Meios de Comunicação e Esporte: Grandes Amigos

23/10/2017

A relação entre as empresas de mídia e o esporte é longa e mutuamente proveitosa. Meios de comunicação oferecem visibilidade aos atores do mundo desportivo, permitindo mais fluxo de bilheterias e melhores contratos de publicidade, enquanto os meios de comunicação aumentam a sua circulação, devido à atratividade do conteúdo esportivo junto às audiências. A imprensa teve um papel fundamental para a independência do esporte e o seu processo de profissionalização. Mas as fronteiras entre ambos universos são fluídas e muito próxima foi a relação de empresas de mídia com o universo desportivo.

Em França, o caso mais relevante de empresas de mídia que passaram a exercer funções que seriam de organizações esportivas é o que envolve o jornal L’Équipe e o Tour de France. A prova ciclística mais famosa do mundo em sua origem foi criada e organizada pelo jornal L’Auto, em 1903. A rivalidade entre os jornais L’Auto e Le Vélo foi além da produção jornalística, chegando a organização de atividades esportivas. Limitadas a provas de dimensões menores, como Paris-Roubaix, Bordeaux-Paris, Paris-Brest, a criação do Tour de France – a primeira prova por etapas no território francês – foi pensada para assegurar um espetáculo esportivo único e aumentar a venda de jornais: desde o verão de 1903, durante o período da competição o L’Auto teve sucesso, triplicando a venda dos jornais e diminuindo os números da concorrência.

tour

Suspenso durante a segunda guerra mundial, o Tour de France passou a ser desejado pela imprensa de esquerda por conta do seu poder como vetor publicitário. Assim, três jornais (Sports, o semanário Miroir Sprint e diário generalista Ce Soir) criaram conjuntamente, a partir de um modelo semelhante, a « Ronde de France », em 1946. Contudo, em 1947, o Estado atribuiu ao Parisien Libéré e ao L’Équipe a responsabilidade de retomar o Tour de France. As condições da nomeação foram eminentemente políticas: Emilien Amaury, proprietário do Parisien Libéré, era muito próximo ao partido gaulista. Em 1965, ele aumenta o seu património comprando oficialmente o jornal L’Équipe, de modo que o grupo Amaury detém o quotidiano esportivo e o Tour de France.

A retomada da competição em 1947 foi fundamental para estruturação interna e a perenidade do jornal. Ela permitiu que fossem reestabelecidas e reforçadas as ligações com os setores da indústria ciclística e patrocinadores. Os retornos publicitários sobem, tal como as vendas que têm no mês de julho, quando se realiza a prova, o seu maior volume. O modelo económico de organização dos eventos tinha um objetivo claro: aumentar a venda dos jornais. O grupo Amaury também é hoje responsável pelo Rally Dakar.

A competição de clubes mais importante no universo do futebol também foi criada a partir do jornal L’Équipe. O primeiro congresso da UEFA só aconteceu em 2 de Março de 1955 e a maior parte dos membros fundadores estavam preocupados em criar um torneio continental de seleções, deixando espaço para a iniciativa do jornal francês. A competição idealizada pelo L’Équipe não obrigava a que os participantes fossem campeões nacionais, funcionava sim por convites aos clubes que geravam maior interesse junto dos adeptos. Representantes de 16 clubes foram convidados para uma reunião que teve lugar a 2 e 3 de Abril de 1955 e as regras do L’Équipe foram aprovadas por unanimidade. A UEFA reagiu ao contactar a FIFA, e o Comité Executivo desta, numa reunião em Londres a 8 de Maio de 1955, autorizou a realização da nova competição de clubes com a condição de ser organizada pela UEFA e que as federações nacionais dessem o consentimento à participação dos respectivos clubes. O Comité Executivo da UEFA aceitou estas premissas exigidas pela FIFA e concordou em levar a cabo a prova num encontro realizado a 21 de Junho de 1955.

A iniciativa do L’Équipe era primordialmente comercial. Tradicionalmente, o calendário esportivo concentra os seus eventos no final de semana, por isso as edições dos jornais desses dias, com as informações e prognósticos para os jogos apresentam sucesso, assim como a de segunda-feira, pois trás os resultados. Contudo, os jornais esportivos diários sofrem de um mal: a distorção de vendas – hipertrofia no final de semana e segundas, e um vazio no meio da semana. Assim, para combater esse desequilíbrio, em 1955, os responsáveis do jornal L’Équipe pensaram numa competição que preencheria a agenda esportiva no meio da semana, a Taça da Europa, que posteriormente se tornaria a Liga dos Campeões. Dois anos mais tarde, a mesma lógica foi aplicada para a criação da Taça da Europa de Basquete e, em 1967, lançaram a Copa do Mundo de Ski, para compensar a falta de informações esportivas no inverno.

Essas estratégias válidas para os impressos também é colocada em prática por canais de televisão. Ao longo dos anos, algumas empresas criaram competições esportivas, das quais se destacam os Good Will Games, lançados pela CNN, em 1986 e os X Games de verão e inverno, criados pela ESPN (ABC-Disney), em 1995. No Brasil também encontramos exemplos: a Rede Globo criou os Jogos de Verão para alavancar as audiências do domingo de manhã durante o verão, principalmente quando não havia torneios de futebol a serem disputados.

Contudo, hoje em dia, a criação de novas competições se dá mais facilmente em modalidades menos populares ou tradicionais, como os esportes radicais por exemplo. No caso do futebol, existem dois grandes obstáculos: a tutela e aprovação de organizações como a FIFA e a UEFA; e a necessidade de um investimento emocional e simbólico que tem ligação com a tradição e a história das competições que acabam por ser determinantes para a sua popularidade – haja vista o caso da Liga dos Campeões e a dificuldade em criar uma superliga europeia de futebol.

Isso não impediu que os conglomerados de mídia incluíssem organizações esportivas a sua lista de aquisições. Dentre as suas motivações estavam a tentativa de conhecer mais a fundo o espetáculo esportivo, conseguir melhores condições na hora de negociar os crescentes valores dos contratos de direitos de transmissão e tentar alguma forma de sinergia e verticalização da produção dado que o esporte foi se tornando mais próximo dos espetáculos televisivos.

As particularidades da economia do esporte acabaram por se mostrar um grande desafio para esses conglomerados, que aos poucos foram abandonando as suas participações na propriedade de organizações desportivas. Por um lado, a necessidade de conseguir vitórias – e, portanto, as receitas de equipes é revertida na aquisição de talentos – diminui a margem de lucro dessas organizações e, consequentemente, afasta o interesse de conglomerados; e por outro lado, a aquisição dos direitos de transmissão e o poder da televisão sobre a organização dos eventos desportivos já se mostraram suficiente para gerir o espetáculo da maneira que for mais conveniente para as empresas de mídia.

