CONIFA: a representação internacional através do futebol, para além da FIFA

20/06/2022

por Maurício Drumond

Neste final de semana foi realizada a primeira edição do primeiro campeonato sulamericano de futebol organizado pela Confederação de Associações de Futebol Independentes (CONIFA), no Chile. Chamada de Copa América 2022, a competição contava inicialmente com a participação de 4 equipes, sendo 3 do Chile. Além das federações Aimara, Mapuche e Maule Sur, a Federação Alternativa de Desporto de Estado de São Paulo (FAD) se inscreveu na competição, mas não viajou ao Chile. Sem a participação de seu 4º representante, o torneio foi modificado para um triangular disputado entre os dias 17 e 19 de junho e teve como vencedora a seleção de Maule Sur. As equipes Mapuche e Aimara ficaram em segundo e terceiro, respectivamente.

Equipe de Maule Sur, campeã da Copa América da ConIFA de 2022.

Mas o que seria a CONIFA? Em um de meus primeiros posts aqui no bolgue (link), escrevi sobre a Nouvelle Fédération-Board (NF-Board), uma confederação criada em 2003 que possuía associações como Tibet, Chechênia, Groenlândia, Ilhas de Páscoa e Mônaco (a seleção do principado, não o clube). Escrito em 2009, o artigo cita a realização das três primeiras edições da Copa do Mundo VIVA, organizada pela entidade. A Copa VIVA teria ainda mais duas edições. Em 2010, em Gozo, na República de Malta, a Copa contou com seis seleções participantes, tendo a Padânia como campeã e a delegação da região do Curdistão em segundo lugar. Já em 2012, em sua última edição, a competição contou com a participação recorde de nove equipes, sendo realizada na região do Curdistão, no Iraque. A equipe anfitriã levou o título, com a seleção da república Turca do Chipre do Norte em segundo lugar.

Cartaz da V Copa do Mundo Viva, no Curdistão

Em 2013 a NF-Board é desarticulada e a ConIFA surge em seu lugar. De acordo com Joel Rockwood (2020), a ConIFA foi criada com base nas experiências da NF-Board, tentando propor uma estrutura mais profissional para a organização. Mas qual seria a proposta dessas confederações? Quais seriam sua “federações-alvo”?

A princípio, destacam-se as federações de regiões ou grupos que buscam reconhecimento internacional por meio do futebol. Como aponta a chamada no site da CONIFA para novos membros, são convidados representantes de equipes que “representem uma nação, minoria, região isolada ou região cultural” (https://www.conifa.org/en/join-now/). São esses os casos como o da Somalilânida, por exemplo, um Estado de facto, com sua própria Constituição, forças armadas, impostos, moeda, placas de automóveis e mais de 3 milhões de habitantes, mas que não é reconhecido internacionalmente por outros países. Nesses casos, o esporte se torna uma importante ferramenta na luta por reconhecimento internacional. Como a própria federação somalilandesa destaca em sua apresentação no site da CONIFA,

A Somália ainda declara que a Somalilândia é uma região autônoma da Somálila. Independente de seu estatuto oficial de reconhecimento, a somalilândia é de facto independente e autogovernada e por isso tem uma excelente razão para ter sua própria seleção nacional. A Associação de Futebol da Somalilândia foi fundada em 2011 e representa a Somalilândia e os somalilandeses de todo o mundo (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/somaliland/).

O mesmo ocorre com os Estados de reconhecimento limitado da Abcásia e da Ossétia do Sul, regiões autônomas que se declaram independentes da Geórgia. Ambos os casos são apoiados pelo governo russo e têm reconhecimento internacional da Rússia, Nicarágua, Venezuela e de alguns outros estados de reconhecimento limitado. Sua semelhança de identificação com a Somalilândia pode ser vista também no texto de apresentação no site da confederação internacional, indicando um possível modelo pré-produzido entregue às confederações no momento da formulação sa página eletrônica. Acompanhado de algumas informações particulares ao caso da associação específica, está o mesmo texto destacado acima:

A Geórgia ainda declara que a [Abcásia/Ossétia do Sul] é uma parte da Geórgia. Independente de seu estatuto oficial de reconhecimento, a [Abcásia/Ossétia do Sul] é de facto independente e autogovernada e por isso tem uma excelente razão para ter sua própria seleção nacional. A Associação de Futebol da Somalilândia foi fundada em 2011 e representa a Somalilândia e os somalilandeses de todo o mundo (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/abkhazia/ e https://www.conifa.org/en/members/south-ossetia/).

