Momentos iniciais do turfe em São Paulo

16/06/2019

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

Foi no último quartel do século XIX que o turfe se organizou na capital paulista, ocupando lugar de destaque nas colunas esportivas dos jornais. Durante décadas ele foi mesmo o único esporte a figurar em tal coluna no jornal A Província de São Paulo (que com a República passou a se chamar O Estado de São Paulo).

O turfe, assim como a equitação, era uma prática das elites, a elas ligada e por elas valorizada. As famílias tradicionais paulistanas, além de frequentarem as corridas eram proprietárias dos cavalos corredores. Elas adquiriam cavalos direto da Europa, para correr em São Paulo, e as apostas efetuadas nessas corridas movimentavam altos valores monetários. Assim, além de ser um animal valorizado devido à sua importância na realização de trabalhos cotidianos, o cavalo era um animal valorizado também por estar ligado às práticas de divertimento das elites, apesar de o argumento utilizado ser o de melhoramento da raça cavalar.

Em 22 de outubro de 1876 a capital paulista inaugurou o seu primeiro espaço destinado às corridas de cavalos: o Hipódromo Paulistano[1]. No entanto, há indícios de que antes do hipódromo as corridas de cavalos já aconteciam em espaços improvisados na cidade, mas nos faltam dados. E há indícios também da existência de um outro prado, o Derby Club, que parece ter funcionado a partir do ano de 1891[2].

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As corridas que ocorreram no Hipódromo Paulistano foram organizadas, sobretudo, pelo Jockey Club, fundado em 1875 com o nome Club de Corridas Paulistano. Essa associação abria inscrições para as corridas uma ou duas semanas antes das mesmas acontecerem. Era quando então, os proprietários dos cavalos podiam inscrever seus animais e seus jóqueis. Os sócios do clube recebiam ingressos para assistir às corridas, enquanto os demais interessados deviam compra-los.

Raphael Aguiar Paes de Barros, depois de voltar de uma viagem à Inglaterra, se uniu a mais quatorze membros da seleta elite paulistana para fundar tal clube. Eles eram filhos de senadores, de barões, de ricos fazendeiros de café. Raphael era filho do Barão de Itu e neto do Barão de Iguapé. Um outro fundador do clube de corridas foi Antônio da Silva Prado, que a essa época também se tornara empresário do Teatro São José, e era membro de uma das famílias mais ricas da cidade. Raphael de Barros havia estudado na Inglaterra, e Antônio Prado na França.

Ser membro da elite não significava apenas possuir muito dinheiro e títulos aristocráticos, era preciso também estar afinado com os padrões comportamentais europeus. Daí o envolvimento da elite paulistana na criação de sociedades de caráter cultural. Era uma estratégia de legitimação social, além de ser uma forma de obter lucros monetários.

As provas no hipódromo aconteciam aos domingos, sem, no entanto, uma constância regular ou calendário fixo. Em alguns anos houve corridas distribuídas ao longo de todos os meses, em outros, entretanto, as corridas se concentraram em alguns meses. Em 1891, por exemplo, o calendário de corridas só teve início em maio, mas perdurou até dezembro. Enquanto em 1895, as corridas aconteceram de janeiro a abril, sofreram interrupção em maio, só voltando a ser promovidas em julho.

 O motivo, apresentado pelos jornais, das irregularidades da presença do turfe na cidade, era a falta de animais adequados[1]. Quando o Jockey Club realizava corridas com poucos cavalos inscritos, como fez em 1894, o volume de apostas era menor, em relação às corridas com número maior de animais.

Assim, ao invés de obter lucro, como era comum acontecer em associações dessa natureza, o Jockey Club obteve prejuízos. E sem lucro, cessava a importação de parelhas (como também são chamados os cavalos corredores), o que muito impactava o turfe, já que os cavalos de corrida nacionais não apresentavam a mesma qualidade e desempenho dos importados. Menor qualidade dos animais significava menores apostas.

Numa tentativa de resolver o problema, houve a importação de cavalos por membros da elite paulistana, como foi o caso de Francisco de Queiroz Netto, que realizou importações entre 1894 e 1895. No entanto, tal iniciativa não foi suficiente, pois nos anos seguintes as corridas continuaram a acontecer de modo irregular.

As dificuldades financeiras enfrentadas pelo turfe eram tamanhas, que os membros do Jockey Club pediram auxílio ao poder estadual, que atendendo à solicitação, passou a financiar uma prova de turfe por ano. Era o chamado Grande Prêmio Estado de São Paulo. Não era a primeira vez, no entanto, que os poderes públicos auxiliavam tal associação. Na época do Império, os cofres provinciais também financiaram um prêmio anual.

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Hipódromo Paulistano, s/d. Fonte: < http://www.jockeysp.com.br/historia.asp >

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Apesar de ser uma prática ligada às elites e de possuir status, o turfe foi alvo de críticas por ser um esporte envolvendo apostas. Essas críticas se deram em um momento, 1895, em que a Câmara Municipal proibia os frontões justamente por realizarem apostas, e não agia do mesmo modo com as corridas de cavalo. Os adeptos do jogo da pela, então, reagiram. E como dizem que a melhor defesa é o ataque, eles foram aos jornais atacando não apenas a Câmara por tal atitude, mas também o Jockey Club. Se as elites podiam realizar apostas em suas práticas esportivas, porque as camadas populares não podiam fazer o mesmo?

Para se defender, o Jockey Club e os adeptos das corridas de cavalo sempre diziam que possuíam um objetivo nobre: o de desenvolver a raça cavalar brasileira, o que era chamado por eles de indústria pastoril. Objetivo que, aliás, diziam eles, estava muito de acordo com o momento vivido por São Paulo, de expansão, desenvolvimento e progresso industrial.

Quando em 1900, um deputado finalmente incluiu tal sociedade na lista daquelas que exploravam o jogo na capital paulista, o jornal O Estado de São Paulo saiu em sua defesa[1]. Houve discussão entre os jornais Correio Paulistano e O Estado de São Paulo quanto a essa questão. O Estadão criticava os frontões e apoiava a Câmara na decisão de proibi-los, enquanto o Correio, fazia exatamente o oposto: apoiava os frontões e criticava a proibição da Câmara. Isso era uma mostra dos interesses defendidos por esses jornais.

O ano de 1900 não foi mesmo um bom ano para o turfe paulistano. As corridas foram esparsas, houve uma em janeiro, outra em junho e somente a partir de outubro é que elas tiveram alguma frequência até dezembro. Em 1901 o Jockey Club mais uma vez recorreu aos poderes públicos, dessa vez municipais, que financiaram uma prova, intitulada Grande Prêmio Municipal. Essa prova continuou acontecendo nos anos que seguiram, mas não foi suficiente para devolver ao turfe o sucesso dos primeiros anos.

O turfe paulistano fechou a primeira década do século XX em crise. Suas receitas não eram suficientes sequer para arcar com as despesas do hipódromo e do Jockey Club Paulistano, que a essa altura devia impostos, corridas eram canceladas devido ao pequeno número de cavalos inscritos, e o público já não tinha o mesmo interesse de outrora, comparecendo pouco.

