Jogos Bolivarianos: uma breve análise de seus primórdios na Colômbia (1938)

19/06/2017

Eduardo de Souza Gomes
eduardogomes.historia@gmail.com

No post de hoje, pretendemos abordar alguns fatores relativos ao surgimento de um evento esportivo pouco conhecido pelo público mais amplo no Brasil. Trata-se dos Jogos Bolivarianos, que ocorrem a cada quatro anos entre países da região da América Latina e do Caribe que possuem, em comum, o fato de terem tido Simón Bolívar como líder de suas respectivas independências.

Desde a realização dos primeiros Jogos Olímpicos de verão da Era Moderna, ocorridos em 1896 na cidade grega de Atenas, várias novas experiências similares foram idealizadas e concretizadas, sejam essas de caráter global, continental, nacional ou regional. Tratando-se da realização de um megaevento de uma única modalidade, podemos destacar também a Copa do Mundo de futebol, iniciada em 1930, sendo esse o evento esportivo de maior alcance global até os dias atuais.

No cenário americano, o principal evento esportivo continental são os Jogos Pan-Americanos, organizados pela Organização Desportiva Pan-Americana (ODEPA). O evento conta com a participação de nações de todo o continente americano e, desde 1951, é realizado de quatro em quatro anos, sempre tendo como sede algum país dessa região.

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Medalhas dos Jogos Pan-Americanos de 2015 em Toronto, Canadá.

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Apesar do início oficial dos Jogos Pan-Americanos ter se dado somente em 1951, a tentativa de idealizar um evento poliesportivo que pudesse abarcar diferentes nações do continente americano remete a décadas anteriores. Como exemplo, podemos citar os pioneiros Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, ocorridos no Rio de Janeiro como parte dos festejos do centenário da independência do Brasil. Nesse evento, que contou com a participação de países das partes Sul e Norte da América, se faz possível identificarmos algumas características similares aos Pan-Americanos que, a partir da década de 1950, se consolidariam como os maiores jogos do continente.

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Vencedores dos 5.000 metros nos Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922.
Fonte: O Malho, 23 de setembro de 1922.

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Além dos “Jogos do Centenário de 1922” no Brasil, antes e depois da criação dos Jogos Pan-Americanos, diversos outros eventos esportivos foram criados no âmbito do continente americano, em sua grande maioria com conotações e especificidades mais regionais. Citando apenas alguns, podemos por exemplo destacar: Jogos Centro-Americanos e do Caribe, com início em 1926 no México; Jogos Bolivarianos, iniciados em 1938 na Colômbia; Jogos Desportivos Centro-Americanos, tendo como pontapé inicial o ano de 1973, na Guatemala; Jogos Sul-Americanos, com início em 1978 na Bolívia; entre outros.

Entre esses, abordaremos a seguir algumas peculiaridades acerca dos Jogos Bolivarianos. Nesta oportunidade, sem adentrar com profundidade em outras particularidades do evento e que merecem um olhar mais aguçado em futuras análises, buscaremos levantar algumas questões e hipóteses que levaram a idealização desse evento, tendo como espaço de problematização o cenário social e político do primeiro país sede da história da competição, a Colômbia.

Os primeiros Jogos Bolivarianos ocorreram na cidade de Bogotá, capital colombiana, no ano de 1938. Participaram dessa primeira edição os seguintes países, além do país sede: Bolívia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela. A escolha dos países se deu pelo fato de que essas são as nações que, em suas lutas pela independência, tiveram a liderança de Simón Bolívar, sendo esse o referencial para a criação dos jogos em questão.

Nessa primeira edição, o Peru foi o país que ficou no topo do quadro de medalhas[i]. Até 1970, foram realizadas seis edições dos jogos, sem uma sequência exata de intervalo de um evento para o outro. Desde então, os Jogos Bolivarianos passaram a ocorrer de quatro em quatro anos, sempre tendo como sede um dos seis países citados.

Desde 1938 até o presente momento, foram realizadas dezessete edições dos jogos, tendo sido mantidos os seis países participantes desde seus primórdios. Essas nações, inclusive, fazem parte da Organização Desportiva Bolivariana (ODEBO), que é filiada à ODEPA e que foi criada na cidade de Bogotá em 16 de agosto de 1938, ou seja, no âmbito dos primeiros Jogos Bolivarianos da história. Como fica explicito em texto sobre esse fato exposto no próprio site da instituição,

El 16 de agosto de 1938, en un acto celebrado en el Palacio de Gobierno de Cundinamarca, Bogotá, se fundó oficialmente la Organización Deportiva Bolivariana, cuya sigla es ODEBO, el ente que une deportivamente a los países bolivarianos.

El documento fue rubricado por los dirigentes Jorge Rodríguez, de Bolivia; Alberto Nariño, de Colombia; Galo Plaza, de Ecuador; Luis Saavedra, de Panamá; Alfredo Hohagen, de Perú; y Julio Bustamante, de Venezuela.

Desde su creación ODEBO fue constituida por los Comités Olímpicos Nacionales de los países bolivarianos, con sede oficial en Caracas, pero tras cambios en sus estatutos se estableció que la sede y domicilio permanente de la ODEBO será la ciudad donde resida el Presidente. Además, en mayo del 2010, la Asamblea de la Organización aprobó la inclusión de Chile como su miembro[ii].

 Outros países, em diferentes edições, participaram dos Jogos Bolivarianos como convidados. A décima oitava edição ocorrerá em novembro desse ano, na cidade de Santa Marta, na Colômbia, e contará com a participação de doze nações. Além dos seis membros originais da ODEBO, e do Chile (incorporado à ODEBO em 2010, como descrito na citação anterior), também estarão presentes com suas respectivas delegações: El Salvador, Guatemala, Paraguai, Porto Rico e República Dominicana.

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Logo dos Jogos Bolivarianos 2017, que ocorrerão em Santa Marta, Colômbia.

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O interesse em realizar os primeiros Jogos Bolivarianos em 1938, na cidade de Bogotá, se deu como parte dos preparativos para os festejos do aniversário de 400 anos da capital colombiana. Dentro de um contexto em que o esporte se inseria entre as possibilidades reais de comemorações e de exaltação da nação, pensar a formação de um evento com os países da região “bolivariana” se transformou em um caminho fértil para reforçar ou construir identidades.

Essa idealização em realizar os Jogos Bolivarianos se deu início em 1936, ano em que ocorreram os Jogos Olímpicos de verão em Berlim, na então Alemanha nazista. A exaltação de símbolos nacionais a partir de eventos esportivos, tendo o caso alemão como exemplo, passou a ser entendido como algo positivo pelo então governo colombiano.

Nesse mesmo ano, Alberto Nariño Chayne, dirigente esportivo colombiano e então Diretor Nacional de Educação Física do país, conseguiu junto ao Comitê Olímpico Internacional (COI) a aprovação para realizar no país os primeiros Jogos Bolivarianos (ACOSTA, 2013). O exemplo dos Jogos Centro-Americanos e do Caribe, que já ocorriam desde 1926, se tornou um fator positivo para efetivar essa aprovação. Para colocar a ideia em prática, foram realizadas várias obras públicas na capital colombiana, além de terem sido construídos os estádios Nemesio Camacho (El Campín) e Alfonso López Pumarejo (Estádio Olímpico da Universidad Nacional de Colombia) (ACOSTA, 2013, p. 44), sendo o primeiro o principal estádio de futebol da Colômbia até os dias atuais. A exaltação dos Jogos Bolivarianos pôde ser percebida na época pelas palavras de um de seus idealizadores, o próprio Alberto Nariño Chayne:

De los juegos regionales del mundo, los Bolivarianos son los únicos creados bajo una idea profundamente filosófica e histórica y forman el grupo más equilibrado deportivamente de todos los que integran las demás organizaciones similares.[iii]

Em 1938, a Colômbia passava por um momento importante no que diz respeito ao fortalecimento da ideia de nação, assim como na construção de símbolos identitários. Historicamente marcada pelas disputas entre liberais e conservadores, desde 1930 o país possuía presidentes liberais, depois de ter passado por um longo período de aproximadamente quarenta e cinco anos de hegemonia conservadora (BUSHNELL, 2012).