O mesmo texto, com leves variações, pode ser encontrado na apresentação de outras associações como Artsaque. Um outro grupode nações representadas são regiões que se entendem como ocupadas, e buscam a representação internaciona como forma de afirmação de sua identidade, que por vezes não tem a possibilidade de vir à tona em outras áreas. As federções do Tibete e do Turquestão Oriental são dois exemplos. Na apresentação do Turquestão Oriental, afirmam que “dois anos antes de invadirem o Tibete, o Estado comunista Chinês anexou a República Oriental do Turquistão, em 1949. Como uma nação ocupada, os turquestaneses orientais possuem uma herança cultural e linguística única, que são significativamente diferentes daquela da dinastia han chinesa” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/east-turkistan/).

No entanto, não são apenas Estados em busca de reconhecimento internacional que buscam a filiação à CONIFA. Povos minoritários também utilizam a filiação internacional como ferramenta para aumentar sua representatividade no cenário internacional. As federações do Povo Romani, Rohingya, Mapuche, Aimara e das Primeiras Nações da Austrália, por exemplo, demonstram a iniciativa de afirmação de grupos étnicos e culturais minoritários. Como destaca a apresentação da federação Aimara, ao dizer que “a seleção representa o povo Aimara do Chile, Peru, Bolívia e Argentina, com a missão de promover a cultura aimara pelo mundo” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/aymara/).

Podemos perceber ainda a presença de federações que buscam celebrar/reafirmar identidades culturais regionais. Dentre esses pode-se destacar a federação da Cornuállia, de Yorkshire e da Ilha de Man, no Reino Unido, do condado de Nice e da Occitânia, na França, ou ainda da Sicília e da Padânia, na Itália. Nesses casos, majoritariamente em território europeu, a identidade local não é monilizada de forma a se separar a identidade nacional. A valorização da identidade local é atrelada ao nacional, ainda que por vezes essa valorização esteja também associada a movimentos por maior autonomia regional, como no caso da Padânia, cuja autonomia é uma bandeira do partido de extrema-direita italiano Liga Norte, cujo nome oficial é Lega Nord per l’Indipendenza della Padania.

Outro elemento relevante, que ganha força com muitas dessas associações, é a possibilidade da filiação de entidades não profissionais que busquem uma filiação internacional fora da FIFA, de forma a atrair talentos e filiações de clubes, em geral amadores. A federação do Condado de Nice deixa isso evidente em sua apresentação, ao afirmar que “busca representar sua região cultural e histórica no palco global, e deseja promover talentos locais através de sua Associação de Futebol” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/county-of-nice/). Como apresentado em sua página inicial, a CONIFA se caracteriza como  “a federação de futebol para todas as associações fora da FIFA” (https://www.conifa.org/en/). Vemos assim um outro grupo de entidades, qe possuem um leve – e por vezes inexistente – pretexto cultural para sua filiação. Na Europa, as federações da Ilha de Elba e das Duas Sicílias parecem se aproximar mais desse caso, ainda que uma investigação mais detalhada deva ser efetuada para podermos afirmar com certeza. Nas Américas, a ANBM (ASOCICACIÓN NACIONAL DE BALOMPIÉ MEXICANO) e Cascadia, na América do Norte, também aparentam seguir esse caminho. No Brasil, a adesão da Federação Alternativa de Desporto do Estado de São Paulo (FAD), também demonstra esse lado da filiação. A FAD é uma associação amadora paulista sem nenhum elemento de valorização cultural ou identitária.

Em 2022, a CONIFA planeja organizar competições regionais na África, América do Sul e o campeonato munidal de futebol feminino. A Copa Africana contou apenas com 3 equipes, tendo a seleção de Biafra se sagrado campeã. Na América do Sul, vimos anteriormente que a seleção de Maule Sur foi a vencedora. Já o campeonato feminino será realizado no início de julho, sediado pela feeração do Tibete. O campeonato europeu masculino, a Euro 2022 CONIFA, seria realizada no início de junho, em Nice, mas foi cancelada e a entidade ainda não declarou se ainda irá promover uma nova competição europeia este ano.

