“Os espetos se embandeiraram com costelas e matambres que plugavam lágrimas de sangue e gordura sobre as brasas do fogão”: um clube à gaúcha

05/12/2016

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

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Porto Alegre, final do século XIX. Tempos de evolução tecnológica, intensa imigração europeia, desenvolvimento de práticas esportivas e de entretenimento. A principal urbe do Rio Grande do Sul estava perfeitamente inserida em um contexto de modernização e adoção de hábitos ditos civilizados, provenientes, em sua maioria, dos países do Velho Continente. Da mesma forma como as demais importantes cidades do Brasil o antigo Porto dos Casais almejava civilizar-se.

No entanto, antagonicamente a toda esta tendência surgiu no meio urbano da capital sulina uma sociedade voltada ao culto dos antepassados sul-rio-grandenses. Como os próprios identificavam, tratava de “reviver os costumes simples, francos e sãos”. Esta foi denominada Grêmio Gaúcho e foi fundada em 22 de maio de 1898. Entre suas ações corriqueiras estavam atividades culturais e de divertimento, sempre inspiradas no passado do Rio Grande do Sul.

Esta sociedade, no entanto, não era constituída por migrantes ou retirantes rurais na sua maioria, mas, principalmente, por militares e intelectuais. Além destes, “muitos bons doutores e moços da primeira sociedade que passeiam na Rua da Praia”, como pudemos ler no periódico A República de 25 de junho de 1898. O mesmo descreveu uma das festividades promovidas pela entidade, da qual trataremos a seguir.

Os seus festejos pareciam reinterpretar um ambiente rural e pecuarista, característico da região fronteiriça e pampeana do estado, exótica e, de certa forma,  anacrônica aqueles impetuosos nativistas sócios do Grêmio. Inclusive os trajes “do antigo gaúcho”, que já não eram mais os seus do cotidiano passaram a ser evocados e exaltados como a essência da sua existência.

Nesta comemoração realizada em junho de 1898, canções e danças do folclore sulista passaram a ser interpretadas na empolgação do encontro que acontecia na região do bairro Glória: “chegaram mais gaúchos e muitas famílias e desde então começou o baile, ora com danças de categoria polka, ora bailados gaúchos como o anú e a chimarrita”.

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A dança do “anu” interpretada pelo Centro de Tradições Gaúchas Lanceiros de Santa Cruz

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Além do interesse na valorização dos costumes do passado, o Grêmio Gaúcho também procurava exaltar aqueles que considerava grandes personagens do tempo remoto sulino. Expunham paredes ornadas com as armas e os feitos dos farrapos rodeadas pelos retratos de Bento Gonçalves, Netto e Canabarro, líderes da Revolução Farroupilha, além de armas antigas, objetos de uso campeiro, quadros de costumes e poesias populares manuscritas.

Em meio a churrasco, chimarrão e danças, havia uma área específica onde os participantes montados a cavalo pousavam para fotografias, comprovando, definitivamente, que aquele ambiente artificial não era o deles. Conforme o próprio periódico alertou: “não se pensem que eram gaúchos de fora”. Esta estranheza foi ratificada pelo próprio jornalista que depôs e aspirava, de fato, visualizar um gaúcho típico do campo e não aqueles seres urbanos fantasiosos que ali se apresentavam como arquétipo de um tipo ideal que almejavam:

– Acho que aqui falta uma pessoa.

– Quem é? Me perguntaram, a autoridade?

– Não, é aquele gauchito que há pouco tempo desbancou os touros lá no circo; porque esse mocito ao meu ver é a mais viva representação do gaúcho cavalariano, aqui nos redores da capital. Por que não lembram que ele foi fazer de improviso aquilo que os toureiros diziam que era uma grande arte?

– Eu não havia fechado a boca, que me disseram: lá vem ele.

E de fato, chegou o mocito, entrou, pediu para inscrever-se sócio e assinou: Ernesto Weirauch.

De fato, Porto Alegre que estava inserida em um contexto de franco desenvolvimento da indústria do entretenimento apresentava especificidades que a colocavam como caso singular no Brasil. Era uma importante cidade que tinha uma destacada ligação com europeus, principalmente alemães, que foram os propulsores da fundação de uma série de clubes e associações esportivas e de divertimento. Além disso, era um local estratégico de trânsito de companhias itinerantes como as circenses e tauromaquicas que circulavam por todo o Brasil e América, especialmente pelos países platinos dos quais é fronteiriço.

Ao mesmo tempo era uma cidade provinciana, muito ligada ao interior e aos costumes do campo. Estes estavam presentes na lembrança mas já não eram mais os praticados no cotidiano, pelo menos por uma parcela significativa da população. Definitivamente, a capital do Rio Grande do Sul era tudo isso, um local entre o rural e o urbano onde confluíam valores modernos, progressistas e se hibridizavam aos tradicionais. A diversão se fazia tanto através de artistas europeus, clubes alemães, companhias circenses estrangeiras, mas, também, através da exaltação de um passado que se transformou em glorioso pelo olhar dos seus provedores. Estas questões estão latentes tanto na formação social dos gaúchos quanto nos divertimentos e nos esportes.

