Uma festa de atiradores em Santa Cruz do Sul/RS

29/04/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A colônia de Santa Cruz, distante 150 km de Porto Alegre, foi fundada em 1849 e elevada a município em 1877. Ela foi um dos principais destinos de milhares de imigrantes de origem germânica que tinham o Brasil como objetivo. Esta especificidade marcou fortemente a cidade que rapidamente se desenvolveu e se tornou um dos principais municípios do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul as características culturais alemãs se mantiveram vivas, se fundindo e se miscigenando às demais etnias que formaram o povo gaúcho. Nesta região de forte influência germânica os sul-rio-grandenses adquiriram hábitos peculiares que traduzem este marcado hibridismo.

Uma das peculiaridades dos imigrantes germânicos que desembarcavam no Rio Grande do Sul nos séculos XIX e XX era a sua organização em associações culturais e esportivas nos locais onde se reuniam. Em Santa Cruz do Sul não foi diferente. Aliás, foi o município precursor com a primeira associação esportiva destinada ao tiro ao alvo do Rio Grande do Sul, fundada em 1863 e denominada Schützengilde, que significa “corporação de atiradores”.

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Praticamente em todos os centros de imigração alemã existiam clubes de tiro. No entanto, o município se tornou uma referência desta prática. Em 1924, havia pelo menos 81 sociedades de atiradores nas áreas de colonização germânica no Rio Grande do Sul, dentre as quais 30 sediadas no município de Santa Cruz do Sul. Estas associações tinham como objetivo a diversão e a educação. Os clubes de tiro (Schiessklub) ou sociedade de atiradores (Schützverein) eram locais privilegiados e palcos de integração entre os moradores dos municípios.

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Atiradores da Deutscher Schützenverein (Sociedade Alemã de Atiradores) Sinimbu, 1887,
(antigo distrito de Santa Cruz do Sul).

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Nas associações de tiro (Schützenverein) se praticava, assim como nos clubes de caça europeus, o tiro ao alvo, que buscava identificar o melhor atirador entre todos os participantes. As competições de tiro são, portanto, derivadas da prática da caça, necessária a sobrevivência em remotas épocas, assim como são derivadas dos treinamentos militares, responsáveis por preparar os homens para o combate. Com o fim das guerras e da necessidade das caçadas, o tiro ao alvo se transformou em esporte e diversão.

Estas associações cultivavam uma data em especial. Esta festividade era a comemoração mais esperada do ano e se denominava a “festa do tiro” ou Schützenfest. Realizada, normalmente, em um domingo, era marcada pelas provas de tiro, escolha do melhor atirador, através de disputas e grandes festejos com dança, música e cerveja. Tiro ao Rei (Konigschiess) era como se denominava o torneio onde quem tivesse o maior número de pontos era considerado Rei e os seguintes colocados, os cavalheiros. Este grande evento social e cultural era muito comum na região de Santa Cruz do Sul e nas áreas onde esses clubes atuavam.

Ao Rei do Tiro se impunha uma faixa, geralmente de couro com placa de prata e a data da competição. A colocação da fita simbólica no campeão era comemorada com um baile no dia da conquista ou no seguinte, muitas vezes na data de aniversário da sociedade. Na festa a primeira valsa era do Rei com sua acompanhante. Um segundo bailado era dançada pelos Reis e seus pares de outras sociedades de atiradores presentes.

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Festa na Schutzenverein Rio Pardinho

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Diversão, disciplina, esporte, bebida, dança e festa, faziam parte dos clubes de tiro do interior do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul esta era uma das mais tradicionais festividades. Para além dos grandes centros do país ou até mesmo do Rio Grande do Sul, o desenvolvimento esportivo é o resultado de um conjunto imenso de variáveis que faz dessas pequenas regiões interioranas significativos casos de análise que valem o olhar atento do pesquisador. É, justamente, a diversidade cultural e histórica brasileira e todas as suas peculiaridades que legitimam a sua riqueza.

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O racismo e a participação do negro no esporte.

24/04/2017

Por Ricardo Pinto

Em geral, quando tratamos do racismo no esporte reduzimos, substancialmente, o debate a participação, ou não, do negro a uma modalidade esportiva. Vale destacar, ainda nesse contexto, que criamos uma espécie de reducionismo interpretativo ao usarmos a frase “participar de um esporte” vinculado-a a experiência exclusiva da prática em si, deixando de lado ou minimizando, na estrutura esportiva, outras ligações possíveis e, algumas vezes determinantes, ao objeto.

