PESQUISA DE MESTRADO NA UFRJ IRÁ COMPARAR PICOS CLÁSSICOS EM SÃO PAULO/SP E RIO DE JANEIRO/RJ[1]

10/05/2021

Entrevista realizada por: Prof. Dr. Leonardo Brandão (FURB)

Instagram: leobrandao77


As pesquisas universitárias sobre skate no Brasil vem crescendo tanto em quantidade quanto em qualidade. Já são vários os Trabalhos de Conclusão de Curso (os famosos TCC’s) que abordam, sob diferentes ângulos, a prática e a cultura do skateboard. Algumas pesquisas avançam também na Pós-Graduação, com dissertações de Mestrado   e Teses de Doutorado. Neste âmbito, a mais recente pesquisa aprovada para se tornar uma dissertação de Mestrado vem do Rio de Janeiro/RJ, na pessoa do geógrafo e skatista Luciano Hermes (43 anos), que recentemente foi aprovado no Mestrado em História Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com um projeto que visa comparar os processos de reivindicação da prática do skate em dois picos clássicos, o Vale do Anhangabaú em São Paulo (que agora é o Memorial) e a famosa Praça XV no Rio de Janeiro/RJ

Conversei um pouco com Luciano para conhecê-lo melhor e saber um pouco mais de seu projeto de pesquisa, seus objetivos e como ele pretende realizá-lo. A seguir, nosso bate-papo:

1 – Olá Luciano! Gostaria que você se apresentasse, contando um pouco sobre você, em especial sua trajetória na cena do skate e acadêmica.

Olá! Meu nome é Luciano Hermes da Silva. Tenho 43 anos e sou skatista desde 1989. Comecei a andar de skate no breve período de existência da Associação de Skate de São Gonçalo (ASSG). A primeira coisa que se reparava era que os próprios skatistas, em regime de mutirão, montavam rampas e trilhos para andarem de skate em uma rua de asfalto liso. A família de um dos skatistas não se incomodava com a sessão em frente de casa, como também deixava guardar na garagem os obstáculos. A ASSG organizou alguns campeonatos de skate entre 1988 e 1989 que foram muito importantes para a História do skate no RJ.

Bom que se diga, que na virada da década de 1980 até meados da década de 1990, muita coisa mudou no skate e na sua própria prática. Daí que a cada nova fase, um certo tipo de pico se tornava mais frequentado por nós. De início as rampas de madeira da ASSG, e depois, o ringue de patinação do Campo de São Bento, as mini-ramps (Lauro Müller, Urca, Piratininga e Mutuá), a pista de São Francisco, além dos precários picos de rua.

A prática de skate intensa até 1997 foi interrompida por causa de trabalho e estudos, até que só foi ‘resgatada’ junto com a liberação do skate na Praça XV, em 2011.

Atuo como professor de Geografia desde 2001 e, de 2012 até os dias de hoje, trabalho como professor de Geografia na rede municipal do Rio de Janeiro.

A partir de 2013, juntamente com Nelson Diniz, que é também skatista, professor e pesquisador em Planejamento Urbano e Regional, iniciou-se um esforço analítico sobre a prática do skate. Em coautoria, publicamos e apresentamos ao debate acadêmico algumas elaborações nossas a respeito dos conflitos relativos à prática do skate em espaços públicos no Rio de Janeiro.

Fui recentemente aprovado no mestrado no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC-UFRJ), na turma de 2021, com o projeto cujo título é: “O skate conquista o centro da cidade: Praça XV-RJ e Vale do Anhangabaú-SP em perspectiva comparada”.

2 – Explique como você teve a ideia de escrever este projeto de mestrado que foi aprovado na UFRJ e qual o seu objetivo?

A pesquisa sobre a prática do skate em espaços públicos nos permitiu identificar padrões de ação dos skatistas e dos gestores urbanos no caso da Praça XV, no Rio de Janeiro. De modo que, ao observar o que se passou no Vale do Anhangabaú, já se dispunha de alguns conceitos.

A ideia decorreu do interesse em identificar semelhanças e diferenças nos dois casos. O objetivo central do projeto é estabelecer uma perspectiva comparada dos padrões de ação dos skatistas organizados no Coletivo XV e no Salve o Vale nos processos de reivindicação de uso dos espaços públicos da Praça XV e do Vale do Anhangabaú.

Entre os objetivos específicos da pesquisa, um merece destaque: a discussão sobre a centralidade da categoria espaço público nos discursos dos dois casos considerados.

3 – Como você fará esta pesquisa? Fale um pouco sobre a questão do método.

O projeto está sob orientação do Professor Dr. Fernando Luiz Vale Castro e sob co-orientação da Professora Drª Andréa Casa Nova Maia, o que significa algumas mudanças de estratégia no decorrer do curso. De toda forma, o plano inclui os seguintes procedimentos: revisão da literatura, realização de entrevistas, trabalhos de campo de observação participante, pesquisa iconográfica e audiovisual.

A análise dos Decretos e dos Planos Diretores subsidiará o estabelecimento dos marcos temporais, bem como a elaboração dos questionários das entrevistas.

Como se trata de um processo recente e de pouca sistematização a respeito, o recurso das entrevistas é de grande relevância. Pretende-se realizar entrevistas com os skatistas responsáveis pela organização do Coletivo XV e do Salve o Vale, com representantes das instituições da administração públicas envolvidas nos processos de negociação (Secretaria de Parques e Jardins e Instituo Nacional do Patrimônio Histórico, no Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, em São Paulo), bem como com representantes das empresas responsáveis pela construção dos mobiliários urbanos adicionados à Praça XV.

A observação participante é o recurso ao qual se recorrer para o registro da dinâmica da normalidade dos espaços públicos considerados. Pretende-se adotar a prática do registro em diário de campo para a tomada de notas a respeito, por exemplo, do convívio entre skatistas e demais frequentadores e transeuntes tanto da Praça XV, quanto do Vale do Anhangabaú.

Através dos registros fotográficos e audiovisuais, tanto das mídias especializadas, quanto dos acervos particulares, pretende-se reconstituir a trajetória da ocupação dos skatistas na Praça XV e no Vale do Anhangabaú.

4 – O espaço final é seu. Deixe algum recado para quem está lendo essa entrevista e pretende pesquisar skate na Universidade.

Muito obrigado pela recepção e pela consideração à pesquisa.

Diria que o mais importante é definir qual aspecto do skate se vai investigar. Com o objeto bem definido é que se elabora uma questão para ser pesquisada. Um exemplo banal, no caso da História do skate: “Quais manobras já mandaram subindo o corrimão tal?” Nenhuma das manobras descendo o corrimão responde à questão.

No mais, diria que a recepção é sempre muito boa quando se apresenta a ideia a outros pesquisadores.

O caminho está minimamente pavimentado, na medida em que há, tanto no Brasil quanto em outros países, uma produção considerada válida para se tomar por referência.

SAIBA MAIS

“O que o skate pode dizer sobre o ensino de geografia?”

Luciano Hermes da Silva e Nelson Diniz (2014)

https://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/GIRAMUNDO/article/view/50

“Contra-uso skatista de espaços públicos no Rio de Janeiro”

Nelson Diniz e Luciano Hermes da Silva

http://emetropolis.net/artigo/202?name=contra-uso-skatista-de-espacos-publicos-no-rio-de-janeiro


[1] Publicado originalmente, com pequenas alterações, no site da revista CemporcentoSKATE.


Pandemia, atores do espetáculo esportivo e engajamento político.

03/05/2021

Uma discussão importante que vem crescendo nos últimos anos e também durante essa Pandemia tem a ver com o papel político do Esporte e especialmente das declarações e posicionamentos de atores do espetáculo esportivo no Brasil e no mundo

A continuidade das práticas esportivas profissionais mesmo após um período de suspensão temporária no início da primeira onda da COVID, demonstrou que apesar das polêmicas, riscos de contágio e diversas situações específicas inacreditáveis na realização dos torneios, o esporte tanto nas suas modalidades profissionais, quanto na prática cotidiana dos amadores, seja talvez uma das atividades mais presentes na vida pandêmica, mesmo com os estádios, arenas e quadras praticamente vazias.