Com a chegada do liberal Alfonso López Pumarejo ao executivo nacional em 1934, foram consolidadas diferentes formas de se idealizar símbolos nacionais no país, sendo os primeiros Jogos Bolivarianos uma dessas iniciativas. Apesar do evento em si ter ocorrido em grande parte nos primórdios do mandato de seu sucessor na presidência, o também liberal Eduardo Santos (Pumarejo deixou a presidência em 07 de agosto de 1938, enquanto os Jogos ocorreram entre 06 e 22 de agosto desse mesmo ano), esse e outros feitos de Pumarejo, que ainda voltaria a ser presidente entre 1942-1945, ficaram conhecidos no país como la Revolución en Marcha. Como o Partido Conservador havia governado a Colômbia durante muitos anos, existiu por parte dos governos liberais nos anos 1930 uma necessidade de construção uma “nova nação colombiana”, sendo o esporte e as atividades físicas partes dessa nova idealização.

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Abertura dos Jogos Bolivarianos de 1938, no Estádio El Campín em Bogotá.
Fonte: Universidad EAFIT

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O campo esportivo colombiano já se desenvolvia desde a transição do século XIX para o XX. Em 1925, foi decretada a “Lei 80”, a primeira a ser implantada no país que abordasse o assunto, tratando explicitamente da Educação Física e dos esportes. Como sugere Patiño (2011), essa iniciativa indica um projeto político nacional em torno da cultura física. Com isso, a população se inseria nas propostas nacionalistas que entendiam as noções de higiene e eugenia como importantes, sendo as práticas de atividades físicas vistas como fundamentais nos discursos de formação da “nação” colombiana.

Nos anos 1930, as mudanças iniciadas pelo primeiro governo de López Pumarejo, entre 1934 e 1938, foram importantes para que fossem realizadas políticas sociais diretas na república colombiana, ligadas a um intenso processo de modernização (BUSHNELL, 2012, p. 267-269). Entre outras ações, em seu governo ocorreu a separação entre Estado e religião, onde sem negar o catolicismo, fez questão de definir a soberania do Estado e de explicitar os rumos desejados para a “nação colombiana” (BUSHNEL, 2012, p. 269).

Nesse cenário, investir em novas práticas culturais como forma de idealizar a identidade nacional colombiana, foi um dos caminhos seguidos pelo governo Pumarejo. No aniversário de 400 anos de Bogotá, o esporte surgiu como uma alternativa para se pensar o nacionalismo. Para isso, ocorreu a recuperação de símbolos da libertação do país, tendo sido Simón Bolívar eleito para dar nome aos jogos com os outros países da região que possuíam essa identidade em comum.

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Logo dos Jogos Bolivarianos de 1938.

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Assim, podemos inferir que o evento pôde representar uma forma de difusão do nacionalismo colombiano no contexto latino-americano e no Caribe, assim como um fortalecimento do sentimento de identidade pelo qual possuíam os países da região. Marcados pela liderança histórica da imagem de Simón Bolívar, levantamos a hipótese, que ainda carece de maiores investigações, de que os Jogos Bolivarianos teriam sido não só um evento pensado para a construção de um sentimento nacionalista colombiano, como também um marco na construção identitária dos países que habitam essa região da América Latina e do Caribe e que possuem esse laço em comum. Por fim, sendo essa identidade um fato que permanece até os dias atuais, destacamos ser esse objeto um fértil caminho para realizarmos diálogos e comparações, partindo do campo da História Nacional/Regional para a História Global.

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[i] De acordo com o site oficial da ODEBO, os peruanos alcançaram o total de 65 medalhas nessa primeira edição dos jogos. Maiores informações, ver www.odebolivariana.org. Acesso em 17 de julho de 2017.

[ii] www.odebolivariana.org. Acesso em 17 de julho de 2017.

[iii] www.odebolivariana.org. Acesso em 17 de julho de 2017.

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Referências Bibliográficas

 ACOSTA, Andrés. Elementos sociohistóricos intervinientes en la construcción de los estadios Alfonso López e El Campín para los primeros Juegos Bolivarianos: Bogotá, 1938. Revista Colombiana de Sociologia, Bogotá, v. 36, n. 01, p. 43-62, jan-jun 2013.

BUSHNELL, David. Colombia: una nación a pesar de si misma – nuestra historia desde los tempos pré-colombianos hasta hoy. Bogotá: Planeta, 2012.

PATIÑO, Jorge. La política del sport: elites y deporte en la construcción de la nación colombiana, 1903-1925. 2009. 139 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Políticos) – Pontificia Universidad Javeriana, Bogotá, 2009.

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Deporte y raza en la historia de Puerto Rico

11/06/2017

por Antonio Sotomayor

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Javier Culson (en rojo y azul), semifinales 400m con vallas, Juegos Olímpicos de Londres, 2012. (Foto extraída de Wikimedia Commons, https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Semi2Finale_1_400hurdlesLondon2012_2.JPG)

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Dios mío, ¿qué pensarán de nosotros, que somos todos negros? Así me respondió una amiga blanca cuando charlamos sobre la medalla de bronce que Javier Culson, un puertorriqueño negro, ganó durante las olimpiadas de verano de Londres en 2012. Mi amiga, muy tierna por naturaleza, decía esto entre risas, pero declarando cierta preocupación. Lamentablemente, este comentario refleja un sentimiento de corte racista muy común entre la sociedad puertorriqueña. Refleja también las complejas dinámicas raciales en la región caribeña y latinoamericana. En sociedades que han tenido profundas historias de diversidad racial y mestizaje, y donde se han desarrollado fuertes ideas de armonía racial, aún perdura un fuerte, si bien enmascarado, racismo. O sea, en América Latina y el Caribe se ha desarrollado la idea de que el “encuentro” de razas, principalmente (pero no exclusivamente) blancas, negras e indígenas, las cuales viniendo de contextos de conquista y esclavitud se han complementado de manera tal que hoy en día viven sin ningún problema aparente. La evaluación racista de Culson, la cual lamentablemente también se ha repetido con otro olímpico puertorriqueño, Jaime Espinal, nos ayuda a visualizar las tonalidades sutiles del racismo caribeño dentro de la celebración de la identidad puertorriqueña. El deporte latinoamericano es un buena ventana para observar esta sutilezas por la alta incidencia de atletas/héroes negros y/o mulatos incluyendo Roberto Clemente, Eugenio Guerra, Javier Sotomayor, Sammy Sosa y Pele entre muchos más. Para atletas femeninas el camino ha sido aún más arduo, dadas las normativas patriarcales de estas sociedades y de los deportes. Este corto ensayo discute principalmente a hombres, y espero en otra ocasión atender el asunto sobre deporte y mujer en Puerto Rico. A continuación presento algunas ideas de cómo el deporte y raza se pueden entender mutuamente.

