos de Moscou e Los Angeles, respectivamente. Em Moscou, 62 delegações, lideradas pelos Estados Unidos, se recusaram a participar da competição, a grande maioria em oposição ao regime soviético. Quatro anos depois, em Los Angeles, foi a vez de a União Soviética liderar o bloco comunista de 14 nações a não participarem dos Jogos. O Irã e a Líbia também decidiram boicotar o evento como forma de protesto político, mas não faziam parte do bloco soviético.

Além dos boicotes, podemos também apontar protestos populares em momentos olímpicos. Em 1968, dez dias antes da abertura dos Jogos da Cidade do México, no dia 02 de outubro, a resposta policial a um protesto pacífico resultou no evento conhecido como “Massacre de Tlatelolco”. O número exato de mortes ainda é debatido, com a maioria das fontes indicando entre 200 e 300 fatalidades. Durante os Jogos, uma das imagens mais marcantes em sua história: Tommie Smith e John Carlos dividem um par de luvas e fazem a saudação dos Panteras Negras no pódio dos 200 metros rasos.

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Peter Norman, o australiano que conquistou a medalha de prata na prova e compartilhou o pódio com os estadunidenses, aderiu à manifestação utilizando um broche da organização “Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos”, que propunha o boicote de atletas afro-americanos caso uma lista de reivindicações dos movimentos por direitos civis dos Estados Unidos não fosse atendida. A entidade desistiu do boicote, mas instruiu seus membros a protestarem de sua forma, como fizeram Smith e Carlos. Os atletas dos EUA foram punidos por sua federação e mandados de volta ao seu país, e Norman também sofreu punição, ficando de fora das olimpíadas seguintes, em Munique.

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Os Jogos de 2008, na China, também foram precedidos de diversas manifestações políticas, especialmente relacionadas à ocupação chinesa do Tibete, durante a passagem da tocha por diversas cidades, como Atenas, Istambul, Buenos Aires, Paris, Londres e São Francisco.

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Protestos em São Francisco, 10 mar. 2008. (AP Photo/Ben Margot)

Os Jogos chineses, em si, não tiveram manifestações significativas em solo chinês, o que também se deve ao caráter autoritário de seu governo. Já no Rio de Janeiro, o caráter autoritário do governo também transparece em diversas situações. Resta-nos ver, como serão os nossos Jogos?

 


Carlos Eduardo Novaes – um cronista do cotidiano e o Esporte

18/07/2016

Durante a pesquisa para minha tese sobre a Copa do Mundo de 1978, recentemente defendida no PPGHC/UFRJ, momentos de descontração e alegria surgiam quando me deparava com as brilhantes crônicas de Carlos Eduardo Novaes no Jornal do Brasil durante a realização do torneio

Novaes é escritor, cronista dramaturgo, nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Formou-se em Direito na Universidade Federal da Bahia e teve diversos ofícios como agente de transportes rodoviários, dono de firma de dedetização e de uma fábrica de sorvetes, antes de começar sua trajetória nos jornais. Trabalhou primeiro no periódico Última Hora e em 1972 começou sua carreira de destaque no Jornal do Brasil, onde permaneceu por 13 anos. Escreveu diversos livros de contos e romances com um estilo próprio muito bem humorado e crítico dos hábitos cotidianos.

Nutre verdadeira paixão por esportes e suas crônicas sobre o tema no suplemento cultural Caderno B se destacavam no periódico em virtude do humor refinado com uma linguagem simples e muitas vezes sarcástica. Um bom exemplo que apresentei no meu trabalho está na critica debochada que o intelectual fez ao técnico da seleção brasileira Cláudio Coutinho após os segundo empate sem gols com a Espanha na primeira fase do mundial argentino:

