Desenvolvimento do Esporte: na trilha do Lazer?

12/08/2018

Por Flávia Cruz (flacruz.santos@gmail.com)

No post anterior, meu primeiro aqui no História(s) do Sport, tentei apresentar, ainda que brevemente, indícios de que a industrialização não foi um elemento tão decisivo assim, para a configuração do esporte na cidade de São Paulo. Terminei compartilhando a seguinte pergunta: não haveria elementos mais importantes do que a industrialização, para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Alguns indícios empíricos de pesquisa, me levam a suspeitar que sim.

Um desses indícios, está ligado à natureza do esporte no século XIX paulistano. Em pesquisa sobre a história do conceito de divertimento, realizada a partir da proposta da história conceitual do historiador alemão Reinhart Koselleck, uma prática que identifiquei como divertimento foi justamente o esporte. Não é que isso seja, exatamente e completamente, uma novidade. Inúmeros trabalhos de Victor Andrade de Melo[1] sobre o Rio já apontaram a indissociação entre esporte e diversão, quando dos seus primórdios. Sobre a cidade de São Paulo, Edivaldo Gois, em artigo, também já indicou tais imbricamentos, mesmo em momento posterior, já no século XX.

Mas o fato de o esporte ser uma das atividades englobadas pelo polissêmico conceito de divertimento, de ser buscado pelos paulistanos quando desejavam alegria, prazer, regozijo, de estar ao lado de práticas como os bailes, o teatro, a música, as zombarias, as touradas, os jogos, a leitura, compartilhando com elas sentimentos, expectativas e funções pode ser um indicativo de como se deu sua configuração. A novidade então, no Brasil, seria compreender o esporte, sua configuração e desenvolvimento na trilha de outras práticas culturais de divertimento.

Tendo em vista que o esporte foi a última prática cultural a chegar à cidade de São Paulo – das que identifiquei como divertimento até 1889 –, e que quando isso aconteceu outras práticas já gozavam de um desenvolvimento mais avançado, como as touradas, o teatro, a dança, não seria pertinente pensar que o esporte se desenvolveu na esteira dos divertimentos que o antecederam, que ele encontrou condições para a sua configuração graças a essas práticas?

Para dar um exemplo, vejamos o caso das touradas em São Paulo, estudado por Victor Melo e por mim e publicado em artigo. Tal divertimento acontecia na capital paulista desde o século 18, patrocinado pelo Estado. Durante o século 19, as touradas assumem novo formato, se tornam eventos empresariais. O Estado, ao invés de ter gastos com sua organização, como outrora, passou a obter receitas, tendo em vista o pagamento de impostos pelas empresas de tauromaquia para a realização dos espetáculos. Os empresários precisavam contratar profissionais, entre eles os toureiros, precisavam pedir licença à Câmara, adquirir gado, divulgar o evento, vender ingressos.

Esse último elemento, colocava uma nova exigência aos organizadores do espetáculo: agradar ao público. Sem isso, o negócio não prosperava, pois o público não comparecia e ainda reclamava, o que, por vezes, gerava incidentes. A necessidade de agradar ao público, fez com que os empresários lançassem mão, rotineiramente, de “novidades”. Eram mais ou menos o que chamaríamos hoje de estratégias mercadológicas. Se os touros ou toureiros não eram bons, a novidade era uma mulher toureira, ou números cômicos e musicais nos intervalos, a realização de sorteios, bem como a diversificação das técnicas de tourear.

Havia, constantemente, a tentativa de aperfeiçoar o espetáculo, de agradar ao público. Quanto maior a expertise do empresário, maior o sucesso das touradas. Em São Paulo o grande nome desse “gênero de divertimento” foi Francisco Pontes. Com passagem por cidades do Brasil e da Europa, esse empresário sabia adequar o espetáculo às exigências dos novos tempos. Instituiu uma diferenciação nos preços dos ingressos, criando o modelo “sol e sombra”, usava estratégias discursivas nos anúncios dos espetáculos, se ligava à causas de interesse público, sua trupe era competente, ele mesmo possuía muitas habilidades como toureiro. É um bom exemplo de empresário do ramo do entretenimento já no século XIX.

As mulheres eram presença frequente nos espetáculos tauromáquicos, como público. Mas foram também, em algumas ocasiões, toureiras e cavaleiras. Nomes como os de Maria de Aguiar Barbosa, Anna Angelica do Espírito Santo, Julia Rachel, Josephina Baggossi, figuraram nas arenas paulistanas, causando frenesi.

O que tento demonstrar com esse exemplo, é que os divertimentos anteriores ao esporte criaram não apenas uma certa ambiência para o desenvolvimento esportivo, mas condições concretas para que isso se desse. A estrutura organizacional, a exibição do corpo humano, inclusive o feminino, em exercício, a exposição ao perigo, a organização de arenas, as estratégias de mercado, são alguns dos elementos que as touradas desenvolveram ou ajudaram a desenvolver, e que podem ter sido aproveitadas pelo esporte para sua configuração. O teatro, a dança, a música, também podem ter oferecido contribuições ao esporte e à sua estruturação?

As questões bem como o raciocínio aqui apresentados tem algumas implicações. Significa e torna necessário pensar o esporte de modo menos autônomo, como uma prática que se desenvolveu em relação com outras, podendo, inclusive, ter se aproveitado de certas estruturas e elementos, desenvolvidos por essas outras práticas, para avançar.

[1] Alguns exemplos: MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos – uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2010. MELO, Victor Andrade de. O esporte como forma de lazer no Rio de Janeiro do século XIX e década inicial do XX. In: MARZANO, Andrea; MELO, Victor. (orgs.). Vida divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.

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FONTE NOVA: a síntese do futebol baiano, palco de sorriso e choro

06/08/2018

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

     O Estádio da Fonte Nova foi inaugurado oficialmente em 28 de janeiro de 1951, um ano após a Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediara e perdera para o Uruguai, em 1950. O jogo de abertura foi Botafogo x Guarany, duas equipes hoje ausentes do cenário esportivo baiano. Nesse início, a capacidade estimada de público estava em torno de 30.000 pessoas. A Fonte Nova viria para substituir o já velho Campo da Graça.

     O estádio deveria ter sido uma das sedes da Copa de 1950, fato que muito orgulharia a Bahia, por a levar para a maior festa do futebol e assim, receber em suas terras equipes, jogadores e torcidas de diferentes nações. Todavia, a obra não ficou pronta a tempo, condição que ao contrário de orgulho, acabou por gerar uma insatisfação para o baiano, não apenas por perder a chance de sediar jogos da Copa, mas também, por naquele momento, ter se sentido a margem de uma pretensa capacidade criadora e renovadora que se vivia no país. Mais uma vez a Bahia ficava de fora da festa nacional, mesmo com toda sua importância e tradição.

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Imagem 1: A Fonte Nova em sua primeira versão, a da inauguração, contando com somente um anel de arquibancadas.  Fonte: http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/11/os-maiores-publicos-pagantes-da-fonte.html

     Mesmo com esse dissabor inicial, durante décadas a Fonte Nova animou tardes e noites de futebol soteropolitano e mesmo nacional, sendo palco das principais competições futebolísticas locais e brasileiras. O estádio assumiu um lugar especial no coração baiano, que além de nele viver os prazeres do futebol, acabou por ver nele, mesmo com o atraso da inauguração, um orgulho da arquitetura baiana. Obra do escritório do arquiteto Diógenes Rebouças, um dos gênios baianos, cravado próximo a um cenário a época bucólico e querido, o Dique do Tororó, que foi construído no século XVII, para ser uma frente de proteção da cidade, que então, se concentrava na parte alta e que foi aos poucos, perdendo essa função e passando a fazer parte do cotidiano soteropolitano.

