Belo Horizonte: industrialização e crescimento esportivo

26/09/2016

Olá amigos do História(s) do Sport

No ano passado eu escrevi um post aqui no blog falando sobre os clubes de trabalhadores da cidade na década de 50 (clique aqui para ler). Na oportunidade, fiz uma lista de 10 clubes que surgiram na cidade e suas adjacências, e comparei esse crescimento com o crescimento populacional da cidade.

No post de hoje vou um pouco mais além. Quero mostrar como o crescimento de Belo Horizonte através do seu processo de industrialização teve também consequências no campo esportivo.

E deixo a pergunta: o crescimento do esporte em Belo Horizonte pode ser considerado uma das consequências do seu processo de industrialização?

No caso da BH das décadas de 50 e 60, essa pergunta parece caminhar para uma resposta afirmativa. Vamos então entender em pouco sobre o crescimento de Belo Horizonte durante o seu processo de industrialização, a partir de alguns dados.

4 apontamentos sobre a industrialização de Belo Horizonte entre as décadas de 40 e 60.

1 – Crescimento populacional.

Vale recordar alguns dados do IBGE sobre a população da cidade de Belo Horizonte entre as décadas de 1940 e 1960.

1940 – 177.004
1950 – 338.585
1960 – 642.912
Fonte: Censo IBGE, apud PATARRA, 2004, p. 262; MINAS GERAIS 1966, p.18

2 – Investimento em industrialização

A Cidade Industrial foi criada em 1941, atraindo diversas empresas para a região. Além disso, inúmeras empresas Estatais foram criadas nesse período, mostrando também o esforço do Governo do Estado.

Empresas Estatais Mineiras entre 1951 e 1961[1]

Empresa Ano de criação
Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG) 1951
Departamento de Estradas e Rodagens (DER) 1951
Frimisa 1953
Fertilizantes Minas Gerais (Fertisa) 1953
Usiminas 1956
Casemg 1957
Metamig 1961

[1] FECOMERCIO. Belo Horizonte & o comércio: 100 anos de história. Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais: Belo Horizonte, 1997. p. 199.

3 – Conurbação com as cidades vizinhas

Nessa época, a ocupação do espaço físico de Belo Horizonte chega aos limites da cidade, se encontrando com municípios vizinhos como Contagem e Sabará.

4 – Verticalização

BH cresceu para os lados e também para cima. Segundo o levantamento do Plambel, foram 18.974 edifícios entre 1952 e 1964.

Construções de Edifícios em Belo Horizonte entre 1952 e 1964.

Ano Número de pavimentos Total
1 2 3 e +
1952 1.228 160 43 1.431
1953 1.573 217 54 1.884
1954 1.582 213 67 1.862
1955 1.518 271 123 1.912
1956 1.480 142 79 1.701
1957 991 110 95 1.196
1958 1.104 127 155 1.386
1959 993 95 101 1.189
1960 1.197 123 121 1.441
1961 998 94 130 1.222
1962 1.038 119 174 1.331
1963 1.064 104 178 1.346
1964 833 81 72 986
Total 15.599 1.856 1.392 18.974

Esse conjunto de dados sobre o crescimento da cidade pode ser visualizado em um vídeo sobre Belo Horizonte na década de 60, que faz parte do acerco do CRAV – Centro de Referência Audiovisual.

 

Com tanta gente morando e trabalhando em Belo Horizonte, o crescimento esportivo teria também ocorrido?

Dados sobre o aumento da prática esportiva em Belo Horizonte nas décadas de 50 e 60.

Podemos responder parcialmente a essa pergunta.

Os dados sobre o esporte são mais escassos, mas importantes. O IBGE se informou sobre as associações esportivas e seus associados nos anos de 1957 e 1964. Vejamos alguns dados.

No ano de 1957 a cidade de Belo Horizonte contava com 101 associações esportivas e recreativas, ficando atrás apenas da cidade do Rio de Janeiro e São Paulo, que possuíam 272 e 160 associações, respectivamente. Possuía 52.008 pessoas inscritas nessas associações, sendo 42.386 homens e 9.622 mulheres.[2]. Naquele ano o número de associações deste tipo no Brasil era de 5.816, e as três maiores capitais brasileiras respondiam por 47,8% do total de associações.

censo-1957

No ano de 1964, foram computadas apenas as associações esportivas, e os números mostram crescimento. Sete anos depois, a capital mineira contava com 114 associações desportivas. O número de associados registrados havia saltado: 111.747, sendo 81.870 homens e 29.877 mulheres. A tabela ainda apresentava outros dados, como o número de desportistas entre os associados, e sua condição como praticante de atividades. Belo Horizonte tinha naquele ano 38.040 atletas, dentre os quais, 97 profissionais[3].

censo-1964

Foi um crescimento expressivo em 7 anos. Mesmo com possíveis inconsistências e com a separação entre as associações esportivas e recreativas no ano de 1964, os dados apresentados nos mostram o papel do associativismo em Belo Horizonte.

Infelizmente não temos os dados populacionais de Belo Horizonte em 1964. Se usarmos os dados de 1960, os 111.747 associados representariam cerca de 17% da população. Já os 38.040 identificados como atletas, seria quase 6% dessa população.

O crescimento de Belo Horizonte através de seu processo de industrialização também trouxe consigo crescimento no campo esportivo. Cabe ainda investigar outras ações fora do associativismo, como o esporte na periferia, na várzea e nas ruas, que também são expressões da prática esportiva nas cidades.

Quem sabe algum historiador não topa o desafio?

Fontes

[2] SERVIÇO DE ESTATÍSTICA DA EDUCAÇÃO E CULTURA. Tabela extraída de: Anuário estatístico do Brasil 1959. Rio de Janeiro: IBGE, v. 20, 1959. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_xls/associativismo/1959/assoc1959m_aeb_093.xls Acesso em 25 de setembro de 2012.

[3] SERVIÇO DE ESTATÍSTICA DA EDUCAÇÃO E CULTURA. Tabela extraída de: Anuário estatístico do Brasil 1967. Rio de Janeiro: IBGE, 1967. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_xls/associativismo/1967/assoc1967m_aeb_279.xls Acesso em 25 de setembro de 2012.


Cartão Vermelho (Brasil, Laís Bodanzky, 1994)

20/09/2016

 

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Hoje vamos abordar o segundo curta metragem nestes nossos escritos sobre futebol e cinema. O primeiro foi Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem, de 2005 (ver neste blog: https://historiadoesporte.wordpress.com/2015/07/20/mauro-shampoo-jogador-cabeleireiro-e-homem-2005/).

O filme de Laís Bodanzky tem apenas 14 minutos e pode ser acessado com facilidade e proveito (http://portacurtas.org.br/filme/?name=cartao_vermelho). Trata-se de trabalho inaugural da diretora, a qual vai assinar uma interessante e original série de obras. Os maiores destaques talvez sejam Bicho de sete cabeças (2001, o primeiro e premiado longa metragem), Chega de Saudade (2007) e As melhores coisas do mundo (2010 – ver http://www.imdb.com/name/nm1738698/ e http://www.buritifilmes.com.br/a-lais.php?cat=lais).

A película em questão tem um enredo simples, mas relativamente ousado. Fernanda é uma menina que joga bola com os garotos da vizinhança (a sinopse do Porta curtas indica que a personagem tem 12 anos – http://portacurtas.org.br/filme/?name=cartao_vermelho). Ela mostra desenvoltura e habilidade. Não obstante, o elemento marcante de sua participação futebolística é que, invariavelmente, ela acerta os colegas com dolorosos arremates da bola nas partes baixas e vulneráveis. Um temor justificável começa a se apoderar dos moleques.

Sobre essa conduta duas coisas podem ser destacadas: a primeira é que Fernanda se utiliza disso para ampliar sua performance. Na última sequência de jogo, antes do encontro no “esconderijo”, os meninos abrem caminho (já ciosos pela manutenção de suas possibilidades reprodutivas) para sua colega, facilitando a vitória da temível adversária.

