Em defesa de arquibancadas mais plurais: rememorando a Coligay

17/02/2020

Luiza Aguiar dos Anjos (IFMG – Campus Formiga)

No dia 27 de março de 1977, o Grêmio fez sua estreia na 57ª edição do Campeonato Gaúcho de Futebol. O clube iniciava sua caminhada no torneio com a esperança de acabar com um longo período sem títulos, assim como interromper a série de conquistas estaduais do rival Internacional, que vinha de uma sequência de oito taças consecutivas, sagrando-se campeão anualmente desde 1969. Para agravar o incômodo gremista com o sucesso do principal adversário, a equipe colorada não se impunha apenas em seara local, tendo sido bicampeã nacional ao conquistar a Copa Brasil de 1975 e de 1976.

Ao longo da competição, os dois maiores times do estado fizeram o que se esperava deles: superaram os demais e decidiriam entre si quem seria o campeão estadual daquele ano.

O jogo derradeiro foi disputado no Estádio Olímpico. Em casa, em frente à sua torcida, era que o Grêmio buscaria encerrar aquele infeliz jejum de títulos.

O teor dramático da partida começou quando, aos 22 minutos de jogo, foi marcado um pênalti a favor do Grêmio. O atacante Tarciso, batedor oficial do time e com boa média de acertos, mandou uma bomba à esquerda do goleiro colorado, mantendo o empate sem gols. Mas não tardou para o placar ser inaugurado. Em um embate de ânimos cada vez mais exaltados, aos 42 minutos, ainda no primeiro tempo de jogo, o atacante André Catimba fez a festa dxs[1] gremistas. O momento tornou-se ainda mais memorável com a comemoração. O jogador tentou um salto mortal, mas interrompeu o movimento no meio do caminho, ao sentir uma distensão muscular, caindo de forma completamente desajeitada. Com a aproximação do fim da partida, a torcida tricolor não conteve a comemoração, pulando das arquibancadas e ocupando o campo. Trinta minutos passados da invasão, sem condições de retomar o jogo, o árbitro declarou seu encerramento. Após oito anos, o Grêmio voltava a levantar a taça de campeão estadual.

Em meio ao furor dessa conquista, na edição do dia seguinte à partida, o jornal Zero Hora – periódico mais popular do Rio Grande do Sul – reservou uma página inteira para tratar da história da constituição de uma nova torcida gremista que, desde o início do Campeonato Gaúcho, chamava a atenção dxs frequentadorxs do Estádio Olímpico: a Coligay.

Recorte da reportagem da Zero Hora sobre a Coligay (26/09/1977)

Como o nome indica, essa torcida era formada predominantemente por homens homossexuais, o que já parece ser motivo de surpresa e curiosidade no contexto futebolístico brasileiro, no qual a heterossexualidade, mais do que tomada como norma, é enfatizada como valor. Contudo, tal agrupamento fez-se notório não (apenas) porque explicitava a homossexualidade de seus integrantes em sua retórica, mas, sobretudo, porque fazia de tal identidade sexual o norteador de sua performance estética nas arquibancadas: trajavam longas batas com as cores do Grêmio, cada uma delas com uma letra na frente que formava o nome do clube, complementadas por “rebolados frenéticos e gritinhos um tanto histéricos” (TORCIDA…, 1977, p.42).

Coligay fazendo sua festa no estádio Olímpico

A Coligay surgiu da iniciativa do empresário gremista Volmar Santos. Ele teve a ideia, liderou a mobilização e realizou as articulações financeiras e logísticas necessárias para efetivar sua formação. Volmar era proprietário da boate gay Coliseu e foram seus frequentadores quem ele convidou para fundar a torcida. A boate acabou servindo como sede. Xs componentes iam ao Coliseu no sábado, viravam a madrugada, e, na manhã seguinte, ali mesmo, pegavam seus apetrechos ali armazenados, se organizavam e seguiam para o estádio em que o Grêmio fosse jogar.

Num primeiro momento, o gremismo da torcida foi questionado, mas sua animação e assiduidade fizeram com que conquistassem o reconhecimento dx torcedorxs, jogadores e dirigentes. Prova disso é que a Coligay se manteve em atividade nos estádios até os primeiros anos da década de 1980.

Existindo durante os violentos tempos de ditadura militar, se esquivaram da repressão governamental ao não se envolver com a militância política e por possuir entre seus integrantes ou apoiadores “gente importante”, segundo o líder Volmar (FONSECA, 1977). Também não buscaram compor uma militância homossexual mais ampla ou organizada – o que também poderia fazer deles alvos do policiamento. Baseavam sua atuação na festa. O que não é pouco.

