Ah! A Copa no Brasil!

01/03/2021

Resenha de The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil [i]

(Por Jorge Knijnik, Balgowlah Heights, Australia, Fair Play Publishing, 2018, 164 pp. (paperback), ISBN: 978-0-6481333-1-5)

por Tiago Fernandes Maranhão [ii]

Jorge Knijnik escreveu uma compilação interessante de crônicas analíticas sobre a Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil. A capa de The World Cup Chronicles mostra uma jovem negra controlando uma bola de futebol no ombro e tendo uma favela brasileira ao fundo. Prepara o público leitor para as contradições enfrentadas pelo país-sede daquele megaevento esportivo. O livro tem 28 crônicas e é dividido em três partes, oferecendo uma perspectiva histórica importante sobre as confluências de ‘imaginar, viver’ e compreender o ‘legado’ da Copa do Mundo de 2014. As crônicas de Knijnik percorrem um território familiar, mas trazem intencionalmente o que os estudiosos da história e das ciências sociais apontam como aspectos interdisciplinares de segregação, preconceito e participação cidadã. O livro é particularmente bom em cruzar os aspectos políticos da abordagem branqueadora e elitista do mais famoso campeonato internacional masculino quadrienal com a exclusão social e racial que permeia a sociedade brasileira.

O interesse provocador na análise das crônicas é notável. Não só na forma, mas também no conteúdo, reafirmando a qualidade indiscutível do livro. Knijnik faz um trabalho admirável ao analisar o quadro geral. O compromisso do autor com a coragem de não ser monótono não perde de vista nossas preocupações diárias com os grupos sub-representados, vulneráveis ​​e marginalizados. Um bom exemplo é a forma como Knijnik nos aproxima do caminho da realidade sem negar suas muitas contradições e complexidades. Por isso, a palavra trilha é apropriada, pois nos lembra dos perigos e incertezas ao analisar os fatos sociais. The World Cup Chronicles vislumbram um megaevento que segue esse caminho mais amplo de polêmicas que costuma ser uma realidade no esporte, analisando os aspectos que transformaram figuras como Pelé e Ronaldo ‘de orgulho nacional em anti-heróis’ (p. 28); bem como o tratamento conflituoso e oposto em favor da superestrela do futebol Marta, ou canalizado contra a presidente Dilma em uma sociedade ainda machista (p. 113; p. 142).

Outro ponto positivo deste livro é a análise de Knijnik – que permeia a primeira e a segunda partes do livro – de como o governo brasileiro vendeu a ideia de que os grandes eventos, especificamente a Copa do Mundo, seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar à comunidade internacional que O Brasil estava preparado para ser a próxima superpotência mundial. The World Cup Chronicles mostram que a proposta megalomaníaca de construir ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 foi justificada pelo interesse da FIFA, de políticos brasileiros e de empreiteiros que buscavam lucrar com a corrupção de projetos de construção caros. Knijnik descreve como os interesses políticos e financeiros ditaram os termos diante das reivindicações da população brasileira por melhores condições de vida e justiça social. Os manifestantes se tornaram, nas palavras de Knijnik, ‘uma consciência coletiva’ inundando as ruas brasileiras como uma demonstração pública de desaprovação aos bilhões de dólares gastos em um torneio que forçou milhares de ‘brasileiros vulneráveis ​​a se mudarem de suas casas em nome dessa festa gigantesca’. p. 72)

Apesar do desastroso 7 x 1 na semifinal da competição, Knijnik destaca que houve “consequências muito piores” que os brasileiros tiveram de enfrentar após a Copa (p. 61). O Brasil está agora em uma situação econômica pior, experimentando o caos político e ainda está pagando pelos ‘elefantes brancos’ que o país construiu, como resultado do desperdício de dinheiro público e da ineficiência dos projetos de infraestrutura (p. 138). Knijnik fornece na terceira parte de seu livro um manancial de informações sobre como o Brasil convive com ‘o legado’ da Copa de 2014, ainda investigando a corrupção que favoreceu quem soube manipular o futebol como paixão nacional e capitalizar os laços sentimentais que uniam  a população brasileira a sua seleção. O grande destaque que The World Cup Chronicles traz é a reação popular contra a ilusão de que grandes eventos esportivos tentam vender e contra a manipulação do mito do ‘país do futebol’.

Knijnik nos guia pelas trilhas da complexa realidade social brasileira e sua intrincada relação com o futebol. A riqueza temática e a distribuição dos temas abordados no livro acompanham o prazer de comunicar o conhecimento. É evidente a preocupação do autor em aprofundar as mudanças e permanências da relação política e social que os brasileiros historicamente têm com o futebol. The World Cup Chronicles mostram a complexidade efetiva de um evento esportivo histórico e suas múltiplas possibilidades investigativas. A relação completamente entrelaçada entre o mundo dos negócios esportivos, a política, cultura e relações de poder – políticas ou simbólicas – está no cerne da narrativa de The World Cup Chronicles. As trilhas traçadas no livro explicam claramente a complexidade das lutas, das disputas e da vida lúdica dos torcedores durante a Copa, coexistindo com a morte de certos mitos fundadores do futebol brasileiro. A narrativa de Knijnik também traz, para um público mais amplo, o submundo frequentemente negligenciado da vida cotidiana brasileira, nos lembrando que os tempos históricos não são separados.

A extensa variedade de temas propostos por The World Cup Chronicles pode servir de ponto de partida para quem deseja desenvolver outras análises sobre os aspectos políticos, sociais e culturais do futebol no Brasil. Acessível, pesquisado e perspicaz, The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil mostra claramente a existência de diferentes formas de pensar e sentir sobre a Copa do Mundo de 2014, que negam a visão romântica de uma sociedade brasileira homogênea na forma de viver o evento. As Crônicas da Copa finalmente dão voz, com equilíbrio, à multiplicidade de visões e formas pelas quais esporte, política e cidadania se cruzam em um período de turbulência no Brasil. Apesar de olhar para o presente da Copa do Mundo de 2014, Knijnik mostra, de forma alegre e divertida, as dificuldades e conexões do passado político e social do futebol.


[i] Este texto foi publicado originalmente por Tiago Fernandes Maranhão (2021) no The International Journal of the History of Sport, DOI: 10.1080/09523367.2020.1867988

[ii] Tougaloo College, Jackson, MS maranhaotj@hotmail.com


Os esportes em Salvador e seus espaços

08/02/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

 Cada modalidade requer, a partir de seu ordenamento legal, um conjunto de exigências em relação ao espaço e suas características, que são constituídas em função das especificidades da prática de cada esporte. Isto também deve ser pensado em associação aos usos pensados para a atividade esportiva em si e ao que se quer do local das ações, em associação as dinâmicas mais gerais de políticas urbanas, ou seja, pensar o espaço esportivo implica também pensar a cidade.

Pensar a prática esportiva implica ter de levar em conta a questão dos espaços para a vivência destas atividades, seus usos, sua localização na cidade, seus modos de construção. Enfim, ao analisar o esporte e sua história, somos levados a também tentar entender a questão de seus locais específicos de vivência.

 A Bahia e mais especificamente Salvador viu a experiência esportiva se instalar a partir de fins do século XIX, quando a cidade assistiu aos primórdios das vivências com os esportes acontecerem. A partir do início do século XX estas ações ganharam mais robustez e se alargaram, com a cidade vendo mais modalidades ocuparem a cena urbana.

Neste sentido, a partir dessa dinamização da prática dos esportes na cidade, podemos pensar que também se viu espaços específicos surgirem, para facilitar as vivências das pessoas interessadas, todavia, tal fato não se deu, ao menos, de forma estruturada, com ações públicas e associadas ao que se pensava para a capital baiana em seu ordenamento urbano.

 Já vimos também que em Salvador as iniciais experiências esportivas acontecerem e ganharam volume num tempo em que a cidade vivia, mais uma vez, seu desejo de buscar ares modernos, de operar reformas urbanas, em seus espaços públicos e também em seus costumes, onde os olhares se voltavam, como modelo, para países e cidades que já haviam orquestrado essas reformas e tinham nestas, pensado os esportes e aí, há de se imaginar que Salvador poderia fazer do mesmo jeito, mas não, a cidade não se pensou esportivamente, mesmo que estes já estivessem se dando na cena urbana da cidade.

 Quando olhamos para os primórdios esportivos da cidade encontramos essas realidades, que eram: a ausência de espaços públicos próprios a cada modalidade; a construção de espaços esportivos privados e o uso efetivos de locais da cidade, adaptados, para as vivências e isto, falando aqui das cenas com o críquete, o turfe, o remo, o futebol, a patinação, o tênis, o atletismo e o ciclismo. Cada uma destas modalidades experimentou uma relação diversa com os espaços de prática e seus usos na cidade.

 Ao longo de sua instituição, em Salvador, cada uma destas modalidades viveu situações diferentes em relação ao espaços e seus usos, indo dos comuns da cidade, adaptados, ao uso de locais privados para suas vivências. Também em relação aos locais de prática e a relação com a cidade e sua população houve diferença, onde nuns casos era aceito e até bem visto, noutros, era caso de polícia, sempre em função de quem estivesse ocupando a cena pública, se sua elite ou a seu estrato mais pobre.

Ao olharmos cada modalidade em específico, vamos encontrar as seguintes situações.

O críquete sempre foi jogado em praças da cidade, locais já existentes, de uso público, sem que houvesse uma condição específica para a modalidade. Rocha Junior e Santos (2015) nos mostram que os jogos ocorriam majoritariamente no Campo Grande, mas também com notícias de jogos na Fonte do Boi[1], na Quinta da Barra, no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

O turfe conviveu com dois locais, ambos construídos de forma especial para sua prática e privados. A cidade viu a existência de dois hipódromos, que foram: o da Boa Viagem e o do Rio Vermelho.

Em Rocha Junior e Santos (2015) encontramos dados que falam da abertura de hipódromos na cidade. O primeiro foi o da Baia Viagem. Sobre este, o jornal A Locomotiva[4] dava notícias da abertura de um palco específico para a prática na cidade, na data de 30 de dezembro de 1888: “a inauguração do Hipódromo S. Salvador, que teve lugar no dia 30 passado, foi um verdadeiro acontecimento notável para os anais desta grande capital” e “terminamos dando os nossos parabéns ao público e ao empresário do Hipódromo”.

Adiante, Salvador viu surgir um outro espaço para o turfe, sendo este também privado, desta vez instalado no bairro do Rio Vermelho. O jornal Diário do Povo[5] apresentava assim a ideia da criação desse espaço: “No próximo domingo realizar-se-á a inauguração deste prado situado no aprazível arrabalde do Rio Vermelho” e “Leiam os nossos leitores os programas de corridas e não faltem a inauguração do Derby Clube”.

Sobre estes espaços, vale dizer que se localizavam distantes um do outro e que viveram, ao longo dos tempos, dificuldades de manutenção, por problemas de ordem financeira. Estes hipódromos chegaram a funcionar conjuntamente e também se alternaram como locais próprios do turfe. Nos dois casos, vale dizer, que na época de seu funcionamento, as duas localidades eram distantes da parte central da cidade e contaram com dificuldades de transporte.