Em segundo lugar, é de se salientar o detalhamento cinematográfico, que indica um sorriso prazeroso de Fernanda ao atingir seus colegas. Pois bem, o roteiro e a ação ganham dramaticidade quando os amiguinhos da moça se reúnem e resolvem ir à forra. Fazem isso da seguinte maneira: refugiam-se em uma casa abandonada (o “esconderijo” da molecada) e atraem Fernanda para lá. Trata-se de um “julgamento” (e condenação). Uma das penas sugeridas seria a de uma contrapartida pura e simples, ou seja, chutar a bola em direção à “ré”, na mesma direção anatômica.

Um dos meninos, aparentando ser um pouco mais velho e em exercício de liderança, explica que isso não funcionaria, porque as meninas são diferentes. A solução então é a da exibição dessa diferença, para todo o time. Essa sequência, em um primeiro momento, é provocadora. Afinal, a menina chora e roga que não a exponham. Soa desconfortável e agressivo: são crianças. E é isso que é retomado prontamente. Os garotos, após natural curiosidade, se desinteressam rapidamente.

Outros recursos também são adotados para esfriar a narrativa. Evidentemente a intimidade de Fernanda não é devassada pela câmera; apenas os personagens a testemunham (cinematograficamente). Ademais, muito pronto dá-se um corte para uma ilustração didática da genitália feminina, narrada por aquele garoto-líder, que se chama Daniel. Uma sequência final dá cabo ao evento. Um dos meninos menores se vê diante do esboço da vulva, desenhada numa das paredes do esconderijo. Ali vemos, nitidamente, uma analogia gráfica a um campinho de futebol. Esse é o objeto de desejo realmente cobiçado pela turma. Ao menos pela maioria.

As cenas posteriores retratam Fernanda em sua cama, repassando mentalmente o ocorrido. Inicialmente a  filmagem sugere um recolhimento constrangido, mas a conotação logo muda quando a menina se recorda de Daniel e de sua atenção (aparentemente não compartilhada pelos demais) quando da sua exposição forçada.

E não é que no outro dia a Fernanda reaparece no campinho, se reapresentando para a brincadeira?  E sem mudar o tom, porque na primeira oportunidade atinge mais um infeliz portador de bolsa escrotal. Diante disso todo mundo reclama, mas Daniel impede qualquer ação coletiva;  agarra Fernanda pelo braço e deixa claro que ele vai cuidar do caso. Nesse momento uma nova aproximação da câmera explicita o sorriso da menina.

Em entrevista, a diretora esclarece que o tema abordado é o “da entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade” (http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-50803/). Uma história corriqueira, portanto, mas que adquire contornos ligeiramente cômicos, dramáticos, inocentes e de jogo/brincadeira. Quem seduz? Quem provoca ou é provocado? Quem tem a iniciativa nessa história? Quem “pune” ou quem quer ser “punido”?

Acho que vale a pena despender 14 minutos pra entrar na brincadeira reflexiva proposta por Laís Bodansky.

Até a próxima!


Os esportes na água em Salvador: mais uma vez o remo

12/09/2016

            Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Em Salvador as regatas se iniciaram nos anos iniciais do século XX, com a fundação de clubes específicos, ainda que no século XIX tenha havido já tentativa de promovê-las. Em dezembro de 1874, o Jornal da Bahia apresentou a seguinte notícia:

 No dia 22 do corrente, reunidos os sócios daquele Clube em casa do Comendador Antonio de Lacerda, foram admitidos mais 59 sócios e marcado o dia 1 de janeiro próximo futuro para a instalação da sociedade, havendo no mesmo dia a primeira regata[1].

Na matéria acima, o que se vê é uma tentativa de pessoas interessadas em fundar um clube náutico, o Clube de Regatas Bahiano. Em data próxima a que faz a chamada, no mesmo jornal, vemos também a apresentação do que seria a primeira prova, a inauguração da agremiação, que se daria em janeiro de 1875:

A comissão acima referida se propõe celebrar a inauguração do Clube, procedente a organizar uma Regata que terá lugar na Barra, no dia 06 de janeiro próximo vindouro, às 4 horas da tarde [..]

Todos os capitães de botes que desejam remar na regata acima mencionada deverão assinar sua completa adesão aos regulamentos estabelecidos pelo Clube[2]

Assim, mesmo sem percebermos a fundação do clube, encontramos anúncios de regatas associadas a festas e cerimônias, nas quais percebemos a influência de profissionais do mar.

No dia 8 do corrente, na ocasião da festa de Santo Antonio da Barra, haverá regata; convida-se aos senhores oficiais de marinha, capitães de navios e pilotos, que desejarem fazer parte dela, a inscreverem-se, devendo para isso dirigirem-se aos senhores Americo de Freitas, Hasselman e George Wilson, e ao porteiro do arsenal da marinha[3].

O desenvolvimento do remo também contribuiu para a ampliação do número de clubes e para o aprofundamento da estruturação do esporte. A organização da modalidade procurou fazer com que suas entidades e agentes também se envolvessem com a cidade. O remo, para Salvador, foi uma prática esportiva que teve implicação com a própria dimensão de “recriação” da urbe.

O avanço do remo não se fez notar somente entre os ricos da cidade, atraindo um público diversificado. Entre seus fatores de interesse, chamava atenção a exibição dos corpos masculinos e seus modos de vestir.

O fato de ser disputado em espaço livre permitiu que a plateia ocupasse as areias e as calçadas. Os dias de regatas movimentavam a cidade, mexiam com as aspirações e os sentimentos do povo que, influenciado pelos jornais, avidamente esperava e se preparava para ir ver os remadores em ação.

Em Salvador, os clubes Esporte Clube Vitória (1899); Clube de Natação e Regatas São Salvador (1902); Clube de Regatas Itapagipe (1902) e Esporte Clube Santa Cruz (1904) promoveram muitas regatas, tornando-as uma atividade importante para a cidade. Na capital baiana, elas sempre aconteceram na Enseada dos Tainheiros, o que ajudou a garantir a esse espaço um lugar na memória sentimental soteropolitana.

As regatas eram, para Salvador, um local de encontro, um espaço onde as pessoas circulavam de forma tal que fossem vistas com suas novas vestes, com um comportamento elegante. Verificava-se um verdadeiro espaço de convivência entre membros das distintas classes sociais soteropolitanas, acima de tudo das elites.

Amanhã, sob a direção do glorioso Clube de Regatas Itapagipe, será realizada a 2ª regata do  ano, na qual é disputado o Campeonato Baiano do Remador. Mais 24 horas apenas e o Porto dos Tainheiros estará em festa, festa do remo, festa da mocidade sadia. E, assim, em meio a tanta alegria e cordialidade, há de ser realizada a regata de amanhã. Belo esporte, o remo.[4]

 A presença do público era constantemente anunciada pelos jornais, como prova do sucesso do remo e de suas regatas na sociedade soteropolitana. Os periódicos destacavam que as pessoas se espalhavam nas diversas partes da Enseada e tratavam ainda das que iam nas embarcações dos clubes.

A enseada de Itapagipe volveu, no domingo último, aos tempos áureos, em que o esporte náutico entusiasmava a nossa mocidade. A concorrência, quer no cais dos Tainheiros quer nas embarcações que singravam a enseada, era numerosa e seleta, vibrando de emoção na fase final de cada páreo[5].

 Os remadores eram vistos pela população de Salvador como mensageiros de uma nova ideia de saúde, representantes da melhor espécie de “forma” e compleição física, homens que inspiravam a juventude a se portar de maneira digna e respeitosa. Os seus corpos eram exaltados por sua aparência robusta, viril, simbolizando uma melhor condição orgânica, um aparente destemor e vigor diante dos desafios.