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A limitada luta contra o racismo no futebol

28/11/2016

Virou senso comum levantar bandeiras. Esquerda e direita, contra ou a favor, hoje em dia, nem precisa conhecer a causa, basta um clique e você estará, ou melhor, se sentirá envolvido em questões que, na verdade, efetivamente, você não faz a menor idéia da sua complexidade. Nesses dias, basta um acontecimento virar destaque nas redes sociais que, rapidamente, um frenesi será instalado e, na maioria das vezes, dois grupos passarão a se enfrentar. É assim com as questões relacionadas a violência contra a mulher, os gays e aos negros, dentre tantos outros temas.
No esporte não é diferente. Mesmo sendo reconhecido, rotineiramente, apenas pelas suas boas características, com destaque para as máximas de que “esporte é saúde” e “Esporte é união:”, o olhar sobre o fenômeno esportivo precisa avançar, nesse sentido, para que possamos reconhecê-lo na sua amplitude e totalidade. Vejamos, por exemplo, o caso da luta contra o racismo no esporte.
Não foram poucos os eventos em que o racismo foi exposto de forma explicita no Brasil e no Mundo e, o que é pior, se, num primeiro momento, as coisas parecem gerar desdobramentos que trarão efetividade ao combate ao racismo, passado algum tempo, descobrimos que tudo não passou de mais um frenesi passageiro e inócuo para a luta.
No Brasil, pra ficarmos apenas em um exemplo, lembramos do caso do goleiro Mário Lúcio Duarte da Costa, mais conhecido como Aranha, dos Santos FC, que foi severamente ofendido por torcedores gremistas durante uma partida de futebol. Com grande repercussão, o caso tomou as mídias sociais gerando desdobramentos dos mais diversos, dentre eles a demissão profissional de alguns envolvidos e, mantendo a máxima da violência se resolve com mais violência, a torcedora Patrícia Moreira, flagrada pelas câmeras chamando o goleiro de macaco, teve sua casa pichada e teve que mudar de cidade.
No entanto, mesmo com tudo isso, violência, repercussão e, sobretudo, visibilidade extrema, o caso terminou como um acordo feito entre os agressores e o Ministério Público, acatado pelo Juiz, em que, os envolvidos na agressão deveriam se apresentar a uma delegacia em todos os jogos do Grêmio até agosto de 2015. Enfim, o acordo revela a total falta de conhecimento sobre a profundidade dos fatos e, principalmente, a nossa comprovada anuência sobre esse tipo de crime. Grosso modo, o ataques racista são tidos como um crime menor.
Anterior a Copa do Mundo disputada no Brasil, esse crime gerou um fantasma sobre os organizadores do maior evento esportivo do mundo. Afinal, como no Brasil, país de maioria negra, onde um deles é reconhecido como o maior jogador de futebol de todos os tempos (Pelé), evitariam eventos em que o racismo pudessem colocar em xeque o imaginário do evento????
Devemos lembrar que a FIFA, em março de 2013, após o episódio com o Jogador do Milan, Kevin-Prince Boateng, criou um Força Tarefa para combater o racismo e a discriminação no futebol. O grupo, formado por advogados, jornalistas, jogadores e personalidades, funcionou como um laboratório de idéias que visava impulsionar iniciativas que pudessem apontar soluções para o combate ao racismo no futebol. No entanto, com a crise instalada na maior instituição do futebol mundial, acusada de corrupção sistemática, o grupo pouco se reuniu e, acima de tudo, pouco contribuiu para os avanços nestas questões.
Dissolvido pouco tempo depois, as lideranças da Força Tarefa, criada pela FIFA, com intuito de minimizar a repercussão do encerramento dos seus trabalhos, publicou em seu site as medidas alcançadas pelo grupo:

– Sistema de monitoramento para identificar partidas de alto risco e qualquer tipo de incidente racista.
– Guia de boas práticas para a diversidade e o combate à discriminação.
– Prêmio FIFA de diversidade.
– Embaixadores da FIFA: lendas do futebol envolvidas no combate ao racismo.
– Várias iniciativas como parte da estratégia de sustentabilidade para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia.
– Programa FIFA para o desenvolvimento da liderança feminina.
– Treinamento de árbitros e delegados das partidas para lidar com atos discriminatórios.
– Jornadas de combate à discriminação.
– Campanha “Diga Não ao Racismo”.
– Conferências sobre futebol feminino e liderança em 2015 e 2016 em Zurique.
Ou seja, percebe-se que nenhuma das iniciativas contribuem para um aprofundamento das questões relacionadas ao racismo. Ademais, não houve sequer um trabalho que envolvesse, por exemplo, as torcidas organizadas, que, na maioria das vezes, mesmo sendo parte central do espetáculo do futebol, não participam dos processos decisórios do campo esportivo.
No Brasil, não é diferente. A CBF pouco, ou nada, contribui para avançarmos neste aspecto. Na maioria das vezes, Tanto a CBF, quanto os principais clubes de futebol brasileiro, tem atuações limitadas sobre os episódios racistas. Quase sempre faixas são levadas a campo, multas são aplicadas e, por fim, o que parece encerrar a “luta” das instituições, discursos apaixonados são feitos para que não voltem ocorrem tais cenas.
Vale destacar que, sobre esses pontos, as multas, na maioria das vezes, não são pagas. As faixas não surtem o menor efeito, a não ser o de parecerem politicamente corretas diante das telas televisivas. E os discursos, repletos de senso comum, são tão frágeis quanto as soluções impostas.
Repetidamente, o racismo é combatido apenas com punições em dinheiro e com discursos frágeis. Nenhuma ação afirmativa contundente é realizada sobre os episódios. Ações que envolvam torcidas organizadas ou não, dirigentes e jornalistas esportivos que visem um olhar mais apurado sobre o tema, ou, numa escala ampliada, contribua para a formação de uma geração de torcedores mais bem informados, nunca foram postas em prática.
Enfim, todos os anos, nas comemorações do dia da consciência negra, o tema volta a bailar nas manchetes dos jornais e TVs. Nelas, clubes insistem em emplacar discursos sobre uma luta histórica contra o racismo que, efetivamente, nunca existiu, jornalistas insistem em falar de um tema que não dominam e, pelo visto, nem querem dominar e, o que é mais grave, passado as “comemorações” o silêncio volta a reinar até o próximo episódio se tornar manchete. Ou sejam longe dos holofotes, o mundo da bola continua o mesmo.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Uma breve homenagem a Bert J. Barickman (1958-2016)

18/11/2016

por Rafael Fortes

Republicado com autorização do blog “A Lenda” (https://rafaelfortes.wordpress.com/).

