The Matildas enfiaram 6 na Seleção: notas sobre o futebol de mulheres na Austrália

20/08/2017

(para Paula Botelho-Gomes e Claudia Kessler)

Por Jorge Knijnik

 

Há poucas semanas, O Brasil tomou outro vareio internacional. Desta vez, nossos algozes foram as Matildas, a equipe Feminina Australiana de futebol, que enfiaram 6 x 1 na Seleção feminina brasileira no “Tournament of Nations” realizado no inicio de agosto nos Estados Unidos. Além de massacrarem o Brasil, as Matildas paparam o torneio de forma invicta, vencendo pela primeira vez na historia as anfitriãs (1×0) e convencendo contra o time do Japão (4×2).  Até onde eu sei este ‘vexame’ futebolístico passou quase despercebido na mídia brasileira, que nao tomou muito conhecimento desta goleada.

Na Austrália,  o grande feito das Matildas infelizmente, tambem não teve a repercussão que merecia. Se no Brasil os ‘6×1’ não chegou às manchetes nem virou sinônimo de todo e qualquer descalabro publico e social da nação (ah! Os eternos ‘7×1’ a mastigar pela eternidade nosso complexo de vira-latas!), na Austrália, as vitorias espetaculares e a conquista inédita das Matildas obtiveram alguma reação positiva da grande mídia e das mídias sociais – muito aquém, porem, do seu significado esportivo e histórico.

Comentaristas ‘sociais’ de todos os naipes, afoitos, encontraram a desculpa da vez para a ausência do espaço devido ao futebol feminino: o sucesso internacional das Matildas teria sido rapidamente abafado na cobertura jornalística pelos graves problemas que afetam a administração do futebol australiano,   e com a recente visita da delegação da FIFA  para tentar minimizar a crise da Federação local – visita esta que aparentemente não foi bem sucedida.

O fato permanece: tivessem os Socceroos enfiado seis no Brasil e vencido um torneio com as principais seleções do mundo, todos sabemos o que teria acontecido: estatuas teriam sido erguidas, rádios, jornais, TVs, internet, tudo teria girado em torno deles por meses. Eles estariam bombando!

 

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No futebol de mulheres, entretanto, a historia é outra. Alias, tem sido outra há muito tempo. Seja aqui ou no Brasil, elas tem que resistir e lutar para construir a própria historia nos gramados. Deste modo, com muitos paralelos com a historia das mulheres no futebol brasileiro, as australianas vem forjando nos campos de futebol mais um espaço importante para a luta pela equidade de gênero – seja em nível politico, educacional, social ou recreativo.

O contexto histórico mundial é bem conhecido. Mesmo sendo uma atividade predominantemente masculina, o futebol foi praticado pelas mulheres europeias desde o século XVIII, tanto de forma recreativa como competitiva. No inicio do século XX o movimento futebolístico das mulheres na Inglaterra chegou ao ápice, com jogos atraindo mais de 50.000 espectadores. Entretanto, com a constante oposição dos ‘donos da bola’, que escondiam seus preconceitos através de alegações pseudocientíficas de natureza biológica e medica para restringirem legalmente a participação esportiva das mulheres, as dificuldades foram aumentando e a presença delas nos campos diminuindo – ou será que elas continuaram jogando, mesmo contra tudo e principalmente todos?

Na Austrália, a presença das mulheres nos campos de futebol começou a ser noticiada na mídia ao final do século XIX. Uma pequena nota no West Australian em 1895 afirmava que ‘um jogo entre moças  aconteceu recentemente em Melbourne, atraindo mais de 12.000 pessoas’. Referencias a jogos femininos de futebol aparecem em diversas fontes desde os anos 1880, e se intensificam a partir de 1910. Nestas fontes há algumas confusões quando se menciona ‘futebol’, sem se saber ao certo se a noticia fala sobre rugby, Australian Rules ou futebol propriamente dito.

No período entre guerras, o futebol entre mulheres começou a florescer e ganhar reconhecimento: novos times surgiram em Melbourne e Brisbane (La Trobe Ladies Football Club, North Brisbane, South Brisbane) atraindo plateias na casa dos 10.000 torcedores para seus jogos. Entidades estaduais, como a New South Wales ladie’s soccer football association e a Queensland Ladies’ soccer football Association foram criadas em 1821 para organizar o jogo das mulheres. Clubes com nomes sui generis, como Arnotts, Zig-Zags and State Mine faziam jogos disputadíssimos, atraindo milhares de pagantes aos estádios para desfrutar desta nova forma de lazer, e para torcer pelas suas equipes e atletas favoritas. Os jornais da época noticiavam que as mulheres ‘jogavam com a mesma energia e vigor dos homens, e muito frequentemente brigavam tal como eles’.

 

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De fato, desde aquela época a mídia já gostava de narrar confusões e brigas. Assim, qualquer probleminha virava manchete. Casos de torcedoras que discutiram com goleiros adversários, ou mesmo de um arbitro que foi ‘enfiado na lama pelos dois times de mulheres depois do jogo’ em Lightow em 1931, ganhavam proeminência nos jornais locais.

A realidade patriarcal, entretanto, sempre se mostrou muito dura para as mulheres futebolistas. Os mesmos argumentos usados no Brasil e no mundo contra a pratica de esportes de contato pelas mulheres eram também brandidos pelas bandas Australianas. Questoes medicas, fisiológicas, estéticas, tudo era levantado para impedir que as mulheres se emancipassem nesta área tão importante para a vida social australiana. Na maior parte dos tempos, a participação feminina era restrita a ajudar nas cantinas ou a papel de voluntarias para ajudar na administração geral dos clubes, levantar fundos, cuidar dos campos e uniformes, entre funções deste tipo.

Depois da segunda Guerra Mundial, o futebol de mulheres se revitalizou na Austrália. Em New South Wales, o numero de garotas e mulheres jogando, tanto formal quanto informalmente, não parou de crescer. Ao final dos anos 1970, havia 4.500 jogadoras adultas registradas na Australia, e 14.500 garotas menores de 18 anos jogando oficialmente o jogo de futebol – destas, 9.000 jogavam em New South Wales.

Nesta época, o futebol se expandia por todo o pais. Competições estaduais foram estabelecidas nos estados de Victoria e New South Wales. Times internacionais visitavam a Austrália para jogar amistosos contra times locais, muitas vezes aproveitando que as seleções masculinas vinham jogar por aqui. O numero de torcedoras também não parava de crescer, sendo que em Victoria, um estado fanático pelo Australian Rules, a quantidade de mulheres que assistia o futebol era minimamente inferior daquelas que frequentavam os estádios do maior esporte daquele estado, o Australian Rules Football.

Um nome importante no inicio dos anos 1960 foi Pat O’Connor, que fundou a Metropolitan Ladies’ Soccer Association em New South Wales, com uma liga que chegou a ter 12 times em sua competição principal.

Como secretaria-geral da Australian Women’s Soccer Association, O’Connor ajudou a organizar a primeira Copa Australiana de Futebol de Mulheres que se realizou em Sydney, em 1974; além de dirigente, ela também era jogadora e aos 35 anos foi uma das melhores atletas da competição. O’Connor também assumiu o posto de vice-presidente da Asian Ladies Football Confederation naquele mesmo ano, e mais tarde foi induzida no Hall of Fame do futebol australiano.

O futebol das mulheres continuou crescendo na Austrália; entretanto, mesmo conseguindo algum patrocínio de entidades nacionais, a maior parte dos custos sempre caia nos ombros das jogadoras, que tinham que se virar vendendo rifas e fazendo diversas atividades para angariar fundos e poder disputar competições estaduais e nacionais em um pais do porte da Austrália.