A compreensão de que o remo era para a sociedade soteropolitana, especialmente para sua juventude, um meio de formação corporal saudável, associava-se às expectativas de progresso. Ao remo se atribuía a capacidade de bem desenvolver, além do aspecto físico, os valores morais, a disciplina e uma pretensa rigidez.

 Essa perspectiva de apresentar o remo como um agente de desenvolvimento dialogava com o que se esperava da cidade e do estado, uma formação que superasse seus limites, suas deficiências. A boa imagem do remador, com sua valorizada capacidade física, era também uma forma de expressar o que a cidade de Salvador deveria ser: ou seja, forte, pujante, ágil e veloz. Se o competidor superasse suas dificuldades pela prática, pelo treinamento, a cidade conseguiria o mesmo por meio de sua organização social, político-econômica e urbana.

Na trajetória do remo, mantiveram-se os quatro clubes de origem[6], tendo ainda o Esporte Clube Bahia[7] participado de algumas regatas. Da mesma forma, a Federação de Clubes de Regatas da Bahia, fundada em 29 de junho de 1904 foi a entidade inicialmente montada, que se firmou como a organizadora do remo em Salvador. A constituição de clubes e federações também representa o valor atribuído ao esporte. As regatas se transformaram em eventos significativos e de peso maior que o esportivo, tornando-se um marco das novas relações sociais.

No remo, na Bahia, o ideal de organização se via numa pretensa seriedade dada ao esporte pelos clubes, já pensando em modelos e treinamento que visavam à melhoria das performances nas regatas, em adaptação ao calendário das provas. Este fato bem demonstra o valor atribuído a esta prática e a necessidade de dar a ela a melhor estruturação possível, mesmo que fosse a época algo ainda amador.

Podemos depreender que o remo foi uma atividade esportiva de valor e repercussão na sociedade baiana. A ele se atribuíam sentidos e significados que representavam o que se esperava de uma cidade que também queria se modernizar. Assim, desenvolver as atividades desta modalidade simbolizaria para a capital também se ver como moderna. Entretanto, mesmo assim, tal prática esportiva sofreu um período de amargura em suas atividades, sob influência direta das condições socioeconômicas e mais, sobre ele impactou o grande avanço do futebol, fazendo diminuir o interesse pelas regatas.

 

[1] Jornal da Bahia, Salvador, 25 de dezembro de 1874, p. 1.

[2] Jornal da Bahia, Salvador, 27 de dezembro de 1874, p. 2.

[3] Correio da Bahia, Salvador, 06 de fevereiro de 1874, p. 4.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 17 de maio de 1924, p. 9.

[5] Semana Sportiva, Salvador, 29 de abril de 1922, p. 8.

[6] São os mesmos que ainda competem na atualidade.

[7] Este é outro clube, que não existe mais, com o mesmo nome do atual, que foi fundado em 1931.


Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia

04/09/2016

Por Rafael Fortes

San Diego é uma das principais cidades de surfe do mundo (cidade de surfe sendo a tradução possível de surf city). A afirmação pode parecer, a princípio, exagerada.

Darei, então, alguns exemplos e informações para justificá-la. Antes, ressalto que tal exuberância de manifestações da cultura do surfe é observada também nos condados litorâneos californianos que se sucedem rumo ao norte, até Santa Barbara: Orange County, Los Angeles, Ventura e Santa Barbara. Neles estão dezenas de praias, picos ou cidades importantes na história do surfe, como Huntington Beach, Malibu, Rincon, Santa Monica e Venice. Os cinco condados entre San Diego (ao sul) e Santa Barbara (ao norte) são uma das caracterizações do que constitui o Sul da Califórnia (Southern California). A definição é imprecisa, mas a expressão é muito utilizada em todos os âmbitos, inclusive o acadêmico. Por exemplo, numa dissertação de mestrado defendida em 1992, Wallace Zane afirma que ficou impressionado com a quantidade de imagens do surfe usadas em anúncios de diferentes produtos na televisão canadense, e que “as representações de surfistas que se vê na mídia nacional são quase sempre aquelas dos surfistas sul-californianos” (p. 1). Grosso modo, esta região engloba praias, indústria, mídia (editoras de revistas de surfe, produtoras de filmes especializados de surfe, Hollywood), moda, campeonatos, ídolos, música e outros aspectos relevantes das representações construídas a respeito do surfe (e do skate) a partir da segunda metade do século XX.

Foi nesta região que morei entre setembro de 2015 e agosto de 2016, realizando um estágio pós-doutoral – com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – como pesquisador-visitante no Departamento de História da University of California, San Diego (UCSD).

San Diego

San Diego sediou dois dos seis campeonatos mundiais de surfe realizados entre 1964 e 1972. Antes da criação do circuito mundial profissional em 1976, eles eram a principal competição internacional da modalidade. Depois, continuaram sendo a mais importante no âmbito amador (Warshaw, 2003, p. 710-11).

A cidade conta com praias que atraem grande número de surfistas: Mission Beach, Ocean Beach, La Jolla Cove e La Jolla Shores, entre outras. A imensa quantidade de turistas na cidade (mais de 30 milhões por ano), vários deles dispostos a pagar por aulas para (tentar) surfar pela primeira vez, somada às milhares de pessoas de fora morando por alguns meses ou anos (militares, estudantes e pesquisadores), muitas das quais também dispostas a aprender a pegar onda, inviabilizam a possibilidade de localismo. Este fica restrito a certas praias ou pedaços, permitindo que vários trechos sejam um playground alegre para haolespregos e iniciantes.

O Condado de San Diego é um dos mais extensos dos Estados Unidos. Reúne uma quantidade ainda maior de praias, que se estendem desde Tijuana Sloughs, próxima à fronteira com o México, até San Onofre. No meio, algumas cidades com forte cultura praiana e presença do surfe: Imperial Beach, Coronado, Del Mar, Solana Beach, Encinitas, Carlsbad e Oceanside, além das praias na costa da base militar de Camp Pendleton (que incluem as famosas San Onofre e Trestles). Imperial Beach, por exemplo, tem um “Museu a Céu Aberto de Pranchas de Surfe”, com esculturas com as silhuetas de modelos de pranchas de diferentes décadas (imagens do folder de divulgação abaixo). Há também pranchas em exibição dentro de um prédio administrativo próximo ao pier local.

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San Diego é sede de empresas de surfwear, como a Reef Brazil, dos proprietários argentinos Fernando e Diego Aguerre. O primeiro é também presidente, desde 1994 (sim, também no surfe dirigentes ocupam cargos durante décadas), da Associação Internacional de Surfe, a federação internacional responsável pela modalidade – e que coordenou os esforços que resultaram na recente inclusão nos Jogos Olímpicos de 2020.

Na cidade há também empresas de skatewear e alguns importantes e tradicionais fabricantes de pranchas de surfe (e/ou skate), como Gordon & Smith.

ACA PCA 2017A força da associação com surfe também se mostra no âmbito acadêmico. À esquerda está a ilustração do anúncio do congresso das Associações de Cultura Popular e de Cultura Americana, que em 2017 ocorrerá em San Diego. Em primeiro plano encontra-se o item principal acionado para representar a cidade: uma prancha de surfe (no caso, de longboard). Ao fundo aparecem ícones locais como o museu porta-aviões e o Hotel del Coronado. A cor laranja é uma referência ao sol e ao céu, e as palmeiras… bom, estas são onipresentes no Sul da Califórnia.

Universidades, centros de documentação e bibliotecas

Sendo um elemento cultural, econômico, social e político relevante, estranho seria se o surfe não fosse objeto de pesquisa nas universidades locais. Ele é.

