Combate Histórico Medieval, um esporte moderno

15/05/2017

por Maurício Drumond

O que faz um esporte? Uma pergunta que, a princípio, parece ser tão simples, pode nos levar a instigantes debates e acaloradas discussões. Afinal, o que faz de uma atividade física um esporte, ou o que a impede de ser categorizada enquanto tal, é um elemento arbitrário que não é compartilhado por todos. Vejamos algumas definições disponíveis:

O Conselho Europeu, em sua Carta do Esporte Europeu, de 1992, define esporte como “(…) toda forma de atividade física que, através de participação casual ou organizada, tenha como objetivo expressar ou aperfeiçoar a boa forma física e o bem estar mental, formando relações sociais ou obtendo resultados em competições em todos os níveis” (artigo 2, 1a).

Já as Nações Unidas, através de sua Força Tarefa Interagencial sobre o Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, amplia um pouco essa definição, através de seu relatório de 2003, entendendo esporte como “todas as formas de atividade física que contribuem para a boa forma física, o bem-estar mental e a interação social. Estas incluem a brincadeira; a recreação; o esporte organizado, casual e competitivo; e esportes ou jogos indígenas.

Dentro do campo da História do Esporte, a maioria dos estudiosos foge a uma definição mais precisa do que se entende por esporte. Richard Holt, em uma das principais obras sobre a história social do esporte na Inglaterra (Sport and the British), evita uma definição mais precisa sobre o conceito, definindo-o como “uma atividade física agradável, que é geralmente organizada e competitiva, ainda que não necessariamente. Nenhuma linha clara foi traçada entre ‘esporte’ e ‘recreação física’ porque nenhuma é apropriada. Afinal de contas, a maioria das atividades pode ser jogada de diferentes formas e normalmente utilizamos a palavra ‘esporte’ para nos referir tanto ao jogo casual como aos mais altos níveis de desempenho” (p. 9-10).

Já Victor Melo, em seu livro “Esporte e lazer: conceitos: uma introdução histórica”, ancora sua definição de esporte no conceito de campo de Pierre Bourdieu. Por conseguinte, uma atividade física se enquadraria no campo esportivo ao se enquadrar em quatro quesitos: a) organizar-se em instituições representativas (como clubes, federações ou confederações); b) reger-se através de um calendário próprio de competições, encontros ou demais; c) abranger um corpo técnico especializado (técnicos, treinadores físicos, médicos, advogados); e c, no caso, de produtos ditos esportivos, ainda que não necessariamente ligados à prática de esporte.

Todo esse debate introdutório nos serviu para refletir sobre uma prática corporal moderna, de profunda inspiração histórica: o Combate Histórico Medieval. Sim, nesse novo candidato a esporte moderno, pessoas portam armas e vestem armaduras medievais e lutam em combates [moderadamente] controlados.

O Combate Histórico Medieval (ou apenas Combate Medieval) é interessante por diversos motivos. Por um lado, poderíamos olhar para a atividade como um modelo de representação de um imaginário sobre a Idade Média. De acordo com as normas da Federação Internacional de Combate Medieval (International Medieval Combat Federation, ou IMCF), “todas as armas utilizadas nos comb

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ates da IMCF devem ser análogas aos originais históricos. Uma arma utilizada também deve ser do mesmo período e da mesma região da armadura de seu portador” (IMCF Original Rules, 1.2.1). Ou seja, a busca de uma suposta fidedignidade histórica se apresenta como uma das principais características da atividade.

E não para por aí. Além de duelos de espadas e outras armas, há também lutas de grupos, chegando até ao enfrentamento de pequenos exércitos, na modalidade 16 contra 16.

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No entanto, a prática pretende se enquadrar no que se entende contemporaneamente como um “esporte”. Para tanto, é possível ver lutadores de duelos se cumprimentando ao início do combate (ver https://www.youtube.com/watch?v=GSJgPVQJGyk), regras, federações e equipes nacionais.

E aí reside um outro ponto de interesse do Combate Medieval, sua caracterização, ou não, enquanto esporte. Para tanto, seria necessário, em primeiro lugar, buscar uma definição de esporte, como fiz acima. Dessa forma, podemos analisar o Combate Medieval dentro dos parâmetros da teoria de campo de Bourdieu:

a) Organização em instituições representativas 

O Combate Medieval possui diversas instituições representativas espalhadas pelo mundo. Além da já mencionada IMCF, diversas organizações locais e nacionais estão ligadas à prática. A Historical Medieval Battle International Association, organizadora do “Battle of the Nations” (Batalha das Nações), principal campeonato internacional conta com a participação de equipes de 33 países, com variados números de participantes. Já a IMCF conta com 18 países membros.

IMCF

Há também uma série de organizações menores, como a M1, que organiza uma espécie de MMA medieval, no qual os lutadores se enfrentam, com armas e armaduras, em um tipo de octógono, como na imagem abaixo:

M1

 

b) Calendário próprio de competições, encontros ou demais

As organizações de Combate Medieval possuem calendários próprios e competições internacionais periódicas. Em 2017, o campeonato mundial da IMCF será realizado entre 25 e 28 de maio, na Dinamarca. A edição de 2016 ocorreu em Portugal, tendo sua primeira edição sido realizada em 2014, na Espanha. Já a “Battle of the Nations”, realizada de 29 de abril a 01 de maio, em Barcelona.