 

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Kosovo e a Busca por Reconhecimento Internacional: a Vez do Futebol

09/10/2017

por Maurício Drumond

 

Desde sua declaração unilateral de independência da Sérvia, em 17 de fevereiro de 2008, o Kosovo vem travando uma árdua batalha diplomática em busca de reconhecimento internacional. De acordo com o Ministério de Relações Exteriores da República do Kosovo, 111 dos 193 países filiados à ONU reconhecem a independência kosovar, incluindo os Estado Unidos, a maior parte dos países da União Europeia (23 dos 28 Estados) e da OTAN (25 de 29 Estados). Da mesma forma, algumas organizações intergovernamentais financeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), reconhecem a soberania do país e negociam diretamente com suas instituições governamentais. Além disso, o Tribunal de Justiça Internacional declarou, em julho 2010, que o processo de independência não contrariou o direito internacional.

Tribunal Internacional

No entanto, o reconhecimento internacional do Kosovo ainda enfrenta forte obstáculo de países que se opõem à independência, capitaneados pela Sérvia. Desses, Rússia e China são as maiores pedras nos sapatos kosovares, uma vez que ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, e sem sua aprovação o país não poderá ser aceito como membro da Organização. Além desses, a Espanha também se coloca como forte opositora na esfera da União Europeia, estando ela também assombrada pelo fantasma de uma declaração de independência unilateral da Catalunha.

Nesse sentido, o campo esportivo tem sido uma importante arena na luta kosovar. Com o país inicialmente fora das competições internacionais em seu pós independência, atletas como Majlinda Kelmendi, estrela do judô internacional, disputaram torneios sob o estandarte albanês – como nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres –, sendo a Albânia uma nação com fortes laços étnicos e históricos com Kosovo. Gradualmente, a partir de 2012, o país foi sendo aceito em federações esportivas internacionais, e em 2014 foi formalmente aceito como membro do Comitê Olímpico Internacional, o que permitiu que seus atletas participassem dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, sob a bandeira de seu país, e levou à conquista da primeira medalha de ouro do Kosovo, na categoria de -52 kg feminino, com Majlinda Kelmendi.

bandeiras

Publicação do 1º Ministro de Kosovo, Isa Mustafa, em rede social.

A inclusão nos ranques do COI não veio sem embates. Vlade Divac, ex-jogador da NBA e atual presidente do Comitê Olímpico da Sérvia, rebateu a entrada afirmando:

Nós fizemos tudo que podíamos, por cinco anos conseguimos bloquear  sua aceitação e proteger a Carta Olímpica. (…) O fato é que essas decisões abrem um precedente, uma vez que desde 1996, quando se mudou a Carta Olímpica (i.e. o estatuto do COI), nenhum país é admitido ao COI antes de ganhar um assento nas Nações Unidas. Não estamos satisfeitos com esta decisão, mas como um esporte, e não uma organização política, como parte do Movimento Olímpico (…).

(Дивац: Урадили смо све што смо могли [Divac: Nós fizemos tudo o que podíamos]. Политика [Política], 12 dez. 2014. Texto traduzido com o auxílio de tradutor eletrônico)

A afirmação de Divac deixa claro: a Sérvia buscou evitar o quanto pode a inclusão do Kosovo nas organizações esportivas internacionais. E sua entrada no COI abriria muitas portas.

No futebol, o reconhecimento do Kosovo pela FIFA ocorreu gradualmente, até sua admissão oficial na entidade em 2016. De acordo com circular da entidade datado de 6 de fevereiro de 2013, clubes ligados a países membros da Fifa poderiam jogar com outros associados à Federação de Kosovo em amistosos, ressaltando que “os jogos devem ser realizados sem a utilização de símbolos nacionais (bandeiras, hinos nacionais, etc.)” e que essa autorização era valida apenas para “jovens, amadores, mulheres e futebol de clubes”, deixando seleções profissionais masculinas de fora. Além disso, jogos no território de Kosovo seriam permitidos apenas com a autorização prévia da Associação de Futebol da Sérvia. Kosovo ganhava espaço, mas ainda não conseguia suplantar a oposição da Sérvia.

doc fifa

O primeiro jogo da seleção masculina principal do Kosovo contra um selecionado associado à Fifa ocorreu em março de 2014, em um empate sem gols contra o Haiti no Estádio Olímpico Adem Jashari, no Kosovo. Outro desafio que se colocou diante do Kosovo nesse momento foi formar sua seleção. Diversos atletas kosovares já jogavam por outras seleções e alguns se dispuseram a vestir o uniforme de seu país, vindo de seleções como Albânia, Finlândia, Noruega e Suíça. Apesar do empate sem gols, a mera realização do jogo foi vista como uma vitória, e ajudou a pavimentar o caminho para conquistas maiores.

Em 2016, Kosovo foi aceito como membro da UEFA e, no 66º Congresso da FIFA, realizado em maio na Cidade do México, Kosovo foi aceito como 210º país associado da Federação, juntamente com Gibraltar (211º).  Nesse mesmo congresso, foi determinado que Kosovo participaria das eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia de 2018, possibilitando um novo patamar de participação e visibilidade no cenário esportivo internacional.

A própria perspectiva de participar de uma competição como a Copa do Mundo em solo russo com uniforme e insígnia kosovar já era em si uma vitória apenas recentemente conquistada. Em 2014, quando Kosovo já era reconhecido como membro pela Federação internacional de Judô (IJF), Majlinda Kelmendi precisou disputar o mundial da modalidade na cidade russa de Cheliabinsk com as iniciais da federação (IJF) em seu quimono. Devido ao não reconhecimento do país pelo governo russo, a bandeira e os símbolos nacionais kosovares não podiam ser exibidos na competição. Aos poucos o esporte vai abrindo espaço para a maior representação nacional do país. Em 2016, a cidade russa de Kazan sediou o campeonato europeu de judô. Depois de longa negociação, os atletas de Kosovo já puderam participar com seus símbolos, e Majlinda Kelmendi conquistou novamente o ouro. No entanto, a possibilidade de fazê-lo em um torneio com a visibilidade internacional de uma Copa do Mundo seria um sonho. Mas para isso, tão distante quanto um sonho, seria a classificação nessas eliminatórias.

soldados russos e bandeira do Kosovo

Soldados russos perante a bandeira do Kosovo no Campeonato Europeu de Judô, em 2016.

As Eliminatórias para a Copa de 2018

O sorteio dos grupos para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 já havia sido realizado quando da inclusão de Kosovo e Gibraltar nas fileiras da Fifa. A UEFA, entidade que controla as eliminatórias europeias, decidiu encaixar as duas seleções nos dois grupos que contavam com apenas cinco países (os outros possuem seis equipes). Tendo em vista evitar o confronto de Kosovo com Bósnia e Herzegovina, país com larga etnia sérvia que não reconhece Kosovo, e evitar possíveis conflitos, o novo país membro foi alocado no grupo I, juntamente com Croácia, Islândia, Ucrânia, Turquia e Finlândia.