Mas foi entre altos e baixos que o turfe se fixou na capital paulista. Ele surgiu em um momento de grandes transformações não apenas para São Paulo, mas para toda a nação. Atravessou mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas. Viveu o momento em que a cidade abandonava definitivamente sua condição de pouca expressividade para se tornar a maior metrópole do país.

Atravessou a transição do Estado imperial escravocrata para a república de trabalho assalariado. Viveu os momentos prósperos do café, e também seus momentos de crise, que fizeram com que alguns de seus adeptos e promotores deixassem a condição de elite para se tornarem membros da classe média. E foi em meio a esse contexto efervescente de mudanças, que o turfe passou a fazer parte da vida de São Paulo, estando até hoje presente no cotidiano da cidade.

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[1] O Estado de S. Paulo, 9 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] O Estado de S. Paulo, 28 de junho de 1891, p. 2; O Estado de S. Paulo, 24 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] A Província de S. Paulo, 15 de outubro de 1876, p. 4.

[2] O Estado de S. Paulo, 18 de agosto de 1891, p. 2.

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Futebol e tensões sociais na Bahia

12/06/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

 

Na Bahia, sem dúvida, o futebol desde seu início foi o esporte de maior representatividade, que mais despertou interesse e mobilização popular.

Sobre o futebol baiano e seus primórdios, Leal (2002) afirma que:

na Bahia, os rapazes desejavam praticar aquela modalidade de esportes, quando chegou à cidade do Salvador, o estudante José Ferreira, de alcunha Zuza, que tinha concluído seu curso na Inglaterra e viria para empregar-se no Bank of London, nesta capital (p.180).

Na Bahia, a influência inglesa esteve diretamente ligada ao início da experiência esportiva, inclusive no futebol. Também se sabe que em Salvador e mesmo no estado da Bahia, as vivências com os esportes se davam em espaços improvisados e adaptados, a partir de áreas comuns da cidade, a exemplo de praças, largos e outros e assim também aconteceu com o futebol.

Sobre os jogos iniciais, Santos (2010, p.54) afirma que:

o local onde ocorreriam os embates seria o Campo da Pólvora. Localizado no distrito de Nazaré, o campo foi ligeiramente reformado, cercado e nivelado. A sua escolha deveu-se também pela sua ótima localização em decorrência da facilidade de se chegar naquele lugar. Praticamente todas as linhas de bonde passavam por aquela região. Sem a existência de arquibancadas o primeiro campeonato contou com o empréstimo de cadeiras por um circo que estava na cidade para a acomodação das famílias dos jogadores e demais autoridades.

Sobre os espaços adaptados para a prática do esporte, o Diário de Notícias[1] assim escreveu:

na Bahia, porem, ainda se morre de tédio, de aborrecimento… Não fosse o gosto pelo sport, actualmente tão accentuado, e aquellas partidas em que se apagavam os dignos moços em bellos combates – ainda assim num campo impróprio – e não sabemos o que seria da Bahia, cada dia mais decahiada!

No caso do futebol, as práticas iniciais estavam muito associadas a condição de modernização da cidade, de fazer acontecer em terras soteropolitanas, experiências corporais que já se davam na Europa e assim, sua prática era interpretada como um ato de civilidade, algo nobre. Exemplo está na matéria abaixo:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[2]

Em contrapartida, a mesma prática, quando vivida por estratos sociais economicamente inferiores, era tida como rude, bruta, não digna, como indicado na seguinte matéria:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[3]

Vemos assim, que as experiências esportivas acabavam sendo tratadas como um espaço de distinção social, fazendo refletir as dinâmicas sociais e culturais vividas na sociedade baiana.

Se em seu início a vida esportiva baiana esteve ligada diretamente a presença inglesa, também o setor de serviços e a economia da cidade viviam esta influência. Vivendo uma condição de decadência econômica e política, a Bahia e Salvador, em seu cotidiano, conviviam com carências em vários serviços públicos: transporte, saneamento, iluminação, moradia, saúde, energia, limpeza urbana, já se apontando problemas com o uso desmedido de recursos naturais. Dessa forma, Salvador estava presa a uma lógica econômica que, se não impediu, certamente limitou as aspirações de um maior crescimento e de progresso e ainda, provocava conflitos sociais, que se refletiram também no futebol.

Já no início do século XX, o futebol baiano já contava com uma plateia que crescia em número e interesse. Plateia que já formava gosto por determinadas equipes, em detrimento de outras, fazendo ecoar por vezes as formas de ver a presença estrangeira na cidade.

Na Bahia, a Liga Baiana de Sports Terrestre, fundada em 1904, cuidava da organização do futebol e de seu certame e já nos primeiros anos, contou com dificuldades, que não se deram por conta só do esporte em si, mas também de outros aspectos da vida na cidade.

Alguns problemas marcaram a desistência de organizar o campeonato pela Liga Bahiana. O primeiro se deu ainda em 1906: numa partida[4], os jogadores do Internacional de Cricket (equipe formada por ingleses) foram ostensivamente hostilizados pelo público presente. Essa atitude da plateia presente ao jogo foi alvo da imprensa, que a analisou e a relacionou, segundo suas impressões, ao próprio estado de desenvolvimento da Bahia e dos cidadãos de Salvador.

Ao abordar o ocorrido, o Diário de Notícias[5] assim se posicionou:

é de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como hóspedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta inconveniência que vai se tornando um péssimo costume.

Em sua análise sobre o fato, Santos (2010, p.71) assevera que:

talvez uma das principais lamentações dos periódicos relacione-se com o fato de que o clube hostilizado era composto por ingleses. Em todas as notas temos uma sensação de subserviência para com os ingleses, uma vez que estes, pela origem europeia, são os referenciais de bom comportamento e civilidade.

Esse problema fez com que a Liga se reunisse e procurasse sanar as dificuldades surgidas, principalmente a ideia do Internacional de abandonar a competição – fato que se confirmou, mesmo com as atitudes solidárias dos demais clubes e da Liga Bahiana. Essas instituições fizeram questão de rechaçar a atitude popular, considerando-a incoerente com as normas civilizadas do esporte.

Essa reação dos clubes, de sua entidade organizativa e de parte da imprensa demonstrou uma noção elitizante e preconceituosa, a de que a população em geral não sabia como se portar diante de uma nova prática tipicamente moderna, o futebol, que, segundo seus padrões, exigia atitudes cavalheirescas e acima de tudo gentis, expressando ritos e normas de comportamento caracterizados como comuns a elite soteropolitana e aos ingleses residentes em Salvador.

Outro problema decisivo na atuação da liga foi que, com o progressivo aumento de interesse pelo futebol, esse acabou assumindo âmbitos maiores do que o esperado, incentivando rivalidades e exacerbando a competitividade. Este processo chegou ao extremo nos anos de 1911 e 1912, quando a Liga efetivamente desistiu da promoção de campeonatos.