Outra modalidade que alcançou sucesso e mesmo assim não viu um espaço próprio ser pensado para sua existência foi o remo, muito embora, seu local de disputa pudesse ser considerado apropriado ao esporte, foi sim, uma adaptação de um cenário natural da cidade.

De seu início até hoje, o remo foi e segue acontecendo na Enseada dos Tainheiros. Este local era, quando do início das atividades com o remo, um espaço de veraneio da cidade, também distante da região central, tendo as regatas usado um pedaço de mar, belo, aprazível, de águas calmas, que potencializavam o esporte, porém, nunca contou com uma efetiva intervenção, pública ou privada, de forma a qualificar como local ideal de prática do remo e também para a plateia.

Atividades como patinação e ciclismo nunca puderam contar com algo parecido com espaços específicos, tendo então seus praticantes de usar apenas as ruas e praças da cidade, qualquer que fosse a intenção da vivência, mesmo que dependesse de equipamentos, caros, notadamente na fase inicial do século XX. Locais como o Politeama, o Passeio Público e o bairro do Comércio eram relatados como os preferidos para estas atividades esportivas.

O tênis foi uma atividade esportiva que em Salvador se notabilizou por ser exercida somente em espaços fechados, inclusive residências e notadamente em clubes, sendo um criado com esse perfil. A modalidade, desde seu início se notabilizou como um esporte das elites econômicas e assim, foi vivida como um experiência de distinção.

Em algumas residências de famílias nobres da cidade foram construídas quadras, para que seus membros e convidadas e convidados pudessem viver o esporte. Além disso, no Rio Vermelho, junto a área onde existiu o Hipódromo se teve o esporte. Com mais notoriedade vimos exitir o Clube Baiano de Tênis, que se notabilizou como um espaço específico, mas privado, para o jogo do tênis, mais uma vez caracterizando que na cidade, os esportes aconteceram, mas sem que pudessem contar com a construção de espaços diretos.

Semelhante ao tênis foi a condição do atletismo, atividade que aconteceu de forma tímida em espaços públicos e que viu a construção de um clube próprio para sua prática, privado, que foi o Yankee Foot-ball Club, que inclusive chegou a criar uma pista. Vale dizer que o atletismo, além de tudo, teve sua prática associada a conceitos de saúde, sendo tratado como uma modalidade essencial ao desenvolvimento corporal de quem o executasse.

Por fim, falamos do futebol, uma modalidade que por suas características permite o uso de espaços variados. A prática em Salvador aconteceu em várias praças e ruas, seja isto de forma organizada ou livre, pode mesmo se dizer que a cidade foi “ocupada” pela experiência futebolística. Quando falamos da esfera competitiva, basicamente três espaços foram os usados, que foram: Campo da Pólvora, que na verdade era uma praça aberta da cidade; o Campo do Rio Vermelho, montado onde já existia o Hipódromo, privado e adaptado especificamente para o futebol e por fim, o Campo da Graça, também privado e que foi pensado especificamente para atender a modalidade e suas competições.

Com tudo isto, podemos analisar que o esporte em Salvador se constituiu sem a existência de espaços específicos, públicos, para qualquer modalidade, tendo sempre se aproveitado de lugares públicos ou naturais, adaptados as modalidades ou então, espaços privados foram construídos. Tal cena na cidade perdurou e mesmo perdura, sem que ainda hoje existam muitos espaços públicos espalhados pela cidade, se notabilizando aqueles que são para uso exclusivo da esfera competitiva, sem acesso popular.

Esta condição, no tempo, muito contribuiu para com que o esporte não alargasse suas vivências na cidade, mesmo estas tendo se iniciado em tempos já longínquos, já que poucos investimentos, ao longo dos anos foram executados, de forma a permitir o acesso da população, as práticas, em espaços próprios, sem depender do elemento competitivo ou de clubes ou outras ações privadas.


[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p. 1.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] A Locomotiva, Salvador, 15 de janeiro de 1889, p. 41.

[5] Diário do Povo, Salvador, 21 de maio de 1889, p. 1.

Referência:

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.


JOSÉ LINS DO REGO, O MODERNISMO E SUA PAIXÃO PELO FUTEBOL

01/02/2021

Por Edônio Alves Nascimento*

Discípulo do sociólogo Gilberto Freyre (em termos ideológicos e estéticos), José Lins do Rego, na condição de um escritor tipicamente modernista (e moderno) tem como característica de sua obra – entre tantos outros traços de sua escrita magnífica e panorâmica – dar continuidade ao trabalho do escritor pernambucano no tratamento exploratório do futebol brasileiro em literatura; algo não muito explorado pela fortuna crítica que se debruçou sobre as facetas múltiplas de sua obra e algo de que vou tratar aqui.

Tem, portanto, esse texto, a pretensão dupla de informar ao leitor (em poucas pinceladas, reconheço; dado as restrições de espaço) sobre a paixão pessoal que esse grande escritor paraibano tinha pelo futebol e como o tema desse esporte se incrustou em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico peculiar da sua escrita vasta e multifacetada.

Considerado por boa parte da crítica literária brasileira como um “estilista” original (algo discutível do ponto de vista da crítica estética), José Lins do Rego tomou contato com o movimento modernista de 1922, através de conversas com Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Raquel de Queirós, quando morou em Maceió. A princípio reticente quanto ao Modernismo, por influência do amigo Gilberto Freyre, que pregava um “regionalismo tradicionalista”, o escritor acaba por fim se incorporando ao grupo que consolidaria o chamado Romance do Nordeste, dando uma feição mais social e política à abordagem regional da sua literatura.

Romancista de uma obra ampla e orgânica quanto à interligação temática e propositiva de sua cosmovisão de trabalho, distribuída e conscientemente organizada em cada obra individual, perfazendo no todo um conjunto representativo das questões que elegeu como núcleo de suas preocupações com os problemas brasileiros – o ethos social regionalista em destaque –, o próprio autor destacou como desejaria que a sua obra ficcional fosse dividida. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino de engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); Fogo morto (1943) e Usina (1936). O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953). As obras independentes: a) com ligações nos dois ciclos, O moleque Ricardo (1935), Pureza (1937) e Riacho doce (1939), e, b) desligadas dos ciclos: Água-mãe (1941) e Eurídice (1947).

A este conjunto de natureza romanesca, junte-se esse outro, que segundo o poeta alagoano, Ledo Ivo, “comprovam que o grande romancista brasileiro não possuía apenas uma admirável natureza criadora”, mas também dispunha de “uma natureza ensaística” com a qual é possível aquilatar, pela vasta abrangência de suas intervenções como homem de letras, o interesse do autor pelos problemas da expressão literária, bem como suas preocupações com os destinos do homem e da sociedade: Gordos e magros (1942); Poesia e vida (1945); Homem, seres e coisas (1952); A casa e o homem (1954) e as publicações póstumas, O vulcão e a fonte (1958), e Dias idos e vividos (1981), organizado pelo poeta e crítico Ivan Junqueira. Conjunto este que entremostra menos o homem de reclusão criadora com a qual consagrou definitivamente o seu nome na história da grande ficção brasileira e mais o homem de jornal, na acepção publicista do termo, função através da qual partilhava diretamente com o público leitor as suas ideias e conjecturas sobre as coisas do mundo, através do ensaio e da crônica.

Pois é no gênero crônica, principalmente, que a paixão de José Lins do Rego pelo futebol comparece mais fortemente em sua obra.

Considerando este ponto, por exemplo, temos o testemunho do  historiador social Bernardo Buarque de Hollanda – que se debruçou sobre as crônicas esportivas publicadas por Zé Lins no Jornal dos Sports entre 1945 e 1957 (um total de 1.571 textos) na sua coluna Esporte e Vida –, de que a incorporação do futebol ao projeto de construção de um Brasil moderno a partir da década de 1930, plataforma comum a todos os intelectuais modernistas, também “pode ser identificada de maneira exponencial nos romances, ensaios e, principalmente, nas crônicas esportivas desse escritor em cuja obra – diferentemente do caso dos outros autores do modernismo – o tema do futebol se apresenta de maneira sistemática e cristalina”.[1]

Vejamos, portanto, um pouco da sua indefectível paixão pelo jogo de bola aos pés (anote-se que Zé Lins do Rego foi também um típico torcedor de arquibancada fanático e arrebatado pelo seu Flamengo carioca) comparecendo estilisticamente dentro de sua literatura cronística e de jornal.

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[3]

Destaque-se antes, contudo, que como cronista esportivo, ofício que exerceu por 12 anos, ocupando as páginas de importantes veículos de imprensa do Rio de Janeiro, Zé Lins pôde intervir no debate público sobre um Brasil genuíno para os brasileiros em que o futebol fosse visto como um elemento de sua cultura e onde o povo em geral melhor se via representado.

A esse debate ele acrescentou, por exemplo, a meu ver, três questões que a representação ficcional brasileira sobre o tema viria mais tarde incorporar como um dos seus aspectos mais ricos e constantes: a importância do legado étnico negro para a matização nacional do jogo de futebol, a incorporação da música na forma brasileira de jogá-lo e uma original reelaboração – só possível graças à maneira como o futebol foi institucionalizado no Brasil – da ideia de nação brasileira, criando uma proposição peculiaríssima de nossa formulação identitária. Exemplo:

Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martins. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo (REGO, 2002, p. 63).[2]

Continuando suas ideias por este caminho, amiúde, Zé Lins do Rego se abastece de argumentos para explicitar, mediada pela lógica da miscigenação e do propugnado convívio democrático entre as três raças da nossa formação social – a sua ideia da necessária simbiose, no plano da nossa construção identitária, entre a identidade nacional e a identidade clubística, por exemplo:

O Flamengo merece muito mais”:

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[i]


[i] Idem; Ibidem.

Observo, para informar e arrematar, que essa operação narrativa de José Lins do Rego tinha um sentido muito claro, que era o de fundir na ideia de pátria, nação, o seu Clube de Regatas do Flamengo, que, para o escritor paraibano, era o clube que detinha todas as potencialidades de irmanar indivíduos os mais diversos, heterogêneos e dispersos, num verdadeiro congraçamento nacional, conferindo-lhes, pelo sentimento comum de pertencimento a ambos (à pátria e à nação), não obstante o afastamento geográfico ao longo de diferentes regiões territoriais do país, um senso de suprema e verdadeira brasilidade.