Em termos políticos, o grupo favorecia a afirmação nacional do Kosovo. Dos cinco oponentes, apenas Ucrânia não reconhece sua independência. A Turquia foi um dos primeiros países a reconhecer Kosovo e foi um importante aliado da causa kosovar junto a países de maioria muçulmana. Os conflitos diplomáticos entre Turquia e Rússia também pesaram a favor de Kosovo, uma vez que a Rússia é o principal aliado dos sérvios em sua campanha contra o reconhecimento internacional do Kosovo. A croácia possui uma rixa histórica com a Sérvia, tendo sido o primeiro país a se desligar da antiga Iugoslávia após guerra civil. Já Finlândia e Islândia reconhecem a apoiam a causa kosovar.

O primeiro jogo foi contra a seleção da Finlândia. Novamente, a escalação do selecionado foi um grande problema a ser enfrentado. Jogadores nascidos em Kosovo que já tinham participado de outras seleções ainda não tinham sido liberados pela Fifa para disputar o jogo, e a decisão da Fifa sairia apenas horas antes do primeiro jogo. OS jogadores que desejassem jogar por Kosovo tiveram que fazer um pedido formal ao Comitê de Jogadores da Fifa, que não deixou seus critérios de aprovação muito claros. Sinan Bytyqi, meio campista do Manchester City, já havia sido liberado, mas seis jogadores ainda dependiam de parecer favorável: Samir Ujkani, Alban Meha, Herolind Shala, Milot Rashica, Amir Rrahmani and Valon Berisha. Todos os jogadores acabaram sendo liberados pela Fifa para jogar por Kosovo. Os cinco primeiro já haviam disputados jogos pela Albânia, e Berisha já jogara pela Noruega. O goleiro Samir Ujkani foi o capitão da equipe e Berisha marcou o primeiro gol oficial de Kosovo em uma competição da Fifa, no empate de 1 a 1.

kosovo e CroaciaO segundo jogo das eliminatórias foi contra a Croácia. O jogo foi realizado em clima de festa entre os torcedores, que se reuniram em Shkodër, cidade da Albânia que recebeu o confronto, uma vez que os estádios kosovares não atendem os requisitos da Uefa para a competição. O clima de amizade e união contra um inimigo em comum também deu espaço para cantos da torcida hostilizando sérvios. De acordo com o periódico Balkan Insight, gritos de “Morte aos Sérvios” eram entoados por torcedores de ambas as equipes fora do estádio – ambas as federações foram posteriormente multadas pela Fifa pelo incidente. Dentro de campo, a equipe croata não teve dificuldades e atropelou Kosovo por 6 a 0.

Na terceira rodada, Kosovo iria à Ucrânia jogar contra a seleção treinada por Andriy Shevchenko. Iria, pois devido ao não reconhecimento de Kosovo pela Ucrânia, a Federação Ucraniana decidiu realizar o jogo em Cracóvia, na Polônia. Temendo conflitos, a polícia polonesa permitiu que apenas uma pequena parcela da arquibancada fosse aberta ao público, fazendo com que apenas algumas centenas de torcedores vissem ao vivo a vitória da Ucrânia por 3 a 0. O jogo transcorreu sem maiores problemas, com apenas alguns cantos de “Putin, Putin” entoado pelos kosovares como provocação aos ucranianos.

Nas rodadas seguintes, Kosovo foi à Turquia, recebeu a Islândia e a Turquia (na Albânia), foi à Zagreb jogar com a Croácia, recebeu a Finlândia e a Ucrânia, perdendo todos os confrontos. Na última rodada, realizada hoje (09 de outubro de 2017), Kosovo perdeu por 2 a 0 para a Islândia, em Reykjavík. Terminou as eliminatórias na última posição do Grupo I, com apenas um ponto ganho, em seu empate contra a Finlândia na primeira rodada. Marcou 3 gols e sofreu 24.

Mas a campanha de Kosovo está longe de ser vista como um fracasso. James Ker-Lindsay, especialista em política do Kosovo da London School of Economics, afirmou:

Na falta de reconhecimento por outros Estados, uma das chaves para legitimar o Kosovo é integrá-lo em organizações e eventos esportivos internacionais.

Alguns anos atrás, um diplomata disse que Belgrado iria finalmente aceitar o Kosovo como um Estado independente quando visse o Kosovo jogar futebol na Copa do Mundo – e eu acho que esse é um argumento válido. Ao tomar parte na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, o Kosovo está, na verdade, consolidando seu lugar no palco internacional. [1]

Para muitos, as eliminatórias já são consideradas a primeira fase da Copa do Mundo, especialmente aqueles que não possuem um forte histórico de participação no que chamam de “fase final” da competição. Dessa forma, o diplomata acima citado por Ker-Lindsay não está tão longe de quanto pensava. De certa maneira, Kosovo já está participando.

No entanto, ainda como em sua jornada por reconhecimento internacional, ainda há muitas batalhas a serem travadas até a participação kosovar em uma fase final de Copa do Mundo. A Eurocopa pode ser vista como um objetivo mais factível a médio prazo. Das atuais 55 equipes que disputam a classificação, 24 irão disputar a Euro 2020, um sonho mais próximo da realidade, ainda que permaneça apenas um sonho. Ao menos por enquanto.


A onipresença do general Jorge Rafael Videla na Copa da Argentina

02/10/2017

A presença ou interferência de autoridades políticas em grandes eventos esportivos é um tema recorrente na História Política dos esportes com foco no debate da utilização do esporte como meio de propaganda dos diferentes regimes políticos.. Diversos exemplos específicos como Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, ou mais genéricos como a importância atribuída por autoridades norte-americanas e soviéticas as disputas por medalhas olímpicas ao longo da “Guerra Fria” são emblemáticos dessa situação que envolve o campo esportivo com o domínio político.

O General Jorge Rafael Videla, líder da junta militar que assumiu o Estado argentino em 24 de março de 1976, foi  um dos principais atores políticos e grande idealizador do golpe que derrubou o governo de Isabelita Perón.

Desde o início do regime autoritário, Videla teria se destacado pela sua presença nos veículos de comunicação e por defender perante a opinião pública um discurso legalista e de manutenção da ordem pública, que encobria a violência do regime e tinha paradoxalmente uma retórica pacificadora.

Durante o mundial de 1978 a “roupagem” de legalidade era somada com a retórica ufanista da realização do evento e da campanha da seleção, contribuindo para uma representação do general como personalidade unificadora da Nação em diversos meios de comunicação como ,por exemplo, o Jornal Clarín.

A participação do ditador é destacada pelo jornal Clarín desde a abertura do torneio quando o general exerceu seu papel de chefe de estado, participando diretamente da inauguração oficial. O fato foi muito repercutido tanto na capa quanto nas páginas iniciais do jornal, as letras garrafais estampavam: “Habló Videla en el acto inaugural del Mundial”:

Pidó a Dios, nuestro señor, que este evento sea realmente una contribuicíon para afirmar la paz, esta paz que todos deseamos para todo el mundo y para todos los hombres del mundo afirmó ayer el presidente de la Nacíon y titular de la Junta Militar, teniente-general Jorge Rafael Videla, al inaugurar oficialmente el undécimo Campeonato Mundial de Fútbol en el remodelado y brillante estádio de River Plate. Sus palabras fueran coronadas por estupendos aplausos surgidos espontaneamente entre los 73.000 asistentes – entre los que hallaban numerosos grupos de extranjeros.

