Aspectos da gripe espanhola e as competições de polo aquático no Rio de Janeiro

03/04/2020

por João Azevedo (joaoazevedo9@gmail.com)

Este post tem o objetivo de somar e colaborar com outros textos produzidos recentemente por colegas da área. Os trabalhos apresentaram os campeonatos de futebol no Brasil e outras partes do mundo e também competições de baseball e hóquei no gelo na América do Norte, que sofreram impactos direto da gripe espanhola há pouco mais de cem anos atrás. Falaremos aqui, do campeonato de polo aquático do Rio de Janeiro e do primeiro sul-americano de polo aquático realizado no Brasil em maio de 1919, que também foi adiado em virtude do vírus da gripe espanhola em 1918.

O polo aquático teve sua primeira aparição em competições internacionais, em 1900. Nos Jogos Olímpicos de Paris. No entanto, ainda não existia uma confederação que regulamentasse o desporto em nível mundial. A criação da Federação Internacional de Natação (FINA) veio somente em 1908. Sendo assim, o esporte se espalhou pelo mundo de diferentes modos. No Brasil, especificamente, na cidade do Rio de Janeiro. O polo aquático teve seu início, nos clubes de remo.

Por volta de 1913, começam a surgir os primeiros torneios de polo aquático envolvendo clubes do então Distrito Federal. Os atletas, quase sempre, eram já praticantes de Remo e ou natação. Os jogos aconteciam geralmente nas praias da Urca, Santa Luzia e na Enseada de Botafogo.

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O Imparcial, Anno III, n. 411, 19 de janeiro de 1914. p. 1.

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Vida Sportiva, Anno II, n. 25, 9 de fevereiro de 1918. p. 15
Jogo na praia da Urca, entre as equipes do C.R Guanabara e Clube Natação e Regatas, que viria ser o campeão da temporada 1917.

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Geralmente realizados no verão, os torneios de polo aquático da cidade do Rio de Janeiro, começavam quase sempre no início da estação e iam até meados de março. Para o ano de 1918, estava programado a realização de um torneio sul americano de polo aquático no Rio de Janeiro, no final daquele ano. Contudo, a gripe espanhola aproximava-se do país e ameaçava a vida social dos brasileiros.

Uma triste coincidência aconteceu também naquela altura. Algumas autoridades responsáveis, trataram a influenza, como somente uma gripe. O diretor de saúde pública e o prefeito Amaro Cavalcanti, aparentemente fizeram pouco caso do vírus. O que se viu depois, foi bem diferente. A gripe espanhola infectou inúmeras pessoas, vitimando consideravelmente a população mundial e brasileira. Apesar do comportamento daqueles, a cidade sentiu os efeitos da influenza, esvaziando as ruas, fechando estabelecimentos, escolas e também os clubes.

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A Rua, Anno V, n. 264. 28 de setembro de 1918. p. 2.

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A Rua, Anno V, n. 282, 15 de outubro de 1918. p. 1.

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A Rua, Anno V, n. 282, 15 de outubro de 1918. p. 1.

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Diante deste quadro, a Federação Brasileira das Sociedades do Remo, entidade responsável pelos torneios aquáticos na cidade do Rio de Janeiro, resolveu adiar o início das competições. Os jogos de polo aquático que habitualmente começavam no fim do mês de dezembro, como já dito, tiveram seu início somente em 2 de fevereiro de 1919. A CBD (Confederação Brasileira de Desportos) organizadora do torneio sul-americano, também transferiu as competições que seriam realizadas em 1918, para o mês de maio de 1919. [i]

Ainda sobre os aspectos da influenza espanhola, a gripe vitimou entre tantas pessoas, dirigentes esportivos e atletas. Como por exemplo, o primeiro secretário da Federação de remo, Raul Vieira Machado[ii] o jogador de futebol do Fluminense Archibald French, o remador Marino Shiudler do São Christovão.[iii] Também faleceu devido ao vírus, o então eleito presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves. O político mantinha boa relação com os clubes de remo da cidade e era presidente de honra do Club de Regatas Boqueirão do Passeio, que prestou homenagens ao falecido.[iv]

O campeonato de polo aquático do Rio de Janeiro, válido pela temporada 1918, foi pela primeira vez disputado em uma piscina. Com a conclusão da construção da piscina do Fluminense Football Club e o fim do período estipulado pela Federação Brasileira das Sociedades de Remo, para o afastamento social devido a influenza, começou então a corrida pelo título de campeão de polo aquático. Seis equipes participaram do campeonato. C. R. Boqueirão do Passeio, C. Natação e Regatas, C. R. Vasco da Gama. C.R. Guanabara, C. R. Flamengo e C. R. São Christovão.

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Vida Sportiva Anno III, n. 78, 22 de fevereiro de 1919. p. 5.

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Essas são imagens da piscina do Fluminense Football Club, que não é esta que hoje existe na sede das Laranjeiras. Aquela piscina, possuía 30 metros de comprimento por 16 metros de largura e 3 metros e meio de profundidade. Era coberta e comportava cerca de 1.500 lugares para os espectadores.[v] Nesta foto a equipe do C. R. Flamengo disputa uma partida contra o C. R. Boqueirão do Passeio, que viria a ser o campeão da temporada 1918 do polo aquático do Rio de Janeiro.

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Equipe do Boqueirão do Passeio, campeão carioca 1918.
Vida Sportiva, Anno III, n. 87, 26 de abril de 1919. p. 11.

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Já na competição continental, participaram além da seleção nacional, a equipe da Argentina e do Uruguai. “Segundo telegramas de Buenos Aires, os argentinos estão trabalhando para enviar ao Rio um team para disputar o campeonato Sul Americano de Water Polo.”[vi] Dando grande cobertura ao evento e as equipes rivais, o semanário Vida Sportiva, apresenta as equipes concorrentes ao campeonato no dia 10 de maio de 1919.[vii] Neste mesmo, a equipe brasileira de polo aquático derrota os argentinos pelo placar de 14×0.[viii] A seleção argentina encerrou a sua participação no torneio dias depois com mais uma derrota, desta vez para os uruguaios por 3×0.[ix]

As regras do polo aquático já sofreram alterações, inúmeras vezes. Hoje em dia por exemplo, cada equipe começa a partida com 7 jogadores na água, sendo um goleiro e seis de linha. Ainda contam cada equipe com mais seis suplentes que podem ser substituídos quantas vezes forem. Naquela época, do campeonato de 1919, cada time possuía apenas os 7 atletas dentro d’água, sem a possibilidade de substituição. A equipe brasileira daquele sul americano, foi formada por jogadores de clubes cariocas, apenas. Entre os atletas, estavam presentes figuras já conhecidas e experientes da natação. Abrahão Saliture, dias antes de vencer o torneio de polo aquático, levou o ouro nas provas de natação também realizadas em âmbito sul americano. Também figuravam, Orlando Amendola, Angelo Gamarro e João Jorio, todos campões sul americanos de natação.

Na segunda e decisiva partida do torneio, a equipe brasileira derrotou os uruguaios pelo placar de 11×0, sagrando se campeã do primeiro campeonato sul americano de polo aquático. Mais uma vez, a revista Vida Sportiva, deu créditos ao polo aquático, estampando em sua capa de 31 de maio de 1919 a equipe brasileira campeã continental. A base daquela equipe embarcaria um ano depois para os Jogos Olímpicos de Antuérpia 1920, fazendo com que pela vez inédita o Brasil enviasse aos Jogos, uma equipe de polo aquático.

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Vida Sportiva, Anno III, n. 92, 31 de maio de 1919.

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Vida Sportiva, Anno III, n. 92, 31 de maio de 1919. p. 21.
Equipe brasileira na piscina do Fluminense F. C.

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Vida Sportiva, Anno III. n.103, 16 de agosto de 1919. p. 9.
Medalha oferecida pela CBD, aos campeões do sul americano de polo aquático em 1919.

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[i] O Tico-Tico, Anno XIII, n. 687, 4 de dezembro de 1918. p. 18.

[ii] O Paiz, XXXV, n. 12.521, 1 de janeiro de 1919. p. 1.

[iii] Vida Sportiva, Anno II, n. 65, 23 de novembro de 1918. p. 21.

[iv] O Tico-Tico, Anno XIV, n. 694, 22 de janeiro de 1919. p. 18.

[v] O Imparcial, Anno IX, n. 1213, 30 de janeiro de 1919. p. 8.

[vi] Vida Sportiva, Anno II, n, 55, 7 de setembro de 1918. p. 18.

[vii] Vida Sportiva, Anno III, n. 89, 10 de maio de 1919. p. 3.

[viii] O Imparcial, Anno IX, n. 1211, 11 de maio de 1919. p. 11.

[ix] O Imparcial, Anno IX, n.1222, 21 de maio de 1919. p. 8.

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O ESPORTE EM TEMPOS DE PANDEMIA: LIÇÕES DA GRIPE ESPANHOLA DE 1918-1919.

30/03/2020

por Maurício Drumond

Vivemos um momento de exceção. Acompanhando a declaração da Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020 da pandemia de Covid-19, causada pelo novo cornonavírus (Sars-Cov-2), diversos países e organizações internacionais, dentre elas as esportivas, passaram a adotar medidas enfáticas visando sua contenção e combate.