     Foi essa Fonte Nova que existiu em Salvador, até que a cidade entendeu que era preciso um novo estádio, ou melhor, era necessário revigorar e ampliar a Fonte Nova, já que a original se tornara pequena para os grandes públicos que lá iam.

     A remodelação previa a construção de um segundo anel de arquibancadas, que permitiria a ampliação do público. Durante as obras, os baianos lidaram com dúvidas e inquietações quanto a capacidade de segurança do estádio, se perguntava se as bases do antigo estádio suportariam a nova estrutura e aí, se lembrava que a Bahia não foi capaz de construir o Estádio a tempo da Copa de 1950 e que mesmo após a inauguração em 1951, foi mesmo apoximadamente um ano após isso que os trabalhos foram finalizados, até então ainda havia uma condição provisória.

     Após tanta espera, dúvidas, excitações, chegava a hora da nova inauguração, se abriria um novo marco no futebol baiano.

     Era verão em Salvador, mais um dia de sol, mais um dia de futebol na Fonte Nova. A cidade para lá se virava em festa, afinal, jogariam nesta data Bahia e Vitória, os dois clubes com as maiores torcidas do estado. Outros dois grandes clubes brasileiros lá estariam, o Clube de Regatas Flamengo (Rio de Janeiro) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Porto Alegre). Os jogos seriam Bahia x Flamengo, de abertura e Vitória x Grêmo, no fechamento da dupla rodada de festa. Sobre a inauguração, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 04/03/1971), além de anunciarem a programação, definiam o novo estádio como um dos maiores e mais bonitos do país, com capacidade oficial de 110.000 pessoas.

     Acontece que a jornada, ao invés de ser de festa, foi de dor. Durante a rodada, no segundo jogo, um desastre aconteceu e acabou gerando acidentes e mortes e assim, o novo estádio baiano, teve sua reabertura marcada pela dor. Em 5 de março de 1971, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil estampavam que explosão e pânico causaram a tragédia.

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                   Imagem 3: O público invade o campo.
Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/fonte-nova-tumulto-marca-festa-de-reabertura-do-anel-superior-em-1971/

     Como dito, na população sempre houve dúvida sobre a segurança no novo estádio e foi assim, que o estouro de uma lâmpada provocou estardalhaço, correria e desespero, provocando os acidentes e as mortes. Ou seja, o temor inicial acabou gerando uma onda de pavor, levando as pessoas a pensarem que seria um desabamento. Para além disso, a platéia estava acima do indicado, com pessoas espremidas em grades.

     A Fonte Nova, espaço querido do soteropolitano, templo do esporte bretão jogado em terras baianas, sempre foi palco de festas, de alegrias e comemorações, de sorrisos por vitórias, de lamentos por derrotas, mas também, em alguns momentos, de dor por tragédias. Tragédias estas que não coadunam com o espírito da torcida baiana, independente de seu time de coração, mas aconteceu e a Fonte Nova, se calou e chorou. Esta relatada foi uma, outra ainda aconteceu, mas isto fica para depois.

     Por enquanto, fiquemos com a imagem de uma Fonte Nova aberta para o Dique, que sorri para a cidade, que alegra e se alegra com a presença do público em suas arquibancadas.

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Imagem 4: A “velha” Fonte Nova, ainda antes da obra.
Fonte: http://ssa2014.blogspot.com/p/arena-fonte-nova.html

 

 

 

 

 


Um contista de futebol bissexto

29/07/2018

Por Edônio Alves

O futebol é sabidamente um jogo entranhado na vida brasileira. Queremos dizer com isso que o jogo de bola aos pés, cuja trajetória em nossa história cultural e literária procuramos explicitar nos textos publicados nesse blog, a partir de sua efetivação por meio do concurso mútuo do campo do jornalismo com o da literatura, já se firmou como mote especulativo de abrangência e legitimidade tais que os autores brasileiros de ficção têm facilmente como justificar, com a eficácia própria dos seus trabalhos literários, o investimento direcional que essa produção tem feito no assunto.

 Tal motivo literário é hoje – podemos dizer junto com o que dizem alguns textos aqui já analisados – um meio riquíssimo (dentre outros já canônicos e estabelecidos) através do qual a nossa arte literária vem eficazmente discutindo a condição humana específica do homem brasileiro, considerado na sua vinculação a uma cultura e ambiente próprios.

Assim é que, isolado o homem por trás da bola, como queria conceber Nelson Rodrigues, ou percebido na sua relação visceral com esta, como tentam apanhá-lo na condição de jogador outros tantos autores, a motivação especulativa do futebol tem gradativamente se firmado em nossa literatura como uma demanda geral a que não escapa nenhum olhar atento de escritor verdadeiramente imbuído de propósitos analísticos quanto a nossa realidade social.

Há, portanto, integrados na grande constelação de grandes autores de nossas letras, uns que tem dedicado mais atenção ao tema do futebol e outros menos. Uns até que tomaram o tema como fato motor de suas carreiras literárias e outros que só tangenciam o assunto esporadicamente; aproveitando o vai-e-vem das ondas de imput e output dos recortes emergentes em tais ou quais momentos da nossa vida cultural em ebulição.

Esse segundo caso é precisamente a situação do escritor Lourenço Diaféria quanto à ligação da sua literatura com o tema do futebol, nas letras nacionais.

Nascido em São Paulo, a 28 de agosto de 1933, Diaféria morreu na mesma cidade em 16 de setembro de 2008. Foi contista, cronista e jornalista brasileiro. Sua carreira jornalística começou em 1956 na Folha da Manhã, atual Folha de S. Paulo. Como cronista, o início foi mais tardio, em 1964, quando escreveu seu primeiro texto assinado. Permaneceu no periódico paulista até 1977, quando foi preso pelo regime militar por causa do conteúdo da crônica, Herói. Morto. Nós, considerada ofensiva às Forças Armadas. A crônica comentava o heroísmo do sargento Sílvio Hollenbach, que pulou em um poço de ariranhas no zoológico de Brasília para salvar um menino. A criança se salvou, mas o militar morreu, vencido pela voracidade dos animais. A crônica também citava o duque de Caxias, o patrono do Exército, lembrando o estado de abandono de sua estátua no centro da capital de São Paulo, próximo à estação da Luz. Diaféria só seria considerado inocente em 1979. Durante algumas semanas, a Folha deixou em branco o espaço destinado ao colunista, em repúdio à sua prisão. Depois da Folha, levou suas crônicas para o Jornal da Tarde, o Diário Popular e o Diário do Grande ABC, além de quatro emissoras de rádio e a Rede Globo de Televisão. Católico, escreveu A Caminhada da Luz, livro sobre dom Paulo Evaristo Arns, a quem admirava. Outra “religião” era o futebol: muitas de suas crônicas falavam desse esporte — e de seu time, o Corinthians.

Nas histórias curta, no entanto, o tema do futebol só comparece em dois contos escritos sob encomenda de uma editora de São Paulo, fato que o torna um típico dentre muitos dos escritores bissextos do assunto futebol na literatura brasileira. Vamos conferir sua escrita futebolística, nas análise desses dois contos que empreendemos para este blog, a seguir:

  •  Urgente, em mãos

Lourenço Diaféria

Escrito especialmente para a coleção Toque de Letra, série Lazuli, da Companhia Editora Nacional, organizada por Miguel de Almeida, com a coletânea intitulada, “A vez da bola”, publicada em 2004, este conto se insere no campo daquelas narrativas de ficção que flagra o futebol como uma arena em que seus personagens cumprem um destino trágico, a despeito – e mesmo por isso – de terem sido vazados numa atmosfera de ligeiro heroísmo.

