Alfândega, noitadas e mercadorias de presente: uma breve passagem de surfistas sul-africanos pelo Rio de Janeiro

19/08/2019

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A África do Sul tinha papel importante no cenário internacional do surfe na segunda metade dos anos 1970, tanto pela qualidade das ondas de seu território quanto pela participação de surfistas, dirigentes, juízes, empresários e/ou profissionais de mídia, entre outros, oriundos daquele país. Isto se dava concomitantemente ao crescente isolamento internacional do país, que incluía boicotes como forma de pressão contra os sucessivos governos devido à política de segregação racial conhecida como apartheid. Nos últimos anos, tenho me dedicado tanto a investigar o lugar peculiar do surfe em meio ao boicote esportivo internacional, como também às representações do Brasil e do Rio de Janeiro em revistas internacionais.

Um dos indícios de uma cultura e economia do surfe fortes em um determinado país nos anos 1970 e 1980 é a existência de publicações especializadas, sobretudo revistas. Criada em 1976 na cidade de Durban e ainda em circulação, Zigzag é a mais longeva e provavelmente a mais importante revista de surfe da África do Sul. A edição de junho-agosto (a periodicidade era então trimestral) de 1979 trouxe matéria a respeito de uma viagem realizada por três surfistas às Américas. Os sul-africanos – um deles, autor do texto – viajaram para Brasil, Peru e Canadá. Eis dois trechos:

“(…) passar pela alfândega no Rio de Janeiro (…) Medo de possivelmente passar horas tentando convencer um funcionário olhudo de que só tenho mercadorias para os pobres ratos de surfe brasileiros. Para minha surpresa, sou liberado após dar ao cavalheiro um exemplar de ZigZag – ele ficou amarradão. A animação de Rico ao ver um funcionário da alfândega de fato sorrindo foi contagiante. Os dias que se seguiram são selvagens com noites loucas e gente amigável vivendo apenas o agora. Rico e sua bela mulher Bia quase me convencem a ficar para o Carnaval, mas o chamado da minha próxima parada é grande demais. 1980 será meu ano de carnaval! (…)

Em verdadeiro estilo sul-americano, um voo de seis horas leva 12 para chegar a Lima após o piloto decidir que precisa de algumas horas de pausa para um lanche e faz uma escala imprevista em São Paulo.” (LARMONT, Mike. The Snow Boogie. Zigzag, jun.-ago. 1979. Tradução minha. Abaixo, a primeira página do texto.)

Gostaria de abordar brevemente quatro pontos no trecho citado. Primeiro, as referências à passagem pelo controle alfandegário na entrada em território brasileiro, ocorrida no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Larmont afirma que estava receoso quanto ao trato que receberia por parte dos funcionários responsáveis pela revista de bagagens e a como classificariam os objetos que trazia – segundo ele, agrados para presentear surfistas brasileiros. Relata ainda ter sido um exemplar da própria Zigzag o argumento final que permitiu o desenrolo (como se diria na linguagem corrente das quebradas cariocas) com o trabalhador da alfândega. Seria este um servidor público da Receita Federal? Acredito que sim, embora não seja possível afirmar ao certo. Seria ele um adepto do surfe ou, ao menos, um interessado na modalidade? Também é difícil dizer, mas parece que o exemplar da publicação despertou interesse no servidor, talvez por gosto pessoal, talvez por configurar um item raro a ser dado de presente a uma pessoa querida. Haveria, além dos números de Zigzag, outros itens/mercadorias trazidos como presente na bagagem? A partir do próprio texto não é possível responder.

Segundo, a recepção por parte de Rico de Souza, surfista com grande circulação e contatos internacionais no período. Acredito que as relações de amizade, acolhimento e/ou reciprocidade estabelecidas entre adeptos de diferentes países foram importantes, tanto para reduzir os altos custos envolvidos nas viagens (ficar na casa de conhecidos eliminava os custos de hospedagem e, em alguma medida, de traslados e alimentação), ajudando a viabilizá-las, quanto por facilitarem o acesso a informações (como condições do mar em diferentes praias) e os trâmites do dia-a-dia (facilita muito a vida do viajante, especialmente o monoglota, estar acompanhado de alguém com conhecimento de hábitos e idioma locais). Esta questão, que tem aparecido em diferentes fontes em minhas pesquisas, ainda não foi explorada pelos estudos históricos sobre o surfe – ao menos aqueles publicados em inglês, espanhol ou português.

Terceiro, algumas das menções ao Brasil e aos brasileiros. O autor destaca a beleza de uma mulher (a anfitriã), usa a palavra selvagem para adjetivar as noitadas (o termo também aparece com frequência nas caracterizações da África do Sul feitas por estrangeiros – brasileiros, inclusive) acompanhadas de “gente amigável” que vivia apenas o presente. As intensas atividades de lazer e o estímulo dos anfitriões quase levam o viajante mudar os planos e esticar a estada para incluir o período do Carnaval.

Por fim, a decisão do piloto de realizar uma escala imprevista durante o voo Rio de Janeiro-Lima é classificada como parte de um “verdadeiro estilo sul-americano” – a ver se tal categorização aparecerá em outras edições quando se menciona o Brasil e demais países do continente. Os sul-africanos seguiram viagem rumo a terras peruanas e, posteriormente, da América do Norte, onde os meses iniciais do ano correspondem ao inverno. No Canadá, como se pode notar nas fotos que ilustram a página, os sul-africanos praticaram esqui e snowboard. Era muito comum, na época, que os adeptos de uma modalidade dedicassem parte relevante do seu tempo a outras. No caso do surfe, aqueles com acesso a áreas com neve (como alguns estadunidenses e franceses, por exemplo), costumavam praticar esportes de inverno durante férias, feriados e períodos com pouca oferta de boas ondas. Esse intercâmbio de modalidades é um aspecto ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a história do esporte que situam seu recorte na segunda metade do século XX – talvez nos levando a acreditar numa excessiva especialização que não correspondia à experiência concreta do adepto comum, e quiçá tampouco de vários atletas de ponta no âmbito competitivo mais comercial/profissional.