Os eventos trazem toda a simbologia do esporte moderno, ligadas à imagética e ao simbolismo medievais. Bandeiras, medalhas e troféus fazem parte do evento, além da presença de torcedores e de símbolos diversos representando as nacionalidades envolvidas, como nas imagens abaixo:

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Vencedor Russo não identificado, em foto disponível na página do evento em rede social.

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Torcedores (e competidores?) dos Estados Unidos, carregam seus símbolos nas roupas e nos escudos.

c) Corpo técnico especializado

Além dos fabricantes de armas e armaduras, que teoricamente devem seguir especificações bem definidas de local e período de origem, há também um grupo de treinadores e de outros especialistas. Conforme a popularidade da prática for aumentando, sua eventual profissionalização pode levar a profissionais mais especializados e destacados.

d) Mercado específico ao seu entorno

Ainda que esteja em seus momentos iniciais, já podem ser notados alguns empreendimentos no mercado do Combate Medieval. Na página da “Battle of the Nations”, a empresa “Age of Craft” aparece como parceira, comercializando armas, armaduras e roupas ligadas ao evento. Assim como ela, outros devem existir e tendem a crescer com a maior repercussão da atividade.

E então, se convenceu de que o Combate Histórico Medieval pode ser considerado um esporte em seus primeiros passos? Ou ainda não? Bem, estabeleça seu conceito de esporte e teça seus argumentos. Que tenhamos um bom debate.

 

 

 

 


Borges x Sábato: uma polêmica em torno da identidade nacional durante a Copa da Argentina

08/05/2017

 

No presente post apresentarei um interessante debate entre renomados literatos argentinos sobre a efetiva importância do futebol e da realização do mundial para a ideia de nação argentina em 1978. Jorge Luís Borges[i] e Ernesto Sábato[ii], ícones da literatura latino-americana contemporânea, tinham posições divergentes em relação à organização do evento e a importância do futebol para a identidade nacional.

BORGES

A oposição do grande escritor Jorge Luís Borges ao futebol foi mencionada no Jornal do Brasil, na reportagem intitulada “O esporte segundo Borges”, do correspondente internacional do periódico durante o torneio Aluízio Machado:

A “Copa do Mundo é uma calamidade” e a psicanálise é “o lado obsceno da ficção científica são alguns dos conceitos emitidos pelo escritor Jorge Luis Borges, depois de receber o título de Honoris Causa da Universidade de Tucuman, na Argentina. Com isso aumenta ainda mais sua fama de intelectual capaz de dizer coisas que se não agradam a todo mundo, pelo menos trazem a marca inconfundível da originalidade.

Depois de dizer que “a Copa do Mundo felizmente passará”, definiu o futebol como “um esporte muito estúpido”.

– A organização do mundial só servirá par aumentar os preços. Por isso, durante o campeonato pretendo afastar-me de Buenos Aires, rumo a qualquer parte que não se fale em esportes.

Se seus conceitos sobre futebol causaram surpresa, maior efeito tiveram suas declarações sobre o boxe:

– É um lindo esporte. Gostaria de tê-lo praticado em minha juventude, pois está relacionado com a valentia das histórias de malandros e bandidos.

Tem também preferência pela briga de galos:

– São disputadas bem perto, ideais para um míope, (Borges está quase cego), Mas é claro não são um grande negócio, porque atraem pouca gente. Uns 100 espectadores no máximo. (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, 02 jun.1978, p. 3).

Sobre o posicionamento de Borges e sua repercussão na Argentina, Novaro e Palermo afirmaram[iii]:

Quien puso el dedo en la llaga de este entusiasmo argentino fue un Jorge Luis Borges sarcástico (revista Somos, 23 de junio de 1978): “no es posible que un país se sienta representado por los jugadores de fútbol. És como si nos representaran los dentistas. La Argentina tiene dos cosas que ningún país do mundo posee: la milonga y el dulce de leche. Que más identidad pretenden?

Lejos de lamentar que ni la milonga (que compartimos con los uruguayos) ni el dulche de leche (que compartimos con los brasileños) sean una exclusividad argentina no faltó quien recogiera el guante tomando en sério la boutade; desde el mismo médio, Polakovic sustuvo que, a Borges, “se le escapó el valor etnogenético de las emociones colectivas de ser nacional ; … las multidudes que eran um solo ser … La nación argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el estádio (2013, p. 163).