Ou seja, a presença de atletas negros se tornara a peça chave para compreendermos a participação do negro no esporte. Mais do que isso, se havia atleta negro em uma modalidade, grosso modo, não haveria racismo ou, de alguma maneira, os clubes e equipes que tinham a presença destes negros se tornavam símbolos de uma “possível” luta contra o racismo.

A vinculação entre presença de negros e a luta contra o racismo no Brasil é encontrada facilmente nas histórias sobre o futebol brasileiro. Por conta dessa redução grosseira de uma experiência tão complexa, passamos a acreditar que bastávamos encontrar um negro para podermos afirmar que aquele clube ou equipe possuía uma relação direta com a luta dos negros na sociedade.

Compreender esse reducionismo não deve nos levar a uma banalização da importância acerca da presença de negros em alguns clubes. Na verdade, esse fato deve continuar sendo visto como importante passo para a inserção do grupo no círculo dos atletas. Porém, devemos ter cuidado com a ressonância desse discurso, visto que passamos muito tempo acreditando que pensar o atleta era a única forma possível de refletir os grupos sociais e suas inter-locuções com o esporte.

No contexto esportivo, o negro sempre esteve atrelado a história do futebol. Na verdade, assumimos, por conta das escassas pesquisas sobre o século XIX, o futebol como sendo a primeira porta de entrada dos negros, como atletas, no universo esportivo. Claro que estamos tratando do campo esportivo reconhecido, ou seja, das práticas regulamente acomodadas na sociedade que, mesmo que sofressem com críticas, pertenciam na sua prática e simbolismo ao que era adequado. Visto que as experiências dos negros, em geral, eram combatidas, reprimidas e, sobretudo, categoricamente, desprezadas em seus símbolos.

No entanto, Victor Melo, relevante pesquisador do campo esportivo no século XIX, traz em seus novos textos contribuições fundamentais que, mesmo não sendo sua preocupação central, nos ajuda no entendimento sobre a participação do negro no esporte. Melo, em texto recente, nos apresentou fontes importantes nesse contexto.

A começar pela participação dos populares no esporte, Melo deixa claro que em meados do século XIX essa já era uma questão que gerava tensões e debate público, não obstante e/ou por consequência de todas as estratégias de separação e distinção do público envolvido. No entanto, Melo aponta para uma questão ainda mais importante para estudos relacionados aos negros, visto que nos traz a experiência de um jovem negro destaque no turfe em meados do século XIX.

O fato ocorreu em dezembro de 1853, quando Balbino (ou Albino) se destacou em uma prova de turfe. Na verdade, não só uma, foram seis. O pequeno negro, de apenas 13 anos, venceu as seis provas que disputou e acabou, com isso, sendo declarado na imprensa o primeiro jóquei do Prado (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p.1.).

Para além do fato de retirar do futebol a centralidade no processo de entradas dos negros no esporte, Victor Melo nos ajuda a expandir a compreensão a respeito desse fenômeno. Fica claro, a partir destas novas pesquisas, que a despeito de todo o racismo, o negro já estava inserido no esporte bem antes da chegada do futebol e, algumas vezes, com destaque. Ademais, fundamentalmente, seus escritos nos conduz aos indícios, que comprovam a tese, de que já havia o reconhecimento, pelo menos representado por parte da imprensa, de que o esporte, o turfe, nesse caso, já era fonte de possível mobilidade/ascensão social.

Nesse sentido, o caso do futebol, já no século XX, e o seu potencial transformador das “vidas negras” se torna parte de um processo que foi iniciado mais de meio século antes e, não mais, fonte original de todas as transformações. Claro que o futebol continua sendo o esporte que gerou mais resultados nesse sentido, notadamente pela importância que ele assumiu no cenário esportivo, porém, nos parece que o caso do negro no turfe, no século XIX, bem como do negro no futebol, no século XX, estão muito mais vinculados as demandas do mercado do seu tempo, do que de qualquer luta contra o racismo e, principalmente, de qualquer ressignificação do negro na sociedade.

Enfim, as pesquisas acerca da história do negro no esporte ainda tem muito para avançar. No entanto, nos últimos anos, com a descoberta de novas fontes, uma pesquisa mais densa sobre o século XIX, levada a cabo e em destaque pelo Prof. Victor Andrade de Melo, e a estruturação de debates mais amplos e articulados conseguimos dar importantes saltos na compreensão sobre o tema. Com isso, a meu ver, podemos concluir com tranquilidade que: Não podemos mais vincular a luta contra o racismo apontando apenas para a participação de negros em clubes esportivos.