Aunque algunas sociedades pre-colombinas practicaron juegos, los deportes modernos fueron introducidos en América Latina y el Caribe en la segunda mitad del siglo XIX. Fútbol, o balompié, entró en países como Argentina, Brasil y Uruguay en el último cuarto del siglo XIX, al mismo tiempo que el beisbol, o pelota, entraba en países como Cuba, República Dominicana y Puerto Rico. El último cuarto del siglo XIX también fue una época donde se abolió finalmente el sistema esclavista en Puerto Rico, Cuba y Brasil. A la misma vez, fue el comienzo de nuevas formas de subyugar las poblaciones negras bajo conceptos científicos positivistas como el darwinismo social. El darwinismo social era una teoría científica que argumentaba que tal y como los animales, los humanos están atados a las mimas leyes de selección natural. La teoría expone que algunas razas están predispuestas a sobrevivir mejor que otras, lo que ayudó a explicar el por qué la raza blanca dominaba a las demás. Esta teoría llevó a desarrollar el “racismo científico” a lo largo del mundo, lo cual ayudó a justificar el imperialismo europeo y estadounidense. Por lo tanto, los países europeos y Estados Unidos se percibían como mejores, más fuertes, más inteligentes y destinados a dominar. El historiador Mark Dyerson demostró cómo las llamadas “Olimpiadas Salvajes” o “Días Antropológicos” durante las Olimpiadas de 1904 en St. Louis sirvieron a los organizadores para mostrar la superioridad blanca al poner a competir un grupo de aborígenes en deportes europeos.[1] Los aborígenes, quienes nunca habían practicado estos juegos, más que nada tropezaron en el campo de juego, “evidenciando” superioridad blanca. En realidad, esto fue sencillamente un espectáculo predeterminado a fracasar para legitimar presupuestos seudocientíficos y racistas.

El darwinismo social estuvo muy presente tanto en el olimpismo como en los deportes como el fútbol y el beisbol. Ambos deportes se practicaron en América Latina y el Caribe desde los años 1860 y siempre atados a las clases altas y blancas en conexión con esferas elites estadounidenses o inglesas, intercambios educativos y/o visitas de marinos de guerra. Una institución imprescindible en el desarrollo de los deportes en Puerto Rico y en otros países de la región fue la Asociación Cristiana de Jóvenes (YMCA por sus siglas en inglés). La YMCA ya tenía Secretarías en Argentina, Brasil, Uruguay y México, cuando entró en Puerto Rico y Cuba durante la Guerra Hispanoamericana de 1898. Entrando con las tropas del ejército invasor americano, los líderes de la YMCA siempre buscaron asociarse con las altas esferas de la administración colonial en Puerto Rico.[2] Esta institución religiosa-recreativa se organizaba bajo las políticas segregacionistas y racistas de la época y solo admitía jóvenes blancos. En Puerto Rico, la YMCA tuvo que lidiar con una población caribeña mulata y dejó un importante legado, no solamente al introducir deportes como el baloncesto y el volibol, sino al asociar estos deportes con ideologías racistas. En uno de sus primeros informes, el Director Atlético de la YMCA, Alfred F. Grimm, describió al puertorriqueño común en términos racistas de darwinismo social usando el siguiente lenguaje:

“Será interesante primeramente saber algo sobre el tipo de jóvenes y chicos que buscamos. El puertorriqueño promedio físicamente es unas dos pulgadas más bajo y pesa unas trece libras menos que el joven americano promedio. Él tiene manos y pies pequeños, hombros más bien estrechos y una cabida pectoral mucho más pequeña.”[3]

Mientras estas características colocaban al joven puertorriqueño en un grado inferior al estadounidense, al menos los puertorriqueños blancos eran considerados blancos. Grimm añadió, “los que son miembros de nuestra asociación son blancos, de origen español o español-indio.” Nótese que para justificar aquellos puertorriqueños blancos que se veían no tan blancos, la mezcla era con indios, no negros, a pesar de que la presencia taína en el siglo XX en Puerto Rico era mínima en comparación con la negra y la mulata. Con una grande, visible y activa población afro-puertorriqueña, la YMCA, una de las instituciones deportivas más influyentes en la historia de Puerto Rico, colocó a esta población al fondo de la escala social, en efecto ignorándola. Aunque esto no nos debe sorprender, dado el carácter segregacionista de la institución, nos deja ver los comienzos racistas del deporte institucionalizado en Puerto Rico.

Muchos líderes deportivos puertorriqueños pertenecieron o se beneficiaron de los programas deportivos de la YMCA. Algunos de ellos fueron Facundo Bueso, Hiram Bithorn, Emilio y Enrique Huyke, Frank Campos, y Rafael Pont Flores, todos blancos. Muchos de estos hombres también estaban envueltos en deportes internacionales, incluyendo el Movimiento Olímpico. De hecho, muchos de los primeros atletas olímpicos puertorriqueños pertenecieron a la YMCA o cursaron estudios en la Universidad de Puerto Rico, cuyos programas atléticos también estaban muy influenciados por la YMCA. Estos atletas olímpicos eran de diferentes razas, pero estaban informalmente divididos por deportes. Durante los Juegos Centroamericanos y del Caribe del 1930, la delegación de pista y campo tenía atletas blancos como Manuel Luciano y Juan Juarbe Juarbe junto a atletas negros como Eugenio Guerra y Andres Rosado. Pero el tenis estaba compuesto por atletas blancos (Manuel Ángel Rodríguez y Jorge Julia) mientras el equipo de tiro estaba compuesto casi completamente por atletas blancos. En los Juegos Centroamericanos y del Caribe de 1935 los equipos de tiro, baloncesto y voleibol (los últimos dos deportes traídos por la YMCA) estaban compuestos por jugadores blancos o de tez clara.

El standard de excelencia deportiva residiendo en tonalidades blancas perdura tercamente en el imaginario deportivo y en la celebración del deporte puertorriqueño. No cabe la menor duda que uno de los atletas puertorriqueños más celebrados, un verdadero héroe y mártir puertorriqueño, lo fue Roberto Clemente. Roberto Clemente figura como el portaestandarte de los héroes deportivos puertorriqueños y es reconocido como tal. Sin embargo, cuando miramos a otras grandes figuras negras del deporte puertorriqueño notamos menor glorificación. Por ejemplo, aunque se le conoce como el Padre del Olimpismo Puertorriqueño, el mulato ponceño Julio Enrique Monagas no es tan reconocido como otras figuras. Monagas, aunque ciertamente una figura controvertible,[4] fue la segunda persona de las Américas en ganar la medalla olímpica del Comité Olímpico Internacional en 1984. Para Monagas no hay ningún monumento o ningún parque de alto reconocimiento que lleve su nombre. Hay parques de menor reconocimiento que llevan su nombre en Ponce, Bayamón y Caguas, pero ninguno en San Juan o de alta envergadura. Lo mismo se puede decir de Eugenio “El Trinitario” Guerra, uno de los más prolíficos atletas del deporte puertorriqueño, promotor deportivo y editor. No hay ningún parque que lleve su nombre, aunque sí está la Escuela de la Comunidad Especializada en Deportes Eugenio Guerra Cruz en el Albergue Olímpico de Puerto Rico. Cuando vemos los espacios deportivos más importantes en Puerto Rico lo que nos viene a la mente son los nombres de hombres blancos o de tez clara, Estadio Hiram Bithorn, Parque Luis Muñoz Rivera, Estadio Paquito Montaner, Parque Sixto Escobar, Estadio Juan Pachín Vicéns, Coliseo Arquelio Torres Ramírez, entre otros. Ausentes de estas celebraciones son atletas/líderes deportivos negros o mulatos como Monagas y Guerra, pero también Juan Evangelista Venegas (primer medallista olímpico de Puerto Rico [bronce] en boxeo en Londres 1948), Teófilo Cruz (primer baloncelista en el mundo en competir en cinco olimpiadas), y más recientemente Félix “Tito” Trinidad.