É inegável que o estádio de futebol privilegia um tipo bastante específico de masculinidade, associada, sobretudo, à virilidade e à agressividade, traços também enfatizados na cultura gaúcha. A reafirmação desses valores perpassa com frequência pela definição e representação dos homossexuais como a antítese desse modelo de masculinidade, o que os legitimou como alvos históricos da violência verbal e, por vezes, física de torcedorxs de futebol. A Coligay acaba por desarticular a expectativa de desencaixe e inadequação de homens homossexuais ao espaço futebolístico, sem que ela tenha se mostrado uma torcida “igual às outras”. Ela compactuou com códigos do futebol, se dispondo ao confronto físico e verbal, empunhando bandeiras e apoiando intensamente a sua equipe. Por outro lado, impôs seus requebros, suas vestimentas espalhafatosas, seu linguajar debochado e provocativo.

Nos últimos anos, a participação de sujeitos LGBT+s nos esportes, e mais especificamente no futebol, tem se tornado um tópico de análise e discussão. Torcidas, jogadorxs, clubes e federações, que durante décadas ignoraram a existência de tais sujeitos – e mesmo contribuíram com sua invisibilidade – têm sido convocados a responder e agir sobre alguns dos processos que xs mantém à margem, com destaque para as manifestações homofóbicas, mas não apenas. A mídia tem contribuído com isso ao tratar esses temas de forma mais frequente e crítica.

Nesse processo, a Coligay tem sido relembrada, após algumas décadas de esquecimento (ou ocultação). Sem supor uma idealização dessa torcida, acredito que ela nos ajuda a perceber que outras experiências de torcer, mais plurais, são possíveis.

 

Referências

FONSECA, Divino. Para o que der e vier. Placar, n.370, p.48-50, 27 mai. 1977.

TORCIDA: Coligay: história e pedágio da vitória. Zero Hora, Porto Alegre, p.42, 26 set. 1977.

 

Para saber mais:

Esse texto foi elaborado a partir da minha Tese de Doutorado, abaixo identificada. Nesse ano, publicarei um livro baseado nessa pesquisa, com acréscimos e adaptações. A obra, lançada pela Editora Dolores, será intitulada “Plumas, arquibancadas e paetês: uma história da Coligay”.

ANJOS, Luiza Aguiar dos. De “São bichas, mas são nossas” à “Diversidade da alegria”: uma história da torcida Coligay. 2018. 388f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) – Faculdade de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

[1] Utilizo o “x” com o intuito de adotar uma linguagem não-binária. A escolha visa descaracterizar a ideia de que as palavras são masculinas ou femininas, assim como a utilização do masculino como referência. Ao usar o “x” busco contemplar igualmente homens, mulheres e aqueles e aquelas que fogem da norma binária. Especificamente nos momentos em que for tratar de agrupamentos que possuem exclusivamente pessoas identificadas como homens mantenho o uso do masculino.


Divulgação: eventos, publicações e disciplina de pós

14/02/2020

Eventos

Em meados deste ano serão realizados em Portugal eventos nos quais se pretende debater o tema “desporto e lazer no continente africano”:

* VI Encontro Internacional Desporto e Lazer em África
25 e 26 de junho de 2020
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
http://www.centrodehistoria-flul.com/encontrosobredesportoporto.html

* 11º Congresso Ibérico de Estudos Africanos
Painel 58 – Desporto e lazer no continente africano
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
2 a 4 de Julho de 2020
https://ciea11.pt/
https://ciea11.pt/index.php/submissao/comunicacoes

E, como divulgado anteriormente, entre 12 e 14 de agosto acontecerá o II Encontro Nacional de Historiadores do Esporte, em Belo Horizonte.

 

Publicações/atividades/notícias

André Couto e Álvaro do Cabo publicaram o trabalho “A Copa já Chegou!! O Sul-Americano de Futebol de 1949 e as Crônicas do Jornal dos Sports“.

Rafael Fortes concedeu entrevista ao Podcast Mais História, por favor!, da UFSM, tratando de história do surfe, juventude e anos 1980. Outra entrevista está no filme BIW, Sal e Som, que estreou esta semana e está sendo exibido em diferentes dias e horários no Canal Curta! de TV por assinatura.