Somente em 1996 uma liga nacional de futebol de mulheres foi constituída, com seis equipes representando a maioria dos estados ou territórios australianos. A liga não durou muito, mas constituiu um embrião para o surgimento, anos depois, da W-League, que atualmente se configura como a liga semiprofissional de futebol de mulheres na Austrália.

Em nível internacional, o primeiro jogo de uma seleção australiana de mulheres aconteceu em  outubro de 1979 contra a Nova Zelandia, em um estádio chamado Sheymour Park, pertinho aqui de casa, no bairro de Miranda, no sudoeste de Sydney. Em 1994 o time Australiano de mulheres se classificou para o Mundial de mulheres a ser jogado na Suécia em 1995. Assim, em fevereiro de 1995 um grupo de jogadoras disputando vaga naquela seleção fez uma partida preliminar a um jogo amistoso dos Socceroos (a seleção masculina) contra a Colômbia no Sydney Football Stadium. No programa oficial, o time das mulheres foi chamado de ‘Socceroos feminino’. Assim que o jogo acabou, o SBS (um dos maiores canais televisivos públicos australianos) lançou uma competição entre seus espectadores para eleger o apelido do time das mulheres. Em maio de 1995, o nome ‘Matildas’ foi anunciado o vencedor. Apesar das resistências iniciais, o apelido pegou e desde o mundial de 1995 as Matildas vem competindo regularmente em nível internacional.

Waltzing Matilda é uma canção popular do folclore australiano. Muitos a consideram como o ‘segundo hino nacional’ da Australia e a cantam fervorosamente no dia nacional após alguns drinques. A canção fala sobre uma personagem mitológica australiana, o ‘swagman’ que anda pelo pais a procura de trabalho, com seu chapéu de palha e sua trouxa de pano onde carrega suas poucas roupas e pertences – a trouxa foi carinhosamente apelidada de ‘Matilda’. Waltzing Matilda significa, então, viajar pelo pais tal como um swagman, com sua trouxa no ombro, procurando trabalho.

Muitas Matildas (jogadoras do time de mulheres) ainda estão assim, vendendo seu trabalho pela Australia ou pelo mundo: quando acaba a curta temporada da W-League no verão australiano (quando chegam a jogar ao meio-dia sob temperaturas de 40 graus ou mais, com contratos temporários nos quais na maior parte das vezes recebem apenas o necessario para a sua subsistencia), elas viajam aos Estados Unidos ou a Europa, para pegarem as temporadas de lá; ou seguem aqui, agora jogando em times da 2ª divisão. De uma forma ou de outra, as Matildas são guerreiras: há alguns anos já peitaram a federação Australiana, entrando em greve para exigir pagamento igual ao dos Socceroos, e a federação foi obrigada a cancelar a participação do time em um torneio internacional as vésperas da competição.

Como se viu nos seus resultados mais recentes,  elas também são guerreiras nos campos. Melhorando cada vez mais como futebolistas e como time, com uma consciência social que vem crescendo, as Matildas tem tudo para brilhar nas próximas competições internacionais. No mês que vem, a Seleção Brasileira vem disputar uma serie de amistosos contra as Matildas na Australia. Eu já estou me perguntando com que roupa que eu vou.

 

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Cápsula do Tempo

14/08/2017

André Alexandre Guimarães Couto

Quase todo um mundo conhece uma cápsula do tempo. Recipiente de diversos formatos, tem o objetivo intencional ou não de deixar para a posteridade ou para quem quiser , informações relevantes da sociedade e dos grupos humanos de determinado período da História.

Quem, inclusive, quiser visualizar a abertura de uma no Rio de Janeiro em 2022, na frente do Museu Nacional (UFRJ), localizado na Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, está prevista a abertura de uma que foi enterrada em 1972.

Cápsula do tempo enterrada nos jardins do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristovão (Foto: Káthia Mello/G1)

Fonte: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/03/g1-revela-tesouros-escondidos-do-rio-nos-450-anos-da-cidade.html&gt;.

Para William Jarvis (2002), a cápsula intencional oferece para os pesquisadores pouca informação útil, pois não conta a história das pessoas da época, ou mesmo de quem produziu a própria cápsula, sem falar na deteriorização dos objetos enterrados.

Muito comum nesta cápsula é o uso de jornais da época e para tanto, o plástico ao redor do papel é utilizado para a sua respectiva preservação.

Pensando nisso, fiquei imaginando sobre o que poderíamos selecionar hoje no meio jornalístico esportivo para incluir em uma cápsula para ser aberta daqui a 50 anos. Exercício interessante, mas decidi fazer o inverso. Se formos abrir uma hoje, enterrada há 50 anos, o que acharíamos?

Ou seja, o que interessou a imprensa esportiva (no caso a carioca), no dia 14 de agosto de 1967? Utilizamos, então, o Jornal dos Sports (JS). Vejamos, então, o resultado:

Em pleno regime militar, com poucos meses do Governo Costa e Silva, a imprensa esportiva do Rio de Janeiro ocupava-se do campeonato carioca. A Taça Guanabara disputada naquele ano era o torneio do qual o Jornal dos Sports (JS) mais se concentrava. A principal manchete garrafal dizia:

América afasta Vasco da Taça

Com um público pagante de 70.146, o jogo terminara 3 x 1 para o time rubro (gols de Edu e Eduardo, que fizera 2, e Paulo Bim para o Vasco). Interessante é que o registro do público acrescentava que além dos pagantes, assistiram 9.776 menores de idade, totalizando 79.922 expectadores. Não há notícias dos demais (cadeira cativa, por exemplo), nem se existiam alguma gratuidade. Chama a atenção a presença do público infantil em grande quantidade, além da própria totalidade dos números de público presente.

Desta forma, como dia 14/08 era uma segunda-feira, a cobertura do domingo do futebol carioca era o grande tema para o JS. Mas, cabem duas informações para compreendermos o torneio: 1) as competições regionais deste período iniciavam em julho e terminavam em dezembro. 2) a Taça Guanabara não era o primeiro turno do campeonato carioca, mas considerada um torneio a parte ou ainda um pré-torneio do campeonato carioca. Em 1967, fora disputada pelos 6 times mais tradicionais da cidade: Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo, América e Bangu. Na final, Botafogo vencera o América, conforme podemos visualizar no vídeo abaixo:

 

 

Os demais, clubes com menores investimentos (Bonsucesso, São Cristóvão, Campo Grande, Portuguesa, Olaria e Madureira) disputavam um torneio similar chamado de Taça José Trócoli.

Nelson Rodrigues em sua crônica escrevia que: “Amigos, ontem, à saída do Estádio Mário Filho, dizia-me um americano: – ‘Você precisa escrever sobre o América! Basta de Fluminense’. Achei graça e passei adiante. Mas claro que não basta de Fluminense. O tricolor continua sendo um destes assuntos obsessivos e eternos. Todavia, o América merece que eu abra, hoje, com o seu nome e com sua vitória (…).” Nelson Rodrigues enfatizava sua paixão pelo time tricolor e aproveitava para valorizar a rivalidade com o Vasco ao apontar uma vitória convincente do América, clube que segundo ele era importante, mas estava passando por dificuldades para se manter na elite do futebol carioca.

Interessante é perceber que neste ano inexistiu um clube do interior na disputa das principais competições do estado do Rio de Janeiro.