Na verdade, precisamos entender que esse discurso vinculante atende, em larga escala, muito mais a demanda de uma construção romântica sobre o futebol, onde a trajetória do negro nesse esporte passa a representar, também, a sua trajetória em relação a sociedade, do que a efetiva realocação do negro na mesma.

Não houve, em tempo algum, mesmo com atletas negros por todos os cantos e, alguns, com destaque mundial, como é o caso do futebol, uma transformação do país em relação a raça. Precisamos reconhecer que, para o bem e para o mal, O mercado foi, e ainda é, definidor de parte fundamental destas questões.

Bibliografia:

MELO, Victor Andrade de. Amador ou profissional? Um debate primordial no campo esportivo. In: GOMES, Eduardo de Souza, PINHEIRO, Caio Lucas Morais. Olhares para a profissionalização do futebol: análises plurais. Rio de Janeiro: Luminaria Academica, 2015, p. 19-44, 978-85-8473489-4

MELO,___________ Tempo [online]. 2015, vol.21, n.37, pp.208-229.  Epub July 21, 2015. ISSN 1413-7704.  http://dx.doi.org/10.1590/tem-1980-542x2015v213706.


Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


O Prazer das Morenas de Bangu

10/04/2017

Por Nei Jorge dos Santos Junior

“Não resta dúvida que o carnaval de Bangu vai ser em grande parte devido ao Grêmio Carnavalesco Prazer das Morenas”, escrevera o entusiasmado cronista da Gazeta de Notícias em 08 de fevereiro de 1920.

As palavras do jornalista podem, inicialmente, apresentarem para o leitor características hiperbólicas. Afinal, como já fora escrito em alguns textos no blog, a região banguense possuía uma vida divertida intensa, com vários clubes dançantes, carnavalescos, recreativos e esportivos. No entanto, o Prazer das Morenas se destacava por algumas características peculiares, mesmo comparada aos clubes da região fabril.

 Como bem nos lembra Pereira, não era de se estranhar que o Prazer das Morenas iniciasse a década de 1920 como a principal sociedade dançante de Bangu[1]. A composição social do grêmio, desde a sua fundação, já traçava caminhos em direção a consolidação de uma imagem multicultural, permitindo que negros, brancos pobres e imigrantes pudessem compor seu quadro de associados sem qualquer distinção.

JB, Prazer das Morenas

Jornal do Brasil, fevereiro de 1920.

 Fundado em 04 de março de 1909, com sede na Rua Coronel Tamarindo, número 647, o Prazer das Morenas tinha como fins “proporcionar aos seus associados, em sua sede ou fora dela, festas carnavalescas e outras diversões, compatíveis com o caráter da sociedade”[2]. Além desses objetivos, apontados quase copiosamente por outras associações, a sociedade se destacava por outros pontos poucos comuns, pelo menos oficialmente, em outros clubes:

Estimular por todos os meios, que exista entre todos os seus sócios a máxima distinção para evitar preconceitos entre os mesmos, sendo imposta a eliminação aos que a isso derem causa; concorrer aos festejos carnavalescos, organizando, para isso, préstitos, alegóricos e críticos; realizar em sua sede, pelo menos, 5 bailes anualmente;  manter em sua sede, para recreio de seus sócios, toda espécie de jogos não proibidos por lei; manter uma biblioteca acessível ao público; manter uma escola que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem; promover outras quaisquer reuniões, que possam constituir divertimento para os seus associados.[3]

No mínimo, três objetivos, dos seis apresentados pela associação, mostram-se pouco habituais comparados aos demais clubes da região. Manter uma biblioteca e uma escola “que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem” revela uma grande preocupação com a formação dos associados do clube e seus pares. Para se ter ideia, a população da freguesia Campo Grande, a qual Bangu fazia parte, sofria com um grande quantitativo de analfabetismo nos primeiros anos do século XX. Todavia, coincidência ou não, esse índice se transformou completamente se levarmos em conta o período em que a escola da sociedade fora implementada[4]. De acordo com os dados do Recenseamento de 1920, a freguesia mudaria seu patamar, pois dos 52.328 residentes na região, 22.087 sabiam ler e escrever[5]. Isto é, 42,20% da população, um número expressivo comparado ao índice nacional, que era de apenas 24,45%, incluindo brasileiros e imigrantes.[6]

Ademais, outro ponto também nos chamou a atenção. Tratar, por exemplo, sobre preconceito num ambiente recheado de imigrantes e negros sinalizava uma preocupação com o modus operandi local, explicitada apenas pela Sociedade Flor da União, notadamente no momento em que indica, em seus estatutos, a inclusão de pessoas, independente da nacionalidade, religião ou cor, para compor suas fileiras.