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A maré está mesmo ruim. Pingou na caixa postal uma notícia muito triste. Partiu o professor Bert J. Barickman, da Universidade do Arizona (EUA), especialista em História do Brasil.

Por volta de 2002, 2003, eu era um estudante de graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), quando, não lembro em que contexto, comentei com a professora de História do Brasil II que estava pensando num projeto de doutorado para pesquisar revistas de surfe (eu também fazia mestrado em Comunicação). Ela prontamente sugeriu que eu entrasse em contato com um professor americano, que falava fluentemente português e vinha sempre ao Brasil, e que estava iniciando uma pesquisa sobre a praia no Rio de Janeiro. “Pode escrever para ele em português”, ela me disse.

Bert respondeu meu email com um português e uma simpatia que me surpreenderam. Ao nos encontrarmos para tomar umas cervejas no Arco do Teles (numa época em que a entrada do arco ainda se enchia de mesas e cadeiras), deu várias dicas para o meu projeto e me estimulou a prosseguir com o tema. Mantivemos contato, e, ao longo dos anos, trocamos ideias e referências, e nos encontramos nas ocasiões em que ele veio ao Rio de Janeiro. Bert preferia o português de Portugal, ainda que um pouco desbotado pelas muitas visitas ao Rio. Escrevia em português praticamente com a mesma fluência de seu inglês nativo. Adorava Copacabana.

Bert pesquisou apaixonadamente o Brasil durante décadas. Deixou amigos sobretudo nos departamentos de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde cursou mestrado nos anos 1980, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Publicou trabalhos em português e em inglês, entre os quais se destaca Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003). Em português, veiculou seus artigos particularmente na revista Afro-Ásia.

De sua pesquisa sobre a praia do Rio de Janeiro, o trabalho publicado mais recentemente, que eu saiba, é o excelente “Medindo maiôs e correndo atrás de homens sem camisa: a polícia e as praias cariocas, 1920-1950“, que saiu na edição de junho de 2016 de Recorde: Revista de História do Esporte. Sobre a mesma pesquisa, em português, há outro excepcional artigo a respeito da cor da pele e do bronzeamento entre os anos 1920 e 1950. Espero que o livro venha a ser publicado um dia. Será uma contribuição imensa aos estudos históricos do lazer e da cidade do Rio de Janeiro.

Além de um pesquisador de mão cheia e um intelectual notável, Bert mostrou-se, a cada vinda ao Rio (e nos contatos por email) um colaborador generoso, sempre disposto a trocar ideias e indicar fontes, assim como a fazer perguntas, trazer dúvidas, pedir contatos de amigos. A intensa curiosidade e a busca do conhecimento o faziam avançar; a cautela e o compromisso com a cientificidade o faziam parar e contemplar, desconfiar, ponderar, problematizar. As conversas com cariocas às vezes eram demandadas por dúvidas sobre uma palavra, uma referência, um vídeo. Sua pesquisa sobre os usos da praia na cidade era complexa e difícil, sobretudo à medida que se aproximava do tempo presente, com os diferentes contextos, a dispersão e quantidade de fontes, a intensa midiatização das representações da praia e de seus frequentadores.

Perdemos um pesquisador sério, talentoso, progressista, generoso e que tinha um amor imenso pelo Brasil – amor que estimulou em muitos de seus alunos e orientandos, usando os mais variados métodos, incluindo apresentações de fim de curso heterodoxas com música, vestimentas e arte brasileiras no meio de bares de Tucson, Arizona.

Bert era um tremendo sangue-bom.
 Rafael Fortes
Professor do Departamento de Ciências Sociais
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)
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OLAVO BILAC E A FESTA DA PENHA

07/11/2016

Por Nei Jorge dos Santos Junior

A festa da Penha, instituída no bairro do mesmo nome, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, teve seu início no final do século XVIII. Organizada num primeiro momento pela comissão de festejos da Irmandade da Penha, transformou-se rapidamente numa das principais alternativas de divertimento popular, com “missa solene, as cerimônias de bênção e as barraquinhas de prendas, jogos e comidas, a que se juntaria o ritual e o espetáculo do cumprimento de promessas que faziam penitentes infatigáveis subir os 365 degraus que levam ao santuário”[1].

Ao passar dos anos a festa tomava ares e manifestações socioculturais distintas – rodas de samba, as batucadas, danças, capoeiristas, as barracas montadas pelas chamadas tias –, sobretudo pelo grande número de negros, operários, capoeiras e músicos que compunham os festejos. No entanto, o componente religioso não se contrapunha à profana, pelo contrário, visto como um canal de comunicação privilegiado entre diversos segmentos sociais, o cronista do periódico O Paiz descreve a romaria como “um espetáculo maravilhoso pela completa fusão de todas as classes sociais, numa só leva de peregrinos, impelida pelos sentimentos religiosos”[2].

festapenha

Fonte: Revista O Malho, 5 de novembro de 1910, p.42.

Em contraposição, alguns intelectuais da época, em especial Olavo Bilac, acreditavam que essa manifestação popular e religiosa em nada acrescentaria à modernização da cidade, pois compreendiam que a cada ano a festa tornava-se ainda mais brutal. Para Bilac, a celebração era “tão desordenada, e assinalada por tantas vergonhas e por tantos crimes” que poderia ser facilmente comparada a “um folguedo da idade moderna, no seio de uma cidade civilizada, mas uma daquelas orgias da idade antiga ou da idade média, em que triunfavam as mais baixas paixões da plebe e dos escravos”[3].