“ Realmente, por um longo momento você chegou a me convencer: bem equipado intelectualmente articulado, cheio de ideias novas, revolucionário até, poliglota, você me fez acreditar que poderíamos trazer o caneco mesmo jogando com os toninhos da vida, com um zagueiro improvisado na lateral, com um zagueiro direito improvisado em extrema, com um futebol brasileiro improvisado de europeu. O jogo de hoje me deixou sem pai, nem mãe e sua imagem Coutinho, que já vinha se desmanchando, ruiu de vez quando faltando 8 minutos colocou o Jorge Mendonça (aliás, o Jorge Mendonça ficou tanto tempo esquentando, esquentando, que pensei que você estava esperando que ele pegasse fogo para colocá-lo em campo) Ali, Coutinho – naquela substituição – a minha gota d´água – você mostrou que nessa Copa está como cego em tiroteio. Reconheço Coutinho que você é um excelente teórico, mas como dizem por aí, na prática a teoria é outra. Acho você muito bom, mas para defender o Brasil num programa de pergunta e respostas sobre futebol, ou – melhor ainda – num torneio de oratória” . (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, n. 61, 08 jun. 1978, – p.10).

Outro assunto polêmico deste mundial que foi a derrota peruana para os argentinos por 6 x 0 que eliminou a invicta seleção comandada por Coutinho também foi brilhantemente abordado na crônica “O Peru expiatório (na falta do bode)”. Segue alguns trechos extraídos:

“Bem meus caros, chegamos ao final de mais uma Copa do Mundo. Recolhemos as bandeiras, varremos o papel picado, depositamos as emoções na poupança e nos instalamos britanicamente diante da televisão a espera do jogo decisivo entre a melhor técnica (Holanda) maior garra (Argentina), torcendo provavelmente para os louros holandeses já que nosso sentimento de latinidade foi para as cucuias depois da goleada dos argentinos sobre os peruanos, aqueles canalhas, miseráveis, sem-vergonha que deveriam ser proibidos de cantar seu hino nacional. Ó, como eu odeio os peruanos! Quando terminou a partida quinta-feira saí babando pelas ruas, caçando os peruanos com a mesma disposição que Wisenthal caça os seus nazistas. Quase peguei um avião e fui apedrejar a Embaixada peruana em Brasília. Cortei relações com meu amigo Mario Vargas Llosa: disse-lhe num telegrama desaforado que só vou voltar a falar com ele no dia que o Peru perdesse de 3 a 0 para a Argentina…

Temos que discutir a atuação desastrosa dos peruanos. O Peru não podia ter perdido de 6 a 0. Não podia. Perdeu porque é um time antes de tudo individualista, que só pensa nele, sem nenhuma solidariedade amazônica. A seleção do Peru sabia que do lado de cá havia 115 milhões de brasileiros sim senhor, 115 milhões não eram dois nem três – torcendo por eles como se fossem peruanos desde criancinhas. No entanto, o que fez ela? Absolutamente nada. Cubillas andava pelo campo como se procurasse uma medalhinha perdida, Cueto se escondia atrás da bandeira de córner, Munante podendo marcar, chutou de propósito na trave, aquele lateral-esquerdo só podia ser o motorista da delegação disfarçado de jogador, e o goleiro Quiroga, bem quanto a Quiroga, basta dizer que que é argentino de nascimento, embora no jogo com o Brasil, depois do jogo com Dirceu, eu chegasse a pensar que era brasileiro…

O Brasil mais uma vez foi vítima de um complô internacional. Em 74 me lembro de um coronel da Embratel jurando que perdemos da Holanda porque os holandeses jogaram dopados. Agora foi a vez do Peru: jogou subornado. Sei que jogou. Ouvi um participante da mesa de debates do programa Haroldo de Andrade, da Rádio Globo afirmar que havia seis peruanos na “gaveta”. Afirmava com tal convicção que só podia estar com o recibo do “suborno” nas mãos. Dizem também que os peruanos abriram as pernas ao saberem que se impedissem a classificação da Argentina nós não iríamos mostrar nosso reconhecimento. Íamos achar que nos classificamos por nossos próprios méritos. Jamais faríamos uma coisa dessas. Tínhamos plena consciência do importante papel que o Peru desempenhava e, da mesma forma como o condenamos por ter nos alijados, estávamos dispostos a anunciar pelos quatro cantos que “conseguimos a classificação graças a bravura do time peruano”.