Tal profissão de fé de Zé Lins, digamos assim, se espraiava ao longo de toda a sua escrita de cronista esportivo por intermédio de recursos retóricos sofisticadíssimos – a nosso ver –, que vão desde a refinada ironia com o que aproveitava para tirar uma “onda” subliminar com os clubes rivais do Flamengo – caso do Vasco da Gama, que é tema de uma crônica sua, “Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo”, por ocasião de uma excursão que o time fizera à Europa em 1947, oportunidade entrevista pelo escritor para contrapor, na sua lógica interpretativa sobre a nossa brasilidade futebolística acima referida, as representações da pátria brasileira com o elemento estrangeiro, dentro de uma peculiar escala de valor que apontava o nacional (naquela ocasião, representado pelo Vasco); o mais nacional (o seu Flamengo – ver a crônica, “O Brasil era o Flamengo”) e, ambos, acima do europeu em qualidade e supremacia. Vejam-se os dois textos-exemplos:

Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo

Continua o Vasco a honrar com brilho o futebol brasileiro. Em duas partidas ganhas, pela bravura e pela classe de sua equipe, mostrou o tricampeão do Municipal que é, de fato, uma verdadeira seleção de valores. E assim Flávio Costa acrescenta às suas glórias de técnico mais as vitórias que vem obtendo em campos de Portugal. A jornada do Vasco há de terminar como começou. Todos nós, aqui do Brasil, estamos ao lado de nossos aparelhos de rádio para torcer pelos rapazes do Almirante. Lá o Vasco é como se fosse, para mim, o Flamengo (REGO, 2002, p. 82).[4]

         O Brasil era o Flamengo

Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: “Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo”. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol Brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos (REGO, 2002, p. 129). [5]

Pois bem! Como disse lá em cima, tem esse texto o propósito de mostrar aos leitores um pouco da paixão pessoal que o escritor paraibano José Lins do Rego tinha pelo futebol e como esse tema compareceu em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico personalíssimo da sua obra: a fina ironia como recurso retórico moderno aplicado aos seu discurso estético sobre o assunto e a pegada também moderna com que inscreveu definitivamente, tanto no seio do mundo literário brasileiro quanto no universo da arquibancada futebolística propriamente dita, a noção de nação para juntar, num mesmo amálgama humano, os apaixonados como ele que torcem por um determinado clube de futebol e que sentem, nesse gesto de arrebatamento ufanístico, todos os influxos da pátria/nação a pulsar-lhes nas veias. Espero que essa pequena amostra tenha cumprido o seu papel.

*Jornalista, poeta e professor do curso de Jornalismo da UFPB.


1 HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2004.

[2] REGO, José Lins do. Flamengo é puro amor: 111 crônicas escolhidas. Seleção, introdução, atualização ortográfica e notas de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

[3] Idem; Ibidem.

[4] Idem; Ibidem.

[5] Idem; Ibidem.


Do turismo aos títulos Mundiais: apontamentos sobre Automobilismo e política na Argentina (1904-1955)

25/01/2021

por Maurício Drumond

Em meios a tantas leituras e anotações decorrentes da produção de um artigo acadêmico, por vezes nos deparamos com assuntos e ideias que acabam não se desenvolvendo ao longo do trabalho. Os motivos para isso variam. Por vezes, o recorte do artigo foge um pouco ao material encontrado. Em outros casos, as ideias não se enquadram exatamente ao escopo da análise proposta no artigo. Isso é ainda mais comum ao escrevermos com limite máximo de páginas ou palavras, onde temos menos espaço para olhares tangenciais que contribuem para a compreensão do objeto, mas que não são essenciais e acabam ficando de fora da edição final. 

Muitas vezes, separamos essa informação com a intenção de utilizá-la em um novo artigo, no futuro. No entanto, são raras as oportunidades em que esse novo trabalho acaba por se concretizar. Eventualmente, damos a sorte de ter uma postagem agendada no blogue no momento em que isso ocorre. É por isso que aproveito minha postagem dessa semana para estabelecer alguns apontamentos sobre automobilismo e política na Argentina durante a primeira metade do século XX, fruto de um trabalho de História Comparada em andamento que acabará por não abarcar todos os elementos aqui presentes. 

Origens do automobilismo argentino – as primeiras décadas do século XX

O automobilismo começa a tomar corpo na Argentina a partir de Buenos Aires, ainda no início do século XX. Os registros históricos apontam que os primeiros automóveis com motor de combustão interna, movidos à gasolina, chegaram à capital argentina entre 1896 e 1898. Dalmiro Varela Castex importou da Europa um triciclo De Dion Bouton e foi o primeiro portenho a ter um registro com permissão para conduzir o automóvel.

Não demorou para que a nova máquina se popularizasse entre a elite local. De acordo com a historiadora Melina Piglia (2014), por volta de 1900 já havia mais de cem carros na cidade, e dez anos depois o número já chegava a quase 5.000 veículos. É nesse período que Dalmiro Varela Castex lidera, em novembro de 1904, a criação do Automóvil Club Argentino (ACA), uma instituição voltada para a organização, o incentivo e a fiscalização do automobilismo esportivo no país. Sua primeira corrida oficial foi realizada em dezembro de 1906, no já desaparecido hipódromo de Nuñez, que assim como o hipódromo do Derby Clube no Rio de Janeiro, deu lugar ao maior estádio de seu país. Nessas primeiras corridas, se enfrentavam renomados membros da elite afeita à modernidades e importadores de automóveis, como Juan Cassoulet.

Em 1910, o ACA organizou a primeira edição do Grand Premio de la Argentina, uma prova de resistência e velocidade ligando as cidades de Buenos Aires e Córdoba, passando por Rosário. De acordo com Eduardo Archetti (2001, p. 69), os carros demoraram dez horas para chegar em Rosário, e o primeiro a alcançar Córdoba demorou quatro dias. O último a chegar o fez apenas uma semana após a largada. a ausência de estradas, o desconhecimento do trajeto e inúmeros problemas mecânicos faziam do Grand Premio de la Argentina uma empreitada única para seu tempo. No entanto, já era possível observar elementos que caracterizaram as famosas corridas de Turismo Carretera que marcariam o automobilismo anos depois: “caminhos pobres, público curioso, pilotos cheios de coragem, verdadeiros aventureiros, e acompanhantes mecânicos capazes dos mais insólitos consertos” (ARCHETTI, 2001, p. 70).

Nas décadas de 1910 e 1920, era possível encontrar muitos pilotos de origens mais modestas, em geral mecânicos, e do interior do país. Alguns competiam empregados por empresas importadoras de carros e peças, ou por alguma revendedora local dos grandes fabricantes. No entanto, muitos outros eram pilotos independentes, que coletavam dinheiro para sua participação em suas cidades ou patrocinadores, em busca dos prêmios em dinheiro, cada vez maiores. A popularização do automóvel também impulsionava o esporte a novas fronteiras. Em 1920, a frota do país já alcançava o impressionante número de 1 automóvel para cada 160 habitantes, proporção maior do que na França (que tinha 1 para cada 169). Sete anos mais tarde, a proporção na Argentina vai  para 1 carro para cada 49 pessoas, com aproximadamente 200 mil veículos, o dobro da frota do Brasil, que possuía o triplo da população (FONTE: PIGLIA, 2018). 

O automobilismo argentino cresceu e se diversificou ao longo dessas décadas iniciais, dando origem a diferentes modalidades. Corridas de velocidade, tanto em circuitos fechados, geralmente disputadas em autódromos, como em circuitos abertos, em trechos de estradas, reuníam carros rápidos e especiais para corridas. No entanto, tornaram-se cada vez mais populares as corridas de regularidade, com grandes distâncias percorridas ao longo de dias, ou semanas. Havia ainda modalidades específicas para veículos com mecânica nacional ou importada, com diferentes cilindradas, ou com carros de corrida ou carros de passeio. 

Ao longo dos anos 1930 e 40 ganha popularidade uma modalidade tipicamente argentina. Corridas de resistência, disputadas em várias etapas em estradas não necessariamente fechadas para o trânsito. A partir de 1937, essas corridas seriam disputadas por automóveis de passeio (ou de turismo, como eram chamados) ligeiramente modificados. Essa modalidade ficou conhecida como Turismo Carretera

Turismo Carretera: Automobilismo e Turismo nas décadas de 1930 e 40

As ações do governo tiveram forte impacto no automobilismo argentino durante a chamada Década Infame. Se, por um lado, as ações do governo em manutenção e obras de melhoramento nas estradas criaram condições de ampliação do alcance do esporte, por outro, diversos empecilhos foram criados a fim de controlar os riscos presentes em sua prática. O já tradicional Grand Premio de la Argentina, organizado pelo ACA, não se limitava mais ao trajeto Buenos Aires-Córdoba, sendo realizado em trajetos diferentes a cada ano entre 1933 e 1943. Já as provas de velocidade, apesar de populares, acabaram  sofrendo embargo do governo em 1934, através da Dirección Nacional de Vialidad (DNV,  Administração Nacional de Rodovias), que proíbe a modalidade após recorrentes mortes em corridas locais. 

Com a proibição de provas de velocidade em território nacional, o Grande Prêmio do ACA é convertido no Primeiro Grande Prêmio Internacional, em 1935, unindo Buenos Aires a Santiago, Chile. O trajeto de cerca de 5.000 km era composto por cinco etapas (Buenos Aires-Mendoza; Mendoza-Santiago de Chile; Santiago de Chile-Neuquén; Neuquén-Bahía Blanca; e Bahía Blanca-Buenos Aires), disputadas por pilotos de ambos países,. A prova era travada com limite de velocidade em território argentino, e velocidade em território chileno. No ano seguinte, o trajeto foi expandido para mais de 6.000 kms e marcas como Chevrolet e Plumouth participam. 

Em maio de 1937, utilizando o argumento de que pretendia privilegiar a circulação de veículos de passeio, a DNV proibiu a realização de provas oficiais em rodovias nacionais, com exceção daquelas que “por seu caráter, busquem difundir o conhecimento do país e fomentem o turismo dentro do mesmo, mediante adequada utilização de estradas argentinas” (citado por PIGLIA, 2018). É nesse contexto em que aparece a nova modalidade de Turismo Carretera.

  O Grand Premio Argentino de Turismo Carretera (TC) foi realizado entre os dias 5 e 15 de agosto de 1937. A bandeirada de largada foi dada pelo presidente argentino, general Augustín Justo, e aparece como destaque o nome do jovem piloto Oscar Gálvez, que se tornaria uma das lendas do automobilismo no país, juntamente com Juan Manuel Fangio, que se iniciou no TC do ano seguinte. 

A própria concepção das TC foram forjadas pelo Estado argentino, através da DNV. Uma série de normas estabelecia que poderiam participar apenas carros de passeio (com poucas modificações permitidas), com chassis e motores da mesma marca, capota fechada, e velocidade máxima de 120 km/h. Todos os carros deveriam seguir as orientações gerais de trânsito e deveriam estar dentro das normas para rodar pelas cidades do país. 

O Estado buscava assim assegurar um propósito de integração nacional e de apoio ao turismo proporcionado pelo automobilismo. O esporte serviria como propaganda do turismo interno, estimulando viajantes a percorrer os mesmos trajetos com seus próprios carros, a visitar locais antes desconhecidos e a conhecer e confiar na rede de vias rodoviárias do interior do país. O fato dos automóveis que corriam nessas provas serem veículos de passeio faria com que turistas se sentissem mais confiantes na segurança das estradas. O limite de velocidade relativamente baixo tornava as corridas mais seguras para pilotos e para as pessoas que se aglomeravam ao lado das pistas para assistir. O menor número de acidentes fatais era fundamental para construir a confiança do público nas estradas. 