Apesar da insegurança e dos desvios de conduta cometidos em muitas ocasiões por dirigentes e políticos para o retorno de um “novo calendário” minha impressão é que a atividade esportiva se tornou ainda mais onipresente durante esse difícil período, gerando até uma certa naturalização do perigo quando novas ondas da doença surgem no país e no mundo. Sinto que existe um “novo normal” para as competições de todas as modalidades internacionais e nacionais nem sempre justificadas pela Ciência, mas regularmente aceita pelos amantes do esporte.

O objetivo desse especulativo post não é condenar a realização dos diversos campeonatos   nas diferentes modalidades que servem também de ocupação do tempo de lazer e do psicológico de muitas pessoas, pois eu mesmo já me vejo como um daqueles que naturalizaram a situação para ter o prazer de assistir esporte enquanto estou isolado e de praticar em espaços abertos quando está liberado, mas apontar questões polêmicas que surgiram ao longo desse triste período que na minha visão ajudam a pensar o local de fala do esporte na própria sociedade brasileira e a necessidade de engajamento político e liberdade de expressão dos atletas em todos os sentidos.

Isto posto pretendo mencionar algumas situações específicas que na minha opinião foram emblemáticas nesse momento pandêmico e que podem gerar polêmicas mas também boas reflexões.

A primeira delas foi o retorno dos campeonatos estaduais em um contexto de grande incerteza, de pouquíssimo conhecimento da doença e seus protocolos e de divergência entre autoridades esportivas e sanitárias, ainda no primeiro semestre do ano passado. A triste aliança de alguns dirigentes esportivos de importantes clubes como o Flamengo com o negacionismo explícito do presidente da República para acelerar o retorno  das partidas, chegando a cogitar naquele momento a presença de torcedores nos estádios (fato que é inconcebível praticamente um ano depois) foi ignóbil porém naturalizada aos poucos por torcedores, profissionais da mídia e mesmo apaixonados pelo futebol mesmo sendo ou se considerando de setores progressistas.

Um exemplo recente foi a reação à declaração do técnico Lisca  no início de março contra a retomada da competição da Copa do Brasil. Apesar de usar argumentos racionais como a distância e risco nos translados de equipes por exemplo do Sudeste para o Norte e também emotivos como a referência a colegas que morreram,diversos técnicos, jogadores, torcedores o criticaram veementemente o chamando de hipócrita.

O próprio Lisca afirmou que não foi uma declaração política e que estava apenas dando sua opinião em função do triste momento da Pandemia mas acabou sendo execrado por muitas pessoas, sendo importante lembrar como o número de mortes e casos aumentou  de forma avassaladora nos meses de março e abril. Para maiores informações sobre o caso ver  https://www.terra.com.br/esportes/futebol/lisca-diz-que-desabafo-sobre-pandemia-nao-foi-politico,bd2f10fb799109907cb966face9a2a43vkegyxd4.html

Esse caso também é emblemático em função da temática do engajamento político no esporte. O fato do treinador ter se justificado que o desabafo não teria sido político pode ser visto pela ótica das dificuldades que treinadores e atletas, ainda podem ter para se manifestarem no nosso país. Infelizmente não temos uma cultura política muito engajada na nossa sociedade e obviamente isso se reverbera no meio esportivo.

Entretanto acredito que existem duas faces de uma mesma moeda. Se por um lado os atores do espetáculo esportivo no país se envolvem pouco com política e raramente se manifestam por falta de interesse ou consciência como alguns intelectuais as vezes cobram, por outro, a pressão institucional das Confederações, dos interesses políticos dos clubes podem estabelecer uma espécie de censura invisível muitas vezes difícil de ser rompida.

O recente caso da jogadora de vôlei de praia Carol Solberg ocorrido durante a Pandemia é representativo nesse tema. A tentativa de uma punição exagerada  à  atleta por ter se manifestado contra o atual Presidente da república  foi resultado de uma “cláusula leonina” de impedimento de manifestação dos atletas  imposta no regulamento da competição e  de um Tribunal Desportivo que no Brasil é uma jurisdição anômala e despreparada. A denúncia com um valor muito alto de multa e suspensão por várias partidas entra em choque com o histórico princípio iluminista da “liberdade de expressão” acolhido constitucionalmente e serviria caso se concretizasse para estimular ainda mais a conduta passiva dos atletas no campo político.

A própria advertência aplicada à jogadora apesar de ser factível no âmbito jurídico me parece equivocada a partir de uma perspectiva sociológica e inibe novas manifestações dos atletas, já se configurando como um cerceamento desnecessário. Entendo que a polêmica gerada em torno da situação foi muito importante para refletirmos sobre o local de fala do Esporte e dos esportistas. Para maiores informações sobre o caso ver

https://globoesporte.globo.com/volei/noticia/carol-solberg-e-advertida-por-manifestacao-politica.ghtml

No âmbito da crônica esportiva e também em alguns estudos de História do Esporte recentes, muitos atletas de ponta brasileiros como Pelé, Zico, Nelson Piquet, Oscar Schmidt são criticados por não terem se manifestado politicamente de forma contundente ou pelo teor de suas opiniões, enquanto outros são representados como símbolos de resistência ou de ruptura revolucionária como Afonsinho, Reinaldo, Sócrates, Paulo César Caju, etc. Acredito que possa existir exageros retóricos nos dois lados, sendo que obviamente cada caso específico tem suas peculiaridades, mas a importância é que o debate tanto jornalístico quanto acadêmico pode estimular a participação cada vez maior dos atletas dando a sua opinião.

O engajamento político dos atletas, jogadores, dirigentes esportivos independentemente de que ideias defendam deve ser estimulado em todos os esportes e não deve ser cerceado por cláusulas de comportamentos, argumentos de que as praças esportivas sejam campos neutros, regulamentos internos dos clubes ou oligárquicas Federações e Confederações.  

    Assim como o Esporte mesmo em tempos de Pandemia do Coronavírus se perpetua como Fato Social onipresente nos termos de Émile Durkheim a participação política dos atores do espetáculo esportivo deve ser estimulada, estar cada vez mais presente no nosso cotidiano e nunca cerceada por regulamentos abusivos, jornalistas supostamente neutros, ou lunáticos internéticos valentões digitais.

O local de fala do esportista tem que ser respeitado. Para mim Lisca “Doido”, Carol Solberg ou até mesmo Felipe Melo, também execrado em muitas redes sociais pelas suas convicções políticas que obviamente não compartilho têm que ter o direito  assegurado de se manifestar e fazer política dentro dos gramados, quadras e demais espaços esportivos para que os atores também atuem na defesa da Democracia e não apenas alguns setores de torcidas Antifascistas.


ELEVAR O SPORT SUBURBANO: O FUTEBOL NOS ARRABALDES DE CAMPO GRANDE – RIO DE JANEIRO

19/04/2021

Por Nei Santos Junior

As experiências com o futebol nos vários cantos arrabaldinos não foram poucas. Nos primeiros anos do século XX, os bairros de Bangu, Santa Cruz, Campo Grande e Realengo já contavam com um número expressivo de associações esportivas ligadas ao futebol, ciclismo, boxe, cricket entre outras.

No caso de Campo Grande, a fundação do Campo Grande Athletic Club nos chama atenção. Inicialmente, por ser uma região que transitava entre ações tipicamente rurais e outras de caráter urbano. Num segundo momento, porque, talvez, a própria criação de um clube de futebol permita elucidar essa inter-relação complexa, que há algum tempo emerge em nossas reflexões e que muito nos inquieta, mas que em nenhum momento possa ser compreendida como dicotômica.

Fundado em 16 de maio de 1908, com sede na rua Augusto Vasconcellos, n.62, o então Campo Grande Football Club foi um dos principais clubes da zona suburbana. No bairro, não era o único dedicado ao futebol. Entre outros, havia o Sportivo Campo Grande, Monteiro Football Club, Sport Club Juary e, posteriormente, o Clube dos Alliados. Todavia, acreditamos que nenhuma outra agremiação local tenha alcançado o mesmo destaque, já que o clube esteve nos grounds das ligas mais importantes da cidade.