Para saber mais

Conferir os trabalhos do historiador Glen Thompson, incluindo sua tese de doutorado Surfing, Gender and Politics: Identity and Society in the History of South African Surfing Culture in the Twentieth-Century, defendida em 2015 na Stellenbosch University. Agradeço a ele por me facilitar a consulta de seu acervo pessoal de revistas sul-africanas, entre as quais a edição mencionada neste texto.

Uma coleção de capas escaneadas de Zigzag está disponível no site de Al Hunt.

A pesquisa que deu origem a este post tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (2017).

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Chico Buarque – o futebol (BRA, Roberto de Oliveira, 2006)

12/08/2019

CARTAZ CHICO BUARQUE 0 O FUTEBOL

Pelé (no campo de Politheama) –  Aqui você fez quantos gols?

Chico Buarque  – Eu perdi a conta, Pelé…rs. Até  mil eu contei, depois… O milésimo eu me lembro, mas isso já faz muito tempo (gargalhada).

 

O diálogo acima ilustra o tom jocoso e divertido do filme de Roberto Oliveira, Chico Buarque – o futebol (2006). Pelé, Ronaldinho Gaucho, Pagão (Paulo César Araujo, jogador do Santos, companheiro do Rei) são os principais convivas dessa conversa entre a música e a bola. Ao longo de seus 77 minutos de duração, Chico Buarque vai traçando uma auto-história sentimental de sua experiência como torcedor, admirador e jogador amador. Além do Chico, a maior estrela da fita é o Politheama, o mundialmente ilustre time do cantor. Trata-se de coisa séria, como sempre no que tange ao futebol. O Politheama tem hino (interpretado por Chico, na abertura da filmagem), etimologia (Poli = muitos, theama = espetáculos) e um cartel insuperável: “2.600 jogos oficiais, 26 anos, nenhuma derrota… alguns empates”.

Parte da película narra e mostra as aventuras internacionais do Polithema em Portugal, França e Hungria. Na ‘excursão’ à Espanha, Chico aproveita pra trocar figurinha com Ronaldo Gaucho, em um hilário confronto (verbal) de técnica entre o craque do Barcelona e o titularíssimo do Politheama.

A maior parte da fita, porém, gira mesmo em torno das muitas impressões e memórias futebolísticas de Chico: sobre a copa do mundo de 1950, sobre o Fluminense, o Santos de Pelé, Pagão e Cia. etc. É em meio a essas reminiscências que uma série de canções (que abordam ou tangenciam o jogo de alguma forma) vão sendo desdobradas e interpretadas. Inclusive a canção tema, O futebol, do próprio Chico Buarque (https://www.letras.mus.br/chico-buarque/681103/).

Futebol, música e Chico Buarque. É só isso. E tá bom.


UM HIPÓDROMO BEM LONGE: MAIS ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O CLUBE DE CORRIDAS SANTA CRUZ

02/08/2019

Por Victor Andrade de Melo

O assunto já foi neste blog abordado pelo amigo e irmão Nei. Por o considerar fascinante, e por ter recentemente concluído uma pesquisa sobre o tema, resolvi apresentar algo mais sobre o Clube de Corridas de Santa Cruz.

Abaixo podemos ver um mapa com todos hipódromos do Rio de Janeiro, à exceção do de Santa Cruz. Perceba-se que todos se encontravam muito próximos, na área de São Francisco Xavier, Maracanã, Vila Isabel, Tijuca e São Cristóvão.

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Planta do Rio de Janeiro, 1900.
<http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart451453/cart451453.jpg&gt;
Em azul, o Jockey Club. Em cinza, a região onde se encontrava o clube de Vila Isabel. Em verde, o Turf Club. Em vermelho, o Derby Club. Em lilás, o Hipódromo Nacional. Em laranja, a região onde se encontrava o Prado Guarani. Em amarelo, a Quinta da Boa Vista.

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Para que tenhamos uma ideia da distância do Clube de Santa Cruz, olhemos a imagem abaixo. Isso trouxe grandes dificuldades para a sua manutenção, especialmente no que tange ao transporte de público e de animais, problema atenuado, em dias de páreos, com a oferta de trens extras que saíam da Central do Brasil.

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Para que se tenha uma ideia da distância, em vermelho vemos a área onde se encontravam o Jockey e o Derby e em azul o local do Club de Corridas Santa Cruz
Mapa do Distrito Federal/1911
<http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart177671/cart177671.jpg&gt;

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O Clube de Santa Cruz começou a funcionar em 1912, contando com uma diretoria formada por importantes personagens do bairro – dirigentes de empresas públicas e privadas ligadas à agropecuária, comerciantes, profissionais liberais.

O primeiro presidente foi o médico Adelino da Silva Pinto, diretor do Matadouro, onde trabalhou por mais de uma década. Como vice-presidente, assumiu o suíço naturalizado Ernesto Durisch, coronel da Guarda Nacional, fundador da Companhia Agrícola e Pastoril Santa Cruz (dedicada ao cultivo do arroz e à criação de gado), proprietário de muitos terras na região, um dos maiores criadores de cavalo do subúrbio, homem de grande poder.