El teniente general Videla estuvo presente en el estádio de River juntamente con los otros integrantes de la Junta Militar, almirante Emílio Eduardo Massero y el brigadier General Orlando Ramón Agosti.

Acompaño la Junta Militar en la ocasíon un nutrido contingente de autoridades nacionales y del área deportiva, así como también personalidades mundiales y funcionários de la esfera diplomática. (CLARÍN, n. 11.585, 02 jun. 1978, p.2).

É possível perceber que, além do “apelo divino”, pacificador, existe um discurso integrador, e segundo o jornal Videla teria sido recepcionado “espontaneamente” pelo público presente, inclusive os estrangeiros.

A presença de autoridades e personalidades nacionais e internacionais caracteriza a dimensão da importância atribuída àquela celebração inaugural, bem como o papel simbólico exercido pelo general na “tradição inventada” que é a festa de abertura de um campeonato mundial de futebol.

Porém, a participação do general não se restringiu a protocolar aparição na festa inaugural. Videla esteve presente fisicamente em todas as partidas do selecionado argentino, não apenas nas arquibancadas, mas frequentando também os próprios vestiários da equipe de Menotti e até mesmo o da seleção peruana na polêmica goleada que classificou a seleção anfitriã para a final.

Videla esteve presente também em outras partidas em diferentes sedes, sempre acompanhado de grande comitiva. Na última rodada da primeira fase os membros da junta militar se dividiram, visitando cidades diferentes. Videla foi para Mendoza assistir Holanda x Escócia, o almirante Eduardo Massera esteve presente em Córdoba na partida disputada entre Peru x Irã e o representante da Aeronáutica, o brigadeiro Orlando Ramón Agosti, foi testemunha da classificação brasileira na vitória diante da Áustria por 1×0.

O mandatário argentino teria explicado a sua “onipresença” em partidas do torneio, principalmente nos jogos disputados pelo selecionado argentino, como uma necessidade de estar próximo do povo. A retórica nacionalista transcende o interesse pelo futebol que, segundo o próprio Videla, não era um assunto personalíssimo, mas elemento de interesse popular:

El teniente general Jorge Rafael Videla hizo un breve comentário acerca de su presencia en el estádio. Yo no soy hincha, no hey seguido el fútbol, no lo he vivido. Lo que me interesa de lo fútbol és lo que motiva la tribuna; todo lo que este deporte significa en el reverdecimiento que experimenta e país.  Lo importante de todo esto és lo que la prática del fútbol significa por por la transcendência que tiene para el pueblo, dije el jefe de Estado. (CLARÍN, n.11.599, 16 jun. 1978, p. 2).

Na partida disputada contra o Brasil na cidade de Rosário, novamente Videla esteve presente, acompanhado dos demais chefes da junta militar. Compartilhando a tribuna e os comentários com o brasileiro João Havelange, presidente da FIFA:

O fato de a junta militar assistir a partida disputada contra o Brasil ao lado de João Havelange pode ser interpretado como importante aliança política e espelha a importância de outra personalidade legitimadora do evento que apoiou incondicionalmente a realização da Copa na Argentina

Ademais, o fato de Videla não ser um apaixonado pelo futebol em si, considerando-se um neófito, novato, aprendiz nesse assunto, é significativo, pois corrobora com o valor simbólico atribuído tanto à realização do evento, quanto à participação da seleção nacional.

A “odisseia” do tenente-general e demais integrantes da junta militar pelas cidades e estádios argentinos demonstra a clarividência que o ditador tinha da possibilidade política de buscar associar a imagem do “Processo” ao campeonato mundial, à seleção nacional e, em última instância, ao povo.

E no esforço populista Videla estava quase sempre acompanhado de figuras simbólicas importantes para o torneio. Além do brasileiro João Havelange, Pelé, o diplomata norte-americano Henry Kissinger, o ditador boliviano Hugo Banzer entre outros estiveram presentes nas tribunas junto com o ditador argentino.

A vitória do selecionado argentino sobre os holandeses na final possibilitou o êxtase popular em um momento culminante na trajetória de Videla durante o torneio. Ao mandatário da nação coube a honra de entregar o troféu da Copa do Mundo para o capitão Daniel Passarela, fato devidamente registrado pelos articulistas do Clarín em entusiasmada reportagem intitulada “Cuando la Copa se sentió feliz”:

Cuando Daniel Alberto Passarela volvió a aparecer en cena enbcabezando la fila de compañeros, el estádio volvió a temblar. Lentamente, los jugadores, que ya vestían nuevas camisetas, avanzaron hacia el palco de honor. Subiron al estrado y se colocaron de frente a las autoridades. Cuando fué invitado a ascender el técnico César Luis Menotti, la ovacíon tomó, todavia mayor dimensíon.

El teniente General Videla con emocíon contenida, entregó la Copa de la Fifa a Daniel Passarela. Después de estrechar largamente la mano del capitán del equipo argentino hizo el gesto de la victoria y los saludó uno por uno. Tornandose hacía la enfervorizada muchedumbre que colmaba al estádio de River, Passarela levanto el preciado trofeo en señal de triunfo. (CLARÍN, SUPLEMENTO MUNDIAL, n.11.609, 26 jul. 1978, p. 6).

O momento especial da entrega da Copa foi o ápice da “onipresença” do tenente-general Jorge Rafael Videla nos estádios, o símbolo do triunfo e da integração nacional repesentada nas páginas do Clarín. A presença dos jogadores perfilados diante das autoridades políticas na tribuna de honra também pode ser interpretada como uma construção de uma imagem de união entre a seleção, o povo e o governante.

A tentativa de utilizar o campeonato mundial de futebol como símbolo maior da grandeza do povo e da nação argentina pode não ter se desdobrado em transformações estruturais na sociedade argentina, que ainda vivia à sombra da violência do regime, da crise econômica, e dos conflitos diplomáticos, relativos principalmente aos direitos humanos no país.

Porém, é possível perceber que seu mandatário se aproveitou do clima festivo, do apoio institucional e das representações geradas em veículos de comunicação, como o jornal Clarín, para se comportar como grande anfitrião e ícone de uma suposta união do país.