As provas internacionais levavam essas propostas a patamares ainda maiores. Inicialmente organizadas entre Argentina e Chile, em 1940 o ACA passa a organizar novas empreitadas que se coadunavam com o ideal Pan Americanista que ganhava força com a Segunda Guerra Mundial. A Argentina, país com tradição de neutralidade, reforçava suas relações com seus vizinhos hispanófonos da América. Nessa ocasião, foi organizado o Grande Prêmio Internacional do Norte,  ligando Buenos Aires a Lima, passando por La Paz. Juan Manuel Fangio, correndo com um Chevrolet, foi o vencedor da prova, com tempo total de 109 horas, 36 minutos e 16 segundos. 

O sucesso da prova foi tanto que o ACA planejava ampliá-la, planejando sua extensão à Caracas em 1941 e Nova York em 1942. No entanto, a escalada da guerra e a posterior entrada dos Estados Unidos após o ataque japonês em Pearl Harbor levaram ao cancelamento das provas até 1948. Os custos para os pilotos participantes era muito elevado. As provas duravam muitos dias e exigiam muito de pilotos e seus carros. Uma grande equipe de mecânicos e quantidade de peças era fundamental para resistir a todos os problemas que surgiriam durante a jornada. A dificuldade em conseguir peças, combustível e dinheiro para a participação levou ao cancelamento das principais provas, que foram sendo retomadas gradativamente após o final da guerra. 

Em 1948, já sob o governo de Juan Perón, a prova Buenos Aires-Caracas é realizada. Entre os 141 participantes, contavam-se 8 peruanos, 5 chilenos, 5 bolivianos, 3 venezuelanos, 1 uruguaio e 119 argentinos (ARCHETTI, 2001, p. 80). O trajeto, com 9,580 km, foi percorrido em 20 dias, com 5 dias de descanso. No entanto, o TC já começava a perder espaço para outra modalidade do automobilismo, as corridas de velocidade. Com a chegada de Perón ao governo, novos ideais passaram a reger o ideal do automobilismo como esporte e seu potencial serviço à nação. 

Um Novo Automobilismo na Nova Argentina de Perón.

O governo de Juan Domingo Perón estabelece uma nova relação entre Estado e os diversos campos esportivos na Argentina. Com aporte financeiro do Estado, o Automóvil Club Argentino adquire carros de corrida para formar uma equipe para disputar provas na Europa. Correndo com uma Maserati, Fangio venceu quatro provas na Europa em 1949. No ano seguinte, Fangio e José Froilán González estrearam na Fórmula 1 Internacional. A popularidade e habilidade dos pilotos argentinos era agora posta na vitrine internacional, em disputas com os melhores pilotos do mundo. A Nova Argentina de Perón exibia seus frutos, demonstrando a capacidade do povo argentino quando propriamente guiado, diria a propaganda do governo. 

E o resultado não poderia ter sido muito melhor. Fangio foi campeão mundial de Fórmula 1 em 1951, 1954 e 1955, durante o período peronista, e ainda em 1956 e 1957, já depois da queda do Presidente argentino. Já González foi vice-campeão em 1954 e ficou marcado por ter conseguido a primeira vitória da Ferrari em uma corrida de Fórmula 1, em 1951. A equipe argentina era acompanhada por jornalistas que transmitiriam as vitórias nacionais para a América. 

Em 1950, ao receber os pilotos que voltavam de sua temporada na Europa, Perón teria perguntado se os visitantes precisavam de alguma ajuda de seu governo. Fangio teria tomado a palavra ao afirmar: “Precisamos de um autódromo, general” (LUPO, 2004, p. 308). Sendo verdadeira ou não essa versão dos acontecimentos, o fato é que em janeiro de 1951, a cidade de Buenos Aires anunciou o início da construção do novo autódromo municipal, que ficaria pronto 15 meses depois. O autódromo, com diversos circuitos e capacidade para mais de 100 mil pessoas, seria um dos maiores símbolos dessa nova relação entre o automobilismo e o Estado argentino. 

Imagens do Grande Premio de Buenos Aires de 1953. Vale notar a presença de Perón nas imagens do evento.

Nomeado inicialmente como Autódromo 17 de Outubro, em homenagem a uma importante data do Peronismo, o dia da Lealdade, o circuito marcou o ingresso da Argentina no calendário oficial do circo da Formula 1, como a primeira prova do ano a partir de 1953. 

Considerações Finais

O Turismo Carretera Marcou uma importante fase no automobilismo argentino. Em um período em que as ambições políticas de projeção internacional do governo argentino tinham como maior ênfase sua relação de supremacia com seus vizinhos de língua espanhola (ou seja, excetuando-se o Brasil), a modalidade serviu tanto para o incentivo de uma política interna de unidade territorial e de difusão do turismo doméstico, como um mecanismo de afirmação da superioridade do país em uma área profundamente ligada à tecnologia e à modernidade como o automobilismo. 

A realização das provas internacionais fortaleceram esses laços, com provas de múltiplos trajetos unindo diversos países da América do Sul. Argentina, Chile, Peru, Bolívia e até Colômbia receberam os pilotos de Turismo Carretera, e mais países ainda tiveram pilotos participantes das provas, em geral dominadas por argentinos. 

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a ascensão de Juan Perón, uma nova visão política sobre a Argentina e o esporte passa a vigorar no país. O final da primeira metade do século XX vê assim uma profunda mudança no automobilismo do país.O Turismo Carretera perde espaço para as provas de velocidade em circuitos fechados. Com financiamento do governo peronista, uma equipe argentina passa a disputar o principal campeonato do mundo e se destaca com as vitórias daquele que foi considerado por muito tempo o melhor piloto da história: Juan Manuel Fangio. Para completar, o novo governo argentino constrói um novo circuito para a cidade de Buenos Aires, que passa a abrigar provas internacionais de Fórmula 1. De referência regional, a Argentina se torna um símbolo mundial para o esporte. 

Referências:

Archetti, Eduardo P. (2001). El potrero, La Pista y el Ring: las Patrias del Deporte Argenitno [The Paddock, The Racetrack and the Ring: the Homelands of Argentine Sport]. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica.

Lupo, Victor (2004). Historia política del deporte argentino (1610-2002) [Political History of Argentine Sport (1610-2002)]. Buenos Aires: Corregidor.

Piglia, Melina (2014). Autos, rutas y turismo. El Automóvil Club Argentino y el Estado [Cars, Routes and Tourism. The Automobile Club of Argentina and the state]. Buenos Aires: Siglo XXI Editores.


Projeto Roteiros Sportivos – Roteiro 2 – Remo

22/01/2021

O projeto “Roteiros Sportivos” objetiva apresentar um pouco da história do Rio de Janeiro por meio de suas experiências de diversão, entre as quais as relacionadas ao esporte. A iniciativa ajuda também a refletir sobre as mudanças urbanas e de comportamento da cidade.

O primeiro roteiro foi dedicado ao Jogo da Bola. Para mais informações: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/12/13/projeto-roteiros-sportivos-roteiro-1-jogo-da-bola/

Esse segundo roteiro é dedicado ao Remo. O mapa identifica, na cidade do Rio de Janeiro da atualidade, locais onde a prática teve sítio nos séculos XIX e XX.

Mais do que um esporte, o remo foi um importante agente na mudança de relação da população do Rio de Janeiro com o mar, estimulando a adoção de novos hábitos sociais, a circulação de novos padrões de masculinidade e a maior participação feminina na vida pública.

No mapa, pode-se ter uma noção das grandes mudanças urbanas do Rio de Janeiro, especialmente no que tange às alterações do litoral. Muitas praias onde se praticava o esporte não mais existem. Outras estão tão degradadas que mal se pode crer que eram espaços bucólicos de celebrações esportivas.

Para acessar o mapa:

https://www.google.com/maps/d/u/2/edit?mid=1VxdXEahzmfaOLopgHgIbRuerD4s0nRhO&usp=sharing

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Para mais informações:

* MELO, Victor Andrade. Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857). Tempo, Niterói, vol. 21, n. 37, p. 208-229, 2015.

https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-77042015000100011&script=sci_abstract&tlng=pt

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* MELO, Victor Andrade. O sport em transição: Rio de Janeiro, 1851-1866. Movimento, Porto Alegre, v. 21, n. 2, p. 363 – 376, 2015.

https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/49489

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* MELO, Victor Andrade de. Remo, modernidade e Pereira Passos: primórdios de uma política pública de esporte e lazer. Esporte e Sociedade, Rio de Janeiro, v.1, n. 3, 2006.

http://www.esportesociedade.uff.br/esportesociedade/pdf/es305.pdf

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* MELO, Victor Andrade de. Camadas populares e o remo no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX/XX. Movimento, Porto Alegre, v. 6, n. 12, p. 63 – 76, 2000.

https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2501

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* MELO, Victor Andrade de. O mar e o remo no Rio de Janeiro do século XIX. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 13, n. 23, p. 41 – 60, 1999.

http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2088

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Ficha Técnica: Marcus Macri e Victor Melo

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A Associação Portuguesa de Desportos e a simbologia da cruz

18/01/2021

por Elcio Cornelsen

(cornelsen@letras.ufmg.br)

A já centenária Associação Portuguesa de Desportos, diferindo de outros clubes brasileiros de origem lusitana, como, por exemplo, o Club de Regatas Vasco da Gama e a Tuna Luso Brasileira, não surgiu, originalmente, no âmbito dos esportes náuticos, mas sim como clube de futebol. Fundado em 14 de agosto de 1920 com o nome de Associação Portuguesa de Esportes, o clube resultou da fusão de outras cinco agremiações já existentes à época: o Luziadas Futebol Club, a Associação 5 de Outubro, o Esporte Club Lusitano, a Associação Atlética Marques de Pombal e o Portugal Marinhense, formando um único clube de futebol da colônia lusitana em São Paulo, apto a disputar a primeira divisão do campeonato paulista. [1]

A data de fundação da Portuguesa, longe de ser fortuita, remonta a um fato histórico fundamental para a construção de Portugal enquanto nação, ocorrido na Idade Média: o dia 14 de agosto de 1385 entrou para a história como o dia da Batalha de Aljubarrota, em que Portugal derrotou a Espanha e conseguiu se afirmar como reino independente de Castela e Leão. Lideradas por D. João, mestre da Ordem de Avis, as tropas portuguesas derrotaram as tropas espanholas sob o comando de D. Juan I de Castela no campo de São Jorge, próximo à vila de Aljubarrota, nas imediações de Leiria e Alcobaça, no centro de Portugal. Um dos acontecimentos mais significativos da história de Portugal, a Batalha de Aljubarrota marcou o inicio da Dinastia de Avis, que permaneceria no poder até 1580, abrangendo, portanto, a era dos Descobrimentos, e garantiu ao reino português sua soberania diante das pretensões do reino de Castela e Leão e promoveu a consolidação da identidade nacional enquanto nação livre e independente. [2]

Figura 1 – A Batalha de Aljubarrota
Fonte: https://www.fundacao-aljubarrota.pt/

No Mundo Ocidental, a simbologia da cruz consolidou-se, sobretudo, pela difusão do Cristianismo, em que a cruz aparece como símbolo do sofrimento de Cristo e da fé cristã. De acordo com o jornalista e historiador Guss de Lucca, a Cruz Cristã, também denominada de Cruz Latina, remonta à cruz utilizada pelos romanos para executar criminosos e inimigos do Império. No contexto cristão, “ela nos remete ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu pelos pecados das pessoas. Além da crucificação, ela representa a ressurreição e a vida eterna”. [3] Dessa tradição, surgiram outras cruzes, como, por exemplo, a Cruz de Santo André, a Cruz de Santo Antonio, a Cruz Patriarcal ou de Caravaca, a Cruz de Jerusalém, a Cruz da Páscoa, a Cruz do Calvário, a Cruz da Ordem dos Templários, a Cruz de Malta, a Cruz da Ordem de Cristo e a Cruz da Ordem de Avis. Para nosso estudo, interessa-nos, justamente, esta última.

