Deslizar, escorregar, equilibrar: o corpo e o lúdico nos esportes californianos

17/06/2018

Por Leonardo Brandão

Segundo o historiador Roy Porter (1992) a fotografia pode ser uma grande fonte (embora ainda permaneça “estranhamente subexplorada”) de compreensão do corpo. O registro fotográfico já documenta quase um século e meio dos aspectos físicos e, embora ela não seja um instantâneo da realidade, é um registro da linguagem corporal e do espaço social tão ou mais informativo que o texto impresso. Acreditamos, nesse sentido, que o arquivo fotográfico pode nos revelar e confirmar variados aspectos das transformações físicas na contemporaneidade, apresentando também dados sobre a linguagem corporal, os gestos e seus modos de utilização e investimento.

Observemos a fotografia a seguir:

Figura 1: Jovem praticando o “surfe na rua” na cidade do Rio de Janeiro em 1975. Fonte: Revista Pop, nº 38, 1975, p. 61.

Vemos nessa imagem – originalmente publicada nas páginas de uma revista chamada Pop, existente entre 1972 e 1979 – um jovem praticando skate numa rua levemente em declive. Pela descrição da matéria, sabemos que se trata de um espaço localizado no Rio de Janeiro e que essa imagem data de 1975. Não há dúvidas que se trata de uma fotografia sobre o equilíbrio. Pois o que esse jovem faz é um jogo de equilíbrio corporal. A ausência dos calçados e equipamentos de proteção revela o uso do skate como um “surfinho”, isto é, apenas como divertimento espontâneo e sem vínculos com campeonatos, juízes, tabelas etc. Além disso, o próprio movimento corporal realizado era muito próximo daqueles utilizados pelos surfistas nas ondas do mar.

Essa imagem (figura 1) é ilustrativa de uma característica central dessas atividades oriundas da Califórnia e que estavam se introduzindo no cotidiano das práticas juvenis no Brasil, pois tais atividades investiam mais numa flexibilidade física atenta aos gestos de equilíbrio do que no acúmulo de forças para o levantamento de algum peso, o que fazia do corpo menos um suporte do gesto do que sua expressão.

Ao reduzirem o esforço muscular em prol de outros elementos para praticá-lo, o skate – assim como o surfe ou outras atividades praticadas à maneira californiana – abria novas possibilidades de euforia, êxtase e vertigem. Não tanto a força dos músculos, mas sim a flexibilidade e a busca pelo equilíbrio estariam no cerne performático em questão. De acordo com as palavras da historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna,

Os esportes californianos, por exemplo, que se expandem em várias partes do mundo a partir dos anos 70, tem por objetivo menos o cansaço salutar – característica dos antigos esportes comprometidos com os ideais higienistas de salvação de uma raça – do que a vivência de sensações de prazer, físicas e mentais, imediatas e inovadoras. O surfe, a asa delta, o windsurf, por exemplo, conduzem o olhar do esportista menos em direção à força realizada por seus músculos do que às flexibilidades motoras que ele é capaz de manter sob controle. De onde se explica, nessas atividades, o emprego de verbos que evocam o prolongamento de sensações de prazer e de controle do conjunto dos movimentos, tais como voar, escorregar, equilibrar (2000, p. 3).

Iniciar-se em tais atividades, portanto, significava dar menos evidência às questões corporais que envolviam força muscular e uma maior atenção ao equilíbrio corporal, controlado sob tênues movimentos de braços e pernas.  Esse investimento lúdico do corpo, para além de suas possibilidades de força, potência muscular e virilidade – aspectos tão bem explorados pelos esportes tradicionais –, favoreceu sua interpretação como um possível objeto de comunicação através de uma série inusitada de gestos e movimentos (os quais passariam a ser chamados, posteriormente, como “manobras” ou “truques”). A construção dessa nova relação com o corpo, ou desta nova corporalidade, também passou a expressar um desejo por aventuras e deslizamentos os mais variados, sendo o aprendizado de tais técnicas uma questão de conquistar, através do corpo – ou “in-corporar” – essas novas possibilidades de movimento, equilíbrio e frenesi estético.

Ao observar o que chama de “práticas emergentes contemporâneas”, o professor Deibar René Herrera (2009) também afirmou ser possível percebermos nessas atividades outras formas de construção do corpo já diferentes daquelas apontadas pelo filósofo Michel Foucault através de seus estudos sobre as instituições disciplinares, as quais evidenciavam a formação de corpos dóceis. Para Herrera, faz-se importante admitirmos que o mundo contemporâneo também vem configurando outros usos do corpo que já não estão de acordo somente com a sociedade disciplinar e nem necessitam da obediência de outros tempos. Usos do corpo, em sua visão, que se formaram a partir dessas novas práticas culturais juvenis e que se constituíram enquanto práticas de subjetivação.

Assim, algumas das análises de Foucault propõem-se a descrever e analisar um mundo no qual estamos deixando de conhecer, um presente que está se transformando em passado, cujas marcas ainda moldam muitas experiências, mas não todas. As atividades do surfe e do skate, entre outras, se constituíram num momento histórico onde os poderes disciplinares já eram menores e menos expressivos.

Para muitos jovens, os chamados “esportes californianos” representaram, nesses anos iniciais, uma espécie de liberdade e fonte de criação para novos movimentos corporais. Além disso, essas atividades também incentivaram outras formas de sociabilidade, que se fizeram como agregações tribais pautadas na diversão, na ludicidade e na vivência festiva do cotidiano.

 

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 2009.

HERRERA, Deibar René Hurtado Herrera. “In-corporar en la sociedad moderna y en las prácticas emergentes contemporaneas” In Recorde: Revista de História do Esporte. Volume 2, número 2, dezembro de 2009, p. 1- 19.