O que dói nisso tudo é que realmente fizemos uma campanha maravilhosa nesta Copa.  (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, n. 78, 25 jul. 1978, p. 2).

Finda a tese com a avidez literária aflorando por contos, romances e também crônicas de diversos autores acabei relendo prazerosamente dois livros do autor publicados enquanto escrevia no JB: “Mengo, uma Odisseia no Oriente” e “A travessia da via crucis”, ambos ilustrados por seu parceiro, o ilustrador Vilmar Rodrigues.

A primeira obra publicada originariamente em forma de folhetim em 10 capítulos segundo o próprio autor “narra a epopeia tupiniquim de Pedro Biguá, João Cuíca, José Garcia e Maria Pavão, 4 geraldinos que se despencam do Brasil com a cara, a coragem e a criatividade para assistir o seu Flamengo conquistar em Tóquio o título histórico de campeão mundial de clubes no dia 13 de dezembro de 1981”. Segue trecho do início da curiosa jornada de um grupo de torcedores populares da equipe rubro-negra:

“ Desta vez o buraco era mais embaixo: Tóquio. João Cuíca e Pedro Biguá tinham todo direito de se sentir como dois bandeirantes. Com entradas e bandeiras, acompanharam o Flamengo à Assunção, La Paz, Cáli, Santiago e Montevidéu. Não seria agora no melhor da festa, que iriam torcer pela televisão – Televisão – dizia Cuíca é para torcedor amador.

Além do mais esse jogo em Tóquio não será uma partidinha qualquer como a que disputamos nos torneios municipais com o Vasco ou o Botafogo. Estará em jogo o título de melhor time do mundo. O Flamengo é o melhor time do mundo!

A frase que Pedro Biguá utilizava por pura retórica ou paixão nas acaloradas discussões de botequim estava agora por se transformar numa verdade tão concreta quanto as arquibancadas do Maracanã.

Desde a vitória contra o Cobreloa, Pedro Biguá não parara de pensar na possibilidade de entrar no boteco, encher os pulmões e gritar: “ é o melhor do mundo!”; E todos os companheiros de cerveja e discussão, vascaínos, tricolores, botafoguenses, teriam que baixar as cabeças e engolir calados. Para não haver dúvidas, Cuíca e Biguá queriam ser testemunhas dessa consagração.  Durante as caronas que apanharam retornando do Uruguai, os dois juraram que iriam ver o Mengo na final. Iriam a outro planeta, se preciso, que dirá a Tóquio que fica apenas do outro lado da terra”.

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O segundo livro é uma coletânea de crônicas cotidianas do ano de 1974 e no âmbito esportivo além de ter textos sobre futebol e a participação brasileira na Copa  da Alemanha é possível destacar o texto “O show da madrugada” sobre a luta entre Cassius Clay ou Muhammad Ali e George Foreman no Zaire. “A luta do século” também foi retratada pelo olhar irônico do autor:

“ O que  as gerações que nos sucederam a partir do ano 2000 vão pensar da gente? No mínimo que passamos o século XX lutando. Pelo menos a lua de quarta-feira foi a terceira “luta do século” dos últimos anos. E provavelmente não será a última pois é quase certo que Foreman pedirá revanche. Caso isso aconteça não seria mais indicado que os promotores deixassem para realizá-la em janeiro do ano 2000? Entrariam com a marca “luta do século” no registro de patentes e promoveriam o combate tranquilamente certos de que todos os outros que lhe seguirem só poderiam ser no máximo uma luta da década, do quinquenio, do triênio, da quinzena ou –quem sabe? A luta hebdômada.