Entre outros dirigentes, como secretário assumiu Victor Villon, sócio da firma Leal & Villon, estabelecida no bairro, dedicada ao comércio de vinagres, xaropes e licores. O diretor do prado era Antonio de Moura Costa, durante anos funcionário da Fazenda Santa Cruz, onde atuou como cobrador e superintendente. O comerciante de carnes Francisco Martins Costa foi eleito diretor de corridas. Como responsável pelo Stud Book atuava Olympio dos Santos Pimentel, veterinário que possuía grande envolvimento com o Tiro de Santa Cruz.

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O Século, 21 jan. 1915, p. 2

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Na temporada de 1913, para atrair mais público, a diretoria executou uma série de mudanças, sendo a mais importante a ampliação e reforma da pista e da arquibancada, bem como a construção de uma estrutura para receber os animais que viriam de outras regiões (novas cocheiras e adoção de procedimentos para bem acolher os cavalos), de forma que não precisassem mudar de local de treinamento, chegando e voltando no mesmo dia das provas.

Além disso, as inscrições dos competidores (cavalos e jóqueis eram inscritos pelas coudelarias, empresas de criação) passaram a ser feitas no estabelecimento de J. Garcia Seabra, um dos líderes do turfe fluminense desde o século XIX, dono de uma das mais importantes casas de apostas. Localizada no Centro, tornava mais fácil a participação dos interessados, bem como a divulgação dos eventos. Era usual que por lá os adeptos procurassem informações sobre os páreos.

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O Imparcial, 21 jan. 1913, p. 7

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Ainda assim, enfrentou muitos problemas a agremiação, boicote de proprietários e jóqueis, o que resultou no adiamento da inauguração de sua nova fase, ao fim realizada em março de 1913.

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O Imparcial, 23 mar. 1913, p. 12

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A imprensa se dividiu ao avaliar a iniciativa. A maior parte, mesmo com algumas críticas, elogiou os esforços do Clube de Santa Cruz. Uma parte, contudo, não apreciou os arranjos apresentados. A capa de O Imparcial do dia 25 de março de 1913 dedicada à inauguração do novo hipódromo é um exemplo desses contrapontos.

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As imagens são contrastantes. Na parte superior, se vê um acidente fatal que houve com uma égua. Uma visão não exatamente positiva. Na inferior, apresenta-se o hipódromo lotado, uma demonstração de sucesso. Essa dubiedade é bem uma expressão da trajetória do prado. De um lado, o bom afluxo de público era um sinal alvissareiro. De outro, não se verificou o glamour que cercava as atividades do Jockey e do Derby.

No decorrer da temporada, o clube de Santa Cruz seguiu enfrentando dificuldades para preparar um programa atrativo, tendo mesmo que adiar algumas corridas em função da ausência de inscrições. De toda forma, a diretoria seguiu aperfeiçoando o hipódromo e criando estratégias para atrair o público que, de fato, foi crescente. Nas corridas de 30 de março, se deu a maior arrecadação até então.

Sentia-se a diretoria estimulada por esses resultados e por um setor da imprensa que apresentava a agremiação como a grande novidade turfística da cidade. Para o cronista de O Imparcial, “vivem nossos turfmen entusiasmados com esse novo prado (…)”[1].

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Hipódromo do Club de Corridas Santa Cruz.
Disponível em <https://pt-br.facebook.com/AntigoSantaCruz/posts/829177303805283&gt;

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Nem todos do meio turfístico compartilhavam dessa opinião. Ao final da temporada, o clube não chegou a ser efetivamente aceito no seleto grupo das tradicionais agremiações da modalidade.

No decorrer de 1914 e 1915, foi se ampliando o afastamento da agremiação de Santa Cruz. As represálias e conflitos se tornam explícitas no início de 1915. O Club de Corridas marcou sua atividade inaugural no mesmo dia da entrega da Taça Seabra, uma das ocasiões mais festejadas do turfe fluminense (a mesma que, em 1913, a diretoria fez questão de se fazer representar). O cronista de O Paiz criticou tal postura por representar uma desconsideração com a imprensa, que não poderia se fazer presente por estar envolvida com o festejo[1]. Não deixou de ironizar ao sugerir que o prado de Santa Cruz se celebrizou “pela serie enorme de circunstâncias que obrigaram o público a se esquivar de frequentar o hipódromo”.

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O Século, 9 jan. 1915, p. 4

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O que ocorre é que o clube de Santa Cruz, a despeito das críticas, parece ter logrado conseguir popularidade no bairro e redondezas, se constituindo em uma valorizada opção de lazer local. Como sugere um cronista, “só se fala em corridas, o assunto é corridas entre os que vagueiam e fazem pontos nos cafés e botequins, e os que mourejam na luta pela vida; até nos lares, entre as famílias (…)”[1].

O cronista de O Paiz, mesmo com as já citadas antipatias, reconheceu a popularidade da agremiação. Na sessão inaugural de 1915, segundo seu olhar, estiverem presentes cerca de 2.500 pessoas das “mais distintas famílias desta capital e da zona rural”[2].

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O Século, 18 jan. 1915, p. 2

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A questão a responder era quanto tempo o Club de Corridas conseguiria superar as limitações estabelecidas para se manter ativo. Uma observação de um cronista pode funcionar como um prognóstico pelo não dito. No seu olhar, “ao pitoresco hipódromo de Santa Cruz nada lhe falta para que em pouco tempo progrida e possa competir com as nossas melhores sociedades”[1], tinha boa pista, era adequado o local do prado, a diretoria era honesta. Sem o dizer explicitamente, todavia, desconfiava que muitas seriam as dificuldades para que essa possibilidade se materializasse.