PORTER, Roy. História do corpo. In: BURKE, Peter (org.). A Escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992, p. 291 – 326.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Entre o corpo e a técnica: antigas e novas concepções. In Motrivivência, ano XI, n. 15, agosto de 2000, p. 1 – 6.

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O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


A Sociedade Recreio Marítimo: primeira agremiação náutica do país

03/06/2018

por Victor Andrade de Melo

Em 1851, funda-se a Sociedade Recreio Marítimo, a primeira agremiação náutica do país. No final desse ano, Francisco Leão Cohn, filho de negociante francês, militar de destacada carreira, funcionário da Alfândega, secretário do clube, informou que já se contava com 200 sócios e se começava a preparar a primeira regata. Os interessados em competir deveriam se inscrever com o já citado João Manuel Corte Real. Há um diferencial se compararmos com as corridas de cavalos: se estabelecia que amadores deveriam tripular os escaleres[1].

Os preparativos da regata inaugural passaram a ser acompanhados com expectativa, sendo a data estabelecida a partir da confirmação da presença do Imperador. Além disso, teve-se em conta o perfil dos associados para definir o dia 1 de novembro de 1851. Embora houvesse trânsito e coincidências entre os grupos, percebe-se outra diferença entre os envolvidos com o turfe e com o remo:

A escolha do sábado foi determinada por duas razões: a maior parte dos sócios e amadores que têm de entrar nos diferentes páreos pertence à classe do comércio e muitos deles, por princípios religiosos, aos domingos não podem entrar em trabalhos dessa ordem; assim como em dias úteis perde a sociedade a cooperação dessas pessoas que não podiam ser distraídas das operações comerciais[2].

Há duas questões que merecem nossa atenção. A primeira é o limite imposto pela religião: no futuro isso se dissolverá, o esporte se tornará mesmo um concorrente dos cultos, o profano conquistará muitos espaços do sagrado. Na verdade, já naquele ano de 1851, a medida parecia atender mais aos hábitos religiosos de estrangeiros, notadamente de britânicos.

Deve-se também destacar o envolvimento de gente do comércio com a prática de atividades físicas, que, como vimos, no caso do remo era um elemento pronunciado, ao contrário do turfe. Isso será observado em outras ocasiões, como, por exemplo, com as touradas e a ginástica[3].

Como no caso das corridas de 1850, houve grande preocupação em explicar os detalhes técnicos das provas: o horário (em função da condição do mar e do clima), o percurso (tendo em conta o desempenho dos remadores, mas também o público que desejava assistir às contendas), os páreos, disputados por ingleses, alemães, americanos e brasileiros, a maior parte desses ligados à Armada.

Os jornais, aliás, lembravam que os europeus já organizavam regatas com um fim específico: “Nos outros países refutam-se tais funções como incentivos para a construção naval e para a marinha nacional, e os monarcas lhes prestam sua presença e proteção”[4].

Uma vez mais vemos a mobilização da ideia de utile dulce: tratava-se de um divertimento sim, mas que tinha muitas utilidades para a nação. Uma delas, argumento bem semelhante ao de desenvolvimento da raça de cavalos, seria o aperfeiçoamento da Armada. Seu valor parecia irrefutável: era uma diversão séria.

Isso ajuda a entender que um traço do desenvolvimento esportivo nacional seja a constante presença de militares, os do Exército mais ligados ao turfe, enquanto os da Armada mais ao remo, um quadro que vai se complexificar às vésperas da proclamação da República, quando os civis republicanos relacionavam-se mais ao segundo, preferido daquela Força Armada que se mantivera mais monarquista, na mesma medida em que os civis monarquistas preferiam o primeiro, mais ligados à Força na qual o pensamento republicano floresceu.

No que tange à organização do evento, havia uma notável preocupação: em função das peculiaridades da modalidade, como oferecer condições de confortos aos influentes que comparecessem? A solução encontrada foi: alguns proprietários de casas na praia de Botafogo as ofeeceram para recepção; foram cedidas, para acolher alguns convidados, salas do Hospício Pedro II (hoje campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro); uma parte do público se distribuiu por navios a vapor e embarcações a vela, que também demarcavam a raia. Refrescos, boa comida, músicas e danças eram oferecidos como atrativos à parte[5].

Chegou a haver um debate sobre os moldes do evento, tendo alguns estranhado o horário (manhã) e o local da raia (na altura da praia da Saudade, hoje ocupada pelo Iate Clube do Rio de Janeiro). Segundo os críticos, o calor e a dificuldade de acesso afastariam os interessados, sendo melhor transferir para a parte da tarde e utilizar a faixa que já estava consagrada pelas corridas de cavalos (o trecho que vai do Caminho Velho, atual Senador Dantas, até a São Clemente): “salvo se o divertimento é exclusivo para os sócios, e o público for considerado intruso nele”[6].

O debate antecipa em alguns anos o que se constituirá em outro diferencial do remo em relação ao turfe: o seu caráter supostamente mais popular por ser realizado em um espaço público, em que não era necessário pagar ingressos. Aliás, a regata de 1851 ocorreu no mesmo local onde a modalidade viveria seu momento áureo, no qual, nos anos iniciais do século XX, seria construído, por Pereira Passos, o Pavilhão de Regatas, a primeira tribuna fixa para a modalidade náutica[7].

Atendendo aos pedidos, o horário foi alterado para a tarde. Um conjunto de remadores, todavia, ameaçou não competir, sugerindo que não faria bem fazer exercícios físicos depois de jantar (que na ocasião ocorria ao redor das 14-15 horas). Os jornais criticaram muito tal posição[8]. Um dos sócios, que, assina como Remador, defendeu o ponto de vista dos competidores, mas conclamou:

Pedimos-lhes em nome da associação que compareçam, remem, brinquem, dancem, em uma palavra, que não deem cavaco; e aconselhamos-lhes também que finda as festas providencias tomemos em nossos estatutos para que não possam ser eles alterados à vontade da minoria contra a maioria[9].