Na verdade, porém, o que me chamou mais atenção foi o horário da luta: três horas da madrugada. Era natural que com esse horário o governo do Zaire cobrasse um alto preço dos promotores já que o seu país passaria um dia sem produzir. Qual foi o zairense que tendo assistido à luta conseguiu depois acordar para trabalhar? Segundo a versão oficial o estranho horário foi estabelecido pra que o resto do mundo – que dorme cedo – pudesse acompanhar o espetáculo pela TV”.

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O bom humor inteligente do intelectual do cotidiano que marcou gerações com suas crônicas e personagens como Cândido Urbano Urubu ou referências paradidáticas como a obra “Capitalismo para principiantes” enveredou-se pelo esporte agregando uma ironia jocosa articulada muitas vezes com veladas críticas engajadas politicamente.

 

Referências:

Novaes, Carlos Eduardo. A Travessia da via crucis.  Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1974.

Novaes, Carlos Eduardo. Mengo uma odisseia no Oriente . Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1982.


Preiskegeln in Porto Alegre: o “bolão” no Rio Grande do Sul

10/07/2016

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

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O Rio Grande do Sul possui uma série de singularidades em muitos aspectos em relação ao restante do Brasil. No campo esportivo esta é uma constatação bem visível, resultado de um conjunto de variáveis que o fazem um estado peculiar em relação ao restante do país. O bolão, neste contexto, é um exemplo. Este esporte encontrou em Porto Alegre no final do século XIX e início do XX condições favoráveis ao seu desenvolvimento, principalmente, pela grande quantidade de imigrantes europeus, notadamente alemães que são os precursores desta prática e o trouxeram para o sul brasileiro.

Este jogo conhecido popularmente como bolão, também chamado de kegeln, preiskegeln, ou ainda jogo da bola, é uma prática com grande popularidade entre os germânicos e seus descendentes. É uma versão anterior, um pouco diferenciada e mais rústica que o boliche. É o seu antepassado. Existem algumas variações, especialmente em relação ao século XIX e hoje, mas, essencialmente, o objetivo é arremessar bolas de 23 kg sob uma prancha de madeira para tentar derrubar os nove pinos.

Uma possibilidade bem plausível, é que a prática do bolão tenha sido inserida em Porto Alegre através dos imigrantes teutos que ali se encontravam. Visto que este esporte vem de uma tradição nitidamente germânica e que estes adventícios e seus descendentes fundaram uma série de associações esportivas no Rio Grande do Sul, consideramos como relevante esta hipótese. Acontece que temos informações acerca desta prática somente a partir da década final do século XIX, mais de 60 anos após a chegada dos pioneiros germânicos.

Uma primeira informação no Rio Grande do Sul nos remete a cidade de Pelotas, município muito próspero a época e um dos principais destaques econômicos, principalmente pela atividade das charqueadas. É pela ocasião de uma divulgação do Parque Pelotense em Porto Alegre no ano de 1891 que vemos pela primeira vez o jogo da bola ser citado. Associado às grandes atrações que o local possuía, uma espaçosa praça destinada ao recreio onde se encontrava rink, carroussel, balanços, diversos aparelhos de ginástica, equilíbrio e jogos de bola!

Na cidade de Porto Alegre verificamos a existência dos jogos de bola no ano de 1894, visto o aviso de cobrança da intendência municipal para o recolhimento dos impostos que incidiam sobre uma série de atividades, entre elas as agências de loterias, os bilhares públicos e os jogos de bola. Desta forma, é possível inferir que esta já era uma atividade consolidada na cidade, já que possuía até mesmo tributação sobre a sua prática. No entanto, não nos parece, ainda, uma diversão/esporte que se organizava em clubes e associações, o que verificamos posteriormente. E, também, não podemos identificar de forma mais precisa o início desta atividade no município, que somente com o início do século XX se organizaria em agremiações.