Consciente que “atacar as tradições (e principalmente as tradições religiosas)” seria um “ato de ousadia”, Bilac não se intimidou. Para ele, “há tradições grosseiras, irritantes, bestiais, que devem ser impiedosa e inexoravelmente demolidas, porque envergonham a Civilização”, entre elas, “a ignóbil festa da Penha, que todos os anos, neste mês de outubro, reproduz no Rio de Janeiro as cenas mais tristes das velhas saturnais romanas, transbordamentos tumultuosos e alucinados dos instintos da gentalha”[4].

Carregado de adjetivos, na tentativa de construir uma imagem pejorativa para tais manifestações, Olavo Bilac expõe um dos inúmeros exemplos dos contrastes do Rio de Janeiro na primeira década do século XX: o velho e bárbaro — carroções enfeitados com tecido barato, puxados por burros arreados com flores e folhagens entrelaçados com fitas e carregando gente embriagada — e o novo, civilizado e moderno — a bela Avenida Central, maior símbolo dessa metropolização, a passarela de asfalto polido, com fachadas ricas dos prédios altos e automóveis que desfilavam sua beleza. Além disso, Bilac também “associa” essa gente incivilizada à violência. Nas palavras do poeta parnasiano, ir à festa da Penha seria “caminhar para o Martírio!”[5]. Mais do que isso, “ir à Penha é afrontar mil vezes a morte, — porque todos os desordeiros da cidade se encontram ali, nos quatro domingos da clássica festa, e transformam o arraial numa arena, em que se travam batalhas sangrentas”[6].  Dessa forma, aos olhos do autor, a cidade deveria ser civilizada e moderna, e para que esse desejo pudesse ser concretizado os trabalhadores de baixa renda não poderiam coabitar esses espaços, pois a civilização estaria ligada aos hábitos europeizados, distante das práticas de lazer vivenciadas por trabalhadores braçais de uma camada social desfavorecida.

Em outras passagens, Olavo Bilac dá indicações ainda mais claras quanto aos desserviços prestados por tais manifestações populares. Ao falar de hábitos característicos de uma cidade colonial, como os “abomináveis cordões”, resquícios culturais de um Rio de Janeiro ainda folclórico, o autor traz consigo uma cidade de “aspecto fatigado e triste, um ar de quem passou a noite na orgia”[7]. Para o autor, mesmo após o período de festas “ainda havia nas ruas, como remanescentes do folguedo carnavalesco, alguns confetes, esquecidos pelas vassouras da limpeza pública”[8].

De fato, Bilac expunha a ambiguidade de quem experimenta o próprio processo de metamorfose, fomentando uma modernização estabelecida através de uma intensa distinção hierárquica, na tentativa de assegurar prerrogativas de classe no universo urbano. Adepto do cosmopolitismo e da civilização como um símbolo de aspiração lato, Olavo Bilac acreditava que outros aspectos também conjurariam em prol da evolução urbana e profilática da cidade e, consequentemente, da nação. Na verdade, o poeta parnasiano buscou nas questões do cotidiano ações que pudessem estabelecer um melhor desenvolvimento social da população, não restritos as melhorias na infraestrutura, mas, sobretudo, na higienização das práticas de lazer da população pobre da cidade do Rio de Janeiro.

No entanto, embora ojerizada em seus escritos, as práticas populares representavam, além de festas e celebrações, momentos de ruptura e transgressão, pois estabeleciam novas manifestações identitárias, não somente por diferentes performances, mas, sobretudo, por novas políticas culturais e diferentes estratégias de consumo. E por isso, enquanto porta-voz da modernidade, o autor impulsionará valores sociais próprios de uma elite citadina, corroborando um desejo de cidade profícua para os passeios fidalgos, a vida de requinte. Assim, a narrativa proposta pelo autor possibilitou a composição de um conjunto de “realidades sociais”, permitindo, cotidianamente, por conta do caráter eloquente do boletim mensal, filtrar e tratar os fatos a serem publicados. Afinal, como afirma Nogueira, a revista Kosmos não estava no cenário para proclamar os ambientes populares e simplórios — que eram a “pedra no sapato” de uma elite ansiosa por um verniz cosmopolita — e ainda abundantes para uma elite que se queria branca, civilizada e europeizada[9].

[1] MOURA, R. M. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1995, p.156.

[2] O Paiz, 8 de outubro de 1906, p.2.

[3] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[4] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[5] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[6] Kosmos, ano III, n.10, outubro de 1906.

[7] Kosmos, março de 1904. p. 3

[8] Kosmos, março de 1904. p. 3.

[9] NOGUEIRA, C. M. A. Cronistas do Rio: o processo de modernização do Rio de Janeiro nas crônicas de Olavo Bilac (Kosmos, 1904-1908) e Lima Barreto (Careta, 1915-1922). Tese (Doutorado em Letras). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2012.


O casamento da bicicleta com o turismo: discutindo a relação

31/10/2016

Por Valeria Guimarães

Salve, salve, estimados leitores!

Neste post a conversa une duas paixões contemporâneas: os pedais e o turismo. Fazer turismo de bicicleta é um movimento que vem crescendo em todo o mundo, acompanhado da tendência do crescimento do ciclismo urbano, seja como meio de transporte, seja como lazer. Muitos países europeus perceberam – não sem antes terem sofrido muita pressão da sociedade civil organizada e feito as contas do quanto economizam (e aí entram até os custos com o tratamento da obesidade em função do sedentarismo) e quanto arrecadam – que o futuro da mobilidade nas cidades depende do desestímulo ao uso do carro e de um incentivo cada vez maior à cultura do uso da bike.

