Periódicos militares em defesa do esporte: os casos da “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar” no início do século XX

19/10/2020

por Karina Cancella

A prática esportiva nas Forças Armadas brasileiras (FA) foi intensificada na virada do século XIX para o XX sob o entendimento de que seria uma atividade favorável ao desenvolvimento físico do pessoal militar. Desde meados do século XIX, atividades físicas haviam sido introduzidas no cotidiano das FA por meio de medidas normativas que incluíram essas práticas no currículo das escolas de formação militar tanto no Exército Brasileiro (EB) como na Marinha do Brasil (MB). Atividades como aulas de tiro, ginástica, equitação militar e “hipiátrica”, natação e esgrima passaram a fazer parte do currículo dessas instituições de ensino.[1] Percebe-se a aproximação dos militares não somente das atividades ginásticas mas também de práticas que possibilitassem o desenvolvimento de habilidades fundamentais para o exercício militar no período, como tiro, natação, esgrima e equitação. Essas práticas, posteriormente, passariam a ser também realizadas em caráter esportivo.

A defesa pela ampliação dessas atividades para todos os militares era reforçada pelas observações das atenções que Forças Armadas estrangeiras dedicavam aos processos de preparação do corpo dos combatentes, considerando os exercícios físicos como importantes instrumentos para a manutenção da forma e da disciplina das tropas. (SILVA; MELO, 2011)

Essas preocupações com o preparo técnico e físico dos militares brasileiros ganharam maior projeção com o advento da República e seus projetos de modernização para as Forças Armadas. Esses projetos envolviam renovações materiais e também ações ligadas à formação dos militares brasileiros. Os problemas estruturais das instituições eram constantemente destacados em relatórios dos Ministérios da Guerra e da Marinha submetidos ao governo federal naquele período enfatizando as dificuldades de materiais e as defasagens na preparação de soldados e marinheiros. (CANCELLA, 2012)

O relatório do Ministério da Marinha do ano de 1892 defendia, por exemplo, que a má organização das escolas de aprendizes e a falta de navios para as instruções práticas dificultava aos jovens a aprendizagem da “arte do marinheiro e [de] adquirirem as qualidades physicas e moraes indispensáveis ao homem do mar”.[2] Como solução para o problema, defendia-se a reforma das escolas e estabelecimento de viagens de instrução.

Para divulgar essas novas formas de treinamento e os projetos de modernização em pauta naquele momento, Exército e Marinha utilizaram seus principais veículos de comunicação institucional: os periódicos Revista Militar (RM) e Revista Marítima Brasileira (RMB).[3]

O Exército também defendia a necessidade de viagens para a melhor preparação de seus militares. Em edição da Revista Militar do ano de 1900, foram publicadas informações sobre a primeira viagem de instrução do Estado-Maior do Exército em serviço de campanha. O artigo “Uma viagem do Estado-Maior no Chile” apontava como necessidades do EB naquele momento:

1o.) Habituar officiais ao serviço de guerra, collocando-os em situações idênticas as que se apresentam em campanha e fazendo-os applicar sobre o terreno os methodos e soluções dos problemas tácticos, que aprenderam teoricamente; […]

3o.) Nestas expedições o estado-maior experimenta a robustez physica e o preparo intellectual dos officiaes. [4]

Acompanhando as preocupações com os conhecimentos táticos e técnicos da guerra, destacava-se também a busca por métodos para o aprimoramento físico dos militares. As observações sobre como os exércitos estrangeiros realizavam seus processos de preparação e organização eram temas recorrentes nas edições da Revista Militar. Por meio dos estudos da estrutura dessas instituições, projetava-se a renovação das FA brasileiras. Como exemplo, em artigo publicação na Revista Militar em 1901, o Major Engenheiro Dias de Oliveira tratou sobre as ações do Exército Alemão, destacando as principais vantagens deste exército:

o official d’estado-maior não deve somente desenvolver o espírito, completar a instrucção, já pelo útil jogo da guerra, a resolução de themas tácticos, conferencias, já pelos trabalhos d’ inverno ou de viagens d’ estado-maior. É-lhe igualmente necessário desenvolver as qualidades physicas, tonificar e robustecer o organismo, para supportar com vantagem a inclemência da vida em campanha, como convem a um homem de guerra. Por isso o official alemão, alem das grandes manobras do outomno, dedica-se com paixão aos diversos gêneros de exercícios physicos, como a gymnastica, o cyclismo, a equitação, as marchas de guerra e as demais úteis e atraentes diversões creadas pelo sport moderno.[5]

A defesa da utilização de práticas esportivas como instrumentos de preparação para a atividade militar também ganhou destaque na MB. Militares da Marinha do Brasil participaram ativamente do processo de organização de entidades esportivas de remo na sociedade carioca. Os interesses em destacar os benefícios desta prática, no entanto, não se restringiam aos argumentos em torno da saúde e da modernidade, característicos da época. O entusiasmo dos militares em divulgar as atividades pode ser ilustrado com as ideias apresentadas pelo Capitão-Tenente Santos Porto no artigo “O sport náutico no Brazil”, publicado na RMB em 1901. O artigo traz elementos que nos ajudam a compreender os interesses da Marinha em defender maior desenvolvimento do remo, associando esta prática aos seus ideais de “cidadão” para a República brasileira naquele momento inicial do século XX:

[…] Em boa hora, felizmente, sentiu a nossa mocidade que no sport náutico encontraria as melhores e mais salutares distracções e, impulsionada por admirável enthusiasmo começou a fundar ao longo do littoral novos clubs, centros de animação e actividade. […]

Diante dos crescentes dispêndios com a manutenção das forças de mar e terra permanentes, cujo objetivo é garantir a paz, espíritos bem intencionados teem inscripto na sua bandeira, que se deve educar o povo de modo a transformal-o em legiões de soldados na hora, em que possa perigar a integridade da nação.

A situação do Brazil não é, porem, a dos estados europeos. Lutas futuras, si infelizmente tivermos, terão que se liquidar sobre o mar ou ao longo de nossas costas, e para que os futuros voluntários, a nação em armas prompta a defender os seus lares, o possam fazer com segurança e vantagem, é preciso que o povo se eduque sob este ponto de vista, no amor das cousas do mar, seguros os nossos estadistas de que, todo o auxilio prestado é um elemento de trabalho da defesa nacional.

Não basta que <<cada cidadão seja um soldado>> é preciso que <<cada cidadão seja um marinheiro, na mais lata accepção d’essa palavra>>.[6]

Os militares da MB buscavam evidenciar suas perspectivas sobre a necessidade de maior preparação do cidadão, que deveria ser acima de tudo um soldado-cidadão ou, como defendeu o autor, um cidadão marinheiro. A necessidade de formação de indivíduos para a defesa da nação que estivessem habituados ao mar foi o principal argumento utilizado ao longo do artigo para destacar os benefícios que a prática do remo poderia trazer para o país como um todo. Esse argumento fica evidente na afirmação sobre as diferenças entre o Brasil e os países europeus no que se refere à possível ocorrência de conflitos. Ao evidenciar estes aspectos dos esportes náuticos, o artigo não somente buscou aproximar seus militares dessas atividades mas também a juventude em geral. Os argumentos foram elaborados com objetivo de enfatizar a necessidade do “amor das cousas do mar” na tentativa de atrair a juventude para as atividades militares, já que as FA enfrentavam sérios problemas quanto ao número de integrantes, estando seus efetivos sempre abaixo das necessidades expressas nos planejamentos anuais (ALMEIDA, 2010; NASCIMENTO, 2010). Atrair os jovens para suas fileiras era imperativo e inúmeras estratégias foram utilizadas, inclusive por meio da prática esportiva.

A RMB voltou a publicar um artigo sobre a necessidade da juventude brasileira se aproximar das práticas náuticas em 1902. A matéria sem autoria “Campeonato de 1902 – Clube de Natação e Regatas” trazia inúmeros argumentos sobre os grandes benefícios da prática do remo e a satisfação para os oficiais da Marinha ao perceber a ampliação da atividade entre os civis, destacando os clubes de remo como um “celeiro” de homens fortes, preparados para a defesa nacional e habituados ao mar, atendendo aos interesses militares navais. Esses clubes seriam, portanto, “viveiro abundante de moços fortes, habituados ao mar, e aos trabalhos, no dia em que a Pátria ameaçada chame a postos seus filhos para defenderem-na”.[7] O esporte, nessa interpretação, seria um importante instrumento preparatório para as funções militares em batalhas marítimas.

Revista Marítima Brazileira. Campeonato de 1902. 2o. Semestre de 1902, p. 383.

Revista Marítima Brazileira. Campeonato de 1902. 2o. Semestre de 1902, p. 387.

Os projetos de modernização para o EB espelhavam-se nos modelos de organização das Forças estrangeiras, como já destacado. Na edição de 1906 da Revista Militar, o Capitão do Estado-Maior de Artilharia Liberato Bittencourt destacou no artigo “Princípios geraes de organização dos exércitos” os 12 temas que deveriam ser levados em conta nesse processo de modernização. Entre os princípios elencados pelo autor, destaco o de número 10:

 […] Principio de educação physica, intellectual e moral: organisar os exércitos de modo a serem elles grandes escolas de educação physica, intellectual e moral da mocidade […].[8]

O destaque para a função de ser “grandes escolas de educação physica, intellectual e moral da mocidade”, atribuídos ao EB, enfatiza os ideais sobre a necessidade de uma sociedade envolvida com as atividades militares. Essa perspectiva do Capitão acompanhava, em grande parte, as discussões sobre a necessidade de um novo formato para o EB, mais operativo e menos teórico, seguindo os modelos adotados por potências militares como França, Alemanha e Estados Unidos. (CANCELLA, 2012)

A prática esportiva foi defendida entre os militares inicialmente como forma de treinamento do corpo para melhoria do desempenho em suas atividades funcionais. No entanto, ao longo do final do século XIX e início do século XX, essas práticas passaram a ser também indicadas para os jovens civis em publicações de revistas institucionais das FA com objetivo de aproximar a juventude de suas atividades e preparar, por meio do esporte, grupos de “soldados-cidadãos” ou “cidadãos-marinheiros”.

Referências:

ALMEIDA, S. A modernização do material e do pessoal da Marinha nas vésperas da revolta dos marujos de 1910: modelos e contradições. Estudos Históricos, v. 23, n. 45, p. 147-169, jan. – jun. 2010.

CANCELLA, K. A defesa da prática esportiva como elemento de preparação dos militares por meio das publicações institucionais “Revista Marítima Brasileira” e “Revista Militar”. In: Encontro Regional de História da ANPUH-Rio, 2012, São Gonçalo. Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-Rio. São Gonçalo: ANPUH-Rio, 2012.

NASCIMENTO, F. Militarização e Nação: o serviço militar obrigatório na Argentina e no Brasil em uma perspectiva comparada (1900-1916). Revista Brasileira de História Militar, ano I, n. 1, p. 1-18, abr. 2010.

SILVA, C.; MELO, V. Fabricando o soldado, forjando o cidadão: o doutor Eduardo Augusto Pereira de Abreu, a Guerra do Paraguai e a educação física no Brasil. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, n. 2, p. 337-353, jun. 2011.


[1] BRASIL. Decreto n° 2.116, de 01 de março de 1858. Aprova o Regulamento reformando os da Escola de aplicação do Exército e do curso de infantaria e cavalaria da Província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, e os estatutos da Escola Militar da Corte. Coleção de Leis do Império de 1858; BRASIL. Decreto n° 2.163, de 01 de maio de 1858. Reorganiza a Academia de Marinha em virtude da autorização concedida no parágrafo 3º. Do artigo 5º. da Lei n. 862 de 30 de julho de 1856. Coleção de Leis do Império de 1858.

[2] BRASIL. Relatório do Ministério da Marinha, 1892, p. 40.