Figura 2 – A Cruz da Ordem de Avis
Fonte: http://paineis.org/C06.htm

Além de atrelarem-se à história de Portugal através da data de fundação, os laços de origem da Associação Portuguesa de Desportos, como não poderia deixar de ser, foram reforçados através de elementos de identidade simbólica. As cores escolhidas para o uniforme foram o verde e o vermelho, as mesmas cores de Portugal. E o primeiro distintivo do clube, adotado no ato de fundação, foi composto pelo escudo português sobre um fundo verde e vermelho. Por sua vez, este foi substituído em 1923 pela Cruz de Avis, adotada como elemento componente de seu brasão. [4]

Além de símbolo das glórias lusitanas nas Cruzadas, a Cruz de Avis também representava o fim do domínio do Reino de Castela sobre Portugal com a batalha de Aljubarrota, de modo que, simbolicamente, a adoção do novo brasão associava-se diretamente à data de fundação do clube. Cabe ressaltar que a Ordem de Avis, fundada em 1319 e, portanto, posterior às Cruzadas, é uma continuidade, em Portugal, da Ordem dos Templários, dissolvida pelo Papa Clemente V em 1312.


Figura 4 – Os escudos e as mascotes da Portuguesa
Fonte: http://www.acervodalusa.com.br/

A Lusa, como é carinhosamente denominada por seus torcedores, originalmente, teve um primeiro hino, composto por Arquimedes Messina e Carlos Leite Guerra:

Você faz parte de uma grande família

Que muito pode se orgulhar

E a família unida e muito amiga

Da Portuguesa querida

Muitas obras vai realizar

Pelo esporte brasileiro

Rubro verde espetacular

Esportivo recreativo clube de tradição

E o clube da amizade orgulho da cidade O clube do coração

Viva a Lusa

Viva a Lusa

Clube Esportivo e social

Portuguesa de desportos

Orgulho do esporte nacional [5]

Em termos textuais, o primeiro hino da Portuguesa, além do nome do clube e da expressão carinhosa “Lusa”, traz ainda a identidade simbólica a partir das cores mencionadas no verso “Rubro verde espetacular”, mas não faz menção à Cruz de Avis.

Todavia, no início dos anos 1980, o hino original da Portuguesa de Desportos foi substituído por outro, composto por um de seus torcedores ilustres, o saudoso cantor Roberto Leal (1951-2019), em parceira com a compositora Márcia Lúcia. Em entrevista concedida ao Globo Esporte, datada de 11 de janeiro de 2011, Roberto Leal fez a seguinte declaração a respeito do novo hino por ele criado nos anos 1980:

O hino da Portuguesa era bonito, mas os torcedores queriam uma coisa mais forte. Resolvi fazer um e sempre cantava nos encontros. Quando os diretores perceberam que a música estava na boca das pessoas, resolveram fazer uma assembléia no clube e oficializaram o hino que criei. […] [6]

Composta e gravada em 1983, a letra do novo hino da Portuguesa reproduz em seus versos alguns traços de identidade simbólica:

Vamos à luta, ó campeões,

hão de vibrar os nossos corações

Na tua glória, toda certeza,

que tu és grande, ó Portuguesa!

Vamos à luta, ó Campeões,

há de brilhar a cruz dos teus brasões

E tua bandeira verde-encarnada,

que é a luz da tua jornada!

Vitória e a certeza

da tua forca e tradição

Em campo, ó Portuguesa, pra nós,

és sempre um time campeão! [7]

Além do nome do clube, e das cores mencionadas no verso “E tua bandeira verde-encarnada”, a letra do novo hino retoma a simbologia da cruz, presente no distintivo, no verso “há de brilhar a cruz dos teus brasões”. Desse modo, a letra do novo hino, de maneira implícita, reforça o laço entre a data de fundação como marco histórico – a Batalha de Aljubarrota e a Cruz da Ordem de São Bento de Avis –, o distintivo do clube – a Cruz de Avis em verde sobre escudo de fundo branco e contornos vermelhos – e suas cores.

Portanto, a simbologia da cruz, no caso específico da Associação Portuguesa de Desportos, discursivamente, atrela o clube às tradições medievais da Ordem de São Bento de Avis, ordem religiosa militar de cavaleiros portugueses surgida no século XII, e à era de ouro da Dinastia de Avis nos séculos XV e XVI. O hino e sua letra também contribuem discursivamente para a divulgação dessa simbologia.

Notas

[1] As informações históricas contidas neste item foram coletadas no site oficial do clube – disponível em: http://www.portuguesa.com.br/fhistorico.asp; acesso em: 11 jan. 2021 –, bem como no blog “Alma Lusa” – disponível em: http://almalusa.net/curiosidades.html; acesso em: 21 fev. 2012.

[2] MONTEIRO, João Gouveia. Aljubarrota, 1385: A batalha real. Lisboa: Tribuna da História, 2003, p. 26-27. Conferir também: http://www.fundacao-aljubarrota.pt/?idc=21 ; acesso em: 11 jan. 2021.

[3] LUCCA, Guss de. A Cruz e seus Simbolismos. Disponível em: http://www.spectrumgothic.com.br/ocultismo/simbolos/cruz_simbolismos.htm; acesso em: 11 jan. 2021.

[4] Disponível em: http://almalusa.net/distintivos.html; acesso em: 21 fev. 2012.

[5] Disponível em: http://www.acervodalusa.com.br/; acesso em: 11. jan. 2021.

[6] In: Meu jogo inesquecível (entrevista datada de 11/01/2011); disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/portuguesa/noticia/2011/01/meu-jogo-inesquecivel-finalda-lusa-fez-roberto-leal-abandonar-seu-carro.html ; acesso em: 06 mar. 2012.

[7] Disponível em: http://www.acervodalusa.com.br/; acesso em: 11. jan. 2021.


O adeus ao profeta: Diego Maradona e o simbolismo da Igreja Maradoniana

11/01/2021

por Eduardo Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No último dia 25 de novembro de 2020, o mundo do futebol foi surpreendido pela notícia da morte de Diego Armando Maradona, o maior ídolo do esporte na Argentina. Apesar de já ter passado por diferentes problemas de saúde outrora, a visão quase mitológica acerca do craque argentino era a de que, apesar de tudo, no final ele sempre resistiria e prosseguiria. Dessa vez, no entanto, foi diferente.

Maradona passava por complicações de saúde diversas nos últimos anos, tendo ido a óbito devido um “edema agudo de pulmão secundário a insuficiência cardíaca crônica exacerbada”, segundo a autópsia.

Diego Maradona, em outubro de 2020 quando completou 60 anos. Foto:
https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2020/10/maradona-chega-aos-60-anos-tao-idolatrado-por-argentinos-como-era-aos-30.s

Sua morte, sem dúvida alguma, marcou negativamente o mundo do futebol, em um ano já extremamente complicado e tomado por incertezas, como foi 2020. E mais do que a repercussão global, a morte de Dieguito deixou principalmente órfãos todos os seus fãs em sua terra natal, onde é idolatrado, literalmente, como um Dios.

Maradona alcançou o status de maior ídolo argentino no esporte, tal como um dos maiores símbolos da história do país. Sua história de percalços, problemas com drogas e indisciplinas, só caracterizam ainda mais essa idolatria, típica da trajetória dos grandes heróis. É o “mais humano dos deuses”, como outrora disse o também gigante Eduardo Galeano.  

Não há discussão no país acerca de quem é o maior ídolo argentino na história do futebol. O debate acerca do melhor jogador, ainda continuará por anos. Entre os mais antigos, muitos apontam Alfredo Di Stéfano como o melhor argentino na história do futebol. Para muitos outros, no contexto presente, é indiscutível que Lionel Messi teria superado Diego como o melhor hermano na história do esporte bretão. Porém, para além de fatores do campo (onde Maradona é o único dos três que, até hoje, venceu uma Copa do Mundo pela seleção argentina), o fato de tanto Di Stéfano quanto Messi terem consolidado suas respectivas carreiras na Espanha, atuando respectivamente por Real Madrid e Barcelona, fez com que se afastassem da posição de idolatria e grandeza alcançada por El Pibe em terras argentinas.

Diego Maradona beijando a taça da Copa do Mundo, após conquistá-la em 1986 no México. Foto: Reprodução.

Tudo bem, Maradona também rodou. Passou anos na Europa, entre Espanha e Itália, onde atuou por Barcelona, Sevilla e Napoli, esse último onde teve seu auge na carreira em clubes. Mas foi seu desempenho pela seleção nacional, mais especificamente na Copa do Mundo de 1986, que o fez passar da prateleira de grandes ídolos para se tornar um verdadeiro “Dios” para o povo argentino.

O cenário exposto naquele contexto, valoriza tal conquista e justifica tal adoração. Anos antes do mundial, em 1982, a Argentina havia sido derrotada na Guerra das Malvinas para o Reino Unido, o que resultou na morte de mais de 600 soldados argentinos e na perda do território e da soberania nas Ilhas Malvinas. Esse conflito deixou grandes complicações na Argentina daquele contexto, tendo baixado a moral de seu povo ao verem a derrota bélica se consolidando para os britânicos.

Mapa que caracteriza as Ilhas Malvinas, foco da guerra perdida pela Argentina para o Reino Unido em 1982. Foto:
https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-guerra-das-malvinas/

Com tudo isso exposto, a vitória da Copa de 1986 teve um sabor especial. Tudo porque nas quartas de final, a Argentina eliminou a Inglaterra ao vencer pelo placar de 2×1, tendo Maradona anotado os dois gols. Mas não foram quaisquer gols. Em um dos tentos, Maradona usou a mão para marcar. Em tempos que não existia o VAR, o gol foi validado e batizado como “La mano de Dios” pelos torcedores. Depois, o craque ainda fez aquele que para muitos é considerado o gol mais bonito da história das copas, driblando meio time da Inglaterra e anotando a vitória para os argentinos.