O projeto EuroVelo, iniciativa da Federação Europeia de Ciclistas, é um dos principais fomentadores do cicloturismo no continente, que destaca-se pela ambiciosa meta de construir até 2020 uma rede integrada de ciclovias que conecta mais de 40 países do Velho Mundo. Por enquanto já foram lançadas 15 rotas. O principal destaque é a rota Eurovelo 13, também conhecida como Cortina de Ferro. A mais extensa de todas as rotas ciclísticas europeias, se estende da Noruega à Turquia, ligando 20 países em seus 10.400 km.

Mapa das rotas integrantes do projeto Eurovelo

eurovelo

http://www.eurovelo.com/en/eurovelos

No Brasil, o cicloturismo vem se desenvolvendo a passos lentos, requerendo ainda muito esforço de mobilização da sociedade civil organizada para sensibilizar governos, iniciativa privada (inclusive os atores do chamado trade turístico) motoristas, ciclistas e pedestres sobre a importância da cultura das viagens realizadas com a magrela, dentro e fora das cidades, inclusive como dinamizadora das economias locais, especialmente na baixa temporada. A falta de infraestrutura de apoio ao cicloturismo e de segurança para a prática são dois dos maiores entraves para a atividade, que acabam desestimulando muitos ciclistas e cicloturistas em potencial.

Algumas rotas são bem conhecidas pelos praticantes do cicloturismo no Brasil, com destaque para o Vale Europeu, em Santa Catarina, que integra 9 municípios do médio Itajaí e é considerada uma referência nacional em cicloturismo, com sinalização específica para a realização de um percurso autoguiado. Podem ser citadas também a Rota Montanhas Mágicas da Mantiqueira, no sudeste de Minas Gerais, abrangendo 8 municípios, e a Rota Franciscana Caminhos de Frei Galvão, no Estado de São Paulo, que é compreendida por 5 caminhos diferentes cujo epicentro é a cidade de Guaratinguetá.

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Sinalização para o cicloturismo autoguiado no Vale Europeu. Fonte: http://cicloturismo.circuitovaleeuropeu.com.br/

No ambiente urbano, além do Rio de Janeiro e de São Paulo, a cidade de Niterói, localizada na região metropolitana do Rio de Janeiro, tem buscado tornar-se uma referência no cicloturismo no país, ampliando a sua malha de ciclovias, criando ciclofaixas, bicicletários e projetos de passeios de bicicleta, como o Niterói Bike Tur, organizados pela secretaria de turismo local em parceria com a sociedade civil organizada. No entanto, depoimentos de usuários apontam para a fragilidade da segurança das ciclovias e ciclofaixas projetadas na cidade, como a presença da ciclofaixa à esquerda dos carros em determinados trechos, lado utilizado para a ultrapassagem de veículos, potencializando o risco de acidentes; trechos onde o ciclista tem que desviar para a pista de rolamento; placas de sinalização dando preferência aos ciclistas somente das 6 às 10 da manhã, entre outras reclamações que alertam principalmente para o risco de atropelamento.

Já escrevi tempos atrás neste blog sobre a construção de uma ciclovia sobre as calçadas em alguns bairros da zona oeste do Rio de Janeiro. Abre-se o portão da residência e pam! Risco de batida na bicicleta ou no pedestre; ao sair de um estabelecimento comercial, pow! Risco de por os pés na ciclovia e sofrer um atropelamento. Criança saindo de creche e… procuro nem imaginar. Os detalhes estão aqui:

https://historiadoesporte.wordpress.com/2012/01/15/manual-de-sobrevivencia-na-calcada-um-guia-pratico-para-pedestres-e-ciclistas-nas-novas-ciclovias-da-zona-oeste-do-rio-de-janeiro/

Há poucos dias, em 26 e 27 de outubro de 2016, a cidade de Niterói sediou o Encontro para o Desenvolvimento do Cicloturismo Urbano, organizado por iniciativa da Faculdade de Turismo e Hotelaria da UFF, por meio do projeto PedalUFF-Tur, orientado pela Prof. Dra. Priscila Edra, em parceria com o Núcleo de Planejamento Estratégico de Transporte e Turismo da COPPE, UFRJ, a Prefeitura da cidade e o Coletivo Mobilidade Niterói. Foram dois dias intensos de discussão, mostra acadêmica, apresentação de casos de sucesso no Brasil e no exterior, proposições para melhores práticas no cicloturismo no país, além de realização de roteiro cicloturístico pelo Caminho Niemayer.

 

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http://www.fth.uff.br/cicloturismoemfoco/wordpress/

Ficou claro pelo evento, tanto nas análises bibliométricas sobre os trabalhos publicados a respeito do tema quanto nos debates apresentados sobre os principais “gargalos” para o desenvolvimento do cicloturismo no Brasil, se comparado à realidade de outros países, que o tema é ainda muito incipiente e a relação entre a bicicleta e o turismo precisa ser muito discutida. Há lacunas em diversos aspectos, como os estudos de gênero no cicloturismo, uma atividade predominantemente masculina, ao que se pode constata a olhos vistos. Mas, não seria ainda no Brasil o lazer no espaço público um privilégio masculino? Aos finais de semana enquanto vejo homens nos bares, praças e campos de futebol, me pergunto: onde estão as mulheres? Por falar nisso, enquanto me dirigia para o segundo dia do evento de cicloturismo, ouvia numa rádio AM a notícia de que o consumo de bebidas alcóolicas se equiparou entre homens e mulheres no Brasil, ao que o apresentador do popular programa de rádio lançou a enquete aos ouvintes: “Na sua opinião, o que é mais feio: homem ou mulher bêbada?”, pergunta que reforça a discriminação de gênero associada ao lazer da bebida.