Na UCSD há investigações sobre o tema a partir de variadas perspectivas e áreas. Conheci dois físicos que desenvolviam pesquisas sobre as ondulações do mar com o objetivo de aprimorar a fabricação de piscinas de ondas, de maneira que as ondas artificiais imitem, o máximo possível, as da natureza. No primeiro semestre de 2015, a universidade anunciou a fabricação da primeira prancha produzida usando material secretado por algas em laboratório.

Em março de 2016, fotografei três de cerca de dez cartazes espalhados pela rua de pedestres que dá acesso à espetacular biblioteca central da universidade, a Geisel. Da esquerda para a direita, se lê nas imagens abaixo:

– 4a. melhor universidade pública dos EUA

– Top 15 no mundo em impacto científico

– Campus número 1 do país para surfar

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Ou seja, além de objeto de pesquisa, no caso da UCSD, situada em La Jolla, o surfe é também um mecanismo de atração de estudantes.

Na San Diego State University (SDSU), o setor de Coleções Especiais e Arquivo Universitário (SCUA, na sigla em inglês) mantém acervos relacionados a temas específicos, como movimentos religiosos alternativos, história em quadrinhos, estudos judaicos e surfe. Segundo me informaram os funcionários, uma volumosa doação espontânea incentivou o SCUA a instituir uma coleção dedicada ao surfe. Desde então, o setor recebeu outras doações, como uma recente (2015) com centenas de periódicos de Kurt Ledterman, morador de San Diego e ex-editor da revista Surfer. Como é comum nos EUA, após o falecimento do dono da coleção, um membro da família procurou uma universidade cuja biblioteca pudesse ter interesse pelo material e fez a doação. Durante os meses que passei pesquisando o acervo de surfe do SCUA, vi algumas dezenas de pessoas aparecerem para doarem itens, especialmente para as coleções de ficção científica, fanzines e história em quadrinhos – em alguns casos, elas já sabem que instituição procurar, pois conhecem as coleções/especialidades de cada uma. Além disso, o SCUA tem orçamento para aquisição de obras raras – há uma política ativa de compras, além do recebimento de doações. Afinal, uma das funções da biblioteca é funcionar como um centro de pesquisa e documentação, o que pressupõe a constituição, manutenção e ampliação de acervos.

A coleção de surfe tem diversos materiais, como fotos, pôsteres, cartões postais, livros, revistas e manuscritos. Entre as revistas, meu objeto principal de pesquisa, há dezenas de títulos de vários países, incluindo do Brasil.

A SDSU conta também com um Centro para a Pesquisa do Surfe, coordenado por um professor da Escola de Turismo e Hospitalidade. Ainda nas Humanidades, em abril deste ano, por exemplo, foi defendida uma dissertação de mestrado em História intitulada The Girls Who Surf: Women in Surfer Magazine, 1963-1976 [As garotas que surfam: mulheres na revista Surfer (1963-1976)], de Jasmine Tocki.

As bibliotecas das universidades são integradas numa base chamada Circuit. Nela é possível consultar os acervos e, mediante login e senha (os mesmos da sua universidade de origem), solicitar o empréstimo das Livros 3 bibliotecasobras. Ao fazer a reserva, o usuário escolhe em qual biblioteca de sua universidade irá buscá-los (no meu caso, havia três opções). Em uma das ocasiões, fiz a reserva num domingo, e na terça-feira os livros (foto à esquerda) – um da University of San Diego e outro da SDSU já estavam à minha espera na estante do balcão principal. Feito o empréstimo, tive um prazo de devolução de um mês – sim, 30 dias para devolver obras de bibliotecas de universidades diferentes daquela a que estava vinculado. O prazo da biblioteca da UCSD é de um ano e, como pesquisador visitante, eu podia ter até 200 livros emprestados simultaneamente.

Nos acervos encontrei muitos títulos relativos ao surfe: na maioria, obras acadêmicas. Mas também obras sobre o passado e/ou memorialísticas de jornalistas e/ou surfistas, livros de arte (fotografia, música, artes visuais) e guias.

A esta estrutura se soma a da Biblioteca Pública de San Diego (SDPL), com dezenas de filiais espalhadas pelos bairros. O sistema de bibliotecas públicas conta com outro grande acervo relativo ao surfe, tanto de itens que qualquer usuário cadastrado pode pegar emprestados e levar para casa, como filmes em DVD, CDs de música e livros, quanto de fontes para pesquisa na monumental biblioteca central, no Centro. Durante os quase doze meses que passei lá, com a conveniência de uma filial de bairro a duas quadras de casa, consegui ver dezenas de filmes em DVD, boa parte deles relacionados ao surfe.

Tal como nas universidades, a busca e reserva pode ser feita pela internet, as obras disponíveis em qualquer unidade do sistema são transportadas até a unidade de escolha do usuário. Este recebe um email informando que o item está disponível para retirada e pode fazer sozinho o check-out dos livros, usando um cartão com código de barras. A obras podem ser devolvidas em qualquer filial ou depositadas em totens do lado de fora (ou seja, para devolução não é preciso comparecer à biblioteca durante o horário de funcionamento). Dá para renovar os itens pela internet ou telefone, e o sistema envia um email de aviso quando o prazo está para vencer.

Em tempo: meu cadastro era no sistema da cidade. Existe o do condado de San Diego, que conta com outras dezenas de bibliotecas. E existem ainda os sistemas de outros condados e cidades do Sul da Califórnia, que contam com unidades com revistas de surfe entre as dezenas de títulos que assinam e disponibilizam para consulta, leitura, estudo, trabalho e prazer dos usuários.

Museus

O litoral da Califórnia é sede de cinco museus de surfe: California Surf Museum (Oceanside), Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente), International Surfing Museum (Huntington Beach), Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz) e Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara). A maioria cobra entrada para visitação, geralmente US$ 5. Os dois últimos praticamente se limitam à exposição de pranchas, fotografias e outros itens. Os três primeiros contam também com acervos de periódicos, fotografias e outros documentos, que são disponibilizados para consulta de pesquisadores.

No que diz respeito ao acervo de revistas, um bastante completo é o do California Surf Museum, que conta com uma equipe muito prestativa e uma sala de pequisa confortável. Já no SHACC, a pesquisa é limitada aos sócios – o acervo de lá parece ser bem bacana, também.

Os museus de surfe serão tema de texto específico que publicarei posteriormente neste blogue.

Além de museus específicos, o status do surfe no Sul da Califórnia inclui a presença de pranchas e a realização de exibições e mostras em outros espaços dedicados à arte. O Mingei International Museum, em San Diego, voltado para artesanato e cultura popular, realizou uma exposição de pranchas de surfe que ocupou todo o primeiro andar do prédio entre junho de 2014 e janeiro de 2015. Uma das ênfases do livro resultante da exposição é destacar o papel de shapers de San Diego no desenvolvimento de novos desenhos, tipos e materiais de pranchas (KEVIN, 2014).

 

Referências bibliográficas

KENVIN, Richard. Surf Craft: Design and the Culture of Board Riding. San Diego/Cambridge: Mingei International Museum/MIT Press, 2014.

WARSHAW, Matt. Encyclopedia of Surfing. Orlando: Harcourt, 2003. (Há verbetes disponíveis em: http://encyclopediaofsurfing.com/)

ZANE, Wallace W. Surfers of Southern California: Structures of Identity. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – McGill University, Montreal, 1992.


Jogando cricket no Recife

28/08/2016

por Victor Andrade de Melo

Um dos esportes menos estudados no Brasil é o cricket. Para alguns, seria até mesmo surpresa saber que, ainda que nunca muito popular, em algumas cidades e momentos de nossa história o típico jogo britânico chegou a ser apreciado, especialmente naquelas localidades onde os oriundos do Reino Unido se estabeleceram, como no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife.