A regata inaugural entusiasmou mesmo um setor da cidade. Às vésperas, a matéria de capa da Marmota na Corte (que se apresentava como “jornal de modas e variedades”) é uma expressão dessa expectativa. De início, se elogia um dos dinamizadores do Recreio Marítimo, Angelo Muniz da Silva Ferraz, inspetor da Alfândega e importante político do Império (foi ministro e agraciado com o título de Barão de Uruguaiana), por liderar uma iniciativa que poderia contribuir para solucionar um sério problema da cidade: “A falta de divertimentos públicos e gratuitos”[10]. Ressaltava-se o fato de que, para comparecer aos eventos náuticos, bastaria apenas arcar com as despesas de “transporte e comestível”.

Para o cronista, merecia ainda destaque o fato de que o divertimento era adequado à presença feminina. Lembrava que Ferraz também era dirigente do Recreação Campestre, outra agremiação que acolhia bem as mulheres, inclusive em função do grande número de bailes que promovia.

Sendo uma expressão dos “novos tempos”, para o periodista não surpreendeu que a iniciativa contasse com o apoio do Imperador e da família real, que honrariam: “com suas presenças o divertimento da fogosa mocidade nacional e estrangeira”. Para ele: “Assim o Magnânimo Príncipe se mostra o primeiro a interessar-se pelo seu povo, tanto no que lhe é útil, como no que lhe pode ser agradável. Deus o ajude e lhe conserve os dias para que seja o penhor da paz e da integridade do Império”. A celebração, enfim, era intensa:

Como lindo o Botafogo

Não ficará nesse dia,

Vendo correrem de aposta

Muitos botes à porfia!

De carros e seges a praia hordada,

Bordado de moças o cais ficará.

De imensa faluas aquela enseada

Que vista agradável então formará!

Patuscos folgai

Que tendes ensejos

De pordes em prática

Os vossos desejos!

Voar hade a notícia da Regata

Desde o Amazonas

Até o Prata.

Se a expectativa era grande, o resultado não deixou a desejar. O Correio Mercantil dedicou quatro colunas para comentar o evento. Para o cronista, a cidade já tinha “bailes mascarados”, “óperas italianas”, “corridas de cavalos”,: “só nos faltavam na verdade as regatas, que, para ser francos, devemos dizer, consideramos mais úteis (…)”[11]. O momento era mesmo de otimismo:

Somos hoje na verdade o povo mais feliz do mundo! Tudo anda neste belo Rio de Janeiro às mil maravilhas! Divertimentos e mais divertimentos! As sociedades bailantes multiplicam-se, as de música crescem progressivamente, os soirées e saraus dão-se de continuo, as corridas de cavalos ao Prado Fluminense, a Regata recreio marítimo!! E até o Pão de Açúcar já serve para um tour de promenade; e isto sem falarmos nos nossos dois teatros que com suas portas abertas dão ingresso quase todos os dias aos espectadores destes divertimentos. E que viva o pais que nos viu nascer, que vai todo em folia[12].

A ideia de utile dulce a todo momento veio à tona. Para um jornalista, era urgente desenvolver o espírito marítimo no Brasil, em função de sua imensa costa. Nesse sentido, “nada pode contribuir tanto para esse resultado do que as regatas, que fazem tomar para objeto de divertimento aquilo que em outras ocasiões é considerado pesadíssima tarefa”[13]. Os exemplos da Inglaterra, França e Estados Unidos são mobilizados como comprovações dessa utilidade.

Haveria ainda outra grande potencialidade. Como supostamente nossa “raça” seria “naturalmente fraca e indolente”, o remo seria o estímulo necessário para reverter tal situação: “o exercício de remar é um dos mais violentos, porém ao mesmo tempo é um dos que mais desenvolve a força física”. Para ele, com o apoio do governo, a modalidade traria benefícios inegáveis para a população.

Segundo o empolgado cronista, o novo espírito público propugnado pela Sociedade Recreio Marítimo fazia-se sentir já nas embarcações destinadas aos convidados, que conversavam de forma animada, amistosa e respeitosa, inclusive desfrutando da companhia de “belas e elegantes senhoras”.

O aspecto da enseada também chamou sua atenção: eram embarcações diversas ancoradas e muito público espalhado na areia e nas casas da praia de Botafogo. De uma delas, de propriedade do na época Visconde de Abrantes, D. Pedro II e a família real assistiram às competições[14].

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1ª Regata da Sociedade Recreio Marítimo na Enseada de Botafogo em 1º de Novembro de 1851

Litografia (300 x 480 mm) de A. L. Guimarães, impressa na oficina de Heaton e Rensburg. Acervo da Biblioteca Nacional (FERREZ, Gilberto. A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Castro Maya, 1965).

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Entre as provas, parece ter chamado a atenção um páreo em que se enfrentaram equipes de alemães, ingleses, americanos e brasileiros, sagrando-se vencedora, para entusiasmo do público, a guarnição do escaler Nympha, que competia com a bandeira do Brasil na proa e na proa. O clima de grande festividade se misturava ao de patriotismo, que chegou a seu auge por ocasião da cerimônia de premiação, quando o hino nacional foi executado em homenagem ao Imperador. Não houve, aliás, prêmios em dinheiro, apenas presentes. Deixava-se claro que eram amadores os competidores.

Segundo os cronistas, comentou-se largamente que foi das maiores celebrações já vistas na capital. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham comparecido ao evento, elogiado pela organização e animação. Os principais diretores do Recreio Marítimo, os já citados Ferraz e Cohn, bem como Leopoldo Augusto da Camara Lima (Barão de São Nicolau, Guarda-Mor da Alfândega) e Joaquim Marques Lisboa (o futuro Almirante Tamandaré), foram exaltados pelo contributo dado à nação. Para um jornalista, o Brasil finalmente “adquiriu o direito a poder marcar uma época de civilização, de confraternidade, de magnificência”[16].