No ano de 1901 é que notamos uma maior convergência para a prática do jogo de bola em clubes. É o que aconteceu com o Clube Júlio de Castilhos, pela ocasião da reforma de um prédio situado a rua Sete de Setembro, onde esteve a intendência municipal, e que seria a sua sede. Estas remodelações, realmente, fariam com que o clube possuísse um suporte muito bem estruturado, com salas de leitura, sala de diversões diversas e biblioteca no andar inferior, um restaurante no andar superior, e no extenso pátio, jogos de bola e tiro ao alvo.

Temos notícia, que em março do ano seguinte, 1902, houve um campeonato de bolão no clube Júlio de Castilhos. A partir do ano 1903 estes torneios aconteceram com uma frequência muito grande, tendo uma periodicidade praticamente mensal e, segundo relatos, a sua prática, seu treino, era quase diário entre os amadores. Parece que a partir deste momento os clubes e associações porto-alegrenses passaram a se dedicar, também, a esta atividade. Agremiações que tinham os mais variados objetivos principais passaram a engrossar a quantidade dos amantes do jogo da bola, como a Turnerbund, Radfahrer Verein Blitz, Germânia, Leopoldina, Lemeintziger Verein e Clube 15 de Novembro. Também era constante a visita de competidores de cidades próximas para “desafios”, principalmente aquelas de colonização alemã, como Novo Hamburgo ou São Leopoldo onde a prática do bolão era ampla.

A estrutura dos bolonistas porto-alegrense parece ter se desenvolvido de forma substancial com o desenrolar da primeira década do século XX. Não raras eram as exaltações, a animação existente nas várias canchas da cidade. Segundo a imprensa, era tanto aos domingos quanto nos dias úteis que elevado número de jogadores afluíam nos clubes disputando este esporte.

No ano de 1918 temos notícia da formação de uma “Liga de Grupos de Bola”, que aparentemente se constituiu pelo sucesso do esporte em Porto Alegre. Também, organizado pela Liga, se realizou um primeiro campeonato que recebeu a inscrição de nada menos que treze clubes bolonistas da capital do Rio Grande do Sul. A competição deveria ter sempre um fiscal da liga presente às disputas que se realizavam concomitantemente em canchas de três clubes distintos, cada dia, passando por todas as sociedades em turno e returno. Cada instituição deveria apresentar oito jogadores, devendo cada um deles atirar dez bolas. O “match” ganho contava como dois pontos e o empatado um. O jogador que fizesse o maior número de pontos ao longo de todo o torneio receberia uma medalha de ouro. Para a imprensa da época, os jogos da “Liga da Bola” continuavam despertando franco entusiasmo entre os amantes deste esporte.

É interessante perceber que a prática do bolão se manteve mesmo com a popularização de outros esportes, no mesmo método. Ou seja, eram departamentos autônomos em clubes com finalidades distintas. O bolão permanece sendo praticado atualmente, principalmente no sul do Brasil em cidades com notada influência germânica.

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A luta contra o racismo no futebol e uma mea-culpa

04/07/2016

Uma das atividades centrais do ofício de um historiador é o de interpretar os fatos. Claro, para isso, mergulhamos nos arquivos e nos debruçamos sobre incontáveis fontes que possam nos ajudar no desafio de contar uma certa história. Não digo, com isso, que ao final de uma escrita o historiador considere ter dado um ponto final nas questões possíveis de um determinado objeto de estudos. Na verdade, ao contrário, ao terminar um trabalho, quase sempre, temos a certeza de que poderíamos ter ido mais fundo, ter encontrado mais “vozes” ou mesmo ajustado melhor nossos métodos no tratamento do material encontrado. Mesmo parecendo uma angústia, a de está sempre fazendo um trabalho sem termos definitivos, essa característica também serve como estímulo para seguirmos em frente no desafio de encarar os desafios da nossa profissão.

Por isso, inicio esse texto com uma mea-culpa sobre parte do que escrevi e falei sobre a luta contra o racismo no futebol brasileiro. Na verdade, para não parecer generalista, evitando riscos desnecessários, nesse momento, trato especificamente do Rio de Janeiro e dos, considerados, grandes clubes de futebol da cidade.