Mesmo sabendo que o sucesso em campo não recuperaria o que outrora havia sido perdido na guerra, a vitória, pelo menos, lavou a alma dos argentinos. A partir dali, Diego saia do patamar de humano para o povo de seu país, entrando no panteão dos deuses. Na mesma edição do torneio realizado no México, ainda lideraria a equipe nas vitórias contra a Bélgica, na semifinal, e Alemanha Ocidental, na decisão, para assim garantir o segundo título mundial da Argentina na história, após a primeira conquista em 1978.

La mano de Dios“, foi como ficou batizado o primeiro gol de Maradona nas quartas de final contra a Inglaterra em 1986. Foto: Reprodução

Anos se passaram e o cenário pós-1986 foi marcado por altos e baixos na vida pessoal e profissional de Maradona. Grandes feitos pelo Napoli e uma nova decisão de Copa em 1990 (dessa vez sendo derrotado na Itália pela mesma Alemanha Ocidental) caracterizaram seu ápice, enquanto problemas extracampo com o uso de drogas e suspensões por questões de doping, como a ocorrida no calor da Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, após confronto dos argentinos contra a Nigéria, marcaram a trajetória do craque, que transitava para seus fiéis torcedores entre a posição de divindade e humano, até o fim de sua carreira.

Maradona foi pego no exame antidoping após o jogo contra a Nigéria pela fase de grupos da Copa do Mundo de 1994. Foto: Reprodução.

E foi inspirado nessa concepção divina do humano Maradona, que em 1998 um grupo de torcedores na cidade de Rosário, liderado por Hernán Amez, fundou a Igreja Maradoniana. A concepção de Diego Maradona como o profeta de uma religião é tão grande que seus seguidores afirmam ter um calendário próprio, contado a partir do nascimento do craque em 30 de outubro de 1960. Hoje, por exemplo, estamos no ano 60 DD, ou seja, “Depois de Diego”. Já os anos anteriores ao seu nascimento são classificados como “AD” (Antes de Diego). Além do calendário, Drumond e Pinto destacam, acerca da religião maradoniana, que:

Seus adeptos […] celebram duas datas festivas anuais. A primeira é no dia 22 de junho, celebrando o dia em que o jogador fez o gol contra a Inglaterra na Copa de 1986. A segunda seria o natal da Igreja (chamado de Natividad por seus membros), no dia 30 de outubro – dia do nascimento do jogador. Em uma reportagem para a Reuters, Alejandro Verón, co-fundador da Igreja, faz questão de dessacralizar a cerimônia do “natal maradoniano” do ano de 43 d.D, dizendo: “somos todos católicos romanos, nosotros tenemos un Dios de razón, el cual es Cristo, y un Dios del corazón, que es Diego”. Verón ainda afirma que a Igreja possui por volta de 20 mil pessoas “convertidas” através do sítio da Internet, possuindo “fiéis” por todo o mundo. […] Don Diego, como é conhecido, é uma fronteira viva entre o divino e pagão, entre o bem o mau. Jogador que foi personagem de diversos escândalos relacionados ao universo das drogas, conseguiu mobilizar e encantar milhões de pessoas com a sua genialidade dentro das quatro linhas. Notadamente na Argentina conseguiu muito mais, conseguiu transcender as fronteiras do futebol e atingir em cheio os corações e mentes argentinas (DRUMOND; PINTO, 2007).

A organização da Igreja se tornou cada vez maior no decorrer do tempo, tendo conglomerado fiéis por todas as partes do país e do mundo, com foco nos argentinos e amantes do futebol. Em tempos atuais, Amez, um dos fundadores da igreja, teria dado declarações afirmando que o número de fiéis hoje em dia ultrapassa os 250 mil. Mesmo sem a confirmação desses dados para a escrita deste texto, é inegável que o patamar alcançado pela religião já se faz maior do que o esperado quando foi iniciada em 1998.

Referência à Iglesia Maradoniana. Foto:https://trespontos.blog.br/2016/11/02/igreja_maradoniana/

Como toda crença, a Igreja Maradoniana segue a risca datas “sagradas”, tal como mandamentos específicos, como os dez estabelecidos e citados abaixo:

Os 10 mandamentos da Igreja Maradoniana:

  1. A bola não mancha, como disse o D10S em sua despedida do Futebol, em 2001.
  2. Amar o futebol acima de todas as coisas.
  3. Declare seu amor incondicional por Diego e pelo bom futebol.
  4. Defender a camisa argentina, respeitando o povo.
  5. Espalhar os milagres de Diego por todo o universo.
  6. Honrar os templos onde ele pregava e seus mantos sagrados.
  7. Não proclame Diego em nome de um único clube.
  8. Pregar os princípios da Igreja Maradoniana.
  9. Tome Diego como segundo nome e dê-o a seu filho.
  10. Não seja uma cabeça de garrafa térmica e não deixe a tartaruga escapar. (Em referência à uma das frases mais icônicas de Diego.

O advento da morte de Diego Maradona, em 25 de novembro de 2020, gerou uma comoção não antes vista entre os argentinos e, de forma mais específica, entre os seguidores da religião maradoniana. Os fiéis cantaram canções e fizeram orações públicas em nome do ídolo, como a que podemos ler abaixo:

“Eu acredito em Diego
Futebolista Todo Poderoso,
Criador de magia e paixão.
Eu acredito em penugem, nosso D10s, nosso Senhor.
Que foi concebido por obra e graça de Tota e Don Diego.
Nascido em Villa Fiorito.
Ele sofreu sob o poder de Havelange.
Foi crucificado, morto e mal tratado.
Suspenso das quadras.
Cortaram-lhe as pernas.
Mas ele voltou e ressuscitou seu feitiço.
Estará dentro de nossos corações.
para sempre e na eternidade.
Eu acredito em espírito de futebol.
A Santa Igreja Maradoniana,
O golo para os ingleses,
A canhota mágica,
A eterna gambetta diablada,
E em um Diego eterno.
Diego.”

Como divulgado pelos fiéis, os seguidores da crença se reuniram ao redor do Obelisco, em Buenos Aires, para “agradecer que (Maradona) tenha baixado do céu há 60 anos e para desejar um bom regresso ao local a que pertence”, tendo na sequência seguido até o velório público, ocorrido na Casa Rosada. Veremos nos próximos meses como sobreviverá a crença maradoniana sem seu “Deus maior”, não mais vivo enquanto homem mas eternamente presente no coração e mente de todos os devotos que o seguem.

Multidão ignora a pandemia e se aglomera no dia de velório de Maradona. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Referências:

DRUMOND, Maurício; PINTO, Ricardo. A deificação de um ídolo: Maradona, entre o divino e o pagão. Lecturas Educación Física y Deportes, v. 113, p. n. 113, 2007.

https://www.goal.com/br/not%C3%ADcias/igreja-maradoniana-camisa-10-virou-religiao-na-argentina-com/6z7aqg48lbfa1uo4xivclrf8u

https://www.otempo.com.br/superfc/futebol-internacional/igreja-maradoniana-convoca-culto-e-faz-oracoes-para-se-despedir-de-diego-1.2417697

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/11/26/corpo-de-maradona-e-enterrado-em-cemiterio-na-periferia-de-buenos-aires.ghtml


SKATE, HISTÓRIAS PLURAIS

28/12/2020

Leonardo Brandão – leohst@hotmail.com

            Chimamanda Adichie é uma mulher negra, escritora nigeriana e feminista. Numa palestra cujo o título é “The danger of a single story” – ou “O perigo de uma história única” – ela nos alerta para a armadilha, quase sempre presente, de cairmos numa explicação simplista dos acontecimentos. Ela fala, evidentemente, da África, continente que teve sua história contada pelo colonizador europeu. Entretanto, pondera a escritora: tantas outras vozes são possíveis de se escutar sobre a África! Nós podemos partir, por exemplo, do ponto-de-vista dos próprios africanos (e lembrando que os africanos são diversos, logo, teremos histórias também diversas!).

            Para ela, é impossível falarmos de uma história única; se ela existe, é preciso questioná-la, problematizá-la e pesquisar para se escrever outras histórias, com outros olhares, personagens, regiões etc. Em suas palavras, ela reitera que “quando rejeitamos a história única, quando nos apercebemos de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso”.

            Acerca da História do Skate, poderíamos perguntar: Que espécie de paraíso poderíamos recuperar ao negarmos uma história única do skate? Ao questionarmos, por exemplo, a verdade de uma versão que se quer oficial, e que por repetição, nos faz acreditar que o skate teria uma história que iria de sua origem como brincadeira de criança e chegaria, na maturidade, a ser um esporte Olímpico? Por que haveria, necessariamente, essa linha evolutiva na história do skate? A quem interessa contar esse tipo de história? Pois todo mundo já ouviu – pelo menos nos veículos da mídia hegemônica – histórias como: “O skate veio do surfe”, ou ainda: “era uma brincadeira que virou esporte”, ou aquela famosa frase: “o skate se tornou um esporte radical”.

            Tais ideias e conceitos, de tanto aparecer e se repetir, podem até mesmo ganhar a aparência de naturalidade, de obviedade. Mas cabe aos historiadores, entretanto, estranhar aquilo que nos fazem querer crer, neste caso, a própria ideia de um desenvolvimento linear da prática do skate. Pois se o skate é (e sempre foi) uma ideia, essa ideia guarda em si outras formas de interpretação e significados. A título de exemplo, podemos aqui recuperar o que disse Ian MacKaye, vocalista da banda Fugazi, sobre o início de seu envolvimento com o skate nos Estados Unidos:

Como sempre nada estava acontecendo e eu resolvi me tornar um skatista. Skateboard não é um hobby, não é um esporte. Skateboard é uma maneira de aprender a redefinir o mundo a sua volta. O jeito de como sair de sua casa, se conectar com outras pessoas, e olhar o mundo através de um ponto de vista diferente!

            No skate, as histórias são múltiplas, seus agentes são complexos, suas tramas se desenvolvem por caminhos diversos e, não raras vezes, conflitantes. A história de sua organização como um esporte não apaga outras tantas histórias que, ao lado dos eventos oficiais, dos calendários e das competições, imprimem à prática um sabor especial.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BRANDÃO, Leonardo. A cidade e a tribo skatista: juventude, cotidiano e práticas corporais na História Cultural. Dourados: Ed. UFGD, 2011.

 


Os Desaparecidos do Racing Club. Um registro histórico de paixão e resistência

21/12/2020

A questão da memória dos desaparecidos políticos durante os regimes militares no Cone Sul é muito mais investigada e registrada por pesquisadores argentinos do que brasileiros independentemente da gravidade do tema em ambos os países.

Desde o final do famigerado regime do “Processo” (1976-1983), as Comissões de Direitos Humanos no país lutam por Justiça e a condenação dos envolvidos nos crimes contra os militantes políticos,  apoiados por movimentos da sociedade civil como as Madres de Mayo que surgiu de forma corajosa no auge da repressão do regime e cuja notoriedade e representação simbólica transcendem a esfera política argentina. O drama de  mães, avós, irmãs, filhas vem comovendo as pessoas minimamente sensíveis desde o final dos anos setenta apesar de terem sido chamadas de “Loucas” pelos defensores da ditadura no país.