Mutilado do braço esquerdo por causa de um acidente de trem quando voltava para o subúrbio onde morava, Reinaldo, que trabalhava de servente (sic) no jornal onde o narrador escreve, era, entretanto, um excelente jogador de futebol de várzea.

Parece que ancorado na observação do narrador que a certa altura diz, se contrapondo a um ditado popular não aplicável à circunstância em que ambos foram apresentados na vida – narrador e personagem – : “A gente tem que usar a mão que resta na vida”, ao invés de: “Uma mão lava a outra e ambas lavam o rosto” ­- que seria mais plausível para a situação de duas pessoas que vão se precisar mútua e profissionalmente (Reinaldo era uma espécie de officeboy do jornal) -, o personagem compensa nos campos de futebol, com a excelência de sua maestria com a bola, a deficiência física que carrega na vida.

Conduzida com uma ironia simétrica ao destino do personagem, a narrativa pretende leva ao leitor a ideia de que o jogo da vida, também composto de lances inesperados e traiçoeiros, assim como o jogo de futebol, é bem mais difícil de ser jogado. Vide o desfecho que é dado à trama:

 “Consta ter sido uma batida seca, definitiva. Nenhuma mancha de sangue tingiu o asfalto. Atirado ao longe, no chão, junto ao corpo ainda morno, o envelope gordo onde se lia: Urgente, em mãos”.

A radicalidade irônica da expresão “Urgente, em mãos”, diz tudo numa situação em que, sem as duas mãos, ferramentas de resto sempre necessárias ao enfrentamento da vida entre os humanos (ainda mais nesse caso em que o personagem era entregador de documentos), também não lhe valeram os pés, ainda que exímios na condução do jogo da bola.

Se, como dizem, o mundo é uma bola, o personagem deste conto de Lourenço Diaféria sequer teve a chance de trocar as mãos pelos pés, no seu particular enfrentamento do mundo.

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  • A rã misteriosa

Lourenço Diaféria

Também escrito especialmente para a coleção Toque de Letra, da Companhia Editora Nacional, organizada por Miguel de Almeida, com a coletânea intitulada, “A vez da bola”, publicada em 2004, este conto é bem mais simplório do que “Urgente, em mãos”. Tanto do ponto de vista da situação da trama, mais propensa a ter melhor rendimento estético no gênero crônica, porque se assenta naquelas veredas por onde costumeiramente se captam as coisas do cotidiano, quanto da resolução que é dada a ela, através de um texto fluido em que se quer expor, a partir do mote dos esporte (aqui, de novo o futebol), o lado mais uma vez irônico e também risível dos contrastes da vida.

O personagem central é Petronilho, um senhor aposentado que ainda “bate sua bolinha com amigos”, mas ao invés de envergar, na foto, algum troféu por alguma façanha nos campos de pelada, esse nosso senhor do bizonho, é flagrado, nesse texto quase-crônica, com um anuro nas mãos.

O tempero do texto, que não apresenta novidade alguma em termos de procedimentos estéticos aplicados ao conto, nesse caso só digno desta classificação por causa do desfecho criado com ligeira inventividade, fica por conta do seu tom jocoso e da novidade da situação criada. “Na mão direita, segura uma bola de futebol usada; na mão esquerda o anuro ainda vivo”. Talvez se não tivesse antecipado ao leitor o que significa o vocábulo “anuro”, e, portanto, enfraquecido a sua função diegética para o caso, o texto rendesse mais em termos de efeito de sentido, conforme certamente nos asseguraria o mestre das estórias curtas, Julio Cortàzar.

PARA LER MAIS:

As histórias curtas do autor, acima, estão em: DIAFÉRIA, Lourenço; PIZA, Daniel; ANGELO, Ivan. A vez da bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004. p. 7-9. (Coleção t


Mohamed Salah, a Chechênia e a Diplomacia do Futebol

23/07/2018

Por Maurício Drumond

 

Chegou ao fim mais uma Copa do Mundo. E como sempre, ao final de uma Copa, fica um gostinho de quero mais. Uma sensação de desânimo ao pensar que a próxima só acontecerá daqui a quatro anos. Somando-se a essa tensão há também, para nós que escrevemos sobre futebol, outra questão: praticamente todos os estudiosos do esporte estão publicando suas reflexões sobre a Copa, abordando o objeto a partir de perspectivas diversas e com diferentes graus de profundidade e de qualidade de análise. Assim, tendo um artigo programado nesse blog apenas uma semana após seu encerramento, encontro-me em um dilema: como não escrever algo sobre a Copa do Mundo, mesmo sabendo que um texto sobre o assunto tende a ser mais um sobre o tema, e que dificilmente trará algo ainda não disponível em outros sítios?

Essa situação se complica ainda mais no que se refere à relação entre futebol e política. Se ainda existem aqueles que defendem que futebol e política não se misturam, a fragilidade de seus argumentos ficou ainda mais evidente após essa Copa, que foi marcada por diversas situações que exaltaram essa simbiótica interação. Assim, artigos de jornalistas, acadêmicos, cronistas e outros infestaram a rede apontando os aspectos políticos que a Copa exibia em seus jogos, especialmente sobre os mais evidentes, mas também de alguns mais sutis.

Retomo aqui então um momento realizado antes do início da competição, que demonstra a importância do esporte, e do futebol em especial, como importante fonte de aquisição de capital político. Aproveitando-se da atenção e dos sentimentos gerados por estrelas de futebol ou pela própria Copa do Mundo, agentes do campo político buscam ser vistos e associados a atletas e ao evento em si, como forma de publicidade doméstica e internacional. Nesse sentido, destacam-se as iniciativas de Ramzan Kadyrov em aproximar sua imagem à de Mohamed Salah, astro do futebol internacional.

 

Quem é Ramzan Kadyrov?

Ramzan Kadyrov é o presidente e líder político nacionalista da Chechênia, uma república da Federação Russa de maioria islâmica, com histórico separatista envolvendo guerras por sua independência nos anos 1990. Depois do fim da União Soviética, um grupo de líderes chechenos declarou sua independência e a formação de um governo autônomo. A Rússia reagiu em 1994, enviando tropas para a região e iniciando a primeira Guerra da Chechênia, que durou até 1996, terminando com um cessar fogo e reincorporando a região à Rússia. Nos anos 1999 e 2000 novos conflitos surgiram, com grupos guerrilheiros islâmicos, que continuam em atividade até os dias de hoje, ainda que com menor atividade.

Aliado de Putin e homem forte da região, Kadyrov tem um histórico ligado aos conflitos. Seu pai, Akhmad Kadyrov, era uma importante figura no movimento independentista, mas mudou de lado e passou a apoiar os russos a partir da segunda Guerra da Chechênia. Em 2003 ele se tornou o primeiro presidente da República da Chechênia, uma região da Federação Russa. Sete meses depois, ele foi assassinado por uma bomba nas tribunas de um estádio de futebol, ao assistir um desfile em homenagem à vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Ramzan Kadyrov assumiu então o comando da milícia de seu pai, os Kadyrovtsy (os seguidores de Kadyrov) e foi eleito presidente da região em 2007, mantendo-se no cargo até hoje.