Discutir a relação no casamento entre a bicicleta e o turismo é sim muito necessário e urgente, ainda mais quando o futuro prefeito de São Paulo, metrópole que vem procurando desenvolver a cultura da bicicleta, declara a intenção de aumentar a velocidade dos veículos e extinguir a ampliação das ciclovias.

Depois de tudo que ouvi e aprendi no seminário, deu vontade de pegar a velha bike enferrujada na garagem, recauchutá-la e sair pedalando por aí, driblando os obstáculos de uma cidade ainda hostil à bicicleta, ou quem sabe até empreender uma cicloviagem por uma dessas rotas que são referência para uma vida mais contemplativa.

Até breve!

 

 

 

 

 


Kapuscinski e “A Guerra do Futebol”

27/10/2016

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

soccer-warConheci o trabalho do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski uns anos atrás lendo O imperador, livro que me foi indicado por um amigo de faculdade de jornalismo (obrigado, Baiano!). A narrativa trata das vivências do repórter em meio à corte do imperador Selassiê, da Etiópia. O conteúdo parece de ficção, mas não é. Contudo, não acreditei, como não o fiz ao ler a obra objeto deste texto, que tudo que ele narrava era verdade absoluta – na verdade, isto pouco importa, ao menos para mim, quando se trata de fruir a narrativa deste autor.

Anos depois, esbarrei com The Soccer War (existe tradução publicada no Brasil: A Guerra do Futebol) na estante de livros usados à venda na biblioteca pública do bairro em que morava em San Diego. Custou o inacreditável preço de um dólar e furou a fila: comecei a ler. Não sabia do que se tratava, apenas de três coisas: que era um livro de Kapuscinski; que provavelmente seria bom; e que, com esse  título, abordaria o futebol.

The Soccer War é uma coletânea de histórias relativas a viagens do jornalista a trabalho, como correspondente da Agência de Imprensa Polonesa, entre as décadas de 1950 e 1970, na África, na Ásia e na América Latina. São relatos encharcados de suor, tiros, humanidade e desumanidade. Tem guerra entre palestinos e israelenses no Monte Hérmon e  atrocidades de parte a parte entre gregos e turcos no Chipre; há uma bela descrição dos povos nômades somalianos e etíopes, entre muitos outros relatos sobre áreas do globo em geral ignoradas pelo mercado mundial de notícias.

A guerra do futebol (capítulo)

O título da obra é retirado de um dos textos, que aborda um confronto armado entre El Salvador e Honduras que “durou cem horas. Suas vítimas: 6.000 mortos, mais de 12.000 feridos. Cinquenta mil pessoas perderam suas casas e terras. Muitas vilas foram destruídas” (p. 182; este e os demais trechos foram traduzidos por mim). Segundo o autor, o confronto teve como estopim as partidas entre as seleções dos países pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970 (tema já brevemente comentado neste blogue).

“A primeira partida foi realizada no domingo, 8 de junho de 1969, na capital hondurenha, Tegucigalpa.

Ninguém ao redor do mundo prestou qualquer atenção.

A equipe salvadorenha chegou em Tegucigalpa no sábado e passou a noite sem dormir (…). O time não podia dormir porque foi alvo de guerra psicológica travada pelos torcedores hondurenhos. Uma multidão cercou o hotel. A turba atirava pedras nas janelas e batucava em placas de latão e latas de lixo. Eles soltavam seguidos fogos de artifício. Eles buzinavam nos carros estacionados na frente do hotel. Os torcedores apitavam, gritavam e cantavam músicas hostis. Isso durou toda a noite. A ideia era que um time tenso, sonolento e exausto estaria inclinado à derrota. Na América Latina, estas são práticas comuns” (p. 157).

Adiante, após dar exemplos hilários de denúncias pintadas em muros, prossegue ele:

“Os latinos são obcecados com espiões, conspirações de inteligência e complôs. Na guerra, todo mundo é um quinta-coluna. Eu não estava numa situação confortável: a propaganda oficial de ambos os lados culpava os comunistas por cada desgraça, e eu era o único correspondente na região oriundo de um país socialista. (…)

Fui até o correio e convidei o operador de telex para tomar uma cerveja. Ele estava aterrorizado porque, embora tivesse pai hondurenho, sua mãe era cidadã de El Salvador. Ele tinha nacionalidade mista e, portanto, figurava entre os suspeitos. (…) Durante toda a manhã, a polícia estivera tangendo salvadorenhos para acampamentos provisórios, a maioria deles montados em estádios. Por toda a América Latina, os estádios têm um duplo papel: em tempo de paz, são arenas esportivas; na guerra, viram campos de concentração” (p. 166).

Por fim,

“a guerra terminou num impasse. (…) Ambos os governos estão satisfeitos: por vários dias Honduras e El Salvador ocuparam as primeiras páginas da imprensa mundial e foram objeto de interesse e preocupação. A única chance que pequenos países do Terceiro Mundo têm de despertar vivo interesse internacional é quando decidem derramar sangue. Isto é uma triste verdade, mas é assim.

O jogo decisivo da melhor de três foi realizado em campo neutro, no México (El Salvador venceu, 3×2). Os torcedores hondurenhos foram colocados de um lado do estádio, os salvadorenhos do outro, e no meio sentaram-se 5.000 policiais mexicanos armados com grossos cacetetes” (p. 184).