[3] Essas publicações eram utilizadas como instrumento de divulgação de informações e propostas sobre as mais diversas temáticas de interesse das instituições militares, inclusive assuntos esportivos. A RMB é uma publicação oficial da MB, editada desde 1851 com periodicidade trimestral com artigos de autores nacionais e estrangeiros sobre assuntos históricos, técnicos e estratégicos, sendo publicada até os dias atuais. A Revista Militar é a sucessora do primeiro periódico científico oficial do EB, criado em 1882 com o nome de Revista do Exército Brasileiro e circulou entre 1882-1888, sendo interrompida a publicação e reiniciada em 1899 com o título de Revista Militar entre 1899-1908. Em 1911, a publicação foi retomada com o nome de Boletim Mensal do Estado Maior do Exército, circulando até 1923. (CANCELLA, 2012)

[4] Revista Militar, Uma viagem do Estado-Maior no Chile, ano II, 1900, p. 48.

[5] OLIVEIRA, Dias de. O Exercito Alemão. Revista Militar, ano III, 1901, p. 188-189.

[6] PORTO, Santos. O sport náutico no Brazil. Revista Marítima Brazileira. 2º. Semestre de 1901, p. 11.

[7] Revista Marítima Brazileira. Campeonato de 1902. 2o. Semestre de 1902, p. 381-388.

[8] BITTENCOURT, Liberato. Princípios geraes de organização dos exércitos. Revista Militar, ano VIII, p. 341-348.


Hamilton: mais de uma década depois

04/10/2020

por Victor Melo

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Escrevemos tantas coisas que não raramente esquecemos de algo que escrevemos. Hoje, lembrei de um breve artigo que publiquei há mais de 10 anos, em 2008.

O repórter da Folha de São Paulo me ligou e, com a rispidez típica (e por vezes admirável) dos jornalistas, lançou o petardo: “Professor, o que pode significar a vitória de Hamilton?”. O notável automobilista, ainda jovem, tinha grande chance de se tornar campeão do circuito da Fórmula 1. Mesmo não sendo meu tema central de estudo, arrisquei algumas opiniões, ressaltando a importância de um negro sagrar-se vitorioso numa modalidade na qual há poucos negros representados.

O repórter, então, lançou um desafio: “Aceitas escrever um breve artigo sobre isso? Tem que se claro, direto, com número limitado de caracteres. Sim, e somente será publicado se Hamilton for campeão”. Demorei um pouco, mas aceitei, afinal, parecia um esforço interessante de reflexão. Frente à minha resposta positiva, retrucou o repórter, que preparava uma grande matéria sobre o piloto: “E agora, professor, para quem vamos torcer: Massa ou Hamilton?”. O brasileiro Felipe tinha grandes chances de também se sagrar campeão.

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Massa e Hamilton Paulo Whitaker/Reuters Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/f1/ultimas-noticias/2016/09/01/

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Não respondi, nos despedimos e, com a cabeça em polvorosa, me pus a tentar rabiscar algo. Eu e o repórter passamos os dias seguintes dialogando. Ele me deu dicas valorosas de como escrever para um jornal. Fui ajustando, tentando aprender. Ele foi paciente. No domingo, dia da corrida, nos falamos pela manhã, fizemos os ajustes finais e ele retomou a pergunta: para quem torcer Massa ou Hamilton?

Em tom solene, consagrei: como brasileiro, por Massa, como seres humanos, por Hamilton. Rimos da tergiversação e fomos aguardar o resultado que todos hoje sabemos – o britânico se tornou campeão, numa corrida emocionante, deixando para sempre seu nome registrado na história (e meu artigo foi publicado, bem como a grande matéria – Folha de São Paulo, Caderno Esporte, 3 nov. 2008, p. 3, disponível aqui http://cev.org.br/biblioteca/vitoria-ajuda-a-superar-preconceitos/).

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Hamilton campeão
Reuters
Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Formula_1/0,,MUL846415-15011,00-NA+ULTIMA+CURVA+HAMILTON+GANHA+O+TITULO+E+FAZ+HISTORIA+NO+QUINTAL+DE+MASSA.html

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Mais de 10 anos depois, Hamilton está prestes a registrar mais do que nunca seu nome na história. Não só por ser um magnífico piloto, um incrível atleta de um dos esportes mais difíceis e arriscados, mas também por se tornar um líder global por suas posturas políticas, por dar visibilidade a questões que extrapolam em muito e são mais importantes do que o esporte: vidas negras importam.

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Liderados por Hamilton, pilotos se ajoelham em protesto contra o racismo antes do GP da Áustria
Disponível em: https://jovempan.com.br/esportes/outros-esportes/pilotos-se-ajoelham-em-protesto-gp-da-austria.html

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Hamilton está prestes a bater o recorde mundial de vitórias e igualar o de campeonatos da Fórmula 1. E tudo isso sem se deixar calar pelos burocratas do esporte. Perceba-se que isso se dá em um momento em que, no Brasil, critica-se a atleta Carol Solberg apenas por ela expressar o seu ponto de vista. Curiosamente, a mesma medida não foi tomada para aqueles que defenderam o que hoje Carol critica. Pior, a atleta sofreu reprimenda de uma comissão de atletas que supostamente deveria a representar e defender. Poucas vezes se viu tamanha pusilanimidade e peleguismo. Mentira. No Brasil de hoje, lamentavelmente isso é cada vez mais comum.

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Incomum essa postura? Ou sinal do adesionismo, conservadorismo e alienação que lamentavelmente marcam largas esferas do campo esportivo, algo perceptível, por exemplo, nas atitudes da diretoria de um clube de futebol que, beirando o “terraplanismo”, não considerou com profundidade os desdobramentos da crise pandêmica que vivemos, tendo que pedir o adiamento de uma rodada por sua equipe estar largamente infectada.

Hamilton, Carol e muitos atletas que não se deixaram calar entraram e entrarão para a história pela porta da frente. Entenderam que não basta ser magnífico nas lides esportivas, há que se ser magnífico na vida, para a sociedade, para a humanidade. Existem muitos atletas. Alguns são excelentes atletas. Alguns ultrapassam isso. Alguns são mesmo quase heróis. Hamilton é desses. Faz muito bem que nos dias de hoje tenhamos um herói negro e insubmisso. Ajuda a deixar mais claro quem são os canalhas da história.

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Sabe de uma coisa: fiz muito bem, em 2008, ao torcer para Hamilton em nome da humanidade. A humanidade é muito mais importante do que um nacionalismo barato como esse que anda em voga nesse triste Brasil dos dias de hoje.

Abaixo, a versão semifinal do artigo publicado, ainda com outro título e sem revisão final.

NEGROS NO PÓDIO.folha.sao.paulo

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Adhemar Ferreira da Silva: representações de um herói olímpico (parte 1)

27/09/2020

por Fabio Peres e Victor Melo[i]

Adhemar Ferreira da Silva destacou-se no movimento olímpico internacional por se sagrar bicampeão na prova do salto triplo (Helsinque/1952 e Melbourne/1956). Suas conquistas tiveram grande repercussão no cenário brasileiro. Na década de 1950, o Brasil estava há 32 anos sem ganhar uma medalha de ouro olímpica (desde a edição de 1920, quando uma delegação do país participou pela primeira vez do evento[ii]).

Naquele momento, o Brasil tentava se afirmar no cenário esportivo internacional, mas lidava com a “tragédia” da Copa do Mundo de Futebol de 1950, quando a seleção nacional foi derrotada pelo selecionado uruguaio em pleno Maracanã. No olhar do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, esse fracasso se converteu em um ethos que anos mais tarde seria ironicamente denominado de “complexo de vira-latas”, um certo “pudor em acreditar em si mesmo” mesclado com o “medo da desilusão”; em outras palavras, um sentimento de “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”[iii].

Naquela década, politicamente, o país passava por um momento de transição democrática, depois de viver 15 anos sobre a presidência de um mesmo líder (1930-1945), que governou de forma ditatorial durante oito anos (1937-1945) – Getúlio Vargas, que voltou ao cargo pela via eleitoral em 1951. Do ponto de vista econômico, passos mais seguros eram dados no caminho da industrialização, modificando-se a estrutura societária nacional. As cidades cresceram bastante, diversificando-se o perfil de seus habitantes. O fortalecimento dos meios de comunicação contribuiu tanto para expor as crises identitárias pelas quais passava o Brasil quanto para mobilizar mais intensamente os brasileiros ao redor da ideia de nação[iv].

Nesse contexto, deve-se considerar que Adhemar Ferreira da Silva tinha um perfil típico de boa parte da população brasileira. Negro, nascido na maior cidade do Brasil (São Paulo), era membro de uma família de camada popular (filho de um operário com uma cozinheira) que conseguiu melhorar sua condição socioeconômica. Não fora o primeiro grande atleta a receber atenção do país, nem tampouco o primeiro esportista negro a tornar-se reconhecido (o antecedeu, por exemplo, o notável futebolista Leônidas da Silva). Mas foi certamente o que maior fama obteve até então, antecipando a espetacular repercussão que outro personagem teria a partir da década de 1960, o Pelé.

Mas quais foram as representações veiculadas na imprensa do Rio e de São Paulo sobre as conquistas olímpicas de Adhemar? Como elas se cruzavam com as questões nacionais, com os conflitos e desejos de uma nação que passava por rápidas e intensas mudanças e, ao mesmo tempo, mantinha contradições históricas? Como elas nos ajudam a ter um olhar um pouco mais complexo sobre o campo esportivo brasileiro?

Divido em três partes, abordaremos neste e nos próximos posts estas questões e as histórias que enredam as conquistas de 1952 e 1956 de Adhemar.

1952: “Venci Porque Sou Brasileiro”, o encanto de uma comunidade imaginada que “assombrou o mundo”

Pouco tempo antes de embarcar para Helsinque, a fim de disputar os Jogos Olímpicos de 1952, uma parte da imprensa brasileira, ainda que de forma cautelosa, depositava em Adhemar a esperança de conquista da medalha de ouro que o Brasil não ganhava desde 1920. Naquela altura, o atleta já havia igualado o recorde mundial do salto triplo (em 1950) e vencido os campeonatos pan-americano de 1951 e sul-americano de 1952.

O periódico Última Hora chegou a recorrer à opinião de especialistas para avaliar a “representação brasileira” que participaria dos Jogos Olímpicos. Osvaldo Gonçalves, catedrático da cadeira de atletismo na Escola Nacional de Educação Física e treinador da equipe que iria para Helsinque, considerado “um dos maiores técnicos nacionais”, asseverou:

É na realidade a seleção dos maiores valores do atletismo nacional. Todos possuindo performances e técnica a altura da grandeza dos Jogos Olímpicos. Contudo, passar pelas duas eliminatórias contra os expoentes do atletismo mundial, para classificar-se até o 6º lugar na final, não é tarefa fácil ou coisa que se espere que aconteça como proteção da sorte ou por simples “chance” oferecida por erros de fortes concorrentes. Nos jogos Olímpicos participarão os maiores campeões com os mesmos desejos de uma medalha até o 3° lugar. Uma classificação assim tão honrosa, exige do atleta esforço, treinamento, capacidade física e muito apuro de técnica[v].

Tratava-se, de acordo com o técnico, de uma perspectiva realista considerando as marcas e os desempenhos obtidos por cada membro da equipe no decorrer daquele ano[vi]. Alcançar a classificação para a final já era considerado um “grande feito”. De todo modo, Adhemar era cotado pelo treinador como um dos prováveis vencedores. Oswaldo Gonçalves considerava que o brasileiro se encontrava no mesmo patamar que outros atletas já consagrados mundialmente:

Poucas são as provas em que se poderão apontar os possíveis vencedores. Neste caso, já não são mais campeões e sim campeoníssimos. Dos atletas nacionais, Ademar Ferreira, no Triplo Salto, está nessa classificação, juntamente com Jim Fuchs, recordista mundial do Peso com 17m95; com Zatopeck nos 10.000 metros, com 29m02s […].[vii]

A despeito dessa análise, o técnico posteriormente foi mais comedido, sugerindo esperar uma “honrosa colocação”. A prudência era justificável. Não apenas os obstáculos para uma melhor preparação de atletas amadores eram significativos, como o Brasil já havia sofrido a “traumática” perda da Copa do Mundo de Futebol de 1950. O excesso de confiança e a falta de modéstia pareciam ser vistos com desconfiança por determinados atores do campo esportivo, incluindo, jornalistas e treinadores.