El hecho de que los héroes del deporte puertorriqueño incluyan tantos atletas blancos o claros, a pesar de ser un país caribeño con una fuerte e importante población negra y mulata, se puede explicar por el tradicional acceso privilegiado de la población blanca a las instituciones elites urbanas como la YMCA y las tradicionales conexiones del deporte en general a las elites blancas. A medida de que los deportes se expandieron a través de toda la población, negros y mulatos también comenzaron a tener éxitos deportivos y a tomar puestos de liderato. Sin embargo, como sugiere la memoria colectiva deportiva, y como he mostrado en estos breves ejemplos, la celebración de los atletas blancos y el rechazo o ignorancia de los atletas negros o mulatos ha sido constante. La base racista de los deportes modernos aún siga viva y continúa complicando cómo un país y una cultura se mira y se celebra a sí misma.

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[1] Dyreson, Marc. “Prolegomena to Jesse Owens: American Ideas About Race and Olympic Races from the 1890s to the 1920s. The International Journal of the History of Sport 25, 2 (February 2008): 229-232.

[2] Para un análisis profundo de la YMCA en Puerto Rico ver Sotomayor, Antonio. “The Triangle of Empire: Sport, Religion, and Imperialism in Puerto Rico’s YMCA, 1898-1926.” The Americas: A Quarterly Review of Latin American History (a publicarse en 2017/18).

[3] Grimm, Alfred F. “Report of the Physical Director of the San Juan YMCA, 1915-1916,” 1. Y.USA.9-2-26. YMCA International Work in Puerto Rico. Box #1. Correspondence and Report Letters, 1908-1915. Kautz Family YMCA Archives, University of Minnesota Libraries.

[4] Ver Sotomayor, Antonio, “Un parque para cada pueblo: Julio Enrique Monagas and the Politics of Sport and Recreation in Puerto Rico during the 1940s.” Caribbean Studies 42, 2 (July-December 2014): 3-40.

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Os Jogos Interaliados de 1919: primeira competição multiesportiva internacional para militares

05/06/2017

por Karina Cancella

Em 1918, após o fim da Primeira Grande Guerra, o Comandante das Forças Expedicionárias Americanas (FEA) General John Pershing apresentou uma proposta aos comandantes das forças aliadas de realização de um evento esportivo para celebração do fim dos conflitos.

As negociações para a organização de tais Jogos foram estabelecidas entre a FEA e a Young Men’s Christian Association (YMCA), que atuou ao longo da guerra na promoção de atividades recreativas para militares no front europeu, já nos meses finais de 1918. As duas instituições debatiam as bases para a definição das atribuições de responsabilidades com relação aos eventos e também os programas e calendários de atividades. Foi estabelecido que a participação das delegações seria efetivada por meio de convites diretos do comandante-em-chefe da FEA aos comandantes-em-chefe dos exércitos aliados. Do ponto de vista organizacional, seria estabelecido um comitê geral da FEA para os Jogos que atuaria em conjunto com os Diretores Atléticos da YMCA. Esse comitê seria a entidade decisória e a autoridade final em todos os assuntos relativos ao evento. Para compor a comissão, seriam ainda convidados dois delegados de cada exército participante para a formação de um Conselho Consultivo com função de apresentar as propostas ao Comitê organizador e dar toda a assistência geral possível visando ao sucesso das competições. [1] (CANCELLA, 2016).

Uma problemática, no entanto, foi identificada quanto à liderança dos EUA na organização dos Jogos em Paris:

O comandante-em-chefe estava em forte simpatia com as propostas dos Jogos a partir do dia em que a ideia foi apresentada pela primeira vez. Mas ele foi confrontado com uma dificuldade. Se ele aceitar as sugestões da YMCA e convidar as nações aliadas a entrar com seus atletas militares nos Jogos como comandante-em-chefe de um exército americano na França, ele estaria na posição de uma pessoa que convida seus amigos a uma festa na casa de outro homem sem primeiro garantir que esse recebimento seria aceitável para o proprietário. Antes que qualquer um desses convites possa ser estendido, […] tornou-se necessário verificar se tal procedimento seria aceitável para o exército francês e para o Governo […][2]

Foram então realizados contatos com entidades e autoridades sobre o caso. A YMCA se comunicou com o Comite Nationale d’Education Physique, Sportive et de 1’Higiene Social solicitando que verificasse com o Marechal Pétain seu parecer sobre a realização do evento. Em carta enviada ao militar, a entidade defendeu que via com bons olhos a proposta uma vez que auxiliaria na “difusão da prática saudável da educação e da higiene física, que é a base do seu programa para a regeneração da raça francesa”. Destacaram, ainda, que favoreceria o desenvolvimento de “irmandade pelo desporto” com os demais países e uma rivalidade saudável entre as unidades militares, com atividades que manteriam a forma física e seriam “uma excelente influência moral para os soldados, a quem a cessação das hostilidades transferiu de repente da vida intensa da batalha para o período de espera da desmobilização”. [3] A entidade francesa ainda pontuou que seria vantajoso, já que todos os custos seriam cobertos pelos EUA e o estádio construído e utilizado durante os Jogos “ficaria sem custo à disposição da juventude francesa, como um testemunho permanente da amizade indelével unindo as duas democracias”. [4] Sobre essa questão, foi enviado ofício datado de 07 de janeiro do Comite Nationale ao Diretor do Departamento Atlético da YMCA informando o aceite por parte do governo francês e do comandante-em-chefe das tropas francesas, Marechal Pétain, para a organização do evento nos termos propostos pela YMCA e pela FEA. (CANCELLA, 2017).

Todo o processo de organização e realização do evento foi documentado e publicado em forma de relatório, composto por 554 páginas, com informes detalhados sobre os Jogos Interaliados. No documento, foram apresentadas as participações dos países aliados convidados nas provas e ações administrativas. O General Pershing, conforme os acordos, enviou convite às 29 nações, colônias e territórios integrantes das Forças Aliadas na Primeira Guerra para participação no evento. (CANCELLA, 2017).

Os critérios para participação no evento definiam que somente seriam elegíveis aqueles homens, integrantes das Forças Armadas Aliadas, que tivessem participado em qualquer momento da guerra entre 04 de agosto de 1914 e 11 de novembro de 1918. Não foi levada em consideração a discussão sobre esportistas amadores e profissionais. (CANCELLA, 2017).

Das nações convidadas, 16 delegações de países compareceram, além de indivíduos provenientes da Polônia e da Grã-Bretanha, uma vez que as autoridades militares não teriam atendido formalmente aos convites para participação. As recusas vieram, em grande parte, de países da América Central, da Ásia e da África, possivelmente pela distância geográfica e pela pouca presença de soldados na Europa no período de realização dos Jogos. (TERRET, 2006).