Controverso em relação a direitos humanos, ligados a torturas e desaparecimentos de oposicionistas políticos, além de políticas de perseguição e encarceramento a homossexuais e de discriminação de mulheres, sob a égide de um discurso de radicalização religiosa. Ele também tem forte ligação com o mundo do futebol. É presidente honorário do principal clube de futebol da cidade de Grozny, capital da Chechênia. Originalmente chamado de Terek Grozny, o clube foi renomeado como Akhmad Grozny em 2017, em homenagem ao pai de Kadyrov, abandonando a referência ao principal rio da cidade.

 

Kadyrov e Mohamad Salah

Não é mera coincidência, então, que Grozny tenha sido a sede inicial de preparação da seleção egípcia em solo russo, e que Kadyrov tenha se utilizado da presença da principal estrela egípcia, o atacante Mohamed Salah, para se promover. De acordo com a imprensa britânica, o presidente checheno teria aparecido de surpresa no hotel onde a seleção egípcia se hospedava antes de sua estreia na competição. Salah ainda estava no hotel se recuperando da lesão sofria na final da Liga dos Campeões e teria sido surpreendido pela comitiva presidencial, e teria sido levado com Kadyrov para o estádio do Akhmad Grozny, onde o resto da equipe treinava. Lá, foi alvo de fotos e vídeos andando junto a Kadyrov e apertando sua mão.

 

O evento culminou com um jantar oferecido à delegação egípcia antes de sua partida para seu jogo final na Copa, contra a Arábia Saudita, onde Kadyrov entregou para Salah o título de cidadão honorário da Chechênia. “Mohamed Salah é um cidadão honorário da República da Chechênia! É isso mesmo!” Kadyrov publicou na internet. “Dei a Mohamed Salah uma cópia do decreto e um botton no banquete que dei em homenagem à seleção egípcia”.

07 Salah cidadania

A escolha por Salah não foi aleatória. Um dos jogadores de maior destaque na temporada europeia, Salah é o principal jogador de futebol muçulmano da atualidade, e talvez de todos os tempos. O islamismo é uma das bases do poder de da política de Kadyrov, e sua aproximação com o astro do futebol islâmico seria certamente vantajosa, como parte da estratégia de se apresentar como um líder benevolente, contrapondo a imagem difundida pela imprensa ocidental de perpetrador de crimes contra a humanidade.

Salah, por sua parte não se pronunciou oficialmente sobre o caso. De acordo com a imprensa, o jogador foi pego de surpresa e cogitou até mesmo abandonar a delegação egípcia antes do jogo contra a Arábia Saudita. Apesar da federação egípcia alegar que a informação, veiculada pela CNN, não tinha fundamento, algumas evidências demonstram o contrário. Após marcar o gol egípcio contra a Arábia Saudita, em sua despedida da Copa, Salah não comemorou o gol, mas simplesmente andou para o centro do gramado, cumprimentando os colegas de equipe que vinham celebrar com ele o 1 a 0. Antes do jogo contra a Arábia Saudita, o jogador postou em rede social a seguinte mensagem, traduzida pela imprensa britânica como “Todos no Egito estão juntos e não há qualquer desentendimento entre nós. Nos respeitamos e nosso relacionamento é ótimo”.

salah tweet

Outra postagem do atacante, dias depois, trouxe o incidente novamente à tona. No dia 1 de julho, Salah escreveu “Alguns podem achar que acabou, mas não acabou. Precisa haver mudança”. Ainda que alguns acreditem que a postagem, feita após a eliminação da Espanha no torneio, tenha se dirigido a Sergio Ramos, responsável pela lesão que quase tirou o atacante da Copa do Mundo, outros apontam para uma indireta sobre a Federação Egípcia de Futebol. É importante lembrar que Salah e a Federação Egípcia já tinham entrado em disputa meses antes da Copa em relação à utilização de direitos de imagem do atleta sem sua permissão.

Seja como for, Salah foi mais uma peça utilizada pelo presidente chechênio em sua estratégia de associar sua imagem com a de celebridades ligadas ao mundo do esporte. Seu governo autoritário sobre a região e suas raízes ligadas ao radicalismo islâmico são mantidos por meio da opressão e da produção de consenso. E uma das formas de consolidar sua imagem de força e masculinidade é através do esporte, especialmente o futebol e o MMA. Ao longo dos anos, uma longa lista de personalidades ligadas ao esporte e ao mundo da luta visitaram a Chechênia a convite de Kadyrov. Os atores Jean-Claude Van Damme e Hillary Swank participaram de sua festa de aniversário em 2011, recebendo altos cachês. Steven Seagal se encontrou com ele em 2013. O lutador brasileiro Fabrício Werdum foi patrocinado por Kadyrov, que mantém contato com muitos outros lutadores, incluindo Floyd Mayweather.

A ligação de Kadyrov com o mundo do esporte ainda precisa ser melhor investigada, seja através do futebol ou da luta. Em 2017, Kadyrov organizou um jogo de futebol em comemoração ao aniversário de Vladimir Putin. O jogo foi realizado entre uma equipe de celebridades esportivas russas e uma seleção master italiana, que contava com Paolo Rossi e outros ex-jogadores. O time russo contou com a participação de Ronaldinho Gaúcho e do próprio Kadyrov, que empunhava a braçadeira de capitão, no estádio do Akhmad Grozny. A equipe russa venceu o jogo por 6 a 3, com gols de Ronaldinho e do próprio Kadyrov. No Instagram, Kadyrov publicou:

“Eu quero compartilhar a boa notícia de que tive a honra de marcar um gol nesse jogo dedicado à Vladimir Vladimirovich contra a seleção italiana! As arquibancadas estavam cheias. Antes do início da partida, cantamos os hinos nacionais da Itália, Rússia e da República da Chechênia.  O Estádio estava repleto de belas imagens. Durante o jogo, um retrato de 1.800 metros quadrados de Vladimir Putin foi exibido em uma das arquibancadas. Após o apito final, o céu sobre a Arena Akhmad se iluminou com os coloridos fogos de artifício”.

Através do futebol Kadyrov estabelece vínculos com o nacionalismo checheno e com a mãe Rússia. Com o mundo do esporte internacional e com o islamismo. E busca associar sua imagem ao jogo a moldar a percepção internacional a seu respeito. No entanto, ele não inovou em nenhum desses quesitos. A promoção da imagem política através do futebol é tão velha quanto o próprio esporte bretão. Nessa mesma Copa do Mundo, por exemplo, vimos outro caso de destaque nesse sentido, com Kolinda Grabar-Kitarović, presidente da Croácia. Mas isso fica para outro dia.


A crise do “país do futebol”: uma pequena reflexão

10/07/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No post de hoje, aproveitando o momento Copa do Mundo e a recente eliminação da seleção brasileira, peço licença para escrever uma pequena reflexão acerca de alguns discursos e narrativas consolidadas sobre os caminhos atuais e históricos de nosso futebol. É, de fato, mais uma reflexão, baseada em análise de discursos e olhares pessoais, do que um texto acadêmico em si.

Bom, chegamos nas semifinais da Copa do Mundo 2018 na Rússia e, curiosamente, sem nenhum representante sul-americano ainda “vivo” como postulante ao título. Desde 2006 não tínhamos uma semifinal sem a presença de pelo menos um país sul-americano, ano em que Itália e França venceram, respectivamente, Alemanha e Portugal, tendo ambas as seleções depois disputado a final que valeu o título para os italianos e ficou marcada pela cabeçada de Zinedine Zidane no zagueiro Marco Materazzi.