Ainda demoraria alguns anos para o remo definitivamente se consolidar. De toda forma, parece possível afirmar que, naqueles meados de século, o esporte já era apreciado pela população, articulando-se com as mudanças pelas quais passava a sociedade da Corte e com alguns importantes temas da nação. O campo esportivo já tinha, ainda que embrionariamente, seus elementos constituintes delineados.

[1] Diário do Rio de Janeiro, 20/10/1851, p. 2.

[2] Correio Mercantil, 27/10/1851, p. 3.

[3] Para mais informações, ver: MELO, op. cit., 2013b; MELO, op. cit., 2013c; e PERES, MELO, op. cit.

[4] Correio Mercantil, 27/10/1851, p. 3.

[5] O evento, aliás, terminou com um grande baile, oferecido em um barco, que só terminou à meia-noite.

[6] Correio Mercantil, 28/10/1851, p. 1.

[7] MELO, op. cit., 2001.

[8] Correio Mercantil, 31/10/1851, p. 1.

[9] Correio Mercantil, 31/10/1851, p. 3.

[10] Marmota na Corte, 31/10/1851, p. 1.

[11] Correio Mercantil, 3/11/1851, p. 1.

[12] Periódico dos Pobres, 4/11/1851, p. 1.

[13] Correio Mercantil, 3/11/1851, p. 1.

[14] Tratava-se da mesma casa onde seu pai, Pedro I, acompanhara as corridas de cavalos de 1825.

[15] Litografia (300 x 480 mm) de A. L. Guimarães, impressa na oficina de Heaton e Rensburg. Acervo da Biblioteca Nacional (FERREZ, Gilberto. A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Castro Maya, 1965).

[16] Uma descrição mais detalhada e menos apaixonada das regatas pode ser vista em: Diário do Rio de Janeiro, 3/11/1851, p. 1.

* Para mais informações, ver:

MELO, Victor Andrade de. Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do império (1825-1851). Projeto História, São Paulo, v. 49, p. 1 – 40, 2014.

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UM SPORT DE REPRESENTAÇÕES: o futebol suburbano e a grande imprensa carioca

28/05/2018

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Os primeiros momentos do futebol no Rio de Janeiro foram marcados por uma série de interesses e representações que relacionavam o velho esporte bretão à formação de um novo modelo de cidadão. Mesmo pautado pelos valores do cavalheirismo, do fair­play, e do amadorismo, elementos indispensáveis para uma sociedade em que adotava o modelo europeu como parâmetro cultural para a recém ­instaurada República brasileira, a prática foi difundida pelos mais distintos bairros da cidade, desencadeando conflitos ao redor da imagem de distinção social desejada pelos sportsmen e pela grande imprensa da época.

Foto.Sport.1915

Fonte: Sports, ano 01, n.2, 1915, p.21.

Nesse cenário, aumentava-se o número negros, operários e indivíduos das camadas populares, que incomodava àqueles que revestiam a modalidade, pelo menos discursivamente, de um caráter “civilizacional” superior. Esses novos personagens, tanto a torcida quanto os jogadores, adotavam certos comportamentos que, no olhar dos setores sociais mais privilegiados economicamente, eram considerados lamentáveis. Essa mudança de sentidos reforçava um fator ideológico, já que as páginas dos principais periódicos da cidade deixavam de celebrar a sofisticação e a fidalguia para declarar a desmoralização e o repúdio pela prática nos centros mais pobres da cidade. Buscava-­se, portanto, no comportamento desses sujeitos, ações que diferenciassem das propostas idealizadas pelos sportsmen, reproduzindo, efetivamente, um conjunto de reações extraídos das agremiações da Zona Sul. Vejamos o que publicou o Correio da Manhã em 14 de julho de 1919, sob o título: “O encontro Bangu x S. Christovão não terminou…”

A Infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado.
inda ontem no campo do Bangu A. C., por ocasião do encontro dos teams locais com os do S. Cristóvão, registraram-se factos que são tão indignos, que mais mereciam ser lamentados numa secção policial.
Faltando 22 minutos para terminar o encontro Patrich perdendo a pelota para Hugo agride este jogador no que é repelido.
Estabeleceu-se o tumulto, que teve como consequência a invasão do campo, novas agressões, pauladas, revólveres e navalhas em cena e… suspensão do jogo!
Não sabemos ainda quais os culpados de tamanha falta de educação: se os desordeiros da Favela ou se os agressores do Morro Pinto.
Francamente, srs. Sportmen. Isto nunca foi football! Acabemos com estas cenas lamentáveis, antes que a polícia prepare um lugar seguro para serem trancafiados os desordeiros que se querem impingir como sportmen! (Correio da Manhã, 14 de julho de 1919, p. 06).

Ao descrever que “infelizmente o nosso football ainda não está de todo civilizado”, o cronista parecia esquecer que o excesso desses conflitos não era uma exclusividade dos clubes sediados nas regiões mais pobres da cidade. Vendo nos seguidores dessas agremiações os principais responsáveis pela desmoralização do futebol, ele lamentava a “perniciosa” mistura social, uma perda irreparável, causada pela índole natural dos novos admiradores do jogo (PEREIRA, 2000).