No campo futebolístico é possível verificar também essa presença/resistência. Pude perceber na maioria dos estádios argentinos que conheci, grafites nos muros, bandeiras e   homenagens com faixas à desaparecidos políticos em diversas situações. Destaco belas pinturas no Estádio Ilhas Malvinas do All Boys que exaltam os sócios torcedores que sumiram pela barbaridade do regime militar no país. Em um post aqui do nosso blog o amigo André Couto que junto com Rafael Fortes me acompanharam em uma interessante partida nesta “cancha” relata a esperiência. Ver https://historiadoesporte.wordpress.com/2018/12/03/uma-partida-para-la-de-quente-na-argentina/

Outra homenagem muito bacana foi realizada recentemente pelo Club Banfield que criou a modalidade de título para sócio detido-desaparecido resgatando a história de onze sócios do clube que sumiram durante o nebuloso período. Sobre o tema ver https://notasperiodismopopular.com.ar/2019/10/04/banfield-11-memoria/

            Uma importante obra que acabei de ler e que resolvi apresentar como tema do presente post foi o livro “Los Desaparecidos de Racing” muito bem escrito pelo sociólogo, cientista político e torcedor do tradicional Racing Club de Avellaneda, Julián Scher.

            O autor descreve a vida de 11 torcedores da “Academia” que se envolveram com distintos grupos de resistência (FREJULI, JUP, GOR, PRT, etc) em diferentes períodos ditatoriais no país, apresentando minibiografias que tem como eixos principais: trajetória familiar, envolvimento pessoal com a militância e a paixão pelo Racing Club.

Acá lo que hay es simple: 11 textos de 11 hinchas de Racing construídos a partir de los testimonios de quienes fueron testigos de sus andanzas dentro y fuera de las canchas de fútbol y militância. ( SCHER:2017, P.13)

            Alejandro Almeida, Diego Beigbear, Jorge Cafatti, Álvaro Cárdenas, Jacobo Chester, Dante Guede, Gustavo Juárez, Alberto Krug, Osvaldo Maciel, Roberto Santoro e Miguel Scarpato formam uma equipe de corajosos militantes de distintos movimentos de resistência, com diferentes origens sociais apesar de muitos serem de famílias operárias alinhadas com o Peronismo, e que exerciam diferentes profissões: jornalista, advogado, bancário, poeta, etc.

ROBERTO SANTORO – EL POETA DE LA POPULAR

         

Todas as histórias pessoais são relatadas com uma riqueza de detalhes biográficos (ethos), com uma seriedade acadêmica ao descrever as diferentes conjunturas históricas políticas (logos) e com uma paixão cativante de torcedor (Pathos). A importância do Racing Club para a vida de cada um dos membros do escrete é demonstrada com habilidade e emoção pelo autor, bem como o envolvimento dos desaparecidos com a luta pela liberdade e os direitos civis na Argentina.

            O mitológico Estádio Presidente Perón mais conhecido como “El Cilindro” é um local de Memória fundamental e simbólico nas trajetórias de vida dos onze torcedores/militantes. Alberto Krugger por exemplo, mesmo sendo perseguido politicamente continuava frequentando o estádio para poder também rever companheiros queridos.   

Ni siquiera la comprobación cotidiana del apetito asesino del enemigo logró que Alberto dejara de pensar en Racing. Tan certo es que el andar de Academia distaba mucho del passado de gloria como que Alberto encontraba en las idas ao Cilindro um atajo a la felicidade. La forma para acordar la cita con los suyos era infalible. Un llamado a Rosa para saludar y um aviso entre líneas para que Carlos y Frederico supieran que el domingo él iba estar en la popular, en el logar de siempre aguardando por ellos. Como las oportunidades para encontrarse escaseaban, la cancha funcionaba como um segundo hogar, como un espacio proprio que quedaba fuera de la orbita del poder genocida. (SCHER:2017, P.226)

            Além do estádio, ao longo do livro também é feito um acionamento da memória de partidas emblemáticas, dos títulos conquistados como o primeiro Intercontinental de Clubes de uma equipe argentina diante do Celtic da Escócia em 1967 em uma terceira partida no Estádio Centenárioem Montevidéu e de importantes jogadores que marcaram tanto a História do clube, quanto dos torcedores desaparecidos. Um jogador brasileiro que faleceu recentemente aparece como grande artilheiro e ídolo de um dos “hinchas” em um dos relatos:

Todo hincha reconoce que hay partidos que no se olvidan. El 4 de mayo de 1969,Álvaro fue a la cancha como de costumbre, com su papá, com su hermano más chico y com sus amigos. El equipo de José ya integraba el pasado memorable pero em Racing jugaba un tipo que no necesitó ganar campeonato para ser un emblema. Walter Machado da Silva, nacido en 2 de Enero de 1940 en Ribeirão Preto, cerca de São Paulo, había llegado desde Flamengo con la promesa de hacer goles. Y cumplío. De  hecho, en el Metropolitano de 1969 convirtío 14 tantos y fue el máximo goleador del torneo. Fue el primer y único brasileiro en la história del fútbol argentino en conseguirlo. Y al Alvaro lo cautivó de entrada la elegancia de ese delantero infernal que lograba suspenderse en el aire como si la gravedad no o empujara a bajar (SCHER:2017,112)        

ÁLVARO CÁRDENAS – EL QUE SABÍA CANTAR EN LA TRIBUNA

            A reverência ao atacante Silva, o Batuta um goleador nato, um nômade do futebol brasileiro e sul-americano, uma grande figura humana que trabalhava como funcionário do clube do Flamengo foi confirmada recentemente por ocasião do falecimento do atleta com homenagem prestada pelas redes sociais do Racing ao ex-jogador brasileiro.

            A história dos desaparecidos do Racing comprova que àqueles que ainda acreditam que a paixão pelo futebol e o engajamento político não podem se misturar, que o  Esporte deve ser um campo neutro, isento de posicionamentos políticos e ideológicos estão completamente equivocados.

            Os Desaparecidos do Racing conta as trajetórias pessoais de 11 torcedores/ militantes, apaixonados por um clube de futebol: cores, estádio, ídolos, hino e todos os símbolos clubísticos. Essa equipe que se envolve também emocionalmente com a causa de lutar contra regimes autoritários e uma sociedade mais justa quebra paradigmas preconceituosos que ainda existem tanto nos meios acadêmicos, quanto entre jornalistas e torcedores de que Esporte e Política tem que estar separados. A paixão por um clube ou um esporte não cega um cidadão consciente com relação a sua postura enquanto animal político.

            Um belo livro, muito bem escrito que emociona torcedores/cidadãos e que ajuda a compreender tanto a história de períodos nebulosos da política argentina, quanto a paixão por uma equipe de futebol. Um registro sério de um acadêmico apaixonado pela “Academia” do futebol argentino e consciente dos tempos sombrios que foram  enfrentados por tantos militantes no país.

REFERÊNCIA: SCHER, Julián. Los Desaparecidos de Racing. 2.a Ed. Cidade Autônoma de Buenos Aires: Grupo Editorial Sur, 2017.


Los primeros momentos del turf en Montevideo: el Hipódromo Nacional de Maroñas (1888)

15/12/2020

Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

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Hipódromo Nacional de Maroñas, Enrique Moneda, 1900. Imagen tomada de: http://bibliotecadigital.bibna.gub.uy:8080/jspui/bitstream/123456789/18588/3/postal_D11070.jpg

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Montevideo en los últimos años del siglo XIX

¿Cómo pensar un abordaje de la historia del turf en Montevideo? Partimos de los aportes que ha realizado Victor Andrade de Melo, quien cuenta con numerosos trabajos sobre historia del deporte para el caso de Brasil y específicamente en Río de Janeiro. El autor nos sugiere, que es necesario considerar a la historia del deporte como una historia de las prácticas del entretenimiento (Melo, 2015). Melo analiza la conformación del Deporte carioca como una diversión en Rio de Janeiro en el siglo XIX.

Por otro lado, Victor Andrade de Melo también asevera que la práctica deportiva de la población brasileña puede ser muy útil para la comprensión histórica de la estructura socio-cultural de una época (Melo, 2004). Esta segunda línea interpretativa también guiará este trabajo, tratando de comprender el caso montevideano. El espíritu del trabajo es aproximarnos a los sentidos y significados para las clases sociales que tiene el deporte, en este caso, el turf.

Debemos comenzar por las características de la sociedad montevideana en los últimos años del siglo XIX. En 1889 se realizó un censo en Montevideo y en 1900 se hizo uno de todo el país. Para 1889 se estima que Montevideo tenía unas 215.000 personas, mientras que el resto del país 711.000 habitantes.  Por otro lado, se calcula que el 18% de la población total del país eran extranjeros, lo que nos indica que era un número alto. Pero si se mira solamente Montevideo, la presencia extranjera a fines del siglo XIX rondaba los niveles del 40%.

La estructura social era muy estratificada, con forma piramidal de base ancha en donde se ubicaban las llamadas “clases y etnias dominadas”, un sector de capas medias que creció con la inmigración y el ascenso social de los extranjeros y un pequeño sector compuesto por las élites dominantes (Duffau y Pollero, 2016, p. 199). En esa sociedad de tipo rígida, existían algunos casos de movilidad social. Como indican Duffau y Pollero “la posibilidad de ascender económicamente conformó un sector intermedio que incluyó a artesanos, comerciantes de ciudades y pueblos, funcionarios burocráticos, militares con grado, así como personas que se dedicaron al ejercicio de profesiones, caso del derecho o la medicina” (2016, p. 200).

En la parte superior de la pirámide se encontraba la “oligarquía mercantil agraria” (prósperos empresarios y terratenientes –muchos extranjeros-, denominad patriciado local). Esta clase constituyó la clase política dirigente del período colonial y la primera mitad del siglo XIX. En las familias del patriciado era común tener muchos hijos como estrategia de reproducción social y consolidad su posición social.

Luego, entre los sectores económicos ascendentes se encontraban los inmigrantes que se habían dedicado a actividades agropecuarias y comerciales. Este sector a mediados del siglo XIX se incorporó a las elites a través de enlaces matrimoniales que se convirtieron en base del patrimonio y el prestigio.

De acuerdo al historiador Henry Finch (2014), los orígenes de la clase media urbana está en el último cuarto del siglo XIX. Coincide con una época de inserción de Uruguay en un sistema económico global dirigido por Londres y los inmigrantes europeos. El proceso económico uruguayo del último cuarto del siglo XIX implicó la fuerte presencia británica en la región lo que provocó el debilitamiento del patriciado producto de la pérdida de sus intereses en la tierra, el comercio y los saladeros, a manos de los europeos.