Apesar da provocação do importante escritor, o discurso que predominava nos periódicos argentinos estudados para a realização da minha tese sobre o mundial argentino alinhava-se com as afirmações do filósofo eslovaco radicado no país Estebán Polakovic, autor de um longo ensaio no Clarín “En el campeonato mundial, la presencia de lo nacional”. O texto trazia uma crítica direta a Jorge Luís Borges e defendia abertamente  Ernesto Sábato, que defendeu a realização do torneio:

No en vano insitia Ernesto Sábato, en sus novelas y sus ensayos, en el hombre concreto, que no és solamente animal, sino un ser espiritual que tiene sus necesidades de amistad, cariño y amor y que quiere sentir que no está solo en la vida. Pues bien, la nacíon és uno de los remédios contra la soledad del hombre. La nacíon dá la sensacíon al hombre del abrigo y protección cuya ausencia se siente al allarse lejos de la pátria aunque séa por vacaciones. Si nó, como explicar la alegria collectiva por el despliegue de las banderas o por la victoria deportiva que provoca las lágrimas y abrazos entre desconocidos? Digán lo que quieran los racionalistas que desprecian las emociones como algo indigno del hombre maduro, ellas forman parte del ser  humano integral  y concreto como la razón con sus razonamientos.

Por esto considero que Borges estava equivocado al condenar el fútbol. Borges es, indudablemente un grande valor cultural argentino, pero no por eso es certo todo lo que disse: se equivoca como cualquier persona humana y se equivocó en la valoracíon de la emocíon de las multitudes. En este caso se le escapo el valor etnogenético de las emociones colectivas del ser nacional argentino. No el fútbol en si (entiendase bien) que és una fuerza etnogenética, sino las vivencias colectivas que provoca: las angustias, las expectativas, las alegrias en las victorias y los silencios en las derrotas. Si Borges pudiera ter visto con sus ojos lo que vieron los ojos e todos los argentinos el 1 de junio al inaugurarse el Mundial, estoy seguro que habria escrito un poema que al testimonar la identificacíon con las multitudes que eran un solo ser en ese momento, hubiera para la posteridad ese acontecimento. No hay duda de que la Nacíon argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el Estádio Monumental. (CLARÍN, SUPLEMENTO CULTURA Y NACIÓN, n. 11.605, 22 jun. 1978, p. 6).

Partindo do conceito de homem concreto de Ernesto Sábato, que mescla o racional com o emocional, Polakovic utiliza metáforas para definir a Nação como o “remédio para a solidão humana”, o “abrigo” e a “proteção” do cidadão que se envolve em emoções coletivas simbólicas, de pertencimento comunitário, como as provocadas pelos esportes – no caso específico, o futebol com suas vitórias e derrotas, angústias e expectativas. Esse esporte despertaria, segundo o autor, “forças etnogenéticas”, que ensejariam a mobilização popular e o pertencimento nacional que para o filósofo não teriam sido enxergadas por Jorge Luís Borges.

Com a vitória na final contra a Holanda foi possível encontrar um discurso de transcendência da conquista futebolística, que poderia influenciar no futuro da nação e combater possíveis “frustrações históricas” do povo argentino, em declaração de Ernesto Sábato sobre o título:

Sábato dijo: Este mundial reveló que el pueblo argentino está ansiando hacer algo positivo, despues de infinitas frustraciones. Reveló un profundo sentimiento nacional aún en momentos de derrota como pasó con el partido frente a Itália, mostrando que ese sentimento no era sordidamente exitista, sino algo más profundo y noble.

Ojalá este merecido triunfo de nuestro equipo sirva para levantar el ánimo de nuestro pueblo para empresas mas transcendentes, para crear las bases de una Nacíon en sério, para permitirmos levantar un país, donde haya teléfonos que funcionen, hospitales que sirvan, maestros que sean honrosamente pagados y con techo. Ojalá que no nos escandilemos con el triunfo meramente deportivo y creamos que somos una gran nacíon. (CLARÍN, n.11.609, 26 jun. 1978, p.29)

As aspirações do escritor por uma macrotransformação social, a partir da mobilização popular intensa ocorrida em um triunfo esportivo, clamavam por uma nação mais “séria”, que pudesse valorizar a educação, a saúde pública, o sistema de comunicações e que, principalmente, acreditasse nas suas próprias possibilidades.

Predominava naquele momento apesar de vozes dissonantes como a de Jorge Luís Borges uma espécie de consenso tácito em torno da “fiesta de todos” e da importância da realização do evento para a nação argentina. A posição de Ernesto Sábato que nos anos oitenta teve uma importância enorme na luta pelos direitos humanos após o fim da ditadura militar, estava de acordo com o sentimento  coletivo integracionista propagado ao longo da realização do torneio.