NUEVO HINCHA VIDELA comemorando o terceiro gol na final contra os holandeses

“NUEVO HINCHA VIDELA” comemorando o terceiro gol na final contra os holandeses. (EL GRÁFICO: 27/06/1978. N.3064)


A história do esporte gaúcho: um caso único

23/09/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A história do esporte do Rio Grande do Sul apresenta uma série de peculiaridades que o tornam caso singular no Brasil. O estado mais austral do país, devido a fatores diferenciados como as suas características geográficas, sua relação e integração com a fronteira nacional, além de uma formação étnica singular, o tornam distinto. É fácil visualizar diferentes percepções e uma relação única entre a tradição e a inovação. No extremo sul do Brasil o novo e o tradicional se fundem, se acomodam e se integram de maneira diferenciada em relação ao resto do país. Foi esta mescla que formou o esporte gaúcho, sempre aliando o moderno ao conservador e o caracterizando de maneira original.

Para exemplificarmos estas questões basta fazermos uma simples análise e uma comparação que pode parecer, inicialmente, um tanto desconexa: e relação entre as touradas e o turfe praticado em Porto Alegre no século XIX com a construção da Arena do Grêmio, inaugurada no final de 2012.

No caso das touradas, a relação dos circos de touros com os gaúchos era especial. Basta dizer que as mesmas companhias tauromachicas que se apresentavam por todo o Brasil e pelos países do Rio da Prata, também excursionavam por Porto Alegre e pelas principais cidades do estado. No entanto, para atrair o público sulista, atrações diferenciadas eram oferecidas. “Touritos” eram ofertados para as crianças brincarem, assim como autênticos “campeiros” disputavam a bravura com os artistas portugueses e espanhóis frente aos touros. Uma postura totalmente diferente do que acontecia, por exemplo, no Rio de Janeiro, capital imperial até 1889, onde as touradas eram vistas como praticas que beiravam a barbárie. No Rio Grande do Sul, nada mais era que um divertimento que trazia o cotidiano campeiro para a cidade e entretinha o povo urbano.

Da mesma forma, o turfe dividia opiniões. Se, por um lado, a prática do esporte inglês em substituição às consideradas “selvagens” carreiras de cancha reta exigia novos modos, técnicas, regras e ambientes que o tornasse cada vez mais próximo ao que era desenvolvido no velho continente, havia, também, muitos representantes que eram partidários, pelo menos em parte, às velhas disputas, obsoletas aos mais progressistas. Os cavalos puro sangue ingleses, representantes da mais refinada raça de acordo com os europeus, ficariam ainda melhores se cruzados com os equinos crioulos, diziam os periódicos porto alegrenses de grande circulação da época. Os jockeys britânicos possuíam eficientes técnicas, mas não se comparavam aos “centauros dos pampas”, como eram chamados os cavaleiros gaúchos. Cavalos mestiços, jockeys de bombacha e categorias diferenciadas fizeram do turfe gaúcho oitocentista outro caso especial. Enquanto em São Paulo e Rio de Janeiro, centros econômicos e políticos do Brasil, o discurso era favorável a cópia da prática britânica, nos hipódromos do Rio Grande do Sul os cavalos crioulos e seus ginetes eram celebrados.

Chegando ao século XXI, temos outro exemplo desta peculiar relação do Rio Grande do Sul com a tradição e a inovação nos esportes. Foi inaugurado no dia 8 de dezembro de 2012 um moderno estádio multiuso chamado de Arena do Grêmio em substituição ao defasado Estádio Olímpico Monumental que servia de casa ao time do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense desde 1954. Mesmo sendo um dos mais avançados e modernos palcos para o futebol do Brasil e seguindo as mais exigentes tendências mundiais, o clube decidiu não instalar cadeiras na parte inferior do setor norte, devido a uma reivindicação de parte da torcida. Esta gostaria de se manter fiel a antiga tradição de torcer em arquibancadas e não em cadeiras. Desta forma, a Arena do Grêmio se mostra como mais um exemplo onde o inovador se mescla com o tradicional no esporte do Rio Grande do Sul. Enquanto que vários modernos estádios são construídos pelo mundo, Porto Alegre o faz de maneira excêntrica, aliando tendências contemporâneas com as rústicas arquibancadas.

De fato, a história do esporte no Rio Grande do Sul é peculiar. Sendo nos circos de touros, nos hipódromos ou nos estádios de futebol, os gaúchos tem uma maneira diferenciada de tratar com as renovações. A modernidade gaúcha tem essas especificidades. Adaptações, negociações, acomodações fazem do esporte do Rio Grande do Sul um caso à parte. Se no Brasil e no mundo os esportes se popularizaram, ganharam no extremo sul do país a marca gaúcha.

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TRAUMAS COLETIVOS E O RACISMO NO ESPORTE

18/09/2017

            Em geral, o racismo no esporte é compreendido de forma equivocada. Na verdade, rotineiramente, salvo para as vítimas, as atitudes racistas vivenciadas no campo esportivo são encaradas como brincadeiras ou, como dizem alguns, são coisas do jogo que, quando proferidas, não tornam ninguém um racista.

            De forma objetiva, essa compreensão é bem eficiente para esvaziar o fenômeno e os seus desdobramentos legais e sociais. Nesse contexto, assistimos o crime de racismo se travestir em qualquer coisa bem distante da gravíssima violência que ele, efetivamente, representa. Quase sempre enquadrado como injúria racial, onde a pena é menor e os danos facilmente absorvidos, o crime de racismo no Brasil, especialmente no esporte, se torna quase que um crime impossível.

            Tentando encarar o desafio de expandir a nossa compreensão acerca desse fenômeno e, de algum modo, demonstrar o quanto somos condescendente com o crime de racismo, resolvi aproximar esse tema aos novos estudos denominados: pedagogia do ensino dos traumas coletivos.

            Com ênfase inicial no Holocausto, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster, em texto publicado em 2016[1], apresentam essas novas análises e, principalmente, revelam uma demanda urgente em revisitarmos os estudos realizados sobre o tema e, sobretudo, a forma de ensinar esse fenômeno nos diversos níveis escolares. Dessa forma, enquanto ferramenta de ensino, a proposta visa combater a violência e as diversas manifestações de ódio presentes no cotidiano social.

            Ainda que o foco inicial seja o holocausto, os estudos dos traumas coletivos se aplicam perfeitamente ao racismo enquanto fenômeno que atingiu um grupo especifico da sociedade e que, dia a dia, continua sofrendo com os reflexos do seu passado. No caso do racismo, no Brasil, ainda possuímos alguns agravantes que são, em geral, difíceis de serem superados sem uma reestruturação completa na forma de ensinar e no conteúdo ensinado sobre o tema.

            Como sabemos o racismo é um tema pouco estudado no brasil. Quase sempre tratado de forma periférica nas escolas e universidades, assim como ocorre com o holocausto que é visto na periferia do estudos da Segunda Guerra Mundial, o racismo acabou se tornando um fenômeno pouco explicado e, consequentemente, pouco entendido.

            Quando aproximamos esse tema do esporte isso se torna ainda mais grave, visto que, quase sempre, as manifestações esportivas estão imersas naquilo que definimos como sendo o espaço do “não sério” e, principalmente, seguem sendo definida por um perspectiva completamente romantizada.