Nas propostas iniciais, os Jogos deveriam ocorrer no mês de abril ou maio, mas só se realizaram de fato entre junho e julho de 1919 devido ao tempo necessário para o preparo de toda a estrutura do evento. Foi também considerada a possibilidade de utilizar o estádio Colombes, palco principal dos Jogos Olímpicos de 1900 em Paris, como sede. No entanto, foi decidido pela construção de um novo estádio para os Jogos Interaliados. O espaço de Colombes foi utilizado como campo de treinamento e realização de competições internas da FEA e somente para as partidas de rúgbi durante os Jogos Interaliados. (CANCELLA, 2017).

Aguardava-se a participação de cerca de 1.500 esportistas militares nos eventos[5] e a capacidade do novo estádio, que recebeu o nome de “Pershing Stadium”, era de receber 27.500 pessoas que poderiam participar gratuitamente dos Jogos retirando ingressos em locais pré-definidos. Os militares tinham livre acesso caso estivessem fardados. [6] (CANCELLA, 2017).

Houve certa preocupação com o processo de escolha das modalidades a serem disputadas. No relatório sobre os Jogos, registrou-se que, sendo uma competição promovida pela FEA, seria sua prerrogativa, segundo os costumes estadunidenses, selecionar o programa para o evento. No entanto, havia o pensamento de que, por haver um conjunto de esportes muito bem conhecidos nos Estados Unidos e talvez não tanto em outros países, pudesse ocorrer certa injustiça. Levando esse aspecto em consideração, iniciaram-se as discussões sobre o programa para o evento. Chegou-se a levantar o ponto de que, se este era o primeiro encontro esportivo exclusivamente para militares, seria interessante organizar um programa somente com “esportes militares”. (CANCELLA, 2017). Sobre essa colocação, considerou-se o seguinte:

Mas o que são os esportes militares? Todo esporte conhecido pode ser facilmente rastreado de volta a um tempo em que era um exercício em que um guerreiro deveria primar e a excelência na maioria deles é tão útil a um soldado na guerra moderna como foi em qualquer momento no passado. Parecia não haver maneira de fazer do torneio um torneio militar distintamente. [7]

A compreensão, naquele momento, era de que todo esporte poderia ser benéfico para o desenvolvimento de habilidades militares, logo todos poderiam ser “esportes militares”. Posteriormente, Forças Armadas em diferentes partes do mundo foram responsáveis por criar modalidades específicas que envolvem técnicas exclusivas dos exércitos, marinhas e forças aéreas como pentatlo naval, pentatlo militar e pentatlo aeronáutico. Já nos Jogos de 1919, foi inserida no quadro de modalidades a competição de lançamento de granada, prática exclusivamente militar. Esse “evento esportivo mais jovem”, como foi categorizado pelos organizadores, garantiu seu espaço no programa, segundo os autores do relatório, pela grande importância atribuída pelos militares às granadas de mão no desenrolar da Primeira Guerra. (CANCELLA, 2017). Sobre esse ponto, argumentaram que:

Quando o lançamento de granada de mão começou a desempenhar um importante papel na Grande Guerra, as bombas eram arremessadas normalmente a partir dos limites estreitos de uma trincheira profunda. A forma ideal para tal lançamento foi pensada para ser um longo movimento de braço varrendo, com o cotovelo quase rígido, tanto para proteger o braço como para evitar o perigo de a granada não sair da trincheira. Quando os Estados Unidos entraram na guerra, os soldados americanos foram ensinados a jogar a granada desta forma, mas eles tinham suas próprias fortes opiniões sobre a matéria e, eventualmente, provaram que eles poderiam jogar com precisão de longa distância das profundezas de uma trincheira com o movimento do braço tão comumente associado com o beisebol. Tendo em conta esta controvérsia por parte dos soldados americanos, as regras que regiam o evento de lançamento de granada de mão permitiam a utilização do braço e qualquer forma preferida pelo concorrente. A granada utilizada foi a francesa F-1, pesando 600 grs. carregada. Os concorrentes foram autorizados a correr para a linha de lançamento se eles preferissem. O arremesso foi feito a partir do campo e a granada não foi lançada sobre qualquer obstáculo. [8]

Diante desses enunciados, pode-se considerar que a competição de lançamento de granada nos Jogos Interaliados de 1919 seria a primeira prova de esporte exclusivamente militar registrada. (CANCELLA, 2017).

Entre 22 de junho e 06 de julho, então, os Jogos Interaliados foram oficialmente realizados em Paris. O Estádio Pershing recebeu as cerimônias de abertura e de encerramento, exibições especiais e as provas de diversas modalidades, havendo ainda outros locais de prova, como o estádio de Colombes recebendo o rúgbi e a Lagoa de Saint James com as provas de natação e polo aquático. [9]

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Imagem publicada na revista “La vie Au Grand Air” em 15 de julho de 1919, página 35. Na imagem, no canto inferior direito, é possível ver o seguinte texto: “Em 22 de junho, foi inaugurado o Estádio Pershing. A sessão inclui apenas os desfiles dos atletas e tropas. Nossa foto representa a passagem da equipe americana, ganhadora dos Jogos, em frente à tribuna presidencial. No medalhão, o General Pershing, o Presidente da República e M. Leygues, Ministro da Marinha”. (Tradução da autora).

Referências:

CANCELLA, K. Os Jogos Interaliados de 1919: o papel das Forças Armadas estadunidenses na promoção do esporte no contexto da Primeira Grande Guerra. Navigator, v. 12, p. 33-48, 2016.

______. Para reforço do moral e desenvolvimento físico do pessoal: a prática do esporte nas Forças Armadas estadunidenses e brasileiras em perspectiva comparada (1914-1922). 2017. Tese (Doutorado em História Comparada) – Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017.

TERRET, T. The Military “Olympics” of 1919: sport, diplomacy and sport politics in the aftermath of World War One. Journal of Olympic History, v. 14, n. 2, p. 22-31, ago. 2006.

[1] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, p. 24-25.

[2] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, p. 25-26. Tradução da autora.

[3] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, p. 26. Tradução da autora.

[4] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, p. 26. Tradução da autora.

[5] Les Jeux Interalliés. L’Auto, 19 de junho de 1919, p. 3.

[6] Une visite au Stade Pershing. L’Auto, 15 de junho de 1919, p. 3.

[7] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, p. 77. Tradução da autora.

[8] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, p. 83. Tradução da autora.

[9] The Inter-Allied Games – Paris 22nd June to 6th July 1919 – Published by the Games Committee, Program June 22 – July 6, 1919.


Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 


Mais sobre a cultura do surfe no Sul da Califórnia

29/05/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta postagem completa uma trilogia iniciada por “Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia” e “Os museus de surfe da Califórnia“. Diferentemente do que geralmente faço, foco é mais em imagens que no texto. Todas as fotos são de minha autoria.

*  *  *

A lista de surf shops, marcas, empresas, shapers e oficinas de produção de materiais e equipamentos originários do Sul da Califórnia é enorme. Cito algumas: Clark Foam, Dewey Weber, Gordon & Smith, Hobie, Infinity Surfboards, Mark Diffenderfer, Pat Curren, Rusty, Ventura Surf Shop, (há listas extensas na internet, como esta).

Em entrevista [em inglês] ao projeto Sport in the Cold War (Esporte na Guerra Fria), o historiador Mark Dyreson afirma que os Jogos Olímpicos foram arenas para a divulgação de produtos, hábitos, práticas, modalidades esportivas e valores associados à Califórnia: camisas “havaianas”, calças jeans, filmes de Hollywood, praia, natação, vôlei de praia, mountain bike. Isto se deu em diferentes momentos do século XX, em especial nos anos 1930 e nos anos 1980, quando Los Angeles sediou as Olimpíadas de verão, em 1932 e 1984. Na mesma cidade encontram-se os estúdios hollywoodianos, cujos filmes cumpriram uma dupla função: produtos de exportação, também funcionaram como instrumentos de propaganda de uma série de elementos do que se convencionou chamar de culturas californianas, tanto para consumo interno (para públicos dentro do país e tropas espalhadas pelo planeta) quanto em escala mundial.