ComissãodoPrazerdasMorenas

Comissão de festas do Prazer das Morenas. Fonte: Jornal do Brasil, 08 de fevereiro de 1920.

Acreditamos que tais evidências não são meros devaneios colocados em seus estatutos. Analisando periódicos locais e de grande circulação, conseguimos identificar facilmente exemplos que expressam a consolidação de uma imagem multicultural e miscigenada. Ademais, enfatizar que atitudes preconceituosas de sócios pudessem gerar a eliminação no quadro de associados mostra-se, no mínimo, algo a ser investigado com maior profundidade, pois a rivalidade entre estrangeiros e brasileiros não estava circunscrita somente ao ambiente fabril, mas se estendia pelas festas realizadas nos quatro cantos da zona arrabaldina.

Dessa forma, a ideia de estabelecer relações mínimas de convivência, não só para o bom funcionamento das atividades do clube, como também para a própria unificação de força na luta por melhores condições de trabalho, teve desdobramentos positivos. Para Pereira, o prestígio alcançado pelo Prazer das Morenas garantiu o apoio de grande parte dos comerciantes arrabaldinos, que “não hesitavam, a cada carnaval, em patrocinar os desfiles do clube”[7].  Talvez, a próprio escolha do nome “Prazer das Morenas” já seria uma forma de simbolizar o ambiente multicultural presente do cotidiano do clube, expressando com orgulho a identidade mestiça que o acompanhara desde sua fundação.

[1] PEREIRA, L. A. M. A flor da união: festa e identidade nos clubes carnavalescos do Rio de Janeiro (1889-1922). Terceira Margem, Rio de Janeiro, n. 14, p.169-179, jan./jun., 2006.

[2] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[3] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[4] O bairro já contava com outras escolas, entre elas a Escola Rodrigues Alves, fundada em 1905 para filhos de operários da fábrica.

[5] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[6] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[7] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.296.


As viagens motorizadas, os acampamentos na Flórida e seus intrépidos aventureiros: notas históricas sobre os Tin Can Tourists

04/04/2017

Por Valeria Guimarães

 

Quando a expansão do uso do automóvel, proporcionada pelo desenvolvimento econômico dos Estados Unidos após a I Guerra se juntou ao desejo dos norte-americanos de ir ver a América explorando as suas novas estradas em direção ao Sul, no início do século XX, formou-se um movimento singular de aventureiros que tinham em comum o gosto pela prática do camping e pelas viagens em seus veículos particulares – adaptados para longas jornadas e convertidos em trailers.

Assim surgiam os Tin Can Tourists, um grupo organizado, cujo nome não se sabe ao certo a razão, mas que tem muita história para ser contada. Especula-se que há alguma referência ao uso de alimentos enlatados nos acampamentos ou, por outra via, que tivesse relação com o popular modelo Ford “T”, apelidado de “Tin Lizzie” (FLORIDA MEMORY, s/d).

Seja como for, esse movimento organizado, que teve seu pioneirismo na Flórida, chama a atenção por diversos motivos, como a sua estruturação em torno de interesses comuns voltados para o desfrute do lazer, a união da viagem em veículos de passeio customizados com a prática do campismo, a força com que atraiu praticantes da classe média americana, o conjunto de valores morais, regras e rituais cultuados pelos adeptos, as novas sociabilidades surgidas, os jogos esportivos, danças e formas de entretenimento, os impactos na comunidade receptora, entre outros fatores que merecem, sem dúvida, ser estudados com profundidade pelos pesquisadores.

Atribui-se a fundação do movimento ao ano de 1919, em Tampa, na Flórida, época em que também começou a crescer vertiginosamente o turismo receptivo na região, com a chegada de turistas vindos das regiões agrícolas do Norte e do Centro-Oeste do país. Os carros desses viajantes eram modificados, adaptados para receberem barris de água potável e de combustível extra, acoplados na parte traseira, enquanto que no seu interior carregavam suas barracas, peças de vestuário, roupas de cama e muitas latas de comida para garantir a sobrevivência fora de casa, que em muitas viagens se estendiam por semanas.