Na década de 1910, o Campo Grande filiou-se à Liga Suburbana de Football (LIGA, p.7, 1917; UM GRANDE, p.4, 1917). No tempo em que esteve associado, fez-se presente entre os principais clubes da 1° divisão, juntamente com Royal Football Club, Modesto F. Club, Cascadura e o Engenho de Dentro A. Club.

No mesmo período, o clube também participou de vários festivais esportivos, alguns em homenagem aos jornais dedicados à cobertura do futebol e, em outros momentos, festejos que mobilizavam um enfrentamento local. Um exemplo que congrega esses dois pontos, foi o torneio Interclubes Suburbano, dedicado ao jornal A Epoca, que reuniu clubes da Liga Suburbana e Liga Metropolitana, sendo disputado no campo do Cascadura Football Club (UM GRANDE, p.4, 1917).

Em 1920, o Campo Grande passou por uma reconfiguração.  Influenciado por uma maior valorização dos resultados, a agremiação uniu suas forças ao Paladino Football Club, que antes jogava em Piedade. Com a fusão, além da mudança de nome, sendo agora chamado de Campo Grande Athletic Club, ele também migraria para a Liga Metropolitana de Desportos. Ainda que disputasse, inicialmente, a 3°divisão, pode-se supor que tal filiação seja reflexo de um conjunto de interesses, desejos e aspirações da agremiação nos meios futebolísticos cariocas.

Ainda em 1920, a equipe, agora composta por nomes que faziam parte do Paladino, entrou forte para a disputa da 3° divisão. Com ótimos resultados, fez a final com o Bonsucesso Football Club, alcançando, em seu primeiro ano na Liga Metropolitana, o acesso a 2° divisão. No entanto, dias depois da conquista, a morte do então presidente Firmino Gameleira causou certa instabilidade política no clube (FALLECEU, p.8, 1920). Os jornais lamentaram o falecimento do “conhecido e antigo sportman”, considerado uma figura importante do esporte local. Funcionário da prefeitura, o Sr. Firmino também foi um dos fundadores do clube, sendo, aliás, importantíssimo para a aquisição da sede em Campo Grande.

Com essa nova fase, o Campo Grande Athletic Club passou por algumas instabilidades internas. Curiosamente, no primeiro dia do ano de 1921, após a posse da nova diretoria, outra agremiação fora fundada: o Sportivo Campo Grande, com muitos integrantes que figuravam entre os associados do clube atlético. Segundo o Jornal do Brasil:

a novel sociedade recentemente fundada em Campo Grande por um grupo de abnegados e fervorosos admiradores do football, conta já com grande número de adeptos e dispões de todos os elementos necessários a um rápido progresso (SPORTIVO, p.10, 1921).

Mesmo com a presença do Sportivo Campo Grande, o protagonismo local continuou sob as ordens do Campo Grande Athletic Club. Isso porque, a nova agremiação focou, inicialmente, em ações intermediárias, optando por não disputar as competições promovidas pelas principais Ligas da época.  Até meados da década de 1930, é possível identificar ações isoladas, entre amistosos e festivais suburbanos. Tal prática, fora até mesmo cobrado por alguns jornais esportivos da época, sob a justificativa que o Sportivo de Campo Grande teria, “com esforço e boa vontade”, condições de “ser um sério rival do Bangu” (O CAMPO GRANDE, p.4, 1935).

De toda forma, as atividades esportivas seguiam em ritmo acelerado no bairro. Em 1926, o Campo Grande Athletic Club realizou um grande festival esportivo em comemoração ao seu 18° aniversário. Alguns clubes da região foram convidados, entre eles, o Modesto, Fidalgo, Engenho de Dentro, Vasco da Gama e Bangu. A festa, sem a presença do coirmão Sportivo, também seria para inaugurar a sua nova e elogiada arquibancada, considerada um símbolo do progresso da população campograndense (O PRÓXIMO, p.11, 1926).  

Contudo, os anos seguintes foram marcados por uma intensa movimentação política. Em 1927, novas eleições foram convocadas, mas o quadro de diretores permaneceu praticamente o mesmo. Na tentativa de atrair um maior número de sócio, o clube resolveu suspender a joia de admissão, além de facilidades no acesso aos jogos de futebol (CAMPO GRANDE, p.10, 1927).

Ainda assim, o clube permanecia distante da trajetória de bons resultados – na disputa da 2° divisão e no péssimo desempenho na excursão por São Paulo. Curiosamente, nesse período, o clube entra numa espécie de declínio. Um ofício enviado a Liga Metropolitana, publicado pelo Jornal do Brasil, no final de 1929, mostra alguns itens interessantes. No texto, o presidente convoca uma assembleia geral extraordinária, pedindo o comparecimento dos associados, pois nela será tratada a “reorganização do club, o qual acha-se em condições esportivas, administrativas e sociais bastante melindrosas, reportando-se a assembleia em sua organização ou dissolução” (LIGA, p.15, 1929).

Campo Grande Atlético Clube – fundado em 1940

Não sabemos ao certo os desdobramentos da reunião, mas fica claro que após a sua realização as notícias sobre a agremiação tornaram-se escassas. O fato é que, depois de 1930, não encontramos nos jornais mais notícias sobre o Campo Grande Athletic Club. Acreditamos que ainda tenha ficado algum tempo realizando atividades locais, até encerrarem de vez suas ações. Sabe-se, no então, que alguns dos seus principais sócios migraram para outras sociedades esportivas. Alguns ajudaram a desenvolver o Alliados de Campo Grande, outros, juntamente com sócios remanescentes do Sportivo Campo Grande, fundaram, em junho de 1940, o Campo Grande Atlético Clube. Agremiação na qual encontra-se em funcionamento até os dias de hoje.  


Em memória de Moniz Pereira e a memória nos museus de clube

12/04/2021

O ano de 2021 marco o centenário de nascimento de Mário Moniz Pereira. Em Portugal, ele é conhecido como Sr. Atletismo pela sua vida de dedicação à esta modalidade, embora também pudesse ser chamado de Sr. Ecletismo já que desempenhou muitas funções no mundo do exporte: foi atleta e treinador de outras modalidades, tais como, Voleibol, Ginástica, Atletismo ou Tênis de Mesa, preparador físico da equipa de Futebol do Sporting, bem como dirigente desportivo do mesmo clube.

Moniz Pereira é uma figura central na história do exporte português. A sua disciplina, as suas ambições, o método de treino, as vitórias alcançadas e os recordes batidos pelos seus atletas, fazem dele um exemplo de perseverança, de garra e sucesso em vários dos seus campos de ação. Além de seu legado educacional e imaterial, um de seus maiores sucessos foi como treinador de Carlos Lopes, vencedor da maratona nos Jogos Olímpicos de 1984, a primeira medalha de ouro portuguesa nas história das olimpíadas.

Carlos Lopes, vencedor da Maratona nos JO 1984

Após falecer aos 95 anos, foram criadas duas exposições e várias atividades em parceria com outras instituições, como é o caso do Museu Nacional do Desporto, Museu Sporting, Centro Desportivo Nacional do Jamor, Comitê Olímpico de Portugal, Museu do Fado, Faculdade de Motricidade Humana e Federação Portuguesa de Atletismo. O leque de instituições mostra o tamanho de Moniz Pereira e a sua importância para Portugal. Na altura de sua morte, Moniz Pereira era o sócio nº2 do Sporting Clube de Portugal, isto é, era o segundo sócio mais antigo do clube, com 93 anos de ligação ao clube.

Cada instituição ficou responsável de assegurar a sua parte expositiva. O Museu Nacional do Desporto reconstituiu a sala de trabalho de casa do professor Moniz Pereira, o Museu do Fado ficou encarregue de uma mesa-redonda que aborda a veia fadista, compositor, e letrista de Moniz Pereira. O Museu Sporting representou o percurso enquanto sportinguista, atleta, treinador e dirigente.

O Centro de Memórias do museu do Sporting teve um papel fundamental na montagem da exposição, através da recolha de testemunhos de algumas das pessoas que tiveram contato com Moniz Pereira, não apenas a nível esportivo, mas também a nível pessoal e familiar. Depois de definido o formato geral da exposição, ficou decidido que 6 testemunhos de maior relevo recolhidos pelo Centro de Memórias seriam dispostos em 6 televisores. Cada atleta teve “o seu espaço” para falar sobre o professor Moniz Pereira, com direito a uma televisão para se expressar e também com um objeto que remetia ao relacionamento. Os testemunhos escolhidos foram o de Armando Aldegalega, Carlos Lopes, Cristina Coelho, Domingos Castro, Fernando Mamede e Leonor Moniz Pereira.