Quem estaria mais cego, Borges ao não perceber a importância que o futebol tem como elemento de identificação nacional ou Sábato ao acreditar que a união em torno da seleção de futebol poderia impulsionar a criação de uma grande Nação?

ernesto-sabato

 

[i] Jorge Luís Borges (1899-1986), poeta e escritor, é considerado um dos maiores literatos contemporâneos. Nascido em uma família tradicional onde o pai era professor de inglês e psicólogo, desde muito novo já escrevia poemas e estórias além de dominar plenamente a língua inglesa. Chegou a morar na Suíça e Espanha durante a Primeira Guerra Mundial. Ao retornar a Buenos Aires, passa a colaborar com a criação de diversas revistas literárias. Em 1938 morre o pai do escritor, que começa a trabalhar como bibliotecário para se sustentar. Sofre também um grave acidente devido a um problema de visão que o acompanhará ao longo da sua vida fazendo com que Borges ficasse paulatinamente  cego e tivesse que ditar suas obras. Foi perseguido politicamente durante o governo peronista pelo fato da sua família se opor ao estadista, perdendo assim seu emprego e passando a viver de artigos e conferências. Com a saída de Perón em 1955, passa a ser exaltado civicamente recebendo diversos prêmios nacionais e internacionais e é empossado como diretor da Biblioteca Nacional. Com o retorno de Perón, em 1974, apesar do seu renome internacional, Borges é destituído do seu cargo de diretor. Em 1976 apoia publicamente o golpe militar contra “Isabelita” Perón, fato que teria maculado sua imagem no exterior e possivelmente evitado que ele recebesse o Prêmio Nobel de Literatura.

[ii] Ernesto Sábato (1911-2011) foi um importante escritor argentino, cuja obra literária é composta de três grandes novelas: El Túnel (1948) , Sobre héroes y tumbas (1961) e Abbadón, el exterminador, além de diversos ensaios literários. Formado em física e matemática, chegou a morar em Paris onde iniciou uma carreira como técnico científico mas acabou conhecendo escritores e pintores surrealistas como André Breton que influenciaram sua opção pela literatura. Exerceu o magistério na Universidade de La Plata mas também teve problemas com Perón e foi retirado de sua cátedra. Na década de sessenta acabou sendo reconhecido internacionalmente junto com outros escritores latino-americamos e se transformou em um ícone cívico e formador de opinião dentro da sociedade argentina a partir dos anos setenta. Opositor da ditadura militar na Argentina, apesar de ter apoiado inicialmente o golpe,  após o período do “Processo” que ele teria qualificado como “sombrio”, foi nomeado por Raul Alfonsín como presidente da CONADEP (Comisíon  Nacional sobre la Desaparicíon de Personas),  onde coordenou uma monumental pesquisa sobre os desaparecidos políticos no país. Era uma figura pública de elevado prestígio moral e teria afirmado para o jornal francês Le monde durante o torneio que “boicotear el mundial no sólo hubiera sido boicotear al gobierno sino también al pueblo de la Argentina que de veras no merece”.

[iii] NOVARO, Marcos; PALERMO, Vicente. Historia argentina: la dictadura militar 1976-1983: del golpe de Estado a larestauracíon democrática. Buenos Aires: Ed.Paidós, 2013.

 

 

 


Uma festa de atiradores em Santa Cruz do Sul/RS

29/04/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A colônia de Santa Cruz, distante 150 km de Porto Alegre, foi fundada em 1849 e elevada a município em 1877. Ela foi um dos principais destinos de milhares de imigrantes de origem germânica que tinham o Brasil como objetivo. Esta especificidade marcou fortemente a cidade que rapidamente se desenvolveu e se tornou um dos principais municípios do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul as características culturais alemãs se mantiveram vivas, se fundindo e se miscigenando às demais etnias que formaram o povo gaúcho. Nesta região de forte influência germânica os sul-rio-grandenses adquiriram hábitos peculiares que traduzem este marcado hibridismo.

Uma das peculiaridades dos imigrantes germânicos que desembarcavam no Rio Grande do Sul nos séculos XIX e XX era a sua organização em associações culturais e esportivas nos locais onde se reuniam. Em Santa Cruz do Sul não foi diferente. Aliás, foi o município precursor com a primeira associação esportiva destinada ao tiro ao alvo do Rio Grande do Sul, fundada em 1863 e denominada Schützengilde, que significa “corporação de atiradores”.

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Praticamente em todos os centros de imigração alemã existiam clubes de tiro. No entanto, o município se tornou uma referência desta prática. Em 1924, havia pelo menos 81 sociedades de atiradores nas áreas de colonização germânica no Rio Grande do Sul, dentre as quais 30 sediadas no município de Santa Cruz do Sul. Estas associações tinham como objetivo a diversão e a educação. Os clubes de tiro (Schiessklub) ou sociedade de atiradores (Schützverein) eram locais privilegiados e palcos de integração entre os moradores dos municípios.

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Atiradores da Deutscher Schützenverein (Sociedade Alemã de Atiradores) Sinimbu, 1887,
(antigo distrito de Santa Cruz do Sul).

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Nas associações de tiro (Schützenverein) se praticava, assim como nos clubes de caça europeus, o tiro ao alvo, que buscava identificar o melhor atirador entre todos os participantes. As competições de tiro são, portanto, derivadas da prática da caça, necessária a sobrevivência em remotas épocas, assim como são derivadas dos treinamentos militares, responsáveis por preparar os homens para o combate. Com o fim das guerras e da necessidade das caçadas, o tiro ao alvo se transformou em esporte e diversão.