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Jornal do Comércio (Rio de Janeiro), 14 ago. 1854, p. 2

Jornal do Comércio (Rio de Janeiro), 14 ago. 1854, p. 2

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Recife foi uma das cidades na qual os britânicos desempenharam um papel relevante. Estabelecidos às margens do Rio Capibaribe, fundaram suas instituições próprias, como o Cemitério dos Ingleses, o British Hospital, a Holy Trinity Church. Em 1859, estiveram entre os fundadores do Jockey Club.

É possível que a essa altura os britânicos já disputassem alguns jogos informais de críquete. Todavia, a primeira evidência que até o momento conseguimos de uma iniciativa mais estruturada é de 1865, um anúncio publicado no Jornal do Recife.

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Jornal do Recife, 31 jul. 1865, p. 3

Jornal do Recife, 31 jul. 1865, p. 3

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O Excelsior Cricket Club já fora criado anteriormente, provavelmente nessa primeira metade dos anos 1860. Na ocasião, já existia outra agremiação da modalidade na cidade, o Pernambuco Cricket Club. Durante anos, a rivalidade entre as duas sociedades movimentou a cena do críquete em Recife.

Os jogos eram realizados em dois grounds. A Fábrica de Cerveja de Henrique Leiden se tornou o espaço de reunião dos associados do Excelsior Cricket Club. Já o Pernambuco Cricket jogava em Santo Amaro. Nesses espaços eram realizadas as partidas entre os sócios e os desafios entre as agremiações, organizadas em um calendário anual e respeitando certos dias estabelecidos, a exemplo do que era comum no Reino Unido. Além disso, outras atividades atléticas eram promovidas, como se pode ver no anúncio abaixo.

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Jornal do Recife, 24 dez. 1869, p. 3.

Jornal do Recife, 24 dez. 1869, p. 3.

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Esses foram as primeiras experiências das muitas que houve até a década de 1920, quando a prática da modalidade começou a se reduzir tanto em função do crescimento de outros esportes (especialmente o futebol, com o qual os britânicos também se envolveram) quanto devido ao fato de que os oriundos do Reino Unido (e seus descendentes) começaram a reduzir sua presença na capital pernambucana.

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Mulheres jogando críquete no British Club. Cartão postal. C. 1905. Disponível em: <http://www.fotolog.com/tc2/12365715/

Mulheres jogando críquete no British Club. Cartão postal. C. 1905. Disponível em: <http://www.fotolog.com/tc2/12365715/

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Futebol e narcotráfico: uma releitura do caso de Pablo Escobar na Colômbia

22/08/2016

por Eduardo de Souza Gomes

Em tempos de Jogos Olímpicos, peço licença nesse texto para abordar de forma mais específica o futebol colombiano. Desde a Copa do Mundo ocorrida em 2014 no Brasil, onde a seleção colombiana alcançou as quartas de final (seu melhor desempenho na história da competição até o presente momento), o futebol do país tem tido grande destaque no cenário sul-americano e mundial.

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Colombianos comemorando um gol na Copa do Mundo de 2014. Foto: Reprodução.

Colombianos comemorando um gol na Copa do Mundo de 2014. Foto: Reprodução.

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Muito desse sucesso se deve ao clube Atlético Nacional, da cidade de Medellín. Nos últimos anos, o clube se tornou o maior campeão nacional do país, vencendo quatro dos últimos sete campeonatos colombianos. Além disso, expandiu suas fronteiras e alcançou duas finais continentais, tendo sido vice-campeão da Copa Sul-Americana em 2014 e campeão da Copa Libertadores da América em 2016.

O sucesso continental do Nacional de Medellín, ao conquistar a mais importante competição da América do Sul em julho de 2016, além de colocar novamente em evidência o futebol colombiano no continente em que está inserido, fez também com que fosse resgatada a memória do primeiro título da competição conquistada pela equipe, no ano de 1989.

Essa primeira conquista é, até hoje, muito contestada pelos torcedores rivais do Nacional, por um motivo simples: a provável influência do narcotraficante Pablo Escobar no desenvolvimento do futebol no clube, o que de acordo com os rivais é uma mancha que desvaloriza essa primeira conquista continental da equipe.

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Atletas do Nacional de Medellín comemoram a conquista da Copa Libertadores da América 2016. Fonte: www.conmebol.com

Atletas do Nacional de Medellín comemoram a conquista da Copa Libertadores da América 2016.
Fonte: http://www.conmebol.com

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Nesse texto buscaremos problematizar as possíveis relações existentes entre Pablo Escobar e o futebol na Colômbia. Não tendo até o momento realizado pesquisas mais profundas sobre esse período do futebol colombiano, me proponho mais a levantar questões acerca de trabalhos, sejam jornalísticos ou acadêmicos, já realizados, do que concretizar alguma hipótese baseada em investigação empírica.

Diversos indícios dos anos 1970 e 1980, apontam para a influência de diferentes cartéis de drogas em clubes de futebol na Colômbia. Como exemplo, podemos citar a relação dos irmãos Orejuela com o America de Cali e de Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano”, com o Millonarios de Bogotá. Todavia, opto nesse texto por problematizar especificamente a relação existente entre Pablo Escobar e os clubes de Medellín, principalmente o Atlético Nacional. Entendo que, apesar de não desconsiderar as influências que o famoso narcotraficante exerceu no mundo do futebol, essa relação deve ser relativizada. Principalmente se analisarmos algumas das teorias jornalistas já desenvolvidas sobre o fato, onde em muitos momentos, é afirmado que o sucesso do Nacional de Medellín nos anos 1980, e por consequência do futebol colombiano, se deu exclusivamente pela grande influência exercida pelo famoso narcotraficante.

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Torcida do Millonarios chegou a levar para os estádios uma bandeira em homenagem a Gonzalo Gacha, “El Mexicano”. Fonte: www.doentesporfutebol.com.br

Torcida do Millonarios chegou a levar para os estádios uma bandeira em homenagem a Gonzalo Gacha, “El Mexicano”. Fonte: http://www.doentesporfutebol.com.br

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Essa teoria se justifica, claro, por possíveis evidencias que demonstram a influência de Escobar no futebol de Medellín. Como exemplo, podemos citar o assassinato do arbitro assistente Álvaro Ortega, em 1989. Em um confronto entre as equipes do America e do Independiente de Medellín, ocorrido na cidade de Cali, a equipe local venceu por 2×1, tendo sido um gol do Medellín anulado pelo assistente. Em novo confronto entre as equipes ocorrido em Medellín no mesmo ano, em que terminou com empate sem gols e também com atuação do assistente, Ortega foi assassinado após a partida. Para muitos, não existem dúvidas de que tal assassinato teria sido uma retaliação de Escobar pelo gol anulado anteriormente.

Porém, mesmo com fatos como esse e entendendo que o futebol se demonstrava como um importante campo da sociedade colombiana que se fez propicio para o investimento por parte dos narcotraficantes, de forma que servisse, entre outros fatores, para a lavagem de dinheiro ganho ilegalmente, sempre questionei a profundidade que Escobar teria tido nesse processo. Esse questionamento surge, como dito anteriormente, não por pesquisas próprias já concretizadas, mas sim por evidenciar uma falta de sustentação em trabalhos realizados sobre a temática.

O fato da sociedade colombiana, como já nos destacou Hobsbawm em seu livro Tempos Interessantes (2002), conviver com a violência de forma constante durante praticamente todo o século XX (e com mais força a partir dos anos 1940, com o período de La Violencia), faz com que esse aspecto seja naturalizado dentro da sociedade como um todo. Durante a década de 1980, não seria impossível relacionar o futebol aos narcotraficantes, dada a grande influência que esses possuíam em diferentes setores do país. Mas, no caso de Pablo Escobar, até onde teria ido essa influência no futebol?