O JS ainda na sua capa apresentava o principal resultado do campeonato mineiro: “Atlético derrota América” e as notícias do campeonato paulista viriam publicadas apenas na página 2. Hierarquização entre Minas Gerais e São Paulo, no interesse do público carioca? Leviano afirmar isso, sem pesquisar as fontes com mais cuidado, mas poder uma boa pista.

Na página 6, destaque para o futebol amador com a final do campeonato Série IV Centenário, realizado em Santa Cruz (zona oeste do Rio de Janeiro). Matéria de quase meia página e com destaque para o andamento do jogo e com imagem dos jogadores em disputa.

Não confundir, todavia, com o campeonato de peladas, torneio promovido pelo jornal, disputado nos campos do Aterro do Flamengo.

Apenas na página 7, uma matéria sobre a participação das modalidades aquáticas do Brasil nos Jogos Panamericanos de Winnipeg (Canadá) que havia terminado em 6 de agosto. Dentre as principais críticas do jornal, a denúncia de que a equipe de saltos ornamentais não tinha técnico e o waterpolo só viajara com um goleiro (ainda assim, conseguira a medalha de prata), sem falar nos maus resultados do remo (apenas uma de medalha de bronze).

Finalmente, na penúltima página, os resultados do turfe, tradicional espaço publicado desde a criação do jornal (1931).

Bem, este post bem descritivo não tem apenas o objetivo de pensar uma análise do que fora publicado no JS há 50 anos, mas também de compreendermos a necessidade de analisarmos melhor o espraiamento do futebol em suas diversas camadas de organização (só por aqui, vimos 4 delas); as críticas ao esporte brasileiro que representava o país em eventos olímpicos (além, é claro, da sua própria capacidade organizativa), a longevidade e importância do trabalho de Nelson Rodrigues assim como a descontinuidade dos textos subjetivos de múltiplos cronistas que atuaram na década anterior no próprio jornal. E ainda a relação do JS com outros veículos de comunicação como a televisão pois era comum a propaganda de programas como o de J. Silvestre na TV Rio, por exemplo.

Ou seja, possibilidades múltiplas para compreendermos o esporte por meio da imprensa, para além de sua restrita descrição.

 

Referências:

JARVIS, William. Time Capsules: A Cultural History. McFarland, 2002.

JORNAL DOS SPORTS. N.º 11.934. Rio de Janeiro. 14 de agosto de 1967.


História do yoga no Brasil

31/07/2017

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Segundo dados da Associação Brasileira de Ioga, publicados pela revista Exame, em 2011, haveria 500 mil adeptos da prática no Brasil. [1] Os métodos e fontes dessas estimativas são sempre obscuros; passíveis, portanto, das mais variadas contestações, para mais ou para menos. Quase uma década antes, o Consulado Geral da Índia estimava em um milhão o número de praticantes de yoga no Brasil. Grupos organizados de adeptos discordavam, falando de até 5 milhões de praticantes. [2]

Outra divergência que separa mestres e adeptos do yoga é a história da prática no Brasil. Num universo onde tradição e autenticidade agregam prestígio e reputação, vários grupos disputam a primazia da difusão do yoga no país. De modo geral, todos reconhecem que, na Índia, o yoga é praticado há mais de 5 mil anos, abarcando diferentes formas: Hatha Yoga, Raja Yoga, Asthanga Yoga, entre muitas outras. Já a chegada da prática ao Brasil é permeada de divergências, muitas das quais animadas por implícitos interesses comerciais. Onde o peso da história pode ser mobilizado como estratégia publicitária, tendem a ser particularmente duras as disputas pela memória. A ausência de historiadores profissionais deste debate não ajuda.

Basicamente, para simplificar o cipoal de interpretações sobre a história do yoga no Brasil, quase sempre se aponta para acontecimentos desenrolados nas décadas de 1950 ou 1960. Mais particularmente, citam-se a fundação da Ordem dos Sarvas Swamis, no interior do Rio de Janeiro, por volta de 1953; a fundação da Associação Mística Ocidental, no interior de Santa Catarina, também por volta de 1953; a abertura da Academia de Shotaro Shimada, em São Paulo, em 1958; a inauguração da academia do francês e monge Jean Pierre Bastiou, no Rio de Janeiro, também em 1958; a publicação do livro “Libertação pelo Yoga”, em 1960, do general Caio Miranda; as iniciativas práticas e editoriais do militar José Hermógenes a partir de 1960; ou ainda as ações de Luiz de Rose, no Rio de Janeiro, também a partir de 1960.

De acordo com a “escola” de yoga a que cada praticante esteja vinculado, uma ou mais dessas versões podem ser adotadas, com diferentes níveis de entusiasmo. Obviamente, como é de se esperar em contexto de tantas convicções, todas elas estão erradas.

As primeiras notícias sobre o yoga no Brasil começaram a circular ainda na primeira década do século 20, por ocasião da divulgação de congressos de história da religião, que contavam com palestras sobre “Yoga” e “Budismo”. Desde essa época, circulavam também notícias sobre faquires indianos, onde a prática do “Hatha Yoga” era mencionada como explicação exótica das suas proezas físicas. A dimensão excêntrica disso tudo seria sempre muito bem explorada por jornais da época. Por outro lado, notícias desse tipo também ajudariam a iniciar a divulgação do yoga no Brasil, ainda que de maneira sutil.

A índia e seus mistérios

Desde princípios do século 20, notícias realçando aspectos “exóticos” da Índia ajudaram a iniciar a divulgação do yoga no Brasil.  Fonte: A Noite, Rio de Janeiro, 8 jun. 1931, n. 7015, p. 7

A partir de 1910, aproximadamente, iniciativas de Sociedades Teosóficas em várias cidades do Brasil iniciaram divulgação regular do vegetarianismo, do absenteísmo, do esoterismo, do ocultismo e também do yoga como recursos para transcender os limites da mente. Essas Sociedades Teosóficas, espécies de organizações espiritualistas sincréticas, organizadas em vários países a partir dos fins do século 19, em grande medida motivadas por ideias da aristocrata russa Helena Blavatski, e até hoje existentes, tiveram mesmo grande protagonismo no início da divulgação do yoga no Brasil. Dentre as suas muitas realizações nesse sentido, consta a tradução e publicação de um livro em princípios dos anos 1930 sobre “Introdução ao Yoga”, da inglesa Annie Besant, também ligada à Teosofia.

Helena - teosofia

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 dez. 1938, n. 13526, Supplemento, p. 4

Antes ainda, direta ou indiretamente ligados à Sociedades Teosóficas, foram traduzidos e publicados no Brasil, desde meados da década de 1910, diversos livros de Yogui Ramacharakan, segundo dizem, pseudônimo do norte-americano William Atkinson (o assunto também é um pouco polêmico). Livros como “Hatha Yoga”, “Ciência da respiração” ou “Quatorze lições sobre Filosofia Yogy”, entre outros, comentados em palestras e amplamente comercializados em livrarias da época, encerravam o que haveria de mais precioso para o bem-estar físico, ensinando numerosos exercícios que deveriam ser praticados para que o corpo pudesse ser manter sempre saudável, diziam suas propagandas, publicadas em jornais dos anos 1910 e 1920. Muito antes, portanto, das publicações brasileiras sobre yoga dos anos 1950 ou 1960, geralmente apontados por entusiastas como marcos pioneiros fundamentais para o início da prática no país, já havia um significativo conjunto de materiais e informações disponíveis . Alguns dos verdadeiramente pioneiros livros de “Ramacharakan” lançados no Brasil, em grande medida impulsionados por ações de Sociedades Teosóficas, tiveram várias edições até pelo menos os anos 1970, se não depois, conformando um importante filão para a difusão da filosofia e das técnicas de yoga.