Em todo caso, o Última Hora fez questão de reverenciar os competidores brasileiros do atletismo, contrastando com o estilo ponderado do catedrático. O jornal estampou no dia do embarque a manchete em letras garrafais “ESTES ATLETAS DEFENDERÃO O BRASIL”[viii]. Os termos usados na matéria não eram casuais. As ideias de defesa e elogio da nação eram posturas valorizadas no contexto histórico pelo qual o país atravessava (e que ainda persistem como chaves interpretativas da história, em especial, política e econômica brasileiras[ix]).

Destaque para os atletas que representariam o Brasil no atletismo (Última Hora, 7 jul. 1952, p.8.)

Os periódicos, naquele momento, de fato, davam grande repercussão à luta entre os partidários do “nacionalismo” e os do que foram pejorativamente chamados de “entreguistas”. Eram correntes que defendiam modelos conflitantes de desenvolvimento do Brasil, de um lado, com uso de capital e usufruto exclusivamente nacionais com monopólio estatal, de outro, com a participação do capital privado, sobretudo internacional, e exploração das “riquezas” nacionais por grupos estrangeiros[x].

Neste sentido, a discussão sobre o papel que o Estado deveria ocupar na “modernização” do país delineava projetos distintos de nação. O então presidente Getúlio Vargas (1951-1954), vale sublinhar, ganhou as eleições com uma plataforma que propunha a independência e soberania econômica através da nacionalização progressiva da indústria vis-à-vis à superação do modelo agroexportador[xi].

Não surpreende, portanto, a natureza dos discursos dos periódicos acerca da vitória de Adhemar. Quase todos os jornais estamparam fotografias do atleta acompanhadas de textos com tom ufanista. A conquista da medalha de ouro se colocou acima de disputas políticas, com diferentes e mesmo divergentes grupos buscando se vincular ao feito. A busca pela legitimação internacional do país era por todos desejada, ainda que com interesses e apropriações distintas no que tange à construção de narrativas sobre a nação[xii]

De toda forma, as representações sobre a conquista da medalha de ouro de Adhemar Ferreira pareciam se alinhar mais aos discursos que inflavam o valor do nacional em detrimento de possíveis estrangeirismos. A propósito, as instituições esportivas brasileiras – a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), regida desde 1941 pelo Conselho Nacional de Desportos (CND)[xiii], assim como o Comitê Olímpico Brasileiro – eram diretamente ligadas ao Estado, que no momento defendia a “bandeira nacionalista”[xiv] – o que não impedia apropriações diversas.

Propaganda da Esso por ocasião da medalha nos Jogos Olímpicos – Standard Oil

Para a imprensa, Adhemar era um exemplo da abdicação e dedicação que caracterizam os mártires nacionais. Um cronista sugeriu que o atleta “prometera tudo fazer, não pela projeção individual do seu nome, mas, para projetar ainda mais, no cenário esportivo mundial, o nome do Brasil” [xv]. A sua índole e sua devoção à nação adquiriam maior dimensão, em especial, pela origem “pobre e modesta” de seus pais[xvi]. O esportista, a propósito, constantemente enfatizava as dificuldades de ser um esportista amador. De fato, a trajetória de Adhemar reflete em parte as tensões presentes no amadorismo brasileiro, sobretudo, para aqueles oriundos das camadas populares: desde o começo de sua carreira, o atleta teve que conciliar diversas ocupações profissionais com o treinamento e viagens para competições nacionais e internacionais. Uma das situações mais emblemáticas das contradições da condição de amador foi quando, mesmo já tendo ganho sua medalha de ouro em 1952, Adhemar teve seus vencimentos descontados durante 18 dias por ter comparecido aos Jogos Sul-americanos de 1953, sendo, depois, dispensado do cargo que ocupava na Prefeitura de São Paulo pelo então prefeito Jânio Quadros[xvii]. Na época houve protestos contra a medida. Parte inclusive de sua transferência de São Paulo para o Rio de Janeiro se deve justamente por questões laborais e financeiras[xviii].

Todavia, não poucas vezes, fazia questão de destacar sua principal motivação para superá-las – seu compromisso com o país:

Confiava em minhas possibilidades, apesar de reconhecer que encontraria grandes adversários. Mas, além disso, havia o desejo de não decepcionar os meus patrícios. E, pensando no Brasil, somente no Brasil, parti para a caixa de areia onde consegui o maior resultado de toda a minha carreira (grifos nossos)[xix].

O sentimento de pertencimento à nação demarcava, nos seus discursos, o auge de suas experiências: “Quando tocaram o Hino Nacional brasileiro senti que estava vivendo o maior momento de minha vida”[xx]. Sensação semelhante se repetira ao chegar no refeitório da Vila Olímpica, quando atletas de todos os países da América Latina levantaram-se e gritaram “Brasil! Brasil!”, ovacionando Adhemar[xxi].

Dias depois de sua vitória, o olhar estrangeiro, ao dar ênfase a um aspecto invisibilizado (ou visível em outros termos), iria contrastar com o olhar da imprensa brasileira: a “cor” de Adhemar. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Texto publicado originalmente em PERES, Fabio de Faria; MELO, Victor Andrade de. Adhemar Ferreira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero. In: Antonio Sotomayor; Cesar R Torres. (Org.). Olimpismo: The Olympic Movement in the Making of Latin America and the Caribbean. Fayetteville: University of Arkansas Press, 2020, p. 95-110.

[ii] Guilherme Paraense conquistou uma medalha de ouro na prova de tiro (pistola de velocidade ou tiro rápido).

[iii] Manchete Esportiva, 31 mai. 1958, p. 4. Meses antes, o autor já havia se referido a tal sentimento de inferioridade no jornal Última Hora (7 fev. 1958, p. 14). Para mais informações, ver: ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!”. São Paulo: Editora da Unesp, 2004.

[iv] Para mais informações sobre o período histórico, ver: FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de Almeida N. (org.). O Brasil Republicano – O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[v] Última Hora, 21 jun. 1952, Suplemento Esportivo, p. 2.

[vi] A delegação brasileira de atletismo era composta por Wanda dos Santos (80 metros com barreira e salto em distância), Ary Façanha de Sá (salto em distância e 4 x 100), José Teles da Conceição (salto em altura, salto triplo e 4 x 100), Helena Cardoso de Menezes (100 metros e salto em distância), Devse Jurdelína de Castro (200 metros e salto em altura), Wilson Gomes Carneiro (110 e 400 metros com barreira e 4 x 100), Argemiro Roque (400 e 800 metros), Hélcio Buck Silva (salto com vara), Geraldo de Oliveira (salto em distância, triplo e 4 x 100), além de Adhemar Ferreira da Silva.

[vii] Última Hora, 21 jun. 1952, Suplemento Esportivo, p. 2.

[viii] Última Hora, 7 jul. 1952, p. 8.

[ix] Como consequência desse contexto, o Brasil viu surgir uma série de intelectuais que buscariam interpretar e mesmo nomear o “lugar” ocupado pelo país no sistema capitalista, entre os quais, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado. Para mais informações, ver: SAMPAIO Jr., Plínio de Arruda. Entre a nação e a barbárie: uma leitura de Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado à crítica do capitalismo dependente. Tese (Doutorado em Economia) – Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1997.

[x] Para mais informações sobre o período histórico, ver: FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de Almeida N. (org.). O Brasil Republicano – O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[xi] Dias antes da viagem da delegação de atletismo para a Finlândia, o Última Hora publicou na capa – por ocasião do avanço na extração de petróleo em Candeias (no estado da Bahia) – com grandes letras que ocupavam mais que ¼ da página a fala do presidente: “Ninguém arrebata das minhas mãos a bandeira nacionalista”. O texto era antecedido por uma explicação de importante valor simbólico “Vargas mergulhou a mão no petróleo e a estendeu aos técnicos e trabalhadores”, sendo acompanhado por uma fotografia do próprio presidente com uma das mãos estendida para o alto, na qual se lia a seguinte legenda: “Presidente sob aplauso da multidão: ‘Nada pedimos ao estrangeiro. Dele, nada precisamos’”. Última Hora, 24/6/1952, p.1. Vale destacar que o debate entorno da exploração dos bens nacionais, inclusive, do petróleo já vinha desde a década de 1930, quando Vargas também era presidente. Em outubro de 1953, foi aprovada e sancionada por Vargas que dispôs sobre a Política Nacional do Petróleo e definiu as atribuições do Conselho Nacional do Petróleo, instituiu a Sociedade Anônima Petróleo Brasileiro S. A. (que usaria a sigla Petrobrás). Em síntese, a lei garantia o monopólio estatal na exploração, produção, refino e transporte do petróleo no Brasil.

[xii] A própria realização da Copa do Mundo de Futebol de 1950 era vista pelo governo e demais autoridades brasileiras – naquele momento em posição contrária ao monopólio estatal na exploração dos recursos considerados estratégicos para o país – como forma de projetar a imagem do Brasil no exterior. Maiores informações ver: CABO, Alvaro Vicente. Copa do Mundo de 1950: Brasil X Uruguai — uma análise comparada do discurso da imprensa. In MELO, Victor Andrade (org.). História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007, p. 47-60.

[xiii] Brasil. Decreto-lei nº 3.199, April 14,1941, accessed May 23, 2017.,http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del3199.htm

[xiv] Em uma cerimônia realizada na Finlândia, o ministro brasileiro das relações exteriores, Jorge Latour, declarou: “Esta noite, nós brasileiros, sentimo-nos particularmente felizes pela vitória de Ademar Ferreira, que atleta modesto e simples, recebeu a consagração espontânea do público que assistiu sua brilhante vitória […]” (Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1).

[xv] Correio da Manhã, 24 jul. 1952, 2º Caderno, p. 2.

[xvi] Na cidade de São Paulo, chegou-se a organizar uma iniciativa para oferecer uma casa para a família de Adhemar (Diário de Notícias, 24 jul. 1952, 3ª Seção, p. 1.) A doação, porém, ao fim não se concretizou, pois acreditava-se que poderia se configurar como pagamento, o que iria de encontro ao status de amador do atleta.

[xvii] Mundo Esportivo,São Paulo, May 12, 1953, 2; Imprensa Popular, Rio de Janeiro, January 1, 7.

[xviii] Revista do Rádio, Rio de Janeiro, April 14, 1956, 14.

[xix] Última Hora, 11 ago. 1952, p. 7.

[xx] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.

[xxi] Correio da Manhã, 25 jul. 1952, 2º Caderno, p. 1.


Europeus e cariocas nos momentos iniciais do esporte em São Paulo

19/09/2020

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

As primeiras experiências esportivas desenvolvidas em São Paulo, não constituíam, ainda, o chamado campo esportivo, mas foram fundamentais para o desenvolvimento deste, anos mais tarde. Tais experiências, no entanto, eram compreendidas explicitamente, desde os seus primórdios, como divertimento. O fim dos esportes era promover alegria e prazer.

Os imigrantes europeus, presentes na cidade desde a sua fundação, tiveram papel central nesse processo de desenvolvimento dos esportes. Eles foram os responsáveis pelas presenças iniciais das duas primeiras práticas esportivas que surgiram em São Paulo, a esgrima e o críquete.

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O Estado de São Paulo, 20 de novembro de 1913

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Os mestres de esgrima, responsáveis pelas pioneiras presenças dessa prática nos jornais paulistanos, eram europeus: alemães, italianos e franceses. Foi com professores europeus que os paulistanos aprenderam a esgrima, e foi por influência inglesa que eles desejaram aprendê-la. A mesma presença determinante dos europeus, pode ser sentida nos momentos iniciais do críquete na cidade. Eles foram praticantes e organizadores da prática, cujas primeiras aparições nos jornais se deram, em língua inglesa, em 1872.

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A Província de São Paulo, 31 de agosto de 1888

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Os europeus, principalmente os ingleses e os franceses, foram decisivos para a chegada e o desenvolvimento dos esportes em São Paulo. Não apenas uma referência ou um modelo a ser seguido, eles foram os fomentadores, aqueles que desenvolveram as pioneiras iniciativas esportivas na capital paulista e que seguiram implementando e fazendo avançar o esporte na cidade.

A tese de que o Rio de Janeiro foi o ponto de onde o esporte se irradiou para o Brasil, se confirma aqui, no caso de São Paulo, apenas parcialmente. As relações comerciais, políticas e culturais entre estas duas cidades vinham de muito tempo, favorecidas pela proximidade geográfica entre elas.