Esta postagem está organizada por cidade/localidade, começando pelo Condado de San Diego.

San Diego

Entre os diversos centros culturais, museus e galerias do Balboa Park está o San Diego Hall of Champions. Um dos atrativos é um Hall da Fama homenageando atletas nascidos na cidade e/ou no condado. O skatista Tony Hawk, de Carlsbad (no norte do condado), é um dos homenageados no Hall da Fama.

San Diego é uma das capitais da cerveja e das cervejarias artesanais nos EUA. Algumas têm referências a praia (e se localizam próximas à praia) e/ou ao surfe, como Rip Current. De uma lista de cinco cervejas temáticas de surfe disponível no site da revista Surfer, duas são de cervejarias localizadas no Condado de San Diego (em San Diego e San Marcos). E outra da Surf Brewery de Ventura, outra importante cidade de surfe californiana.

Ao sul de San Diego encontra-se Imperial Beach, a última cidade e uma das últimas praias da Costa Oeste do país. Como de costume, o píer favorece a formação de boas ondas dos dois lados. Além de humanos, Imperial Beach também recebe surfistas caninos, que contam com um apoio de seus donos para dropar nas ondas. Até campeonato de surfe de cachorros eu tive oportunidade de assistir (uma boa onda está em 3’14”). Note-se que a gravação foi disponibilizada num site chamado Dog Sports News, algo como Notícias de Esportes Caninos. Havia um conjunto de barraquinhas com produtos especializados, venda de petiscos e cervejas, brinquedos e brincadeiras para crianças etc. O campeonato contava com palanque, sistema de som, chamada de competidores e distribuição de camisetas antes do início de cada bateria etc.

Ao norte do condado, Oceanside, sede do California Surf Museum, é outra cidade que respira surfe. Tal como Imperial Beach, tem seu píer.

Huntington Beach

Esta pequena cidade considera a si mesma a capital do surfe competitivo na Califórnia. Motivos não faltam, como se pode ver nas fotos e legendas acima. Campeonatos, história, passado, campeões, ídolos, comércio, turismo e outros elementos formam uma notória e especial relação entre surfe, território, cultura e economia. Os lados do píer são um importante pico de surfe, assim como da prática de vôlei de praia – a Califórnia é o principal celeiro de jogadores(as) de vôlei de praia dos EUA. Atravessando a rua a partir do píer, chega-se à Calçada da Fama do Surfe, inaugurada em 1978 (mais informações nas legendas das fotos). Nela há uma estátua de Duke Kahanamoku.

Cerca de Los Angeles: DE Santa Monica a Venice

Embora haja um predomínio do surfe no litoral, o skate também é muito praticado. Em cidades como Santa Monica e Venice, a quantidade de cartazes e placas proibindo o skate é um indicativo de sua relevância e ubiquidade.

Santa Cruz

Santa Cruz é outra surf city importante. Localizada bem mais ao norte, é também conhecida pelas águas geladas. Na colina da qual se desce para pegar onda em Steamer Lane encontra-se a placa acima – o tipo de artefato cultural que enche os olhos de um pesquisador de humanidades. Nele lê-se o seguinte (tradução minha):

– O primeiro surfista na onda [ou seja, a ficar de pé sobre a prancha] tem a preferência

– Reme dando a volta na onda, não pelo meio dela

– Controle sua prancha

– Ajude os outros surfistas

Por Sam Reid

O estabelecimento de regras – e os métodos e iniciativas para tentar garantir que sejam cumpridas e obedecidas – são uma característica importante do surfe, ainda que objeto de muita controvérsia. Na visão de muitos de seus praticantes, devido ao número limitado de ondas (sobretudo de ondas boas e de fácil acesso), é preciso estabelecer critérios de preferência e convivência de forma a reduzir a ocorrência de conflitos.

San Clemente

Abaixo estão outras fotos do Surfing Heritage and Culture Center:

*  *  *

Este texto já estava pronto quando soube da notícia da morte de John Severson, aos 83 anos.”Nascido e criado em Pasadena e San Clemente” [ambas na Califórnia], em 1960  Severson publicou um impresso para divulgar um filme que produzira. Chamava-se The Surfer, depois virou Surfer. Transformou para sempre esta notável atividade sobre a qual escrevo desde 2004, além de ter inspirado praticamente todos os periódicos congêneres de surfe do mundo. Severson vendeu a revista na primeira metade dos anos 1970, mas sempre se manteve próximo ao surfe, inclusive em sua produção artística. Surfline, Liga Mundial de Surfe e a Surfer publicaram belos necrológios. Outros virão.


Combate Histórico Medieval, um esporte moderno

15/05/2017

por Maurício Drumond

O que faz um esporte? Uma pergunta que, a princípio, parece ser tão simples, pode nos levar a instigantes debates e acaloradas discussões. Afinal, o que faz de uma atividade física um esporte, ou o que a impede de ser categorizada enquanto tal, é um elemento arbitrário que não é compartilhado por todos. Vejamos algumas definições disponíveis:

O Conselho Europeu, em sua Carta do Esporte Europeu, de 1992, define esporte como “(…) toda forma de atividade física que, através de participação casual ou organizada, tenha como objetivo expressar ou aperfeiçoar a boa forma física e o bem estar mental, formando relações sociais ou obtendo resultados em competições em todos os níveis” (artigo 2, 1a).

Já as Nações Unidas, através de sua Força Tarefa Interagencial sobre o Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, amplia um pouco essa definição, através de seu relatório de 2003, entendendo esporte como “todas as formas de atividade física que contribuem para a boa forma física, o bem-estar mental e a interação social. Estas incluem a brincadeira; a recreação; o esporte organizado, casual e competitivo; e esportes ou jogos indígenas.

Dentro do campo da História do Esporte, a maioria dos estudiosos foge a uma definição mais precisa do que se entende por esporte. Richard Holt, em uma das principais obras sobre a história social do esporte na Inglaterra (Sport and the British), evita uma definição mais precisa sobre o conceito, definindo-o como “uma atividade física agradável, que é geralmente organizada e competitiva, ainda que não necessariamente. Nenhuma linha clara foi traçada entre ‘esporte’ e ‘recreação física’ porque nenhuma é apropriada. Afinal de contas, a maioria das atividades pode ser jogada de diferentes formas e normalmente utilizamos a palavra ‘esporte’ para nos referir tanto ao jogo casual como aos mais altos níveis de desempenho” (p. 9-10).

Já Victor Melo, em seu livro “Esporte e lazer: conceitos: uma introdução histórica”, ancora sua definição de esporte no conceito de campo de Pierre Bourdieu. Por conseguinte, uma atividade física se enquadraria no campo esportivo ao se enquadrar em quatro quesitos: a) organizar-se em instituições representativas (como clubes, federações ou confederações); b) reger-se através de um calendário próprio de competições, encontros ou demais; c) abranger um corpo técnico especializado (técnicos, treinadores físicos, médicos, advogados); e c, no caso, de produtos ditos esportivos, ainda que não necessariamente ligados à prática de esporte.