Ainda que pequena e de pouco alcance midiático, a CONIFA busca se estabelecer em um campo onde outras entidades já atuaram. O modelo atual parece ser mais aberto e propenso a um modelo mais comercial. No entanto, ainda que muito aquém do futebol profisional, para muitas dessas entidades é uma das possíveis formas de representação internacional, dentro de um quadro de poucas possibilidades.

Referências
ROCKWOOD, Joel. The politics of ConIFA: Organising and managing international football events for unrecognised countries. Managing Sport and Leisure, 25 (1-2), p. 6-20.


Banhistas e sua representação na pintura de August Macke

13/06/2022

Elcio Loureiro Cornelsen

Recentemente, desenvolvemos e concluímos uma pesquisa sobre representações do lazer na pintura de August Macke (1887-1914), um dos principais pintores alemães do início do século XX, cujas obras são apontadas por críticos e historiadores da arte como de transição entre o Impressionismo e o Expressionismo. Parte do resultado dessa pesquisa já foi publicada nos artigos “Imagens do lazer na pintura de August Macke” (https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/ ), “O velejar como lazer e sua representação na pintura de August Macke” (https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/21/o-velejar-como-lazer-e-sua-representacao-na-pintura-de-august-macke/ ) e “O mundo circense e o jardim zoológico na pintura de Auguste Macke” (https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/ ).

Neste breve texto, trazemos mais um dos eixos temáticos da pintura de August Macke em relação a banhistas. Para isso, dentro do conjunto de 30 obras analisadas, selecionadas a partir do acervo digital disponível no portal Kunst für Alle (Arte para Todos), selecionamos cinco obras: Badende am grünen Abhang (1910; Banhistas na encosta verde), Badende Frauen I (1913; Mulheres banhistas I), Badende Frauen II (1913; Mulheres banhistas II), Badende Mädchen mit Stadt im Hintergrund (1913; Jovens banhistas com cidade ao fundo), e Badende und türkischer Reiter (1912/1913; Banhistas e cavaleiro turco).

Como pode ser observado pela datação, tais obras foram pintadas entre 1910 e 1913, período de intensa produção de August Macke, pouco antes de o pintor falecer, tragicamente, em combate no dia 26 de setembro de 1914, em batalha travada ao sul da cidade de Perthes-lès-Hurlus, na região francesa de Champagne. Convocado para integrar o Regimento de Infantaria nº. 160 do Exército Alemão, Macke faleceu aos 27 anos de idade, no auge de sua carreira como artista plástico. Como já havíamos assinalado em outro artigo, embora o início da década de 1910 na Europa já apresentasse indícios de um contexto turbulento no plano geopolítico, “é interessante notar que a iminência da guerra que eclodiria em agosto de 1914 deixou poucos vestígios [nas] obras [de Macke]” (CORNELSEN, 2021).

Iniciaremos nossas considerações sobre a representação de banhistas na obra de August Macke por Badende am grünen Abhang (1910; Banhistas na encosta verde):

Badende am grünen Abhang
(1910; Banhistas na encosta verde)
Material: óleo sobre cartolina, 27,2 x 34,7 cm
(https://www.kunst-fuer-alle.de/deutsch/kunst/kuenstler/kunstdruck/august-macke/345/1/115559/badende-am-gruenen-abhang/index.htm )

De início, evidenciam-se traços do Impressionismo em sua composição pictórica. Conforme aponta Neusa Cavalcante, “[l]uz e movimento, obtidos por meio de pinceladas soltas, tornaram-se os principais elementos da pintura impressionista, feita geralmente ao ar livre para que o artista pudesse capturar melhor as variações de cor” (CAVALCANTE, 2018, p. 14). Na obra em questão, observam-se as pinceladas e as variações cromáticas em jogo de luz e cor, com o espelhamento dos corpos e da encosta nas águas, provavelmente, de um lago.