Em 1912, o campeonato da Liga Bahiana, o das elites, viveu uma crise que foi motivada pela intensa e “deseducada” participação popular nos jogos. Para os dirigentes da entidade, o envolvimento e o interesse da população pelo futebol acarretaram a “perda de controle” das competições. Por conta disso, a Liga Bahiana desistiu de organizar o campeonato.

Com isso, a Liga Brazileira de Sports Terrestre, que foi fundada em 1913, de caráter mais popular, seguiu organizando o futebol na Bahia, sem contar com a participação dos primeiros clubes.

Assim, vimos que as tensões econômicas e sociais que a sociedade baiana vivia, também se repercutiram no futebol. O processo de distinção social, comum na comunidade baiana, cindida entre classes e etnias diferentes, também se fez presente no futebol, a partir da criação de ligas variadas, que representavam, estratos sociais diversos. De toda forma, o futebol baiano seguiu e segue existindo, como uma amostra do que é seu povo, suas tensões, modos de vida, de ser, de se colocar em sociedade, seja no cenário local ou nacional.

Referências:

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.

SANTOS, Henrique Sena dos. Uma caixinha de surpresas: Os primeiros anos do futebol em Salvador, 1901 – 1912. Monografia (Graduação em História). Departamento de Ciências Humanas e Filosofia – Colegiado de História, UEFS, Feira de Santana, 2010.

[1]Diário de Notícias, 10 de outubro de 1906, p.1.

[2]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[3]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[4]O jogo foi Victória e Internacional, em 10 de junho de 1906.

[5]Diário de Notícias, 11 de junho de 1906, p.3.


NOTA DE PESAR – GILMAR MASCARENHAS DE JESUS

10/06/2019

Caras e caros amigos

Com muito pesar, recebemos a notícia do falecimento de nosso parceiro, colega, amigo Gilmar Mascarenhas de Jesus.

Gilmar foi nosso parceiro desde a criação de nosso Laboratório, no ano de 2006. Perdemos a conta do número de vezes em que esteve conosco em nossas iniciativas. Figura por nós admirada, nunca deixou de aceitar um convite, sempre iluminando nossas ações.

No meu caso, o conheço desde bem antes. Conhecemo-nos em 1996, quando ambos davam seus primeiros passos nos Estudos do Esporte. Éramos poucos. Nesses mais de 20 anos, fizemos juntos muitas coisas – palestras, eventos, bancas. Por ocasião de sua banca de titular, da qual tive a honra de integrar, lembrávamos de uma proposta de livro em conjunto tantas vezes alinhavada, mas nunca efetivada em função de tantos compromissos. Também celebramos muito, festejamos muito, desfrutamos. O amigo Gilmar aproveitou muito a vida, mesmo tendo em muitos momentos uma trajetória dura, típica de quem vem do subúrbio e tem que romper os muros invisíveis (mas rígidos) dessa cidade.

Gilmar foi um pesquisador notável. Aliava profundidade conceitual e rigorosidade empírica com intenso compromisso político. Não tergiversou, não temeu, não recuou, isso tudo sempre com um caráter amigo, amistoso e bem humorado. Para além disso, foi um pai e avô apaixonado, um amigo querido por todos.

Perdemos um amigo indescritível, um colega de grande valor, um homem com uma história incrível. Fica a obra. Ficará por muito tempo. Fica também a saudade. Mas fica a lembrança dos bons momentos.

Em nome de nosso Laboratório, envio à família nossos pêsames e o desejo e muita luz e força.

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Victor Melo
Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer
UFRJ


O caso Henrikh Mkhitaryan: a UEFA e a geopolítica europeia

27/05/2019

Por Maurício Drumond

 

A temporada europeia 2018-2019 ficou marcada pela hegemonia do futebol inglês em suas competições internacionais. Suas duas principais competições, a Liga dos Campeões e a Liga Europa, terão em suas finais confrontos exclusivos entre equipes da Premier League. Se, por um lado, a final da Liga dos Campeões da Europa entre Tottenham e Liverpool ganhou contornos dramáticos pela classificação heroica das duas equipes no jogo de volta das semifinais; foi a final da Liga Europa, a menos badalada das duas, que ganhou os noticiários na semana que se passou. Mas o principal motivo dessa atenção não foi o futebol apresentado por Chelsea e Arsenal e o prospecto de uma final europeia com o clássico londrino. Mais uma vez, questões políticas se impuseram sobre o jogo e ditaram as manchetes esportivas, com a notícia de que o meia do Arsenal, Henrikh Mkhitaryan, não disputaria o jogo devido às tensões políticas entre Armênia, sua terra natal, e Azerbaijão, anfitrião da final europeia.

Armenia e Azerbaijao

Localização de Armênia (em verde) e Azerbaijão (em laranja)

O caso Mkhitaryan já agitava a imprensa desde a qualificação da equipe inglesa à final, uma vez que já se repetira em duas outras ocasiões. Na Liga Europa de 2015, quando ainda defendia as cores do Borussia Dortmund, o meia não enfrentou o Gabala, equipe azerbaijana. O jogador também não viajou com a equipe em outubro de 2018 para um jogo no país contra a frágil equipe do Qarabag, ainda na primeira fase da competição. Na ocasião, o Arsenal não teve dificuldades em vencer a equipe local por 3 a 0 e a ausência do atleta não causou tanta repercussão. Gurban Gurbanov, técnico do Qarabag, chegou a afirmar que os ingleses “pouparam” Mkhitaryan da pressão de jogar perante 68 mil torcedores no Estádio Olímpico de Baku, palco da final do dia 29 (Fonte).

Henrik Mkhitaryan

O meia armênio Henrik Mkhitaryan, do Arsenal.

O fato da questão aparecer com mais força para a disputa da final não deveria ser surpresa para ninguém. No entanto, antes de prosseguirmos, devemos olhar para a história recente da relação entre os dois países, sua disputa pela região de Nagorno-Karabakh e a República de Artsaque, de forma a melhor compreender as causas desse impasse.

República de Artsaque ou Nagorno-Karabakh? Disputas e reconhecimento limitado.

As atuais disputas entre Armênia e Azerbaijão se dão principalmente por disputas étnicas e territoriais em torno da região de Nagorno-Karabakh. A região, de maioria étnica armênia, era parte do Império Russo até a dissolução do mesmo após a Revolução Bolchevique de 1917, quando se tornou parte da República Democrático Federativa Transcaucasiana, formada pelas atuais Georgia, Armênia e Azerbaijão. No entanto, após apenas três meses de vida (de fevereiro a maio de 1918) as três nações se separaram e Armênia e Azerbaijão entraram em conflito por diversas regiões, incluindo Nagorno-Karabakh. A região foi logo depois invadida por tropas otomanas em meio à Primeira Guerra Mundial, sendo defendida por grupos armênios. Seguindo o fim da guerra, a região foi colocada sob jurisdição azerbaijana, mas grupos armênios continuaram oferecendo resistência através de guerrilhas localizadas. Tal situação se manteve até o início do domínio soviético sobre a região, em 1920.