            Nesse sentido, há sempre a desculpa de que o que se faz em campo/arquibancada, diante de suas especificidades e sendo um lugar de catarse, não devem ser levados tão a sério. Tudo, no final, não passaria de um ação momentânea sem desdobramentos maiores.

            Esse trato peculiar sobre o tema é visto nos desdobramentos dos casos de racismo no esporte. Apenados, quase sempre, de forma branda, os que agridem não compreendem a dor do “outro”, tampouco a gravidade da sua violência. Via de regra, os agressores se escondem sobre a desculpa de que “não são racistas” e que foi apenas um momento quente do jogo.

            Sobre isso, em seu texto, Silva e Schurster trazem uma reflexão importante sobre a experiência alemã que pode nos ajudar a trilhar nossos primeiros passos nessa nova tentativa de aprofundar sobre o racismo. Gitta Sereny (historiadora, austríaca, 1921-2012), citam os autores, revela em seu livro, Trauma Alemão. Experiência e reflexões, que “ foi através de um melhor entendimento sobre o idealismo e a capacidade de uma determinada tirania de perversão dos instintos humanos, que conseguiu chegar a uma definição do ‘trauma alemão’”. Ou seja, explicam os autores, o “trauma alemão teria sido capaz de causar e deixar profundas feridas com as quais as futuras gerações do processo histórico tiveram e ainda têm , para o bem e para o mal, a obrigação de lidar”.

            A idéia de um passado que não passa é fundamental para a compreensão desse sistema onde se distanciam aqueles que sentem e sofrem com a dor e aqueles que agridem e a negam o dano. No Brasil, como sabemos, “não reconhecemos” o racismo porque acreditamos que ele ficou no passado. ademais, há um esforço brutal em negar as consequências e, fundamentalmente, as responsabilidades sobre ele.

            E isso é facilmente explicável, vejamos: como quase sempre atrelamos os estudos sobre o racismo ao tema escravidão e pós-escravidão (aqui ate os anos de 1930), dessa forma, conseguimos afastar nesse tempo histórico as nossas relações e conexões com esse fenômeno social. Assim, parece muito bem resolvido uma renúncia em revisitar o tema.

            Talvez por isso, na maior parte dos casos de racismo no Brasil, encerramos o debate com o enquadramento dos fatos como injúria racial. Pela sua natureza jurídica, a injúria são “apenas” palavras proferidas que acabariam se encerrando nelas mesmas. Nesses casos, não se compreende a continuidade da violência estrutural na qual a injúria está inserida. Ou seja, retiramos o racismo que estruturou a injúria e resolvemos a questão para seguirmos em frente.

            Quando vamos debater o racismo no esporte contamos ainda com outro desafio. Cotidianamente, definido a partir de uma perspectiva estéril e romântica, qualquer fenômeno que afete essa estrutura são consideradas desvios do esporte e não parte dele. Assim, como ocorre com a análises apressadas acerca da violência no esporte, que busca rapidamente defini-la como algo externo ao campo esportivo, o racismo também é um desses fenômenos que nada tem haver com o esporte.

            Enfim, já passou da hora de reconhecermos o racismo no esporte como um fenômeno bem mais complexo e grave do que tratamos hoje. Do contrário, de nada vai adiantar times entrando em campo com faixas dizendo “não ao racismo”, quando, na verdade, eles não sabem nada sobre o tema. igualmente, de nada vai adiantar respostas apressadas aos eventos de racismos no esporte, se elas não vierem substanciadas de uma compreensão mais ampla, realista e corajosa sobre o tema. Em síntese, precisamos falar seriamente sobre o racimo no esporte.

[1] SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. SCHURSTER, Karl. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 42. N.2. p. 744-772, mai-ago 2016.


TRAUMAS COLETIVOS E O RACISMO NO ESPORTE

18/09/2017

Por Ricardo Pinto dos Santos

            Em geral, o racismo no esporte é compreendido de forma equivocada. Na verdade, rotineiramente, salvo para as vítimas, as atitudes racistas vivenciadas no campo esportivo são encaradas como brincadeiras ou, como dizem alguns, são coisas do jogo que, quando proferidas, não tornam ninguém um racista.

            De forma objetiva, essa compreensão é bem eficiente para esvaziar o fenômeno e os seus desdobramentos legais e sociais. Nesse contexto, assistimos o crime de racismo se travestir em qualquer coisa bem distante da gravíssima violência que ele, efetivamente, representa. Quase sempre enquadrado como injúria racial, onde a pena é menor e os danos facilmente absorvidos, o crime de racismo no Brasil, especialmente no esporte, se torna quase que um crime impossível.

            Tentando encarar o desafio de expandir a nossa compreensão acerca desse fenômeno e, de algum modo, demonstrar o quanto somos condescendente com o crime de racismo, resolvi aproximar esse tema aos novos estudos denominados: pedagogia do ensino dos traumas coletivos.

            Com ênfase inicial no Holocausto, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster, em texto publicado em 2016[1], apresentam essas novas análises e, principalmente, revelam uma demanda urgente em revisitarmos os estudos realizados sobre o tema e, sobretudo, a forma de ensinar esse fenômeno nos diversos níveis escolares. Dessa forma, enquanto ferramenta de ensino, a proposta visa combater a violência e as diversas manifestações de ódio presentes no cotidiano social.

            Ainda que o foco inicial seja o holocausto, os estudos dos traumas coletivos se aplicam perfeitamente ao racismo enquanto fenômeno que atingiu um grupo especifico da sociedade e que, dia a dia, continua sofrendo com os reflexos do seu passado. No caso do racismo, no Brasil, ainda possuímos alguns agravantes que são, em geral, difíceis de serem superados sem uma reestruturação completa na forma de ensinar e no conteúdo ensinado sobre o tema.

            Como sabemos o racismo é um tema pouco estudado no brasil. Quase sempre tratado de forma periférica nas escolas e universidades, assim como ocorre com o holocausto que é visto na periferia do estudos da Segunda Guerra Mundial, o racismo acabou se tornando um fenômeno pouco explicado e, consequentemente, pouco entendido.

            Quando aproximamos esse tema do esporte isso se torna ainda mais grave, visto que, quase sempre, as manifestações esportivas estão imersas naquilo que definimos como sendo o espaço do “não sério” e, principalmente, seguem sendo definida por um perspectiva completamente romantizada.

            Nesse sentido, há sempre a desculpa de que o que se faz em campo/arquibancada, diante de suas especificidades e sendo um lugar de catarse, não devem ser levados tão a sério. Tudo, no final, não passaria de um ação momentânea sem desdobramentos maiores.

            Esse trato peculiar sobre o tema é visto nos desdobramentos dos casos de racismo no esporte. Apenados, quase sempre, de forma branda, os que agridem não compreendem a dor do “outro”, tampouco a gravidade da sua violência. Via de regra, os agressores se escondem sobre a desculpa de que “não são racistas” e que foi apenas um momento quente do jogo.