Estas associações cultivavam uma data em especial. Esta festividade era a comemoração mais esperada do ano e se denominava a “festa do tiro” ou Schützenfest. Realizada, normalmente, em um domingo, era marcada pelas provas de tiro, escolha do melhor atirador, através de disputas e grandes festejos com dança, música e cerveja. Tiro ao Rei (Konigschiess) era como se denominava o torneio onde quem tivesse o maior número de pontos era considerado Rei e os seguintes colocados, os cavalheiros. Este grande evento social e cultural era muito comum na região de Santa Cruz do Sul e nas áreas onde esses clubes atuavam.

Ao Rei do Tiro se impunha uma faixa, geralmente de couro com placa de prata e a data da competição. A colocação da fita simbólica no campeão era comemorada com um baile no dia da conquista ou no seguinte, muitas vezes na data de aniversário da sociedade. Na festa a primeira valsa era do Rei com sua acompanhante. Um segundo bailado era dançada pelos Reis e seus pares de outras sociedades de atiradores presentes.

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Festa na Schutzenverein Rio Pardinho

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Diversão, disciplina, esporte, bebida, dança e festa, faziam parte dos clubes de tiro do interior do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul esta era uma das mais tradicionais festividades. Para além dos grandes centros do país ou até mesmo do Rio Grande do Sul, o desenvolvimento esportivo é o resultado de um conjunto imenso de variáveis que faz dessas pequenas regiões interioranas significativos casos de análise que valem o olhar atento do pesquisador. É, justamente, a diversidade cultural e histórica brasileira e todas as suas peculiaridades que legitimam a sua riqueza.

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O racismo e a participação do negro no esporte.

24/04/2017

Por Ricardo Pinto

Em geral, quando tratamos do racismo no esporte reduzimos, substancialmente, o debate a participação, ou não, do negro a uma modalidade esportiva. Vale destacar, ainda nesse contexto, que criamos uma espécie de reducionismo interpretativo ao usarmos a frase “participar de um esporte” vinculado-a a experiência exclusiva da prática em si, deixando de lado ou minimizando, na estrutura esportiva, outras ligações possíveis e, algumas vezes determinantes, ao objeto.

Ou seja, a presença de atletas negros se tornara a peça chave para compreendermos a participação do negro no esporte. Mais do que isso, se havia atleta negro em uma modalidade, grosso modo, não haveria racismo ou, de alguma maneira, os clubes e equipes que tinham a presença destes negros se tornavam símbolos de uma “possível” luta contra o racismo.

A vinculação entre presença de negros e a luta contra o racismo no Brasil é encontrada facilmente nas histórias sobre o futebol brasileiro. Por conta dessa redução grosseira de uma experiência tão complexa, passamos a acreditar que bastávamos encontrar um negro para podermos afirmar que aquele clube ou equipe possuía uma relação direta com a luta dos negros na sociedade.

Compreender esse reducionismo não deve nos levar a uma banalização da importância acerca da presença de negros em alguns clubes. Na verdade, esse fato deve continuar sendo visto como importante passo para a inserção do grupo no círculo dos atletas. Porém, devemos ter cuidado com a ressonância desse discurso, visto que passamos muito tempo acreditando que pensar o atleta era a única forma possível de refletir os grupos sociais e suas inter-locuções com o esporte.

No contexto esportivo, o negro sempre esteve atrelado a história do futebol. Na verdade, assumimos, por conta das escassas pesquisas sobre o século XIX, o futebol como sendo a primeira porta de entrada dos negros, como atletas, no universo esportivo. Claro que estamos tratando do campo esportivo reconhecido, ou seja, das práticas regulamente acomodadas na sociedade que, mesmo que sofressem com críticas, pertenciam na sua prática e simbolismo ao que era adequado. Visto que as experiências dos negros, em geral, eram combatidas, reprimidas e, sobretudo, categoricamente, desprezadas em seus símbolos.

No entanto, Victor Melo, relevante pesquisador do campo esportivo no século XIX, traz em seus novos textos contribuições fundamentais que, mesmo não sendo sua preocupação central, nos ajuda no entendimento sobre a participação do negro no esporte. Melo, em texto recente, nos apresentou fontes importantes nesse contexto.

A começar pela participação dos populares no esporte, Melo deixa claro que em meados do século XIX essa já era uma questão que gerava tensões e debate público, não obstante e/ou por consequência de todas as estratégias de separação e distinção do público envolvido. No entanto, Melo aponta para uma questão ainda mais importante para estudos relacionados aos negros, visto que nos traz a experiência de um jovem negro destaque no turfe em meados do século XIX.

O fato ocorreu em dezembro de 1853, quando Balbino (ou Albino) se destacou em uma prova de turfe. Na verdade, não só uma, foram seis. O pequeno negro, de apenas 13 anos, venceu as seis provas que disputou e acabou, com isso, sendo declarado na imprensa o primeiro jóquei do Prado (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p.1.).

Para além do fato de retirar do futebol a centralidade no processo de entradas dos negros no esporte, Victor Melo nos ajuda a expandir a compreensão a respeito desse fenômeno. Fica claro, a partir destas novas pesquisas, que a despeito de todo o racismo, o negro já estava inserido no esporte bem antes da chegada do futebol e, algumas vezes, com destaque. Ademais, fundamentalmente, seus escritos nos conduz aos indícios, que comprovam a tese, de que já havia o reconhecimento, pelo menos representado por parte da imprensa, de que o esporte, o turfe, nesse caso, já era fonte de possível mobilidade/ascensão social.