Regiaõ de Nagorno-Karabakh

Mapa com destaque para a região de Nagorno-Karabakh

Após a anexação dos dois países pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, as disputas fronteiriças foram encaminhadas pelo então Comissário do Povo para as Nacionalidades da URSS, Josef Stalin. Na ocasião, Nagorno-Karabakh foi incluída como Oblast (região administrativa soviética) autônomo da República Soviética do Azerbaijão, e os conflitos foram controlados pelo governo soviético. O declínio da URSS na década de 1980 e sua eventual dissolução trouxeram a questão nacional da região novamente à tona, com a realização de um plebiscito que aprovou a separação da região. Dessa forma, teve início a chamada Guerra de Nagorno-Karabakh, entre forças militares do Azerbaijão e um autoproclamado governo local, apoiado pela Armênia. O conflito durou até 1994.

Após o cessar fogo, a região manteve seu governo autônomo, inicialmente com a denominada República de Nagorno-Karabakh, renomeada em 2107 como República de Artsaque. Internacionalmente, região é majoritariamente reconhecida como parte do Azerbaijão, mantendo controle de facto sobre seu território. A Armênia, apesar de não reconhecer oficialmente o Artsaque por motivos diplomáticos, mantém próxima relação com suas forças governamentais. Já o Azerbaijão continua sua luta diplomática pela retomada de controle sobre o território, e as negociações são mediadas pelo Grupo de Minsk, da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE).

Mkhitaryan e a Final de Liga Europa da UEFA

Segundo diversas reportagens, Henrikh Mkhitaryan não participará do jogo em Baku por ser armênio, tendo em vista as tensões entre os dois países. No entanto, “Micki” entrou na lista de pessoas proibidas de entrar no Azerbaijão devido à sua visita à região de Nagorno-Karabakh como parte de uma delegação da seleção armênia em 2010 que distribuiu presentes para moradores da região. Na ocasião, a delegação foi recepcionada pelo president do governo local, Bako Sahakyan, e por Samvel Karapetyan, Ministro da Defesa e Presidente da então nomeada Federação de Futebol do Karabakh, que conferiu a Mkhitaryan uma medalha de “Defensor da Pátria”.

De acordo com uma reportagem armênia, o então jogador do Shakhtar Donetsk afirmou na ocasião que a iniciativa partiu dele mesmo. “Tive essa ideia no verão em que me mudei para Shakhtar. Queríamos ajudar a Armênia e a República de Nagorno-Karabakh, as famílias dos defensores da liberdade, para ser mais exato, porque acredito que eles necessitam de tais iniciativas. (…) Espero ser capaz de ajuda-los no futuro também. Estou planejando visitar orfanatos localizados em Yerevan quando retornar para a Armênia no próximo verão” (Fonte).

Pode-se perceber que a ligação de Mkhitaryan com a causa de Nagorno-Karabakh não é mera especulação azerbaijana. Sua imagem é publicamente ligada à questão, tanto que no jogo de volta contra o Qarabag, em Londres, diversos torcedores exibiram a bandeira de Artsaque nas arquibancadas, e um deles chegou a invadir o gramado exibindo o símbolo nacional, enquanto apontava para “Micki”, que estava no banco de reservas (Fonte).

 

Os representantes do governo do Azerbaijão, por sua vez, afirmam que a participação do jogador armênio na final em Baku não seria um problema. O embaixador do país na Inglaterra, Tahir Taghizadeh, afirmou que o atleta receberia o visto e teria garantias de segurança em sua estadia no país. O diplomata teria afirmado à Sky Sports News, na Inglaterra:

Seu problema é ter visitado uma porção militarmente ocupada do Azerbaijão sema permissão do governo azerbaijano. Isso traz consequências, incluindo entrar na lista negra do governo, mas ele terá segurança garantida. Minha mensagem para Mkhitaryan seria: você é um jogador de futebol. Se você quiser jogar futebol, vá para Baku, você estará seguro lá. Mas se você quiser jogar com essa questão, então será uma outra história” (Fonte).

A mensagem, com certo tom de ameaça, não ajudou a solucionar o caso. De acordo com a comunicação oficial do Arsenal, o jogador, juntamente com sua família, decidiu não viajar com a equipe e ficar de fora da final europeia. Taghizadeh apontou para o ato como uma “ação política”, na qual o atleta teria colocado intenções políticas acima das profissionais (Fonte).

Do outro lado, os jogadores do Arsenal planejavam uma homenagem em solidariedade ao colega durante o aquecimento antecedendo à partida, na qual usariam camisas com o nome do jogador armênio. No entanto, a UEFA interveio junto ao clube e proibiu qualquer manifestação. A entidade afirma ter feito tudo o possível para permitir a ida do jogador à final, mas que a decisão de não comparecer ao evento se deve unicamente ao clube e ao atleta.

 

À guisa de conclusão: UEFA e a geopolítica europeia

Em meio a duas finais inglesas das principais competições europeias de clubes, questões geopolíticas europeias tomam o holofote e se apresentam como um inesperado problema para a UEFA. O sistema de final em jogo único das competições da entidade, sediados em localidades definidas com grande antecedência, apresenta limitações significativas, especialmente quando realizados em regiões conturbadas como o extremo oriente europeu. Em 2017, quando Baku foi escolhida sede da final dessa temporada, seria difícil imaginar um problema como esse. No entanto, o histórico de conflitos na região e os relatos de perseguição a ativistas de direitos humanos no país sede poderiam ser encarados como sinais de que essa não seria a sede mais adequada.

Ao se candidatar à sede da final da Liga Europa, o governo do Azerbaijão buscava promover a imagem do país e se dissociar da imagem de tensão e conflito. O caso Mkhitaryan pode ter posto isso a perder, trazendo ainda mais luz ao conflito pouco conhecido e, quem sabe, atiçando as brasas da diplomacia europeia sobre o caso de Nagorno-Karabakh. Dia 27 teremos o resultado da Liga Europa. Mas o resultado final desse jogo levará mais tempo para ser conhecido.

 


Os primórdios do futebol na Alemanha (1874-1914)

20/05/2019

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br)

No século XIX, a principal modalidade esportiva em termos de popularidade na Liga Alemã (Deutscher Bund) era o Turnen, ou seja, a ginástica conforme fora concebida pelo pedagogo e político Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), mais conhecido como “Turnvater Jahn”, “Jahn, o Pai da Ginástica”. Originalmente, o Movimento pela Ginástica (Turnbewegung) concebido e propagado por Jahn estava associado ao proto-nacionalismo alemão gerado no contexto das Guerras Napoleônicas. Assim idealizada, a ginástica destinar-se-ia à preparação da juventude na luta contra a ocupação napoleônica dos Estados alemães.

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Friedrich Ludwig Jahn – litografia de Georg Engelbach (1852)
Disponível em: https://upclosed.com/people/friedrich-ludwig-jahn/

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Naquela época, cada vez mais, exercícios físicos eram conduzidos em grupos e associações que valorizavam a disciplina e o condicionamento nos moldes do militarismo, bem como noções como harmonia, uniformidade e comunidade, a partir do princípio dos quatro “f”s – frisch, fromm, fröhlich, frei – vigoroso, devotado, alegre, livre. Por um lado, rejeitava-se o desempenho individual e, por outro, considerava-se prejudicial a disputa orientada por desempenho. Era, pois, uma prática de atividades corporais ritualizadas e coreografadas, como uma série de fotografias registrou tal fenômeno esportivo.