O esporte e o lazer noutros capítulos

Os espaços de lazer e o esporte aparecem, em menor escala, em alguns outros textos. Logo no seguinte, “Victoriano Gomez na TV”, a chapa continua quente. O tema é a transmissão ao vivo, pela televisão, da execução de um guerrilheiro de 24 anos que lutava contra a concentração latifundiária:

“Victoriano Gomez morreu em 8 de fevereiro na pequena cidade de San Miguel, El Salvador. Ele foi morto a tiros sob o sol da tarde, no estádio de futebol. Havia gente sentada na arquibancada do estádio desde a manhã. Furgões de rádio e televisão chegaram. Os cinegrafistas armaram seus equipamentos. Alguns fotógrafos se posicionaram no campo de jogo verdejante, agrupados em volta de uma das balizas. Parecia que uma partida estava prestes a começar.

(…) as pessoas (…) compravam sorvetes e bebidas geladas. As crianças faziam a maior parte do barulho. Quem não achava lugar na arquibancada, subia numa árvore para ver.

Um caminhão do Exército adentrou o campo. Primeiro, saíram os soldados que estariam no pelotão de fuzilamento. (…) [Victoriano Gomez] olhou para as arquibancadas, e disse bem alto (…): ‘Sou inocente, meus amigos’.

O estádio ficou em silêncio de novo, embora assovios de reprimenda pudessem ser ouvidos desde os lugares de honra onde os dignitários locais estavam sentados.

As câmeras foram ligadas: a transmissão ia começar. Por todo El Salvador, o povo estava assistindo à execução (…) na televisão.

Victoriano estava de pé próximo à pista de atletismo, encarando a arquibancada. Mas os cinegrafistas gritaram para ele ir para o meio do estádio, de forma que eles tivessem mais luz e uma cena melhor. Ele compreendeu e caminhou de volta até o centro do campo (…). Agora apenas uma pequena figura podia ser vista da arquibancada, e isso era bom. A morte perde sua literalidade naquela distância: deixa de ser morte e torna-se o espetáculo da morte. Contudo, os cinegrafistas fizeram um close-up de Victoriano; o rosto dele preenchia a tela; as pessoas assistindo pela televisão viam mais do que o público reunido no estádio.

Após a salva de tiros do pelotão, Victoriano caiu e as câmeras mostraram os soldados cercando seu corpo para contar as perfurações. (…)

Estava tudo terminado. A arquibancada começou a se esvaziar. A transmissão terminou. (…) Sua [de Victoriano] mãe ficou um pouco mais, sem se mexer, cercada por um grupo de pessoas que olhavam para ela em silêncio” (p. 185-6).

Lendo tal narrativa, penso nos pesquisadores e professores da área de Comunicação (existem também em outras áreas das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas) que continuam tratando espetáculo e entretenimento como elementos estranhos ao esporte (ou, pior ainda, à “essência” do esporte) e que apenas recentemente adentraram o campo esportivo. Um pouco de leitura de história do esporte talvez caísse bem…

Em “Lumumba”, sobre o líder congolês, descreve o ambiente do Alex, “meu bar preferido na África”. Um trecho:

“Isto é uma segunda casa. (…) Casa é restrição e o bar é liberdade. Um informante branco não irá a um bar, porque uma pessoa branca iria se sobressair. Portanto, você pode falar de tudo. O bar está sempre repleto de palavras. O bar delibera, argumenta e pontifica. O bar topa qualquer assunto (…). Reputações (…) nascem aqui. (…) Se você encanta o bar, terá uma carreira de sucesso; se o bar escarnece de você, você pode voltar direto para a selva. (…) Alguém gesticula, uma mulher nina um bebê, risadas explodem em outra mesa. Fofoca, febre e muita gente. Aqui eles estão negociando o preço para passarem uma noite juntos, ali eles estão delineando um programa revolucionário, na mesa ao lado alguém está recomendando um bom feiticeiro, e acolá alguém está dizendo que vai ter greve. Um bar como este é tudo que você pode desejar: um clube, uma casa de penhores, um calçadão, uma varanda lateral de igreja, um teatro e uma escola (…).

Você tem que levar em consideração os bares e Lumumba compreendia isto perfeitamente. Ele também aparece para uma cerveja.” (p. 52-3)

Em “Algeria Hides Its Face” (“A Argélia esconde seu rosto”), ao narrar as atividades de Ben Bella na véspera do golpe que sofreu na Argélia: “Na sexta-feira, 18 de junho, poucas horas antes do coup, Ben Bella discursou numa manifestação em Orã. (…) Depois, foi a uma partida de futebol – ele nunca perdia um jogo (…)” (p. 113).

Segundo Kapuscinski, “Ben Bella tinha (…) uma personalidade fascinante. O futebol era sua paixão. Ele adorava assistir e também jogar. Com frequência, entre uma reunião e outra, ele dirigia até um campo de futebol e ficava chutando uma bola. Nesses jogos improvisados, a companhia mais próxima de Ben Bella era outro entusiasmado jogador de futebol, o ministro do exterior e um dos organizadores do complô contra o próprio Ben Bella: Abdel Azis Buteflika” (p. 96).

Fiquei pensando no argumento que vem sendo desenvolvido por pesquisadores de história da África como Victor Andrade de Melo e Marcelo Bittencourt (2012, 2013) de que diversos líderes revolucionários das lutas de independência contra Portugal tinham intenso envolvimento com o esporte, particularmente com o futebol.

O texto também faz uma extensa análise de problemas que cercam os governos de países recém-independentes, as realizações de Bella, o lugar de destaque ao qual a Argélia foi alçada no cenário internacional, particularmente no que diz respeito às lutas de esquerda e anti-imperialistas. A análise política é entremeada com episódios cotidianos e histórias saborosas, algumas delas envolvendo o esporte.