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Zidane é expulso na final da Copa de 2006 após uma cabeçada em Materazzi. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/612206_10-anos-depois-materazzi-revela-o-que-disse-a-zidane-antes-da-cabecada-na-final-da-copa

Antes de 2006, apenas em 1934, 1966 e 1982 (mesmo com o esquadrão brasileiro de Zico e companhia), não tivemos uma seleção sul-americana entre as quatro melhores do torneio mundial. Nas finais, os sul-americanos estiveram presentes em 12 das 21 edições da Copa do Mundo (já contando 2018), tendo sido campeões em nove dessas oportunidades.

Considerando o número de países filiados à sua entidade principal, a Conmebol, é possível inferir que a participação dos países sul-americanos nas Copas do Mundo é, historicamente, muito notável. São apenas dez nações que disputam as eliminatórias para poderem jogar a fase final da Copa do Mundo, o menor número de participantes dentre todas as federações continentais. As eliminatórias na Europa, América Central/Norte, África, Ásia e até mesmo na Oceania, possuem mais países disputando vagas na fase final da Copa do Mundo do que a América do Sul.

É claro que não podemos deixar de destacar a preponderância de três seleções, de forma mais específica, para esse sucesso sul-americano em Copas: Argentina, Brasil e Uruguai. O pentacampeonato dos brasileiros e o bicampeonato de argentinos e uruguaios, elevaram o futebol sul-americano para um outro nível no cenário internacional, batendo de frente com os europeus pela hegemonia nessa modalidade esportiva. Fora essas três seleções, apenas o Chile ficou uma vez entre os quatro primeiros em uma Copa do Mundo, quando foi terceiro colocado jogando em casa em 1962. Colômbia e Paraguai já formaram fortes equipes, mas nunca passaram das quartas de final. O Peru chegou, também com uma grande equipe, ao quadrangular semifinal da Copa de 1978, onde o vencedor garantiria uma vaga na decisão. Mas acabou eliminado como lanterna da chave enfrentando a Polônia e os vizinhos Brasil e Argentina, tendo essa Copa sido marcada pelo famoso e duvidoso jogo do “6×0”, onde os argentinos venceram os peruanos e garantiram, assim, a vaga na final e o consequente título mundial sobre a Holanda.

De toda forma, mesmo com poucas seleções tendo alcançado historicamente o “estrelato”, o futebol sul-americano sempre ficou marcado por discursos e narrativas que o diferenciavam do futebol europeu. A construção social miscigenada do continente (e de forma mais específica em alguns países, como o Brasil), fruto do processo colonizador de dominação europeia e da escravidão por aqui imposta, fez com que diferentes intelectuais, cronistas e veículos de comunicação, tratassem o futebol sul-americano como distinto do “frio” e “tático” futebol europeu, devido suas possibilidades de “improviso”, “ginga” e “malevolência”. Não foram raras as vezes que, ainda nessa Copa de 2018, se fez possível ouvir diferentes comentaristas falando das possibilidades de improviso e da ginga sul-americana em contraste aos europeus.

Mas será essa narrativa real ou apenas uma construção? De onde vem esse olhar? Qual a relação que possui com nossa identidade? E o que isso influenciou (ou não) na eliminação atual do Brasil em 2018? Para entendermos melhor todo esse debate acerca dos discursos sobre o futebol sul-americano e, mais especificamente o brasileiro, temos que retornar à Copa de 1938, ocorrida na França.

Nesse mundial, o cientista social Gilberto Freyre escreveu um artigo, intitulado “Foot-ball Mulato”, onde explicitou um pouco do olhar que buscava consolidar sobre o futebol brasileiro. Nas palavras do autor (1938), em relação a boa participação brasileira na Copa de 1938:

[…] uma das condições dos nossos triunfos, este ano, me parecia a coragem, que afinal tivemos completa, de mandar a Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros. […] O novo estilo de jogar foot-ball me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política. […] Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de foot-ball; e esse estilo é mais uma expressão do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas técnicas europeias ou norte-americanas mais angulosas para o nosso gosto. […] O mulato brasileiro deseuropeisou o foot-ball dando-lhe curvas. […] O estilo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dança dionisíaca.

É notório nas palavras de Freyre o seu olhar teórico, posteriormente muito debatido e criticado, que se refere a existência de uma “democracia racial” no Brasil. Sem ser nosso objetivo, neste post, analisar as críticas e debates lançados acerca das obras do autor, é, todavia, inegável a importância de suas referências na consolidação de um imaginário acerca da sociedade brasileira, seja entendido como positivo ou não. O encontro das três “raças” (brancos, negros e índios) marcaria a miscigenação do povo brasileiro, contrastando com outros povos, como os europeus. E, como exemplificação da teoria, o futebol se evidenciou como uma das manifestações culturais utilizadas por Gilberto Freyre para explicitar seus pensamentos (tal como o samba, a capoeira, entre outros).

Anos depois, Mario Filho, que hoje dá nome ao Estádio do Maracanã, publicou o livro “O negro no futebol brasileiro”, onde dialogou com esses referenciais teóricos de Freyre. Inclusive, na primeira edição da obra em 1947, o prefácio foi escrito pelo próprio Freyre. A tese de Mario Filho/Gilberto Freyre passava por essa ideia de que o encontro de raças e a presença do negro teriam sido fatores positivos para o futebol brasileiro, pois faria com que se diferenciasse do “frio” e “tático” futebol europeu.

Essa narrativa ganhou sua exacerbação a partir da conquista dos mundiais de 1958, 1962 e 1970, tendo tido como destaques jogadores negros e/ou mulatos, como Pelé, Garrincha, Didi, entre outros. Após o fracasso de 1950 e a culpabilidade pela derrota construída posteriormente e dada a atletas como Barbosa, Bigode e Juvenal, a conquista do tricampeonato em doze anos fez com que a narrativa freyriana, difundida na mídia por Mario Filho e espetacularizada por diferentes cronistas, como seu irmão Nelson Rodrigues, ganhasse força e consolidasse a ideia do Brasil enquanto país do futebol.

Após a Copa de 1970, iniciou-se os primeiros momentos de “crise”, acerca do “tipo brasileiro” de jogar futebol. Com um futebol mais tático e burocrático, o Brasil não venceu os mundiais de 1974 e 1978, mesmo não fazendo campanhas ruins. Porém, o 4º lugar de 1974 e o 3º em 1978 (sem perder um jogo!), não se tornaram mais marcantes que o 5º lugar de 1982. Tudo pelo retorno do “verdadeiro futebol brasileiro”, como destacou a imprensa da época, narrativa consolidada e difundida até os dias atuais. Não podemos negar o quanto a prática ajudou a referendar esse discurso. Com um selecionado recheado de craques e, mesmo com as pressões por “tirar os pontas” do esquema tático da seleção, Telê Santana conseguiu estabelecer um padrão de jogo mais técnico à equipe, semelhante ao que se via de 1970 para trás. O resultado negativo naquela Copa foi um choque, tanto para aqueles que acompanhavam o futebol brasileiro, quanto para a própria identidade da seleção que buscava “jogar novamente o futebol arte”. Seja ou não esse um discurso, tratava-se de algo presente nos debates acerca do selecionado nacional brasileiro, notadamente na grande mídia e no senso comum.