Vale a pena conferir também o podcast Stadium, programa mensal dedicado à história do esporte produzido pelo grupo de pesquisa homônimo da UFSM coordenado por João Malaia.

Ainda no terreno dos podcasts ligados à história do esporte, para quem compreende inglês, vale a pena ouvir o Sport in the Cold War.

Foi lançado recentemente um portal dedicado ao surfe feminino: ManaSurf.

 

Disciplina de pós-graduação

A disciplina Diversão, Educação, Corpo (Séculos XVIII e XIX) será oferecida por Victor Andrade de Melo no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ neste primeiro semestre de 2020.

Dia/Horário/Local: Terças-feiras – 13 às 16 horas – Faculdade de Educação, UFRJ, Campus Praia Vermelha

Ementa

No decorrer dos séculos XVIII e XIX, foi se definindo o que hoje chamamos de lazer, o formato moderno da diversão, fruto de uma mais clara divisão dos tempos sociais, bem como do desenvolvimento de uma cultura de massa. Nesse cenário, os momentos de entretenimento foram se constituindo em instâncias importantes de educação, compreensíveis a partir de uma dupla dimensão: para e pelo divertimento. De um lado, todos deveriam aprender a se portar nesses novos espaços públicos de convivência. Ao mesmo tempo, nesses fóruns eram difundidas formas de se portar relacionadas aos intuitos governamentais e de certas lideranças políticas, ligadas às novas necessidades de se comportar em público, mas também ao forjar da nação, mobilizadas por noções de progresso e de identidade. Parte significativa dessas intervenções/negociações/ressignificações penderam sob o corpo, tanto no que se refere aos comportamentos julgados adequados (roupas, abordagem, toques, cheiros etc.) quanto no tocante aos seus usos possíveis nas cenas públicas e privadas (processo que dialogava notadamente com o crescimento de preocupações com a saúde e a higiene). Essa disciplina objetiva aprofundar o debate sobre essas articulações entre a diversão, a educação e o corpo.

Cronograma

10 de março

# Apresentação

Apresentação dos alunos, dos docentes e do curso

Levantamento de expectativas

Acerto das estratégias didático/pedagógicas (leitura de textos, organização de debatedores, procedimentos de aula, analecto)

Lista de e-mails/contatos

 

17 de março

# Educação, diversão, corpo: um programa de pesquisa

* Discussão de texto:

MELO, Victor Andrade de. Educação, diversão, corpo: um programa de pesquisa. Rio de Janeiro, 2019. mimeo.

MELO, Victor Andrade de. Lazer, modernidade, capitalismo: um olhar a partir da obra de Edward Palmer Thompson. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 23, n. 45, p. 5-26, 2010.

 

24 de março

# Novos arranjos da diversão

* Discussão de texto:

SOARES, Luiz Carlos. Comercialização do lazer, ampliação dos espaços públicos de diversão e novas formas de sociabilidade: uma outra dimensão da Ilustração pública. In: SOARES, Luiz Carlos. A Albion revisitada. Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2007. p. 139-185.

 

31 de março

# Novos arranjos da diversão

* Discussão de textos:

CORBIN, Alain. A história dos tempos livres. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 5-18.

PORTER, Roy. Os ingleses e o lazer. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 19-58.

 

7 de abril

# Novos arranjos da diversão

* Discussão de textos:

CORBIN, Alain. Do lazer culto à classe de lazer. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 59-90.

THIESSE, Anne-Marie. Organização dos lazeres dos trabalhadores e tempos roubados (1880-1930). In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 363-392.

 

14 de abril

# Diversão e trabalho: cenários fluminenses

* Discussão de textos:

POPINIGIS, Fabiane. Introdução. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 23-32.

POPINIGIS, Fabiane. Domingo de trabalho e compras. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 33-104.

 

21 de abril – Não haverá aula – Feriado

 

28 de abril

# Diversão e trabalho: cenários fluminenses

* Discussão de textos:

POPINIGIS, Fabiane. “Deixem-nos o domingo”: protesto social e regulamentação do trabalho no comércio. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 105-168.

 

5 de maio

# Diversão e trabalho: cenários fluminenses

* Discussão de textos:

POPINIGIS, Fabiane. Vida de botequim: caixeiros nos processos criminais. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 169-240.

 

12 de maio

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Mudanças nos padrões de sociabilidade e diversão: o jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História, Franca, v. 35, e105, 2016.

MELO, Victor Andrade de. As touradas nas festividades reais do Rio de Janeiro Colonial. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 19, n. 40, p. 365-392, 2013.