A despeito dos bons resultados, pareciam insuperáveis as dificuldades de compor um bom programa em função da carência de animais disponíveis. Para um cronista, a agremiação continuava tendo que enfrentar uma velha conhecida, a “má vontade de alguns proprietários”[2]. Outro criticou “as exigências dos proprietários, tratadores, jóqueis e uma infinidade de interessados que nos dias de inscrição” apresentam “indicações, lembrando conveniências, exigindo vantagens”[3].

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Theatro e Sport, 19 jan. 1918, p. 16

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Depois de encarar dificuldades em 1916 e 1917, em 1918, a agremiação ainda promoveu quatro provas, mas tinha logrado má fama. Fixara-se sobre o prado a ideia de que “amaxixou-se”, tornou-se uma bagunça.

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Careta, 23 de março de 1918

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Ainda foram promovidas alguns corridas somente com animais locais. Essas ocasiões pouca repercussão tiveram na imprensa. Depois de anos tentando manter ativo o Club de Corridas Santa Cruz, a diretoria se deu por vencida. Encerrava-se a trajetória da agremiação turfística suburbana[1].

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Programa da última corrida do clube
Século, 29 mar. 1918, p. 10

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Para mais informações:

Um hipódromo suburbano: a experiência do Club de Corridas Santa Cruz (Rio de Janeiro — 1912/1918)

Topoi (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 20, n. 40, p. 157-184, jan./abr. 2019

http://www.scielo.br/pdf/topoi/v20n40/2237-101X-topoi-20-40-157.pdf

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[1] Aparentemente, durante algum tempo no lugar do hipódromo construiu um estádio um pequeno clube de futebol da região, fundado em 1926, o Sportivo Santa Cruz, que chegou a se sagrar vitorioso no campeonato de 1930 da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. Para mais informações, ver <http://cacellain.com.br/blog/?p=104023&gt;. Acesso em: 16 nov. 2017.

[1] O Paiz, 13 mar. 1914, p. 11.

[2] Theatro e Sport, 26 jan. 1918, p. 17.

[3] Theatro e Sport, 16 fev. 1918, p. 8.

[1] Jornal do Brasil, 9 jan. 1915, p. 3.

[2] O Paiz, 11 jan. 1915, p. 5.

[1] O Paiz, 4 jan. 1915, p. 5.

[1] O Imparcial, 29 mar. 1913, p. 6.


Francisco Pontes, o “Manolete” do Brasil

28/07/2019

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Em recente visita a um importante centro de prática e estudos sobre as touradas no mundo, a cidade de Córdoba, região da Andaluzia, na Espanha, pude sentir de perto toda a fascinação que os espanhóis possuem pela prática, assim como toda a sua significação histórica e identitária. Os toureiros, assim como os touros, são admirados e elevados a celebridades carregadas de virtudes. Nesse contexto, se destaca um personagem no cenário local, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, mais conhecido como Manolete, nascido em Córdoba em 1917 e falecido em Linares, também na Espanha, em 1947, com apenas 30 anos de idade após um golpe fatal de um touro Miura.

Sua morte comoveu país inteiro, sendo que, na época, o próprio ditador Franco ordenou três dias de “luto nacional”, durante os quais hinos fúnebres eram ouvidos no rádio. Em 2007 foi realizado um filme sobre a sua vida, “Manolete – Sangue e Paixão”. Tanto no Museu Taurino de Córdoba, quanto pelas ruas estreitas da cidade histórica, são inúmeras as referências a este, que pode ser considerado o mais celebrado toureiro de todos os tempos.

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Busto de Manolete – Museu Taurino de Córdoba

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No entanto, não foi somente no velho continente que esta admiração pelos astros da tauromaquia pôde ser notada. Guardadas as devidas proporções e o cuidado com as anacronias, o Brasil também teve o seu astro dos redondéis, o português Francisco Pontes, um dos mais notáveis toureiros a atuar no Brasil. Seu destaque se deu em grande parte do território brasileiro onde comandava um circo de touros itinerante. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela popularização da tauromaquia no século XIX, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia. Pontes era considerado o maior artista tauromáquico a visitar o Brasil.

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Francisco Pontes
O Toureiro, 1877

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Em Porto Alegre, Pontes tornou-se, também, renomado. Na temporada de 1881, chegou a receber de presente uma valsa, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza Lima, a ele oferecida como prova de simpatia e admiração pelos seus méritos artísticos.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas de 11 de agosto de 1889, tanto os bilhetes de sol como os de sombra foram acompanhados de seu retrato, que poderia ser retirado pela pessoa que os comprar antes de entrar para a corrida. Explicitamente desejava agradecer o público e a imprensa da capital sulina, pela maneira generosa que o acolhera, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à sua companhia e na valiosa proteção que lhe foi dispensada.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1909 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia de touros, em geral os toureiros, além de Pontes, receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico”. Isso tinha relação com o fato de que tinha força para suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena arena.

Nas corridas de Porto Alegre houve mulheres lidando com os touros. Em 1889, atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores, considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”, além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo, afamado touro.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1901 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro Miguel Tranzado, anunciada como a única neste difícil trabalho em toda a América do Sul. Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição.

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento social para com a prática. No caso das corridas que promoveu Pontes, era também uma forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas, como as abolicionistas, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão. Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi em uma sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros.