Em um país onde o Presidente da República afirma, indo contra todas as indicações de organizações e especialistas nacionais e internacionais da saúde, que a pandemia não passaria de uma “gripezinha” ou de um “resfriadinho” para ele, que teria um suposto “histórico de atleta”, faz-se mister analisarmos o impacto da pandemia em atletas e no mundo do esporte.

Na contramão do que afirma o presidente, é grande a lista de atletas profissionais, estes sim com real “históricos de atleta”, que contraíram o Covid-19 e sentiram seus efeitos. No futebol, diversos jogadores já testaram positivo para a doença, como Paulo Dybala e Blaise Matuidi, da Juventus, assim como o ex-jogador Paolo Maldini, agora dirigente do Milan. O Valência, da Espanha, informou que 35% de sua equipe contraiu a doença, preservando o nome dos atletas. Já no basquete, entre outros astros da NBA, o nome de Kevin Durant se destaca. MVP das finais por dois anos seguidos (2017-2018), o atleta encontra-se atualmente em quarentena, se recuperando em sua casa. No vôlei masculino, o jogador Earvin Ngapeth, da seleção francesa, chegou a ser hospitalizado devido ao vírus. Em suas redes sociais, o jogador declarou: “Eu testei positivo para # covid19 há uma semana. A parte mais difícil ficou para trás, passei 3 dias complicados, mas agora acabou, vou sair do hospital em uma semana. Todos vocês, fiquem em casa, isso não acontece apenas com os outros”

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Imagem 1: Pùblicação de Earvin Ngapeth em rede social.

Um dos casos mais impactantes de atletas afetados pela covid-19 até o momento, no entanto, deve ser o do medalhista olímpico de natação sul-africano Cameron van der Burgh. O recordista mundial de 50m nado peito declarou em suas redes sociais: “É, de longe, o pior vírus que já encarei, apesar de ser um indivíduo saudável com pulmões fortes (não fumar/praticar esporte), viver um estilo de vida saudável e ser jovem”.

O impacto nas competições esportivas não foi diferente. Até mesmo os Jogos Olímpicos de Tóquio, originalmente agendados para ocorrer entre julho e agosto de 2020, foram adiados para o mesmo período de 2021. No futebol, os impactos começaram com a realização de jogos sem público, medida que foi rapidamente suplantada pela suspenção de jogos das principais competições nacionais e internacionais do planeta. No Brasil, os campeonatos estaduais e regionais foram suspensos, com o campeonato mineiro sendo o primeiro a parar, no dia 15 de março, e o roraimense o último, no dia 20. Os campeonatos nacionais, como a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro Sub-17 e a Copa do Brasil Sub-20, no futebol masculino, e os Campeonatos Brasileiros Femininos A1 e A2, foram suspensos. Os Campeonatos Brasileiros Masculinos, ainda não iniciados, também estão suspensos. As principais ligas ao redor do mundo também foram interrompidas. Libertadores da América, Liga dos Campeões da Europa, os campeonatos nacionais europeus, todos suspenderam suas atividades, em uma ação que só teve paralelo na Segunda Guerra Mundial, se olharmos para a Europa. No caso dos países americanos, a ação é inédita.

Em outros esportes, o mesmo pode ser observado. Na Fórmula 1, os Grande Prêmios da Austrália e de Mônaco foram cancelados, enquanto os GPs de Barein, Vietnã, China, Holanda, Espanha e Azerbaijão foram adiados, e novos adiamentos devem ocorrer com o tempo. No basquete, a NBA suspendeu sua temporada indefinidamente no dia 11 de março. O mesmo ocorreu com hóquei sobre o gelo e outras competições.

Partindo da premissa de Heinrich Heine, de que o historiador é o profeta que olha para trás, podemos buscar exemplos na história que iluminem as ações que estão sendo tomadas, a fim de julgar sua relevância. E como em muitas outras áreas ligadas a essa nova pandemia, a comparação mais próxima a ser feita é com o caso da gripe espanhola, ocorrida nos anos de 1918 e 1919.

O impacto da gripe espanhola sobre o futebol já foi muito bem abordado no artigo do professor Elcio Cornelssen, publicado aqui na semana passada. No entanto, pretendo me ater não aos impactos da gripe no futebol, mas a diferentes competições esportivas organizadas no período.

A gripe espanhola teve como elemento central em sua difusão pelo mundo os momentos finais da Primeira Guerra Mundial. Por conta da Guerra, as principais competições esportivas internacionais já estavam suspensas desde 1914, especialmente na Europa. Na América do Sul, o Campeonato Sul-Americano de futebol masculino (que mais tarde seria renomeado como Copa América), foi adiado de 1918 para 1919 devido à pandemia. A competição programada para o Rio de Janeiro seria realizada no mês de maio de 1919, envolvendo apenas as seleções do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. O torneio se tornou célebre por ter sido o primeiro título internacional da seleção brasileira. O jogo final, contra o Uruguai, foi homenageado com a popular música de Pixinguinha, um a zero, celebrando o gol de Arthur Friedenreich.

Para além do futebol e da América do Sul, os Estados Unidos também mantiveram seu calendário esportivo inalterado durante a Grande Guerra. E por lá os esportes também sentiram o impacto da pandemia. Em muitos estados, os campeonatos escolares e universitários foram interrompidos e eventos com aglomerações públicas foram proibidos. No baseball, a final do campeonato nacional, chamada de “World Series”, foi disputada entre o Boston Red Sox e o Chicago Cubs no início de setembro, devido ao esforço de guerra (que só terminaria oficialmente em novembro daquele ano), o que a antecipou ao pior momento da pandemia. Em estados onde ainda se realizavam eventos esportivos, pode-se encontrar registros de jogadores utilizando máscaras durantes os jogos e de confrontos de equipes universitárias realizados com estádios vazios. Um caso curioso foi a proibição temporária, nos jogos de baseball, da chamada “spitball” (bola cuspida, em uma tradução livre), onde o arremessador cuspia na bola para alterar seu peso e sua resistência ao ar, dificultando assim a ação do rebatedor.

baseball foto

Jogadores de baseball utilizando máscaras durante jogo em 1919.

A competição que sentiria mais a ação da Gripe Espanhol, no entanto, foi a disputa do principal troféu de hóquei no gelo, a Stanley Cup. O confronto ocorreria em formato de “play-off”, com até cinco encontros entre as equipes campeãs das principais ligas do esporte na América do Norte. Pela Pacific Coast Hockey Association (PCHA), jogaram os Seattle Metropolitans, e pela National Hockey League (NHL), os Montreal Canadiens.

Seattle Metropolitans

Equipe do Seattle Metropolitans.

Vale lembrar que algumas regras diferiam entre as duas Ligas, assim os jogos 1, 3 e 5 seriam disputados com as regras da PCHA e os jogos 2 e 4 com as regras da NHL. Todos os jogos foram disputados no estádio de Seattle, e os Metropolitans saíram na frente, vencendo o jogo 1 por 7-0. No jogo 2, os Canadiens empataram a série, mas viram o time de Seattle voltar à liderança no jogo 3. O jogo 4, com regras da NHL, foi um épico empate em zero a zero, o que levou a decisão para o jogo 5, e com ela o debate sobre quais regras deveriam ser utilizadas. Ao final do debate, ficou decidido que utilizariam as regras da NHL, uma vez que o jogo era visto como um desempate do jogo 4. Ao final da prorrogação do jogo 5, o time de Montreal empatou a série com duas vitórias e um empate, o que levaria à realização do jogo 6. Esse jogo, no entanto, nunca foi realizado.

A pandemia de Gripe Espanhola atingiu as duas equipes e diversos jogadores foram hospitalizados. Com cinco jogadores da equipe de Montreal hospitalizados, o jogo 6 foi cancelado horas antes de seu início. Afirma-se que os dirigentes do Montreal Canadiens chegou a oferecer o título à equipe do Seattle Metropolitans, mas ao final das contas, foi decidido que nenhuma equipe seria declarada campeã naquele ano.

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Publicação do cancelamento do jogo extra da final. 

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Placa comemorativa na Stanley Cup referente à temporada de 1919

Quatro dias depois, no dia 8 de abril de 1919, Joe Hall, um dos atletas de Montreal hospitalizados, faleceu no hospital em Seattle, decorrente de pneumonia ocasionada pela gripe. Mesmo com seu histórico de atleta, Hall não resistiu à enfermidade. George Kennedy, técnico da equipe, também foi internado e temia-se o pior. Sua esposa veio de trem para acompanha-lo e ele acabou se recuperando.

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Joe Hall

Ainda que a história não se repita, e que as precauções adotadas hoje em dia sejam muito mais eficazes do que as de 1918-1919, podemos tirar uma desse evento uma lição. Só nos resta torcer para que fiquem todos bem.


O futebol e a gripe espanhola

22/03/2020

por Elcio Loureiro Cornelsen
FALE / UFMG
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq
cornelsen@letras.ufmg.br

 

Há cem anos atrás, grassava uma das pandemias mais devastadoras que atingiram a população mundial: “influenza”, a gripe espanhola. Embora as estatísticas sejam desencontradas, estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas foram vitimadas por ela, e por volta de 500 milhões de pessoas foram infectadas. Se compararmos com as estatísticas de letalidade da Segunda Guerra Mundial, que custou a vida de cerca de 60 milhões de pessoas em pouco menos de sete anos, a gripe espanhola grassou em um período bem menor, nos anos de 1918 e 1919, coincidindo, portanto, com o final da Primeira Guerra Mundial, a qual vitimou cerca de 17 milhões de pessoas em um pouco mais de quatro anos.