La clase dirigente urbana estaba vinculada fundamentalmente al comercio y a las finanzas. En la década de 1880 los inmigrantes de épocas anteriores que pasaron a ocupar posiciones relevantes dentro de la elite económica fueron reforzados por la ola de recién llegados del sur de Europa. El efecto fue el “rápido crecimiento de la capital, crearon un mercado doméstico “masivo” por vez primera, e introdujeron la capacidad empresarial para explotarlo (…). Algunos inmigrantes se enriquecieron a través de la industria, pero la estructura económica de fin de siglo estaba firmemente asentada sobre el comercio y la ganadería” (H. Finch, 2014, p. 54).

La historiadora Alba Mariani (2013) investiga los negocios británicos en el Río de la Plata, analizando diferentes personajes británicos del círculo comercial y financiero. Existen varios casos y personajes que son objeto de estudio en sus investigaciones, pero hay uno que nos interesa debido al vínculo con nuestro tema: Tomas Tomkinson (1804-1879). Su padre arribó al Río de la Plata en 1806 con las invasiones ingleses, integrando los batallones de rifleros reales  Tomas Tomkinson nació en Endon, Reino Unido pero desembarcó en Montevideo en 1828 a los 24 años como representante e intermediario de la casa importadora “Stanley, Black and Co.”, firma que con posterioridad se transformó y giró bajo la razón social “Tomkinson ando Co.”.

Tomas Tomkinson incursionó en la principal industria del país: el saladero. Fue propietario del saladero Casa Blanca en el Cerro con gran actividad anual, se sacrificaban entre 35 a 40 mil cabezas de ganado vacuno al año. También fue parte del directorio del Ferrocarril Central; uno de los fundadores del Banco Comercial (1858) y uno de los fundadores de la ARU en 1871 (Asociación Rural del Uruguay). Además, tenía gran atracción por los caballos, lo que explica porque en 1875 fue el promotor de una Sociedad Hípica e Hipódromo. Comenzaría así el proyecto para el hipódromo de Maroñas.

Los inicios del turf en Montevideo

La fuerte presencia inglesa en el Río de la Plata supuso la implantación de los deportes modernos. En el Uruguay, la práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. La última década del siglo XIX inauguró una etapa de cambio en el deporte uruguayo: a-surgieron numerosos clubes; b- se registró el desarrollo intensivo del fútbol; c- iniciación del proceso de integración masiva del criollo en el deporte.

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Plano de Montevideo, 1905. Imagen tomada de: https://www.pinterest.com/pin/527413806337159844/

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La influencia británica se aprecia en el turf, por ejemplo, en las primeras carreras de caballos en Montevideo. En enero de 1855 se iniciaron las carreras extranjeras llamadas también inglesas en las inmediaciones del saladero de Legrís.

Arnaldo Gomensoro (2015) señala que las carreras “a la inglesa” tenían como escenario los hipódromos. El primero de ellos se construyó en Punta Carretas en 1861, donde hoy se ubica el centro comercial (shopping) de esa zona.

En la década del 70 del siglo XIX, más allá de la Plaza de Toros de la Unión funcionaba otro hipódromo inaugurado en 1867 para “Carreras Nacionales”, ubicado en las proximidades de Maroñas a impulso de la “Sociedad Hípica” presidida por el Gral. Francisco Caraballo. Como indica Aníbal Barrios Pintos (1971), hay registros de que en enero de 1872 corrían caballos de José Pedro Ramírez y del Gral. Caraballo y la prensa daba la cifra de $40.000 apostada a los caballos favoritos.

En 1875 Tomas Tomkinson y un grupo de ingleses estableció un hipódromo en Maroñas con la denominación de “Carreras de los ingleses”, que rápidamente dio animación a la zona. Este hipódromo fue construido en 1874 por la comunidad inglesa. El nombre que recibió el escenario fue “Nuevo Circo Pueblo Ituzaingó”, pero era conocido como el “Circo de Maroñas” en referencia al antiguo propietario de las tierras donde se instaló y donde está emplazado actualmente. Esos terrenos pertenecieron a Juan Maroñas, un importante pulpero de la zona.

El nombre originario del Hipódromo está vinculado al lugar donde nació. Del 19 de octubre de 1874 datan los planos del Pueblo Ituzaingó realizados por Demetrio Isola. En el siglo XX se transformó en uno de los barrios de Montevideo. Originariamente las calles llevaban nombres tales como Victoria, 18 de Julio, Cerrito, Sociedad Hípica. El barrio se trazó en torno a una capilla que había mandado erigir el ciudadano José Pedro Ramírez alrededor de un cuarto de siglo antes, por 1850. Dicha capilla es hoy la iglesia parroquial de Santa Rita y además santuario nacional de dicha santa católica.

Hoy las denominaciones del barrio hacen referencia principalmente a destacados miembros históricos del turf nacional, dado que en el lugar se halla el conocido Hipódromo Nacional de Maroñas, popularmente conocido como “el circo hípico de Ituzaingó”.

La pista original tenía una extensión de 1750 metros y, en sus primeros años, la organización de las carreras corría por parte de comisiones de propietarios y aficionados, hasta que el 14 de agosto de 1877 el gobierno nacional dictó el primer Reglamento de Carreras.

Diez años más tarde, en 1887 José Pedro Ramírez asumió la presidencia de la Comisión de Organización de las Carreras Nacionales y se convirtió en uno de los propietarios del Hipódromo junto a Gonzalo Ramírez y Juan y Alejandro Victorica.

El 15 de noviembre de 1888 se fundó el “Jockey Club” de Montevideo. Este hecho fue fundamental en la historia del Hipódromo de Maroñas, debido a que poco tiempo después el escenario fue adquirido por el Jockey Club de Montevideo, organizando las primeras Carreras Nacionales. El hipódromo fue inaugurado oficialmente el domingo 3 de febrero de 1889 la institución inició sus actividades organizando su primera reunión hípica. La primera carrera contó con una numerosa concurrencia, con la asistencia del entonces presidente de la República, general Máximo Tajes, quien fue uno de los representantes de los poderes públicos, dirigentes y socios del “Jockey Club” y miembros de la sociedad montevideana. El club tuvo como primer Presidente a Pedro Piñeyrúa y como vicepresidente a José Pedro Ramírez; Horacio Areco su tesorero y Carlos Sánez de Zumarán como secretario.

El primer Palco de Socios, hecho de tablones y chapa, había sido traído del paraje denominado Azotea de Lima, en la zona de Piedras Blancas, donde se corrieron las primeras carreras, pero el mismo fue sustituido en 1888 por una tribuna más amplia, realizada por el constructor italiano Ángel Battaglia, siendo el primer palco construido para Maroñas.

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Hipódromo Nacional de Maroñas. Al fondo: Palco de socios. Año 1895. (Foto: 0564FMHB.CDF.IMO.UY – Autor: Sin datos/IMO). El Palco de socios, fue proyectado y construido, probablemente, por el arquitecto Ángel Battaglia, socio fundador del Jockey Club de Montevideo. Imagen tomada de: https://cdf.montevideo.gub.uy/system/files/imagecache/Foto_destacada_645_430/fotos/564b.jpg

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El turf en Montevideo surgió entre las elites locales y sectores dominantes, como repasamos al inicio del texto. Cuando se analiza la lista de los socios fundadores “Jockey Club” de Montevideo se aprecia la fuerte presencia de hombres vinculados a la clase dirigente urbana: Enrique Aguiar; Horacio Areco (uno de los vecinos fundadores del Pueblo Ituzaingó y primer tesorero del club); Adolfo Artagaveytia (abogado, propietario del haras “las Acacias”); Alberto Calamet; Juan Carrara (también fundador del Pueblo Ituzaingó); Bernardino Dualde (también fundador del Pueblo Ituzaingó); Francisco Echagoyen (otro fundador del Pueblo Ituzaingó); Mariano Estapé (hombre de negocios español, vinculado a clubes sociales como Club Uruguay y Club Español, fue un destacado “turfman” y fundador del Pueblo Ituzaingó), José María Guerra (destacado “turfman”); Gerónimo Picioli (artista lírico italiano, realizo giras por Europa contratado por famosos empresarios ingleses y miembro fundador del Pueblo Ituzaingó); Pedro Piñeyrúa (primer presidente del Jockey Club -1888 a 1898- y fundador de Pueblo Ituzaingó); José Pedro Ramírez (abogado, nieto del saladerista José Ramírez Pérez, también fundador del Ateneo de Montevideo y docente); Gonzalo Ramírez (nacido en Río Grande del Sur, abogado, diplomático y nieto del saladerista José Ramírez Pérez); Francisco Sainz Rosas (también fundador del Pueblo Ituzaingó); Antonio Serratosa (médico español, también fue uno de los fundadores de la Sociedad de Medicina de Montevideo y del Hospital – sanatorio Español); José Shaw (hombre de negocios argentino); Juan Victorica (hombre de negocios uruguayo, fundador del Pueblo Ituzaingó y siempre vinculado como uno de los “turfman” de su tiempo)

El principal clásico del hipódromo es el Gran Premio José Pedro Ramírez que se disputa desde el 1° de enero de 1889, se corrió en su primera versión con el nombre de Gran Premio Internacional, el cual se mantuvo hasta 1914, adoptando su actual denominación un año más tarde. Actualmente se corre todos los 6 de enero, junto con otros premios de alto nivel (Gran Premio Maroñas, Gran Premio Ciudad de Montevideo y Gran Premio Pedro Piñeyrúa), siendo la jornada más importante de la agenda del Hipódromo. También se corre el Gran Premio Nacional desde 1888, actualmente esta carrera se celebra anualmente la primera o segunda semana de noviembre.

La actividad hípica tuvo un desarrollo rápido en Montevideo a fines del siglo XIX y se convirtió en un espectáculo de entretenimiento. Incluso, tenía mayor popularidad en la prensa escrita que el fútbol. Basta recorrer los periódicos de la época y se aprecia el lugar que se le otorgaba en la opinión pública.

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Hipódromo de Maroñas en la actualidad. Imagen tomada de: https://www.gustavomirabal.es/wp-content/uploads/2018/12/Hipodromo-de-Maronas.jpg

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Referencias:

  • BARRIOS PINTOS, Aníbal (1971). Los barrios (II). Montevideo: Nuestra Tierra.
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • DUFFAU, Nicolás y POLLERO, Raquel (2016). Población y sociedad. En: G. Caetano (Dir.) y A. Frega (Coord.), Revolución, Independencia y construcción del Estado (pp. 175-222). Montevideo: Planeta.
  • FINCH, Henry (2014). La economía política del Uruguay contemporáneo 1870-2000. Montevideo: Banda Oriental.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • MARIANI, Alba (2013). Los negocios británicos en el Río de la Plata. Tomás Tomkinson (1825-1875). Páginas. Revista digital de la escuela de historia; n° 9, Rosario (pp. 164-178)
  • MELO, Victor Andrade de (2004). Los primeros tiempos del deporte en la ciudad de Rio de Janeiro. Brasil. En: Cultura, ciencia y deporte; v. 1 (n° 1), Murcia (pp. 7-13).
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