Ainda nas décadas de 1920 e 1930, palestras sobre yoga não apenas continuariam sendo realizadas, como ganhariam mais abrangência. Além das Sociedades Teosóficas, que continuaram ativamente atuantes na apresentação e divulgação do yoga, iniciativas semelhantes seriam deflagradas também por outras instituições. Além do envolvimento de diversas organizações “naturistas”, “esotéricas”, “ocultistas”, “psquistas” e de “cultura psico-transcendental e vibração mental”, como elas próprias se intitulavam, até a Associação Cristã de Moços chegou a promover conferência sobre preceitos do yoga.

O Cruzeiro

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 27 nov. 1937, n. 4, p. 31

Em meados da década de 1930, celebridades internacionais dos esportes e do cinema começaram a adotar o yoga, o que acabou oferecendo ampla publicidade para a prática. Entre eles, destacam-se o ator Ramon Navarro, protagonista do filme Ben-Hur, grande sucesso em meados da década de 1920. Por volta de 1935, Navarro se tornou adepto do yoga. Segundo disse em entrevista para uma reportagem da época: “Ganhei todo o dinheiro que aspirava ganhar. Tornei-me um ‘yogi’ [isto é, adepto da filosofia e das práticas yoga]. Abandonei por completo o fumo e a bebida; ambos não me fazem falta. Aspiro viver na tranquilidade física e mental. Penso estar na estrada que me conduz a ela”.[3]. Nesse momento, Ramon Navarro não tinha como saber que seria brutalmente assinado anos depois por seus próprios irmãos, que acreditavam haver grandes somas de dinheiro escondido em sua casa.

O Cruzeiro, 10 jan. 1959, n. 13, p. 85

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 10 jan. 1959, n. 13, p. 93

Outro que aderiu ao yoga na mesma época, oferecendo-lhe involuntariamente publicidade, foi o boxeador norte-americano Lou Nova. Orientado no Charkstown Country Club, em Nova York, de propriedade de um tal Dr. Pierre Bernard, conhecido também como Oom, o Onipotente, onde se prometiam curas miraculosas com a aplicação dos exercícios yoga, Lou Nova se tornou vegetariano e adepto da prática indiana como método de preparação física. Segundo reportagem do jornal O Globo de 1939, “os boxers famosos inventam às vezes processos curiosos de treinamento, rachando madeira, bebendo cerveja ou fazendo filmes. Mas, até hoje, nenhum astro do ringue treinou sentando-se como um filósofo hindu aos pés de um yogi, aprendendo a controlar os músculos do estômago”.[4] Na esteira do sucesso do boxeador famoso, divulgava-se a milenar filosofia indiana. O yoga, porém, não foi suficiente para fazer Lou Nova superar Joe Louis na disputa pelo título mundial dos pesos-pesados em 1941. Perdeu no sexto assalto por knock-out. Apenas um detalhe que em nada parece ter diminuído o entusiasmado impulso em favor da difusão do yoga.

Lou Nova... O Globo Sportivo, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

O Globo Sportivo, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18

Daí em diante, o yoga estaria cada vez mais disponível no Brasil. Reportagens da Revista O Cruzeiro, uma das mais importantes publicações semanais de variedades do período, explicariam detalhes da prática indiana a um público mais amplo que os círculos de interessados em palestras teosóficas ou conferências exotéricas. Segundo dizia uma dessas reportagens, “a doutrina yoga é uma porta secreta que conduz a uma longa existência, sadia, calma e regrada”. Em 1938, talvez com algum exagero, a manchete de outra reportagem da mesma revista já poderia anunciar que o “yoguismo” avassalava o mundo. A reportagem, além disso,  reproduzia fotografias do livro “Yoga, uma ciência”, de Kovir T. Behana, psicólogo da universidade de Yale, que estudou e praticou yoga na Índia com o mestre Swami Kuvalayanada, como parte de um projeto de pesquisa científica, que deu origem ao livro: outra fonte relativamente importante para difusão do yoga anterior aos marcos usualmente apontados por adeptos e entusiastas.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 3 set. 1938, n. 44, p. 8-9

Desde essa época, a lenta, mas progressiva popularização do yoga tenderia a transmutar cada vez mais alguns dos significados da sua prática. Ao invés do horizonte religioso e espiritualmente transcendental a que aspiravam e aspiram ainda até hoje alguns dos seus mestres e incentivadores, yoga seria visto também como uma mera modalidade de ginástica – polêmica ainda capaz de exasperar seus adeptos mais puristas. Muito sintomaticamente, dizia uma reportagem de 1939, um dos segredos da beleza e da boa forma da Miss América daquele ano, além de massagens abdominais de origem romana e danças rítmicas usadas em templos hindus, era justamente a prática da “ginástica yoga”, com todas as suas sutilezas, observava com cuidado a reportagem, “onde os exercícios corporais estão estritamente ligados ao espírito, pois exigem grande grau de concentração e educação respiratória”.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 32, p. 23

Vários desses elementos, especialmente a ênfase na concentração e na respiração, combinados depois com outras técnicas de origens diversas, seriam apropriados mais tarde por práticas de treinamento físico atualmente bastante populares, como é o caso do método Pilates. Por trás de suas aparentes inovações, em comum, há sempre o horizonte de uma consciência transcendental, com influências do Oriente, com traços de espiritualização, e que se quer, de todo modo, mais ampla e profunda. Mito ou verdade, depende muito das inclinações ideológicas de cada um, tudo sempre produto de um longo e peculiar processo de desenvolvimento histórico.

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[1] BAGDADI, Solange. Ioga já tem 500 mil praticantes no Brasil. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/ioga-ganha-cada-vez-mais-praticantes-no-brasil/

[2] Grupos divergem sobre número de praticantes no país. Folha de São Paulo, 30 de junho de 2002. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3006200222.htm

[3] Desiludido da vida. O Dia, Curitiba, 1 mai. 1938, n. 4527, p. 1.

[4] Lou Nova treina pelos methodos Yoga. O Globo Sportivo, Rio de Janeiro, 10 jun. 1939, n. 42, p. 18


O Maraca é nosso?

24/07/2017

 

Imagem de ilustração do novo maracanã. Disponível em: http://campos24horas.com.br/portal/futebol-carioca-nao-sustenta-o-novo-maracana/. Consultado em 23 de julho de 2017.

 

GERAL MARACA

Imagem da geral. Disponível em: http://brasil.estadao.com.br/blogs/mario-vitor-rodrigues/bicha-mil-vezes-bicha/. Acessado em 23 de julho de 2017.

 

 

Hoje estou editando um post um pouco diferente. Não vou falar de nenhum filme específico, mas sim de um personagem ilustre: o Maracanã (e, é claro, de algumas películas que o tem como objeto/protagonista das telas).

O Maracanã, embora em forma, já é um senhor. Sua construção original se liga à preparação da Copa de 1950 (1). Do maior estádio do mundo até a configuração atual, muita coisa mudou (2). Uma coisa é certa, ao longo desses quase 70 anos, o estádio Mario Filho adentrou à história e imagem do Rio de Janeiro, de modo indelével.

Nesses dias que passaram estive ocupado em um primeiro levantamento de uma das facetas desse ente excepcional: exatamente aquela que o configura como um monumento marcante da cidade. O reconhecimento desse protagonismo de “cal e pedra” ganhou a forma de um decreto de tombamento, em julho de 2002. Nesse documento afirma-se a “grande importância histórica, arquitetônica, cultural e afetiva para a Cidade do Rio de Janeiro” (Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/web/irph/patrimonio . Consultado em 18 de junho de 2017).