Em seu estudo sobre o cotidiano das camadas populares, Chalhoub (2001) nos ajuda entender porque o registro dos conflitos entre sócios e torcedores dessas agremiações era tradicionalmente abordado sob o estigma de “desordeiros da Favella” ou de “agressores do Morro”. A pobreza, na perspectiva dos teóricos da patologia social, produziria a ausência de normas ou a falta de padrões de comportamento. Dessa forma, embora alguns torcedores reivindicassem contra “as acusações injustas” que atingiam “um povo laborioso e, sobretudo, honesto como é o Bangu”, eles eram vistos como os principais suspeitos de quaisquer desordens que viessem a acontecer em seus jogos (PEREIRA, 2000). Por isso, a cada partida marcada, a própria polícia se apressava em reforçar o patrulhamento local, na tentativa de conter os ânimos dos torcedores dessas agremiações. A liga Metropolitana, por sua vez, mandava frequentemente ofícios aos clubes da zona suburbana, pedindo que tentassem evitar o contato dos jogadores com seus torcedores, buscando proteger os visitantes da propagada fúria local.

De fato, a estigmatização fica ainda mais clara quando comparada aos conflitos causados por clubes da elite carioca. Por exemplo, um tumulto na partida realizada entre América e Botafogo, em 1914, foi apresentado como mero fruto do amor dedicado ao clube. Por vezes, até mesmo os incidentes ocorridos nos campos das equipes mais tradicionais, com a total participação dos seus sócios, eram atribuídos aos torcedores “impertinentes e mal-educados” do subúrbio (PEREIRA, 2000).

De fato, percebemos que os jornais foram agências centrais na construção de representações sociais sobre as agremiações do subúrbio da cidade. Como lembra Moscovici (2004), a representação social desponta no momento em que existe ameaça para a identidade coletiva, quando o conjunto de conhecimentos submerge as regras que a sociedade se outorgou. Foi nesse cenário que o discurso produzido por esses jornais perpassava pela objetividade e subjetividade. A grande imprensa, por exemplo, procurava estabelecer restrições às agremiações da zona suburbana. Uma das iniciativas foi a institui­ção de regulamentos que destacavam a violência e o desserviço prestado ao futebol. Tratava­-se de uma noção particular de subúrbio, enraizado por estigmas fortemente marcados pela estratificação socioespacial da cidade. A partir dessa descontextualização e recontextualização, o jornal traduzia sua visão de mundo, impregnado por estigmas que desqualificavam não só torcedores e jogadores, como também o território em que eles ocupavam e habitavam.


Relações entre esporte e guerra: algumas publicações

21/05/2018

por Karina Cancella

Desde a década de 1980, estudos sobre as relações estabelecidas entre militares e as práticas esportivas têm sido realizados em diferentes partes do mundo. Ao longo dos últimos anos, o número de publicações específicas sobre essa temática tem aumentado, especialmente aquelas envolvendo as relações entre esporte e guerra. Esse movimento, de acordo com Arnaud Waquet (2010), teria relação com o período de comemorações do centenário da Primeira Grande Guerra, que trouxe ao centro do debate outras facetas da guerra e das Forças Armadas deixando de lado o enfoque exclusivo em narrativas de “História Batalha” ou de estudos sobre tática e estratégia.[1] Nesta postagem, tenho como objetivo compartilhar breves informações sobre alguns trabalhos com os quais tomei contato durante pesquisas realizadas nos últimos anos e que podem ser de interesse para aqueles que buscam iniciar ou aprofundar estudos sobre esse tema.

Robert Baumann, no ano de 1988, publicou o artigo “The Central Army Sports Club (TsSKA) Forging a Military Tradition in Soviet Ice Hockey” no Journal of Sport History em que debate o processo de inserção dos esportes no Exército Soviético, culminando com as análises sobre o desempenho superior dos militares no ice hockey. No artigo, Baumann aborda o processo de introdução do esporte e da ginástica no cotidiano do Exército Soviético ainda no século XIX, quando passaram a integrar o Programa Oficial de formação dos Cadetes, e estende suas análises debatendo o processo de ampliação do movimento esportivo naquela instituição ao longo do XIX e anos iniciais do século XX. (BAUMANN, 1988).

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A obra “Sport and the Military: the British Armed Forces 1880-1960”, de autoria de Tony Mason e Eliza Riedi publicada em 2010, dedica-se a analisar o processo de estabelecimento das práticas esportivas entre os militares britânicos. Os autores iniciam a obra afirmando que, ainda nos dias de hoje, o esporte não é tema central de estudos de História Militar, sendo citado (quando citado) como parte de um pacote de reformas destinadas a melhorar a preparação do soldado comum, de estímulo para recrutamento nas últimas décadas do século XIX ou como um elemento de diversão que poderia ser desfrutado pelos soldados do serviço ativo nas pequenas guerras do período imperial. As análises dos autores apresentam a inserção do esporte entre os militares britânicos como um dos itens de um movimento que buscava o desenvolvimento de recreações racionais entre os soldados e marinheiros e aprofundam os debates abordando os diferentes usos do esporte em serviço ao longo da primeira metade do século XX. (MASON; RIEDI, 2010).

Para o caso francês, a tese de doutorado defendida na Universidade de Lion em 2010, de autoria de Arnaud Waquet intitulada “Football en guerre: l’acculturation sportive de la population française pendant La Grande Guerre (1914-1919)” dedica-se a discutir o processo de aculturação esportiva ocorrido durante a Primeira Guerra, identificando uma significativa redução na prática da ginástica e ampliação do que chama de “desporto inglês”, com especial atenção para o futebol. Partindo dessa premissa, analisa as relações entre o futebol e a guerra e seus impactos sobre a população da França (WAQUET, 2010).

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Também trabalhando com a realidade francesa, Thierry Terret, no livro “Les Jeux interalliés de 1919: sport, guerre et relations internationales”, discute o processo de organização dos Jogos Interaliados de 1919, primeiro evento esportivo internacional no pós-guerra[2] realizados em junho daquele ano, em Paris. O autor analisa todo o processo de planejamento do evento, as relações estabelecidas entre os países participantes e os impactos de sua realização para a sociedade francesa naquele momento de reestruturação após o conflito. (TERRET, 2003).