O filme de animação “Tin can Tourist”, de 1937, satiriza toda a parafernália utilizada pelos proprietários desses modernos trailers que viajavam ao menos duas vezes ao ano para os encontros da organização. É o que se vê na cena abaixo, onde o viajante, um fazendeiro chamado “Al Fafa” encontra-se no interior do seu trailer adaptado com toda a tecnologia para lhe prover dos confortos e facilidades da vida moderna na estrada. A cada alavanca acionada, equipamentos automáticos vão surgindo, como fogão, cama, cabideiro, banheira com chuveiro e água encanada e sofá.

tin can

O filme, que é mudo, possui algumas cenas e legendas que enfatizam toda a excitação com a experiência moderna da viagem, ao mesmo tempo em que demonstram que o turista não está disposto a ter grandes despesas no período, como na passagem logo após a cena destacada acima, em que aparece a seguinte informação: “Everything’s automatic, Life is filled with trhills, Now we can forget about the – laundry – bills!”

Por outras fontes, como no blog Tin Can Tourist (https://tincantourists.com/blog/2016/02/01/tin-can-tourists-history/), consta a informação de que o consumo de grandes quantidades de comida enlatada foi uma estratégia característica desses viajantes para baratear o preço da viagem, dispensando a alimentação em restaurantes. Também eram escassos (e caros) os meios de hospedagem e os veículos adaptados com barracas para acampamento supriam essas necessidades.

Ainda de acordo com a mesma fonte, os veículos avariados na estrada exibiam uma lata no capô e eram identificados por outros tin can tourists, recebendo ajuda para prosseguirem viagem. O principal lema do movimento era unir fraternalmente todos os “autocampers”, e seus valores propagavam a limpeza dos locais de acampamento, a amizade entre os participantes, a prática de entretenimento saudável e zelar pela segurança entre os membros.

Em 1921, passados apenas dois anos da fundação do movimento Tin Can Tourists, esses já somavam 17.000 membros, entre adeptos dos Estados Unidos e do Canadá, o equivalente a 1/3 da população de Tampa, na Flórida. A movimentação gerou grandes impactos sociais e econômicos na região, inclusive forte especulação imobiliária, apontando para antecipações do turismo de massa, fenômeno frequentemente atribuído ao período pós II Guerra Mundial.

Acusações como a de abrirem negócios e fazerem concorrência com o comércio local, entre outros fatores, fizeram com que, ainda na década de 1920, esses turistas fossem tachados pela municipalidade da Flórida de “indesejáveis” e uma mobilização de moradores locais forçou o fechamento do De Soto Park em 1924 para evitar a presença desses forasteiros, obrigando os Tin Can Tourists a escolher outras sedes para as suas convenções anuais.

Essa história em muito se parece com os conflitos que ocorrem entre população residente e turistas em muitas cidades do mundo, especialmente nos balneários, inclusive nos dias de hoje. E no Brasil não é diferente. Pelas bandas de cá, adota-se de tudo para coibir nossos turistas de lata, desde a cobrança de altas taxas para ônibus de excursão ou mesmo a proibição de sua entrada nas cidades até o desenvolvimento de um planejamento turístico voltado para construir destinos de turismo de luxo, a preços proibitivos para a maior parte dos turistas.

A história do movimento Tin Can Tourist não para por aqui. Estas notas introdutórias têm a pretensão de levantar a bola e estimular, quem sabe, novos estudos que mobilizem buscas nos arquivos históricos, nos sites, filmografia e instituições ainda existentes que possam trazer novas luzes a esse tema ainda pouco conhecido entre nós. Os Tin Can Tourists surgem poucos anos antes do aparecimento de movimentos automobilísticos organizados no Brasil, como o Touring Club e o Automóvel Club. Estes, certamente mais elitizados, são ancestrais da popularização do automóvel por aqui. Mas, se procurarmos bem, encontraremos nossos tin can tourists por toda parte, buscando o prazer de viajar e de experimentar novas relações sociais por meio do turismo.

Termino este post com as cenas do encontro anual dos Tin Can Tourists de 1939, de volta à Tampa, na Flórida. O esporte, como não poderia deixar de ser, estava inserido entre as atrações do evento, com exibições de boxe, ginástica e outras modalidades. Vale a pena conferir:

 

Para saber mais:

LONG, LONG TRAILERS. British Pathé, 1939. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Rh6zcokUjRg&gt;

TIN CAN TOURIST. Dir. Davis, Mannie, Gordon, George. Estados Unidos:  20th Century Fox Film Corporation, 1937 (10 min.). Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=JASz9B1ROlE>.