Mas não é só isso. De forma mais ou menos associada ao conjunto arquitetônico, quatro “bens imateriais” foram consagrados pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, a saber: A torcida do flamengo (em 2007), as torcidas dos clubes de futebol da cidade (2012), a partida de futebol fla-flu (2012) e os gols do Zico no Maracanã (2013 – Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/web/irph/patrimonio-imaterial. Consultado em 18 de junho de 2017).

Cada um desses itens apresenta um arrazoado próprio, desenvolvido em decretos municipais específicos para esse fim. As ponderações sobre o fla-flu são impagáveis, por isso reproduzo parcialmente:

CONSIDERANDO que o Fla-Flu é uma celebração que sintetiza a identidade carioca e signo máximo do saudável antagonismo esportivo;

CONSIDERANDO as distintas manifestações artísticas e culturais que fazem referência à partida como atributo estético universal, como bem sintetizou o jornalista e escritor Nelson Rodrigues na máxima: “O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada” (Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4368015/4108336/23DECRETO35878PartidadeFutebolFlaFlu.pdf. Consultado em 23 de julho de 2017).

Dadas as modificações sofridas mais ou menos recentemente pelo Maraca, entre as quais a diminuição da capacidade de receber público (que já foi de incrível 200 mil e que hoje está em 78 mil espectadores), o substancial aumento de preço dos ingressos e o fim da geral, muito se discute sobre um processo de gentrificação desse equipamento/monumento para lá de esportivo (3). Mas isso talvez fique para uma outra conversa.

Ah, quase ia esquecendo: faltaram os filmes. Para ver essas e outras discussões nas telas, estive procurando e assistindo algumas produções de fácil acesso, dentre os quais destacaria Geraldinos, de Pedro Asbeg e Renato Martins (Brasil, 2016, 1:13 horas) e Geral, curta de Anna Azevedo (Brasil, 2010, 14’ 59”). Ambos, como os títulos não nos deixam enganar, comentam a existência e o fim do espaço da geral. O Maraca é nosso? trabalha exatamente novas formas de participação coletiva da torcida em um estádio de acesso financeiramente mais elitizado. Maracaná, binacional (Uruguai/Brasil), revisita o inolvidável Maracanazo, de 1950, sob uma perspectiva que emparelha visões de brasileiros e de uruguaios e confere a Obdúlio Varela (capitão da Celeste) um papel heroico (quase mítico). E, para rever, não resisti em incluir Barbosa, esse clássico de Anna Luiza Azevedo e Jorge Furtado (Brasil, 12’, 1988). Bom fim de julho, meu caro público!

 

Notas:

(1). Para detalhes ver MOURA, Gisella de Araujo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro, Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1988);

(2) Sobre as últimas e consideráveis reformas pelas quais o estádio passou, ver HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque. O fim do Estádio-nação? Notas sobres a construção e a remodelagem do Maracanã para a Copa de 2014. In: CAMPOS, Flavio de e ALFONSI, Daniela. Futebol – objeto das ciências humanas. São Paulo, Leya, 2014, p. 320 – 345.

(3) Ver, por exemplo, MELLO, Paulo Thiago. O Maracanã da gentrificação (Disponível em http://www.canalibase.org.br/o-maracana-da-gentrificacao/. Acessado em 18 de junho de 2017).

 

Filmes:

Barbosa. Anna Luiza Azevedo e Jorge Furtado, Brasil, 12’, 1988. Disponível em: http://portacurtas.org.br/filme/?name=barbosa . Consultado em 18 de junho de 2017.

Geral. Curta de Anna Azevedo, Brasil, 14’ 59”, 2010. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=vDCD9kL9pvI. Acessado em 18 de junho de 2017. Jogo Fla X Flu, final da Taça Rio (4X1), retratado no curta. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=IqMmWyIKoX0, acessado em 18 de junho de 2017.

Geraldinos. Filme de Pedro Asbeg e Renato Martins. Brasil, 2016 (1:13 horas). Ficha técnica disponível em http://www.adorocinema.com/filmes/filme-236958/. Consultado em 18 de junho de 2017.

O Maraca é nosso? Curta de 12 minutos, Brasil, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CXSuvJY-xXw&t=238s. Consultado em 18 de junho de 2017. Ficha técnica disponível em: https://filmow.com/o-maraca-e-nosso-t210903/. Consultado em 18 de junho de 2017.

Maracaná. De Sebastián Bednarik e Andrés Varela. Uruguai/Brasil, 2014. Documentário, 75’.


A GINÁSTICA COMO PRÁTICA EDUCATIVA NA BAHIA (1850-1920)

17/07/2017

Aline Gomes Machado

O século XIX, no Brasil, representou um momento de mudanças significativas nos diversos setores. Via-se a efervescência de uma busca pela modernização do país. Civilização e modernidade se convertiam, neste momento, em palavras de ordem; virando instrumento de batalhas, além de fotografias de um ideal alentado.

 A Bahia, como a antiga capital do país, não ficou de fora desse processo. Também ela viu fervilhar o desejo pela modernidade, por novos ares, modos de vida, novos comportamentos e hábitos, inclusive, os de saúde e higiene.

Sabemos que a essa época, Salvador era uma cidade sem nenhum tipo de cuidado com o esgoto, estava sempre suscetível a moléstias infectocontagiosas, que atacavam sua população. Especialmente, a camada negra e pobre era a mais massacrada pelas epidemias que tomavam a cidade, já que era mais exposta às situações de risco sanitário.

Muito em função disso e por possuir em suas terras, uma escola médica, tida como um cenário de ciência, um dos discursos de modernização na Bahia assentou-se no pressuposto de que o saber científico possuía uma proposição especial para promover o desenvolvimento.

Dessa forma, a ciência tornou-se fundamental, por, pretensamente, apresentar caminhos objetivos para solucionar os problemas sociais, especialmente a ciência médica. Sendo assim, vimos que a camada ‘letrada, científica e lógica’, apoiada nos poderes políticos, dirigiu diretamente o projeto de modernidade, inclusive o baiano, justo por conta do papel de destaque dado ao conhecimento científico.

Assim, na Bahia, pautados nos pressupostos higienistas, os senhores da ciência constatavam as mazelas e indicavam os meios para se atingir os objetivos de uma melhor higiene, como podemos perceber no Relatório do Conselho Interino de 1856, elaborado pelo secretário da Commissão de Hygiene Publica, Dr. Malaquias Avares dos Santos:

Nas demais comarcas existem também muitas causas de insalubridade, como sejam mais geralmente habitações húmidas, e mal arejadas, alimentação irregular e de má qualidade, pântanos de todos os gêneros, e nenhum apuro na educação physica; ao que demais se ajunctam muitos vicios na educação.” moral e intelectual dos habitantes, o que se encontra ainda n’esta capital e mormente, nos seus suburbios.

O discurso médico figurou no movimento de modernidade baiano, articulando o progresso, a necessidade de higiene. A exemplo disso temos a fala de Mathias de Campos Velho, na tese apresentada para conclusão do curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aonde afirma que a higiene:

esta quasi sempre em razão directa com a civilização de um povo e constitue fonte de riqueza, porque concede dous thesouros preciosos, a saude e a ordem (p.70) e, neste sentido diz, também, que o homem civilisado tem sempre em vista: a hygiene geral (p.67).