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Correio Paulistano, 27 de maio de 1875

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Era noticiado nos periódicos paulistanos o desenvolvimento esportivo carioca, indicando que o mesmo deveria se dar em São Paulo. O Rio foi uma referência a ser seguida, e também a ser combatida. Combatida não no sentido de ser negada, mas de ser superada. A referência mesmo era a Europa. Com a intenção de se aproximar ao máximo desse continente, é que a corte deveria ser superada. O gosto pelos esportes devia ser maior em São Paulo do que na corte, a performance dos paulistanos também devia ser melhor do que a dos cariocas.

Mas os paulistanos e cariocas foram importantes uns para os outros, no que tange ao desenvolvimento esportivo. Os primeiros adversários dos paulistanos foram os cariocas. As equipes viajavam de uma província para a outra para se enfrentar, o que contribuiu para o desenvolvimento esportivo em ambas as cidades.

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Uma Salvador e seus esportes iniciais

15/09/2020

Coriolano P. da Rocha Junior

Salvador foi capital do Brasil, todavia, no início do séc. XX vivia uma fase de decadência, num cenário em que a Bahia se viu afastada do poder, sem a influência tivera antes. No estado via-se um apelo ao seu passado de “glória” e isso, acontecia pelo fato desta unidade da federação se considerar “injustiçada” no novo cenário nacional, clamando para si a volta de uma época tida como gloriosa.

Para tentar instalar a modernidade, a Bahia, experimentou ações que buscaram reordenar o espaço urbano e os modos de vida dos cidadãos, num conjunto de mudanças socioeconômicas, culturais, estruturais e higienizantes, marcando um novo momento histórico, que buscou tornar a cidade de Salvador um espaço de novas vivências e práticas sociais.

De maneira geral, podemos afirmar que um projeto modernizador se assenta em alguns pontos básicos, que eram: construção e/ou alargamento de novas vias; construção de edifícios de arquitetura imponente e consequente derrubada de antigos prédios; a higienização da cidade; a criação do belo, do apreciável; a instalação de um comércio caro e de padrões europeus.

Foi durante o governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916), que Salvador, viveu as ações que tentaram reordenar seu espaço urbano e adequar seus habitantes aos novos comportamentos e posturas da modernidade.

Ao analisar esse período e o quadro da Bahia, Risério (2004, p. 310), assevera que “sua capitalização era fraca, havia a enorme dificuldade de transporte, a carência de energia e, ainda, a hegemonia dos comerciantes, que não se interessavam tanto por investimentos em atividades produtivas”, ou seja, a Bahia destoava dos princípios aventados pela ideia de progresso. Salvador estava presa a uma lógica econômica que se não impedia, certamente limitava as aspirações por um maior crescimento, pelo progresso, não sendo ainda suficientemente “civilizada”, estando, portanto, fora dos padrões propalados pela modernidade carioca.

Nesse quadro, a elite soteropolitana aspirava mudanças e a bem da verdade, o que existia mesmo era uma tentativa de se criar uma cidade moderna e que exultava o progresso.

Leite (1996), ao falar sobre as aspirações modernizantes de Salvador, mostra que se tentava atender “a um interesse comum de certos segmentos elitistas da sociedade local, inconformados com a cidade em que viviam” (p.18). A cidade de Salvador, em sua aventura pela modernidade, teve de conviver com uma clara dificuldade que em muito limitava qualquer aspiração, a fragilidade econômica.

Se em Salvador o pretendido por Seabra e as elites locais na questão de uma nova urbanização não avançou como se esperava, no que é tocante aos hábitos, também parece não ter havido mudança significativa. Salvador sempre se destacou por possuir uma imensa população negra, herança do longo tempo de escravatura no país e que servia de mão de obra nas fazendas e casas grandes de toda a Bahia e de Salvador. No entanto, essa herança envergonhava a cidade, já que para a elite local, os negros, com seus hábitos e modos mais se assemelhavam a bárbaros e eram símbolos de uma cidade que não atingira padrões modernos. Era preciso embranquecer Salvador, acabar ou ao menos jogar para fora da cidade os rituais e práticas dessa população

Essa tentativa civilizadora de se acabar com festas, gestos, sons e práticas corporais dos negros não avançou muito, já que de certa forma, estavam internalizados na cidade, na população.

Assim, identificamos que existiu na cidade um sentimento e uma ansiedade por mudanças que fizessem com que nela se instaurasse o novo, numa tentativa de apagar o passado. Em ambas, a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Fundamental nessa análise sobre Salvador é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações modernizadoras, já que é nela que se apoiaram as perspectivas de mudanças do cotidiano da cidade, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir um novo povo, com uma nova cultura. Nesse caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a cultura real e moderna.

O que se operou realmente foi uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação dos detentores do controle econômico e político, assim, as reformas urbanas advindas da modernidade, são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava esse princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que esse mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites, que muita das vezes assumiu para si as práticas populares.

Foi nesse cenário e sob essas condições, que em Salvador, se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, sendo esse um dos elementos dessa que se mostrava como uma nova era, a modernidade.

Num contexto onde essa cidade passava pela experiência da modernidade, tentando conjugar reformas urbanas, mudanças de comportamento, construção de novos hábitos e gestar uma nova relação do homem com a cidade, com o espaço, com o tempo, com o outro e consigo próprio, o esporte surgiu como uma das novas formas de vivência, como uma prática social representativa da modernidade. Pode-se atribuir isso ao fato do esporte incorporar elementos que simbolizavam as aspirações por mudanças, assumindo papéis que caracterizaram modificações nas formas de agir e de circular do homem na sociedade, articulando em sua prática elementos como: maior exposição do corpo, movimento, risco e desafio, fatores que significavam uma busca pelo prazer e por uma excitação inovadora, sendo também uma forma das cidades se apropriarem de mais um elemento da modernidade.

Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas cidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por este influenciado, ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova cidade, seja pelo movimento no novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças, identificando-se com o novo.

Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial.

Para falar da presença dos esportes em terras soteropolitanas, tomaremos como elementos de análise, os esportes que tiveram, por alguma razão, uma menor circulação e um deles, foi o críquete. 

O críquete foi uma prática esportiva que aportou em terras brasileiras trazida por ingleses (em meados do século XIX) e em Salvador, alguns clubes foram fundados para sua prática, que acontecia normalmente no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de jogos na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

Em Salvador, como em outras cidades, essa prática teve vida curta, ficando basicamente restrita aos ingleses e poucos brasileiros. Clubes foram fundados, mas logo mudaram suas bases de ação, a exemplo do Club de Cricket Victoria, fundado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Sport Club Victoria, assumindo o futebol como uma prática, e ainda o Club Internacional de Cricket, fundado por ingleses em novembro de 1899.

Além do críquete, outros esportes existiram, só que com menor impacto na composição do cenário esportivo de Salvador. Foram eles: a natação, a patinação e o ciclismo, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites, aspectos importantes na vivência da modernidade.

Esses são exemplos de atividades corporais que tiveram seu início vinculado à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação como ambiente e ainda mais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos, que demarcavam uma nova tecnologia.

Em Salvador, as atividades de natação, até mesmo pela inexistência de piscinas, aconteciam no mar e quase sempre sob a forma de desafios, por vezes de longas distâncias. Via-se que por vezes, a natação aparecia como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho. O porto de Salvador, que constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade, teve entre seus funcionários, um clube chamado de Sport Club Docas[4] que promoveu “festas de natação” para comemorar as datas de inauguração do novo porto de Salvador. Tal fato demonstra a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade, visto que um celebrava o outro.

Assim, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. A natação passava por uma fase de implantação, uma novidade que era apresentada e, portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população e só tempos depois ganhou mais status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas.

Sobre a patinação, em Salvador, é possível perceber que entre 1912 e 1916 esta atividade despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas. Em Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, porém, também existiu como divertimento nas festas dos diversos outros clubes, que não apenas os de patinação.

O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida desde fins do século XIX, uma “novidade” que a cidade aprendia a lidar, assim como a própria modernidade. O ciclismo e a bicicleta, mais que tudo, têm em si a essência da velocidade, do risco e da tecnologia. Em Salvador jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, já que importadas, não faziam parte do cotidiano da população.

Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços e, aqui, falamos do período entre 1912 e 1916. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

O Jornal de Notícias[5] divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas com as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Em Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico para as provas de ciclismo, mas soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a cidade, até hoje, por sua geografia e estrutura urbana, dificulte seu uso.

Por fim, podemos afirmar que Salvador viveu experiências com o esporte, associando-o as novas configurações da cidade, a partir de seu projeto de modernidade. O esporte era considerado uma atividade que simbolizava novos tempos, um novo homem para um novo espaço urbano

REFERÊNCIAS

GAMA, Mario. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: [s.n], 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

LEITE, Rinaldo C. N. E a Bahia civiliza-se… ideais de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana 1912-1916. 1996. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 1996.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. Rio de Janeiro: Versal, 2004.


[1] Localizado no bairro do Rio Vermelho. Jornal Diário da Bahia, 25/01/1902.

[2] Jornal Diário de Notícias, 24/03/1903 e 12/09/1903.

[3] Jornal Diário da Bahia, 11/01/1902. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal Diário de Notícias, 11/05/1915.

[5] Jornal de Notícias, 23/04/1912.


Associação Atlética Vila Isabel: 70 anos de história. Adeus ou até logo?

10/09/2020

por João Azevedo

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“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo e faz a lua
Nascer mais cedo”

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O bairro de Vila Isabel, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, é famoso pela boemia, um ar brejeiro, “sem vela e sem vintém, que nos faz bem”. As calçadas musicais, são uma marca registrada do bairro. Elas foram inauguradas em 1965, nas comemorações do quarto centenário da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A canção citada acima, é de autoria de um dos maiores compositores da música popular brasileira. Em parceria com Vadico, Noel Rosa compôs o Feitiço de Vila em 1934 e a gravação saiu pela Odeon (11.175A) em outubro daquele ano.[i] Esta música, faz parte das dezenove partituras espalhadas, entre a praça Maracanã e a praça Barão de Drummond. Iniciando com a marcha Cidade Maravilhosa, de André Filho e separando nove canções para cada lado, ao longo do Boulevard 28 de setembro.

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Fonte: Acervo pessoal do autor

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Na imagem acima, observamos o portão de entrada da Associação Atlética Vila Isabel (AAVI). Localizada no Boulevard 28 de setembro, 60. Quis o destino que a única música do poeta da Vila, exposta nas calçadas musicais, ficasse no muro daquele grêmio. O Vilinha, como foi chamado por anos carinhosamente a AAVI, foi por mais de setenta anos, um espaço de encontro importante para o bairro, para a zona norte e também para cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, neste momento o clube já foi completamente fechado e seu interior desconfigurado, sendo lhe destruído toda a estrutura.

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Este post não pretende esmiuçar com rigor, toda a trajetória da Associação Atlética Vila Isabel. Mas sim, fazer um pequeno resgate de acontecimentos esportivos e sociais que envolveram seus sócios, praticantes de atividades esportivas do grêmio e frequentadores do local. Deixa também uma contribuição para que no futuro se possa estuda-lo com mais atenção em um artigo, resenha e até mesmo trabalho acadêmico. Infelizmente, não é só a AAVI que passa por essa situação e que poderá ser objeto de análise neste sentido, de clubes que fecharam as portas em nossa cidade.

Curiosamente, na contramão da trajetória destes clubes, está a escola de samba do bairro. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, fundado em 4 de abril de 1946, também é outra joia do bairro. A branco e azul de Vila Isabel, levanta a moral e a identidade local, a cada ensaio no Boulevard e a cada vez que entra na Avenida da Sapucaí. A escola que sofreu anos e anos sem quadra, hoje não passa mais por esse problema. Na época em que não tinha um endereço fixo, chegou a ensaiar e fazer eventos na sede do AAVI.