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XII. Festa Alemã da Ginástica em Leipzig
13 de julho de 1913
35 exercícios gerais livres – 17.000 ginastas
Disponível em: https://www.laturners.org/turnfest-2017-in-berlin/

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Foi exatamente nesse cenário que o futebol chegou à Alemanha em meados da década de 1870, praticamente apenas quatro anos após o país ter se constituído enquanto Estado Nação, fundado em janeiro de 1871, no contexto da vitória prussiana sobre a França. Em seus primórdios, o esporte bretão surgia como uma alternativa atraente ao Turnen: ao invés de um grupo difuso de praticantes entrava em cena uma equipe formada por 11 jogadores, a qual se lançava em disputa com outra equipe formada igualmente por 11 jogadores. Ao mesmo tempo, toda equipe necessitava de conjunto e de individualidades que se destacassem em relação à equipe adversária. Portanto, ao contrário do Turnen, o futebol incentivava a disputa, o que significava que, para se estabelecer como prática esportiva alternativa, seria necessário que ocorresse uma profunda mudança de visão em relação à cultura de práticas corporais e esportivas.

Aquilo que nos dias atuais nos parece óbvio, de que o futebol seria um esporte de contato físico, foi um aspecto que fascinou os primeiros praticantes em terras germânicas, pois permitia usar o corpo de uma maneira mais livre, descontrolada e intensa do que aquele modo de lidar com o corpo no Turnen. Quando os primeiros professores introduziram a prática do futebol em suas aulas, as primeiras turmas do ensino primário se mostraram encantadas com a novidade. Todavia, as turmas do ensino médio sentiam-se constrangidas ao terem de disputar uma partida trajando calça curta em público. E há vários relatos daquela época noticiam um constrangimento público causado por jogadores, quando estes atravessavam a rua vestidos com calções, indo em direção ao campo – naquela época, ainda não havia campos determinados, vestiários ou sedes clubísticas.

Assim como Charles Miller (1874-1953) figura como sendo o “pai do futebol” no Brasil, a Alemanha também conheceu um pioneiro da difusão do esporte bretão: Konrad Koch (1846-1911), um professor de Inglês que atuava no Colégio Martino-Katharineum, na cidade de Brauschweig, e que, em 1875, publicou em Alemão as primeiras regras do futebol., após ter estado uma temporada na Inglaterra. Inicialmente, a nova prática esportiva encontrou resistência entre pedagogos mais afeitos ao Turnen, pois a consideravam uma “doença inglesa”, a qual deveria ser combatida.

Por sua vez, o futebol parecia ser uma nova manifestação cultural da juventude, que assimilava as tendências que chegavam do Exterior, fato que acabou por levar as agremiações de Turnen a se abrirem e adotarem o futebol. Na virada do século XIX para o XX, o futebol permanecia um domínio masculino que pouco atraia as mulheres, e que era praticado em ambientes que não lhes permitia o acesso.

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Wilhelm Carl Johann Conrad Koch
Disponível em: https://alchetron.com/Konrad-Koch

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Além de difundir as regras para a prática do futebol, Konrad Koch incluiu em sua publicação também regras para o cuidado com a saúde de seus alunos: fracos e doentes só poderiam praticar futebol mediante permissão médica; era terminantemente proibido praticar futebol sem a supervisão do professor; em condições de tempo adversas, só jogariam aqueles que se dispusessem voluntariamente; recomendar-se-ia ao aluno acometido de gripe que usasse blusa de lã em jogos de futebol durante a tarde. A iniciativa pedagógica de Konrad Koch logo se difundiu para outros colégios na Alemanha, em cidades como Göttingen, Hannover e Hamburgo.

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Regras da Agremiação de Futebol do Ensino Médio
Do Colégio Martino-Catharineum (1875),
publicação de Konrad Koch
Disponível em: https://www.braunschweig.de/leben/stadtportraet/geschichte/konradkoch/143010100000149645.html

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Todavia, para além do âmbito dos colégios, o fascínio pelo futebol cresceu rapidamente no Império Alemão. Logo se formaram alguns centros em que o futebol passou a ser praticado, sobretudo aqueles que possuíam laços estreitos com a Inglaterra: Munique, Karlsruhe e Berlim. Em 1890, foi fundada na capital do Reich a Liga Alemã de Jogadores de Futebol (Bund Deutscher Fußballspieler). Entretanto, o desejo de se ter um órgão central que organizasse a prática do futebol no país levou à criação da Liga Alemã de Futebol (DFB – Deutscher Fußballbund) em 28 de janeiro de 1900.

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Primeira representação do futebol em Berlim (1892), ilustração deErnst Limmer:
Disputa entre uma seleção de Berlim e o Dresdner Fooball Club
Disponível em: https://www.berliner-zeitung.de/berlin/stadtgeschichte-wie-der-berliner-fussball-erwachsen-wurde-24482938

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Desde o início, o futebol esteve envolvido com questões políticas. No tempo do Império (1871-1918), as tensões entre a Alemanha e outras nações, sobretudo a Grã-Bretanha, atingiram também o âmbito do futebol. Naquele período, o futebol era interpretado como parte de estratégias de educação física para elevar o potencial de combatividade dos jovens, bem ao estilo do militarismo alemão da época, que via nos esportes coletivos tal potencial. Assim, as equipes surgiam como mimetizações de dois exércitos que se combateriam no campo de jogo (Spielfeld), igualmente como mimetização do campo de batalha (Schlachtfeld), em movimentos de defesa (Verteidigung) e ataque (Angriff). Tais tensões chegaram a atingir também o âmbito lingüístico: puristas da Língua Alemã criticavam o amplo uso do jargão futebolístico em Inglês.

Não é por acaso que, em seus primórdios, o futebol tenha se difundido entre as camadas sociais mais abastadas, que possuíam tais contatos através de universidades, escolas ou ambientes profissionais, contando com estudantes, comerciantes e engenheiros britânicos que queriam manter os laços com a terra natal através da prática esportiva que mais se popularizava à época.

Entretanto, não demorou muito até que o futebol se tornasse, igualmente, popular entre as camadas operárias. Um exemplo patente desse fenômeno no contexto alemão foi a fundação do Fußball-Club Gelsenkirchen-Schalke 04 em 04 de maio de 1904, até hoje, um dos clubes mais populares do país, por jovens operários em Gelsenkirchen, uma das principais cidades do Vale do Ruhr, região de produção de carvão e de indústria pesada, e, portanto, distante de centros comerciais ou mesmo universitários.