Dentre as estratégias elaboradas para atingir a higiene necessária, os higienistas reconheciam a importância de uma educação que se enquadrasse nos objetivos desse movimento. Objetivos esses que não se restringiam ao controle das variáveis físicas, biológicas, mas também buscavam uma retidão moral, uma disciplinarização necessária para atender as demandas sociais da época. Assim, os higienistas indicavam quais medidas deveriam ser tomadas pela população e governo, inclusive nas instituições escolares.

Contando com o apoio de articulistas, os higienistas apontavam como elemento basilar para formar o homem higiênico, o cuidado com o corpo, onde a prática de atividades físicas possuía fundamental importância. Dentre eles, a ginástica aparecia como a prática dileta.

Sabemos que a ginástica, como uma prática educativa, era tratada como algo que atuaria na formação de novos corpos e mentes, tida como uma extensão dos poderes e saberes gerados pela higiene, ganhando assim, a defesa de médicos e articulistas que se encarregavam de garantir os porquês da importância dessa atividade, não apenas fundamentando os benefícios corporais, mas também para formação moral do ‘homem vigoroso’.

Como justificativas a este apoio a uma nova ação ‘educativa’, a ginástica, encontramos nos jornais baianos questionamentos, inclusive, sobre a forma como os mais ricos educavam seus filhos. O Correio Mercantil (02 de junho de 1838, p.02) apontava que “os mimos e branduras com que as pessoas mais ricas e poderosas custumão criar os filhos os fazem commummente aleminados e de débil compleição”, e coloca a ginástica “com o exercício acertado” como corretiva desta situação, e segue garantindo que “a gymnastica, porém, nas cidades he absolutamente precisa, não para formar arlequins, como o para cuidado, mas para educar homens vigorosos”.

Por conta de pensamentos como esse, os discursos voltaram-se, então para a prática da ginástica como instrumento capaz de fornecer os idealizados objetivos dessa sociedade modernizada, civilizada e higiênica.

A partir da influência de um saber científico, os propósitos conferidos à prática metódica se tornaram mais expressivos com o passar do século XIX, demarcando que a ginástica valorizada era aquela cujos princípios básicos seriam a disciplina, a saúde e a higiene, distanciando-a de uma prática mais livre e expressiva. Era preciso uma ‘ginástica científica’ que se enquadrasse nos ideais modernizadores e higiênicos, que apresentasse caminhos para resolver as mazelas sociais que se circundavam todo país.

Nesse sentido, o Brasil e a Bahia, sob o prisma do higienismo, esforçando-se para acompanhar o desenvolvimento dos países modernos do continente europeu, adotavam muitas de suas práticas culturais e educacionais como símbolos de modernidade. Se na Europa a ginástica era parte da educação oferecida pelos principais colégios, aqui, ela seria utilizada num sentido semelhante.

A tese Hygiene Pedagogica, de Umbelino Heraclio Muniz Marques, apresentada a Faculdade de Medicina da Bahia, procurou demonstrar como uma educação higiênica, digamos assim, seria o símbolo de uma modernidade

A higiene pedagógica, que aliás age decisivamente sobre o desenvolvimento da creança, e sobre a conservação de sua saude, ainda nos paizes, mais adiantados deixa muito a desejar…(1886, p.01).

O mesmo Umbelino ainda afirma como uma educação higiênica “adapta todas as potencias physycas, intellectuaes e moraes de cada individuo á função plena do papel que lhe esteja destinado desempenhar na coletividade” (p.02). Perceba como a preocupação está centrada em tornar harmônica esta tríade das faculdades humanas para que o sujeito possa desempenhar seu papel sem alterar a ordem social desejada, que neste caso é a ordem para o progresso, a modernização.

Desta forma, nesse momento aqui tratado, vimos, na Bahia, um movimento que visou, sobretudo, civilizar os costumes, moralizar as condutas e moldar comportamentos e corpos para alicerçar as bases da sociedade higiênica e moderna. Este movimento configurou as principais estratégias do projeto higienista. Essa foi à intenção e motivação, agora saber como se deu e mesmo se alcançou tal objetivo, fica para outros escritos.

 


Origen de los clubes deportivos en Montevideo (1842-1874)

10/07/2017

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)
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Cuestiones preliminares: el origen del Deporte Moderno

En las últimas décadas, la producción académica sobre la Historia del Deporte como campo profesional, aumentó enormemente. Los trabajos que han surgido, provienen de diversas áreas y contribuyen a pensar el objeto de estudio desde otro lugar, aproximándonos a debates teóricos y metodológicos de la disciplina. Uno de los puntos de debate versa en torno a la historia conceptual del término deporte. Aquí estamos ante un problema, ¿qué entendemos por deporte? ¿Cuál es su origen? ¿Cuándo se empieza a utilizar el concepto? ¿Cuál es el alcance del término? ¿Qué fenómenos describe?

Son grandes las líneas de abordaje a la problemática, pero aquí esbozaremos algunas líneas preliminares, partiendo de la teoría socio-crítica acerca del origen del deporte. Este grupo de autores se opone a la tesis de que el deporte surge en los albores de la civilización humana. Como señala Roberto Velazquez Buendía (2001), lo que hoy se conoce como deporte tuvo su origen en Inglaterra, a partir del siglo XVIII, mediante un proceso de transformación de juegos y pasatiempos tradicionales iniciado por las elites sociales y en el que tuvieron un papel clave las “publics schools” y los “clubs” ingleses.

Para esta teoría, el deporte es un fenómeno social y un símbolo cultural, característico de las sociedades contemporáneas urbanas e industriales. Siguiendo a Jean-Marie Brohm (1993), desde su óptica marxista, el deporte como institución es producto de una ruptura histórica, apareció en Inglaterra, en la época industrial moderna, espacio clásico del modo de producción capitalista. Los cambios provocados por la revolución industrial en cuanto a la organización social, implicaron una clara diferenciación entre el tiempo de trabajo y el tiempo de ocio (en términos de compensación y que debió ser conquistado por los sectores sociales que no lo usufructuaban). En tal sentido, de entrada el deporte no es una institución homogénea, sino una práctica de clase, como refiere Brohm (1993). El tiempo de ocio actuaría como factor desalienante y de ese tiempo el deporte ocupa en la sociedad actual un espacio significativo (Arias y Reisch; 2004).

La humanidad siempre realizó ejercicio físico con diferentes finalidades (lúdicas, competitivas, militares, religiosas). No podemos considerar deporte a aquellas actividades previas al siglo XIX, ya que se trataba de juegos y competiciones rituales cuya función social era bien distinta en cada una de esas sociedades, y bien diferentes a las que corresponde al deporte moderno y de nuestra época.

El deporte moderno es propio de Inglaterra y se caracteriza por: una actividad física e intelectual humana; de naturaleza lúdico/competitiva; institucionalizada que permite el reconocimiento, el control, el desarrollo y la implantación de reglamentos; regidas por reglas que definen las características de la actividad y de su desarrollo; con parámetros organizativos; multiplicidad de roles nítidos y sin significación religiosa.

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El club: una institución inglesa

Una de las instituciones fundamentales del deporte moderno es el club. El club, entendido como asociación de individuos que se agrupan por tener los mismos intereses nace en Inglaterra antes del siglo XIX. Los primeros clubes deportivos que surgieron fueron fundados con carácter restrictivo por los aristócratas ingleses: el Royal and Ancient Golf Club en 1754 y el Marylebone Cricket Club en 1787.