            Sobre isso, em seu texto, Silva e Schurster trazem uma reflexão importante sobre a experiência alemã que pode nos ajudar a trilhar nossos primeiros passos nessa nova tentativa de aprofundar sobre o racismo. Gitta Sereny (historiadora, austríaca, 1921-2012), citam os autores, revela em seu livro, Trauma Alemão. Experiência e reflexões, que “ foi através de um melhor entendimento sobre o idealismo e a capacidade de uma determinada tirania de perversão dos instintos humanos, que conseguiu chegar a uma definição do ‘trauma alemão’”.  Ou seja, explicam os autores, o “trauma alemão teria sido capaz de causar e deixar profundas feridas com as quais as futuras gerações do processo histórico tiveram e ainda têm , para o bem e para o mal, a obrigação de lidar”.

            A idéia de um passado que não passa é fundamental para a compreensão desse sistema onde se distanciam aqueles que sentem e sofrem com a dor e aqueles que agridem e a negam o dano.  No Brasil, como sabemos, “não reconhecemos” o racismo porque acreditamos que ele ficou no passado. ademais, há um esforço brutal em negar as consequências e, fundamentalmente, as responsabilidades sobre ele.

            E isso é facilmente explicável, vejamos: como quase sempre atrelamos os estudos sobre o racismo ao tema escravidão e pós-escravidão (aqui ate os anos de 1930), dessa forma, conseguimos afastar nesse tempo histórico as nossas relações e conexões com esse fenômeno social. Assim, parece muito bem resolvido uma renúncia em revisitar o tema.

            Talvez por isso, na maior parte dos casos de racismo no Brasil, encerramos o debate com o enquadramento dos fatos como injúria racial. Pela sua natureza jurídica, a injúria são “apenas” palavras proferidas que acabariam se encerrando nelas mesmas. Nesses casos, não se compreende a continuidade da violência estrutural na qual a injúria está inserida. Ou seja, retiramos o racismo que estruturou a injúria e resolvemos a questão para seguirmos em frente.

            Quando vamos debater o racismo no esporte contamos ainda com outro desafio. Cotidianamente, definido a partir de uma perspectiva estéril e romântica, qualquer fenômeno que afete essa estrutura são consideradas desvios do esporte e não parte dele. Assim, como ocorre com a análises apressadas acerca da violência no esporte, que busca rapidamente defini-la como algo externo ao campo esportivo, o racismo também é um desses fenômenos que nada tem haver com o esporte.

             Enfim, já passou da hora de reconhecermos o racismo no esporte como um fenômeno bem mais complexo e grave do que tratamos hoje. Do contrário, de nada vai adiantar times entrando em campo com faixas  dizendo “não ao racismo”, quando, na verdade, eles não sabem nada sobre o tema. igualmente, de nada vai adiantar respostas apressadas aos eventos de racismos no esporte, se elas não vierem substanciadas de uma compreensão mais ampla, realista e corajosa sobre o tema. Em síntese, precisamos falar seriamente sobre o racimo no esporte.

[1] SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. SCHURSTER, Karl. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 42. N.2. p. 744-772, mai-ago 2016.

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O dia em que o Maracanã reverenciou o “maior atleta do mundo”: histórias das (des)construções de uma identidade nacional

10/09/2017

por Fabio Peres[i]

A história é fascinante e cheia de nuances. No dia 19 de março de 1955, o leitor do jornal O Globo era informado sobre uma exibição prevista para ocorrer em abril no Maracanã. O evento se daria antes de uma partida de futebol, o match entre Rio-São Paulo. A ocasião não parecia ser trivial. Uma medalha de ouro, inclusive, estaria sendo cunhada especialmente para a ocasião.

O “grande campeão” a ser homenageado, porém, não era ligado (pelo menos diretamente) ao “mundo” do futebol; já na época o esporte mais popular do Brasil. Mas sim ao atletismo. O triplista Adhemar Ferreira da Silva, campeão olímpico em 1952 (Helsinque), havia conquistado mais uma façanha: bateu o recorde mundial no salto triplo nos Jogos Pan-americanos da Cidade do México com a marca de 16,56m – uma diferença de 33 centímetros a mais, que os periódicos buscavam quase sempre registrar, do seu rival russo Leonid Scherbakov. Diante do contexto da época não parece casual o reforço da suposta rivalidade entre Brasil e Rússia (algo que merece ser melhor investigado).

O Globo fez questão de publicar uma matéria especial, de página inteira, similar aos infográficos atuais, com vários dados sobre Adhemar (ver figura 1)[ii].

Figura 1: O Globo, 19/3/1955, segunda seção, p.1.

 

Na perspectiva do periódico carioca não se tratava de um feito que seria rapidamente esquecido, mas sim um marco histórico do atletismo. Uma das manchetes destacava que “OS TÉCNICOS E OS LIVROS EM 16 M 48 O MÁXIMO A SER ALCANÇADO POR QUALQUER ATLETA – FEITO SUPERIOR A [Roger] BANNISTER[iii] AO ULTRAPASSAR A ‘BARREIRA DO SOM’ NA MILHA”. Até mesmo uma charge brincava com a ideia da necessidade de nomear uma avenida com o nome do atleta (ver figura 2).

Figura 2: Charge de Constantino, O Globo, 19/3/1955, 2ª Seção, p.1. No texto superior à direita lê-se: Quando Bob Mathias ganhou o decatlo dos Jogos Olímpicos [o decatleta ganhou ouro nas Olímpiadas de 1948 (Londres) e de 1952 (Helsinque)] , a pequena cidade norte-americana de Tulare – onde nasceu Mathias – resolveu mudar o nome em MATHIASVILLE.
Abaixo da imagem lê-se: TURISTA – Ó mister guarda, pode me indicar a Avenida Ademar Ferreira da Silva?

 

A conquista, porém, não se dera sem um tom dramático. Dias antes, Adhemar havia sido desclassificado no salto em distância (Última Hora, 15/3/1955, p.12). Certa expectativa cercava, então, o desempenho do triplista. Talvez por isso, a notícia de sua vitória ganhou um colorido de catarse. Os jornais não apenas destacavam que aos “soluços” o atleta dissera que poderia ter saltado mais, como “ninguém parecia acreditar no que a fita métrica afirmava”.  A manchete do Última Hora refletia e, ao mesmo tempo, reforçava os sentimentos de orgulho, identidade e pertencimento compartilhados pela “comunidade imaginada” (Anderson, 2008) ao dar destaque a fala do “grande campeão do mundo”: “VENCI NÃO PARA MIM; MAS PARA O BRASIL” (Última Hora, 17/3/1955, p.12). A importância ao feito era tão grande que o jornal publicou a sequência de fotografias que resultou recorde (ver Figura 3).

Figura 3: Última Hora, 17/3/1955, p.12

 

Dias depois, o Última Hora fazia questão de publicar a opinião do técnico americano Don King que afirmava que o Brasil nas Olímpiadas de 1960 só ficaria atrás dos Estados Unidos e da Rússia; expressando assim que tal sentimento de nacionalidade também passava pelo reconhecimento do olhar do outro, não qualquer estrangeiro, mas o estrangeiro “qualificado” (Última Hora, 19/3/1955, 2º Caderno, p.1).