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Em tudo o que pudemos verificar nas touradas do século XIX no Brasil, nenhum outro “artista” tauromaquico logrou tanto sucesso quanto Francisco Pontes. Manolete na Espanha ou Pontes no hemisfério sul, o fato é que este desafio entre o homem e o animal, entre a força e a habilidade, aflorava sentimentos extremos por onde fora praticado. Na capital do império ou na Província de São Pedro, o toureiro conquistou o seu público, sua fama e está marcado na História. Afinal, o Brasil também tem o seu Manolete.

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Para mais informações:

* Tradição e modernidade: as touradas na Porto Alegre do século XIX
Cleber Eduardo Karls, Victor Andrade Melo
História Unisinos, v. 18, n. 2 (2014)
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2014.182.11


OS NEGROS VENCERAM EM SALVADOR

21/07/2019

Por Ricardo Pinto

Depois de tratar do racismo no futebol em Salvador, comum em todo o Brasil, resolvi apresentar a você, amigo leitor, um evento inusitado, porém, espetacular, que torna a capital baiana um objeto de pesquisa obrigatório para os estudos que tenham como tema a relação entre o futebol institucionalizado, a negritude e domínio do  cenário futebolístico.

Em Salvador, mais do que uma curiosidade, temos com o término do ano de 1911 e o inicio da temporada de 1912, um grande momento de ruptura. Na verdade, acreditamos que seja o ponto mais simbólico da história do futebol brasileiro quando tratamos da relação negro e futebol. Foi nesse período que os clubes da elite soteropolitana abandonaram a principal Liga da modalidade e, como consequência, clubes pequenos e médios assumiram de maneira absoluta o futebol “público” na capital baiana[1].

Em nenhuma outra capital, pelo menos não há qualquer pesquisa que aponte para esse cenário, clubes das elites, reconhecidos como os “grandes clubes”, tenham “desistido” do futebol, mesmo que temporariamente, por conta da ação de clubes pequenos e médios ou pela estrutura (precária) em que o futebol se encontrava. Vejamos alguns dados importantes:

Para o Campeonato baiano daquele ano estavam inscritos para a disputa os clubes Victoria, S. Salvador, Santos Dumont, Bahia e Rio Vermelho. Nada incomum até aquele momento. Entretanto, no decorrer do campeonato verificamos que os jogos já não mais despertavam interesse e dedicação dos jogadores dos “grandes” clubes e das suas torcidas. Tal fato, fica explicito em uma matéria do dia 9 de julho de 1912, que traz a seguinte critica:

O encontro dos velhos clubs S. Salvador e Victoria, anteontem, no ground do Rio Vermelho, não teve o interesse que devera despertar um match de campeonato.

Basta dizer que, às 3 horas, quando devia ser dado o kick de 2º teams, ainda não havia, em campo, metade de uma equipe.

E não sabemos como a Liga consente que se esperem jogadores até a hora em que eles queiram entrar no Field, quando as convenções do jogo tal não autorizam.[2]

Outra importante ação, em 1912, foi à iniciativa do Fluminense Foot-Ball Club em fundar na capital uma liga para, com definiu o periódico, os pequenos clubes S. Bento, Bahiano e White Foot-Ball Club. Essa medida, para além de demonstrar uma organização dos chamados pequenos clubes e o esforço na distinção, ela acaba gerando novas possibilidades para o cenário esportivo, no sentido de apresentar uma nova instituição para a filiação de clubes considerados pequenos, acabando com a exclusividade da Liga principal.

Em agosto de 1912, uma matéria deixa claro o cenário do futebol em Salvador. Vejamos:

Amanhã deveria ser jogado, no ground do Rio Vermelho, 0 11 match para o campeonato de 1912.

Não se realizará, porém, devido a ter o Sport Club Bahia, a quem cabia jogar contra o Rio Vermelho, abandonado a Liga Bahiana.

A retirada brusca do Bahia dessa associação vem bem confirmar, infelizmente, o pouco caso que fazem os nossos sportsmen de fatos como os que se deram no Rio Vermelho, num dos domingos últimos, e de que resultou a questão daquele club, um dos concorrentes aos campeonatos deste ano.

O fato, a que não quisemos aludir na ocasião, a fim de não ecoar fora da capital, depondo dos nossos hábitos, foi grave. Por isso, a atitude do Bahia, que se viu forçado a abandonar o campo, mereceu o apoio dos que ligam importância ao cultivo do sport entre nós.[3]

Verificamos mais uma vez o quanto os grandes clubes estavam desanimados com o formato do “novo futebol”. A atitude do Bahia seria apenas mais uma reação diante da aproximação entre clubes que expressavam valores simbólicos e reais de grupos sociais bem distantes do que representava o clube. Assim, acabaria se tornando compreensível a saída de um clube que expressava de forma clara e contundente, a sua aversão aos negros e ao que eles representavam.

Enquanto isso, a iniciativa do Fluminense em criar uma nova Liga foi tomando força com a chegada de mais clubes, como o Phebo, Olympic, Germânia e S. Bento. Para além da ruptura, vemos também nesse ano de 1912 o aparecimento com certa regularidade e destaque de partidas disputadas entre clubes de fora da “grande” Liga. Partidas como as disputadas entre os clubes União e Aurora, Veloz e Lutador e Herval e Democrata começam a aparecer em um cenário jornalístico que até então estava fechado aos pequenos clubes[4].

Em 1912, o Vitória e o São Salvador também deixaram a Liga Principal. Com isso, o cenário muda completamente, visto que o interesse por parte das elites pelo futebol tinha chegado ao seu ponto mais baixo. Afinal, o cenário que estava sendo forjado com a presença de clubes menores estava causando um desconforto irreversível e, acima de tudo, gerando uma evasão dos sócios dos clubes de elites para outro esporte.