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Fonte: Acervo pessoal do autor

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A Vila Isabel, também já teve seu clube de football, no início do século passado. O Villa Izabel F.C., mandava seus jogos em um campo que ficava dentro do que hoje se chama, recanto do trovador. Na altura, o espaço tinha sido recentemente desocupado pelo Zoológico da cidade. E por muitos anos, moradores e transeuntes, chamavam e por vezes ainda chamam a localidade, de antigo Zoo. O Parque Recanto do Trovador fica no fim da rua Visconde de Santa Isabel com a esquina da rua Barão de Bom Retiro.

O clube dos Raios de sol, como era apelidado o Villa Izabel Football Club, devido ao escudo, foi fundado em 2 de maio de 1912 e figurou entre os clubes mais proeminente da cidade, durante o fim da década de 1910 até meados dos anos de 1930. A partir de então, entrou em declínio, até fechar as portas e desaparecer de vez do cenário esportivo carioca.

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Vida Sportiva, Anno IV, n. 169, 20 de novembro de 1920. p. 1.

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Alguns anos mais tarde, em 1950, reuniam-se cerca de duzentos moradores locais de Vila Isabel, na residência de Nelton Xavier, a fim de comemorar os feitos obtidos pelas forças armadas brasileiras na Itália e em seguida fundar uma associação atlética com o nome do bairro. Este encontro se deu, no dia 8 de maio, o “dia da vitória”. Data que ficou marcada pelos aliados em 1945 no fim da segunda guerra. Entre os presentes, naturalmente haviam muitos militares. E depois de realizada uma breve oração em memória aos soldados que foram aos campos de batalha na Europa, foi declarada a fundação da Associação Atlética Vila Isabel, pelo então presidente de honra da mesma, General Zenóbio da Costa. Posto isto, foi implementada a diretoria que contou com: Presidente, Tenente Coronel Jaime Graça, 1º vice-presidente, o anfitrião Nelton Xavier e 2º vice-presidente, Tenente Coronel Drumond Franklin e para o cargo de secretário, Major Tomé da Silva.[ii]

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Emblemas disponíveis em: Camisas do Futebol Carioca / Auriel de Almeida – 1º ed- Rio de Janeiro: Máquina, 2014. e https://aavilaisabel.blogspot.com/

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O emblema da Associação Atlética Vila Isabel, faz efetivamente alusão ao antigo clube de futebol do bairro. Entretanto, não há nenhuma evidência de relação direta entre diretores ou sócios do Villa Izabell F. C., com os novos fundadores da Associação Atlética. A questão aí, parece mesmo de resgate de memória local.

Logo nos primeiros anos vida da Associação Atlética, o grêmio se destacou em inúmeras atividades esportivas e socias, tais como os concursos de Miss. O clube sediou por várias vezes, concursos de beleza, que recebiam candidatas de variados clubes da cidade. Como no caso do desfile das “Dez mais” dos clubes cariocas.[iii]  O “Miss Luzes da Cidade’’ em 1957.[iv] E outros eventos. Todavia, o ápice veio com os títulos de Miss Distrito Federal e posteriormente Miss Brasil, da sócia da AAVI, Vera Ribeiro. Vera, faturou o prêmio local, no ginásio da Maracanãzinho em junho de 1959.[v] Dias depois da vitória de Vera Ribeiro, o presidente da Associação Atlética da Vila, proclamou “A Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que tem meninas também”.[vi] Assim, parafraseando o poeta Noel Rosa, na canção Palpite Infeliz.

Depois de conquistar o troféu de Miss Brasil, também no palco do Maracanãzinho, a candidata brasileira ganhou passagem para o concurso de Miss Universo em Long Beach, nos Estados Unidos da América. No evento internacional, Vera Ribeiro, terminou com o quinto lugar.[vii] Depois dela, outras sócias, viriam a triunfar nos desfiles de beleza, como o caso de Jane Macambira, Miss Guanabara de 1972 e Senhorita do Rio em 1970. A obra de Noel Rosa, continuaria presente nas frases que associavam as coisas do bairro. Na reportagem da revista Manchete de 1972, que publica a vitória de Jane, lê-se, o Feitiço da Vila, em referência a beleza da moça. [viii]

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Manchete, n.733, 7 de maio de 1966. p. 239

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O Vilinha, também organizou muitos eventos ligados a prática do vôlei, além de obter equipes que disputavam o campeonato citadino. Serviu a Federação Metropolitana de Vôlei e teve reconhecimento local por isso, como aponta o Jornal dos Sports em 27 de fevereiro de 1953. A matéria publica que na quadra da AAVI, será disputado um quadrangular, sob aprovação do diretor técnico da federação, Ary de Oliveira.[ix] Este torneio, ficou conhecido como “Copa FMV” e permaneceu sendo disputado na quadra da Associação da Vila Isabel. Na imagem abaixo, vamos observar uma fotografia da equipe juvenil da Associação Atlética Vila Isabel de 1953, em disputado do campeonato carioca da categoria.

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Jornal dos Sports, Anno XXIII, n.7.251, 19 de abril de 1953. p. 13.

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A quadra do clube “aviano’’ (outra alcunha da AAVI), também deu lugar a muitas atividades sociais, tais como bailes de carnaval, jantares dançantes com apresentações de cantores e cantoras de rádio, famosos à época, como Ângela Maria, nos anos de 1950.[x] Chegou a receber em 1980 em um festival, o Rei do Baião.  Luiz Gonzaga se apresentou no mesmo dia que, Emílio Santiago, Dicró, Nelson Cavaquinho e outros da música popular brasileira.[xi]

No futebol de salão, o clube conquistou o tricampeonato da Federação Metropolitana de Futebol de Salão em 1965 [xii] , revelou alguns jogadores para o futebol de campo, como no caso de Carlos Pedro do América Football Club, que havia sido campeão juvenil de futebol de salão pela AAVI em 1959.[xiii] Além de consagrar outros esportistas da cidade, como nas disputas de halterofilismo, chegando a ser naquele espaço conquistado o recorde brasileiro na posição horizontal, por Miguel Fustagno. O atleta alcançou a marca de 150 quilos na posição, superando a si mesmo com a anterior marca de 110 quilos.

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Manchete Esportiva, n.145, 30 de agosto de 1958, p. 13.

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Nos últimos anos, o clube vinha passando por inúmeras dificuldades financeiras, baixo numero de sócios e pouca adesão aos eventos esportivos e sociais realizados em sua sede. A história da Associação Atlética Vila Isabel, conta um pouco a história da nossa cidade. As novas formas de lazer, implementadas pelos prédios com estrutura de clube, shopping center, brinquedos eletrônicos etc. Demonstra também, sobretudo, o esvaziamento das elites locais, do poder de compra dos moradores de zonas mais afastadas da praia e do centro da cidade. Hoje, associar-se a um clube, é uma prática que poucos podem e se importam em fazer. Assim vão se fechando inúmeros clubes da zona norte carioca e de outras regiões menos abastadas. Fica a memória de quem viveu e a reflexão do que está por vir. Será que voltaremos a sentir a necessidade de associativismo local, ou o divertimento será só privilégio de algumas zonas da cidade?

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[i] Omar Jubran, Noel Pela Primeira Vez, 2000.

[ii] Diario de Noticias, Anno XX, n.8460, 23 de maio de 1950. p. 2.

[iii] O Cruzeiro, Ano XXXIII, n.13, 7 de janeiro de 1961. p. 18.

[iv] Manchete, n. 281, 7 de setembro de 1957. p. 18.

[v] Manchete, n. 375, 27 de junho de 1959. p. 8.

[vi] Manchete, n. 377, 11 de julho de 1959. p. 9.

[vii] Manchete, n. 733, 7 de maio de 1966. p. 241.

[viii] Manchete, n. 1.054, 1 de julho de 1972. p. 5.

[ix] Jornal dos Sports, Ano XXIII, n.7.208, 27 de fevereiro de 1953. p. 8.

[x] Revista do Rádio, n.516. p. 44.

[xi] O Pasquim, Ano XII, n.598, 12 a 18 de dezembro de 1980. p. 28.

[xii] Revista do Esporte, n. 368. p. 19.

[xiii] Revista do Esporte, n.239. p. 18.


LITERATURA POLICIAL E FUTEBOL: JOGANDO SEM DEFESA

06/09/2020

Por Edônio Alves

Já tratamos, nesse BLOG, da literatura de ficção científica em que o esporte bretão serve como elemento temático a aguçar a inventividade de quem escreve e a imaginação de quem lê. Faremos o mesmo, agora, com a chamada literatura policial, vertente em que o futebol também se insere como tema profícuo e instigador, na medida em que abrange um âmbito que se presta ser repositório do conluio de malfeitores e corruptos de todos os tipos.

A literatura não poderia ficar infensa a esse lado digamos, marginal, do futebol e é isso que veremos na análise a seguir, que fiz dessa boa estória curta que traz o universo noir do jogo de bola aos pés para dentro das malhas das letras. Tenham uma boa leitura!

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luis humberto

                      Foto: Luis Humberto

Sem defesa – conto de Luiz Galdino

Essa é uma estória com estrutura de conto policial e texto enigmático em que um goleiro veterano e negro tem um filho metido no submundo dos vícios e de repente se vê na iminência de perdê-lo por causa de um “justiçamento” ordenado, ao que parece, pelo escalão superior de certa máfia controladora de negócios escusos. Clima de suspense e mistério, conseguido por uma narrativa seca, direta, sem rodeios (como a figurar o campo discursivo nada dialético do universo mafioso) prepondera neste conto sugestivo que coloca o futebol como mais um dos vários tentáculos por onde se espalha a atuação à margem da lei de grupos poderosos que sobrevivem de atividades ilícitas.

O cerne da narrativa, escrita em grande parte em tom indiciário, incide sobre a figura de Diomar, cuja situação difícil na trama já se prefigura na sua caracterização tipológica como personagem: ele é descrito como goleiro, negro e velho, embora em tempos passados tenha conseguido fama por ter jogado na Seleção. Tais circunstâncias o antagonizam de cara com um novo jogador do seu time, o zagueiro Nena, que, nas palavras do narrador onisciente e funcionalmente neutro na história, para emprestar certo distanciamento e deslocamento espacial dos acontecimentos, “viera do Paraná contratado há cerca de dois, três meses, e realizara algumas poucas partidas como titular”.

Como esse antagonismo é primordial para o desenvolvimento e desfecho do enredo do conto, mostremo-lo na sua funcionalidade diegética:

Diomar limitou-se a uma mirada rápida na direção do novato, enquanto tirava as luvas. Como alguém que mal se iniciava na profissão podia se lamentar tanto? Nem ao menos tratava bem a bola. Batia em cima, quebrava embaixo, cometia penalidades infantis; um terror pra qualquer goleiro. No entanto, ele que havia chegado à seleção, nada tinha de seu, enquanto o garotão possuía carro zero e um apartamento no litoral catarinense. Quando lhe roubaram o carro, chorou como uma criança. Só parou quando o clube adiantou dinheiro para o carro novinho em folha”. Continue lendo »


SKATE POÉTICO: UM PROJETO SOCIAL NA PERIFERIA DE SÃO PAULO/SP

03/09/2020

Por Leonardo Brandão

(Historiador/FURB)

Skate e Poesia podem andar – ou deslizar – juntos! Esta é a ideia de um projeto social surgido de um skatista, professor de Educação Física e morador do Jardim Romano, na periferia da cidade de São Paulo. Seu nome é Nanderson Silveira dos Santos, mais conhecido como Nando. Segundo ele, o Projeto Skate Poético (PROSKAP) começou no ano de 2016, inicialmente com a ideia de oferecer aulas de skate e produção de poesias para crianças e adolescentes do Jardim Romano, bairro carente situado no extremo leste da periferia de São Paulo.

Nando explica que, para entendermos melhor a gênese deste projeto, é necessário retornar alguns anos no tempo, ou melhor, ao ano de 2004.  Pois foi neste ano que ocorreu as eleições para a prefeitura de São Paulo, sendo que a atual prefeita à época, Marta Suplicy, prometeu, caso fosse reeleita, a construção do Centro Educacional Unificado (CEU) Três Pontes, no bairro Jardim Romano. Entretanto, esse fato não se consolidou naquele momento em função da vitória do candidato da oposição, José Serra (PSDB). Mesmo assim, essa promessa, segundo ele, fez surgir o sonho de uma pista de skate no local, uma vez que todos CEUs construídos pelas administrações petistas contavam com pistas de skate em suas dependências.