 

19 de maio

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Educação do corpo – bailes no Rio de Janeiro do século XIX: o olhar de Paranhos. Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP, v. 40, p.751 – 766, 2014.

MELO, Victor Andrade de. Uma diversão civilizada – a patinação no Rio de Janeiro do século XIX (1872-1892). Locus, Juiz de Fora, v. 23, n. 1, p. 811-100, 2017

 

26 de maio

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Educação, civilização, entretenimento: o Tivoli – um parque de diversão no Rio de Janeiro do século XIX (1846-1848). REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO. 2020. No prelo

MELO, Victor Andrade de; SCHWAN, Thaina Pacheco. Bebida, comida diversão e arte: as fábricas de cerveja no Rio de Janeiro do século XIX (1856-1884). Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 1., p. 147-160, jan./mar. de 2018.

 

2 de junho

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857). Tempo (Niterói. Online). v. ahead, 2015.

MELO, Victor Andrade de. A sociabilidade britânica no Rio de Janeiro do século XIX: os clubes de cricket. Almanack, Guarulhos, n. 16, p. 168-205, ago.  2017a.


Aberta a submissão de trabalhos para o II Encontro Nacional de Historiadores do Esporte

07/02/2020

Está aberto o período de submissão de trabalhos para o II Encontro Nacional de Historiadores do Esporte. O evento será realizado na PUC Minas, em Belo Horizonte (MG), de 12 a 14 de agosto de 2020. Informações podem ser obtidas no  e através do email encontrohistoriaesporte2020@gmail.com .


OS HOMENS DAS LETRAS E SUAS REPRESENTAÇÕES: UM SUBÚRBIO MORAL

02/02/2020

Por Nei Jorge dos Santos Junior

A relação entre grande imprensa e agremiações suburbanas sempre trilhou por caminhos conturbados. Empenhados num duplo movimento de imposição de uma nova ordem social e também na construção de uma capital institucionalizada, os jornais utilizavam mecanismos simples; funcionavam como uma espécie de campanha de modernização da festa (SANTOS JUNIOR, 2019). Isto é, por meio de notas e editoriais, os veículos de imprensa reprovavam as “bagunças promovidas” pelas chamadas pequenas sociedades suburbanas (CUNHA, 2011).

Em contraposição, os grandes veículos narravam o cosmopolismo das Grandes Sociedades, que almejavam novos símbolos de diversão desde os meados do século XIX. De certa forma, aos olhos deles, as Grandes Sociedades surgem como um arquétipo de autoimagem de instituição civilizadora, legitimadas por sua origem social e pelo conteúdo letrado de seus préstitos. Formadas por jornalistas e setores mais abastados da sociedade carioca, suas atividades não estavam circunscritas somente ao universo da festa. Suas ações iam além, incluíam movimentos políticos e atividades de cunho filantrópico e, claro, a reformulação das práticas festivas e hábitos de lazer – considerados “atrasados” e incompatíveis com aqueles ideais de progresso.

Claramente, esses elementos resultavam num olhar atípico quando lançado aos préstitos suburbanos. Talvez, o caso do Luiz Edmundo, memorialista de destaque no período, revela importantes transcrições em sua visita jornalista à sede da Sociedade Carnavalesca Tira do Dedo do Pudim, localizada no morro da Conceição, zona central da cidade.

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Luís Edmundo. ( Pintura de Eliseu Visconti).

Embora o clube não esteja localizado nos subúrbios carioca, o morro também era espaço de estigmas e estereótipos, já que seus pares reuniam, juntamente com a zona suburbana, a população pobre da cidade. O conceito, na verdade, caracteriza muito mais uma identidade, uma cultura e uma vida com peso ideológico muito forte, representado como espaço de pessoas simplórias, trabalhadores pobres, não modernos, precarizados e imersos na violência da cidade. Dessa forma, vamos seguir próximo ao memorialista em seu passeio de registros e considerações, na tentativa de compreender os estereótipos e estigmas através dos seus olhos.

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“Panorama da Cidade do Rio de Janeiro, Vista do Terraço do Morro da Conceição”, de Thomas Ender, em 1817. A obra reproduz a paisagem vista a partir do Palácio Episcopal, na parte mais alta da Rua Major Daemon.

No alto da ladeira do Homem, o autor observa atentamente uma casa toda pintada de azul-marinho. Era a sede da Sociedade Carnavalesca e Recreativa Tira o Dedo do Pudim, que reunia “moçoilas rapazelhos que vivem ajanelados em seus casebres que se dependuram como gaiolas de pássaros pela íngreme viela torta, feias, imunda, porém movimentadíssima” (EDMUNDO, 2009, p. 506).