Por assim dizer, em 1918, além da guerra nos campos de batalha da Europa, travava-se outra guerra, com batalhas entre a vida e a morte no plano microscópico, causadas por uma pandemia de um vírus altamente contagioso e letal, que atacava o sistema respiratório dos infectados. A versão mais corrente para a origem da designação da pandemia como “gripe espanhola” é de que, em primeiro lugar, a Espanha não teria sido epicentro da pandemia, mas sim o país cuja imprensa mais noticiava sobre ela, uma vez que a Espanha não estava envolvida diretamente na guerra, enquanto outras nações, como Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Estados Unidos estavam sob censura de guerra. Tais países, já antevendo o final do conflito bélico, buscavam não baixar ainda mais o moral das tropas e das populações de seus respectivos países com notícias sobre um surto letal, mesmo que esse já grassasse nas trincheiras.

Entretanto, as opiniões em relação à possibilidade de se comparar a pandemia de gripe espanhola e a pandemia de coronavirus (Covid-19) são controversas. Exemplo disso é a matéria publicada pelo jornalista alemão Joachim Müller-Jung no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, disponível em sua versão online, datada de 14 de março de 2020, intitulada “Eine unvergleichbare Pandemie” (Uma pandemia incomparável). A legenda de uma fotografia da época mostrando barbeiros usando máscaras de proteção, enquanto cortam cabelos de fregueses em recintos abertos, enfatiza tal impossibilidade de comparação: “Nenhuma vacina, nenhum medicamento: muita coisa era semelhante, quando grassava a gripe espanhola em 1918. Todavia, o mundo era outro”.[1]

De acordo com o jornalista do FAZ, foi um “momento histórico de profunda depressão da civilização”, e o interesse recente pelo histórico da gripe espanhola seria derivado do contexto atual de pandemia de Covid-19, de modo que até especialistas em virologia estariam comparando-a com a “mãe de todas as pandemias modernas”.[2] Em St. Louis, cidade localizada no sul dos Estados Unidos, onde se supõe ter sido o epicentro da pandemia de gripe espanhola em 1918, eventos públicos haviam sido cancelados e aglomerações haviam sido evitadas logo após o registro dos primeiros casos fatais. Em várias cidades da região, escolas também haviam sido fechadas, enquanto que, na Philadelphia, havia ocorrido certo número de eventos com aglomeração de público. Em comparação, segundo Joachim Müller-Jung, enquanto em St. Louis o número de infectados subia lentamente, nunca atingindo o total de 50 mortos diários por 100.000 habitantes, os números na Philadelphia eram cinco vezes maior, 250 mortos diários.[3]

Em certo sentido, não obstante a opinião de Joachim Müller-Jung, tal quadro não deixa de ser elucidativo em alguns aspectos para o que ocorre no presente, com a pandemia de coronavirus se alastrando mundo afora. Uma dessas vozes que apontam semelhanças é o britânico Jeremy Farrar, um dos mais renomados especialistas em virologia, diretor da instituição de pesquisa londrina Wellcome Trust, que, em entrevista concedida à Deutschlandfunk, rádio alemã, designou a pandemia de coronavirus como o “Jarhhundertereignis” (acontecimento do século), assim como já havia ocorrido com a gripe espanhola em 1918.[4]

Guardadas as devidas proporções, assim como nos dias de hoje, em 1918, com a proliferação da pandemia de gripe espanhola, atividades e eventos que envolviam a aglomeração de público foram suspensos ou tiveram seu número drasticamente reduzido. De acordo com Edison Veiga, “[r]evisitar jornais brasileiros de 1918 é ler um cenário semi-apocalíptico que, infelizmente, carrega semelhança com os dias de hoje”.[5] A pandemia teria chegado ao Brasil através de “[p]assageiros a bordo do navio Demerara, que saiu de Liverpool, Inglaterra, em 14 de setembro de 1918”, sendo que “[a] embarcação fez escalas em Lisboa e, já no Brasil, em Recife e Salvador, até aportar no Rio de Janeiro”.[6]

A pandemia de gripe espanhola logo se fez sentir no âmbito do futebol em São Paulo. Recentemente, o jornalista Paulo César Coelho (PVC) publicou em seu blog do Globo Esporte uma matéria sobre a paralisação do Campeonato Paulista de Futebol, por três meses, a partir de setembro de 1918, “logo depois de os primeiros casos serem confirmados”.[7] Segundo PVC, “[a] partir de dezembro [de 1918], as partidas foram retomadas, mas apenas entre os times que tinham chance de título. Se um jogo não tivesse importância para efeito de classificação final, não era disputado, e como não havia descenso, a tabela ficou repleta de buracos”.[8]

Uma das principais forças do futebol paulista nas primeiras décadas do século XX, o Club Athletico Paulistano sagrou-se campeão daquele torneio conturbado. Como ressalta o jornalista Mario C. Gonçalves, em matéria recente publicada no Correio de Atibaia, naquela edição de 1918, não só a pandemia de gripe espanhola gerou tal cenário conturbado, mas também o pedido de desligamento da APEA – Associação Paulista de Sports Athleticos por parte do Palestra Itália que, sentindo-se prejudicado pela arbitragem, retirou-se da competição na sexta rodada do torneio, em 30 de junho de 1918, após derrota para o Paulistano. Segundo Mario C. Gonçalves, “[o] jogo em questão terminou com muita briga, polícia dentro de campo e até cavalaria”.[9]

Outra nota de destaque em relação àquele torneio recai sobre Arthur Friedenreich, centroavante do Paulistano e artilheiro da competição com 23 gols em quinze jogos disputados. Aliás, Fried escreveria de uma vez por todas o seu nome na galeria de craques do futebol brasileiro, em 1919, ao assinalar o gol da vitória da seleção brasileira na partida final do Campeonato Sul-Americano, disputada no histórico Estádio das Laranjeiras contra a forte seleção uruguaia. Para PVC, naquele momento tão delicado quanto o atual, os clubes paulistas deram uma lição de bom senso: “A história do Campeonato Paulista de 1918 mostra que foi possível entrar em acordo e até declarar um campeão com o bom senso dos perdedores”.[10] Além disso, o Club Athletico Paulistano montou um hospital de campanha em sua sede social, contendo vários leitos, num gesto de colaboração com as autoridades médicas, diante da carência de leitos disponíveis nos hospitais frente ao elevado número de pacientes em decorrência da pandemia.[11]

Além do Campeonato Paulista de 1918, que reuniu dez equipes – Associação Athletica das Palmeiras, Sport Club Corinthians Paulista (vice campeão), Sport Club Internacional, Associação Atlética Mackenzie College, Minas Gerais Futebol Clube, Palestra Itália (até a sexta rodada), Club Athletico Paulistano, Santos Futebol Clube, Associação Atlética São Bento e Clube Atlético Ypiranga – a gripe espanhola causou também a paralisação ou adiamento de outros dois torneios no Estado de São Paulo: o Campeonato do Interior, cujo início foi adiado para março de 1919, bem como o Campeonato Paulista da Segunda Divisão, iniciado em março de 1918, mas paralisado de outubro a final de dezembro daquele ano, sendo retomado e encerrado em fevereiro de 1919.[12]

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As matérias publicadas por periódicos paulistanos naquela época são elucidativas quanto à chegada da pandemia de gripe espanhola a São Paulo e a outras localidades brasileiras, e ao seu alastramento gradativo. O teor dos comunicados oficiais vai se alterando a partir de outubro de 1918. Se, na edição n. 19857 do Correio Paulistano, publicada em 16 de outubro de 1918, a nota do diretor do Serviço Sanitário, na p. 3, intitulada “A ‘influenza hespanhola’”, anunciava que “[a] população, não só de S. Paulo, como do Rio e de todo o Brasil, parece, pelas notícias telegitmamente alarmada com o apparecimento da chamada ‘grippe hespanhola’, que nada mais é sinão a gripe, a influenza commum”,[13] a nota publicada na edição n. 19869, de 28 de outubro de 1918, com o mesmo título, anunciava na p. 2 que “[o] número de casos novos notificados hoje, até ás 18 horas, elevou-se a 2.552, estando convalescentes 192 e curados 49. O numero de óbitos attingiu a 8”.[14] Em 07 de novembro, o número de óbitos já atingia a marca de 240.

Outras notas publicadas no Correio Paulistano revelam também como o esporte foi atingido pela propagação da “influenza”, conforme os seguintes textos sobre o turfe e, respectivamente, o futebol amador:

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Por sua vez, conforme escreveu PVC em seu blog, no Rio de Janeiro, então capital federal, o campeonato local não sofreu interrupção por conta da pandemia de gripe espanhola.[15] Ao todo, foram disputadas 18 rodadas e, ao final, o Fluminense Football Club sagrou-se campeão, em torneio que reuniu 10 equipes: América Football Club, Andarahy Ahtletico Club, Bangu Athletic Club, Botafogo Football Club, Carioca Football Club, Club de Regatas do Flamengo, Fluminense Football Club, Sport Club Mangueira, São Christovão Athletico Club e Villa Isabel Futebol Clube. Todavia, um jogador da equipe do Fluminense seria vitimado ao contrair o vírus: o meia esquerda britânico Archibald French, que havia chegado ao clube naquele ano, vindo do Bangu, onde atuara de 1915 a 1917. Nos doze jogos disputados com a camisa do tricolor das Laranjeiras em 1918, “Archie” French, como era chamado, marcou seis gols. Outro dado interessante sobre aquela edição do campeonato foi a de que o Fluminense perdera a última partida contra o Carioca Football Club, do Jardim Botânico, por WO, pois não teve jogadores suficientes em condições de entrar em campo.