Os testemunhos criam um ambiente intimista para a exposição, sentida na primeira, pessoa por aqueles que fazem parte desta, e por todos os visitantes. Esta abordagem escolhida pelo Museu do Sporting está assente numa museologia dos “afetos”, tal como Mário Chagas caracteriza a sociomuseologia. Uma museologia com enfoque nas comunidades, que não se preocupa em exclusivo com a preservação de objetos museológicos, mas principalmente com a dignidade humana, reforçando que a cidadania pode e deve ser trabalhada dentro dos museus. Para isso, Mário Chagas acredita que é preciso ter uma museologia onde a sociedade participa em conjunto do processo e não onde o museu conta linearmente algo à sociedade.

Isabel Victor, diretora do Museu do Sporting, refere que a principal função do museu é interagir e servir para nos pôr a pensar, para nos levantar inquietações e questionamentos. Se o museu não cumpre essa função fundamental, então esse museu não serve para a vida, é apenas algo decorativo e formatado.

Essa experiência do Museu do Sporting mostra que ao contrário do que se possa pensar, os museus de clubes podem ser mais do que meras salas de troféus. Tal como o Museu do Futebol em São Paulo parece ser um grande exemplo, existe um cuidado museológico e social que visam garantir boas acessibilidades para pessoas com deficiência, preocupação de inclusão social, preocupação de interação entre os seus próprios serviços – serviço educativo, Centro de Documentação, Centro de Memórias, conservação e restauro, serviço de exposição, inventário e divulgação.

Isto prova que estes museus estão atentos às necessidades não só do clube, mas também da sociedade e podem não só, ser um reflexo do seu símbolo ou da sua causa, mas também das suas gentes e do local em que se inserem. A compreensão do que um museu pode contribuir para um clube pode representar uma importante aposta destas instituições. Num campo, como o exporte, tão cheio de valores sociais, afetivos e onde a identidade dos clubes é algo essencial, uma organização museológica afetiva que tenha em conta os aspectos sociais e identitários é fundamental.

Referência

Este texto teve por base as minhas experiências pessoais e de trabalho com o Museu do Sporting, mas foi fundamental a consulta do Relatório de Estágio do Mestrado em Antropologia – Culturas Visuais do David Felgueira. Neste relatório, o David conta a sua experiência no Centro de Memórias do Museu Sporting Clube de Portugal, focando-se na construção da exposição temporária “A sorte dá muito trabalho sobre o professor Mário Moniz Pereira”. O relatório de estágio está disponível na base de dados da Universidade Nova de Lisboa. As fotos que ilustram esse post foram retiradas do trabalho mencionado.


A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre   o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy, entre outras. Havia uma predominância de bandas australianas – as quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do esporte e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta a contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continua…]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


Chamada 31 Simpósio Nacional de História

01/04/2021

Olá todas e todos
Com alegria informamos que neste ano, mais uma vez, teremos no 31º Encontro Nacional de História, o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (Simpósio 69). Este Simpósio existe continuamente desde 2003 e se caracterizou como um espaço de encontro de pesquisadoras(es) e interessadas(os) no tema, um momento de divulgar, debater e estabelecer redes neste campo de pesquisa, contando sempre com a presença em massa de grandes produções, num ambiente agradável a todas as pessoas. Neste ano, por conta das condições sanitárias vividas, o evento será todo on-line e acontecerá entre 19 e 23 de julho. O simpósio acontecerá nos dias 20, 21, 22 e 23, sempre entre 14h e 18h.

Coordenadores
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA)
André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Para o envio de trabalhos ao Simpósio, as condições são estas:

– Exige-se titulação mínima de Graduação.

– Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 trabalho em apenas 1 Simpósio Temático.

– O inscrito deverá escolher 5 Simpósios Temáticos, na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, a comunicação será submetida à avaliação da opção seguinte e assim por diante.

– Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800 com espaço), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação do(s) coordenador(es).

– Uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

– Na inscrição, não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria.

– Os apresentadores de trabalho associados da ANPUH deverão estar em dia com a anuidade de 2021.

– O valor da inscrição em ST para associado é de R$60,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado é de R$270,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado professor/a de ensino fundamental e médio é de R$180,00.(necessário comprovante de atuação como professor/a de ensino fundamental e médio)

– O valor da inscrição em ST para não-associado aluno/a de pós-graduação é de R$180,00. (necessário comprovante de atuação como aluno/a de pós-graduação)

– No caso de serem 2 autores (coautoria), cada um deve fazer a inscrição individualmente no sistema. O procedimento é necessário para o sistema gerar duas formas independentes de acesso à Área do Inscrito no site.

– Um Código do Trabalho será gerado ao primeiro autor que realizar a inscrição. Para que isso ocorra, no campo Tipo de Submissão, este primeiro autor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado. O segundo autor basta escolher a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informar o Código do Trabalho gerado ao primeiro.

Informações para a elaboração dos resumos:

Título do resumo em CAIXA ALTA e em negrito; fonte Times New Roman, tamanho 12; com nome do autor alinhado à direita e as seguintes informações abaixo: titulação, instituição e e-mail do autor.

Texto do resumo: fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento simples; máximo de 15 linhas e 3 palavras-chave.


Instruções para a submissão dos trabalhos completos (não obrigatório):

– Os arquivos devem ser em formato .doc (“documento de Word”) e enviados exclusivamente por meio da Área de Inscrito, aqui no site do SNH.

– É possível enviar uma primeira versão do trabalho completo no ato de inscrição e uma versão definitiva para publicação nos anais entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

Instruções sobre a forma do texto completo:

1. Formato: A4;

2. Fonte: Times New Roman;

3. Tamanho: 12;

4. Espaçamento: 1,5;

5. Número máximo de 15 laudas e mínimo de 10 laudas, incluindo as referências;

6. Margens: superior e inferior 2,5; esquerda e direita 3,0;

7. Alinhamento: justificado;

8. Título em maiúsculo, centralizado e em negrito;

9. Nome do(s) autor(es) alinhado à direita depois de uma linha de espaço do título;

10. Vinculação institucional, logo abaixo do(s) nome(s) do(s) autor(es), também alinhado à direita;

11. Endereço eletrônico logo abaixo da vinculação institucional;

12. Citações com até 3 (três) linhas deverão vir no corpo do texto, sem itálico, com chamada autor-data entre parênteses. As citações com mais de 3 (três) linhas devem vir fora do corpo do texto, tamanho 10, com recuo de 4 cm;

13. Caso o trabalho contenha imagens, estas deverão estar em 300 dpi no formato TIF ou JPEG e colocadas no próprio texto.

14. As indicações bibliográficas no corpo do texto, colocadas entre parênteses, deverão se resumir ao último sobrenome do autor, à data de publicação da obra e à página, quando necessário (BURKE, 2005, p. 20). Se o nome do autor estiver citado no corpo do texto, indicam-se, entre parênteses, apenas a data e a página. Notas de rodapé, apenas em caráter de explicação;

15. As referências bibliográficas finais devem seguir as recomendações da ABNT.


Pelé (David Tryhorn e Bem Nicholas, 2021): novo filme revisita temas polêmicos

30/03/2021

Entrevistador (em off)   – O que você sabia (…) na época?

Pelé   – Se eu dissesse que eu não sabia (…) eu estaria mentindo. Muitas coisas a gente ficava sabendo. Muitas coisas nós não tínhamos certeza (…).

Entrevistador  – Qual foi a sua relação com os governos?

Pelé – Eu sempre tive as portas abertas, todo mundo sabe disso. Até na época que era muito ruim.

(…)

Paulo Cézar Lima  – Eu amo o Pelé! Mas não posso deixar de criticá-lo. Eu achava que ele tinha um comportamento do negro sim senhor, submisso (…) que não contesta, que não critica (…) eu mantenho até hoje.