 

Recentemente, foram publicadas duas obras tratando especificamente das relações entre o esporte e a guerra. O livro “Sport, Militarism and the Great War: Martial Manliness and Armageddon”, publicado em 2012 e organizado pelos professores Thierry Terret e J. A. Mangan, dedica-se a discutir os aspectos da prática do esporte entre os militares e suas relações com o conflito armado no contexto da Primeira Grande Guerra. A obra é estruturada em duas partes: a primeira, composta por 7 artigos, destina-se a debater a realidade francesa; e a segunda parte do livro aborda a realidade inglesa naquele contexto em 8 artigos, sendo 6 deles de autoria individual ou em parceria com J. A. Mangan. Apesar de discutir exclusivamente os casos de França e Inglaterra, a obra aborda também questões mais gerais sobre o contexto de atuação em conflito e as relações com as práticas esportivas. (TERRET; MANGAN, 2012).

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51LBniVSENL._SX341_BO1,204,203,200_-1Já a obra “Le Sport et La guerre: XIXe et XXe siècles” foi publicada em 2013 e organizada pelo professor Luc Robène. Os textos que compõem o livro foram apresentados no “Colóquio Internacional O esporte e a guerra nos séculos XIX e XX” que ocorreu na Universidade de Rennes 2 entre 28 e 30 de outubro de 2010. A obra possui quase 600 páginas, dividida em 6 partes, com artigos de 52 autores sobre os mais diversos temas da relação entre esporte e guerra. Há artigos específicos, por exemplo, sobre Portugal, Estados Unidos da América, um item exclusivo sobre as guerras coloniais africanas e outro sobre os desdobramentos na área do esporte e da Educação Física no interior das Forças Armadas em diferentes países. (ROBÈNE, 2013).

Sobre o contexto estadunidense, destaco o livro “Playing to Win: sports and the American Military, 1898-1945”, de autoria de Wanda Wakefield e publicado em 1997. A obra analisa as relações estabelecidas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos da América com as práticas esportivas desde fins do século XIX. As discussões analisam o processo de introdução e sistematização dessas atividades e a implementação de suas ligas e competições, sempre relacionando-as com os diversos conflitos com participação do país ao longo do século XX, seguindo até a Segunda Guerra. (WAKEFIELD, 1997).

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Por fim, desejo boas leituras e pesquisas para os interessados nessa temática e até a próxima postagem!

 

[1] Para mais informações sobre as abordagens da chamada Nova História Militar, ver: Parente, 2009.

[2] Por ocorrência dos conflitos, os Jogos Olímpicos de 1916, previstos para ocorrerem em Berlim, não foram realizados, interrompendo a sequência de edições a cada quatro anos desde os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, promovidos em 1896.

Referências:

BAUMANN, R. The Central Army Sports Club (TsSKA) Forging a Military Tradition in Soviet Ice Hockey. Journal of Sport History, v. 1.5, n. 2, p. 151-166, 1988.

MASON, T.; RIEDI, E. Sport and the military: the British Armed Forces 1880-1960. Cambridge: University Press, 2010.

PARENTE, P. A construção de uma nova História Militar. Revista Brasileira de História Militar. Edição especial de lançamento, p. 1-13, dez. 2009.

ROBÈNE, L. Le sport et la guerre: XIXe et XXe siècles. Rennes: PUR, 2013.

TERRET, T. Les Jeux Interalliés de 1919: sport, guerre et relations internationales. Paris: L’Harmattan, 2003.

TERRET, T.; MANGAN, J.A. Sport, Militarism and the Great War: Martial Manliness and Armageddon. New York: Routledge, 2012.

WAKEFIELD, W. Playing to win: sports and the American Military, 1898-1945. Albany: State University of New York Press, 1997.

WAQUET, A. Football en guerre: l’acculturation sportive de la population française pendant la Grande Guerre (1914-1919). 2010. 487 f. Thèse (Doctorat) – Ecole Doctorale Interdisciplinaire Sciences-Sante, Mention Sciences Et Techniques Des Activites Physiques Et Sportives, Université Claude Bernard – Lyon 1, Lyon, 2010.


O Desencanto como instrumento de crítica aos interventores

14/05/2018

No momento em que se aproxima mais uma Copa do Mundo de Futebol e novas Eleições Presidenciais acredito que estamos vivendo uma conjuntura histórica nebulosa e contraditória no que diz respeito à mobilização em torno desses dois importantes eventos coletivos para a sociedade brasileira.

Faltando exatamente um mês para a bola rolar na Rússia não sinto a motivação de outrora, não vejo as ruas pintadas, bandeiras nas janelas e mesmo com um time que ressuscitou nas mãos do técnico Tite um futebol, no mínimo bastante competitivo, não percebo entre os torcedores e nem entre especialistas dos meios de comunicação a empolgação de outras Copas. Diversos fatores são apontados e podem estar contribuindo para este possível desencanto coletivo: o 7×1 contra a Alemanha, a consciência da tragédia dos gastos públicos com os megaeventos, os escândalos envolvendo a C.B.F e a F.I.F.A, a crise política e econômica que assola o país, além da extrapolação do processo de mercantilização e midiatização do futebol cujo ápice simbólico acontece a cada quatro anos com a realização dos torneios mundiais de seleções.

A partir desta ideia de desencantamento popular, gostaria de retroceder quarenta anos para o torneio realizado na Argentina que foi o objeto da minha tese de doutorado e mais especificamente às fontes brasileiras que pesquisei: a revista Placar e o Jornal do Brasil, para abordar o olhar sobre um presidente militar. Não me refiro ao presidente da República Ernesto Geisel cujas revelações mais recentes a partir de documentos da CIA reforçam relatos da Comissão da Verdade sobre a postura extremamente fechada, permanente e genocida do seu governo, mas ao presidente da C.B.D, o Almirante Heleno Nunes.