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Na seção “Actos Funebres”, publicada no jornal Correio da Manhã, há duas notas em homenagem a Archie. A primeira delas anuncia sua morte em 29 de outubro de 1918 e conclama os amigos e parentes para uma missa em sua homenagem:

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A segunda nota anuncia “Solennes exéquias em memória dos sócios fallecidos” do Fluminense Football Club, que inclui o nome de Archibald French:

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A edição do Correio da Manhã, de 18 de outubro de 1918, 10 dias antes da morte de Archie, já anunciava medidas tomadas pelo governo federal diante da “Epidemia”:

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E o “cenário semi-apocalíptico”, apontado por Edison Veiga, se evidencia no seguinte anúncio da empresa farmacêutica alemã Bayer, publicado na revista Careta:

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Aliás, sobre tal “cenário semi-apocalípico” cabe uma breve referência extraída do livro de memórias de Nelson Rodrigues, A menina sem estrela (1993). Em seu estilo hiperbólico, o “anjo pornográfico” se refere a outro cronista esportivo ilustre do Jornal dos Sports, décadas depois, que teria sido forçado a fazer às vezes de coveiro na época em que grassava a gripe espanhola no Rio de Janeiro:

[…] Mas já andava por aí o Álvaro Nascimento, que hoje escreve no Jornal dos Sports sob pseudônimo de Zé de S. Januário. Na espanhola, ele foi caçado, quase laçado no meio da rua. O nosso Álvaro só adoeceu no fim da gripe e quase morreu quando já ninguém morria. Como eu ia dizendo: — deram-lhe uma pá e disseram-lhe: — “Vamos enterrar defunto!”.

E ele os enterrou, aos borbotões. Foi coveiro. E, ainda hoje, vê um morto, qualquer morto, como a um velho conhecido […][16]

Em suas memórias, Nelson Rodrigues, “hiperbolicamente”, escreve sobre a profusão de infectados e mortos, ao falar da “espanhola, a epidemia fabulosa”: “[…] Mas eis o que eu queria dizer: — vinha o caminhão de limpeza pública, e ia recolhendo e empilhando os defuntos. Mas nem só os mortos eram assim apanhados no caminho. E então, a carroça, ou o caminhão, parava. O cadáver era atirado em cima dos outros. Ninguém chorando ninguém.”[17] Nesse quadro, o caos atingia também os cemitérios da cidade, como indica a seguinte manchete do Correio da Manhã:

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A pandemia de gripe espanhola também fez suas vítimas em várias partes do mundo. De acordo com o jornalista Max Kern, em matéria publicada na página do canal suíço Blick, a pandemia custou a vida de 25 mil pessoas e causou o cancelamento de várias partidas de futebol no país. Conforme fora publicado no relatório anual da federação, a Schweizerischer Fussball- und Athletikverband, “na realidade, a fase final da Primeira Guerra Mundial não foi o maior problema para o andamento dos jogos na primeira divisão do futebol suíço. […] De natureza muito mais séria foram a onda imprevisível de gripe e a interdição do tráfego de trens aos domingos”.[18] Cabe esclarecer que, naquela época, as partidas de futebol na Suíça eram disputadas aos domingos. A escassez de carvão para movimentar as caldeiras das locomotivas impediu que torcedores tomassem trens e se deslocassem para assistir os jogos fora de suas cidades.

Outra fonte suíça, o Telebasel Sport Beitrag, da Basiléia, também noticiou, recentemente, sobre o coronavírus em comparação com a gripe espanhola. Na matéria intitulada “Das Coronavirus schreibt Sport-Geschichte” (O coronavírus escreve história do esporte), os articulistas Chris Stoecklin e Kim Realini assim definem o momento atual: “O mundo do esporte está parado. Não rola mais nenhuma bola. Nenhum bastão é vibrado no ar. Todas as competições estão paradas ou canceladas – tudo por causa de um vírus”.[19]

Em termos de datas, o período de paralisação do Campeonato Suíço guarda relações com o Campeonato Paulista: enquanto a APEA oficializara a paralisação em 18 de novembro de 1918, que, na prática, já havia se iniciado em setembro, após os registros dos primeiros casos de gripe espanhola na cidade de São Paulo, a primeira divisão do futebol da Suíça parou, parcialmente, de 18 de outubro a 15 de novembro de 1918, ou seja, pouco menos de um mês. Segundo Max Kern, dos 55 jogos programados para a temporada 1918/1919, apenas 15 foram realizados.[20]

Outro artigo interessante sobre o tema, publicado recentemente, revela que, em 1918, também o Campeonato Gaúcho foi interrompido. Em “Gripe espanhola e revoluções”, o jornalista Filipe Duarte aponta que o Campeonato sofrera três interrupções ao longo de sua história: em 1918 por conta da pandemia de gripe espanhola, e em 1923 e 1924 por conta da Revolução de 1923 envolvendo “chimangos”, adeptos do Partido Republicano Rio-Grandense, e “maragatos”, adeptos do Partido Federalista, e, respectivamente, por conta da Coluna Prestes. De acordo com a matéria publicada em 16 de março de 2020, no portal de notícias Gaúcha ZH, exatamente no primeiro ano em que o Campeonato seria realizado, com a fundação da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) em 18 de maio de 1918, isto não foi possível devido à chegada da pandemia de gripe espanhola ao Estado do Rio Grande do Sul nos últimos meses do ano, inviabilizando a realização do torneio. Segundo Filipe Duarte, “[a] ideia era confrontar os campeões das ligas municipais já existentes. Assim, participariam: Cruzeiro-RS (campeão porto-alegrense), Brasil-Pel (campeão pelotense) e 14 de Julho (campeão santanense)”,[21] algo que não se realizou.

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Em 1918, alguns atletas e ex-atletas também foram vitimados pela gripe espanhola em outras partes do mundo, entre eles, o escocês Angus Douglas, ponta direita que defendera a equipe do Newcastle United de 1913 a 1918, tendo sido jogador também do Chelsea, de 1908 a 1913. Com a interrupção do campeonato inglês por conta da guerra, em 1915, Angus Douglas trabalhou em uma fábrica de munições como parte do esforço de guerra e faleceu em 14 de dezembro de 1918, aos 29 anos de idade, após contrair o vírus da gripe espanhola, um mês após o armistício e o fim da Primeira Guerra Mundial, quando já fazia planos para retornar ao futebol e a sua equipe, à qual ainda estava vinculado. De acordo com o jornalista Rafael Reis, colunista do UOL Esporte, Angus Douglas “sobreviveu às durezas da Primeira Guerra Mundial, mas não conseguiu sobreviver a uma pandemia de gripe”.[22] Outra vítima da gripe espanhola na Inglaterra foi Thomas Allsopp, ex-jogador de cricket e de futebol, que atuou pelo Brighton, pelo Luton Town e pelo Norwich City entre 1899 e 1907. Durante a guerra, servira ao exército britânico como sargento. Após retornar do front em 1918, foi acometido pela “influenza”, que o vitimou em 07 de março de 1919.[23]

Se houve bom senso em 1918, como argumenta PVC em relação à suspensão temporária do Campeonato Paulista daquele ano, o jornalista reconhece que o cenário esportivo atual é muito mais complexo que aquele, sobretudo devido a fatores econômicos: enquanto que o futebol, na década de 1910, ainda era amador, desde os anos 1990, vivemos na era do futebol globalizado e mercantilizado, com cifras e investimentos astronômicos: “O esporte mundial sofre muito mais hoje porque os torneios remuneram de maneira diferente e os cancelamentos causarão prejuízos financeiros enormes”.[24]

De fato, algo se difere muito de 1918, não só pela dimensão alcançada e pela letalidade da gripe espanhola: na era das redes sociais e de um mundo cada vez mais conectado, as notícias são atualizadas constantemente, mesmo que certa censura ainda grasse em alguns pontos do planeta, como ocorria no contexto da Primeira Guerra Mundial. Praticamente, acompanhamos em tempo real o avanço da pandemia. Porém, na atualidade, em meio à apreensão e às incertezas em relação ao futuro, o ambiente do futebol ainda pode reservar gestos de solidariedade e também mensagens de que todos os cuidados devam ser seguidos, e que dias melhores virão, em que os eventos esportivos e sua cobertura voltarão a fazer parte de nosso cotidiano e de nosso lazer.

* Notas

[1] Eine unvergleichbare Pandemie. Frankfurter Allgemeine Zeitung, 14 mar. 2020. Disponível em: https://www.faz.net/aktuell/gesellschaft/gesundheit/coronavirus/corona-pandemie-ist-wenig-vergleichbar-mit-der-spanischen-grippe-16678110.html; acesso em: 17 mar. 2020. Todas as traduções do alemão e do inglês são de nossa autoria.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] JEREMY FARRAR NENNT CORONAVIRUS EIN “JAHRHUNDERTEREIGNIS” WIE DIE SPANISCHE GRIPPE 1918. Deutschlandfunk, 15 mar. 2020. Disponível em: https://www.deutschlandfunk.de/covid-19-jeremy-farrar-nennt-coronavirus-ein.2850.de.html?drn:news_id=1110748; acesso em: 17. mar. 2020.