Neste triste feriadão pandêmico, venho tecer algumas poucas considerações sobre a mais nova película sobre Pelé. A obra, lançada há pouco mais de um mês pela Netflix, é uma grata contribuição ao conjunto de produções cinematográficas já realizadas sobre o atleta do século (para uma lista do nada desprezível rol de filmes com ou sobre Pelé, ver referência citada no meu último post: O Rei Pelé – Carlos Hugo Christensen, 1962:cinema, futebol e racismo: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/11/17/o-rei-pele-carlos-hugo-christensen-1962-cinema-futebol-e-racismo/).

O documentário é de responsabilidade dos cineastas David Tryhorn e Bem Nicholas. Ambos apresentam uma filmografia bastante reduzida, mas com uma pegada no tema do esporte. Dirigiram ou produziram fitas sobre ídolos do atletismo e do tênis (Ver perfis e obras em: https://www.imdb.com/name/nm8510460/?ref_=tt_ov_dr). Com seu último trabalho, Pelé (2021), abriram uma nova vereda em uma tradição da narrativa fílmica sobre o “Rei do futebol”.

A crítica vem demarcando, de modo quase consensual, o diferencial mais evidente da abordagem dos diretores britânicos, a saber, o enfrentamento (mesmo que deliberadamente contido e balanceado) de delicadas questões extra-campo na biografia de Pelé. Fundamentalmente no que se refere aos posicionamentos (ou falta de) do futebolista frente ao Regime Militar e seus máximos dirigentes. Conforme Diogo Magri sumariza, a “produção (…) fez o jogador falar, pela primeira vez de forma tão longa sobre ditadura, tortura e o uso do futebol  – e dele próprio –  como propaganda do regime militar” (Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix: https://brasil.elpais.com/esportes/2021-02-23/pele-encara-seus-dilemas-com-a-ditadura-na-netflix.html).

Esse é o tema-base. Mas a película não se resume a isso. Tem muito futebol, Copa do Mundo, disputas em torno da empreitada de 1970. Sobre as sempre acionadas discussões a respeito da Copa do México e a troca de comando às vésperas da competição (substituição de João Saldanha por Mário Zagalo), também são acrescidas imagens e colocações variadas. João Saldanha é retratado, ao meu ver de modo tendencioso, como um opositor do futebol “brasileiro”. Brito, Rivelino, Juca Kfouri, e até Delfim Netto são chamados à fala (a pronunciarem-se sobre suas memórias e avaliações sobre 1970). Este último senhor, aliás, além de assumir seu papel na assinatura do AI-5 (nenhuma novidade) chama a atenção por sua sinceridade, desprovida de qualquer prurido. Perguntado se estava ciente do uso do Ato Institucional como instrumento para a tortura, a resposta é imediata: “seguramente que sim”. Sobre o acompanhamento da Copa de 70 por Emílio Médici, acrescenta:

– Aquilo se transformou, para o presidente, pessoa física, uma coisa importante.

Entrevistador: Por quê?

– Porque se o povo fica contente, o governo fica contente [rindo].

A discussão segue por vários caminhos e personagens. Esta é uma pequena amostra. Reforço que o eixo narrativo está montado numa tentativa (interessante) de cruzar o homem, o jogador excepcional e sua lida com os muitos percalços de um país. Em uma narrativa centrada principalmente no intervalo entre 1958 e 1974, temos que dez desses anos estão indelevelmente atravessados pelo Regime Ditatorial. (Re)colocar Pelé no meio desse redemoinho é do que se trata. Para tanto são convocados depoimentos de época e contemporâneos (com alguma diversidade de posicionamentos). Mostra-se o relacionamento amistoso do Rei (digamos assim) para com as autoridades e chama-se o próprio, para uma conversa/balanço.  

O comentarista PC Vasconcelos sintetizou bem a dialética da fita. Uma discussão (inevitável, mas por muitas vezes malabaristicamente driblada) entre o dentro e o fora de campo (o famoso dentro das 4 linhas e o offside, em uma provavelmente cansada metáfora boleira). A fala de Vasconcelos vem em off, após as imagens que mostram a recepção a Pelé, no Palácio da Alvorada, confraternizando com Garrastazu Médici. O futebolista havia sido convidado para uma recepção pública, três dias após a marcação de seu milésimo gol. PC comenta:

Para muita gente vai se olhar menos para o que fez dentro do campo e mais para o que fez fora. E fora é caracterizado por uma ausência de posicionamento político. Nesse momento da história isso vai pesar muito contra ele.

Neste ponto ficarei por aqui. Para os arrazoados contextualizadores (alguns contemporizadores), prós e contras, remeto ao próprio documentário. Eu recomendo. Particularmente, eu sempre achei que se deve dar a Cezar o que é de Cézar. Pelé é eterno pelo que fez como jogador, como virtuose da bola (com todas as relevantes e profundas implicações advindas da assunção de um negro pobre, nas décadas de 50 a 70, num país pouco desenvolvido e racista como o Brasil). Não obstante, não se pode viver da glória, do reconhecimento e da imagem pública, sem uma cobrança pública. O que os grandes ídolos fazem têm repercussão para além de seus campos específicos de atuação. Ônus e bônus de cada atitude serão, necessaria e independentemente da vontade de cada um, postos na balança pública. O filme de Tryhorn e Bem Nicholas ajuda nesse sentido. E o faz de modo suave e razoavelmente equilibrado.

Mais duas ou três coisas rápidas. Alguns destaques que omiti e uma palavra sobre a construção fílmica.

Há duas cenas que não gostaria de deixar passar, mesmo que ligeiramente. A primeira é por puro deleite. Por volta do minuto 26, Pelé participa de um almoço, em uma casa em Santos, com a velha turma do famoso escrete. Dorval, Pepe, Edu e companhia. É como um churrasco de velhos e bons amigos, que dividiram a juventude e as aventuras de uma parte da vida que não volta mais. Quem já jogou bola, participou de torneios de rua, quadra, colégio, faculdade (que pareciam… e eram assumidos como a coisa mais importante do mundo) certamente vai se reconhecer nas brincadeiras, nas troças, nas histórias de décadas passadas, contadas com a vivacidade de uma memória afetiva. A diferença é que aqueles octagenários fizeram parte de um dos maiores times da história, duas vezes campeão da Libertadores e do mundo e tiveram como líder a quem carinhosamente chamam de “negão”, o maior jogador de todos os tempos (se isso não estava claro até agora, essa é a minha opinião). Entre uma e outra provocação, Pelé não é poupado. Basta ele começar a cantarolar uma música de sua autoria para ouvir prontamente:

– Em questão de cantar, ele tá melhorando!! [aí a gargalhada se torna irrefreável, inclusive para a assistência].

Pelé reconhece a riqueza do momento.

– Vocês são demais! Olha o sol que vocês trouxeram. Um dia maravilhoso! [uma sequência maravilhosa!].

Um segundo e último núcleo de observações se refere à forma como a história é contada filmicamente. Trata-se de um documentário bem tradicional, mas destacaria a qualidade de algumas das imagens de época e o recurso à montagem paralela que, já nas primeiras cenas, estabelece a proposição narrativa (com a alternação de planos do indivíduo, do jogador em atividade e de imagens de época, com ênfase em cenas da repressão ditatorial).

Somos, portanto, apresentados à película a partir de um contraponto entre o homem/indivíduo, um senhor de 80 anos, que chega de andador, devagar e o atleta magnífico, a personalidade pública e o jovem jogador, cuja história de uma conquista do mundo vai passar a ser contada. É como um convite a um balanço/retrospectiva (o título seco, “Pelé”, parece se coadunar com esses primeiros planos que preparam o desenrolar da trajetória a ser apresentada).

Uma cena inicial chama (muito) a atenção. Pelé surge dirigindo-se ao centro de uma ampla sala vazia, ocupada apenas por uma cadeira. Ao acomodar-se, com certa dificuldade, desvencilha-se do andador, com um empurrão ainda enérgico. É um estorvo que não condiz com o que nos vai ser mostrado. Deve ir para fora do enquadramento (para fora do campo de visão). Tal como ao final da Copa de 70 (e conforme depoimento de Rivelino, nessa película), parece que podemos ouvir um berro:

-Eu não morri! Eu não morri! Eu não morri! [assim mesmo, três vezes, como nos conta Riva].

Pelé é eterno.