Nesse sentido, o caso do futebol, já no século XX, e o seu potencial transformador das “vidas negras” se torna parte de um processo que foi iniciado mais de meio século antes e, não mais, fonte original de todas as transformações. Claro que o futebol continua sendo o esporte que gerou mais resultados nesse sentido, notadamente pela importância que ele assumiu no cenário esportivo, porém, nos parece que o caso do negro no turfe, no século XIX, bem como do negro no futebol, no século XX, estão muito mais vinculados as demandas do mercado do seu tempo, do que de qualquer luta contra o racismo e, principalmente, de qualquer ressignificação do negro na sociedade.

Enfim, as pesquisas acerca da história do negro no esporte ainda tem muito para avançar. No entanto, nos últimos anos, com a descoberta de novas fontes, uma pesquisa mais densa sobre o século XIX, levada a cabo e em destaque pelo Prof. Victor Andrade de Melo, e a estruturação de debates mais amplos e articulados conseguimos dar importantes saltos na compreensão sobre o tema. Com isso, a meu ver, podemos concluir com tranquilidade que: Não podemos mais vincular a luta contra o racismo apontando apenas para a participação de negros em clubes esportivos.

Na verdade, precisamos entender que esse discurso vinculante atende, em larga escala, muito mais a demanda de uma construção romântica sobre o futebol, onde a trajetória do negro nesse esporte passa a representar, também, a sua trajetória em relação a sociedade, do que a efetiva realocação do negro na mesma.

Não houve, em tempo algum, mesmo com atletas negros por todos os cantos e, alguns, com destaque mundial, como é o caso do futebol, uma transformação do país em relação a raça. Precisamos reconhecer que, para o bem e para o mal, O mercado foi, e ainda é, definidor de parte fundamental destas questões.

Bibliografia:

MELO, Victor Andrade de. Amador ou profissional? Um debate primordial no campo esportivo. In: GOMES, Eduardo de Souza, PINHEIRO, Caio Lucas Morais. Olhares para a profissionalização do futebol: análises plurais. Rio de Janeiro: Luminaria Academica, 2015, p. 19-44, 978-85-8473489-4

MELO,___________ Tempo [online]. 2015, vol.21, n.37, pp.208-229.  Epub July 21, 2015. ISSN 1413-7704.  http://dx.doi.org/10.1590/tem-1980-542x2015v213706.


Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


O Prazer das Morenas de Bangu

10/04/2017

Por Nei Jorge dos Santos Junior

“Não resta dúvida que o carnaval de Bangu vai ser em grande parte devido ao Grêmio Carnavalesco Prazer das Morenas”, escrevera o entusiasmado cronista da Gazeta de Notícias em 08 de fevereiro de 1920.

As palavras do jornalista podem, inicialmente, apresentarem para o leitor características hiperbólicas. Afinal, como já fora escrito em alguns textos no blog, a região banguense possuía uma vida divertida intensa, com vários clubes dançantes, carnavalescos, recreativos e esportivos. No entanto, o Prazer das Morenas se destacava por algumas características peculiares, mesmo comparada aos clubes da região fabril.

 Como bem nos lembra Pereira, não era de se estranhar que o Prazer das Morenas iniciasse a década de 1920 como a principal sociedade dançante de Bangu[1]. A composição social do grêmio, desde a sua fundação, já traçava caminhos em direção a consolidação de uma imagem multicultural, permitindo que negros, brancos pobres e imigrantes pudessem compor seu quadro de associados sem qualquer distinção.

JB, Prazer das Morenas

Jornal do Brasil, fevereiro de 1920.

 Fundado em 04 de março de 1909, com sede na Rua Coronel Tamarindo, número 647, o Prazer das Morenas tinha como fins “proporcionar aos seus associados, em sua sede ou fora dela, festas carnavalescas e outras diversões, compatíveis com o caráter da sociedade”[2]. Além desses objetivos, apontados quase copiosamente por outras associações, a sociedade se destacava por outros pontos poucos comuns, pelo menos oficialmente, em outros clubes:

Estimular por todos os meios, que exista entre todos os seus sócios a máxima distinção para evitar preconceitos entre os mesmos, sendo imposta a eliminação aos que a isso derem causa; concorrer aos festejos carnavalescos, organizando, para isso, préstitos, alegóricos e críticos; realizar em sua sede, pelo menos, 5 bailes anualmente;  manter em sua sede, para recreio de seus sócios, toda espécie de jogos não proibidos por lei; manter uma biblioteca acessível ao público; manter uma escola que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem; promover outras quaisquer reuniões, que possam constituir divertimento para os seus associados.[3]