[5] VEIGA, Edison. São Paulo já parou antes: gripe espanhola teve saques e cemitério 24h. UOL TAB. 16 mar. 2020. Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/14/presidente-doente-mortos-insepultos-como-foi-a-gripe-espanhola-no-brasil.htm; acesso em: 19 mar. 2020.

[6] Idem.

[7] COELHO, Paulo Vinicius. Crise do corona vírus só tem paralelo esportivo na gripe espanhola de 1918. Globoesporte, 12 mar. 2020. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-pvc/post/2020/03/12/crise-do-corona-virus-so-tem-paralelo-esportivo-na-gripe-espanhola-de-1918.ghtml; acesso em: 16 mar. 2020.

[8] Idem.

[9] GONÇALVES, Mario C. Campeonato Paulista de 1918 – gripe espanhola e o fim da primeira guerra. Correio de Atibaia, 15 mar. 2020. Disponível em: https://www.correiodeatibaia.com.br/esportes/campeonato-paulista-de-1918-gripe-espanhola-e-o-fim-da-primeira-guerra/; acesso em: 17 mar. 2020.

[10] COELHO, Paulo Vinicius. Crise do corona vírus só tem paralelo esportivo na gripe espanhola de 1918. Globoesporte, 12 mar. 2020. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-pvc/post/2020/03/12/crise-do-corona-virus-so-tem-paralelo-esportivo-na-gripe-espanhola-de-1918.ghtml; acesso em: 16 mar. 2020.

[11] VEIGA, Edison. São Paulo já parou antes: gripe espanhola teve saques e cemitério 24h. UOL TAB. 16 mar. 2020. Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/14/presidente-doente-mortos-insepultos-como-foi-a-gripe-espanhola-no-brasil.htm; acesso em: 19 mar. 2020.

[12] GONÇALVES, Mario C. Campeonato Paulista de 1918 – gripe espanhola e o fim da primeira guerra. Correio de Atibaia, 15 mar. 2020. Disponível em: https://www.correiodeatibaia.com.br/esportes/campeonato-paulista-de-1918-gripe-espanhola-e-o-fim-da-primeira-guerra/; acesso em: 17 mar. 2020.

[13] A ‘INFLUENZA HESPANHOLA’. Correio Paulistano. n. 19857, p. 3, 16 out. 1918. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/; acesso em: 16 mar. 2020.

[14] A ‘INFLUNZA HESPANHOLA’. Correio Paulistano. n. 19869, p. 2, 28 out. 1918. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/; acesso em: 16 mar. 2020.

[15] COELHO, Paulo Vinicius. Crise do corona vírus só tem paralelo esportivo na gripe espanhola de 1918. Globoesporte, 12 mar. 2020. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-pvc/post/2020/03/12/crise-do-corona-virus-so-tem-paralelo-esportivo-na-gripe-espanhola-de-1918.ghtml; acesso em: 16 mar. 2020.

[16] RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela: memórias. org. Ruy Castro, São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 57.

[17] Idem, p. 55-56.

[18]KERN, Max. Schon vor 102 Jahren stoppt Grippe Fussball. Blick. 11 mar. 2020. Disponível em:  https://www.blick.ch/sport/fussball/superleague/73-prozent-der-spiele-fallen-aus-schon-vor-102-jahren-stoppt-grippe-den-fussball-id15790254.html; acesso em: 16 mar. 2020.

[19] STOECKLIN, Chris; REALINI, Kim. Das Coronavirus schreibt Sport-Geschichte. Telebasel Sport Beitrag. 14 mar. 2020. Disponível em: https://telebasel.ch/2020/03/14/das-coronavirus-schreibt-sport-geschichte/?channel=3563; acesso em: 16 mar. 2020.

[20] KERN, Max. Schon vor 102 Jahren stoppt Grippe Fussball. Blick. 11 mar. 2020. Disponível em:  https://www.blick.ch/sport/fussball/superleague/73-prozent-der-spiele-fallen-aus-schon-vor-102-jahren-stoppt-grippe-den-fussball-id15790254.html; acesso em: 16 mar. 2020.

[21] DUARTE, Filipe. Gripe espanhola e revoluções: relembre as outras vezes em que o Gauchão deixou de ser disputado. Gaucha ZH. 16 mar. 2018. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/gauchao/noticia/2020/03/gripe-espanhola-e-revolucoes-relembre-as-outras-vezes-em-que-o-gauchao-deixou-de-ser-disputado-ck7ugqtyy04uh01pq6pgc1thf.html; acesso em: 16 mar. 2020.

[22] REIS, Rafael. Há 100 anos, atacante do Chelsea sobreviveu à guerra e morreu em pandemia. UOL Esporte. 14 mar. 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rafael-reis/2020/03/14/o-caso-do-jogador-do-chelsea-que-viveu-guerra-e-morreu-em-pandemia-de-gripe.htm; acesso em 17 mar. 2020.

[23] SERGEANT THOMAS CHARLESWORTH ALLSOPP – SOLDIER, CRICKETER AND FOOTBALLER. South-East-History-Boards. 09 fev. 2019. Disponível em: http://sussexhistoryforum.co.uk/index.php?topic=15127.0; acesso em: 16 mar. 2020.

[24] COELHO, Paulo Vinicius. Crise do corona vírus só tem paralelo esportivo na gripe espanhola de 1918. Globoesporte, 12 mar. 2020. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-pvc/post/2020/03/12/crise-do-corona-virus-so-tem-paralelo-esportivo-na-gripe-espanhola-de-1918.ghtml; acesso em: 16 mar. 2020.


Os primórdios do automobilismo fluminense: o caso da Corrida de São Gonçalo

16/03/2020

Por Eduardo Gomes  

eduardogomes.historia@gmail.com

Os últimos dias estão sendo difíceis no Brasil e no mundo, devido as ameaças globais da pandemia gerada pelo Coronavírus (Covid-19). Nesse cenário, peço licença para hoje escrever sobre um acontecimento que marcou os primórdios do campo esportivo fluminense no início do século XX, naquela que foi considerada a primeira corrida automobilística ocorrida no estado do Rio de Janeiro. Se hoje diversos eventos esportivos mundo a fora, estão sendo cancelados devido as ameaças do vírus, em 1909 a corrida aqui retratada foi um marco na região. Historicamente, tal fenômeno ficou conhecido como a “Corrida de São Gonçalo”, por ter ocorrido no munícipio homônimo que fica na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro que, naquela época, se tratava do Distrito Federal do Brasil.

Os automóveis chegaram ao Brasil na transição do século XIX para o XX. Mas quando o automobilismo se consolidou enquanto uma prática esportiva? Quando e onde ocorreu a primeira corrida do país? Quais cidades foram percussoras no desenvolvimento dessa prática esportiva em terras brasileiras?

É normal, ao realizar tais questionamentos, que os nomes das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, apareçam no imaginário relacionado aos primórdios de tal prática. Afinal, foram nessas duas cidades que o uso de automóveis começou a se disseminar com maior força pelo país. A chegada do Peugeot do “pai da aviação” Santos Dumont, que chegou no Porto de Santos em 1891; e do Serpolet de José do Patrocínio, desembarcado no Rio de Janeiro em 1895, explicitam o pioneirismo das duas localidades (MELO; PERES, 2016, p. 102).

No geral, o automobilismo enquanto esporte se desenvolveu com mais força no decorrer do século XX, apesar de já ter uma considerável importância na parte final do século XIX. As competições pioneiras da modalidade foram realizadas na Europa, ainda na década de 1890. E querendo inserir o Brasil nesse cenário de modernidade, essa “moda da velocidade” também chegou em terras tupiniquins.

Em 1908, ocorreu a primeira grande aventura com automóveis no país, com um percurso longo que ia do Rio de Janeiro até São Paulo. O francês Conde Lesdain o percorreu por completo pilotando um Brasier, modelo muito requisitado na época. Depois de 35 dias, conseguiu completar o trajeto. Para os espectadores daquele contexto, esse foi um grande marco para o desenvolvimento de corridas e para o avanço do uso de automóveis no país.

A primeira corrida organizada no Brasil, teve também São Paulo como espaço pioneiro. Trata-se do Circuito de Itapecerica, que ocorreu com a tutela do Automóvel Clube de São Paulo, criado em 1908. Itapecerica da Serra é um município da região metropolitana de São Paulo. Em mais de 70 quilômetros de percurso, seus competidores foram da cidade de São Paulo, de onde partiram do Parque Antártica, até Itapecerica da Serra, para então regressarem ao ponto inicial. Essa organização fez com que esse circuito ganhasse destaque como sendo a primeira grande prova “oficial” do automobilismo na história brasileira.

Na cidade do Rio de Janeiro, desde 1907, já havia sido criado o Automóvel Clube do Brasil, onde se iniciaram debates para, também, realizarem um circuito de corrida similar ao que ocorreu em São Paulo. Inicialmente, a proposta era de realizar o percurso dentro da própria cidade do Rio de Janeiro. Porém, uma série de fatos fizeram com que essa ideia fosse inviabilizada e o percurso da primeira corrida pensada na capital federal, foi transferido para uma cidade vizinha, a “novata” São Gonçalo, que em 22 de setembro de 1890 havia se emancipado de Niterói, então capital da província do Rio de Janeiro.