Assim, o futebol se tornou uma prática esportiva em franco desenvolvimento na Alemanha, evidenciado pela crescente importação de equipamentos para sua prática, como camisas, bolas e chuteiras. Além disso, equipes inglesas que excursionavam pelo país atraiam a atenção de um bom público, e o jargão do futebol em Inglês começou a se estabelecer em solo alemão como índice de modernidade. Da mesma forma, no início o século XX, equipes alemãs excursionaram pela Inglaterra e por outros países da Europa. O Sport Club Freiburg, por exemplo, viajou para a Itália em 1914 e disputou partidas em Gênova. No ano anterior, a equipe do sul da Alemanha já havia excursionado pela Suíça, apresentando-se nas cidades de Olten e da Basiléia.

A rápida ascensão do futebol como esporte popular na Alemanha deveu-se ao sucesso da organização da DFB, bem como à criação de um campeonato alemão em 1903, à formação de uma seleção nacional que, a partir de 1908, passou a disputar jogos internacionais, e à criação de associações estaduais e regionais. A iniciativa pioneira de Konrad Koch, de meados dos anos 1870, passados quase 150 anos, resultou em inúmeros frutos que tornaram a Alemanha uma das potências do futebol mundial, tetracampeã de 1954, 1974, 1990 e 2014. Nos dias atuais, a Bundesliga – Campeonato Alemão da primeira divisão – é um dos principais campeonatos do planeta.

Referências

BRÜGGEMEIER, Franz-Josef. Anfänge des modernen Fußballs. Informationen zur politischen Bildung. n. 290, p. 7-13, 1º Quartal 2006.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Sentimento e política no futebol alemão: construções da “nação” em 1990 e 2006. História: Questões & Debates. Curitiba, n. 57, p. 73-99, jul./dez. 2012. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/historia/article/download/30573/19765 ; acesso em: 29 abr. 2019.

CORNELSEN, Elcio Loureiro; CURI, Martin; HOLLENSTEINER, Stephan. Kleines Wörterbuch zum deutschen und brasilianischen Fußball. ed. bilíngue português-alemão, Rio de Janeiro: DAAD, 2014.

GÜLDENPFENNIG, Sven. Frisch, fromm (?), Freiheit, Frieden. In: LIENEN, Ewald et al. (org). Oh!Lympia: Sport, Politik, Lust, Frust. Berlin: Elefanten Press, 1983, p. 165-167.

RÜRUP, Reinhard. Organized Sports in Germany. In: RÜRUP, Reinhard (org.). 1936: Die Olympischen Spiele und der Nationalsozialismus. 2. ed. bilíngue alemão e inglês, Berlim: Stiftung Topographie des Terrors, 1996, p. 20-27.

Site do Deutscher Fußballbund (DFB): https://www.dfb.de/historie/dfb-historie/

Site da Enciclopédia Alchetron: https://alchetron.com/Konrad-Koch

Site do Los Angeles Turners: https://www.laturners.org/turnfest-2017-in-berlin/

Site da cidade de Braunschweig: https://www.braunschweig.de/leben/stadtportraet/geschichte/konradkoch/143010100000149645.html

Site do jornal Berliner Zeitung: https://www.berliner-zeitung.de/berlin/stadtgeschichte-wie-der-berliner-fussball-erwachsen-wurde-24482938

Site da Upclosed: https://upclosed.com/people/friedrich-ludwig-jahn/

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O FUTEBOL NOS JOGOS BOLIVARIANOS DE 1938: PRIMÓRDIOS DA SELEÇÃO COLOMBIANA

14/05/2019

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

A seleção colombiana de futebol masculino tem recebido destaque da mídia internacional nos últimos anos. Com boas campanhas nas últimas duas Copas do Mundo, tal como jogadores de renome mundial (como James Rodríguez e Falcão Garcia), os colombianos vivenciam nessa década um dos melhores momentos enquanto torcedores do selecionado nacional.

 

Antes do cenário atual, a geração mais vitoriosa da seleção colombiana foi a dos anos 1990, com nomes como Valderrama, Higuita, Rincón, Andrés Escobar, Asprilla, Aristizabal, entre outros. Boa parte desses atletas começaram a se destacar ainda na década de 1980 (quando pela primeira vez um clube do país venceu a Libertadores da América, com o Atlético Nacional em 1989), tendo a Colômbia engatado pela primeira vez a disputa de três Copas do Mundo seguidas (1990, 1994 e 1998), além de uma emblemática goleada contra a Argentina em 1993 por 5×0, em pleno Monumental de Nuñez. Esse ciclo foi encerrado com o título da Copa América em 2001, jogando em casa, sendo essa a única conquista do país em competições oficiais de futebol masculino até hoje.

 

Mas, antes do auge vivenciado na atualidade e nos anos 1990, se faz possível perguntar: quando se iniciou o percurso da seleção colombiana de futebol masculino? Nesse post de hoje, abordarei algumas questões relacionadas a essa temática, notadamente acerca da presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, que foi uma das primeiras competições oficiais onde a Colômbia enviou uma equipe de futebol.

Historicamente, o país só veio a formar um selecionado nacional que fosse entendido como “oficial” no início de 1938. Sua primeira partida ocorreu em fevereiro desse mesmo ano, no âmbito dos Jogos Centro-Americanos e do Caribe, um dos eventos que serviram como modelo para a construção dos primeiros Jogos Bolivarianos, inaugurados em agosto na cidade de Bogotá.

No Sul-Americano de seleções (atual Copa América), a Colômbia só viria a fazer sua estreia em 1945, sendo a penúltima das dez seleções atualmente filiadas à Conmebol a iniciarem sua participação na competição continental mais importante da América do Sul (a última, foi a seleção da Venezuela, que estreou no Sul-Americano apenas em 1967, oito anos antes da mudança de nome da competição, que desde então passou a ser conhecida como Copa América).

Esse cenário só explicita o quanto o futebol do país na década de 1930 se encontrava em um contexto ainda incipiente no âmbito internacional, tendo essa situação se modificado paulatinamente apenas após seu processo de profissionalização, iniciado em 1948.

A partir de 1936, além da Conmebol, o país passou a ser filiado também à FIFA. Isso possibilitou a idealização e consequente formação de uma equipe. A estreia do selecionado de futebol colombiano se deu em 10 de fevereiro de 1938, em uma derrota por 3×1 para o México, no âmbito dos já citados Jogos Centro-americanos e do Caribe. Mesmo com a derrota, essa partida marcou o início da trajetória do país no futebol de seleções.

No âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938 em Bogotá, e tendo como fontes alguns periódicos do período, é válido ressaltar que já no final de julho desse mesmo ano, se faz possível encontrar algumas referências à competição de futebol que viria a ocorrer no âmbito desse evento, sendo destacado inclusive o sorteio que formou posteriormente os confrontos do certame:

Com a assistência de todos os capitães das equipes de futebol que participarão dos Jogos Bolivarianos, se celebrará na segunda-feira às três da tarde uma importante reunião, durante a qual se farão os sorteios para a ordem dos eventos em questão.

A essa reunião assistirão, ademais, o árbitro mexicano contratado pelo governo nacional, senhor Esteban Tejada, o presidente da Liga de Fútbol de Cundinamarca e o presidente do Comitê Olímpico Nacional.