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Ladeira do Homem (Morro da Conceição).

A vizinhança parecia satisfeita, toda formada por moradores do morro. Das quatro da tarde às nove da noite, a região era animada por músicos da localidade, fazendo uma barulheira que o incomodara.

De longe, o memorialista era saudado pelos moradores, não mais do “rude e atordoante zé-pereira”, porém a de mil bocas: “gritos, berros, ou estrídulas risadas, de envolta com o afinar de instrumentos de corda ou sopro, balburdia amável e festiva, confuso bruaá”, denunciando desafogo e alegria da “massa ingênua” que livremente se diverte (EDMUNDO, 2009, p.506).

A decoração também chamou a atenção do autor, notadamente por sua tentativa de parecer elegante. “A sédea”, grafada pelo autor – um estilo utilizado pelo memorialista quando reproduzia em seus escritos a fala popular –, tinha na fachada um escudo feito em folha-de-flandres, pitado com as cores sociais, o qual mostrava uma mão que aponta com o dedo indicador para um disco enorme, algo próximo de uma lua cheia (EDMUNDO, 2009, p.506). E mais um S e um C, referente à “Sociedade Carnavalesca”, antecedendo as letras negras e garrafais do título: Tira o Dedo do Pudim (EDMUNDO, 2009).

As portas e janelas estavam par a par, sempre abertas, mostrando o interior de um “salãozinho” que mal comporta a “chusma” de associados e seus penetras, todo forrado de um papel azul cor do manto de nossa senhora onde, em desenhos “grotescos”, prateados e como que em relevo se veem, em confusão, liras e rosas que se entrelaçam (EDMUNDO, 2009). Para o autor, um dos caprichos dessas agremiações “mômicas” é o papel da sala, sempre “espalhafatosa e cara”. No caso desta sociedade custou uma fortuna, sendo votada em “assembleia gerá”, como se faz nas sociedades abastadas (EDMUNDO, 2009). Além disso, a luz era de querosene, com um lampião suspenso ao teto, que ao resvalar pela parede, arrancava, de seu prateado escandaloso, chispas. O forte cheiro de querosene e o calor que transformava o rosto da assistência em “verdadeiras cascatas de suor” incomodavam imensamente Luiz Edmundo (EDMUNDO, 2009). Ali, ventiladores não existem, por isso os convidados andam de mão os leques e as ventarolas de papel.

Pelos cantos da sala há enormes cartuchos de papel, muitos deles cobertos de malha de “crochet”, com aplicações de espelhinhos, “grotescamente” emoldurando fotografias minúsculas, em maioria aproveitadas de cartões postais (EDMUNDO, 2009). Para Luiz Edmundo, “isso é moda em casa de pobre”, “ânsia ingênua de decoração” (EDMUNDO, 2009, p.507).

Decerto que as imprecisões contidas por Luiz Edmundo sobre as sociedades recreativas não podem ser transformadas em verdades ou em fatos consumados. Contudo, a recorrência do tema na produção literária se dá, sobretudo, em razão da discussão que se estabelece entre os intelectuais quando o assunto era o crescimento das sociedades dançantes ou esportivas entre a população pobre da cidade. Adjetivos como “grotesco”, “espalhafatoso” ou até mesmo o diminutivo sintético utilizado muitas vezes como menosprezo as ações dos populares, caracterizava-se em verdadeiras campanhas contra e a favor da prática. A própria análise elaborada pelo Luiz Edmundo mostra um certo antagonismo em questão, pois havia um claro desejo de aproximação com aquilo que conscientemente era definido como civilizado ou moderno.

Essa tentativa de apropriação de signos de distinção intensifica as contradições expostas pela imprensa carioca da época. Vive-se um estágio de mudança, em que o confronto entre as práticas populares e as práticas à moda europeia tornam-se o ponto central, propagando posicionamentos ideológicos os quais princípios como nacionalidade, identidade cultural, tradição e modernidade determinam o ritmo da narrativa.

Isso significa que há diferenças essenciais nos interesses e nas formas de lidar com as diversões populares entre os cronistas. Essas narrativas, notadamente por conta do crescimento em número e importância dos clubes populares, estabelecem grupos de intelectuais que escreveram seus posicionamentos e visões da “cultura popular”. Tais cronistas formularam uma noção de cultura popular urbana heterogênea, em que noções como as de civilidade e moralidade dos grupos sociais e dos sujeitos podem determinar coletivos satisfatórios – ou não – dentro de uma moção classificatória do extenso quadro das manifestações populares.