Nestes importantes veículos da imprensa brasileira também pude perceber uma espécie de desencanto, porém com um sentido distinto, com um discurso velado mas engajado politicamente, com um objetivo político.

A seleção brasileira acabou sendo bastante criticada mesmo permanecendo invicta, conseguindo um terceiro lugar, que foi o melhor resultado desde o tricampeonato de 1970 até a conquista da Copa do Mundo de 1994, além das polêmicas envolvendo a classificação argentina após a goleada sobre os peruanos por 6×0 surgidas principalmente a posteriori.

Na minha interpretação isso ocorreu em função da associação da equipe brasileira com a caserna. A suposta “militarização” do futebol brasileiro tinha dois símbolos principais, o técnico Cláudio Coutinho e seu planejamento tático moderno que segundo diversas reportagens descaracterizaria o “genuíno” futebol brasileiro com os overlapings e pontos futuros, e o Almirante Heleno Nunes que é constantemente apresentado como um interventor do futebol brasileiro, o “ditador” da C.B.D que seria uma  instituição controlada por um Estado centralizador e autoritário, com diversos cartolas cheios de privilégios e que durante o mundial estariam esbanjando a arrecadação de uma loteria nacional que tinha sido entregue para a preparação da equipe.

Um exemplo do que seriam os gastos abusivos dos cartolas foi a descrição da festa de inauguração do centro de informações da CBD, instalado no hotel Plaza:

Um jornalista uruguaio ao ver parte das mesas para o coquetel de inauguração do centro de informações da C.B.D, instalado no Hotel Plaza onde se hospedam os beneficiários da mordomia patrocinada pelo povo brasileiro via Heleno Nunes não conseguiu esconder a revolta.

‒ Mas isso é uma terrível ofensa à fome que parte da humanidade passa. É realmente fantástico.

E era mesmo: perus, leitões, presuntos, camarões, vinhos e até caipirinhas servidas como exótico aperitivo espalhavam-se por três largas mesas por onde gente de toda parte se acotovelava.

Ainda bem que o jornalista uruguaio não chegou a ver na sala ao lado de portas fechadas, idêntico estoque de iguarias em maior quantidade. Era com todos os detalhes uma festa brasileira, ou melhor, uma festa de cartolas brasileiros…

Seu Evandro recepcionava os convidados. Para os colunistas, gente que podia falar de seu trabalho, ele tinha sempre um segredo, contado ao pé-de-ouvido, ou uma apresentação importante masculina, ou feminina: Veja fulano, como tudo está perfeito e espere só para ver quem vem aqui; o Havelange e o Pelé.

Como se o Havelange não fosse figura obrigatória, perfeito arroz de festa, e como se Pelé faturando alto à custa do Café do Brasil não estivesse obrigado por contrato a comparecer. Devia chegar as 18:30 e só apareceu 45 minutos depois comboiados por guarda-costas e apalpados por cartolas.

A festa começou oficialmente com a sua chegada, então as portas foram abertas e os olhos dos estrangeiros presentes se arregalaram frente a presença imponente do ex-rei do futebol” (PLACAR, n. 424, 9 jun. 1978 , p. 40).

Os relatos sobre a ostentação e a grandiosidade do evento, que deveria ser um simples marco da presença de um centro de informações da Confederação durante o torneio, não se configuram apenas em curiosidades jocosas, mesmo sendo superdimensionados.

Perus, leitões, camarões e até caipirinhas teoricamente servidas para convidados ilustres e jornalistas, além da presença em Buenos Aires de um grande grupo de privilegiados “cartolas”, teria sido possível devido às verbas públicas destinadas à preparação da seleção brasileira. Apesar do tom caricato, a reportagem é extremamente crítica à gestão econômica de Heleno Nunes e, consequentemente, ao controle estatal do futebol.

As críticas explícitas a outras duas personalidades brasileiras que também considero marcantes nas representações sobre o torneio são bem categóricas. Tanto Havelange, o arroz de festa, quanto Pelé, o garoto-propaganda, estão presentes no evento da CBD por interesses políticos e econômicos. São figuras centrais na legitimação simbólica da realização do torneio na Argentina e participam ativamente dos mais glamorosos eventos sociais que envolvem a Copa do Mundo da Argentina.

O fato de um militar, político da Arena, estar comandando o esporte mais popular no país, após 17 anos da gestão do civil João Havelange em uma conjuntura em que se clamava por uma abertura política e econômica, potencializou as críticas e as representações autoritárias em torno do dirigente. Inclusive Havelange se tornou seu desafeto público em 1974,  pois queria acumular a presidência da FIFA e da C.B.D, mas por interesses políticos militares o Almirante assumiu a presidência.

Outros episódios que fortaleceram a imagem de interventor e não de presidente da C.B.D teriam sido a conturbada relação do militar com o centroavante Reinaldo, pois para muitos jornalistas ele impediria a convocação do atleta para o mundial em função das suas convicções políticas, e o episódio envolvendo as mudanças da equipe para a terceira e decisiva partida da primeira fase contra a Áustria. As entradas de Jorge Mendonça, Rodrigues Neto e principalmente Roberto Dinamite de quem o Almirante era declaradamente fã em função também de sua paixão pelo Vasco da Gama são atribuídas a ordens de Heleno Nunes. Em reportagem intitulada “O Almirante interventor, mais técnico que o técnico” esse fato é destacado bem como a utilização política do futebol pelos militares.