Este sorteio tem grande importância, pois dele sairá o programa definitivo dos encontros de futebol com a ordem em que haverão de participar as diversas equipes (El Espectador, 30 de julho de 1938, p. 6, tradução nossa.).

A partida que inaugurou o evento de futebol no âmbito dos jogos, foi um jogo entre Colômbia e Peru. Tendo os dois países passado por um conflito bélico entre 1932-34, por disputas de fronteira, mas que desde a Olimpíada de 1936 em Berlim haviam sinalizado uma reaproximação diplomática, tal jogo inicial se explicitou como emblemático para inaugurar o evento. A grande recepção recebida pela delegação peruana, deu o tom diplomático que a partida se inseriu. Todavia, algumas confusões marcaram a realização do jogo até que o mesmo ocorresse.

Marcado inicialmente para ocorrer em 08 de agosto de 1938, a partida inaugural do torneio de futebol movimentou opiniões na imprensa e na sociedade como um todo. Em El Espectador, foi destacado que “todos os amantes do futebol bogotano estão hoje pendentes do encontro entre Colombia x Peru, que terá lugar […] no campo da Ciudad Unviersitaria, e com o qual se iniciará o torneio desse esporte nos Jogos Bolivarianos.” (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa.).

As apostas para a partida eram que o Peru saísse vencedor. Até mesmo entre os dirigentes colombianos, era apontado o Peru não só como favorito desse jogo, mas de todo o torneio de futebol, por ser a seleção mais antiga e desenvolvida dentre todas as que participariam do evento. Todavia, o que é importante notar, para além dos comentários acerca dos possíveis placares, são os discursos diplomáticos, presentes nas falas de alguns dos dirigentes mais importantes na organização dos Jogos Bolivarianos. O Coronel Leopoldo Piedrahita, organizador dos jogos, e Alfredo Gómez Vanegas, subdiretor de todo o evento, abordaram a partida desta maneira, respectivamente:

Coronel Leopoldo Piedrahita, diretor dos Jogos Bolivarianos:

Vamos ver jogar um bom futebol. Serão adversários nobres, e a satisfação do triunfo se repartirá entre vencedores e vencidos. Como colombiano e como diretor geral dos Jogos Bolivarianos, tenho plena segurança de que nossos compatriotas aclamarão constantemente aos próprios e a nossos galhardos irmãos.

Alfredo Gómez Vanegas, subdiretor dos Jogos Bolivarianos:

Ao menos podem abrir os jogos com um “prato forte” – falando em um jargão futebolístico -, que saberá despertar a afeição pelos jogos. O triunfo se repartirá por igual. O comitê organizador dos jogos espera ver demonstrada a tradicional cultural bogotana, nessa partida da próxima segunda-feira (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa.).

Os olhares para a realização dessa partida, foram muitos. E, também, foram abordados pela imprensa peruana e seus dirigentes. Como exemplo, destaca-se abaixo a fala de Alfredo Hohaguen Díez Canseco, presidente da embaixada peruana nos jogos. Mesmo sendo de conhecimento de todos que a seleção peruana era entendida como superior à colombiana, Díez Canseco não deixou de adotar um tom diplomático em seu discurso e aposta sobre a partida:

Pelas referências que tenho, sei que os colombianos estão em magníficas condições. Os jogadores de meu país não puderam se adaptar, todavia, a altura de Bogotá, porém considero daqui até segunda-feira há tempo suficiente. É natural que os jogadores do Peru sejam superiores aos colombianos, e podem ganhar, porém asseguro que de nenhuma maneira será um triunfo por um score muito alto (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa).

Os interesses mercadológicos na construção do espetáculo dos Jogos Bolivarianos, se fizeram notados quando foi debatida a possibilidade de modificar a data da partida entre Colômbia e Peru. Inicialmente agendada para o dia 08 de julho de 1938, às 10 horas da manhã, “várias empresas bancárias e particulares” (El Espectador, 03 de agosto de 1938, p. 3, tradução nossa) elaboraram uma petição para alterar o jogo para um dia antes, o domingo, sugerindo que fosse realizado ao meio-dia. Assim, se tornaria possível abarcar um número maior de espectadores e, naturalmente, também de consumidores.

Por fim, as forças do mercado prevaleceram, tendo o espetáculo inaugural do futebol nos jogos se iniciado no domingo, 07 de agosto de 1938. O resultado final da partida foi o esperado: vitória do Peru, com placar final de 4×2 (El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3.). Todavia, como forma de destacar o emocionante confronto, algumas confusões ocorreram na partida e geraram não só a expulsão de atletas em campo como a invasão do mesmo por torcedores, quebrando um pouco do “olhar diplomático” proposto por todos antes do certame:

Quando <El Sapo> Mejía avançava com a bola, até a porteira peruana, Jorge Alcalde o interrompeu e agarrou o colombiano pela blusa, o fazendo rodar. Mejía se levantou e ambos trocaram alguns golpes, que provocaram que grande quantidade de público invadisse o campo, fazendo notórios protestos. O campo foi desocupado e os jogadores expulsos, e quando, todavia, se debatia o incidente, se abriu de novo o jogo. Instantes depois os espectadores lançaram estrondosos gritos (El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3, tradução nossa)

A primeira vitória colombiana na competição, em uma vitória por 2×0 sobre a seleção da Venezuela em 12 de agosto de 1938, foi muito festejada (El Espectador, 13 de agosto de 1938, p. 1 e 6.) A postura de seu povo, incorporado na pele dos torcedores, tal como os discursos da pátria em seus grandes “palcos”, foram sempre exaltados.

Após a partida inaugural contra o Peru e a vitória contra a Venezuela, curiosamente, os jogos de futebol foram menos noticiados no âmbito da imprensa que cobriu o torneio nos Jogos Bolivarianos. Todavia, a cobertura sobre os palcos em que os jogos ocorriam, que eram os recém-criados estádios Ciudad Universitaria e El Campín, continuavam sendo pautas importantes da imprensa colombiana. Mas esse, é tema para outro post….

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Estádio Nemesio Chamacho, “El Campin”, de Bogotá, inaugurado em 1938 no âmbito dos primeiros Jogos Bolivarianos. http://www.conmebol.com/pt-br/content/ha-75-anos-el-campin-de-bogota-e-local-de-tradicao-da-identidade-colombiana


A invenção do skate vertical

22/04/2019

Por Leonardo Brandão

Como surgiu o skate vertical? Esse que é praticado em rampas no formato de “U”? Uma explicação relevante acerca de seu surgimento pode ser conferida no vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, dirigido por Stacy Peralta e lançado no ano de 2001. Esse filme traz imagens raras sobre o início da prática do skate nos EUA, enfatizando uma equipe de skatistas norte-americana conhecida como Z-Boys, exibindo suas primeiras manobras e espaços percorridos.