TIN CAN TOURIST – Rollying History. Disponível em: <https://tincantourists.com/blog/2016/02/01/tin-can-tourists-history/&gt;

WYNNE, Nick. Tin Can Tourists in Florida 1900-1970.  Charleston, South Carolina: Arcadia Publishing, 2003.


A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

27/03/2017

Por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países da região, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

 

ultras egito

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram ( e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos. Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre “Aborígenes, futebol e racismo na Austrália”, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistaram pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique  atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em  violentos confrontos físicos.

 

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as  dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…)  trouxeram crescentes  problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria atingiram em cheio o coração da modalidade. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas,  a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, os quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como o italiano Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor-chefe desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL competem em um torneio em nível nacional, um mata-mata de poucos dias, em uma sede, ao final da temporada. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com os torcedores e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi cumprido. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) fizeram uma greve por melhores condições de trabalho e na ultima hora não participaram de um torneio agendado nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo intensamente pressionada pela FIFA a realizar de imediato mudanças para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, estão a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual  é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas semelhantes as da FIFA; mais poder decisório para o setor dos clubes e por um sistema de acesso e rebaixamento; enfim, o velho soccer contra-ataca e quer fazer parte de verdade do novo football. .

Na pauta Associação e de outros importantes setores do futebol, também está a ampliação da A-League. Fala-se muito da necessidade da inclusão de entre dois a quatro novos times na competição, a curto prazo. A FFA, como sempre, patina e quer mais tempo para a viabilização de um torneio maior. Por outro lado, a midia pressiona pela ampliação, e semanalmente noticia o surgimento de novos contendores para estas vagas, novos clubes a serem criados com o subsidio de milionarios da Australia ou da Asia. De olho neste movimento, os maiores clubes da Associação pleiteam que os clubes ja existentes, com historia  e com mais base regional sejam escolhidos para fazer parte da A-League, e não um clube sem historia mas apenas om dinheiro suficiente para comprar uma licenca junto a FFA.

Esta Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais, já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, Lowy Jr (presidente) e o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA  continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 

 


A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

26/03/2017

por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: ‘Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também.

 

ultras egito

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram (e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos de historia (sem contar, claro, os 50.000 anos anteriores quando as populações aborígines por aqui viviam). Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos, por exemplo.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre Aborígenes, futebol e racismo na Austrália, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistou pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em socos, pontapés e pancadaria gerais.

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…) trouxeram crescentes problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria terminaram por nocautear este soccer. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga Australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas, a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, verdadeiras corporações as quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast, entre outras), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.  Claramente, a nova competição era uma empreitada comercial, distante dos clubes e de suas comunidades. Novas torcidas deveriam ser criadas, sob a égide corporativa.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL se reúnem em uma sede única ao final da temporada para, em poucos dias, em um sistema de ‘mata-mata’, decidirem o titulo de campeões nacionais. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com eles e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi realizado. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) promoveram uma greve em busca de melhores condições de trabalho, forçando a FFA a cancelar, na ultima hora, a participação do time em um torneio já agendado contra a seleção norte-americana nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo muito pressionada pela FIFA a realizar mudanças imediatas para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, está a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual atualmente é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) também exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas por mais poder decisório, por um sistema de acesso e rebaixamento, enfim, aquilo que a FIFA e a AFC também querem.

Os clubes também exigem uma maior participação nos critérios que irão decidir a ampliação dos times participantes da A-League. A própria ampliação, que vem sendo muito discutida nas mídias, é um assunto bem polemico. A FFA, como de  costume, pretende adiar este debate, colocando que necessita de mais tempo para viabilizar economicamente uma competição com 12 ou 14 equipes; por outro lado, a cada semana surge uma noticia de uma nova entidade a ser criada para participar de uma A-League expandida. Geralmente, estes pretendentes possuem parcerias com milionários locais ou mesmo asiáticos. Por outro lado, os maiores clubes tradicionais, rejeitam esta visão e querem que critérios como historia e inserção comunitária sejam levados em conta para a provisão de novas licenças da A-League. É o velho soccer brigando com o novo football…

A Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais (desde clubes completamente amadores a outros semiprofissionais em termos futebolísticos), já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, tanto Lowy Jr (presidente) quanto o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.