REFERÊNCIAS

CUNHA, M. C. P. Ecos da folia. Uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
EDMUNDO, L. O Rio de Janeiro do meu tempo. Niterói: Imprensa Oficial, 2009.
OLIVEIRA, M. P.; FERNANDES, N. N. (Orgs). 150 anos de subúrbio carioca. Rio de Janeiro: Lamparina: Faperj: EdUFF, 2010.
SANTOS JUNIOR, N.J. Diversão à moda suburbana: repressão, tensão e violência (1900-1923). Revista Licere, v. 22, p. 167-187, 2019.

Publicado novo número de Recorde: Revista de História do Esporte

01/02/2020

Em dezembro foi publicado o número mais recente de Recorde: Revista de História do Esporte – confira abaixo o sumário. Com ele completaram-se doze anos de publicação contínua da primeira revista da América Latina dedicada à História do Esporte e das Práticas Corporais Institucionalizadas. O periódico recebe artigos e resenhas em fluxo contínuo.

 

v. 12, n. 2 (2019)

Sumário

Artigos

Leonardo Brandão, Giancarlo Marques Carraro Machado
Onésimo Rodríguez Aguilar, Luis Diego Soto Kiewit, Cindy Zúñiga Valerio
Juliana Carneiro
Kelen Katia Prates Silva
Tiago Sales de Lima Figueiredo
Narayana Astra van Amstel, Carlos Alberto Bueno dos Reis Júnior, Leonardo do Couto Gomes, Ricardo João Sonoda Nunes
Ivo Lopes Müller Junior, André Mendes Capraro
Everton de Souza da Silva
Samuel Ribeiro dos Santos Neto, Edivaldo Góis Junior
Rogério Othon Teixeira Alves, Georgino Jorge de Souza Neto, Luciano Pereira da Silva
Luiz Antonio C. Norder

Resenhas

Mariana de Paula, Letícia Cristina Lima Moraes, Leonardo do Couto Gomes, Marcelo Moraes e Silva
Leonardo do Couto Gomes, Duilio Queiroz de Almeida, Marcelo Moraes e Silva
Miguel Archanjo de Freitas Junior, Edilson de Oliveira, Tatiane Perucelli, Bruno Pedroso

“O primeiro a gente nunca esquece” – Primeiro dérbi de futebol feminino em Lisboa

27/01/2020

O Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Portugal são dois dos mais tradicionais clubes de Portugal, e os maiores rivais de Lisboa. Uma vez que os clubes são multidesportivos, a rivalidade não se limita ao futebol masculino, estando presente em outras modalidades onde os clubes são fortes e se enfrentam, como por exemplo, o futsal, o hóquei patins, o handebol e, mais recentemente, o futebol feminino. Contudo, essa rivalidade e a visibilidade de outros encontros e modalidades não se reflete da mesma forma no futebol feminino.

A rivalidade surge nos anos 30. Grande parte do motivo é fruto das disputas entre Benfica e Sporting na Volta a Portugal, de ciclismo, onde os jornais alimentavam a narrativa da disputa clubística representada por dois dos maiores ciclistas portugueses, José Maria Nicolau, que ganhou a Volta a Portugal em 1931 e 1934 pelo Benfica e Alfredo Trindade, que ganhou a Volta a Portugal em 1933 pelo Sporting.

Associado ao fato de que o futebol masculino tem um papel de completo domínio da agenda midiática desportiva, em Portugal, hoje em dia, um jogo entre Benfica e Sporting recebe uma cobertura massiva em todos os veículos e suportes de comunicação. Nos dias que antecedem os jogos, os mínimos detalhes são analisados e noticiados, assim como depois dos jogos há uma exaustiva análise da repercussão dos resultados. Reconhecendo que a rivalidade é um elemento basilar do desporto, a disputa entre Sporting e Benfica – também conhecido como dérbi éterno – recebe atenção internacional, com uma abordagem que pode transcender as rotinas imediatas dos resultados.