Passados quatro anos, no dia 31 de agosto de 2008, fora inaugurado o CEU Três Pontes, sob a administração do vice de Serra, Gilberto Kassab (DEM), mas sem nenhuma pista de skate. A partir dessa conjuntura, surgiu um movimento dos skatistas locais com o objetivo de reivindicar um espaço qualquer para à prática do skate na região. Porém, somente em 2014, depois de muito diálogo e insistência, foi cedido pela diretoria do CEU Três Pontes uma quadra poliesportiva e um espaço para guardar os obstáculos de skate (rampas, “caixote”, corrimãos etc.) feitos de madeira.

Assim, foi nesse contexto de luta por espaço e reconhecimento que surgiu a ideia de dar aulas de skate e, por conseguinte, em 2016, foi desenvolvido o Projeto Skate Poético. Nesta época, Nando explica que estava escrevendo com frequência poesias e também frequentando Saraus de “poesias periféricas” em seu bairro; e em função disso, embora a ideia ainda estivesse pouco madura, surgiu o objetivo de unir skate com a prática da leitura de poesias, visto que esse gênero dá mais liberdade e é mais fácil de ser trabalhado com crianças e adolescentes, pois permite ir além da norma culta da língua portuguesa (recurso conhecido como licença poética).

Na época, o projeto já contava com oficinas de customização de skates, rodas de conversa, saraus e pequenos campeonatos de skate. Contudo, as atividades aconteciam de maneira muito esporádica. Foi somente em 2017 que o projeto começou a ter um calendário organizado. Isso ocorreu quando Kevin Nascimento da Silva (skatista e professor de História no município) passou a integrar o projeto Skate Poético e, com a sua ajuda, foi possível revisar o projeto original e incluir mais oficinas, como a de mercenária e de produção de “shapes sustentáveis”, essa última ainda em fase de experimentação. Neste mesmo ano, logo após a entrada de Kevin, Rafael Souza Alves Diniz (skatista e também professor de História do município) se voluntariou a participar, fechando a equipe atual. De lá para cá, o projeto amadureceu, expandiu e conseguiu se sustentar com periodicidade e um bom número de participantes fixos.

Atualmente, Nando conta que ainda utilizam a quadra poliesportiva do CEU Três Pontes para as aulas de skate, rodas de conversa, leitura e interpretação de textos, sendo que o projeto passou a contar também com oficinas de marcenaria (em que os alunos aprendem a construir seus próprios obstáculos de skate); oficinas de customização de lixas (na qual os alunos aprendem a criar estêncil com uso de ferramentas manuais e digitais); oficinas de fabricação de shapes sustentáveis, jogos e brincadeiras.

Sobre os desafios atuais para a continuidade deste projeto, Nando explica que como se trata de um projeto independente e que atua no extremo leste da periferia de São Paulo, eles não contam com nenhum apoio governamental, nenhuma política de fomento ao esporte, lazer e educação e nem com recursos privados. Evidentemente, em virtude disso, eles tem algumas dificuldades, sobretudo para a aquisição dos utensílios próprios de skate, como shapes, rodas e equipamentos de segurança, pois aos poucos, os skates montados com peças usadas já não são mais suficientes para atender a demanda crescente de novos alunos. Em razão disso, ele explica que separam os alunos em grupos, de acordo com a idade e nível de habilidade, e fazem um rodízio para o uso dos skates. Também faltam livros suficientes e significativos para atividades de leitura e escrita, bem como materiais para atividades lúdico-recreativas. A maior parte dos materiais que usamos, explica Nando, como poemas impressos em papel sulfite, cones esportivos, bambolês, skates e equipamentos de segurança, são comprados com dinheiro do próprio bolso e/ou com rifas que organizamos junto à comunidade.

A falta de apoio prejudica, por exemplo, quando eles se organizam para fazer passeios às pistas de skate de outros bairros ou em museus, pois nem todos alunos conseguem ir, devido à falta de dinheiro para a passagem de trem e/ou ônibus. Por isso, este ano começaram a buscar informações de como formalizar e regularizar o projeto com o intuito de conseguir recursos públicos e/ou privados para a aquisição de skates, equipamentos de segurança, livros de poemas/poesias e outros materiais para a realização das demais atividades. Por esse motivo, recentemente responderam a um formulário realizado pela Confederação Brasileira de Skate e a ONG Social Skate, o qual tinha como objetivo mapear, conhecer e colaborar com ações sociais em todo Brasil que utilizam skate como ferramenta de inclusão social.

A seguir, apresentamos algumas fotos do Projeto Skate Poético cedidas e legendadas pelo próprio Nando e que estão disponíveis no Instagram @projetoskatepoetico de modo público.

Imagem 1: Oficina experimental no recreio do CEU Três Pontes.

 

Imagem 2: Aula de “tail drop” na rampa reta.

 

Imagem 3: Aluna do Projeto trabalha equilíbrio numa gangorra proprioceptiva.

 

Imagem 4: Aula de ‘rolamento’ (quedas) com skate.

Imagem 5: Roda de conversa sobre diversidade e respeito às diferenças

Para ajudar esse projeto com doação de livros, peças de skate, equipamentos de proteção e/ou ver mais fotos das atividades realizadas, siga e entre em contato com seus idealizadores através do Instagram @projetoskatepoetico


Futebol como Diplomacia: a Política de Apaziguamento

31/08/2020

por Maurício Drumond

1938. A Alemanha estava sob o regime nazista desde 1933 e já dava claros sinais de que a guerra estava próxima. No dia 14 de maio de 1938 as seleções de futebol da Inglaterra e da Alemanha se encontraram no Estádio Olímpico de Berlim, em um jogo amistoso que marcou a história. Sob os olhares de 105 mil espectadores, a equipe britânica cumprimentou os oficiais do regime com a saudação nazista e depois derrotou os alemães por 6 a 3. Mas o que teria motivado o encontro de dois países que pouco mais de um ano depois estariam se enfrentando em uma das mais devastadoras guerras da história? E por que teriam os ingleses feito a saudação à romana, um dos maiores símbolos do movimento fascista?

A política do Apaziguamento

Ainda sob o impacto dos efeitos da I Guerra Mundial e de seu alto custo de vidas humanas, Inglaterra e França buscaram evitar o confronto com a Alemanha de Hitler através do que se convencionou chamar de “Política de Apaziguamento”, na qual os países mantinham uma política de boa vontade e condescendência perante às investidas alemães na Europa (como no caso da remilitarização alemã e da anexação da Áustria com a Anschluss) e buscavam se aproximar do governo de Hitler. O auge dessa política se deu com a Conferência de Munique, realizada alguns meses após o jogo, que levou Churchill a proferir a célebre frase: “Vocês puderam escolher entre a desonra e a guerra. Vocês escolheram a desonra e terão a guerra”.

Inicialmente, a política apaziguadora de Neville Chamberlain, contou com grande apoio popular e da mídia britânica. Após a assinatura do tratado de Munique, Chamberlain foi recebido com festa ao sair do avião, em seu retorno para Londres, ao proferir o discurso sobre a “Paz de nosso tempo“, no dia 30 de setembro de 1930 (Peace o four time).

No entanto, poucos meses depois a Alemanha invadiria o resto da Checoslováquia, e menos de um ano depois a II Guerra Mundial teria início com a invasão da Polônia. A política de apaziguamento seria então considerada um grande erro, como descrito no livro “Guilty Men” (Homens Culpados) publicado em 1940, em meio à guerra e aos bombardeios alemães a Londres. Assinado por “Cato” (pseudônimo para três jornalistas ingleses), o livro apontava Chamberlain e outros líderes do governo britânico como responsáveis pela guerra. Eles teriam sido fracos e medrosos, e o apaziguamento uma política imoral e covarde. O clima de guerra e a disputa interna da política britância, especialmente entre Churchill e Lorde Hallifax (então ministro de relações exteriores, que apoiava a paz com o Eixo), contribuíram para o tom do livro.

Após o final da guerra, no primeiro volume de sua obra “Memórias da Segunda Guerra Mundial”, Churchill aponta o apaziguamento como um erro de Chamberlain, ainda que motivado por boas intenções. Apesar de se vender no livro quase que como o único a se opor à política, Churchill tentava apresentar uma visão que se coadunava com o início da Guerra Fria, afirmando que ao invés de se buscar o apaziguamento com o agressor, o Reino Unido deveria ter buscado se aliar a outras potências contra um inimigo em comum. Visão que se manteve por anos como a principal visão sobre o tema na historiografia.

Nos anos 1960, historiadores revisionistas como AJP Taylor buscam novas interpretações e começam a apontar a pequena margem de manobra política na qual Chamberlain estava inserido, e a necessidade de ganhar tempo para preparar as Forças Armadas britânicas para uma eventual guerra. Já a partir dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria e a abertura de arquivos soviéticos, novos debates historiográficos voltam a apontar o quinhão de responsabilidade de Chamberlain e sua política de apaziguamento sobre a eclosão da Segunda Guerra. Entre os novos fatores elencados, a visão de que Chamberlain sobrestimou sua capacidade de negociação com Hitler, de modo a manter um aliado forte próximo à fronteira com a União Soviética, demonstra a importância da manutenção de boas relações com a Alemanha nazista. Dessa maneira, fica evidente que o Ministério dos Assuntos Exteriores britânico, o Foreign Office, via a aproximação diplomáticas com o III Reich um elemento central da política externa inglesa. Dentro dessa política, uma melhor relação com a Alemanha era fundamental, e o futebol foi um dos meios nos quais um símbolo de boa vontade entre os dois países poderia ser demonstrado.

Apaziguamento pelo futebol

A aproximação do futebol britânico com a Alemanha nazista teve início com o convite aceito pela equipe do Derby County FC no final da temporada de 1933/34. Os Rams (Carneiros), como também são conhecidos, terminaram a temporada como quarto colocados na primeira divisão do campeonato da Football Association e receberam o convite da Federação Alemã de Futebol (Deutscher Fußall-Bund)para participar de quatro jogos amistosos em maio. Além de uma temporada de sucesso, a equipe contava com alguns jogadores da seleção britânica, até então vista como a principal equipe de futebol do mundo.

A participação dos Rams ia diretamente ao encontro da diplomacia cultural britânica de aproximação com o novo regime implantado por Hitler a partir de 1933. Dave Holford era um ponta esquerda de apenas 19 anos que fez parte da equipe que viajou à Alemanha. Anos mais tarde, o então jovem atleta rememorou:

Em todos os lugares onde íamos, podíamos ver a suástica. Se dizíamos “bom dia”, eles respondiam com “Heil Hitler”. Se você entrasse em uma lanchonete e dissesse “bom dia”, teria um “Heil Hitler” como resposta. Já naquela época, era possível perceber que se tratava de um país que se preparava para a guerra (Fonte).

Os jogos não foram o passeio tranquilo que os jogadores britânicos provavelmente imaginaram, com a tradicional empáfia inglesa de inventores do esporte. Enfrentando equipes de selecionados de jogadores locais, os Rams acumularam três derrotas (5 a 0 em Colônia, 5 a 2 em Frankfurt e 1 a 0 em Dusseldorf) e um empate (1 a 1 em Dortmund). No entanto, os confrontos foram marcados pela primeira vez em que uma equipe britânica realizou a saudação à romana, conhecida também como saudação nazista, já que estavam na Alemanha. A saudação já se tornara rotina no cotidiano alemão e tinha sido tornada obrigatória em eventos esportivos, simbolizando uma saudação ao füher, mesmo ele não estando presente.

George Collin, zagueiro dos Rams que capitaneava a equipe nos confrontos, teria explicado o fato anos depois:

Dissemos ao nosso técnico, George Jobey, que não queríamos fazer o gesto. Ele conversou com os dirigentes, mas eles disseram que o embaixador britânico insistiu que deveríamos fazê-lo. Ele afirmou que o Foreign Office tinha medo de que nossa recusa poderia causar um incidente internacional. Seria uma ofensa a Hitler, em um momento em que as relações internacionais eram tão delicadas.