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A imagem em questão foi publicada no periódico Careta, na edição de 25 de novembro de 1909, representando parte do circuito da “Corrida de São Gonçalo”. Também pode ser encontrada na obra “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 107), escrita por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O interesse dos organizadores era, inicialmente, o de realizar a corrida no Alto da Boa Vista. Porém, tal hipótese foi logo descartada. Após as autoridades municipais, durante o governo do então prefeito Souza Aguiar no Rio de Janeiro, proibirem as corridas na localidade, os idealizadores da prova enxergaram na cidade de São Gonçalo uma fértil opção para realizarem o grande evento (MELO; PERES, 2016, p. 106).

A escolha de São Gonçalo como sede da primeira corrida em terras fluminenses, se deu por distintos motivos. Além da geografia favorável, ainda marcada por características bem mais rurais do que as vizinhas Rio de Janeiro e Niterói, o desenvolvimento industrial ocorrido na virada do século XIX para o XX, fez com que a cidade pudesse ser entendida como um espaço propício para a simbólica corrida, considerando o cenário de modernidade em que buscavam enquadrar tal evento.

A região de Neves, por exemplo, formava com outras adjacentes, como o bairro do Barreto em Niterói, o espaço que ficou conhecido no imaginário social como “Manchester Fluminense”. Notadamente, esse termo foi utilizado para representar a grande estrutura industrial e fabril desenvolvida naquele território, fazendo referência a cidade britânica famosa mundialmente por seu polo industrial. É óbvio que tais discursos possuem um teor ufanista e que, muitas das vezes, exacerbam a própria realidade local (REZNIK, 2002, p. 2).  Todavia, foi esse imaginário construído, a partir do avanço industrial ocorrido em Neves, que fez com que a região fosse cogitada como um espaço propício para a realização da corrida.

Sendo ou não a “Manchester Fluminense”, a relação que a região tinha naquele período com um determinado padrão de modernidade e tecnologia, ligados a questão das industriais, fez com que São Gonçalo pudesse se tornar o centro daquela que ficou conhecida como a “primeira corrida de automóveis em terras fluminenses”. De forma equivocada, alguns periódicos e escritores memorialistas da época, inclusive, diziam ser essa a “primeira corrida de automóveis do Brasil”, ignorando o já aqui citado Circuito de Itapecerica, ocorrido no ano anterior em São Paulo. O fato é que, sendo a primeira ou segunda corrida em âmbito nacional, o circuito gonçalense mexeu com o imaginário e referendou fortes identidades na cidade e regiões adjacentes, em um cenário ainda fértil e propício para a construção de diferentes símbolos locais que, em muitas situações, se tornavam nacionais.

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Imagem publicada no periódico Careta, Ed. 69, p. 13. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1909. Fonte: “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 105), livro escrito por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O percurso da corrida foi ousado. Totalizando 72 km, o trajeto vencido por Gastão de Almeida se iniciou no bairro industrial de Neves, mas percorreu quase toda a cidade, tendo seus competidores passado pelas regiões do Alcântara, Pacheco, Sacramento, Monjolos, Laranjal, entre outras. Percorreram, inclusive, a Estrado do Engenho Novo, passando pela famosa “Fazenda do Engenho Novo”. (1)

 “Mesmo sendo realizada em local distante, a corrida contou com bom público e teve grande repercussão, graças à ampla cobertura da imprensa. (2) Foi uma expressão de como o automóvel vivia um primeiro momento de popularidade na cidade, já assumindo uma função simbólica notável. As competições exponenciavam essa representação, deixando ainda mais claras as noções de desafio, aventura e velocidade” (MELO; PERES, 2016, p. 107).

O imaginário identitário acerca da memória dessa corrida, permanece no município até os dias atuais. Uma constatação do mantimento de tal memória, foi a inauguração de um monumento em 2009, no próprio bairro de Neves, que faz menção ao centenário da referida corrida, tendo sido essa a principal forma de reviver esse evento tão marcante na história da cidade, que ficou conhecida como o “berço do automobilismo fluminense”.

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Monumento que faz referência ao centenário da Corrida de São Gonçalo (1909-2009). Neves, São Gonçalo/RJ Fonte: https://simsaogoncalo.com.br/sao-goncalo/voce-sabia-que-2a-corrida-oficial-de-automoveis-do-brasil-foi-em-sao-goncalo/

PS: A base deste texto foi publicada originalmente em 24/11/2018, nas páginas do projeto “História Fluminense: Patrimônio, Memória e Educação”: http://historiafluminense.org/2018/11/25/a-corrida-de-sao-goncalo-primordios-do-automobilismo-brasileiro-em-terras-fluminenses-1-2/ e https://www.facebook.com/historiafluminense/photos/pb.351048125067306.-2207520000../1017792331726212/?type=3&theater

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NOTAS:

 (1) “O antigo Engenho do Novo Retiro pertenceu a diversos donos até 1830, quando foi adquirido por Belarmino Ricardo de Siqueira – Barão de São Gonçalo.

A Fazenda possui um conjunto arquitetônico em estilo neoclássico. Foi um dos principais trajetos da 2ª corrida automobilística do Brasil em 1909 e também serviu de cenário para as gravações da minissérie “Memorial de Maria Moura”, produzida pela Rede Globo.

Há lendas de que a fazenda foi palco de uma visita da Família Imperial, por volta de 1870, devido à amizade do Barão com o Imperador D. Pedro II.  O conjunto abandonado à própria sorte, não resistiu ao descaso e ruiu no início dos anos 2000.”

Maiores informações, ver: http://saogoncaloturismo.com.br/project/fazenda-engenho-novo/ Acesso em 15 de março de 2020.

(2) É interessante perceber a mobilização social que a corrida provocou, tendo aglomerado grande público, inclusive de mulheres, que nesse contexto ainda não se inseriam nas práticas esportivas como participantes, mas faziam parte dos eventos e das formas de sociabilidade provocadas por esses, na posição de espectadoras.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro. Manaus: Reggo Edições, 2016.

REZNIK, Luís. Qual o lugar da História Local? In: V Taller Internacinal de Historia Regional y Local. Havana – Cuba, 2002.

 

 

 


Duas vezes junho: duas Copas do Mundo, dois momentos de uma Ditadura brutal

03/03/2020

O presente post tem como tema a obra de ficção do escritor argentino Martín Kohan “Dos vecess Junio”, aonde a memória de duas copas do mundo se relaciona com uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina, o “Processo” argentino (1976-1983) em momentos distintos.

A maior parte do enredo acontece em junho de 1978, quando o personagem  principal e narrador da história, um jovem recruta das Forças Armadas argentinas procura se adaptar a função mesmo sem demonstrar muito entusiasmo pela instituição.

O rapaz acaba se envolvendo profissionalmente, mas também afetivamente com um importante médico militar, o Doutor Messiano, estabelecendo um certo vínculo de amizade com seu superior,  pois acaba sendo escalado para ser o motorista  dele e passa a conviver regularmente com o senhor e sua família.

A história começa com uma simples frase escrita em um caderno de notas em cima de uma mesa de uma caserna: “A partir de que idade pode-se começar a torturar um menino”. A partir daí a trama se desenvolve nos porões da ditadura argentina abordando de forma bem contundente, apesar da frieza do discurso do narrador ao relatar os fatos, um dos temas mais trágicos do período do terror que foi o sequestro de bebês das prisioneiras consideradas subversivas.

O caráter macabro da pergunta provoca uma imersão em um universo militar sombrio e irracional no qual a violência e a burocracia predominam no processo de tomada de decisões.

Paralelamente a descrição das diligências de soldados, prisioneiros e celas que remetem ao horror dos centros de detenção semelhantes à famosa ESMA (Escola Superior de Mecânica  da Armada), o ambiente da realização da Copa do mundo aparece como pano de fundo de uma história surreal onde a catarse da paixão pelo futebol me parece um elemento acessório à trama que acentua a brutalidade da cegueira coletiva com relação às atrocidades cometidas com os prisioneiros. Dentre elas uma das mais torpes que é a negação da maternidade para satisfazer desejos de famílias abastadas e protegidas pelo regime.

Um dos capítulos mais interessantes nessa perspectiva é quando o jovem soldado/motorista tem que procurar seu superior no estádio Monumental de Nuñez durante a terceira partida da seleção argentina no torneio contra a Itália, justamente quando sofreu sua única derrota no torneio. Acredito que a escolha do autor não foi por acaso, pois a descrição da saída dos torcedores do estádio para mim espelha simbolicamente o triste momento histórico vivido pelo país por tantos se calarem contra os milhares de presos, torturados e desaparecidos. A metáfora do silêncio dos torcedores argentinos após uma derrota do selecionado nacional parece se estender para toda Nação como uma crítica a passividade de muita gente diante do autoritarismo de um regime que promovia uma festa esportiva.

“ En filas desparejas se desconcentró la multitud callada. Era una larga procesión de cabizbajos, que no mostraban llanto por no ceder el gesto del que es bien hombre, pero que tampoco hablaban ni levantaban la vista. Se oía tan sólo el rasgado del andar sobre el pavimento o sobre las baldosas de las veredas, porque los pies tampoco los levantaba nadie, y al arrastrarlos se arrastraban los papeles rotos, la mugre general de los dias de partido, los pedazos de cualquier cosa.