O mesmo não ocorre com o futebol feminino. Primeiramente, porque a rivalidade entre Sporting e Benfica ainda é muito recente. Formada em dezembro de 2017, o Benfica começou a sua trajetória no futebol feminino na temporada 2018/19, na 2ª divisão (Campeonato Nacional de Promoção), conseguindo a subida no primeiro ano e sendo campeãs da Taça de Portugal da mesma temporada. A equipe feminina do Sporting conta com um pouco mais de tradição: fundada em 1991, o clube foi pioneiro ao colocar em funcionamento as primeiras escolas de formação de futebol feminino, mas interrompeu as suas atividades após 4 temporadas, em 1995, voltando ao funcionamento em 2016, e a partir daí foi campeão de todos os torneios nacionais. Assim, o primeiro jogo oficial entre ambas as equipes só aconteceu a 19 de outubro de 2019, no Estádio da Luz, pelo campeonato de 2019/20.

Contudo, antes disso, na temporada anterior, as duas equipes se enfrentaram num jogo amistoso, a 30 de março de 2019. A partida realizada no Estádio do Restelo e denominada Troféu Vicente Lucas, jogador moçambicano do Belenenses e um dos ‘magriços’ da seleção portuguesa de 1966, tinha como objetivo angariar fundos para Moçambique, após a tragédia causada pela passagem do Ciclone Idai, no início do ano.

A realização da partida contou com a colaboração de ambos os clubes, do Belenenses, que cedeu o estádio e o nome do troféu, a Federação de Futebol Portuguesa (FPF), o canal de televisão TVI, que transmitiu a partida, o sindicado de jogadores e a Associação de Futebol de Lisboa. O primeiro dérbi lisboeta da história do futebol feminino era a principal forma de atrair o mundo do futebol, dentro de um universo onde as agendas dos clubes profissionais masculinos já se encontram sobrecarregadas.

O jogo foi um sucesso, tendo batido o recorde de público, em Portugal, para um jogo de futebol feminino, com 15 204 pessoas, no estádio do Restelo. O jornal A Bola deu algum destaque ao jogo em sua capa (no dia do jogo e no dia seguinte), mais do que o dado ao primeiro jogo oficial, em outubro, quando apenas deu destaque no dia seguinte, mais do que o seu concorrente de Lisboa, o jornal Record que não mencionou em sua capa o 1º jogo oficial.

Jogos com mais público:

12.812 espectadores, no Estádio da Luz | Benfica x Sporting (4.ª rodada da Liga BPI)

12.632 espectadores, no Estádio do Jamor | Benfica x Valadares Gaia (final da Taça de Portugal de futebol feminino 2019)

12.213 espectadores, no Estádio do Jamor | Sporting x Sp. Braga (final da Taça de Portugal de futebol feminino 2017)

Embora a rivalidade seja um pilar do esporte e uma importante ferramenta de promoção da mídia desportiva, o dérbi de outubro de 2019, mesmo sendo o primeiro jogo oficial, valendo 3 pontos, foi promovido com ênfase no entendimento entre as partes. A FPF, organizadora do campeonato, através de seu canal de televisão, reuniu as capitães para promover o jogo, com base naquilo que une ambas, mais do que o que as separa.

Entre holofotes e sombra, o futebol feminino vai construindo a sua história. A narrativa em torno do futebol feminino apresenta um discurso alternativo, embora recheado de elementos comerciais. Por um lado, há a tentativa de promover um discurso de igualdade de oportunidades para homens e mulheres na modalidade, junto com um apelo à união e paz nos estádios. Por outro, há o objetivo de fazer crescer a modalidade, profissionalizar as suas estruturas, atrair público e patrocinadores para o espetáculo.

 


“Um arco-íris multicultural de sotaques e cores de pele”: a diversão no Campeonato Mundial de Surfe Amador de 1988

19/01/2020

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

O Campeonato Mundial de Surfe Amador realizado em 1988 em Porto Rico é frequentemente apontado por jornalistas, surfistas e memorialistas como um marco na trajetória brasileira no âmbito competitivo internacional. Isto porque o brasileiro Fabio Gouveia sagrou-se campeão da categoria Open, a de maior destaque (o mundial amador é uma competição por equipes e este aspecto costumava receber pouco destaque na imprensa brasileira, mas esta é outra história). Um título inédito, tanto entre os campeonatos da primeira era (1964 até 1972, sendo o de 68 também em Porto Rico) quanto aqueles realizados a partir de 1978, organizados pela International Surfing Association (ISA), fundada em 1976.