Em geral, as elites passaram a buscar esportes em que as camadas populares não tivessem um acesso tão amplo e, principalmente, não causassem tanto desconforto. O que a princípio pode parecer o fim do futebol em Salvador, já que não havia mais interesse por parte da elite, fez gestar um novo futebol bem mais dinâmico e, sobretudo, democrático, haja vista os diversos campeonatos que passaram a ser disputados nas mais diversas localidades.

As elites, também, não abandonaram o futebol por completo, assim como acontecia em Porto Alegre, apenas passaram a jogar entre os iguais e em seus campos particulares dentro de seus clubes. Esse cenário de exclusividade chegou ao seu ápice com a criação, em 1916, do Bahiano de Tênis, clube que representou durante muito tempo o grande modelo para o cenário esportivo das elites soteropolitanas.

Enfim, a participação, cada vez maior, de clubes populares no futebol de Salvador acabou proporcionando uma vitória expressiva das camadas populares no cenário esportivo. Mesmo que temporariamente, já que a partir de 1919[5] as elites começam um movimento para retomar o poder no futebol, foram os populares que mantiveram vivo o futebol, naquele período, em Salvador.

Bibliografia

FERNANDES, Florestan. A integração do Negro na Sociedade de Classes: volume 1 e 2. São Paulo: Globo, 2008.

MAIA, Aroldo. Almanaque Esportivo da Bahia. Salvador: Helenicus. 1944.

SANTOS, Henrique Sena dos. Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador, 1901–1924. Dissertação de Mestrado. Feira de Santana. UEFS – 2012.

[1] Os considerados “grandes clubes” passaram a praticar o futebol apenas dentro de suas instalações, ou seja, de forma privada, não mais nos campos de rua, que tinham o caráter público como principal marca.

[2] Jornal de Noticiais, Bahia, número 9.687. Terça-feira, 09 de julho de 1912, pág. 2.

[3] Jornal de Noticiais, Bahia, número 9.709. Sábado, 03 de agosto de 1912, pág. 2.

[4] Henrique Sena, em sua dissertação, diz que o Fluminense, em 1907, fundou uma Liga com o propósito de acomodar os clubes modestos, a Liga Nacional Sportiva. Para isso, o autor usou como fonte o trabalho de Aroldo Maia. No entanto, em nossas pesquisas, não foi achado nenhum indicio da criação dessa Liga no ano indicado. Somente em 1911, como descrito acima, é que os jornais tratam da fundação de uma Liga de futebol com esse propósito. Não estamos com isso apontando para uma falha no trabalho do estimado pesquisador, apenas, neste caso, estamos tomando o cuidado em apresentar o que as fontes primárias nos possibilitaram aferir.

[5] Para saber mais sobre o retorno das elites ao futebol em Salvador ver em: Dissertação de Mestrado de Henrique Sena.

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Esportes nos sertões das Gerais

08/07/2019

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Recentemente veio à luz o livro Histórias do lazer nas Gerais, organizado por mim e pela professora Maria Cristina Rosa, colega na Universidade Federal de Minas Gerais, publicado pela editora da mesma universidade. O livro traz onze capítulos sobre a história do lazer em Minas Gerais em diversos períodos, do século 18 aos meados do século 20, escritos por diferentes autores e tratando de diferentes aspectos, desde diversões cotidianas como a frequência a bares e botecos, até o teatro, a dança cênica, as festas religiosas ou o turismo em estações termais, em distintas cidades de Minas Gerais. 

Mais alguns detalhes sobre o livro podem ser vistos em matéria publicada no Boletim da UFMG (veja aqui).

Os esportes, como uma das formas mais disseminadas de ocupação do tempo livre desde os princípios do século 20, estão também presentes no livro. Reproduzo abaixo trecho do capítulo dedicado aos esportes no interior de Minas Gerais, escritos por mim; por Euclides de Freitas Couto, professor da Universidade Federal de São João del Rei; por Carlos Fernando da Cunha Junior, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora; por Luciano Pereira da Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais; e por Georgino Jorge de Souza Neto, da Universidade Estadual de Montes Claros. 

“O debate historiográfico sobre o lazer relaciona-se de diferentes formas com questões relativas ao progresso e a modernidade. Desde as primeiras pesquisas que estimularam a inauguração de um campo de estudos especializados sobre o assunto, destaca-se uma originalidade ou ruptura fundamental no modo contemporâneo de organizar-se o tempo livre. Além de evidências documentais de fato disponíveis nesse sentido, a assimilação de um quadro teórico particular, concorreu decisivamente para a consolidação deste modo de olhar, logo elevado à condição de paradigma dominante nos estudos do lazer em geral, mas também na sua historiografia, em particular. Mais especificamente, a teoria da modernização serviu, e em larga medida serve ainda, como grade interpretativa através da qual apreendem-se transformações históricas no âmbito do lazer. De acordo com as linhas gerais desta interpretação, a organização social do tempo na modernidade representaria uma mudança radical e mais ou menos abrupta com as suas formas pré-modernas ou pré-industriais.

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Alunos do Ginásio Diocesano de Uberaba praticando esportes. Fonte: ARQUIVO PÚBLICO DE UBERABA. Uberaba: 100 anos de olhares e memórias (primeiro século, 1856-1956). Uberaba: Arquivo Público de Uberaba / NF Editora, 2009.