Essa busca pelo futebol arte foi se tornando constante mas, em muitas ocasiões, também distante, devido o processo de mercantilização do futebol que se consolidou com força total a partir da década de 1980. Como falar de uma identidade de jogo brasileiro, se nossos principais jogadores já não atuam mais no país? Foi nesse cenário de transição que o Brasil, ainda com Telê, tropeçou em 1986 e, já sem ele, decepcionou em 1990, com uma seleção armada por Sebastião Lazaroni com três zagueiros e que “desconstruiu o modo brasileiro de jogar futebol”, tal como se falava na imprensa. A questão é: temos de fato uma forma de jogar futebol? É possível manter um modelo “raiz” de se jogar, enquanto outras escolas vão avançando taticamente e tecnicamente? São questões para pensar. O fato é que, em 1994, com um time mais “burocrático” e comandado por um inspirado Romário (que desde 1988 já atuava no “Velho Mundo”), o selecionado voltou a conquistar uma Copa depois de 24 anos, mas não convenceu aqueles que buscavam reencontrar o “futebol arte”.

Todavia, a tentativa por essa busca não se encerrou. Retornou com Ronaldo fenômeno, naquele período ainda denominado Ronaldinho, mas esbarrou na sua estranha convulsão na Copa de 1998. Voltou em 2002, cheio de dúvidas e percalços, e encheu de esperança aqueles que clamavam pela volta do “verdadeiro” futebol brasileiro, a partir da conquista do penta comandado pelos três “Rs” (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo).

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Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo comandaram o Brasil no pentacampeonato em 2002. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/516264_rivaldo-monta-seu-11-ideal-da-champions-com-cinco-brasileiros-messi-e-zidane

2006 seria o ápice. A efetivação do retorno desse “verdadeiro” futebol brasileiro, como afirmavam na mídia. E o cenário prévio destacava isso. Além de ser a então campeã mundial, a seleção brasileira havia conquistado uma Copa América (2004) e uma Copa das Confederações (2005), ambas vencendo a rival Argentina na final. Além disso, consolidou a liderança nas eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2006, carimbando o passaporte para o torneio que ocorreu na Alemanha e esbanjando qualidade em campo com o então melhor do mundo Ronaldinho Gaúcho e seus coadjuvantes que, na verdade, dividiam o protagonismo: Ronaldo Fenômeno, Kaká, Adriano “Imperador” e Robinho “pedalada”. Fora a defesa sólida, formada por Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos. Um goleiro campeão europeu (Dida) e volantes que marcavam e, também, jogavam (Emerson, Gilberto Silva e, principalmente, Zé Roberto e Juninho Pernambucano). Um timaço que deixou craques, como o meia Alex, de fora do grupo final da Copa. E que, tal como em 1982, caiu antes do esperado, nas quartas de final para a França (novamente ela…) de Zinedine Zidane e Thierry Henry.

A derrota de 2006 marcou, definitivamente, uma transição no contexto atual do futebol brasileiro: a derrocada da seleção em detrimento da preparação e planejamento das grandes equipes europeias. Equipes essas que apostaram em longos trabalhos para colherem frutos. Casos como os de Joaquim Low, desde 2006 na Alemanha; de Didier Deschamps, desde 2012 treinando a França; ou de Vicente del Bosque, que comandou a Espanha de 2008 a 2016.

O planejamento passou a ser o caminho para mesclar, no mundo globalizado do futebol, a tática com a técnica. E o Brasil, nesse processo, ficou para trás. Ficou com Dunga em 2010 e com Felipão em casa no ano de 2014, com o inesperado jogo do 7×1. Curiosamente, desde então, a Copa em que o Brasil chegou mais longe foi exatamente em 2014, quando em casa alcançou as semifinais e saiu derrotada de forma vergonhosa para a Alemanha. Em 2006 e 2010, a equipe não ultrapassou as quartas de final (fato repetido agora em 2018).

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Derrota por 7×1 para a Alemanha foi a maior da história da seleção brasileira em Copas Fonte: https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2018/06/28/7×1-fez-com-que-colocassemos-a-alemanha-num-pedestal-que-ela-jamais-mereceu/

Mais do que derrotas, não se enxergava mais um caminho de melhoras para a equipe nacional, que cada vez mais perdia força com seus aficionados. Questões mais centrais e problemáticas saltaram aos olhos do povo brasileiro, que viu no futebol, no máximo, uma forma de protestar contra algumas das injustiças sociais que passa diariamente. E quando olhavam para os dirigentes da CBF e de determinados clubes de nosso futebol, envolvidos em diferentes escândalos, o desinteresse aumentava.

Após um 7×1 e duas eliminações seguidas na Copa América, perdendo para Paraguai e Peru, a aposta no nome de Tite pareceu ser aquela que poderia “salvar” a seleção e nos reservar, pelo menos, dias melhores, recuperando o prestígio da equipe canarinho. E, até a Copa, talvez seja notório falar que o resultado foi muito além do esperado, culminando com a liderança isolada nas eliminatórias sul-americanas e a classificação antecipada para a fase final da Copa, após pegar um grupo desacreditado que estava em sexto lugar na disputa.

Seria assim o Tite, de fato, o salvador da pátria? A derrota para a Bélgica na última semana demonstrou, para muitos, que não, passando esses a exigir a saída do técnico do comando da seleção. Para muitos outros, o trabalho demonstrou avanços, sendo o mantimento fundamental para a continuidade do que vem sendo feito, visando saltos maiores no futuro.

De fato, os feitos nas eliminatórias e o resgate, pelo menos no campo simbólico, do valor do selecionado nacional na “Era Tite”, foi inegável. Mas não foi o suficiente para ganhar a Copa. Pelo menos não ainda. Esqueceram de avisar ao Tite que, assim como os estaduais não são parâmetros para a disputa do Brasileirão, as eliminatórias não garantem o sucesso na fase final da Copa. O treinador brasileiro demonstrou que, mesmo buscando se “profissionalizar aos moldes do tático futebol europeu”, não foi capaz de derrotá-los taticamente. Muito pela própria teimosia em não ousar.

O ditado “em time que está ganhando não se mexe” nunca se demonstrou tão equivocado, como no jogo do Brasil contra a Bélgica. Tite, que ganhou tudo no âmbito dos clubes no Brasil, esqueceu que a Copa do Mundo era um torneio curto, diferente de um Brasileirão de 38 rodadas. E que cada adversário deveria ser estudado cautelosamente. Fora algumas convocações extremamente contestáveis, insistir em manter atletas como Gabriel Jesus e Paulinho em campo, após sucessivas atuações irregulares na competição, não só foi um tiro no pé como uma forma de queimar a imagem dos próprios atletas. Com Firmino no banco, Gabriel Jesus poderia ter sido preservado aos 21 anos e não ficar taxado pela imprensa como o “centroavante que não fez gol na Copa”. E Paulinho talvez não precisasse retornar para o futebol chinês (por mais que venha a receber, agora, até mais do que ganhava para ser reserva no Barcelona).

E o que dizer do Neymar? Jogador de talento indiscutível, mas que de longe ainda não é o melhor do mundo, como almeja ser. Nem dentro, nem fora de campo. O lado psicólogo do Tite, quase no estilo “autoajuda” também falhou, pois se uma de suas tarefas mais elogiadas na mídia era a de “recuperar” a vontade dos atletas de jogarem pela seleção nacional após sucessivos fracassos, se esqueceu de moldar, para o melhor atleta tecnicamente falando, um caminho em que esse não tomasse atitudes que fossem reprovadas e buscasse, com trabalho, fazer a diferença que todos sabem que possui a capacidade de fazer. Mas não o fez. Muito pelos mimos e acolhimentos que não condizem mais com as responsabilidades de um atleta global aos 26 anos. Se frases como “o menino Ney” ou “é muito difícil ser o Neymar” fossem substituídas por trabalho sério (tal como Cristiano Ronaldo faz em campo a cada dia que recebe uma crítica), talvez o resultado e a construção de imagem, pelo menos no aspecto individual desse atleta, poderiam ter sido diferentes, o fazendo superar a “síndrome de Peter Pan” e, finalmente, amadurecer enquanto jogador e pessoa. Torcemos que, pelo bem dele e do selecionado nacional, essa experiência da Copa de 2018 tenha servido, minimamente, para fazer uma reflexão.