Isso não significava, por sua vez, que esse sentimento não era alvo de críticas. Uma coluna não assinada destacava em seu título: “BRASIL ENVERGONHA NO MÉXICO”. O texto destacava:

O noticiário aí está diário, doloroso, triste para todos os brasileiros. Nós, que temos a péssima moda de achar que nosso avanço esportivo em determinados setores é ultra espetacular, somos forçados a reconhecer que ainda não atingimos a expressão de outras nações, que somos discípulos, ainda, em esportes que nos julgávamos senhores de primazia (Mundo Esportivo, 25/3/1955, p.2).

O desempenho dos atletas brasileiros, de acordo com a análise, não correspondia às expectativas, à “propaganda” que se torna “ruinosa”, mostrando para nós e – vale destacar – principalmente para o mundo “a nossa inferioridade esportiva” que “mais se acentua entre os países que lá estão representados” (op. cit.). A coluna não deixava de sublinhar a decepção com os resultados dos demais atletas brasileiros, ainda que enfatizasse a importância de Adhemar e do boxeador Luiz Ignácio, responsáveis pelas únicas medalhas de ouro que o Brasil conquistou no México:

Tiremos o chapéu ao fabuloso Adhemar Ferreira da Silva. Saudemos Luiz Ignácio, do boxe, outro campeão, que forma, com o campeão do salto triplo, a dupla que se recomenda na delegação brasileira. Estes dois falam bem do Brasil. […] Verdade dura, duríssima, fruto único da ilusão criada de que nossos índices são compatíveis com o avanço internacional no terreno esportivo. […] Nossas equipes envergonham no México. (Mundo Esportivo, 25/3/1955, p.2).

 

As matérias, por conseguinte, acabavam por reforçar os méritos de Adhemar como também por valorizar as competições internacionais como forma de projeção nacional. Por outro lado, as colunas no jornal Mundo Esportivo contrastam com um sentimento ufanista presente em determinadas coberturas sobre a atuação dos atletas brasileiros. Isso se deu, inclusive, no bicampeonato olímpico de Ademar no ano seguinte em Melbourne (1956). Poucos dias após a notícia de sua vitória, uma pequena nota no jornal esportivo já chamava atenção para apropriação política em torno da exaltação exagerada da nação. Na seção Galeria Branca e Negra, em que eram apresentados os piores e melhores da semana, a “pior coisa” escolhida pelo periódico eram os “urubus e demagogos”; “abutres” que revestiam a conquista de Adhemar com “frases ocas, enfeitadas, demagógicas, estarrecedoras falando em bandeiras, patriotadas etc.” (Mundo Esportivo, 30/12/1956, p.13). De fato, não foram poucas as manifestações, inclusive de políticos, exaltando o feito.

Em todo caso e a despeito de alguns contrastes, prevaleceu um tom festivo e celebratório ao redor do herói e, por associação, da nação. A popularidade e o prestígio de Adhemar, não é demais assinalar, se tornaram bastante expressivos no intervalo entre as duas Olimpíadas. Além da repercussão das conquistas de 1952 e no Pan-americano de 1955, seu nome era frequentemente citado como o maior esportista do Brasil, inclusive por atletas de outras modalidades como o futebol[iv]. Matérias e colunas de jornais sobre “famosos”[v], vi] e “personalidades”[vii], mesmo fora do campo esportivo, se referiam a ele.

Figura 4: Vitória de Luiz Ignácio no boxe (Última Hora, 28/3/1955, p.1).

 

O retorno do triplista ao Brasil não poderia ser menos noticiado. A capa do Última Hora do dia 31/3/1955 saudava o campeão que chegara no dia anterior na cidade do Rio de Janeiro, dando mais um destaque à fala daquele que “abalou os meios esportivos do mundo inteiro, pondo em dúvida até o princípio da lei da gravidade”: “NÃO PODIA FALTAR À CONFIANÇA DO MEU POVO”.

Figura 5: capa do Última Hora do dia 31/3/1955.

 

O Globo, por sua vez, destacava que “O BRASIL AGRADECE AO SEU CAMPEÃO” estampando uma fotografia do então presidente Café Filho apertando a mão do triplista. A recepção foi marcada por uma solicitação do atleta ao presidente, que o tratava o triplista por “meu herói”, de que o governo “ajude o esporte cada vez mais”.

Figura 6: O Globo, 1/4/1955, p.10.

 

Não se sabe ao certo o que aconteceu com a exibição do salto de Adhemar, que seria organizado pelo O Globo. Vale lembrar que o atleta se tornou também repórter do Última Hora. De todo modo, Adhemar de terno deu (talvez a primeira) volta olímpica do Maracanã na final do torneio Rio-São Paulo:

Nem tudo foi tristeza para os cariocas, na noite de football no Maracanã. A presença de Ademar Ferreira da Silva, que fez a volta olímpica sob a ovação da assistência, foi uma nota marcante do espetáculo de ontem. Foram torcedores, cariocas e paulistas, irmanados na homenagem ao grande recordista mundial do salto triplo (O Globo, 1/4/1955, p.12).

Figura 7: O Globo, 1/4/1955, p.12.

 

As construções dos sentimentos de nacionalidades através do esporte é cheia matizes. Passaram também por outras modalidades, além do futebol, merecendo ser melhor investigadas, assim como o uso político do esporte e o uso esportivo da política. Mas esse debate ficará para um próximo post.

***

EM TEMPO: esse post é dedicado à memória de Oswaldo Sérvulo de Faria, que não nos deixava esquecer – mesmo diante das adversidades – de mantermos sempre a esperança, e que possuía grande orgulho de Adhemar ter vestido as cores de seu time, o Clube de Regatas Vasco da Gama.

____________________________

[i] Uma pequena parte dessa história foi escrita com Victor Melo e está inserida no capítulo “Adhemar Fereira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero” do livro organizado por Antonio Sotomayor e Cesar Torres, que será lançado em breve.

[ii] O Globo, 19/03/1955, segunda seção, p.1.

[iii] Por exemplo, no Mundo Esportivo a coluna Perguntas e Respostas – dedicada a entrevistar personalidades esportivas, em sua maioria do futebol – comumente perguntava “qual é a maior expressão esportiva do Brasil?”. Com frequência os atletas escolhiam o nome de Adhemar, às vezes seguido de termos como “indiscutivelmente” (ver edições de 23/3/1956, p.2; 27/4/1956, p.2; 11/5/1956, p.2; 25/5/1956, p.15; 15/6/1956, p.3).

[iv] O Cruzeiro, 12/05/1956, p.118.

[v] Última Hora, 12/10/1956, Caderno 2, p.3.

[vi] A Noite, 31/08/1956, 2º Caderno, p.2.