Então, para início de conversa, preciso afirmar que: NENHUM CLUBE DE DESTAQUE NO RIO DE JANEIRO LUTOU OU LUTA CONTRA O RACISMO NO FUTEBOL. Ou seja, por mais que ações individuais ou de clubes tenham gerado alguma tensão no cenário esportivo, nenhuma delas pode, a meu ver, ser considerada parte de uma luta sistemática contra o racismo levada a cabo por qualquer que seja o agente/grupo. Quase sempre a luta contra o racismo se resume a entrada em campo por uma equipe com uma faixa declarando serem contrários a esse tipo de acontecimento. Guardadas as faixas, ânimos acalmados, a bola rola e a estrutura segue sendo a mesma. Nenhuma instituição esportiva apresenta/apresentou um programa sistemático para o combate ao racismo no esporte propondo e efetivando punições e, sobretudo, educando jogadores, dirigentes e torcedores para uma nova perspectiva sobre o tema de modo a dirimir os casos em sua base constitutiva.

Sei que a afirmação pode parecer categórica. Porém, decidi encarar o risco a partir dos novos desdobramentos de leituras e trato com as fontes. Para explicar melhor o assunto, devo iniciar apontando para o ajuste que fiz na compreensão da palavra LUTA. Vejamos: considero luta um processo de engajamento atrelado a uma causa na qual o objeto central da questão, nesse caso a luta contra o racismo, esteja no centro do debate e, fundamentalmente, o interesse na sua solução seja parte essencial na formulação das questões apresentadas para os indivíduos ou para as Instituições envolvidas na lide.

Logo, a partir desse novo olhar, posso falar com tranquilidade sobre o Club de Regatas Vasco da Gama e o imaginário criado a respeito do seu engajamento na luta contra o racismo no futebol, forjado no embate entre o Clube e a principal liga de futebol nos anos 20. Tomados por esse exemplo acredito que poderemos dar um salto na compreensão do fenômeno, bem como dos seus desdobramentos reais e retóricos.

Inicialmente, devo reforçar que a famosa carta de 1924, na verdade um ofício enviado a Liga e publicado pela imprensa, conhecida como grande marco na luta contra o racismo no esporte, foi um evento importante para o cenário futebolístico do Rio de Janeiro. No entanto, a partir das novas pesquisas, verificamos que o fato não apresentou nenhuma ressonância fora das fronteiras do estado e em nada tem a ver com a luta contra o racismo, seja no esporte ou fora dele. Na verdade, o documento (“a carta”) visava agir sobre uma demanda interna da instituição que visava manter os bons e vitoriosos jogadores em seus quadros de atletas, atingidos pela solicitação da Liga de retirá-los dos quadros de esportistas do clube.

Ou seja, não podemos afirmar, por que não há indícios comprobatórios que nos possibilite tal coisa, que a questão apontada pela carta tenha gerado desdobramento no futebol de outros estados no Brasil. Ademais, o evento em si não foi resultado do engajamento do clube na causa do negro, mas sim, parte de um processo de mercantilização do futebol que, sem os jogadores apontados na ocasião, causaria um alto prejuízo ao clube em termos esportivos e financeiros e que, naquele momento, teria pouca ou nenhuma outra possibilidade de ser solucionada.

Após a leitura de todos os documentos administrativos disponíveis em arquivo no Centro de Memória do Clube podemos aferir que o racismo, a luta contra o racismo ou qualquer questão relacionada ao negro nunca foi uma temática debatida ou apresentada pelo grupo dirigente da Instituição. Tal fato é constatado na análise das fontes no período anterior e posterior ao da carta. Logo, a Carta de 1924, entendida num contexto maior e, notadamente, pelo seu caráter pontual, não confere ao clube legitimidade no discurso que o define como liderança na luta contra o racismo no futebol brasileiro.