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Cena comum na Copa de 2018: Neymar no chão reclamando de pancadas. Mesmo caçado, em alguns casos, atitude do atleta foi muito questionada. Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/06/deportes/1530911803_045897.html

Roberto Martínez, técnico da Bélgica que assumiu a seleção em período similar ao Tite no Brasil (em 2016), entendeu que em time que ganha, se precisar, se mexe sim. E foi com um nó tático que conseguiu derrotar o Brasil. Se fosse por resultados, teria tantos motivos como seu colega brasileiro para não mudar seu grupo titular. Afinal, vinha de ótima campanha nas eliminatórias e 100% de aproveitamento até então na Copa. Porém, entendeu que, contra o Brasil, teria que mudar o seu 3-4-3. Reforçou seu meio campo com a entrada de Fellaini, adiantando De Bruyne, um dos craques do time, para fazer um trio de ataque com Lukaku e Hazard. Lukaku que antes atuava centralizado, jogou pela direita e foi fundamental no combate e arrancadas contra a zaga brasileira.

Era um 3-4-3 que, defendendo, virava 7-3, com o retorno dos alas e volantes. E o Brasil de Tite, que não quis mudar, ou mudou muito tarde, não ultrapassou a barreira belga, mesmo nos momentos em que esteve melhor em campo. Um verdadeiro nó tático daquele que ousou mudar por estudar o adversário. E por ser menos teimoso.

Roberto Martínez deu continuidade ao trabalho de Marc Wilmots em 2016, marcando uma continuidade que moldava uma geração de talentos desde 2012. Joaquim Low está no comando da seleção alemã desde 2006. Deschamps desde 2012 na França. Oscar Tabárez treina o Uruguai desde 2006, conseguindo levar a celeste de volta a disputas importantes no futebol, alcançando uma semifinal de Copa em 2010, as quartas nesse ano e um título inesquecível da Copa América em 2011, depois de 16 anos. Até mesmo o trabalho de José Pékerman a frente da Colômbia, onde está desde 2012, deve ser valorizado, pois mesmo sem títulos, levou a equipe de volta aos mundiais depois de 16 anos, disputando duas copas seguidas (fato que não ocorria desde os anos 1990) e alcançando campanhas honrosas tanto em 2018 quanto em 2014 (que foi a melhor da história do selecionado colombiano).

Não sei se nos próximos dias será anunciado o mantimento ou a saída de Tite enquanto técnico da seleção. A continuidade parece ser o caminho mais provável. Pessoalmente, acredito que a seleção teve avanços e que, corrigir os erros, pode ser mais fácil do que recomeçar um trabalho do zero. Mas o primeiro ponto é assumir esses erros e reconhecer que está, ainda, muitos passos atrás de outros treinadores e equipes. E estar pronto para fazer mudanças e ousar. O fato é que, o ideal, independente de ser ou não o Tite aquele que irá comandar a seleção nacional daqui para frente, deve-se dar tempo para a realização do trabalho. E, também, compreendermos que, mais que o técnico, nosso problema maior está nos bastidores sujos da CBF, onde enquanto estivermos sendo controlados por “Teixeiras” e “Marins”, continuaremos em uma crise estrutural que vai muito além da simples escolha do treinador e/ou dos jogadores.

BIBLIOGRAFIA

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. In: Diário de Pernambuco, 18 de junho e 1938.

 


Brasil X México na Copa do Mundo: o Início de um Encontro

02/07/2018

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitor (a):

Dia feliz para todos(as) os(as) brasileiros(as). Hoje a tarde, a seleção brasileira de futebol venceu o México por 2 x 0 pelas oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia. Com gols de Neymar e Roberto Firmino, o Brasil avança para as quartas de final e jogará contra a Bélgica.

Brasil tem um histórico de bons encontros (pelo menos, para nós) com o México e o primeiro deles foi em 1950, justamente na primeira Copa do Mundo sediada por nós.

Neste jogo, em 24 de junho, os brasileiros estreavam na competição e emplacaram 4 x 0 no México com gols de Ademir (2), Jair e Baltazar. O Maracanã, construído para a Copa de 1950 tornava-se o palco não apenas de um projeto modernizante e desenvolvimentista de país, mas um lócus de esperança para a conquista de um título importante no esporte.

A cobertura da Copa do Mundo nos Jornal dos Sports dividia espaços importantes nas páginas do jornal com uma gama de propagandas de equipamentos tecnológicos como vitrolas, máquinas de escrever, máquinas de calcular, de fotografar, bombas d´água, cronógrafos, relógios, bicicletas e rádios de última geração. Uma enxurrada de produtos ditos modernos para uma sociedade que passara a valorizar o consumo de itens simbólicos de um novo momento do país.

O periódico carioca Jornal dos Sports celebrava por meio dos textos dos seus cronistas e jornalistas e enaltecia o início da caminhada do selecionado brasileiro rumo ao título inédito. Todavia, como era de costume, não havia uma confiança excessiva entre os mesmos. Álvaro do Nascimento (conhecido como “Zé de São Januário”) escrevia que: “(…) por incrível que pareça, nunca temi os adversários que chegam do exterior. O meu receio consiste nos adversários cá de dentro. Os ‘quinta colunas’ que por aí andam a dar palpites, metidos a técnicos, verdadeiros espíritos de porco, que jamais se satisfazem com o que Deus lhe deu. Esses, sim, meus amigos!… Esses são capazes de tudo para que subsistam suas opiniões insensatas como as dos asnos. (…) (NASCIMENTO, Álvaro. Jornal dos Sports. 25/07/1950. p. 14). Nascimento aproveitava a crônica sobre o jogo para avisar que deveríamos ter cuidado com o próximo adversário, a Suíça, mas criticava os derrotistas de plantão por não confiar na seleção brasileira.

Antonio Olinto, que escrevia sobre teatro e cinema no mesmo jornal, usa desta cena (conceito proposto por Maingueneau) para ilustrar a bela atuação de Ademir: “(…) Jair sente que pode demonstrar as filigranas de sua técnica se sua técnica, os meandros de sua arte inimitável. Olha para cima, vê um monstro de cimento, repleto de cabeças, de olhos que contemplam suas avançadas, de bocas que exigem seu pé para uma penalidade. Então, respira fundo e sente-se como o ator que vai interpretar o ‘Hamlet” diante da mais culta das plateias. (…)” (OLINTO, Antonio. Jornal dos Sports. 25/07/1950. p.11)

Finalmente, outro grande cronista do jornal, José Lins do Rego apontava a cidade do Rio de Janeiro como a grande protagonista no início do torneio da FIFA: “A cidade mudou de cara com a ‘Copa do Mundo’. Por toda a parte se vê uma mudança de fisionomia. As bandeiras desfraldadas, e por toda parte a ansiedade pelo acontecimento. O Rio de Janeiro se entregou de corpo e alma aos visitantes que aqui chegaram, para ver de perto uma autêntica maravilha da natureza. O Rio não esconde um pedaço de mar, um recanto de floresta, uma nesga do céu. A cidade se preparou com suas melhores festas, aí está bonita como nunca”. (REGO, José Lins do. Jornal dos Sports. 25/07/1950. p.11).