O filho de Escobar, Juan Pablo Escobar, escreveu uma biografia sobre o pai, intitulada “Pablo Escobar: meu pai” e diminuiu a importância de sua participação no futebol. Além de afirmar que seu pai era um torcedor fanático do Independiente de Medellín, o que contraria o possível investimento para o maior rival local Nacional ser campeão continental, Juan Pablo Escobar destaca que a maior parte das histórias que relacionam seu pai ao futebol, inclusive as que tratam de assassinatos e compras de jogos, não passam de lendas. Em entrevista recente, afirmou que:

A figura do meu pai é utilizada para inventar quantidade de mentiras em torno de sua história, seu personagem. Diziam que ele havia comprado a Libertadores de Nacional de Medellín, em 1989. Os paraguaios (do Olimpia) sempre acreditaram que ele era torcedor do Nacional, porque queriam justificar sua derrota, colocando a responsabilidade em meu pai. Não tenho porque ocultar essas coisas. Meu pai é responsável direto por histórias muito mais graves, essa (influência) seria uma besteira, não é o caso. Nunca foi dono de nenhuma equipe. Era fanático, gostava, assistia às partidas, escutava pelo rádio, mas nunca foi dono de jogadores, nada disso. Os gols que erraram uns, os pênaltis que erraram outros, meu pai não tinha a mão tão larga para interceder nisso. Se apoiasse o Nacional seria como defender um rival. Nacional e Independiente é como Boca Juniors e River Plate. São da mesma cidade e são rivais de morte. Isso é uma incoerência. Creio que se fala nisso porque não aceitam as derrotas.

Claro que os usos da memória de Juan Pablo Escobar devem ser problematizados. Afinal, se acreditar em tudo que se fala sobre a relação de Pablo Escobar com o futebol pode ser um equívoco, ignorar sua participação nesse esporte poderia também, no mínimo, beirar a ingenuidade. Porém, o entendimento da participação de Escobar no mundo futebolístico colombiano deve ser feito com maior rigor e análise, de forma que possamos desconstruir certos mitos. É fato que são esses mitos, muitas das vezes, que dão vida ao esporte. Todavia, mesmo sem desconsiderar as tradições já inventadas sobre essa e outras temáticas, realizar uma análise que problematize com maior rigor, não só esse, mas qualquer fato histórico, se faz necessário. Isso, claro, não nos impede de pensar como os mitos e tradições se disseminaram e se refletiram socialmente em forma de identidades ou memória, sendo a percepção desse caminho um dos exercícios mais interessantes e fascinantes do cientista humano e social.

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Pablo Escobar dando o pontapé inicial em uma partida de futebol em Medellín. Foto: Reprodução.

Pablo Escobar dando o pontapé inicial em uma partida de futebol em Medellín. Foto: Reprodução.

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A relação do narcotráfico com outros clubes de futebol (algo que também precisa ser melhor investigado e problematizado, apesar de já ser mais evidenciado), como os já mencionados no início do texto, pode também ser um fator que leva muitas das vezes a naturalização das relações de Pablo Escobar com esse esporte. Afinal, se o narcotráfico se fez presente com força no futebol, seria natural que o maior narcotraficante também o fizesse. Clubes como o América de Cali, que chegou a vencer por cinco vezes seguidas o campeonato nacional de 1982 a 1986, e chegou a três finais consecutivas da Copa Libertadores da América entre 1985 e 1987 com um time caro e repleto de jogadores estrangeiros, despertaram os olhares para aqueles que já desconfiavam da relação existente entre o futebol e os narcotraficantes. Mas então podemos perguntar: será que somente a influência do narcotráfico determinou o sucesso dos clubes colombianos nesse período?

Se analisarmos a conquista do Nacional de Medellín em 1989, por exemplo, veremos que mais que o “dinheiro sujo” e os possíveis jogos comprados, existia uma grande equipe. Equipe essa que, diferente do rival America de Cali, era formada por grandes nomes colombianos do quilate de Higuita, Andres Escobar, Perea e Leonel Álvarez. Somado a grandes jogadores do país que atuavam em outros clubes, como Valderrama, Rincón, Valencia, Asprilla, Aristizábal, Valenciano, entre outros, se fez possível a formação de um selecionado nacional que conseguiu pela primeira vez levar a Colômbia para três Copas do Mundo seguidas entre 1990 e 1998. Em 1994, inclusive, a Colômbia havia sido inicialmente apontada como uma das favoritas para o título, depois de ter realizado uma ótima eliminatórias, onde venceram a Argentina por 5×0 em 1993, no estádio Monumental de Nuñez.

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Equipe do Nacional campeã da Libertadores em 1989. Foto: Reprodução.

Equipe do Nacional campeã da Libertadores em 1989. Foto: Reprodução.

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Ou seja, estamos falando da até então maior geração de jogadores colombianos na história do país, que fizeram com que esse esporte consolidasse uma identidade nacional na Colômbia, sem agora ter a necessidade de investir em atletas estrangeiros, como havia ocorrido anteriormente no período El Dorado, nos primórdios da profissionalização do futebol entre 1948 e 1954.

É óbvio que não devemos deixar de apurar se ocorreram, não só com o Nacional, mas também com outros clubes, manipulações de resultados e influências de narcotraficantes nos jogos das equipes. Punições já foram realizadas em casos semelhantes, sendo as mais famosas na Itália. A atual pentacampeã nacional Juventus, por exemplo, foi rebaixada para a segunda divisão em 2006, devido um esquema de manipulação de resultados que havia lhe rendido o bicampeonato italiano em 2005/06, conquistas essas que foram cassadas.

O que levanto nesse texto é que, mesmo com a influência do narcotráfico, a Colômbia teve de fato grandes nomes nesse período no futebol, que em muitas das vezes são ofuscados pelo momento negro em que o país estava inserido. E notadamente sobre o caso de Pablo Escobar, destaco que pesquisas mais profundas devem ainda ser realizadas, de forma que nos possibilite melhor compreender a relação existente entre um dos maiores narcotraficantes da história e o esporte mais popular do planeta.

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E o Rio de Janeiro já foi quase “olímpico”…

15/08/2016

Por Karina Cancella

Em 1922, o Brasil comemoraria o centenário de sua independência política de Portugal. Para celebrar esse momento, foi planejado um programa de festividades compreendendo uma Exposição Internacional do Centenário da Independência, que contaria com a presença de autoridades nacionais e internacionais e pavilhões monumentais para receber as 14 nações estrangeiras que aceitaram os convites (ARQUIVO NACIONAL, 2016), e Jogos Esportivos Internacionais. Focando nesse segundo evento, foram organizados os “Jogos Olímpicos Latino-Americanos” ou “Jogos Atléticos Sul Americanos” ou “Jogos do Centenário” (as três nomenclaturas foram utilizadas para designar o mesmo evento). As negociações e organizações em torno da realização do evento iniciaram-se com dois anos de antecedência, em 1920, antes mesmo da primeira participação do Brasil em Jogos Olímpicos, que ocorreria na edição daquele ano na Antuérpia.

Em 12 de maio de 1920, foi publicada no jornal carioca “O Imparcial” uma notícia sobre a chegada ao Brasil do enviado extraordinário do Comitê Olímpico Internacional (COI) e Diretor Atlético da Young Men’s Christian Association (YMCA) Sr. Elwood Brown, que foi responsável pela organização dos Jogos Interaliados de 1919 no Pershing Stadium em Paris, e seguia em viagem de divulgação do movimento olímpico pela América do Sul.[1]

Nessa visita, Brown realizou estudos sobre a possibilidade de se estabelecer no continente um comitê organizador dos “Jogos Atléticos Sul Americanos”, composto por um representante de cada país, e com função de realizar jogos continentais a cada dois anos. Esse comitê deveria ter a estrutura baseada na do COI. Propôs-se, então, que o primeiro evento nesse formato fossem os jogos previstos para serem realizados em 1922 no Rio de Janeiro, capital do Brasil naquele momento, como parte das comemorações do centenário da independência do País. A proposta era de que, com esse modelo organizacional, o esporte mundial passasse a ter o calendário estruturado da seguinte forma: campeonatos nacionais anuais, eventos continentais a cada dois anos e Jogos Olímpicos de quatro em quatro anos.[2] Às vésperas da participação do País nos Jogos da Antuérpia, a delegação brasileira recebeu a aprovação olímpica para a realização dos Jogos Latino-Americanos de 1922: “a comissão dos Jogos Olímpicos em reunião desta noite aprovou uma moção reconhecendo os Jogos Latino-americanos de 1922 como parte integrante do movimento olímpico… (Jornal do Brasil, 24 ago. 1920, p. 6)” (NETO-WACKER; WACKER, 2010, p. 153).