Então fizemos como pedido. Todos nós, com exceção de nosso goleiro, Jack Kirby. Jack fez questão de não faze a saudação. Quando chegou a hora, ele apenas continuou com o braço para baixo e quase virou de costas para os dignitários. Se alguém notou, não falou nada. (Fonte)

A fotografia da ocasião corrobora o testemunho de Collin. Nela podemos observar o semblante de constrangimento de muitos jogadores do Derby County, com alguns mantendo sua cabeça baixa e os olhos fixados no gramado a seus pés. No canto esquerdo, o goleiro Jack Kirby está de lado, quase se virando de costas à tribuna, com os braços para baixo. A coragem de Kirby parece não ter tido maiores repercussões, e novos encontros futebolísticos ocorreriam voltariam a ocorrer.

Em dezembro do ano seguinte, a seleção alemã visitaria Londres para enfrentar a tão temida seleção inglesa. E o local da partida foi o antigo estádio do Tottenham, White Heart Lane, um clube conhecido por sua ligação com a comunidade judaica inglesa. O jogo gerou alguns protestos de torcedores em formas de cartas e de ameaças de boicotes e manifestações no dia do jogo. Duas horas antes do início da partida, uma passeata anti-nazista foi organizada, distribuindo panfletos e carregando cartazes com dizeres como “O esporte do fascismo é a caça aos judeus”, “Acerte Hitler abaixo da cintura” e “Mantenha o jogo limpo, combata o fascismo”. Ao se aproximarem do estádio, a passeata foi atacada pela polícia, que rasgou panfletos e cartazes, prendeu manifestantes e deu fim ao protesto. Outros manifestantes distribuíram panfletos em outras partes da cidade ou os jogaram das janelas dos ônibus.

Atenção para a bandeira nazista a meio mastro no canto superior direito.

Algumas fontes afirmam também que a bandeira nazista que era exibida no estádio foi momentaneamente retirada por um manifestante, que foi preso em flagrante. Ernie Wooley subiu na cobertura da arquibancada e cortou a corda que mantinha a bandeira a meio mastro (em homenagem à recente morte da princesa Victoria) e foi detido assim que desceu. No dia seguinte, foi liberado. O dia do jogo foi marcado também pela grande afluência de torcedores alemães à Londres, como é relatado na reportagem disponível no canal do British Pathé, no youtube.

Se as fotos do jogo mostram a equipe alemã realizando a saudação à romana, o vídeo da reportagem mostra as cenas do jogo, onde é possível reparar que o gesto foi restrito aos atletas da equipe alemã.

Seleção Alemã saudando a equipe inglesa no início do jogo, em 1935.
Imagem retirada do vídeo da reportagem, mostra o momento da saudação, com a equipe inglesa também em enquadramento.

A seleção inglesa venceu o jogo por 3 a 0, sem maiores contratempos. Como retribuição à visita alemã, a Federação Alemã de Futebol convidou a seleção inglesa para um amistoso em Berlim, no Estádio Olímpico, que havia sido reformado para as Olimpíadas de 1936 e era um dos maiores símbolos da política esportiva do III Reich.

Para o Foreign Office, o jogo era mais uma grande oportunidade para se estreitar as relações entre os países. Apesar do chefe da pasta, Robert Vansittart, ser um opositor do apaziguamento defendido por Neville Chamberlain, este escreveu a Stanley Rous, secretário da Football Association (que seria presidente da FIFA de 1961 a 1974), pedindo que este se certificasse de que a equipe inglesa realizasse um papel de primeira ordem em solo alemão, o que significava bom comportamento e um futebol exemplar.

A equipe alemã já estava treinando há algumas semanas na Floresta Negra e vinha embalada por uma série invicta de 16 jogos desde 1937. A seleção nazista era ainda mais forte após a anexação da Áustria ocorrida dois meses antes e da absorção de quatro jogadores austríacos. No início da década de 1930 a seleção austríaca era considerada uma das mais fortes da Europa e era chamada de Wunderteam e ainda tinha muitos bons jogadores. Matthias Sindelar, craque e líder do time, também foi convidado pelos alemães para se juntar à seleção, mas recusou. No entanto, a federação inglesa exigiu que nenhum jogador austríaco participasse do jogo pela equipe alemã. Como contrapartida, foi organizado uma série de jogos extra contra a equipe do Aston Villa


Era assim compreensível o receio do Foreign Office, que desejava manter uma boa relação com a Alemanha, mas também reviver o prestígio esportivo britânico. Uma vitória era fundamental. Como parte da demonstração de camaradagem por parte dos ingleses, os jogadores britânicos, incluindo o jovem Stanley Matthews, então com apenas 23 anos, foi aconselhada pelo embaixador britânico em Berlim, sir Neville Henderson, a realizar a saudação à romana perante Hitler, como ocorrera com o Derby County alguns anos antes. Henderson teria dado a seguinte explicação aos jogadores: “Quando me encontro com Hitler, faço a saudação nazista porque é a cortesia normal esperada. Ela não demonstra nenhuma simpatia pelo que Hitler ou seu regime possam fazer”.

Tendo em vista as instruções do embaixador e a pressão da federação por um bom comportamento, os jogadores se postaram à frente das tribunas e executaram a saudação nazista durante o hino alemão, perante às autoridades nazistas, ao grande público e a fotógrafos que marcaram o momento que entrou para a história do esporte, ainda que de forma negativa. Hermann Göring (Presidente do Parlamento), Joseph Goebbels (Ministro de Propaganda), Rudolf Hess (vice führer do Partido Nazista) e Joachim von Ribbentrop (embaixador alemão no Reino Unido) assistiram ao jogo.

Os 22 jogadores perfilados fazem a saudação à romana no jogo em Berlim, 1938.

Iniciado o jogo, as amabilidades se encerraram e a equipe inglesa aplicou uma das maiores goleadas já sofridas pela Alemanha. Fechando o placar com um chute que furou a rede do Estádio Olímpico, os Ingleses derrotaram os alemães em casa por 6 a 3 e fizeram o que deles era esperado. Para os alemães, uma derrota para os “pais do futebol” não era algo do que se envergonhar. Muito pelo contrário, o jogo havia sido um grande sucesso em termos de propaganda, em especial devido à realização da saudação à romana pelos visitantes (veja uma reportagem britânica sobre o jogo aqui).

O jogo contra o Aston Villa, também no estádio Olímpico, no dia seguinte, também foi marcado por grande público. No início do jogo, todos os jogadores do Aston Villa fizeram a saudação à romana. O jogo foi marcado por grandes vaias do público, uma vez que o Villa colocava em ação uma nova estratégia para a época, a linha de impedimento. Após a vitória por 3 a 2, os jogadores ingleses saíram de campo sem fazer uma segunda saudação, o que gerou um certo desconforto diplomático, que logo foi contornado. Os jogos seguintes da equipe inglesa na Alemanha foram em Stuttgart e Dusseldorf e ocorreram sem maiores problemas no que diz respeito à saudação por parte dos ingleses. A foto abaixo, de um dos jogos do Aston Villa na Alemanha (talvez o jogo em Berlim, mas não consegui ter certeza na identificação), mostra a equipe saudando as autoridades, ainda que de forma tímida, sendo possível perceber o constrangimento de alguns jogadores.

Ainda que o discurso majoritário por parte de atletas e envolvidos em relação aos encontros tenha mudado nos anos seguintes, acompanhando as mudanças de visão sobre o apaziguamento, é importante entendermos que no momento desses confrontos, a política implementada por Chamberlain era vista como um grande sucesso, especialmente depois da Conferência de Munique. Com o início da guerra e especialmente após o seu fim, antigos simpatizantes do apaziguamento e da Alemanha nazista mudaram seus discursos e criaram uma nova narrativa sobre seu passado. As fontes, no entanto, nos contam outro lado da história. Ainda assim, a relação entre os jogos de futebol e a política de apaziguamento nos proporciona importantes reflexões sobre a importância do futebol como meio de diplomacia e a natureza frágil das relações internacionais nesse período.


A TALE OF TWO ROBBERIES (uma contribuição de Matthew Brown)

26/08/2020

* Este post é uma contribuição especial de Matthew Brown,
Professor in Latin American History, University of Bristol, UK.
Author of From Frontiers to Football: An Alternative History of Latin America since 1800 (2014).

Este artigo foi originalmente publicado em espanhol em El Malpensante, número 219, julho fr2020 https://www.elmalpensante.com/articulo/4385/el_brazalete_de_bogota.

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It is half a century since the captain of the England’s men’s football team, Bobby Moore, was charged with shoplifting an expensive bracelet in Bogotá, Colombia. Questions remain over what happened and why. It is of course absurd to return to the theft of a bracelet in 1970 when Colombia’s under-resourced institutions of peace, justice and reconciliation are attempting to clarify the truth about an armed conflict that left over 220,000 dead, tens of thousands ‘disappeared’ and seven million displaced, and in the midst of a public health crisis that threatens the lives and livelihoods of the most vulnerable sections of society.[1] The history of the Bogotá bracelet continues to resonate because it feeds off international cultural stereotypes both in Colombia and the UK that were only slowly being eroded by transatlantic travel and instantaneous news communications at the time. It also reveals the ways in which historical memory was constructed in an area of close links between media, politics and the institutions of justice.

The facts of the matter appear pretty simple. The England squad landed in Bogotá on 18 May to prepare at altitude on their way to the World Cup in Mexico. That same afternoon a female assistant in a jewellery concession in their hotel lobby accused Moore and Bobby Charlton of stealing a bracelet decorated with emeralds and diamonds. They denied it and turned out their empty pockets. The squad flew on to Ecuador where they played further friendly matches. Moore was discretely arrested and charged when they stopped over back in Bogotá on 25 May.[2] After a three days of media speculation and legal process Moore was released and allowed to travel to Mexico, although the case continued for several years and a cloud was cast over his reputation.

Although I and others have looked over the years, there is no smoking gun or confession in the surviving archives. The emerald store owners we have asked can’t provide definitive proof. It is plausible that Moore took the bracelet, or that he took the blame for the horseplay of a teammate. His biographers have revealed the extent to which he struggled to maintain his impeccable image whilst drinking and socializing, and indicated that he pledged to protect a ‘third man’ and never reveal the secret.[3] Moore died of cancer in 1993. The shop assistant who accused him, Clara Padilla Morales, went to live in the United States, and was never heard of again. Even if this anniversary finally brings her out of hiding to tell her side of the story, we will probably never know ‘the truth’. The ‘Bogotá bracelet’ has passed into the mists of time, dragging the histories of local and international institutions of sport, politics and justice with it.

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Lobby journalism

As we pick through the surviving sources – the statements issued at the time, the memoirs of the players, and the documents that the British Foreign and Commonwealth Office have allowed to emerge over time – we can get an insight into the ways that history and public memory are constructed on the basis of the stories that are told and the details that are withheld.[4] The British players and journalists who accompanied them had very little knowledge or understanding of Colombia, and they travelled in a tense bubble in which their manager, Sir Alf Ramsey, struggled to control the group dynamics. Relations with the press were already strained. On the day that Moore was accused of the robbery, for example, the jetlagged journalists agreed not to write anything about the incident. That gentlemen’s agreement should have kept a lid on it. It was only El Tiempo’s correspondent, a young, ambitious journalist called Germán  Castro Caycedo, who went on to be one of Colombia’s major writers of non-fiction, who wrote a small note on the front page the next day, without naming Moore. This appeared alongside the news that Bobby Charlton had lost his wallet – containing personal papers and some money – presumably to pickpockets during the outing to visit the Millonarios club. Stories of money, theft and confusion sat alongside the staged photographs of footballers in their smart suits and sunglasses.[5]

In many ways it was the Colombian elite who most cherished Bobby Moore’s image of the uncorruptible, archetypal English gentleman who had wiped his hands before receiving the 1966 World Cup trophy from Queen Elizabeth II. For the Colombian football authorities it was a great honour to have Moore in their country, the epitome of fair play as well as a wealthy icon of Swinging London. As Ramsay remarked at the time, Moore couldn’t possibly have stolen the bracelet because he could have bought the whole shop. Photographs of Moore and his team-mates in the hotel lobby filled the front pages as they brought some English glamour to the new modern nation that was being built in Bogota on the ruins of the country’s violent past.