Algumas referências:

Para dar uma olhada no Trailer, segue o link (mas o bom mesmo é ver na íntegra, no NETFLIX): https://youtu.be/GS0dFi63Nzg.

E listo um pequeno apanhado de publicações da crítica, em diferentes matizes:

A seleção que ‘presenteou’ a ditadura com uma taça. Disponível em: https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-07/a-selecao-que-presenteou-a-ditadura-com-uma-taca.html.

BARBOSA, Nathan Pereira. Pelé”, da Netflix: entre a tradição biográfica e o necessário desconforto político. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 54, 2021.

CASÉ, Rafael. O inesgotável Pelé (contém spoilers). Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 34, 2021. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-inesgotavel-pele/.

Documentário sobre Pelé retoma o debate em torno da postura do ídolo diante do arbítrio…. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/documentario-sobre-pele-retoma-o-debate-em-torno-da-postura-do-idolo-diante-do-arbitrio/

Documentário ‘Pelé’, da Netflix, peca pela falta de profundidade. Disponível em: https://liberal.com.br/colunas-e-blogs/estudio-52-documentario-pele-da-netflix-peca-pela-falta-de-profundidade/.

Michael Jordan e Pelé evitaram o ativismo, mas foram enormes agentes políticos. Disponível em:https://brasil.elpais.com/esportes/2020-10-23/michael-jordan-e-pele-evitaram-o-ativismo-mas-foram-enormes-agentes-politicos.html.

Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix. Disponível em:https://brasil.elpais.com/esportes/2021-02-23/pele-encara-seus-dilemas-com-a-ditadura-na-netflix.html


Para outros posts sobre filmes de/com Pelé, que escrevi neste blog, ver:

Os Trombadinhas (Anselmo Duarte, 1979): https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=os+trombadinhas;

 Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff e Michael Zimbalist): https://historiadoesporte.wordpress.com/2017/12/21/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-eua-bra-2016-jeff-zimbalist-e-michael-zimbalist/.

Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto/Eduardo Escorel, 1974): https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=futebol+e+cinema+v.

O Rei Pelé (Carlos Hugo Christensen, 1962):cinema, futebol e racismo: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/11/17/o-rei-pele-carlos-hugo-christensen-1962-cinema-futebol-e-racismo/.


Um clube de ciclismo no bairro de Realengo

20/03/2021

Por Victor Andrade de Melo

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Este post é parte de um artigo que escrevi com o camarada Nei Jorge Santos Júnior e acabou de ser publicado na revista Antíteses (v. 13, n. 26, jul./dez. 2020). Quem curtir e desejar acessar o texto completo, pode encontrá-lo aqui: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/40025

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Nos anos 1920, foram criados dois clubes de ciclismo pioneiros no subúrbio, o Ciclo Suburbano Clube (de Madureira) e o Velo Esportivo de Ramos. Na década de 1930, várias sociedades semelhantes foram fundadas nos bairros da região. Segundo Melo e Santos Junior (2020): “Juntamente com o futebol, o esporte do pedal parece ter sido, naquele momento, por suas características, o que mais percorreu a cidade de ponta a ponta, criando uma certa capilaridade e estímulo para a prática” (p. 13).

Para entender a criação do Realengo Pedal, deve-se ter em conta as mudanças que houve no bairro. De um lado, se fortaleceu uma sociedade civil que em definitivo assumiu a liderança das reivindicações locais, semelhante ao que ocorria em outras regiões do subúrbio. De outro lado, não se reduziu a importância das unidades do Exército. Os militares de mais alta patente seguiam integrando a elite local.

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Vista Aérea de Realengo/ Escola de Aeronáutica Militar, 1939.
Acervo: Museu Aeroespacial.
Disponível em: < http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/7352&gt;.

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Nesse cenário, houve uma dinamização da vida social. Deve-se fazer uma referência à abertura, em 1938, do Cine Theatro Realengo, uma grande sala que acolhia mais de 1000 pessoas. Por seu estilo arquitetônico, pelas fitas exibidas, pela movimentação causada ao seu redor, foi mais um dos indicadores da circulação de ideias de modernidade no bairro.

O ciclismo era um esporte que mobilizava noções interessantes à elite local. Desde o século XIX, era encarado como sinal de civilização e progresso, exponenciando símbolos que se forjaram ao redor do uso das bicicletas: velocidade, mobilidade, liberdade.

Melo e Santos Junior (2020) sugerem que, naqueles anos 1930, a bicicleta “ainda era um produto caro, mas já bem mais barato do que fora no século XIX, quando era totalmente importada. Na primeira metade do XX, já era montada no Brasil e a indústria nacional produzia algumas peças” (p. 14). De toda maneira, mesmo que começando a se popularizar, o ciclismo ainda se tratava de uma modalidade majoritariamente praticada por gente de estratos médios ou altos, o que seria também um fator de diferenciação num bairro em que o popular futebol se espraiava.

Um primeiro indício da prática do ciclismo no bairro foi identificado em 1930, o anúncio de uma competição promovida pelo Cycle Carioca Club de Realengo. A notícia dá a crer que era um evento muito bem organizado. Todavia, não conseguimos mais informações sobre ele, bem como sobre a sociedade promotora.

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Estação de Realengo, 1903.
Revista da Semana, 15 nov. 1903.
Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_mangaratiba/fotos/realengo9061.jpg&gt;.

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Ainda se pode ver sua participação em algumas provas, como uma promovida pelo Velo Esportivo de Ramos, em 1931, mas a agremiação parece mesmo ter sido de curta duração. De toda forma, deixou latente a ideia de que, em Realengo, havia interessados no ciclismo.

Esse interesse ficou claro alguns anos depois, em dezembro de 1937, quando uma sociedade carnavalesca, Caprichosos de Realengo, realizou o “Dia Esportivo de Realengo”. Atraíram muitos interessados as provas organizadas pela Liga Carioca de Ciclismo e Motociclismo por meio de seu diretor Oswaldo Moreira Guimarães, funcionário civil da Escola Militar, “um dos grandes animadores do esporte do pedal nos subúrbios”, promotor de muitas competições importantes do ciclismo carioca.

Um cronista celebrou o evento como uma ocasião para estimular a prática e revelar valores da região, uma “oportunidade para mostrarem a sua fibra”. Em 1938, fundou-se o Realengo Pedal Clube, com sede na Estrada Real de Santa Cruz. Logo estava filiado à Liga Carioca e participando das provas pela entidade promovidas. Em maio, obteve inclusive bons resultados em competição realizada no Campo de São Cristóvão.

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Dirigível no campo de tiro de Realengo, 1894.
Acervo: Musée de L’Air Le Bourget.
Disponível em: < http://historia-de-realengo.blogspot.com/2009/11/historias-perdidas-no-tempo-pioneiros.html&gt;.

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No mesmo ano, a agremiação promoveu pela primeira vez o Circuito Ciclístico de Realengo, em homenagem e contando com apoio do comércio da região. Essa foi uma ocorrência comum em muitos bairros do subúrbio, o incentivo do setor a ações que contribuíssem para o desenvolvimento local, para o forjar de uma ideia de que na área também se estruturavam iniciativas que expressavam adesão a ideais de civilização e progresso.

Um dos ciclistas da agremiação, João Athayde, logo se destacou nas competições, tornando-se mais famoso quando se tornou detentor de um dos primeiros recordes aferidos da modalidade no Brasil. Sua ascensão foi meteórica. Meses antes disputara uma prova para iniciantes dos subúrbios, num momento em que o Realengo Pedal começou a se destacar por inscrever grande número de competidores.

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Equipe do Realengo Pedal Clube.
Esporte Ilustrado, 28 dez. 1938, p. 28.

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Quem eram esses ciclistas mais usuais? Já citamos o vencedor João Carneiro Athayde, funcionário do Ministério da Agricultura. Abel Lopes Garcia foi um costumeiro competidor, chegando a obter bons resultados em muitas pelejas; nada conseguimos saber sua vinculação laboral, somente que era morador de Realengo. O mesmo pode-se dizer de Acyr Gevarzoni, Alceu de Oliveira Souza, José Ribeiro da Silva (atleta negro que depois se transferiu para o Ciclo Suburbano) e Francisco Gomes Bezerra.