Coerentemente, são estes os termos por meio dos quais vêm sendo geralmente estudado o desenvolvimento histórico do lazer no Brasil. Para reforça-los, quase a despeito de quaisquer influências teóricas, em inúmeras ocasiões, práticas lúdicas diversas serviram, de fato, como índice de progresso dos costumes e evolução dos comportamentos. O teatro, o cinema, o circo, o baile, a soirée, a retreta, o piquenique, o espetáculo de música ou o passeio na praça ajardinada, foram objetos de uma retórica, quase sempre das elites, que os percebia como prova inequívoca de modernidade. Tudo isso afetou várias diversões públicas e privadas, mas parece ter sido especialmente verdadeiro para os esportes, que foram vistos e representados em toda parte como símbolo acabado de modernidade. Seus novos usos e concepções do corpo, sua codificação gestual peculiar, seu vestuário e mecanismos de comercialização, a excitabilidade emocional das competições, a sociabilidade pública e o espetáculo em si, foram alguns dos elementos que ajudaram a acentuar a percepção de que os esportes dramatizavam o advento de padrões de comportamentos sociais inovadores.

Nos sertões do Brasil, isto é, em cidades do interior, às vezes mais, às vezes menos afastadas dos centros urbanos onde tais transformações se desenrolavam de maneiras supostamente mais intensas, os efeitos de processos ou de ambições modernizadoras parecem ter sido especialmente dramáticos. Nesses lugares, historicamente marcados pelo estigma do atraso e do subdesenvolvimento, frequentemente surgiu uma quase obsessão entre certos grupos com qualquer novidade que pudesse comprovar, ou ao menos representar, a emergência de costumes reiteradamente tidos por “mais modernos” e em conformidade ao que se supunha ser o padrão de outros “centros mais avançados”. As novidades enquadradas neste prisma iam desde o telégrafo até a luz elétrica, passando pela linha férrea, pelos cinemas, mas também pelos esportes, que logo integraram esse corolário. Na verdade, processos modernizadores inauguraram mesmo novas formas de se refletir sobre performances corporais no espaço público. No curso desse processo, o corpo assumiu certo protagonismo nas interações sociais, apresentando-se como instrumento privilegiado para lutas simbólicas, que, literalmente, “incorporaram” a ética e a estética dos novos tempos. Com efeito, a introdução de práticas esportivas parecia ser condição indispensável para o estabelecimento de um novo homem, sintonizado com uma moral.

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Estádio do Athletic Club, Campeonato Municipal de São João del-Rei, 1919. Fonte: Projeto Nas vertentes do futebol. Universidade Federal de São João del-Rei.

Sobre essa temática, a historiografia brasileira produziu nas últimas décadas um volumoso e consistente corpus bibliográfico, que tem desvelado várias nuances do processo de disseminação de práticas esportivas nas grandes cidades brasileiras. No entanto, dada a dimensão continental do Brasil, que comporta uma infinidade de trilhas históricas a serem percorridas, investigar a introdução dos esportes nos sertões se apresenta como empreitada imprescindível. O estudo que ora se apresenta pretende oferecer uma contribuição nesse sentido. Desenvolvido no marco de um projeto que articula investigações de quatro universidades de Minas Gerais (além de outras duas da Bahia), envolvendo pesquisas nos acervos de diferentes instituições, concentramo-nos aqui na descrição e análise do desenvolvimento histórico inicial dos esportes em quatro distintas regiões: a Zona da Mata, o Campo das Vertentes, o Norte de Minas e o Triângulo Mineiro. Cada uma dessas regiões envolve circunstâncias bastante representativas sobre a história do desenvolvimento dos esportes em Minas Gerais, sem esgotar, todavia, toda a sua diversidade, ainda carente de mais pesquisas. Além disso, por diferentes motivos, acabamos por privilegiar também cidades específicas, em geral, as maiores e mais populosas de cada uma dessas regiões, que por isso mesmo desempenharam importante papel social, econômico, cultural e político sobre um espectro geográfico mais amplo. Dessa forma, São João del Rei, Juiz de Fora, Montes Claros e Uberaba ganham aqui visível destaque.

Todavia, ênfases sobre essas cidades não necessariamente implicam em prejuízo a quaisquer outras. Ao contrário, uma das características que se destacam na vida social nos sertões das Minas Gerais em princípios do século 20, quando registra-se o início ou a intensificação das suas práticas esportivas, é um fluxo inter-regional por vezes surpreendente entre diferentes cidades. Alimentos, manufaturas, populações, mas também culturas, incluindo aí os esportes, compunham os elos dessas cadeias complexas e multidirecionais nos sertões das Gerais. Assim, a ênfase sobre apenas algumas cidades, geralmente as maiores ou economicamente mais influentes, onde a documentação frequentemente é mais abundante e também melhor preservada que suas congêneres de menores proporções, deixam entrever acontecimentos desenrolados para além de seus limites mais imediatos, revelando uma trama que em muito as extrapolam. Nesse caso, a inauguração de clubes ou a realização de eventos esportivos em Queluz, Barbacena, Bocaiúva, Araxá, Araguari, Uberlândia, Lavras, Formiga, Ubá, Corinto, Leopoldina, Cataguazes, Curvelo, entre muitas outras cidades, exibem um mundo esportivo vibrante já, embora às vezes modesto, se comparado ao que acontecia em outras cidades ou regiões, mas nem por isso historicamente menos relevante. Não por menos, até anos avançados do século 20, Minas Gerais foi o estado mais populoso do Brasil, com uma economia ao menos razoavelmente desenvolvida para os padrões da época, com uma elite política nacionalmente influente”.