Todo esse debate introdutório nos serviu para refletir sobre uma prática corporal moderna, de profunda inspiração histórica: o Combate Histórico Medieval. Sim, nesse novo candidato a esporte moderno, pessoas portam armas e vestem armaduras medievais e lutam em combates [moderadamente] controlados.

O Combate Histórico Medieval (ou apenas Combate Medieval) é interessante por diversos motivos. Por um lado, poderíamos olhar para a atividade como um modelo de representação de um imaginário sobre a Idade Média. De acordo com as normas da Federação Internacional de Combate Medieval (International Medieval Combat Federation, ou IMCF), “todas as armas utilizadas nos comb

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ates da IMCF devem ser análogas aos originais históricos. Uma arma utilizada também deve ser do mesmo período e da mesma região da armadura de seu portador” (IMCF Original Rules, 1.2.1). Ou seja, a busca de uma suposta fidedignidade histórica se apresenta como uma das principais características da atividade.

E não para por aí. Além de duelos de espadas e outras armas, há também lutas de grupos, chegando até ao enfrentamento de pequenos exércitos, na modalidade 16 contra 16.

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No entanto, a prática pretende se enquadrar no que se entende contemporaneamente como um “esporte”. Para tanto, é possível ver lutadores de duelos se cumprimentando ao início do combate (ver https://www.youtube.com/watch?v=GSJgPVQJGyk), regras, federações e equipes nacionais.

E aí reside um outro ponto de interesse do Combate Medieval, sua caracterização, ou não, enquanto esporte. Para tanto, seria necessário, em primeiro lugar, buscar uma definição de esporte, como fiz acima. Dessa forma, podemos analisar o Combate Medieval dentro dos parâmetros da teoria de campo de Bourdieu:

a) Organização em instituições representativas 

O Combate Medieval possui diversas instituições representativas espalhadas pelo mundo. Além da já mencionada IMCF, diversas organizações locais e nacionais estão ligadas à prática. A Historical Medieval Battle International Association, organizadora do “Battle of the Nations” (Batalha das Nações), principal campeonato internacional conta com a participação de equipes de 33 países, com variados números de participantes. Já a IMCF conta com 18 países membros.

IMCF

Há também uma série de organizações menores, como a M1, que organiza uma espécie de MMA medieval, no qual os lutadores se enfrentam, com armas e armaduras, em um tipo de octógono, como na imagem abaixo:

M1

 

b) Calendário próprio de competições, encontros ou demais

As organizações de Combate Medieval possuem calendários próprios e competições internacionais periódicas. Em 2017, o campeonato mundial da IMCF será realizado entre 25 e 28 de maio, na Dinamarca. A edição de 2016 ocorreu em Portugal, tendo sua primeira edição sido realizada em 2014, na Espanha. Já a “Battle of the Nations”, realizada de 29 de abril a 01 de maio, em Barcelona.

Os eventos trazem toda a simbologia do esporte moderno, ligadas à imagética e ao simbolismo medievais. Bandeiras, medalhas e troféus fazem parte do evento, além da presença de torcedores e de símbolos diversos representando as nacionalidades envolvidas, como nas imagens abaixo:

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Vencedor Russo não identificado, em foto disponível na página do evento em rede social.

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Torcedores (e competidores?) dos Estados Unidos, carregam seus símbolos nas roupas e nos escudos.

c) Corpo técnico especializado

Além dos fabricantes de armas e armaduras, que teoricamente devem seguir especificações bem definidas de local e período de origem, há também um grupo de treinadores e de outros especialistas. Conforme a popularidade da prática for aumentando, sua eventual profissionalização pode levar a profissionais mais especializados e destacados.

d) Mercado específico ao seu entorno

Ainda que esteja em seus momentos iniciais, já podem ser notados alguns empreendimentos no mercado do Combate Medieval. Na página da “Battle of the Nations”, a empresa “Age of Craft” aparece como parceira, comercializando armas, armaduras e roupas ligadas ao evento. Assim como ela, outros devem existir e tendem a crescer com a maior repercussão da atividade.

E então, se convenceu de que o Combate Histórico Medieval pode ser considerado um esporte em seus primeiros passos? Ou ainda não? Bem, estabeleça seu conceito de esporte e teça seus argumentos. Que tenhamos um bom debate.

 

 

 

 


Borges x Sábato: uma polêmica em torno da identidade nacional durante a Copa da Argentina

08/05/2017

 

No presente post apresentarei um interessante debate entre renomados literatos argentinos sobre a efetiva importância do futebol e da realização do mundial para a ideia de nação argentina em 1978. Jorge Luís Borges[i] e Ernesto Sábato[ii], ícones da literatura latino-americana contemporânea, tinham posições divergentes em relação à organização do evento e a importância do futebol para a identidade nacional.

BORGES

A oposição do grande escritor Jorge Luís Borges ao futebol foi mencionada no Jornal do Brasil, na reportagem intitulada “O esporte segundo Borges”, do correspondente internacional do periódico durante o torneio Aluízio Machado:

A “Copa do Mundo é uma calamidade” e a psicanálise é “o lado obsceno da ficção científica são alguns dos conceitos emitidos pelo escritor Jorge Luis Borges, depois de receber o título de Honoris Causa da Universidade de Tucuman, na Argentina. Com isso aumenta ainda mais sua fama de intelectual capaz de dizer coisas que se não agradam a todo mundo, pelo menos trazem a marca inconfundível da originalidade.

Depois de dizer que “a Copa do Mundo felizmente passará”, definiu o futebol como “um esporte muito estúpido”.

– A organização do mundial só servirá par aumentar os preços. Por isso, durante o campeonato pretendo afastar-me de Buenos Aires, rumo a qualquer parte que não se fale em esportes.

Se seus conceitos sobre futebol causaram surpresa, maior efeito tiveram suas declarações sobre o boxe:

– É um lindo esporte. Gostaria de tê-lo praticado em minha juventude, pois está relacionado com a valentia das histórias de malandros e bandidos.

Tem também preferência pela briga de galos:

– São disputadas bem perto, ideais para um míope, (Borges está quase cego), Mas é claro não são um grande negócio, porque atraem pouca gente. Uns 100 espectadores no máximo. (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, 02 jun.1978, p. 3).

Sobre o posicionamento de Borges e sua repercussão na Argentina, Novaro e Palermo afirmaram[iii]:

Quien puso el dedo en la llaga de este entusiasmo argentino fue un Jorge Luis Borges sarcástico (revista Somos, 23 de junio de 1978): “no es posible que un país se sienta representado por los jugadores de fútbol. És como si nos representaran los dentistas. La Argentina tiene dos cosas que ningún país do mundo posee: la milonga y el dulce de leche. Que más identidad pretenden?

Lejos de lamentar que ni la milonga (que compartimos con los uruguayos) ni el dulche de leche (que compartimos con los brasileños) sean una exclusividad argentina no faltó quien recogiera el guante tomando en sério la boutade; desde el mismo médio, Polakovic sustuvo que, a Borges, “se le escapó el valor etnogenético de las emociones colectivas de ser nacional ; … las multidudes que eran um solo ser … La nación argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el estádio (2013, p. 163).