La consolidación del deporte moderno es un fenómeno paralelo a la consolidación del imperialismo del siglo XIX. El imperio británico exportó sus prácticas deportivas a los cinco continentes, junto con sus mercancías. De esta manera, se difundió la cultura británica y el fenómeno deportivo, teniendo en algunos territorios mayor receptividad que en otros.

En el Uruguay, la práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. El deporte llegó a Montevideo en el siglo XIX, cuando los ingleses lo introdujeron en el Río de la Plata y en otras partes del mundo, de la mano del ferrocarril, intercambios con la marinería y de la acción de los colegios ingleses.

Como señala J. C. Luzuriaga (2009), su difusión en la sociedad uruguaya siguió la misma lógica que en Gran Bretaña y en otros países, pasando de las elites al resto de la población en forma de cascada.

Si bien existió en nuestro país la experiencia del Victoria Cricket Club, entidad creada en 1842, hubo que esperar hasta la década del sesenta del siglo XIX para ver el surgimiento de los primeros clubes deportivos estables.

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Antecedentes: el Victoria Cricket Club (1842)

Entre 1830 y 1855 se encuentran las bases del desarrollo deportivo en el Uruguay. Lo más importante en este período, fue la fundación del primer club: el Victoria Cricket Club, fundando por los ingleses, que llevaban el espíritu del deporte, en octubre de 1842. La institución tuvo entre sus concurrentes asociados a la zona de su creación, Pueblo Victoria (próximo al Paso Molino), próximo al saladero del inglés Samuel Lafone, quien fue uno de los impulsores del club. El nombre fue en honor a la reina de Inglaterra, aunque algunas versiones plantean que se debe a la localidad donde realizaban la actividad.

Los concurrentes realizaban todos los jueves los “Días de Sport” a través de prácticas y partidos de Cricket, deporte más popular en Inglaterra en esa época. Allí estuvo el primer campo de deportes del Uruguay, por esto es que se considera que fueron los ingleses quienes introdujeron el deporte en el Uruguay. Mientras tanto, en Argentina, comienza un proceso similar al Uruguay, caracterizado por la fundación inglesa de clubes a lo largo del siglo XIX.

El club tuvo una breve historia, ya que desapareció como consecuencia del sitio a Montevideo establecido por las fuerzas del Partido Blanco (con apoyo argentino) encabezadas por el Brigadier Oribe y que se prolongó durante toda la Guerra Grande, hasta 1851. Esto implicó, que los ingleses no pudieran salir más de los muros de la ciudad.

La fundación del Victoria Cricket Club constituye el antecedente directo del Montevideo Cricket Club.

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Primera institución deportiva organizada en el Uruguay: Montevideo C. C. (1861)

Diez años después de la paz del 8 de octubre de 1851 y de la mano de los residentes ingleses, influyentes hombres de negocios, comercio, actividades agropecuarias y de empresas como ferrocarriles, tranvías, aguas corrientes; se consolidará el deporte moderno e institucionalizado en Montevideo. La fecha que da nacimiento al deporte continuado en el Uruguay, fue el 18 de julio de 1861, cuando en coincidencia con una fecha patria, se fundó el Montevideo Cricket Club.

Con la paz tras la Guerra Grande (1839-1851), se inicia la recuperación de nuestro país. La situación del Uruguay en los años 60 del siglo XIX, se caracterizó por un empuje del sector económico: notorio progreso en la agricultura y en la ganadería, las tierras se valorizaron. Otro aspecto destacado, fue la Revolución del Lanar (entre 1852 y 1868), pasando de 800.000 lanares en el país en 1852 a 17 millones en 1868. Síntoma del crecimiento económico del Uruguay, se fundaron los primeros bancos: el de Mauá y el Comercial, incrementándose la edificación de Montevideo e instalándose nuevas empresas.

Por otro lado, la población del país aumentó a 200 mil habitantes y Montevideo a 60 mil. Al fenómeno natural de aumento de la tasa de natalidad, el proceso de recuperación de la población se vio acompañado con la inmigración europea. Esos inmigrantes llegaron con una mentalidad capitalista, iniciativa en el medio rural y el comercio. Hacia fines de la década del 60 la población extranjera en Montevideo era de un 60% aproximadamente.

Es en este contexto, que algunos autores encuentran un paralelismo entre el desarrollo deportivo y la expansión económica del Uruguay, iniciándose así un período de relativo florecimiento en el deporte montevideano alrededor de 1860. En este cuadro se inscribe el desarrollo de nuestro primer movimiento deportivo y se inserta la fundación del Montevideo Cricket Club, el 18 de julio de 1861, club aún existente en el 2017, computando hasta la fecha 156 años de existencia.

Cuando se conmemoraron 31 años de la Jura de la primera Constitución del Uruguay, se fundó el Montevideo Cricket Club en una reunión celebrada en la Confitería Oriental (donde hoy está ubicado el Edificio Central del Banco República), sitio de reuniones de la alta sociedad y de hombres de empresa y negocios. Sus fundadores y primeros integrantes fueron ingleses, que provenían de diferentes áreas, entre ellos se destacan los pioneros del Victoria Cricket Club: J. Pickering, H. Hughes, R. Mac Lean. Junto a ellos participaron hombres vinculados al Banco de Londres y del Río de la Plata y Comercial (O`Neill y Lawry, Ruding y Fuller); a la francomasonería (Lumb, Towers, Fortes, Crane); al Templo Inglés (Hocquart y Adam); quien fuera el primer presidente del “English Club” en 1868 (Krabble); quienes fundarían posteriormente el Montevideo Rowing Club (Gigson, Miles, Stirling, Onslow); comerciantes británicos (Gowland y Oldman), quien construyera el Teatro Solís (Thomas Harver); entre otras personalidades británicas.

El club tuvo entre sus socios representantes de todos los sectores de la colectividad británica. En 1863 se instala en Montevideo la sucursal del Banco de Londres, y sus funcionarios se asociaron al Montevideo Cricket Club. Como señala J. C. Luzuriaga (2009), dentro de sus miembros asociados, habían tres categorías: a- los de nacionalidad británica y sus hijos, agrupados por sus ocupaciones; b- los oficiales de las naves británicas de estación en el puerto de Montevideo; y c- los alumnos de los centros educativos británicos.

El objetivo deportivo inicial del club se encontraba en la práctica del cricket, basado en los reglamentos de 1774 y las posteriores modificaciones establecidas por el Marylebone Cricket Club de 1787 (fundando en Londres, uno de los clubes de cricket más antiguos y prestigiosos del mundo). El cricket como deporte, tiene sus antecedentes en juegos del siglo XVI, ya en el siglo XVIII gozaba de gran popularidad en las villas y ciudades inglesas.

El campo de juego fue adquirido en los años 80 del siglo XIX, al que sus propietarios denominaron The English Ground. Estaba ubicado en la Blanqueada, en la avenida 8 de Octubre (donde hoy está ubicado el Hospital Militar), en el camino a la Unión entre las calles Jaime Cibils y Larrañaga, rodeado de quintas y chacras. Aquí fue donde se vieron por primera vez en Uruguay las distintas manifestaciones de esa nueva actividad, desconocida para los criollos. El terreno del campo de juego ocupaba aproximadamente una hectárea rodeada de cercos de pitas y algunas instalaciones, un pequeño refugio que oficiaba de palco, un rancho que era vestuario y una carpa blanca donde se servía el té de las 5 p.m.