No había semblante en que faltara la pesadumbre, En el desfile contínuo de las caras sin sosiego se veia la tristeza multiplicarse por milles, Yo iba viendo, también Callado,la manera em que pasavan incessantes los desconsolados: tanta gente, tantos milles y nadie tenía palabra alguna que decír. (PG 74)

No segundo junho quando ocorre o desfecho da obra, a narrativa é passada em  outra conjuntura da vida pessoal do narrador, e da própria ditadura argentina e o paralelo é feito com outra Copa do mundo de futebol.

O jovem não era mais militar e havia ingressado na faculdade de Medicina de certa forma como um desdobramento da sua relação pessoal com o Doutor Messiano, com quem se encontra depois de muitos anos para fazer uma visita de pêsames no dia em que está acontecendo uma nova partida da seleção contra a Itália.

A ditadura argentina do Processo caminhava para seu fim. Estava claudicante. Leopoldo Galtiéri havia renunciado após a trágica derrota nas Guerras das Malvinas que deixou centenas de jovens argentinos mortos e o sentimento patriótico destroçado.

Na Copa da Espanha, a então campeã do mundo com a grande estrela que havia se transferido para o Barcelona “El Pibe Maradona” não consegue demonstrar um bom futebol e acaba eliminada na segunda fase justamente após ser derrotada pela campeã Itália e o Brasil.

“En la radio emplean la palabra milagro. Los analista coinciden en juzgar a Brasil como el candidato por excelencia a obtener el campeonato. Consideran por tanto, que las chances de que la Argentina pueda derrotarlo en el próximo partido son muy pocas, para no decir nulas”. PG 184.

Neste sentido o futebol argentino não aparece também como esperança, mas sim como símbolo de derrota de um país que está esfacelado por uma guerra absurda ocorrida pelo destempero e desespero de uma ditadura falida.

Assim sendo, “Dos veces Junio” é um livro muito interessante que aborda através de uma complexa construção literária, intercalando passagens sombrias de uma história de roubo de bebê pelo Estado com uma genuína paixão pelo futebol do povo argentino um triste período da história do país que esperamos que não se repita nunca mais nem lá e nem aqui.

 


O skate vai ao cinema

23/02/2020

Por: Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

            Muitos ficaram surpresos com o resultado do Oscar 2020 quando viram o anúncio, no dia 09 de fevereiro, da vitória do curta-metragem documental Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) – Aprendendo a andar de skate em uma zona de guerra (se você é uma menina) – dirigido pela norte-americana Carol Dysinger e com produção de Elena Andreicheva. Este filme, de 39 minutos, retrata um grupo de garotas integrantes do Skateistan, um projeto social (sem fins lucrativos) fundado em 2007 por dois skatistas australianos, Oliver Percovich e Sharna Nolan, os quais tinham como objetivo introduzir o skate como um elemento de ludicidade para crianças e jovens afegãs de bairros pobres e que tiveram suas vidas marcadas pela violência. Esse documentário foi descrito por Orlando von Einsiedel (vencedor do Oscar em 2017 com Os Capacetes Brancos) como um “bonito retrato de esperança, sonhos e superação de medos”.

Figura 1: Cartaz do filme “Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)”, o qual traz também a informação que o mesmo havia vencido o prêmio de melhor curta-documentário no festival Tribeca no ano de 2019.

Mas não é de hoje, todavia, que existe uma relação muito forte entre cinema e skate. Neste post, iremos categorizar os tipos de filme que o envolvem, diferenciando documentários de filmes feitos por empresas de skate, assim como sua aparição em filmes de grande produção (muitas vezes breve) de seu uso em filmes independentes e realizados com baixo orçamento. Para tanto, elencamos quatro categorias que nos ajudarão a diferenciar esses diversos modos como o skate vem aparecendo nos cinemas e nas telas.

1 – Documentários sobre skate: Além do supracitado Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl), que ganhou a estatueta do Oscar, a prática do skate, e em especial determinados skatistas, vem sendo há tempos retratados em documentários. Um bastante relevante neste quesito é Dogtown and Z-Boys (2001/EUA), dirigido por Stacy Peralta, o qual venceu na categoria melhor diretor no Festival de Sundance em 2001 com esse documentário. O filme retrata a equipe de skatistas Z-Boys, em especial, o modo como eles influenciaram o desenvolvimento dessa atividade durante a década de 1970, e isso tanto no tocante ao estilo corporal (advindo do surfe) quanto na utilização de espaços inusitados para sua prática, como as piscinas vazias (as quais foram posteriormente reproduzidas com rampas de madeira no formato de um grande “U”, dando origem ao skate vertical). Além deles, também podemos citar aqui o reflexivo e trágico Stoked: the rise and fall of Gator (EUA, 2002, dirigido por Helen Stickler) que narra a vida do skatista norte-americano Mark “Gator” Rogowski, um grande expoente do skate vertical durante a década de 1980, mas que, num ato insensato, acabou preso e condenado por 31 anos pelo assassinato da amiga de sua namorada. Numa temática semelhante à de Stoked, o filme documentário Rising Son: The Legend of Skateboarder Christian Hosoi (EUA, 2006, dirigido por Cesario Montaño), buscou reproduzir a complicada trajetória do skatista Christian Hosoi (que junto com Tony Hawk, foi o skatista mais popular da década de 1980). Hosoi, de astro internacional desta prática, chegou a ser preso – por acusação de tráfico de drogas – e ficou durante quatro anos numa prisão federal dos EUA, chamada San Bernardino Central Detention Center.

No Brasil, destacamos o documentário Vidas sobre Rodas (2010), do cineasta paulistano Daniel Baccaro, produzido sob patrocínio de grandes empresas, como Guaraná Antarctica e Banco Bradesco. Exibido em circuitos de cinema alternativos, esse filme baseia-se na trajetória de quatro skatistas (Sandro Dias “Mineirinho”, Lincoln Ueda, Cristiano Mateus e Bob Burnquist) e por meio da biografia desses personagens, também narra aspectos da história do desenvolvimento do skate brasileiro. Na contracapa do DVD deste documentário, encontramos a seguinte descrição: “O filme irá contar a história do skate brasileiro nesses últimos 20 anos, um período marcado pela transição da marginalidade para a chamada fase pop, quando o skate nacional conquista seu espaço na grande mídia e com ele o respeito da sociedade como um todo”.

Figura 2: Cartaz do documentário brasileiro “Vida sobre Rodas” dirigido por Daniel Baccaro e lançado em 2010.

2 – Super produções: Existem muitos filmes de “grande produção” que fizeram uso do skate. Um dos principais exemplos neste sentido é Back to the future (De volta para o futuro), de 1985, do diretor Robert Zemeckis. Na trama, o skate aparece sob os pés do protagonista, interpretado por Michael J. Fox. Na continuação da franquia, com “De volta para o futuro II”, de 1989, a cena com o skate flutuante mexeu com a imaginação de toda uma geração (ver cena retirada do Youtube logo abaixo). Ainda neste mesmo campo de exemplos, podemos citar o longa-metragem Espetacular Homem-Aranha, dirigido por Marc Webb e que estreou no Brasil no ano de 2012. Esse filme retratou a saga do icônico herói dos quadrinhos como sendo ele, antes de tudo, um skatista (nas cenas de skate, o ator Andrew Garfield sedia lugar ao dublê, skatista e também praticante de parkour, Willian Spencer). O Homem-Aranha skatista foi visto por inúmeros espectadores ao redor do mundo e arrecadou uma grande bilheteria.

3 – Filmes independentes: Numa perspectiva menos comercial, existem os filmes de baixo orçamento e feitos por diretores que envolvem a prática do skate com o debate de questões sociais. Um dos mais premiados dessa categoria foi Paranoid Park (2007, EUA, dirigido por Gus Vant Sant), longa que gira em torno de um skatista de 16 anos – interpretado por Gabe Nevins – que acaba matando, acidentalmente, um segurança nas proximidades de uma pista de skate onde pratica. Nesta mesma linha, temos os filmes do diretor Larry Clark. No ano de 1995, Clark dirigiu Kids, filme que se tornou um marco em sua carreira e causou furor ao exibir nos cinemas o cotidiano junkie de um grupo de skatistas de Nova York (alguns dos protagonistas do filme eram, de fato, skatistas bastante atuantes nesta cidade, como Harold Hunter). Embalado por manobras de skate, uso de drogas e recheado de cenas de sexo adolescente, Kids acabou por denunciar a facilidade com que o vírus HIV estava sendo transmitido por uma geração que vivia o presente sem as clássicas perspectivas profissionais de futuro. Outro filme com direção de Larry Clark chama-se “Roqueiros” (Wassup Rockers, EUA, 2005), o qual aborda os problemas causados por um grupo de skatistas – ouvintes de punk rock – de um bairro pobre de Los Angeles que decidem, aleatoriamente, praticar skate numa das áreas mais nobres do condado de Los Angeles, Berverly Hills. Neste filme, além de debater a problemática da apropriação dos espaços urbanos e a repressão policial, Larry Clark também problematiza o contato entre jovens de diferentes classes sociais.