A falta de outras referências que não as esportivas nos dá a noção de que se tratava de “gente comum”, isso é, trabalhadores de estrato médio que se dedicavam ao esporte em seu tempo disponível. A propósito, também não localizamos muitas informações sobre a diretoria da agremiação. O único mais conhecido era José Reny de Araujo, antigo ciclista, dirigente e organizador de provas.

No ano de fundação, o clube participou da principal prova do ciclismo fluminense à ocasião, o Circuito do Rio de Janeiro, já na sua sexta edição. Entre os 13 clubes que tomaram parte na peleja, foi um dos cinco que mais inscreveu atletas, entre os quais o vencedor, o citado João Athayde.

Nessa edição, se explicitou uma disputa que vinha se delineando nos anos anteriores em função do espraiamento do ciclismo pela cidade:

Há um detalhe interessante que o público desconhece e que se torna necessário esclarecer. Existe uma rivalidade esportiva entre os ciclistas da cidade e os suburbanos, e nunca houve uma oportunidade para um confronto de forças como o que agora se oferece.

Percebe-se no discurso a oposição entre a “cidade” e o “subúrbio”, como se esse não fizesse parte do primeiro. Deve-se considerar que o jornal A Noite, promotor da competição, estimulava essa rivalidade para chamar a atenção do público, mas, na verdade, ela vinha mesmo se acentuando em função dos bons resultados obtidos por ciclistas do Ciclo Suburbano (MELO, SANTOS JUNIOR, 2020). Um cronista chegou a comentar que “sabido (…) é que os subúrbios têm sido um verdadeiro celeiro de bons corredores”.

Na ocasião do VI Circuito do Rio de Janeiro, outro ciclista do subúrbio se destacou, um dos que se tornaria dos mais vitoriosos de seu tempo, Lavoura (Antonio Teixeira da Fonseca), da União Ciclística de Campo Grande. Essas conquistas eram muito valorizadas pelas lideranças suburbanas, mobilizadas como indicador dos avanços civilizacionais da região.

Em 1940, ainda estava ativo o Realengo Pedal Clube. Participou de competições, em algumas obtendo bons resultados, e promoveu sua prova anual, parte do calendário ciclístico da Liga. Marcou presença até mesmo na atividade de encerramento da temporada. No ano seguinte, contudo, já não encontramos mais notícias sobre a agremiação.

Não conseguimos saber os motivos para seu fim. Identificamos que alguns ciclistas se transferiram para a União Ciclística de Campo Grande, entre os quais João Athayde, que seguiu obtendo bons resultados. De toda forma, ainda que breve, foi marcante a trajetória do Realengo Pedal Clube, expressão das mudanças e particularidades daquele bairro da zona suburbana.

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* Referência

MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. Faces da modernidade: a experiência do Ciclo Suburbano Clube (Madureira/Rio de Janeiro – décadas de 1920-1960). Revista Tempo e Argumento, 12(30), e0202, 2020. https://doi.org/10.5965/2175180312302020e0202


Cultura, lazer e esportes nos sertões do Brasil

08/03/2021

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Em vários aspectos, a vida social do Brasil é assimétrica e desigual. Pesquisas sobre a cultura ou a história do país tendem apenas a refletir esse estado de coisas, concentrando-se nas regiões mais populosas ou economicamente desenvolvidas. Em estudos sobre a cultura, o lazer ou os esportes, tais disparidades parecem ainda mais acentuadas. Apesar de algumas evoluções nos últimos anos, quando pesquisas sobre esses assuntos foram realizadas no Norte, no Nordeste ou no Centro-Oeste do país, regra geral, a bibliografia brasileira a esses respeitos ainda se encontra bastante confinada aos estreitos limites geográficos das regiões Sul e Sudeste – sobretudo do Sudeste. Entre um feixe difuso de razões, enquadramentos teóricos específicos podem ser apontados como uma das causas de tal situação.

Outra característica das pesquisas sobre a cultura é a usual segregação de diferentes abordagens disciplinares. Historiadores e antropólogos, por exemplo, têm sido bastante dinâmicos na realização de pesquisas sobre o lazer e os esportes no Brasil. No entanto, ambos os grupos permanecem consideravelmente afastados uns dos outros. Os encontros, embora existam, ainda são raros e os diálogos pouco frequentes, o que é uma tremenda perda de oportunidades heurísticas para todos os interessados no estudo desses assuntos. Existem vários achados de antropólogos que podem ser assimilados, com muito proveito, por historiadores, bem como o contrário. Não por acaso, é mais ou menos antiga e frutífera a relação entre História e Antropologia.

Uma terceira característica de pesquisas sobre esses assuntos é a relativa desarticulação temática, que agora parecem constituir campos de estudo quase totalmente impenetráveis. Em oposição a essa tendência, deveríamos admitir que existem problemas que podem ser melhor compreendidos quando encarados de maneira mais ampla e geral. A organização da cultura, do lazer e do esporte é um deles. Em última instância, a adequada compreensão de cada um desses objetos só pode acontecer contextualizando-os à luz uns dos outros. Nenhum deles é uma variável independente, sem conexões de causalidade com outros aspectos da vida social, ou mesmo com outras esferas deste universo semântico. O aumento do tempo livre desempenhou um papel tão importante sobre as formas de fruição e consumo de arte e cultura, quanto os novos formatos de arte e cultura influenciaram na modulação do lazer.

Esta forma de abordagem, mais integradora e multidisciplinar, fazia parte do horizonte teórico das primeiras pesquisas sistemáticas sobre o lazer e os esportes, em meados das décadas de 1970. Com o tempo, porém, essa agenda se perdeu em favor de uma crescente especialização. Estudiosos do esporte, do turismo, do teatro ou do cinema, foram se distinguindo cada vez mais uns dos outros, até formarem comunidades acadêmicas autônomas; espécie de guetos universitários com suas próprias associações, congressos e periódicos. Por vezes, pode-se até mesmo notar certa hostilidade e preconceito recíproco entre alguns desses especialistas.

Além de eventualmente concorrerem entre si no mercado acadêmico de distribuição de recursos e prestígio, diferentes especialistas nesses assuntos podem também alimentar visões epistêmicas e conceituais divergentes a respeito de seus respectivos objetos de pesquisa, por mais semelhantes que sejam na prática. Estudiosos da cultura, por exemplo, podem encarar com desdém a ideia de tratar o assunto como mais uma forma contemporânea de entretenimento, tal como geralmente o fazem os estudiosos do lazer. A alegação usual é de que uma abordagem assim banalizaria a grandeza espiritual das artes, reduzindo-a a um passatempo qualquer. Assim, edifica-se um muro e confina-se um enorme universo aos limites puramente estéticos das artes ou dos pontos de vista dos artistas e produtores culturais, sem muitas considerações pelo público que consome espetáculos e obras de arte como uma forma de diversão. Estudiosos do esporte podem também enfatizar particularidades desse fenômeno com relação a outras formas culturais de lazer, alimentando o típico narcisismo disciplinar das pequenas diferenças.

Em outros termos, Pablo Alabarces, decano da antropologia latino-americana dos esportes, manifestou preocupações semelhantes com a crescente especialização nesse campo de estudos. Segundo avaliação dele, realizada há mais de 10 anos, mas que parecem ditas hoje, antropólogos do esporte pareciam afastar-se cada vez mais dos antropólogos, em geral, criando fóruns especializados, o que apesar de permitir certo aprofundamento nesta temática específica, também encerraria o risco de afastar importantes questões antropológicas mais amplas do horizonte desses especialistas. Historiadores do esporte e estudiosos do lazer também têm chamado atenção para a importância desses campos de pesquisa não perderem de vista questões sociais mais amplas. Talvez seja de fato a hora de animar ou reanimar tentativas para olhares mais abrangentes. A compreensão de práticas, atividades ou modalidades isoladas pode ganhar novos horizontes quando vistas de uma perspectiva integrada.

Contra o pano de fundo constituído por esses três elementos gerais, recentemente, convidei um grupo de estudiosos do lazer e dos esportes para apresentarem seus trabalhos conjuntamente. O resultado está reunido no livro Depois da Avenida Central: cultura, lazer e esportes nos sertões do Brasil (faça o download na íntegra abaixo).