A referida obra nos permite uma série de conjecturas, fundamentadas a partir de sua contextualização e de referências biográficas acerca de August Macke. É de conhecimento que, conforme já havíamos afirmado em outro artigo, predominam em sua pintura cenas na natureza. Além disso, o pintor residiu às margens do Lago Tegern, na Baviera, por alguns meses, em 1910 (CORNELSEN, 2022a), ano em que produziu Badende am grünen Abhang. Como veremos a seguir, todas as obras aqui analisadas apresentam cenas de banhistas em lagos. Além disso, o Lago de Thun, localizado aos pés dos Alpes Suíços, no cantão de Berna, também foi retratado em várias obras de Auguste Macke, quando passou um período de veraneio, em 1913, em Hilterfingen, lugarejo localizado às margens do lago (CORNELSEN, 2022a).

Outra conjectura a se fazer diz respeito à representação dos corpos nus de mulheres. O estudo sobre a pintura de August Macke, realizado no acervo digital disponível no portal Kunst für Alle (Arte para Todos), permitiu-nos constatar que o pintor fez vários esboços de nus femininos, entre eles, os estudos Weibliche Akte (1907; Nus femininos), Weiblicher Akt IV (1907; Nu feminino IV), Weiblicher Akt 53 (1912; Nu feminino 53), Weiblicher Akt 70 (1912; Nu feminino 70), Sitzender Akt, vorgebeugt (1912; Nu sentado, curvado), Weiblicher Akt, stehend (1913; Nu feminino, em pé), e as pinturas Akt auf weißem Tuch (1909; Nu sobre lençol branco) Sitzender Akt mit Kissen (1911; Nu sentado com almofada), Drei Akte mit Rehen am Wasser (1912; Três nus com cervos junto à água), Drei Akte im Grünen (1913; Três nus na natureza), e Drei nackte Mädchen (1913; Três jovens nuas).

Na obra Badende am grünen Abhang, nota-se que os corpos nus parecem posados em estúdio, em certo estilo que remete às artes plásticas na Antiguidade, sobretudo na escultura. Todavia, há um aspecto contextual específico, que nos permite ampliar o próprio sentido da nudez associada a atividades e momentos de lazer. Sem dúvida, um movimento teve destaque singular nas primeiras décadas do século XX, na Alemanha: o naturismo e, especialmente, a FreiKörperKultur (cultura do corpo livre), conhecida popularmente pela sigla FKK.

De acordo com Kurt Fischer, presidente da Deutscher Verband für Freikörperkultur (Associação Alemã de Cultura do Corpo Livre), “[a] nudez no esporte, em jogos e no banho sempre houve em quase todos os tempos. Pensemos nos atletas gregos ou nos balneários dos princípios da Idade Média e no prazer de Goethe em banhar-se nu” (FISCHER, 2014).[i] Todavia, segundo Kurt Fischer, quando se busca as raízes da cultura do corpo livre na Alemanha, constata-se que elas se situam na virada do século XIX para o século XX, ou seja, exatamente no período em que as correntes artísticas europeias buscavam novos rumos estéticos frente ao mundo da técnica, da urbanização e da industrialização, e em que August Macke se formou como pintor. O movimento FKK visava, justamente, à superação da percepção da nudez como tabu, em que se propagava “o incentivo à manutenção da saúde, bem como o espírito de ‘retorno às origens naturais’” (FISCHER, 2014).[ii] Para divulgar as ideias do movimento, algumas revistas se tornaram atuantes, entre elas, a Kraft und Schönheit (Força e Beleza), fundada em 1901, que pregava a junção entre cultura física, exercício físico, banho ao ar livre e nudismo, bem como Schönheit (Beleza), fundada em 1903, órgão de imprensa da Verein für ideale Kultur (Associação para a Cultura Ideal), defensora de um programa para a cultura do nudismo, em que o hábito de se vestir era visto como um reflexo de pudores não naturais e de códigos morais inadequados (FISCHER, 2014).

Ao retomarmos a análise de Badende am grünen Abhang, notamos outro traço característico da pintura de August Macke, seja em obras mais próximas, esteticamente, do Impressionismo, seja em obras de sua fase expressionista: a ausência de detalhes dos rostos. Constata-se certa harmonia no modo como as duas figuras femininas desfrutam seu momento de lazer, banhando-se nuas, estando uma delas sentada à beira das águas, com apenas uma das pernas imersa, enquanto a outra está em pé, dentro do lago, com o nível da água um pouco acima dos joelhos. Embora seja evidente que esse tipo de representação de nus resulta dos diversos estudos que Macke desenvolveu a partir de 1907, ainda durante o seu período de formação no ateliê do pintor impressionista alemão Lovis Corinth (1858-1925), em 1908, na cidade de Berlim (CORNELSEN, 2021), ele integra à cena a natureza – as águas do lago e a relva da encosta, em que predomina uma variação cromática de tonalidades entre as cores verde e amarelo, como possibilidades de se produzir matizes resultantes da luz natural.