 

4 – Filmes produzidos por empresas de skate: A emergência desse gênero de filmes, com foco prioritário na execução de manobras de skate, teve início no ano de 1984 com o lançamento de “The Bones Brigade Video Show”, pela empresa Powell Peralta, a qual foi fundada no ano de 1978 por George Powell e Stacy Peralta. Essa marca veio a produzir, nos anos subsequentes, os filmes: Future Primitive (1985), The Search for Animal Chin (1987), Public Domain (1988), Ban This (1989) e Propaganda (1990). Tais filmes, assim como muitos outros que foram produzidos por diferentes companhias de skate, apresentam como objetivo principal exibir a técnica corporal dos skatistas membros de suas equipes, e isso tanto com filmagens realizadas nas ruas quanto em pistas. Por intermédio de tais filmes, nomes (antes desconhecidos) foram divulgados, pequenas marcas tornaram-se famosas e manobras (antes consideradas impossíveis) foram imortalizadas. Nos Estados Unidos, além da já citada Powell Peralta, muitas outras empresas produziram filmes com manobras de skate que se tornaram bastante cultuados. Dentre esses, destaca-se Video Days, produzido pela empresa Blind Skateboards e dirigido por Spike Jonze no ano de 1991. Entre os talentosos skatistas que aparecem neste filme, como Guy Mariano e Marc Gonzales, um deles, chamado Jason Lee, acabou se tornando um comediante festejado em seriados de televisão da NBC, onde fez fama com o engraçado e inusitado My Name is Earl.

Para finalizar esse post, ficamos com a parte do skatista Jason Lee em Video Days, de 1991. Essa parte foi retirada do Youtube e apresenta como trilha sonora as músicas “Real World” da banda Hüsker Dü e a canção “The Knife Song” do Milk.

PARA SABER MAIS

BRANDÃO, Leonardo. Trajetórias do skate no cinema: dos filmes de grande produção ao documentário Dogtown and Z-Boys. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de. (orgs). Comunicação e Esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014, p. 71 – 86.


Em defesa de arquibancadas mais plurais: rememorando a Coligay

17/02/2020

Luiza Aguiar dos Anjos (IFMG – Campus Formiga)

No dia 27 de março de 1977, o Grêmio fez sua estreia na 57ª edição do Campeonato Gaúcho de Futebol. O clube iniciava sua caminhada no torneio com a esperança de acabar com um longo período sem títulos, assim como interromper a série de conquistas estaduais do rival Internacional, que vinha de uma sequência de oito taças consecutivas, sagrando-se campeão anualmente desde 1969. Para agravar o incômodo gremista com o sucesso do principal adversário, a equipe colorada não se impunha apenas em seara local, tendo sido bicampeã nacional ao conquistar a Copa Brasil de 1975 e de 1976.

Ao longo da competição, os dois maiores times do estado fizeram o que se esperava deles: superaram os demais e decidiriam entre si quem seria o campeão estadual daquele ano.

O jogo derradeiro foi disputado no Estádio Olímpico. Em casa, em frente à sua torcida, era que o Grêmio buscaria encerrar aquele infeliz jejum de títulos.

O teor dramático da partida começou quando, aos 22 minutos de jogo, foi marcado um pênalti a favor do Grêmio. O atacante Tarciso, batedor oficial do time e com boa média de acertos, mandou uma bomba à esquerda do goleiro colorado, mantendo o empate sem gols. Mas não tardou para o placar ser inaugurado. Em um embate de ânimos cada vez mais exaltados, aos 42 minutos, ainda no primeiro tempo de jogo, o atacante André Catimba fez a festa dxs[1] gremistas. O momento tornou-se ainda mais memorável com a comemoração. O jogador tentou um salto mortal, mas interrompeu o movimento no meio do caminho, ao sentir uma distensão muscular, caindo de forma completamente desajeitada. Com a aproximação do fim da partida, a torcida tricolor não conteve a comemoração, pulando das arquibancadas e ocupando o campo. Trinta minutos passados da invasão, sem condições de retomar o jogo, o árbitro declarou seu encerramento. Após oito anos, o Grêmio voltava a levantar a taça de campeão estadual.

Em meio ao furor dessa conquista, na edição do dia seguinte à partida, o jornal Zero Hora – periódico mais popular do Rio Grande do Sul – reservou uma página inteira para tratar da história da constituição de uma nova torcida gremista que, desde o início do Campeonato Gaúcho, chamava a atenção dxs frequentadorxs do Estádio Olímpico: a Coligay.

Recorte da reportagem da Zero Hora sobre a Coligay (26/09/1977)

Como o nome indica, essa torcida era formada predominantemente por homens homossexuais, o que já parece ser motivo de surpresa e curiosidade no contexto futebolístico brasileiro, no qual a heterossexualidade, mais do que tomada como norma, é enfatizada como valor. Contudo, tal agrupamento fez-se notório não (apenas) porque explicitava a homossexualidade de seus integrantes em sua retórica, mas, sobretudo, porque fazia de tal identidade sexual o norteador de sua performance estética nas arquibancadas: trajavam longas batas com as cores do Grêmio, cada uma delas com uma letra na frente que formava o nome do clube, complementadas por “rebolados frenéticos e gritinhos um tanto histéricos” (TORCIDA…, 1977, p.42).

Coligay fazendo sua festa no estádio Olímpico

A Coligay surgiu da iniciativa do empresário gremista Volmar Santos. Ele teve a ideia, liderou a mobilização e realizou as articulações financeiras e logísticas necessárias para efetivar sua formação. Volmar era proprietário da boate gay Coliseu e foram seus frequentadores quem ele convidou para fundar a torcida. A boate acabou servindo como sede. Xs componentes iam ao Coliseu no sábado, viravam a madrugada, e, na manhã seguinte, ali mesmo, pegavam seus apetrechos ali armazenados, se organizavam e seguiam para o estádio em que o Grêmio fosse jogar.

Num primeiro momento, o gremismo da torcida foi questionado, mas sua animação e assiduidade fizeram com que conquistassem o reconhecimento dx torcedorxs, jogadores e dirigentes. Prova disso é que a Coligay se manteve em atividade nos estádios até os primeiros anos da década de 1980.

Existindo durante os violentos tempos de ditadura militar, se esquivaram da repressão governamental ao não se envolver com a militância política e por possuir entre seus integrantes ou apoiadores “gente importante”, segundo o líder Volmar (FONSECA, 1977). Também não buscaram compor uma militância homossexual mais ampla ou organizada – o que também poderia fazer deles alvos do policiamento. Baseavam sua atuação na festa. O que não é pouco.

É inegável que o estádio de futebol privilegia um tipo bastante específico de masculinidade, associada, sobretudo, à virilidade e à agressividade, traços também enfatizados na cultura gaúcha. A reafirmação desses valores perpassa com frequência pela definição e representação dos homossexuais como a antítese desse modelo de masculinidade, o que os legitimou como alvos históricos da violência verbal e, por vezes, física de torcedorxs de futebol. A Coligay acaba por desarticular a expectativa de desencaixe e inadequação de homens homossexuais ao espaço futebolístico, sem que ela tenha se mostrado uma torcida “igual às outras”. Ela compactuou com códigos do futebol, se dispondo ao confronto físico e verbal, empunhando bandeiras e apoiando intensamente a sua equipe. Por outro lado, impôs seus requebros, suas vestimentas espalhafatosas, seu linguajar debochado e provocativo.

Nos últimos anos, a participação de sujeitos LGBT+s nos esportes, e mais especificamente no futebol, tem se tornado um tópico de análise e discussão. Torcidas, jogadorxs, clubes e federações, que durante décadas ignoraram a existência de tais sujeitos – e mesmo contribuíram com sua invisibilidade – têm sido convocados a responder e agir sobre alguns dos processos que xs mantém à margem, com destaque para as manifestações homofóbicas, mas não apenas. A mídia tem contribuído com isso ao tratar esses temas de forma mais frequente e crítica.

Nesse processo, a Coligay tem sido relembrada, após algumas décadas de esquecimento (ou ocultação). Sem supor uma idealização dessa torcida, acredito que ela nos ajuda a perceber que outras experiências de torcer, mais plurais, são possíveis.

 

Referências

FONSECA, Divino. Para o que der e vier. Placar, n.370, p.48-50, 27 mai. 1977.

TORCIDA: Coligay: história e pedágio da vitória. Zero Hora, Porto Alegre, p.42, 26 set. 1977.

 

Para saber mais:

Esse texto foi elaborado a partir da minha Tese de Doutorado, abaixo identificada. Nesse ano, publicarei um livro baseado nessa pesquisa, com acréscimos e adaptações. A obra, lançada pela Editora Dolores, será intitulada “Plumas, arquibancadas e paetês: uma história da Coligay”.

ANJOS, Luiza Aguiar dos. De “São bichas, mas são nossas” à “Diversidade da alegria”: uma história da torcida Coligay. 2018. 388f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) – Faculdade de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

[1] Utilizo o “x” com o intuito de adotar uma linguagem não-binária. A escolha visa descaracterizar a ideia de que as palavras são masculinas ou femininas, assim como a utilização do masculino como referência. Ao usar o “x” busco contemplar igualmente homens, mulheres e aqueles e aquelas que fogem da norma binária. Especificamente nos momentos em que for tratar de agrupamentos que possuem exclusivamente pessoas identificadas como homens mantenho o uso do masculino.