Devaneando o futebol

30/06/2019

Para Gilmar Mascarenhas

Resenha de A Vida pela Bola de Luiz Guilherme Piva[1] 

 Por Jorge Knijnik

 

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De repente – derrepentemente – o centroavante sentiu uma ausência. Não sabe de que, nem onde, tampouco quando. ‘Só repete que foi uma ausência’. Até os amigos parecem ficar meio de saco cheio desta ausência insistente, recalcitrante. Foi gol? Chutou? Pênalti? Não sabe, ninguém sabe. O que há é uma ausência.

Assim como em seu livro anterior, o magistral Eram todos camisa dez (sobre o qual alias eu escrevi uma pequena nota nos antigos blogs do CEV, comentário que nos transformou em amigos virtuais – um dia apertaremos as mãos!), o destaque da nova e não menos magistral obra do Piva são as ausências. As quais se fazem tão presentes enquanto vemos – sim, literalmente vemos – as histórias futebolísticas saltarem das páginas maravilhadas de A Vida pela Bola , se infiltrarem nas nossas salas e ocuparem todos os espaços de nossos devaneios dominicais.

As ausências de Piva definem, melhor, fornecem uma essência ao jogo. Ao verdadeiro jogo de futebol. O qual se transforma em vida ali nas suas páginas– ‘o resto, antes e depois, dentro e fora do botequim, sem o futebol, são derrotas – e sem ninguém para assistir’, pois afinal, estamos perdendo…sempre. A verdadeira vida ausente apresentada por Piva é a vida dos pobres. Dos excluídos de tudo. Vida vero vida, não este fantoche futebolístico que nos vendem (e pior, que nos compramos!) pela TV. Estas ausências consagram os personagens do livro. Mas também nos desesperam. Sem o chamado ao constante devaneio da bola, estas faltas nos paralisariam.

As crônicas de Piva nos levam a um ambiente de sonhos. De lembranças. Aquele livro e suas histórias saíram de nossas próprias vidas – vividas? Reais? Não sabemos ao certo, mas poderiam ter sido. Vidas na neblina – mas não nebulosas. Vidas de memorias distantes. Aconteceram? Certamente. Tal como o centroavante da crônica ‘Ausências’, vivemos cotidianamente submersos – e imersos – em devaneios futebolísticos.  Os quais são a matéria prima da obra-prima de Piva.

A Vida pela Bola  é um livro-artilheiro. Um 9 purinho. Um romário feito apenas de bico de chuteiras. Um dadá maravilha pairando sobre todos os campos de beira de estrada do Brasil.  Em ritmo de arquibancada-batucada de estádio antigo. E cheiro de vestiário de várzea, ao final da tarde. Ou talvez, da pré-varzea. Não existe, mas insiste. A sintaxe das crônicas, a sua pontuação, os seus entremeios, as palavras não ditas, tudo ali nos deixa resfolegantes. Quase que impedidos, em êxtase no meio do campo.  Segue o jogo. Sem VAR. Com nossos mais primordiais temores, terrores e amores, desenhados letra por letra, esculpidos a cada palavra, à beira de despencar do abismo, um fosso tão grande que paradoxalmente é capaz de nos unir, assim como os devaneios de Piva (ou os meus? já nem sei…) reuniram – na mesma crônica, na mesma página, no mesmo parágrafo, na mesma área – o centroavante cuja ex virou a atual do goleiro adversário. Uma parodia perfeita do English Team, digo, Dream.

Como eu disse acima, a gente não lê A Vida pela Bola. Este é um livro que a gente vê.  Cada crônica, um roteiro de filme. Ao manusear as folhas deste livro, se assiste a uma serie de curtas-metragens, ou talvez um longa com pequenas histórias ligadas pela linha invisível que une uma área a outra, cortando o campo verticalmente. Povoado com craques rejeitados, duelos amorosos, fantasmas e zumbis. Brigas e dinheiro. Chuvas torrenciais. Personagens sumidos e jogos inacabados. Enxofre, anjos e diabos. Pobres e filhos. Pais e derrotas.

E Kombis! As crônicas de Piva passeiam de Kombi por um mundo que, de tão fantástico, só pode ser verdadeiro.  Ao ler o livro, a gente embarca numa Kombi beeeeem antiga, cheia de amigos cantando o que der na telha, e que não querem – ou talvez nem consigam mais  – desembarcar…

 

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Há novas ausências neste livro. Há palavras não ditas – aliás, quais são as palavras que nunca são ditas? pergunta o roqueiro. Piva anuncia que, de tão fortes, estas não podem mais ser ditas – mas sim devem ser jogadas e vividas – pela bola. Entretanto, nos devaneios de Piva – ou nos nossos? as palavras ausentes, nos encharcam de sentido.  Nos transportam para o centro do redemoinho. Ensurdecedor em seu silencio. De onde brotam tesouros como um neologismo genial tipo ‘antiacalanto’.

Para quem não sabe – mas existe alguém tão ruim da cabeça ou doente do pé que não saiba disso? – as crônicas do Piva são publicadas periodicamente no blog do Juca.  Na contracapa do livro, Juca escreve que A Vida pela Bola ‘vale pela vida e pela bola’. O Kfouri comenta que as crônicas ali escritas são tão cheias de vida que, mesmo que não as tenhamos vivido, gostaríamos de voltar no tempo para vive-las novamente.

O Mestre tem razão.

O futebol de Piva contem a memória de tudo.

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[1] Luiz Guilherme Piva escreveu o posfácio de The World Cup Chonicles: 31 days that Rocked Brazil  e certamente vai adorar (!) meu jeito ‘sutil’ de usá-lo para fazer propaganda do meu livro! Seus livros sao pubicados pela editora Iluminuras.