El nombre de Montevideo asignado al club, fue decisión de la Asamblea ya que era una directiva que gobernaba al deporte inglés en general y que se percibe en toda América; puesto que ciudades como Buenos Aires, Montevideo, Rosario, Río de Janeiro, eran importantes centros comerciales y de capitales de los británicos. Se adoptaba el nombre de la ciudad donde se establecía, y aunque cada club era independiente, su acción colectiva estaba concertada, existiendo simultáneamente el Montevideo C. C., el Buenos Aires C. C., el Rosario C. C. Incluso existieron asociaciones regionales como la River Plate Athletic Association, que regía el deporte de los juegos atléticos en la cuenca del Plata. Esos clubes tenían en común las mismas reglas de juego, igual organización atlética y además mostraban una comunidad de ideales deportivos y lazos de nacionalidad.

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En 1862 se registra la primera importación desde Inglaterra de material deportivo que conoce el Uruguay: bates y pelotas para la práctica del Cricket, directamente realizada por el Montevideo Cricket Club, estableciendo contactos con el Buenos Aires C. C. De acuerdo a J. Buzzetti y E. Gutierrez Cortinas (1965), citan una nota del diario “El Siglo” del año 1863, que señalaba: “los ingleses se divierten jugando al cricket en una quinta cercana a la Unión y los alemanes haciendo rodar el bolo, en el establecimiento titulado Au Cabanon Chez Pascal”. Para algunos autores, esta sería la primera crónica deportiva criolla.

En 1864 decidieron hacer la primera participación internacional en Buenos Aires, pero una revolución en ese país lo impidió. Recién el 9 y 10 de Abril de 1868 se produce el postergado enfrentamiento entre Buenos Aires Cricket Club y el Montevideo Cricket Club. El equipo de Buenos Aires viajó a Montevideo y ganó el encuentro por 33 corridas. Al año siguiente, el equipo de Montevideo le devolvió la visita y por muchos años se alza con victorias.

Se puede señalar tres líneas o ramas deportivas en el Montevideo Cricket Club: la primera relativa al desarrollo del cricket; la segunda, la introducción del rugby en 1875; la tercera, desde 1878 con la primera práctica de fútbol. El Montevideo C. C. asumió la función de introducir y practicar las primeras manifestaciones de deporte organizado en el país, pero mantenidas en el estrecho margen cerrado de la colectividad británica. Los colores seleccionados fueron el amarillo y azul a franjas horizontales en cricket, fútbol y rugby; con la variante de camisa amarilla con mangas azules.

El Montevideo Cricket Club fue nuestro primer club organizado, el más querido y apreciado por la colectividad británica y tuvo un papel clave en el desarrollo de los deportes en el país: primero el cricket, luego rugby, fútbol, atletismo, velocipedismo, hockey y tenis. Se encuentra dentro de los clubes más antiguos de la región y del mundo. A la fundación del Montevideo C. C. le siguieron otros clubes: en 1872 en Nueva Helvecia fue formado el Club de Tiro Suizo, segundo en permanencia en Uruguay, luego el Montevideo Rowing Club en 1874, y así una larga lista.

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Referencias:

ARIAS, Carlos y REISCH, Matilde (2004). Movimiento clubista y desarrollo deportivo en el Uruguay. En: Nexo Sport, Montevideo.

BROHM, Jean-Marie (1993). 20 Tesis sobre el deporte. En: aavv. Materiales de sociología del deporte. Madrid: Ediciones de La Piqueta. (pp. 39-46).

BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.

GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.

LUZURIAGA, Juan Carlos (2009). El football del novecientos. Orígenes y desarrollo del fútbol en el Uruguay (1875-1915). Montevideo: Santillana.

VELÁZQUEZ BUENDÍA, Roberto (2001). El deporte moderno. Consideraciones acerca de su génesis y de la evolución de su significado y funciones sociales. En: Lecturas: Educación Física y Deportes, Revista Digital, Buenos Aires, año 7, nº 36, mayo. Disponible en: http://www.efdeportes.com/efd36/deporte.htm

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Futebol e Migração entre Portugal e França

03/07/2017

 

PT_FR

Pelo alcance global, muito se pode estudar sobre a migração das pessoas e o reflexo disso no Futebol. Aproveitando a minha relação com os dois países, aproveito para refletir um pouco sobre a relação entre Portugal e França. Os portugueses que moram na França e franceses de origem portuguesa são consumidores ávidos de informação desportiva. O dia-a-dia do campeonato português é mais acompanhado que a atualidade política e cultural. Para se ter uma idéia da importância do futebol na cultura lusitana na França, estima-se que existem 1000 clubes portugueses no país, sendo que, atualmente, cerca de 200 possuem uma referência a Portugal nos seus nomes.

Ambos os países partilham uma grande história de migração. A vida dos portugueses no território francês foi muito bem retratada (dada as concepções necessárias para um filme de ficção) e bem-recebida por crítica e público  no filme “A Gaiola Dourada”. O filme conta a história de um casal de emigrantes portugueses em Paris, o seu relacionamento com os filhos e o sonho de voltar ao país de origem em contraste com as realidades atuais. Somado ao contexto de uma nova onda de saída do país, o filme trouxe, novamente, ao debate o tema da emigração e do sentimento de integração nacional.

No caso do esporte, podemos traçar um paralelo com a vitória da seleção portuguesa no Euro 2016 e o título do Mônaco, liderado pelo madeirense Leonardo Jardim. A emigração de jogadores e treinadores formados no país tem sido um dado corrente desde o fim dos anos 90, com a livre circulação de mão-de-obra dentro do Espaço Europeu, mas que vem ganhando especial destaque no futebol graças ao sucesso alcançado por lusitanos, tal como Cristiano Ronaldo e José Mourinho – para ficar com os mais emblemáticos apenas.

Mesmo sabendo que atletas e treinadores de alto rendimento não são os melhores representantes dos trabalhadores “normais”, Leonardo Jardim, treinador do Mônaco, talvez tenha sido quem mais sentiu a experiência de um imigrante português, na França. Mesmo tendo conseguido bons resultados, ele continuava a ser estigmatizado pela forma como falava francês e era alvo de sátiras na televisão. O ápice foi quando, questionado por jornalistas, disse que como português poderia ganhar o prêmio de espátula dourada (em alusão aos muitos trabalhadores nas obras de origem portuguesa), mas não o de melhor treinador.

Se é possível traçar um paralelo entre Leonardo Jardim e o personagem do Pai no filme, os filhos são representativos das novas gerações, que tendo origem portuguesa, já nasceram na França e residiram toda a vida no país. Isso provoca uma identidade híbrida e um sentimento de pertença mais complicado de gerir. Os emigrantes que foram para França nos anos 1960 e 1970 apoiaram mais a seleção portuguesa durante o Euro 2016, enquanto a escolha é mais difícil para as novas gerações, pois há uma divisão entre ser fiel ao país dos seus pais e onde passam férias constantemente ou apoiar o país que os acolheu e onde vivem. Em linhas gerais, o que se nota é que os jovens, que estão mais inseridos na sociedade e na economia, têm uma maior simpatia pela seleção francesa, enquanto aqueles que se encontram numa posição mais marginal, terão uma proximidade maior com sua pátria de origem – por mais mistificada que seja essa relação.

No cenário europeu, há ainda mais um fator que torna a análise mais complexa (ou interessante). O campeonato de seleções, o Euro, acaba servindo como reflexo de uma Europa mais tradicional, nacionalista e, por vezes, xenófoba. Por outro lado, a Liga dos Campeões oferece uma visão da Europa capitalista liberal, que ultrapassa fronteiras nacionais, circulando capital e trabalhadores em nome do sucesso transnacional.