A narrativa e a trajetória do autor

A prosa de Kapuscinski tem características interessantes, misturando o formato de reportagem com o de diário, relato de viajante, obra de ficção. O jornalista era daqueles que gostavam de se jogar no olho do furacão: guerras, revoluções, guerras civis: falou em confusão, em dramas humanos e em lugares e situações de que a maioria dos repórteres quer distância, lá ia ele.

Outro aspecto interessante são suas convicções políticas, assim como o fato de ser polonês e trabalhar para uma agência de notícias de um país do bloco comunista. Por um lado, a narrativa tem momentos de um certo preconceito de europeu viajando ao Terceiro Mundo, além de momentos de incompreensão face ao que vê. Em “A Dispute over a Judge Ends in the Fall of a Government” (algo como “Uma contenda sobre um juiz vai dar na queda de um governo”):

“Há vários meses o Estado parara de funcionar. O gabinete não se reunira; o país estava paralisado.

Aqui podemos ver perfeitamente os mecanismos da política na África: o Daomé é um país pobre e subdesenvolvido. Tirar o Daomé da pobreza exigirá um esforço enorme, união de forças e educação. Mas ninguém sequer está trabalhando” (p. 123).

A isto se somam situações difíceis que se criam devido à aparência física de branco europeu, semelhante às dos opressores/colonizadores. Em “The Offensive” (“A Ofensiva”):

“Pensei em ir lá e explicar: sou da Polônia. Aos dezesseis anos de idade, entrei para uma organização de jovens. Nas faixas daquela organização estavam escritos slogans sobre a fraternidade das raças e o esforço comum contra o colonialismo. Organizei manifestações de solidariedade aos povos da Coreia, do Vietnã e da Argélia, com gente de todo o mundo. (…) Sempre considerei os colonialistas os piores vermes que existem” (p. 63).

Há vários episódios de risco, como tentativas de desenrolo ao levar dura de policiais, militares, guerrilheiros e/ou bandos armados de difícil classificação; há também uma impressionante narração do que se sente ao levar uma picada de escorpião no meio da noite.

Por outro, trata-se de alguém simpático às reivindicações populares e às causas da esquerda; e oriundo de um país periférico no próprio cenário europeu, e que não colonizou territórios nos demais continentes. O assunto vem à tona, por exemplo, num papo com alguns membros do conselho de anciãos de uma vila em Gana, em que a ajuda de Kofi, um amigo e intérprete, foi fundamental para explicar a eles que a Polônia, da qual nunca haviam ouvido falar, não tinha colônias e que “nem todos os brancos são colonialistas”. O papo desemboca numa discussão sobre colonialismo e pós-colonialismo. Prossegue Kofi, a respeito de sua terra natal: “Por cem anos eles nos ensinaram de que o branco é alguém maior, super, extra. Eles tinham seus clubes, suas piscinas, seus bairros, suas putas, seus carros e sua língua balbuciante. Nós sabíamos que a Inglaterra era o único país do mundo, que Deus era inglês, que apenas os ingleses viajavam pelo mundo. Sabíamos justamente o quanto eles desejavam que soubéssemos. Agora é difícil mudar” (p. 231).

Há muitas reflexões sobre a guerra, abordando temas como as perdas humanas; ou as transformações introduzidas por novas máquinas de matar:

“Agora os tempos mudaram, e a face da guerra mudou. Os homens foram retirados do campo de visão no terreno de batalha. Vemos equipamentos. Vemos tanques, artilharia automática, foguetes e aeronaves. Oficiais apertam botões num bunker, observam os saltos de uma linha verde numa tela, manipulam um joystick e apertam outro botão. Um bum, um silvo, e em algum lugar, à distância, um tanque se desintegra, nalgum trecho do céu um avião se despedaça” (p. 203-4).

Livro com bônus

inside-travelerComo às vezes acontece com livros usados, este veio com três itens:

1) Um cartão postal de uma companhia aérea dos EUA, estampando um modelo 767.

2) Uma resenha recortada (e cortada; ver imagem à esquerda), ao que parece, de uma revista chamada Inside Traveler, repleta de elogios ao que define como “uma coletânea de artigos das viagens de Kapuscinski como correspondente da Agência de Imprensa Polonesa (…), parte relato de viagem, parte reflexão filosófica sombria, parte narrativa de aventura no fio da navalha”.

3) E um recorte de jornal (à direita), evidenciando que a morte do escritor, como diria Jorge Benjor, deu no New York Times. No obituário, fiquei sabendo que ele chegou a escrever para a revista do próprio jornal. Termina mais ou menos assim:obituario-nyt0003

“‘Existe, admito, um certo egoísmo no que escrevo’, disse ele certa vez, ‘sempre reclamando do calor ou da fome ou da dor que sinto. Mas é terrivelmente importante ter o que escrevo autenticado por ter sido vivido. Você pode chamar isso, suponho, de reportagem pessoal, porque o autor está sempre presente. Eu às vezes chamo de literatura a pé.”

Observando os itens, me parece que, antes de vir parar no Rio de Janeiro, o exemplar pertenceu a alguém interessado em literatura de viagens/viajantes.

Referências bibliográficas

KAPUSCINSKI, Ryszard. The Soccer War. New York: Alfred A. Knopf, 1991.

MELO, Victor Andrade de; BITTENCOURT, Marcelo. Sob suspeita: o controle dos clubes esportivos
no contexto colonial português. Revista Tempo, Niterói, v. 17, n. 33, p. 191-215, dez. 2012.

______. O esporte na política colonial portuguesa: o Boletim Geral do Ultramar. Revista Tempo,
Niterói, v. 17, n. 34, p. 69-80, jan.-jun. 2013.

Para quem tiver curiosidade, diversos livros de Kapuscinski estão traduzidos no Brasil.