O livro reúne oito estudos que analisam múltiplas dimensões da cultura, do lazer e dos esportes em diferentes regiões do Brasil: as recreações populares de um bairro operário do subúrbio do Rio de Janeiro, os esportes e outras diversões em diferentes cidades do Acre, o mercado do entretenimento em uma cidade do interior de Minas Gerais, a dinâmica histórica do futebol no interior da Bahia, a articulação de identidades através da participação em uma torcida organizada de um clube de futebol profissional do Ceará, bem como partidas e campeonatos de futebol amador em São Paulo, em Manaus e na região da bacia do rio São Francisco – nas cidades de Juazeiro e Petrolina, na divisa entre Bahia e Pernambuco.

Alternando abordagens históricas e antropológicas, os capítulos, em conjunto, oferecem uma visão panorâmica sobre a diversidade de circunstâncias que podem envolver o modo como se organizaram e se organizam a cultura, o lazer e os esportes no Brasil. Em comum, o interesse em ampliar a visão sobre estes fenômenos, não apenas alargando o escopo geográfico e oferecendo estudos sobre regiões ainda relativamente pouco explorados pela bibliografia especializada nesses assuntos, mas também e talvez sobretudo, desafiando certos lugares comuns que marcam parte da reflexão sobre a cultura, o lazer e os esportes no Brasil. Ao contrário de certas prescrições usuais ao imaginário nacional sobre a vida no “interior” do país, isto é, sobre a vida fora das capitais ou das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, os estudos aqui reunidos revelam que os sertões, que são muitos e estão em todos os lugares, não são, nem nunca foram, desprovidos de lazer e de cultura. De certo modo, e esta é uma tese implícita ou explícita que o leitor encontrará no livro, o Brasil é um grande sertão, que começa precisamente onde termina a Avenida Central.


Ah! A Copa no Brasil!

01/03/2021

Resenha de The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil [i]

(Por Jorge Knijnik, Balgowlah Heights, Australia, Fair Play Publishing, 2018, 164 pp. (paperback), ISBN: 978-0-6481333-1-5)

por Tiago Fernandes Maranhão [ii]

Jorge Knijnik escreveu uma compilação interessante de crônicas analíticas sobre a Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil. A capa de The World Cup Chronicles mostra uma jovem negra controlando uma bola de futebol no ombro e tendo uma favela brasileira ao fundo. Prepara o público leitor para as contradições enfrentadas pelo país-sede daquele megaevento esportivo. O livro tem 28 crônicas e é dividido em três partes, oferecendo uma perspectiva histórica importante sobre as confluências de ‘imaginar, viver’ e compreender o ‘legado’ da Copa do Mundo de 2014. As crônicas de Knijnik percorrem um território familiar, mas trazem intencionalmente o que os estudiosos da história e das ciências sociais apontam como aspectos interdisciplinares de segregação, preconceito e participação cidadã. O livro é particularmente bom em cruzar os aspectos políticos da abordagem branqueadora e elitista do mais famoso campeonato internacional masculino quadrienal com a exclusão social e racial que permeia a sociedade brasileira.

O interesse provocador na análise das crônicas é notável. Não só na forma, mas também no conteúdo, reafirmando a qualidade indiscutível do livro. Knijnik faz um trabalho admirável ao analisar o quadro geral. O compromisso do autor com a coragem de não ser monótono não perde de vista nossas preocupações diárias com os grupos sub-representados, vulneráveis ​​e marginalizados. Um bom exemplo é a forma como Knijnik nos aproxima do caminho da realidade sem negar suas muitas contradições e complexidades. Por isso, a palavra trilha é apropriada, pois nos lembra dos perigos e incertezas ao analisar os fatos sociais. The World Cup Chronicles vislumbram um megaevento que segue esse caminho mais amplo de polêmicas que costuma ser uma realidade no esporte, analisando os aspectos que transformaram figuras como Pelé e Ronaldo ‘de orgulho nacional em anti-heróis’ (p. 28); bem como o tratamento conflituoso e oposto em favor da superestrela do futebol Marta, ou canalizado contra a presidente Dilma em uma sociedade ainda machista (p. 113; p. 142).

Outro ponto positivo deste livro é a análise de Knijnik – que permeia a primeira e a segunda partes do livro – de como o governo brasileiro vendeu a ideia de que os grandes eventos, especificamente a Copa do Mundo, seriam uma forma de reafirmar o desenvolvimento nacional e mostrar à comunidade internacional que O Brasil estava preparado para ser a próxima superpotência mundial. The World Cup Chronicles mostram que a proposta megalomaníaca de construir ou reformar 12 estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014 foi justificada pelo interesse da FIFA, de políticos brasileiros e de empreiteiros que buscavam lucrar com a corrupção de projetos de construção caros. Knijnik descreve como os interesses políticos e financeiros ditaram os termos diante das reivindicações da população brasileira por melhores condições de vida e justiça social. Os manifestantes se tornaram, nas palavras de Knijnik, ‘uma consciência coletiva’ inundando as ruas brasileiras como uma demonstração pública de desaprovação aos bilhões de dólares gastos em um torneio que forçou milhares de ‘brasileiros vulneráveis ​​a se mudarem de suas casas em nome dessa festa gigantesca’. p. 72)

Apesar do desastroso 7 x 1 na semifinal da competição, Knijnik destaca que houve “consequências muito piores” que os brasileiros tiveram de enfrentar após a Copa (p. 61). O Brasil está agora em uma situação econômica pior, experimentando o caos político e ainda está pagando pelos ‘elefantes brancos’ que o país construiu, como resultado do desperdício de dinheiro público e da ineficiência dos projetos de infraestrutura (p. 138). Knijnik fornece na terceira parte de seu livro um manancial de informações sobre como o Brasil convive com ‘o legado’ da Copa de 2014, ainda investigando a corrupção que favoreceu quem soube manipular o futebol como paixão nacional e capitalizar os laços sentimentais que uniam  a população brasileira a sua seleção. O grande destaque que The World Cup Chronicles traz é a reação popular contra a ilusão de que grandes eventos esportivos tentam vender e contra a manipulação do mito do ‘país do futebol’.

Knijnik nos guia pelas trilhas da complexa realidade social brasileira e sua intrincada relação com o futebol. A riqueza temática e a distribuição dos temas abordados no livro acompanham o prazer de comunicar o conhecimento. É evidente a preocupação do autor em aprofundar as mudanças e permanências da relação política e social que os brasileiros historicamente têm com o futebol. The World Cup Chronicles mostram a complexidade efetiva de um evento esportivo histórico e suas múltiplas possibilidades investigativas. A relação completamente entrelaçada entre o mundo dos negócios esportivos, a política, cultura e relações de poder – políticas ou simbólicas – está no cerne da narrativa de The World Cup Chronicles. As trilhas traçadas no livro explicam claramente a complexidade das lutas, das disputas e da vida lúdica dos torcedores durante a Copa, coexistindo com a morte de certos mitos fundadores do futebol brasileiro. A narrativa de Knijnik também traz, para um público mais amplo, o submundo frequentemente negligenciado da vida cotidiana brasileira, nos lembrando que os tempos históricos não são separados.

A extensa variedade de temas propostos por The World Cup Chronicles pode servir de ponto de partida para quem deseja desenvolver outras análises sobre os aspectos políticos, sociais e culturais do futebol no Brasil. Acessível, pesquisado e perspicaz, The World Cup Chronicles: 31 Days That Rocked Brazil mostra claramente a existência de diferentes formas de pensar e sentir sobre a Copa do Mundo de 2014, que negam a visão romântica de uma sociedade brasileira homogênea na forma de viver o evento. As Crônicas da Copa finalmente dão voz, com equilíbrio, à multiplicidade de visões e formas pelas quais esporte, política e cidadania se cruzam em um período de turbulência no Brasil. Apesar de olhar para o presente da Copa do Mundo de 2014, Knijnik mostra, de forma elegante, as dificuldades e conexões do passado político e social do futebol.


[i] Este texto foi publicado originalmente por Tiago Fernandes Maranhão (2021) no The International Journal of the History of Sport, DOI: 10.1080/09523367.2020.1867988

[ii] Tougaloo College, Jackson, MS maranhaotj@hotmail.com