Enquanto nas revistas de surfe brasileiras a cobertura enfatizou a vitória do atleta conterrâneo, em publicações internacionais a ênfase foi – como era de se esperar – distinta (ainda que Surfing tenha mencionado mais de uma vez o título do brasileiro, inclusive dedicando a ele uma coluna de um terço de página assinada por Sam George). Neste texto, trato de uma reportagem específica, assinada por Mitch Varnes em Surfing, publicação com sede em San Clemente (Califórnia) e circulação nos EUA e em diversos países, inclusive o Brasil. A edição de 1988 do Campeonato Mundial de Surfe Amador recebeu um grande destaque. A matéria de Varnes ocupou nove páginas. Entre os possíveis motivos, penso na condição de Porto Rico (até certo ponto parte dos Estados Unidos), a proximidade (menor gasto com passagens) e a grandiosidade do evento, que contou com patrocínio de diversas empresas dos EUA.

No geral, as matérias com cobertura dos campeonatos de fato destacavam mais a disputa por equipes (fruto do total de pontos obtidos nas categorias disputadas por indivíduos). Isto também ocorreu com a reportagem em questão. Interessa-me, aqui, destacar a grandiosidade e o caráter festivo atribuídos ao evento. A começar pelo título: “O Maior Espetáculo da Terra”. A reportagem destacou que o campeonato foi realizado em três locais do “Havaí do Atlântico”, ocupou duas semanas do mês de fevereiro e atraiu um público porto-riquenho grande e entusiasmado. Vinte e seis países foram representados por quase 400 surfistas – dois recordes. Entre eles “inscrições supreendentes vieram de países como Israel, Itália, Noruega e Alemanha Ocidental”. Houve numerosos elogios aos esforços e competência dos porto-riquenhos na organização – um contraste nítido com as críticas ao campeonato de 1984, na Califórnia.

A ampla maioria dos participantes não tinha possibilidades de título (algo muito frequente em competições esportivas, mas raramente abordado na cobertura midiática), então importou-se mais em jogar sinuca e se divertir no “Ala Mar, um popular point noturno frequentado por competidores menos preocupados ou por aqueles já eliminados. Dançando noite afora no clima tropical, as multidões de surfistas formavam um arco-íris multicultural de sotaques e cores de pele”.

As festas parecem ter sido ótimas. Uma foto mostra jovens à noite num bar/casa noturna, com a legenda: “a equipe venezuelana experimenta um pouco da hospitalidade local”. Vários na imagem seguram latas de Budweiser, cerveja patrocinadora do campeonato. Os competidores ficaram hospedados numa base militar desativada dos EUA – em uma das noites, os Ramones fizeram um show exclusivo para os participantes.

Já o chefe da delegação dos Estados Unidos estabeleceu um toque de recolher para seus subordinados. Por ocasião do “show de talentos especial” das delegações, “a ausência” dos atletas daquele país foi “mais notável”. Para completar, o chefe da delegação apresentou uma reclamação formal à organização, argumentando, segundo a reportagem, que tal evento noturno “mantinha seus surfistas acordados até muito tarde, comprometendo desnecessariamente a seriedade da competição”. Em contraste, na referida noite,

“O resto do mundo se divertiu à beça. Sob a luz das estrelas e o conjunto de bandeiras nacionais esvoaçantes, os japoneses lutaram sumô; (…) os anfitriões porto-riquenhos e os visitantes taitianos compararam provocativos flamencos com vigorosas hulas. Foi uma noite rara e especial, e somente uma corajosa iniciativa de Bill McMillen, da Flórida, que subiu ao palco com sua solitária gaita e tocou algumas canções de blue-grass, salvou o tristemente desinteressado time dos Estados Unidos de um distanciamento cultural total.”

Após estes e outros parágrafos sobre o espírito de alegria e congraçamento que estes encontros de jovens proporcionam, a matéria se encerra citando o caso do representante da Noruega, praticante solitário nas águas geladas de seu país, mas “talvez o surfista mais satisfeito de todo o evento” por nele ter encontrado camaradagem e, durante “duas semanas loucas e ensolaradas (…), uma família” na comunidade do surfe.

Para saber mais

FORTES, Rafael. A cobertura do Campeonato Mundial Amador em Surfing (1978-1990). Contracampo, Niterói, v. 36, n. 2, p. 179-199, ago.-nov. 2017. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.22409/contracampo.v36i2.955>. (A version in English is available.)

Sobre o esporte em Porto Rico, ver os trabalhos do pesquisador Antonio Sotomayor, em especial o livro The Sovereign Colony: Olympic Sport, National Identity, and International Politics in Puerto Rico. Lincoln: University of Nebraska Press, 2016.