Vale destacar sobre o perfil popular do clube, criado a partir do imaginário de uma instituição que lutou contra o racismo e, por isso, se forjou como clube essencialmente popular, que novas pesquisas já apontam para outra perspectiva sobre essas marcas, ou no mínimo nos dão indícios de suas limitações, vejamos:

Os pesquisadores Victor Melo e Nei Jorge, em artigo publicado (Recrear, instruir e advogar os interesses suburbanos”: posicionamentos sobre o futebol na Gazeta Suburbana e no Bangú-Jornal (1918-1920)- artigo completo em: http://www.seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/42863 ), ao tratarem com a chamada imprensa suburbana, confirmam a tese de que os clubes de subúrbio e seus torcedores eram mal vistos pela imprensa de grande circulação e, principalmente, que o mercado de jogadores que tiravam do subúrbio seus melhores atletas gerou ao Vasco, diferentemente do que se afirma, uma imagem muito ruim, visto que os jogadores deixariam de defender os clubes locais e, numa escala maior, o próprio subúrbio para defender um clube “estranho a eles, como o Vasco…” (Op. cit. p.202).

Outro dado importante que merece ser levado em conta quando apresentamos o Vasco como representante da luta contra o racismo está na pesquisa realizada por Victor Pereira (Professor Auxiliar na Universidade de Pau et des Pays de L`Adour – França), parte publicada como capítulo do Livro Esporte, Cultura, Nação, Estado – Brasil Portugal – intitulado Futebol português nas Américas, anos 1890-1960 (2014), quando diz que:

“não era propriamente um sentimento antirracista que guiava os dirigentes do Vasco da Gama, por vezes, por influência do pensamento lusotropicalista criado por Gilberto Freire, se escreveu. Era sobretudo a vontade de ganhar, de vencer os clubes das elites que conduzia os dirigentes do Vasco…” (p. 46).

Somada a essa análise, confirmada pela ausência desse debate nos arquivos do clube, temos também a forma instrumental como o clube foi utilizado pela Ditadura de Salazar (Estado Novo – 1933-1974) como representante de uma Portugal que deu certo e representava a vitória da miscigenação levada a cabo pelos portugueses em terras colonizadas.

Além de falso, esse argumento, experimentado à época do Expresso da Vitória (famosa equipe do clube dos anos 50), forjada nas obras Gilberto Freyre, contava com a anuência dos dirigentes do clube. Na verdade, mais do que aprovação, havia um discurso efetivo de defesa da exploração Portuguesa em terras colonizadas.

Como exemplo, podemos destacar a defesa do processo exploratório de Portugal na África e, principalmente, quando estes mesmos dirigentes, em 1954, defendem a soberania lusa na Índia (2014, p.51). Ou seja, não havia, como não há, uma luta contra o racismo, contra exploração da população negra ou qualquer que seja ação contra esse movimento.

Mesmo com tudo isso, vale ressaltar que o fato do Vasco ter saído da principal Liga de futebol à época foi importante para o aprofundamento das tensões entre os clubes da elite carioca, da mesma forma que colocou em pauta, mais uma vez, a questão do negro no futebol, ainda que de forma secundária. No entanto, a questão não revela nenhuma disposição do clube em lutar pela comunidade negra, ou mesmo apresentar aproximações que pudessem gerar transformações para essa parte da população.

Enfim, A história do racismo no futebol, assim como a história do negro, ainda tem muito pra avançar. A história vive em movimento e esse post é apenas parte desse caminho. Novos desdobramentos de pesquisas realizadas podem, doravante, me fazer voltar atrás em parte ou no todo desses novos escritos. Por enquanto, aponto para essas conclusões.

Bibliografia

PEREIRA, Victor. Futebol português nas Américas, anos 1890-1960. in: MELO, Victor Andrade de, PERES, Fabio de Faria, DRUMOND, Maurício. 1 ed – Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.


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