No mínimo, três objetivos, dos seis apresentados pela associação, mostram-se pouco habituais comparados aos demais clubes da região. Manter uma biblioteca e uma escola “que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem” revela uma grande preocupação com a formação dos associados do clube e seus pares. Para se ter ideia, a população da freguesia Campo Grande, a qual Bangu fazia parte, sofria com um grande quantitativo de analfabetismo nos primeiros anos do século XX. Todavia, coincidência ou não, esse índice se transformou completamente se levarmos em conta o período em que a escola da sociedade fora implementada[4]. De acordo com os dados do Recenseamento de 1920, a freguesia mudaria seu patamar, pois dos 52.328 residentes na região, 22.087 sabiam ler e escrever[5]. Isto é, 42,20% da população, um número expressivo comparado ao índice nacional, que era de apenas 24,45%, incluindo brasileiros e imigrantes.[6]

Ademais, outro ponto também nos chamou a atenção. Tratar, por exemplo, sobre preconceito num ambiente recheado de imigrantes e negros sinalizava uma preocupação com o modus operandi local, explicitada apenas pela Sociedade Flor da União, notadamente no momento em que indica, em seus estatutos, a inclusão de pessoas, independente da nacionalidade, religião ou cor, para compor suas fileiras.

ComissãodoPrazerdasMorenas

Comissão de festas do Prazer das Morenas. Fonte: Jornal do Brasil, 08 de fevereiro de 1920.

Acreditamos que tais evidências não são meros devaneios colocados em seus estatutos. Analisando periódicos locais e de grande circulação, conseguimos identificar facilmente exemplos que expressam a consolidação de uma imagem multicultural e miscigenada. Ademais, enfatizar que atitudes preconceituosas de sócios pudessem gerar a eliminação no quadro de associados mostra-se, no mínimo, algo a ser investigado com maior profundidade, pois a rivalidade entre estrangeiros e brasileiros não estava circunscrita somente ao ambiente fabril, mas se estendia pelas festas realizadas nos quatro cantos da zona arrabaldina.

Dessa forma, a ideia de estabelecer relações mínimas de convivência, não só para o bom funcionamento das atividades do clube, como também para a própria unificação de força na luta por melhores condições de trabalho, teve desdobramentos positivos. Para Pereira, o prestígio alcançado pelo Prazer das Morenas garantiu o apoio de grande parte dos comerciantes arrabaldinos, que “não hesitavam, a cada carnaval, em patrocinar os desfiles do clube”[7].  Talvez, a próprio escolha do nome “Prazer das Morenas” já seria uma forma de simbolizar o ambiente multicultural presente do cotidiano do clube, expressando com orgulho a identidade mestiça que o acompanhara desde sua fundação.

[1] PEREIRA, L. A. M. A flor da união: festa e identidade nos clubes carnavalescos do Rio de Janeiro (1889-1922). Terceira Margem, Rio de Janeiro, n. 14, p.169-179, jan./jun., 2006.

[2] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[3] Estatutos do Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas, 1917.

[4] O bairro já contava com outras escolas, entre elas a Escola Rodrigues Alves, fundada em 1905 para filhos de operários da fábrica.

[5] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[6] Recenseamento Geral de 1920, p. 464-465.

[7] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.296.


As viagens motorizadas, os acampamentos na Flórida e seus intrépidos aventureiros: notas históricas sobre os Tin Can Tourists

04/04/2017

Por Valeria Guimarães

 

Quando a expansão do uso do automóvel, proporcionada pelo desenvolvimento econômico dos Estados Unidos após a I Guerra se juntou ao desejo dos norte-americanos de ir ver a América explorando as suas novas estradas em direção ao Sul, no início do século XX, formou-se um movimento singular de aventureiros que tinham em comum o gosto pela prática do camping e pelas viagens em seus veículos particulares – adaptados para longas jornadas e convertidos em trailers.

Assim surgiam os Tin Can Tourists, um grupo organizado, cujo nome não se sabe ao certo a razão, mas que tem muita história para ser contada. Especula-se que há alguma referência ao uso de alimentos enlatados nos acampamentos ou, por outra via, que tivesse relação com o popular modelo Ford “T”, apelidado de “Tin Lizzie” (FLORIDA MEMORY, s/d).

Seja como for, esse movimento organizado, que teve seu pioneirismo na Flórida, chama a atenção por diversos motivos, como a sua estruturação em torno de interesses comuns voltados para o desfrute do lazer, a união da viagem em veículos de passeio customizados com a prática do campismo, a força com que atraiu praticantes da classe média americana, o conjunto de valores morais, regras e rituais cultuados pelos adeptos, as novas sociabilidades surgidas, os jogos esportivos, danças e formas de entretenimento, os impactos na comunidade receptora, entre outros fatores que merecem, sem dúvida, ser estudados com profundidade pelos pesquisadores.

Atribui-se a fundação do movimento ao ano de 1919, em Tampa, na Flórida, época em que também começou a crescer vertiginosamente o turismo receptivo na região, com a chegada de turistas vindos das regiões agrícolas do Norte e do Centro-Oeste do país. Os carros desses viajantes eram modificados, adaptados para receberem barris de água potável e de combustível extra, acoplados na parte traseira, enquanto que no seu interior carregavam suas barracas, peças de vestuário, roupas de cama e muitas latas de comida para garantir a sobrevivência fora de casa, que em muitas viagens se estendiam por semanas.