O evento, no entanto:

[…] embora obedecendo as condições dos Jogos Olímpicos, não terão absolutamente o caráter oficial de olimpíada. Esses jogos continentais efetuados de dois em dois anos, tomarão o caráter de preparatórios para as olimpíadas internacionais, levadas a efeito de quatro em quatro anos.[3]

A organização dos Jogos Esportivos ficou sob responsabilidade da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e conforme os acordos estabelecidos, a CBD receberia do governo federal um crédito de 300 contos de réis, em duas parcelas, para custear o processo de organização dos jogos. (SARMENTO, 2006). Para a realização das provas das competições previstas, era necessária a preparação de um espaço apropriado, um estádio com padrões internacionais. Sobre essa necessidade, o jornal “O Imparcial” informou, em abril de 1921, que seria concedido um terreno na Praia Vermelha ao Clube de Regatas Flamengo para construção de um espaço esportivo completamente novo para o recebimento das competições do centenário.[4] Dois meses depois, o mesmo periódico noticiou que, além do terreno, seria também concedido um empréstimo de mil contos de réis para as obras.[5]

Ao longo do ano de 1921, a imprensa carioca cobriu todo o processo de preparação do evento, e especificamente o jornal “O Imparcial” publicou diversas notícias sobre os “Jogos Atléticos Sul-Americanos de 1922”, destacando as formas de aquisição de materiais, as discussões sobre a construção dos novos espaços para realização das competições, ações realizadas pelos clubes esportivos em todo o país e seletivas para escolha dos representantes brasileiros no evento.[6]

No entanto, do ponto de vista dos observadores do Comitê Olímpico Internacional, as ações efetivas para a organização do evento estavam demorando mais do que eles esperavam. Por conta desse cenário, o COI enviou um representante ao Brasil para verificar a real viabilidade de realização dos Jogos em 1922. Após analisar a situação em que se encontrava o país, o Sr. Hopkins telegrafou ao COI informando ao Barão Pierre de Coubertin que o Brasil nada havia feito até aquele momento. Após o relato, foi dado um mês de prazo para que as ações de organização fossem efetivamente iniciadas ou o evento poderia ser transferido ou até mesmo cancelado (TORRES, 2012). Os jornais destacavam que:

[…] a incapacidade do Brasil em realizar os jogos se justificava primeiramente pelo fato de que o país atravessava uma grave crise econômica provocada por uma “crise do café, uma inflação em alta e, especialmente, uma crise fiscal” iniciada “na segunda metade de 1920” ainda durante o governo de Epitácio Pessoa, chegando “ao auge em 1922”. Apesar desse cenário econômico, o governo federal já direcionava parte de suas verbas para a Exposição do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro. (MORAES, 2009, p. 27).

Além da problemática da crise financeira pela qual o país atravessava, um ponto em específico fez com que as ações não avançassem conforme os planejamentos iniciais. O empréstimo de 300 contos de réis feito pelo Governo Federal à CBD para cobrir as despesas do evento não estavam mais disponíveis no caixa da entidade. No início de 1922, uma nova diretoria assumiu a Confederação e identificou a ausência do valor para dar seguimento aos procedimentos de organização dos Jogos. (MORAES, 2009).

Essas polêmicas e problemas no processo de organização do evento fizeram com que o COI considerasse a retirada do reconhecimento ao evento. Por intervenção de Elwood Brown, que via o fracasso desse projeto como um possível problema nas relações com o COI, o Comitê reconsiderou e decidiu dar mais tempo ao Brasil para que as questões fossem resolvidas. A YMCA no país acompanhou de perto todo o processo de organização e chegou a elaborar um plano de contingência que previa a realização dos Jogos Latino-Americanos em Montevidéu, Uruguai, em 1923, caso o Brasil não conseguisse cumprir os prazos. (TORRES, 2012).

Para a resolução dessa complexa situação, algumas sugestões foram apresentadas para que não se perdesse a oportunidade de realização do evento com chancela do COI. Levantou-se incialmente a possibilidade de transferência do evento para a cidade de São Paulo. Como segunda opção, foi considerado entregar a organização nas mãos do Fluminense Football Club, que assumiria a responsabilidade de gerir as verbas públicas destinadas à organização dos Jogos. Como terceira opção, um empréstimo poderia ser contraído pela CBD junto ao Banco do Brasil para ampliação das arquibancadas da Rua da Guanabara e modificações no campo do Flamengo a fim de receber as provas de atletismo e futebol. Após meses e:

[…] uma longa série de acusações entre CBD e o governo federal, os jornais noticiavam o resultado das conversações que se seguiram durante todo o primeiro trimestre de 1922. O governo abriria um crédito de 1.3000:000$ para serem aplicados nos jogos, transporte e hospedagem dos atletas, sendo essa quantia restituída com as rendas provenientes dos jogos e “[…] o saldo que porventura for apurado, pertencerá a Confederação, a qual também ficará de posse dos materiaes adquiridos para a execução dos festejos sportivos”. O governo se responsabilizaria também pela impressão dos programas e regulamentos, e pela cunhagem das medalhas. Com as verbas, o projeto do Centenário foi posto em prática. (MORAES, 2009, p. 28-29).

Com o novo empréstimo contraído, finalmente a organização do evento seria iniciada. Para evitar novos problemas dessa natureza, os representantes da YMCA no país passaram a dialogar diretamente com o governo da cidade por considerar a nova direção da CBD inexperiente e desorganizada. O então prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio, garantiu o apoio do governo federal e assegurou aos membros da YMCA e do COI que todos os esforços seriam empreendidos para que os Jogos fossem realizados com sucesso e também manter o reconhecimento do COI ao evento. Para isso, foi então designada uma nova comissão organizadora, sob presidência do Coronel do Exército Estellita Werner, e dando ao Fluminense maiores poderes na organização das competições. (TORRES, 2012).

A ideia de construção de um novo estádio foi então abandonada e optou-se pela realização de melhorias no estádio que já havia construído na cidade, o do Fluminense Football Club, que havia recebido os jogos do Campeonato Sul-Americano de Futebol em 1919. (CANCELLA, 2014).

As bases de organização dos Jogos do Centenário foram definidas pela CBD e publicadas na revista “Ilustração Brasileira” em março de 1922.[7] Os critérios para participação nos jogos determinavam que os esportistas deveriam ser “súditos” de países da América Latina e destacava a obrigatoriedade de serem considerados amadores de acordo com os regulamentos internacionais de cada esporte. A condição deveria ser reconhecida pela federação nacional do Brasil e pelas federações de cada país que enviasse concorrentes e os participantes poderiam ser latino-americanos por nascimento ou naturalizados.

O programa foi composto por um amplo quadro de modalidades atléticas e aquáticas, com locais de competição em diferentes regiões da cidade, envolvendo espaços públicos, privados (clubes) e das Forças Armadas. (CANCELLA, 2014).