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The modern hotel

The scene of the crime was the Hotel Tequendama, a luxurious hotel complex opposite the National Museum. The Hotel was two decades old, a Modernist structure with architectural input from Le Corbusier, built on the site of the old military school where Colombia’s first games of football had been played in the 1890s. The Hotel is still there today, owned by the armed forces, and emerald shops hawk their jewels to office-workers passing through on their lunch-hours. The high-end tourists and business travellers have long since departed for the more secure and expensive international hotel chains in the north of the city. In 1970 the Tequendama epitomized the new, modern Colombia which the capital’s elites hoped to bring into the modern world. The previous building on the site had been destroyed in the 1948 Bogotazo, the popular uprising that brought the political establishment to its knees and catalysed a decade of intense partisan civil warfare across the country, known today as ‘the Violence’.

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The other robbery of 1970

In 1970 the political elite in Bogotá was struggling to maintain its control of the country at the end of the ‘forgotten peace’, as spiralling social inequality pushed the reformist social democracy to its limits. The reception of the England squad was a way of demonstrating that normality had resumed, just one month after disputed presidential elections held on 19 April. This date marks a ‘defining political event’ in Colombia’s modern history because it is widely believed that the establishment had stolen the election for their candidate Misael Pastrana at the expense of Gustavo Rojas Pinilla, an ex-military dictator who led the polls after discovering democracy and populism. A power blackout during the vote count coincided with a remarkable turnaround in Pastrana’s fortunes, and he was never able to fully establish the legitimacy of his election. The M-19 guerrilla group (literally, the 19 April Movement) subsequently launched a rebellion against the state, carrying out a series of high-profile stunts and terrorist attacks, claiming to stand against a corrupt oligarchy that defrauded ordinary citizens, exemplified by the ‘theft’ of the 1970 election.[6]

An election re-count may appear to have nothing to do with Moore and the emerald bracelet. Some gems glisten from the murky sources, however. Football was both public entertainment and media distraction. Colombian political scientists and historians have demonstrated the close links between the football and political establishments during the 1970s and 1980s. The work of historians such as Ingrid Bolívar and Andrés Dávila has shown the crucial role of football as both public entertainment and media distraction, as well as an avenue for social mobility and identity formation. The lawyer who represented the shop in the case, Pedro Bonnet, later joined the M-19, and worked as a fixer for one of the country’s biggest economic interests. A report in El Tiempo at the time cast aspersions on his character with a snide ‘and some say he is linked to Communism’. The outgoing president Carlos Lleras Restrepo made conciliatory announcements as the military and police forces prevented protest marches and asserted state control against the background of rising inequality and crime.[7]

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Crime wave

Bobby Moore was accused in the middle of a crime wave. The police had identified ‘a sudden rise in criminality’, up 25% in 1970 from the previous year. They lamented the transformation of Bogota from a sleepy town into a crime-ridden metropolis whose infrastructure was unable to cope with ‘the arrival of an uncontrollable horde of ignorant migrants from the countryside’.[8]

Crime related to emeralds was also on the rise. Colombia was the world’s number one producer but the trade largely took place on the margins of the law. The police had little respect for the esmeralderos who brought the stones to market, ‘believing that everyone has their price’ and that ‘the threat of violence is the only way to get business done’. Foreign tourists were well-known to be ‘easy victims for thieves and frausters’. The violence inherent in the contraband emerald trade later segued into the narco-violence of the 1980s.[9]

Bobby Moore therefore stood uncomprehending in a hotel lobby in the midst of a political, social and criminological crisis which he had no way of understanding. The police were on alert in the midst of a crime wave. The booming trade in emeralds was in the hands of migrants from the provinces who the police saw as natural criminals and liars. The election re-count put the legitimacy of elected rulers in doubt. The arrival of sophisticated sportsmen like Moore himself was supposed to help erase the memory of the disputed election and the smooth over social conflict.[10] Instead the Colombian authorities had to invest their all efforts in getting the English footballer out of a complicated mess.

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The football establishment

As news spread of Moore’s arrest, the Colombian football authorities gradually realised that they had a public relations disaster on their hands. Their failure to provide interpreters for their visitors had created the conditions where such a misunderstanding could take place. The incompetence of forgetting to unlock the training ground before the English squad arrived on their first full day triggered discontent that the Colombians were not up to the job of hosting the reigning World Champions. Their interests coincided with those of the British representatives, who sought to avoid the journalists whipping up headlines that would antagonise the legal process had delay Moore’s release.

It is clear that the British authorities wanted Moore released as soon as possible, and mobilized their contacts to achieve this aim. The representatives of the English Football Association travelling with the squad sent messages home in great alarm. The case was discussed at the highest level. When Harold Wilson’s Cabinet met on 28 May, the agenda for the Overseas Affairs section of the meeting was ‘East-West Relations: NATO Ministerial Meeting in Rome on 26-27 May – Arabia: Oil Prospecting – Mr. Bobby Moore – British Council of the European Movement: Grant-in-Aid’.[11]

The defender’s defence was quickly taken up by the lawyer Vicente Laverde Aponte, who had been Minister of Justice between 1960 and 1962 under the reforming Liberal president Alberto Lleras Camargo. Moore was released after questioning on the condition that he went into house arrest in the home of Alfonso Senior Quevedo, the President of the Colombian Football Federation. Keith Morris drove him there in the middle of the night. Senior’s role in protecting Bobby Moore has tended to be overlooked in favour of the footballer’s stoicism and heroism. But Moore’s fate gave Senior an opportunity to demonstrate his capacity as a football administrator who achieved results, building a global dimension to his national achievements. Senior knew football distracted Colombians from politics. As a director of Millonarios it was he who had offered inconceivably large salaries to lure international superstars like Alfredo Di Stefano and Neil Franklin to play in the famous ‘El Dorado’ leagues from 1948. El Dorado had been a direct response to the urban riots and rural unrest which spread through the country in the early 1950s. The last thing Senior and his allies wanted as they turned football into commercialized spectacle and professionalized business (a good two decades later than in other South American countries such as Argentina and Brazil), was for it to be caught up in a mediatized legal expose of their own failures.

By protecting Moore, Senior and the Colombian football authorities aligned themselves with the British embassy and with the networks that were re-establishing control of the state after the disputed election. A re-enactment of the crime was staged that undermined the shop assistant. Photographs showed an imperturbable Moore training with Millonarios and strolling with Senior. There was nothing to see here.[12]

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Truth, history and injustice

Even with the support of the football authorities, a former Minister of Justice and the British Prime Minister, however, legal process had to be followed before Moore could be released. Things got serious when, four days after the alleged robbery, a new witness stepped forward to substantiate Padilla’s accusation. This was Alvaro Suárez, introduced by the shop owner as ‘a street vendor who was passing by’, who was well-known to the esmeralderos, and who revealed that he had seen Moore pocket the bracelet. The police and media dismissed him as an underworld put-up job. El Tiempo published articles with unsubtle titles such as ‘The People’s View: No One Believes that Moore Would Have Taken It’, and official statements of ‘the feelings of admiration and affection that the Colombian people feel towards the English people’.[13] The new witness was effectively marginalized.

Conspiracy theories about who had paid Suarez abounded, including that the Brazilian military dictatorship was orchestrating a strategy to undermine English preparations. Moore was released and travelled to Mexico where he enjoyed a celebrated duel with the Brazilian Pelé. He played until England’s defeat in the quarter-finals which left them murmuring about poisonings, conspiracy theories and ‘latinos’. England would not qualify to participate in another FIFA men’s World Cup finals until 1982.

In contrast to the spiralling descent of the English national football team, Alfonso Senior’s star continued to rise. From his origins as a customs agent in the Caribbean port of Barranquilla descended from family on the Dutch colonial island of Curacao, Senior had big ambitions for Colombian football and won a seat on FIFA’s executive committee. From a position of influence within FIFA from 1974 – the year that the incumbent Englishman Sir Stanley Rous was defeated in FIFA’s presidential election by the Brazilian João Havelange, Senior was well positioned between the shifting European – South American alliances. The Colombian authorities had persuaded representatives of the English FA that they could be trusted to sort out a problem. When voting for the hosting rights to the 1986 World Cup took place just a month after Havelange took power, Colombia was selected unopposed.[14]

Senior would have been just as disappointed as Moore and his teammates that the ‘Bogotá bracelet’ affair periodically resurfaced over the next decades. The British diplomatic team and the Colombian authorities had worked together to free the captain from the legal vortex, but the image of a sporting gentleman entrapped by a criminal underworld was hard to dislodge from popular memory once it had been created. By suppressing the history of what really happened in the hotel lobby they ensured that the episode would join other memories of injustice in Colombia’s past. There were probably many inconvenient truths stuffed into the stories that were told. We may never be able to peel away enough distorting layers to reveal them, or to coax new voices out of the silence. Unless one day someone finds an emerald bracelet in a box alongside the medals when they are clearing out the attic.[15]

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[1] Centro Nacional de Memoria Histórica, ¡Basta Ya! Memorias de guerra y dignidad (Bogotá, 2013).

[2] El Tiempo, 26 May 1970; El Comercio, Quito, 27 May 1970.

[3] To mark the anniversary Keith Morris, the acting British ambassador in Colombia at the time, was interviewed in the Sunday Express, and one of the squad members, Alan Mullery, offered his thoughts to the Mirror. Carl Worswick, who has researched the matter as much as anyone, published an article in the Guardian, and Moore’s biographer Matt Dickinson reflected on it in The Times.

[4] There are twelve separate documents from the FO7 and FO53 relating to the case, including Moore’s witness statement: https://discovery.nationalarchives.gov.uk/results/r/1?_q=bobby%20moore.

[5] El Tiempo, 20 May 1970. The next day’s newspaper reported that Charlton’s wallet had been found ‘on the bus’.

[6] Robert Karl, Forgotten Peace: Reform, Violence and the Making of Contemporary Colombia (Berkeley, 2018).

[7] Andrés Dávila Ladrón de Guevara, ‘Fútbol y política en Colombia: reflexiones politológicas en un año mundialista’, Desbordes, 5, 2014; Ingrid Bolívar, ‘Footballers, ‘Public Figures’, and Cultural Struggles in the 1960s and 1970s’, The International Journal of the History of Sport, 36:13-14 (2019), 1197-1217; Mauricio Archila Neira, ‘El frente nacional: una historia de enemistad social’, Anuario colombiano de Historia Social y de la Cultura, 1997. El Tiempo, 27 May 1970. ‘?Qué será lo que tiene el “negro”?’, Semana, 3 July 1994. I am grateful to Carl Worswick for this reference.

[8] Brigadier General Henry García Bohorquez, Director General, Policía Nacional de Colombia, Estadística de criminalidad 1970, No.13 (Bogotá, 1970), ‘Introducción’, 7, 11, 99, 100. Thanks to Max Hering Torres for sharing this source with me.

[9] Policía, Estadística, 74, 133-4; Pedro Claver Téllez, La guerra verde: treinta años de conflicto entre los esmeralderos (Bogotá, 1993). On the links of an Olympic cyclist to the esmeralderos see Matt Rendell, Olympic Gangster: The Legend of José Beyaert, Cycling Champion, Fortune Hunter and Outlaw (London, 2009).

[10] Policía Nacional de Colombia, Estadística de criminalidad 1970, 74.

[11] The cabinet agenda is at CAB 128/45/24 https://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/D7664766.

[12] Jorge Mario Neira Niño, 1001 anécdotas de Millonarios (Bogotá, 2012).

[13] El Tiempo, 27, 28 May 1970.

[14] Senior died aged 91 in 2004. He was remembered as ‘the most prestigious and respected administrator in all of Colombia’s sporting history’. Guillermo Tribin Piedrahita, https://web.archive.org/web/20080810023908/http://www.elalmanaque.com/actualidad/gtribin/archivo2004/art27.htm. Germán Zarama de la Espriella, Yo puse a bailar al ballet azul: biografía de Alfonso Senior Quevedo. Bogotá: Ediciones Antropos, 2006.

[15] For a sense of what this might look like, see Antiques Roadshow, BBC, 16 June 2019: https://www.bbc.co.uk/programmes/p07d1tny/player

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