Enfim, a estreia do Brasil era retratada pelo Jornal dos Sports como uma oportunidade de: 1) Manter o caleidoscópio discursivo e estilístico dos cronistas deste jornal; 2) Mobilizar a defesa da cidade do Rio de Janeiro como palco central do campo esportivo brasileiro; 3) Compreender que era necessário vencer o excesso de confiança sobre o desempenho da seleção brasileiro na mesma medida que a mesma deveria ser apoiada de forma inconteste, inclusive nos elogios aos jogadores que se destacavam a cada partida daquele torneio; 4) Ampliar o campo publicitário da empresa por meio da oferta de produtos e serviços. 5) Articular a cobertura esportiva impressa com outros veículos de comunicação como o rádio.

Bem, o resultado daquela campanha todos nós sabemos. Porém, ao olharmos para a Copa de 1950, precisamos descortinar o evento como um todo, em todos os seus meandros e possibilidades, para além de uma preocupação exclusiva com a final contra o Uruguai.

Curiosidade: Em 1950, assim como em 2018, o Brasil ganhou do México, empatou com a Suíça e ganhamos da Iugoslávia (Em 2018, foi o caso da Sérvia). Repetiremos 1950 chegando na final? A saber…

Curiosidade 2: Além do primeiro e último encontro com o México em Copas do Mundo, o Brasil jogou em 1954 (5 x 0), 1962 (2 x 0), 2014 (0 x 0). Ou seja, nunca perdeu e nem sequer levou um gol.

 

 

 


Qual o primeiro clube de montanhismo do Brasil?

25/06/2018

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Praticantes brasileiros de montanhismo, especialmente os do Rio de Janeiro, costumam se referir ao Centro Excursionista Brasileiro, fundado em 1919, como a primeira e mais antiga associação desse esporte não apenas no Brasil, se não em toda a América do Sul. A informação é repetida em vários blogs, sites, listas de e-mails, reportagens da imprensa e até em livros. Mas seria correta tal informação?

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Emblema do Centro Excursionista Brasileiro. Fonte: http://www.ceb.org.br/site/sobre/

De fato, o Centro Excursionista Brasileiro é a associação esportiva dedicada ao montanhismo ainda em atividade mais antiga do Brasil. Nenhuma outra associação dedicada a esse esporte criada antes manteve-se em funcionamento. É realmente notável a capacidade do CEB, como é geralmente chamado, ter-se mantido ativo por um período tão longo de tempo – que completa um século ano que vem (2019). Hurrahs ao CEB!

Todavia, antes dele, outras associações dedicadas ao montanhismo estiveram em atividade no país. A rigor, portanto, o CEB não foi o primeiro clube de montanhismo fundado no Brasil – o que pode soar um pouco frustrante a alguns de seus sócios.

Em outro post deste blog, eu já havia comentado como grupos carnavalescos, bandas de música, sociedades beneficentes ou clubes sociais organizavam regularmente passeios a pé pelas montanhas do Rio de Janeiro desde a década de 1870. Apesar de terem sido arranjadas por instituições diversas, alheias mesmo ao universo dos esportes, essas iniciativas têm a relevância histórica de terem inaugurado um modelo de organização de atividades de lazer na natureza que, grosso modo, seria adotado depois por vários clubes de montanhismo – inclusive pelo próprio CEB.

A partir dos primeiros anos do século 20, vários clubes esportivos promoviam atividades de “excursionismo”, que era a maneira usual como se referiam ao montanhismo naquela época. Não por acaso, como já anuncia obviamente o seu nome, o próprio CEB fora criado como um Centro dedicado ao “excursionismo”.

O “Atlético Club” e o “Centro de Cultura Física” estiveram entre as primeiras associações atléticas do Rio de Janeiro a organizarem excursões pedestres pelas montanhas da cidade nos primeiros anos do século 20. A regularidade dessas atividades, porém, era apenas eventual, já que o propósito principal desses clubes se endereçava a outras modalidades.

Apenas em meados da década de 1910, antes ainda da fundação do CEB, portanto, seriam criados os primeiros clubes totalmente voltados ao excursionismo.

O primeiro deles parece ter sido o “Centro dos Andarilhos do Brasil”, criado, ao que tudo indica, em meados de 1914. A partir dessa época, o Centro dos Andarilhos do Brasil começou a organizar regularmente uma série de atividades excursionistas. A primeira que temos notícias, mas que deve ter sido precedida por outras, é de uma travessia a pé entre o Silvestre e o Alto da Boa Vista. A excursão teria envolvido sete pessoas, numa jornada “agradável” e “feita em meio da mais franca alegria”, conforme noticiou o jornal O Paiz, “aguçada pela amena temperatura da floresta e pelo radiar de um morno e dourado sol de inverno”, concluiu.

O Centro dos Andarilhos do Brasil teria tido ainda uma sede na famosa Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco, de onde às vezes partiam algumas de suas excursões. Basicamente, suas atividades, cujos vestígios documentais desaparecem no primeiro semestre de 1916, geralmente envolviam excursões a pé até Santa Teresa, Alto da Boa Vista, “Serra da Tijuca”, Gávea, Leblon, Ipanema ou Jacarepaguá, às vezes com realização de churrasco e “chapas fotográficas”, e sempre buscando os “melhores pontos de vista”, com muita “alegria”, “familiaridade” e “bons espíritos”, conforme registraram notícias de jornais sobre tais atividades.

Galeria Cruzeiro - avenida Central

Galeria do Cruzeiro, na Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, onde tinha sede o Centro dos Andarilhos do Brasil. Fonte: http://www.rioquepassou.com.br/2006/05/10/galeria-cruzeiro-interior-i/

No ano seguinte, em 1915, notícias sobre atividades organizadas por um tal “Centro Suíço de Excursões Pedestres”, cujo nome oficial, em alemão, era “Scheweizer Wandervogel Rio de Janeiro”, começariam a ser publicadas em diferentes jornais cariocas. Basicamente, as atividades desse centro de excursões consistiam em passeios a pé até o Pico do Andaraí, Alto da Boa Vista, Pico da Tijuca, Pedra Branca, Corcovado, Gávea ou Itacuruçá, praia da vizinha cidade de Mangaratiba, há mais de 90 quilômetros do centro do Rio de Janeiro (para onde provavelmente devem ter partido a pé desde a estação ferroviária de Santa Cruz).

A julgar pelo nome, o Centro Suíço de Excursões Pedestres era uma espécie de extensão do movimento jovem Wandervogel, criado na Alemanha na transição entre os séculos 19 e 20, cujo fundamento era buscar um ideal de vida simples, através de longas caminhadas e acampamentos na natureza.

wandervogel

Caminhada na natureza na Alemanha em princípios da década de 1920 (Arquivo der Deutschen Jugendbewegung). Fonte: John Alexander Williams. Turning to Nature in Germany: Hiking, Nudism, and Conservation, 1900-1940. Stanford University Press, 2007.

Antes ainda do CEB, houve também o “Raid Club”, o “Tourist Club” e o “Andarilhos Brasileiros” (que não está claro se tinha ligações com o Centro dos Andarilhos do Brasil). Em comum, todos parecem ter tido sempre vida curta, nunca excedendo dois ou três anos de existência, apesar do eventual dinamismo com que organizaram suas ações no período em que estiveram ativos.

De todo modo, com muito ou pouco dinamismo, não é apropriado confinar a memória de um esporte apenas às instituições que sobreviveram à prova do tempo. Os perdedores ou os malsucedidos, afinal, também desempenham papéis importantes na evolução de fenômenos históricos. Hurrahs, então, aos antecessores do CEB!