O filme de animação “Tin can Tourist”, de 1937, satiriza toda a parafernália utilizada pelos proprietários desses modernos trailers que viajavam ao menos duas vezes ao ano para os encontros da organização. É o que se vê na cena abaixo, onde o viajante, um fazendeiro chamado “Al Fafa” encontra-se no interior do seu trailer adaptado com toda a tecnologia para lhe prover dos confortos e facilidades da vida moderna na estrada. A cada alavanca acionada, equipamentos automáticos vão surgindo, como fogão, cama, cabideiro, banheira com chuveiro e água encanada e sofá.

tin can

O filme, que é mudo, possui algumas cenas e legendas que enfatizam toda a excitação com a experiência moderna da viagem, ao mesmo tempo em que demonstram que o turista não está disposto a ter grandes despesas no período, como na passagem logo após a cena destacada acima, em que aparece a seguinte informação: “Everything’s automatic, Life is filled with trhills, Now we can forget about the – laundry – bills!”

Por outras fontes, como no blog Tin Can Tourist (https://tincantourists.com/blog/2016/02/01/tin-can-tourists-history/), consta a informação de que o consumo de grandes quantidades de comida enlatada foi uma estratégia característica desses viajantes para baratear o preço da viagem, dispensando a alimentação em restaurantes. Também eram escassos (e caros) os meios de hospedagem e os veículos adaptados com barracas para acampamento supriam essas necessidades.

Ainda de acordo com a mesma fonte, os veículos avariados na estrada exibiam uma lata no capô e eram identificados por outros tin can tourists, recebendo ajuda para prosseguirem viagem. O principal lema do movimento era unir fraternalmente todos os “autocampers”, e seus valores propagavam a limpeza dos locais de acampamento, a amizade entre os participantes, a prática de entretenimento saudável e zelar pela segurança entre os membros.

Em 1921, passados apenas dois anos da fundação do movimento Tin Can Tourists, esses já somavam 17.000 membros, entre adeptos dos Estados Unidos e do Canadá, o equivalente a 1/3 da população de Tampa, na Flórida. A movimentação gerou grandes impactos sociais e econômicos na região, inclusive forte especulação imobiliária, apontando para antecipações do turismo de massa, fenômeno frequentemente atribuído ao período pós II Guerra Mundial.

Acusações como a de abrirem negócios e fazerem concorrência com o comércio local, entre outros fatores, fizeram com que, ainda na década de 1920, esses turistas fossem tachados pela municipalidade da Flórida de “indesejáveis” e uma mobilização de moradores locais forçou o fechamento do De Soto Park em 1924 para evitar a presença desses forasteiros, obrigando os Tin Can Tourists a escolher outras sedes para as suas convenções anuais.

Essa história em muito se parece com os conflitos que ocorrem entre população residente e turistas em muitas cidades do mundo, especialmente nos balneários, inclusive nos dias de hoje. E no Brasil não é diferente. Pelas bandas de cá, adota-se de tudo para coibir nossos turistas de lata, desde a cobrança de altas taxas para ônibus de excursão ou mesmo a proibição de sua entrada nas cidades até o desenvolvimento de um planejamento turístico voltado para construir destinos de turismo de luxo, a preços proibitivos para a maior parte dos turistas.

A história do movimento Tin Can Tourist não para por aqui. Estas notas introdutórias têm a pretensão de levantar a bola e estimular, quem sabe, novos estudos que mobilizem buscas nos arquivos históricos, nos sites, filmografia e instituições ainda existentes que possam trazer novas luzes a esse tema ainda pouco conhecido entre nós. Os Tin Can Tourists surgem poucos anos antes do aparecimento de movimentos automobilísticos organizados no Brasil, como o Touring Club e o Automóvel Club. Estes, certamente mais elitizados, são ancestrais da popularização do automóvel por aqui. Mas, se procurarmos bem, encontraremos nossos tin can tourists por toda parte, buscando o prazer de viajar e de experimentar novas relações sociais por meio do turismo.

Termino este post com as cenas do encontro anual dos Tin Can Tourists de 1939, de volta à Tampa, na Flórida. O esporte, como não poderia deixar de ser, estava inserido entre as atrações do evento, com exibições de boxe, ginástica e outras modalidades. Vale a pena conferir:

 

Para saber mais:

LONG, LONG TRAILERS. British Pathé, 1939. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Rh6zcokUjRg&gt;

TIN CAN TOURIST. Dir. Davis, Mannie, Gordon, George. Estados Unidos:  20th Century Fox Film Corporation, 1937 (10 min.). Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=JASz9B1ROlE>.

TIN CAN TOURIST – Rollying History. Disponível em: <https://tincantourists.com/blog/2016/02/01/tin-can-tourists-history/&gt;

WYNNE, Nick. Tin Can Tourists in Florida 1900-1970.  Charleston, South Carolina: Arcadia Publishing, 2003.