A equipe Z-Boys, abreviatura de Zephyr (uma loja montada para surfe e skate), era composta de doze pessoas, surfistas na sua origem, mas que acabaram fazendo do skate sua prática principal. Com exceção de um, Chris Cahill, todos os demais foram localizados pelo produtor do documentário, o norte-americano Stacy Peralta, o qual também fazia parte dessa equipe de skatistas. A única mulher do grupo era a skatista Peggy Oky. Compunham o restante da equipe os skatistas Shogo Kubo, Bob Biniak, Nathan Pratt, Jim Muir, Allen Sarlo, Tony Alva, Paul Constantineau, Jay Adams e Wentzle Ruml.

Stacy Peralta, ex-skatista profissional e atual diretor de documentários, conseguiu reencontrar praticamente todos esses skatistas da década de 1970, os quais tomaram caminhos díspares na vida, e desde o final da referida época não tinham mais se encontrado. Hoje eles são empresários, a maioria casada e alguns ainda praticam o skate regularmente. Através de entrevistas, conversas e depoimentos, Stacy Peralta foi estruturando seu documentário, fazendo da atual memória desses skatistas o fio condutor de sua história.

A explicação sobre o surgimento do skate vertical aparece na parte final deste documentário. Sabemos que, dentre as modalidades existentes atualmente na prática do skate, a de maior popularidade junto ao grande público é o skate vertical. Constantemente exibido pelos canais televisivos, muitas vezes em campeonatos “Ao Vivo”, como os transmitidos pelo programa Esporte Espetacular da Rede Globo, o skate vertical se caracteriza por ser uma modalidade onde o skate é praticado em grandes rampas de madeira ou cimento, com aproximadamente quatro metros de altura e denominadas “half-pipe” (“meio tubo” em português) ou em pistas com rampas no formato de uma bacia “bowl”. Nessas rampas, que podem ser representadas pela letra “U”, os skatistas executam inúmeras manobras, mas as que normalmente mais chamam a atenção são os saltos, chamados de aéreos, onde tanto o skate quanto o corpo do skatista permanecem no ar por alguns segundos até retornarem novamente o contato com a rampa.

De acordo como o vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, o surgimento do skate vertical foi possível após a conjugação de dois fatores: de um lado, houve a apropriação dos movimentos do surfe na prática do skate, e, de outro, ocorreu uma grande seca no Estado da Califórnia em meados de 1970.

Segundo relatam os depoentes desse filme, “a prefeitura não permitia molhar o jardim e nem se podia servir água em restaurante, então, o que aconteceu, foi que todas as piscinas abundantes no sul da Califórnia estavam secando”. Por isso: “a seca da Califórnia atuou como parteira da revolução do skate, enquanto centenas de piscinas de Los Angeles foram deixadas vazias e sem uso”.

O aspecto pitoresco dessa história encontra-se na arquitetura das piscinas californianas, pois elas não se assemelham com as encontradas no Brasil. Aqui as piscinas são quadradas, retangulares, com as paredes retas, as quais formam um ângulo de 90º graus com o solo. Na Califórnia, as piscinas exibidas no filme possuíam um formato oval, redondo. As paredes dessas piscinas continham transições, que lembravam as ondas do mar, com ondulações simétricas e perfeitas. Foi essa “rampa” nas paredes das piscinas californianas, somada à habilidade e à técnica dos skatistas de Dogtown, sobretudo os da equipe Z-Boys, que forneceram às piscinas vazias uma outra utilidade nunca antes pensada: elas viraram as primeiras pistas de skate vertical.

De acordo com o filme, foram esses skatistas que, ao praticarem skate em piscinas vazias revolucionaram essa atividade, apontando para horizontes nunca antes imaginados, e tornando possível, anos depois, a montagem de rampas verticais (half-pipes) que passariam a imitar as paredes inclinadas das piscinas californianas. Segundo os membros da equipe Zephyr, eles foram os primeiros a andarem em piscinas vazias, e nem imaginavam o que era possível fazer. Em seus relatos, eles dizem:

A primeira meta no primeiro dia foi passar acima da lâmpada (que fica na parede inclinada da piscina). Depois começamos com arcos duplos (andar com dois skatistas de uma só vez), chegando ao ladrilho da piscina dos dois lados. A meta era chegar à beirada, bater a roda na beirada.

Tony Alva, considerado um dos mais habilidosos skatistas da equipe, lembra o fato de que só foi possível realizarem tal feito por terem sido, antes de skatistas, surfistas. Pois os mesmos movimentos que faziam com suas pranchas na onda do mar, eram os necessários para subirem com seus skates nas paredes curvas das piscinas. Segundo seu relato: “era completamente fora dos padrões, mental e fisicamente. Mas, por sermos surfistas sabíamos os movimentos necessários, só não sabíamos se eram possíveis”. Ainda de acordo com Alva, o pioneirismo da equipe Z-Boys foi algo marcante na exploração desse novo terreno. Para ele, “definitivamente fomos os primeiros a andar numa piscina”, e finaliza lembrando: “é preciso entender que o que fazíamos nunca havia sido feito, aquilo simplesmente não existia”.

Figura 1: Uso do skate nas ondulações de uma piscina na Califórnia no início da década de 1970. Fonte: Imagem do filme Dogtown and Z-boys.

O que os Z-boys chamavam de andar “com o eixo baixo”, ou seja, com o corpo mais abaixado, tal como faziam nas ondas, forneceu a eles a possibilidade de executarem manobras diferenciadas e em lugares até então inusitados, como nas ondulações das piscinas. Eles, enquanto surfistas, transportaram seus movimentos para o skate. Não se trata de skatistas que se espelharam em surfistas, mas de surfistas que se fizeram skatistas.

Na invenção cultural de utilizar piscinas vazias como lugares possíveis de se praticar skate, houve tanto uma representação quanto uma apropriação. Representação porque a piscina passou a ser vista não como um tanque de água para banhos e mergulhos, mas sim como um lugar de exercícios físicos e acrobáticos para o skate. Mudaram-se, pois, os sentidos, as representações. Deste modo, a invenção do skate vertical se deu por meio de práticas de reutilização, efetivando as representações como apropriações. A piscina foi, mais do que pensada de uma forma diferente do usual, experimentada em sua concretude. Os skatistas não só a significaram de um modo diferente, mas também a utilizaram com outras finalidades.

Para saber mais:

Dogtown and Z-Boys. Ficha Técnica: Título Original: Dogtown and Z-Boys. Gênero: Documentário. Tempo de Duração: 87 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 2001. Site Oficial: http://www.dogtownmovie.com. Estúdio: Agi Orsi Productions / Vans Off the Wall. Distribuição: Sony Pictures Classics / Imagem Filmes. Direção: Stacy Peralta. Roteiro: Stacy Peralta e Craig Stecyk. Produção: Agi Orsi. Música: Paul Crowder e Terry Wilson. Fotografia: Peter Pilafian. Desenho de Produção: Craig Stecyk. Edição: Paul Crowder.

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BRANDÃO, Leonardo. Prazeres sobre pranchas: o lúdico e o corpo nos esportes californianos. In: Recorde: Revista de História do Esporte. Vol. 2, n. 2, dezembro de 2009, p. 1 – 29.