“O Almirante Heleno Nunes volta da Argentina orgulhoso do seu papel de interventor. Não apenas da CBD, onde ele o é de fato, desde a queda de João Havelange, mas também na própria seleção brasileira, cuja formação mais bem-sucedida nesta Copa do Mundo (com Roberto, Jorge Mendonça e Rodrigues Neto nos lugares de Reinaldo, Zico e Edinho), foram praticamente impostas por ele a Claudio Coutinho…

Quando assumiu a presidência da CBD, o Almirante Heleno Nunes era também presidente da Arena fluminense. Esse acúmulo de cargos longe de ser uma coincidência era uma forma nem ao menos velada de o Partido do Governo utilizar-se do futebol com fins eleitorais. E o grande veículo disso ‒ foi e ainda tem sido o Campeonato Nacional, onde a incessante multiplicação de clubes participantes, quase sempre determinada por motivos políticos acabou num gigantismo sem precedentes com 72 times envolvidos…  (JORNAL DO BRASIL, CADERNO DE ESPORTES, n. 79, 26 jun. 1978, p. 4)”.

A encarnação simbólica do “Almirante interventor” foi na minha análise uma possibilidade dos jornalistas contrários à ditadura atacarem de forma velada, porém corajosa e engajada o próprio regime militar a partir do esporte que é um tema que possibilita uma espécie de licença flexível maior para as críticas mesmo nos regimes militares conforme já assinalou João Malaia em importante artigo sobre os primórdios da Revista Placar.

Retornando ao tempo presente pela perspectiva do desencanto, o que temos hoje na gestão do futebol brasileiro e do próprio país as vésperas de mais uma superfaturada Copa e uma  nebulosa eleição?

O modelo de gestão do esporte brasileiro se transformou completamente a partir da criação da C.B.F um ano depois da Copa da Argentina, principalmente com as alterações estabelecidas pela Constituição de 1988 que ao considerarem a autonomia privada das Confederações e Federações desportivas abriram o caminho para a apropriação de patrimônios culturais brasileiros por organizações mafiosas, corruptas que gerenciam o esporte brasileiro em diversos níveis e lucram muito dentro da nova lógica ultra-mercantil do esporte moderno.

E politicamente ,paradoxalmente, mesmo com novas denúncias e provas históricas, a militarização da sociedade as vésperas de novo pleito eleitoral parece estar sendo exaltada por grande parte da população que não enxerga mais o perigo de amantes da tortura, repressão, censura se tornarem presidentes para depois virarem interventores.

Que o desencanto que serviu de energia crítica contra os Helenos e os Ernestos se materialize atualmente contra novos símbolos intervencionistas. É melhor já ir lutando! Que o desencanto não se transforme em medo!


Barba, cabelo e bigode (Brasil, Lucio Branco, 2016)

07/05/2018

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Em uma determinada situação você se sente vivendo intensamente, vivendo tudo aquilo que você pode. A alegria é a prova dos nove e a liberdade, a felicidade são a mesma coisa e são o objetivo do homem como ser humano.

(Afonsinho; ao fim da película, aproximadamente às 2 horas de exibição).

 

Fazer barba, cabelo e bigode constitui expressão que indica um percurso completo, ou seja, implica uma experiência abusiva: extensiva e intensiva (isso para não entrarmos em meandros de conotação outra – ver https://www.dicionarioinformal.com.br/barba+cabelo+e+bigode/). Nesse sentido, e complementarmente às menções estético-capilares dos protagonistas, o título é bastante pertinente. Faz juz às trajetórias de seus três personagens: Afonsinho, Nei Conceição e Paulo Cezar Caju.

Para todos aqueles que gostam de futebol, tratam-se de nomes usualmente associados a pelo menos a duas características marcantes: à reconhecida qualidade técnica e à força da personalidade. E também, é claro, às suas posições contestadoras. Há uma enormidade de material a respeito: reportagens, artigos, entrevistas e filmes.

Destacamos o documentário Passe Livre (Oswaldo Caldeira, 1974, a partir da vitoriosa disputa judicial de Afonsinho pela possibilidade de dispor de seu próprio passe) e a série de João Moreira Salles e Arthur Fontes, Futebol (1998), novamente incluindo Afonsinho, mas também o Paulo Cezar Caju e outros (indicamos ainda a leitura do estudo de Euclides de Freitas Couto –  Da ditadura à ditadura – uma história política da futebol brasileiro 1930/1978. Niterói, Ed. UFF, 2014).

O filme em questão coloca o tema novamente em foco. A película estreou bem, saindo-se vencedora da sétima edição do Festival de cinema sobre futebol, o Cinefoot (2017 – http://www.cinefoot.org/e-campeao-conheca-os-vencedores-do-cinefoot-7/).

Sem grande preocupação cronológica, a obra remonta episódios relacionados ao mencionado trio futebolístico. Não se restringe ao mundo do futebol, no entanto (embora as cenas de jogo tenham um bom papel ao longo da fita). Repassa os desentendimentos de Afonsinho no Botafogo (no qual a questão da manutenção ou não de sua barba ganhou uma importância que somente a época parece permitir entender), o corte de Paulo Cezar do escrete de 1978 e a história da (não) efetivação de Nei Conceição pelo Palmeiras. Dentre outras histórias. Nessa conversa também não fica de fora o estado atual do futebol brasileiro, cuja situação não é bem avaliada pelos depoentes; tanto organizativa como tecnicamente. Nas suas duas horas de duração, temos contato com muitas cenas e fotos de época, imagens de jogos e da vida pessoal e atual dos três “rebeldes” do futebol. Há ainda uma participação especial de Daniel Cohn-Bendit, em um papo com Afonsinho.

Conforme mencionamos acima, essas e outras narrativas ganham maior implicação ao envolverem temas como racismo, ditadura, participação política: a vida dentro e fora dos campos. É nesse âmbito mais geral que a obra ganha importância como registro histórico e como espaço de discussão. Mas também como libelo humanizante. Este parece ser o sentido do trecho em epígrafe, com o qual iniciamos este post. Por essas e outras, fica o convite ao longa de Lucio Branco.