Apesar da provocação do importante escritor, o discurso que predominava nos periódicos argentinos estudados para a realização da minha tese sobre o mundial argentino alinhava-se com as afirmações do filósofo eslovaco radicado no país Estebán Polakovic, autor de um longo ensaio no Clarín “En el campeonato mundial, la presencia de lo nacional”. O texto trazia uma crítica direta a Jorge Luís Borges e defendia abertamente  Ernesto Sábato, que defendeu a realização do torneio:

No en vano insitia Ernesto Sábato, en sus novelas y sus ensayos, en el hombre concreto, que no és solamente animal, sino un ser espiritual que tiene sus necesidades de amistad, cariño y amor y que quiere sentir que no está solo en la vida. Pues bien, la nacíon és uno de los remédios contra la soledad del hombre. La nacíon dá la sensacíon al hombre del abrigo y protección cuya ausencia se siente al allarse lejos de la pátria aunque séa por vacaciones. Si nó, como explicar la alegria collectiva por el despliegue de las banderas o por la victoria deportiva que provoca las lágrimas y abrazos entre desconocidos? Digán lo que quieran los racionalistas que desprecian las emociones como algo indigno del hombre maduro, ellas forman parte del ser  humano integral  y concreto como la razón con sus razonamientos.

Por esto considero que Borges estava equivocado al condenar el fútbol. Borges es, indudablemente un grande valor cultural argentino, pero no por eso es certo todo lo que disse: se equivoca como cualquier persona humana y se equivocó en la valoracíon de la emocíon de las multitudes. En este caso se le escapo el valor etnogenético de las emociones colectivas del ser nacional argentino. No el fútbol en si (entiendase bien) que és una fuerza etnogenética, sino las vivencias colectivas que provoca: las angustias, las expectativas, las alegrias en las victorias y los silencios en las derrotas. Si Borges pudiera ter visto con sus ojos lo que vieron los ojos e todos los argentinos el 1 de junio al inaugurarse el Mundial, estoy seguro que habria escrito un poema que al testimonar la identificacíon con las multitudes que eran un solo ser en ese momento, hubiera para la posteridad ese acontecimento. No hay duda de que la Nacíon argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el Estádio Monumental. (CLARÍN, SUPLEMENTO CULTURA Y NACIÓN, n. 11.605, 22 jun. 1978, p. 6).

Partindo do conceito de homem concreto de Ernesto Sábato, que mescla o racional com o emocional, Polakovic utiliza metáforas para definir a Nação como o “remédio para a solidão humana”, o “abrigo” e a “proteção” do cidadão que se envolve em emoções coletivas simbólicas, de pertencimento comunitário, como as provocadas pelos esportes – no caso específico, o futebol com suas vitórias e derrotas, angústias e expectativas. Esse esporte despertaria, segundo o autor, “forças etnogenéticas”, que ensejariam a mobilização popular e o pertencimento nacional que para o filósofo não teriam sido enxergadas por Jorge Luís Borges.

Com a vitória na final contra a Holanda foi possível encontrar um discurso de transcendência da conquista futebolística, que poderia influenciar no futuro da nação e combater possíveis “frustrações históricas” do povo argentino, em declaração de Ernesto Sábato sobre o título:

Sábato dijo: Este mundial reveló que el pueblo argentino está ansiando hacer algo positivo, despues de infinitas frustraciones. Reveló un profundo sentimiento nacional aún en momentos de derrota como pasó con el partido frente a Itália, mostrando que ese sentimento no era sordidamente exitista, sino algo más profundo y noble.

Ojalá este merecido triunfo de nuestro equipo sirva para levantar el ánimo de nuestro pueblo para empresas mas transcendentes, para crear las bases de una Nacíon en sério, para permitirmos levantar un país, donde haya teléfonos que funcionen, hospitales que sirvan, maestros que sean honrosamente pagados y con techo. Ojalá que no nos escandilemos con el triunfo meramente deportivo y creamos que somos una gran nacíon. (CLARÍN, n.11.609, 26 jun. 1978, p.29)

As aspirações do escritor por uma macrotransformação social, a partir da mobilização popular intensa ocorrida em um triunfo esportivo, clamavam por uma nação mais “séria”, que pudesse valorizar a educação, a saúde pública, o sistema de comunicações e que, principalmente, acreditasse nas suas próprias possibilidades.

Predominava naquele momento apesar de vozes dissonantes como a de Jorge Luís Borges uma espécie de consenso tácito em torno da “fiesta de todos” e da importância da realização do evento para a nação argentina. A posição de Ernesto Sábato que nos anos oitenta teve uma importância enorme na luta pelos direitos humanos após o fim da ditadura militar, estava de acordo com o sentimento  coletivo integracionista propagado ao longo da realização do torneio.

Quem estaria mais cego, Borges ao não perceber a importância que o futebol tem como elemento de identificação nacional ou Sábato ao acreditar que a união em torno da seleção de futebol poderia impulsionar a criação de uma grande Nação?

ernesto-sabato

 

[i] Jorge Luís Borges (1899-1986), poeta e escritor, é considerado um dos maiores literatos contemporâneos. Nascido em uma família tradicional onde o pai era professor de inglês e psicólogo, desde muito novo já escrevia poemas e estórias além de dominar plenamente a língua inglesa. Chegou a morar na Suíça e Espanha durante a Primeira Guerra Mundial. Ao retornar a Buenos Aires, passa a colaborar com a criação de diversas revistas literárias. Em 1938 morre o pai do escritor, que começa a trabalhar como bibliotecário para se sustentar. Sofre também um grave acidente devido a um problema de visão que o acompanhará ao longo da sua vida fazendo com que Borges ficasse paulatinamente  cego e tivesse que ditar suas obras. Foi perseguido politicamente durante o governo peronista pelo fato da sua família se opor ao estadista, perdendo assim seu emprego e passando a viver de artigos e conferências. Com a saída de Perón em 1955, passa a ser exaltado civicamente recebendo diversos prêmios nacionais e internacionais e é empossado como diretor da Biblioteca Nacional. Com o retorno de Perón, em 1974, apesar do seu renome internacional, Borges é destituído do seu cargo de diretor. Em 1976 apoia publicamente o golpe militar contra “Isabelita” Perón, fato que teria maculado sua imagem no exterior e possivelmente evitado que ele recebesse o Prêmio Nobel de Literatura.

[ii] Ernesto Sábato (1911-2011) foi um importante escritor argentino, cuja obra literária é composta de três grandes novelas: El Túnel (1948) , Sobre héroes y tumbas (1961) e Abbadón, el exterminador, além de diversos ensaios literários. Formado em física e matemática, chegou a morar em Paris onde iniciou uma carreira como técnico científico mas acabou conhecendo escritores e pintores surrealistas como André Breton que influenciaram sua opção pela literatura. Exerceu o magistério na Universidade de La Plata mas também teve problemas com Perón e foi retirado de sua cátedra. Na década de sessenta acabou sendo reconhecido internacionalmente junto com outros escritores latino-americamos e se transformou em um ícone cívico e formador de opinião dentro da sociedade argentina a partir dos anos setenta. Opositor da ditadura militar na Argentina, apesar de ter apoiado inicialmente o golpe,  após o período do “Processo” que ele teria qualificado como “sombrio”, foi nomeado por Raul Alfonsín como presidente da CONADEP (Comisíon  Nacional sobre la Desaparicíon de Personas),  onde coordenou uma monumental pesquisa sobre os desaparecidos políticos no país. Era uma figura pública de elevado prestígio moral e teria afirmado para o jornal francês Le monde durante o torneio que “boicotear el mundial no sólo hubiera sido boicotear al gobierno sino también al pueblo de la Argentina que de veras no merece”.

[iii] NOVARO, Marcos; PALERMO, Vicente. Historia argentina: la dictadura militar 1976-1983: del golpe de Estado a larestauracíon democrática. Buenos Aires: Ed.Paidós, 2013.