Os Jogos foram abertos em 13 de setembro de 1922, com uma grande “parada desportiva”, aos moldes da parada militar realizada no dia 07 de setembro.[8] No evento de abertura, esportistas civis e militares desfilaram lado a lado nas delegações dos países participantes: Argentina, Chile, México, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Estados Unidos da América, Grã-Bretanha, Japão, Portugal e Brasil. (TORRES, 2012). Estiveram também presentes nos Jogos três representantes do COI: Sr. Elwood Brown, Sr. Jess Hopkins e o Conde Baillet-Latour, representando o Barão de Coubertin que não pode comparecer.[9]

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Fotografias da parada desportiva do Centenário ocupando página inteira da Revista da Semana. Fonte: Revista da Semana 23 de setembro de 1922, p. 28.

A presença de países de fora da América Latina desfilando na abertura do evento pode causar certa estranheza. No entanto, esse episódio ocorreu porque as Forças Armadas atuaram em conjunto com a CBD no processo de organização do eventos por meio de suas ligas esportivas e com representantes em cargos de gestão na comissão organizadora. Por conta dessa aproximação, foram idealizadas competições especificamente para as delegações militares que estariam presentes nas comemorações para serem realizadas em paralelo aos eventos esportivos principais, sendo elas da América Latina ou não. As provas passaram a ser divulgadas na imprensa como “latino-americanas”, “militares” ou “navais”, mas muitas vezes a divulgação dos resultados se confundia e a distinção entre os eventos se tornava complexa.

Além das competições militares, fazia também parte do programa dos Jogos do Centenário o VI Campeonato Sul-Americano de Futebol, com participação de Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Brasil. A competição enfrentou graves problemas com relação à organização e arbitragem, o que levou o Uruguai a abandonar o campeonato. Ao final, o Brasil sagrou-se campeão, vencendo o Paraguai. (MALAIA, 2011; MORAES, 2009).

O processo de organização dos Jogos de uma maneira geral foi bastante conturbado. A realização das competições também enfrentou alguns problemas sérios, especialmente com relação à organização e arbitragem não somente no futebol mas em diversas modalidades, como remo, atletismo e esgrima. Delegações inteiras e atletas individualmente se recusaram a competir ou se retiraram das competições por conta desses problemas. Como exemplo, todos os resultados das provas de atletismo não obtiveram reconhecimento oficial da Confederação Sul-Americana de Atletismo por conta de problemas na realização das provas e erros de arbitragem. A decisão foi tomada na reunião de 1924 da entidade e os resultados e recordes não foram homologados. (TORRES, 2012). Essa decisão resultou na desfiliação da CBD, que somente retornaria a fazer parte da Confederação sul-americana na década de 30. Os resultados de 1922 somente foram revalidados pela Confederação Sul-Americana de Atletismo no ano de 2012, 90 anos após a realização do evento. (IG ESPORTE, 2012).

Os Jogos do Centenário, de acordo com os relatos recolhidos na imprensa da época, conseguiu uma importante mobilização da população carioca. Além dos eventos esportivos, os pavilhões da Exposição Internacional também apresentavam grande atrativo, com público expressivo durante toda a sua realização. No “Atlas do Esporte no Brasil”, há o seguinte dado sobre o evento:

O número de espectadores dos Jogos, ainda segundo a ACM, chegou a 162.000 pessoas, quantitativo expressivo para a época, pois a assistência representou cerca de 15% da população da cidade, montante jamais atingido posteriormente. Em suma, os Jogos de 1922 no Rio de Janeiro consistiram num megaevento esportivo considerando os meios mobilizados e a participação da população local, embora não tenham sido reconhecidos até recentemente como tal. (SILVA, 2006, p. 17).

Cerca de um ano após a realização dos Jogos de 1922, o Conde de Baillet-Latour, membro do COI, relatou o seguinte:

Os Jogos do Rio, como um todo, não foram perfeitos, mas as críticas das quais têm sido objeto foram muito exageradas… Eles foram um espelho que reflete exatamente a situação dos esportes dos países que participaram, e as causas de sua imperfeição são originárias de defeitos que afligiram as autoridades e atletas em geral na América Latina… (NETO-WACKER; WACKER, 2010, p. 158-159).

A realização desses eventos tinha como um dos objetivos a afirmação de uma imagem internacional do Brasil como país organizado e moderno. No entanto, devido aos grandes problemas envolvendo desvios de verbas, atrasos nas obras, arbitragens parciais e falta de organização esse projeto inicial de projeção de uma imagem internacional positiva não se manifestou como esperado. Já a mobilização da população em torno de um sentimento nacional teve seu relativo sucesso. A grande participação de espectadores na Exposição Nacional e nos Jogos Esportivos é um dado a ser observado nesse sentido.

O Brasil e o Rio de Janeiro, então, receberam um evento “quase” olímpico em 1922. Sem ser considerado um evento olímpico em si pelas exigências do COI, os Jogos do Centenário foram reconhecidos como parte integrante do movimento olímpico e um instrumento importante na divulgação dos ideais do COI na América Latina em um período de expansão da influência do Comitê pelo mundo.

Referências:

ARQUIVO NACIONAL. A Exposição de 1922: Memória e Civilização. Exposições Virtuais do Arquivo Nacional. Disponível em: <http://www.exposicoesvirtuais.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=257&gt;. Acesso em: 05 mai. 2016.

CANCELLA, K. O esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

IG ESPORTE. Confederação revalida Jogos Olímpicos Latino-americanos de 1922. Publicada em 22 set. 2012. Disponível em: <http://esporte.ig.com.br/maisesportes/2012-09-22/confederacao-revalida-jogos-olimpicos-latino-americanos-de-1922.html&gt;. Acesso em: 10 mai. 2016.

MALAIA, J. A Diplomacia do pé: o Brasil e as competições esportivas sul-americanas de 1919 e 1922. Tempo e Argumento, v. 3, n. 2, p. 43-76, jul. – dez. 2011.

MORAES, H. Jogadas Insólitas: Amadorismo e Processo de Profissionalização no Futebol Carioca (1922-1924). 2009. 163 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.

NETO-WACKER, M.; WACKER, C. Brazil goes Olympic: Historical Fragments from Brazil and the Olympic Movement until 1936. Kassel: Agon-Sportverlag, 2010.

SARMENTO, C. A regra do jogo: uma história institucional da CBF. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006.

SILVA, J. Gestão da Segurança em Megaeventos Esportivos. In: DaCosta, Lamartine (Org.). Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006, p. 17-20.

TORRES, C. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012.

[1] O Imparcial, 12 de maio de 1920, p. 8.

[2] O Imparcial, 26 de maio de 1920, p. 7.

[3] O Imparcial, 26 de maio de 1920, p. 7.

[4] O Imparcial, 06 de abril de 1921, p. 12.

[5] O Imparcial, 30 de junho de 1921, p. 8.

[6] O Imparcial 30 de março de 1921, p. 9; O Imparcial 31 de março de 1921, p. 9-11; O Imparcial 06 de abril de 1921, p. 9, 12; O Imparcial 07 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 09 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 12 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 15 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de abril de 1921, p. 8; O Imparcial 22 de abril de 1921, p. 8; O Imparcial 23 de abril de 1921, p. 11; O Imparcial 24 de abril de 1921, p. 10; O Imparcial 26 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 27 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 30 de abril de 1921, p. 7; O Imparcial 01 de maio de 1921, p. 8; O Imparcial 05 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 07 de maio de 1921, p. 11; O Imparcial 14 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 22 de maio de 1921, p. 11; O Imparcial 02 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 03 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 06 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 11 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 13 de junho de 1921, p. 10; O Imparcial 16 de junho de 1921, p. 10; O Imparcial 17 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 18 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 25 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 30 de junho de 1921, p. 8; O Imparcial 05 de julho de 1921, p. 10; O Imparcial 06 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 08 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 11 de setembro de 1921, p. 8-9.

[7] Ilustração Brasileira, março de 1922, p. 72-74.

[8] Revista Fon Fon 23 de setembro de 1922; Revista da Semana 23 de setembro de 1922.

[9] O Imparcial, 03 de setembro de 1922, p. 8.