Por sua vez, nosso segundo exemplo da presença temática de banhistas na pintura de August Macke é Badende Frauen I (1913; Mulheres banhistas I), que, conforme poderá ser constatado, já apresenta elementos estéticos do Expressionismo:

Badende Frauen I
(1913; Mulheres banhistas I)
Material: óleo sobre tela, 59,5 × 73,5 cm

(https://www.meisterdrucke.com/kunstdrucke/August-Macke/689432/Badende-Frauen.html )

Enquanto a obra Badende am grünen Abhang representaria uma cena em que mulheres desfrutam momentos de lazer banhando-se nuas, nas águas de um lago, esteticamente adequada aos preceitos do Impressionismo, pautados pelo “naturalismo” e pela “preocupação com os efeitos momentâneos de luz, fundamentais para os impressionistas” (CAVALCANTE, 2018, p. 15), Badende Frauen I distancia-se, ainda mais, de uma reprodução mimética da cena na natureza, em que figuras femininas, todas nuas, banham-se ou estão sentadas às margens do lago. Ao fundo, vemos outras duas figuras de mãos dadas, aparentemente entrando no lago, cujos corpos resultam de poucas pinceladas na cor marrom, sem que possamos afirmar que se trata de mulheres ou de crianças. Assim como em outras pinturas, sem dúvida, o título, principal paratexto, nos induz à recepção e, de certo modo, limita a polissemia da própria imagem, uma vez que, de antemão, trata-se de “mulheres banhistas”.

Outro aspecto que pode ser destacado em Badende Frauen I é o modo como o momento de lazer das três mulheres ao banhar-se é retratado. Assim como ocorre em Badende am grünen Abhang, uma das mulheres está de costas para quem contempla o quadro, desta feita, apoiando-se à encosta, enquanto outra, do lado direito, está sentada na encosta oposta, e a terceira é a única que está dentro do lago, com água à altura dos joelhos, e parece elevar um jarro por sobre a cabeça. Na tela, predominam traços curvilíneos dos corpos, das encostas e da vegetação, com árvores e relva, com variações cromáticas acentuadas e incidência de luz, por contraste, sobre os corpos.

Já o terceiro exemplo da presença temática de banhistas na pintura de August Macke é Badende Frauen II (1913; Mulheres banhistas II), que evidencia o interesse do pintor em produzir uma série de obras sobre esse tema:

Badende Frauen II
(1913; Mulheres banhistas II)
Material: óleo sobre tela, 101,5 × 72,0 cm

(https://www.akg-images.de/archive/Badende-Frauen-2UMDHUWDOM0XB.html )

Desta feita, duas figuras femininas nuas se destacam na tela, uma delas em primeiro plano, frontalmente, e a outra em segundo plano, que parece estar saindo das águas do lago. Mais uma vez, predominam traços curvilíneos na representação dos corpos nus e dos elementos da natureza, com variação de cores, com incidência de luz sobre as banhistas, em contraste com a vegetação e as águas do lago. Assim como ocorre nas duas obras anteriores, os rostos das mulheres não apresentam detalhes.

Em todas as obras analisadas até este momento, deve-se considerar a própria figura da mulher para a representação do ato de banhar-se como lazer. Citada por Victor Andrade de Melo, a historiadora da arte Tamar Garb conclui o seguinte em relação à representação de mulheres na pintura francesa do século XIX, que parece adequado também à pintura de August Macke no início do século XX, na Alemanha: “A posição da mulher na representação é clara: ocupa o lugar familiar da musa, o referente da história da arte, a figura alegórica e até a corporificação do natural contra o qual o cultural é definido e sustentado” (GARB, 1998, p. 223 apud MELO, 2009, p. 51).

Dando sequência a nossa análise, o quarto exemplo da presença temática de banhistas na pintura de August Macke é Badende Mädchen mit Stadt im Hintergrund (1913; Jovens banhistas com cidade ao fundo):

Badende Mädchen mit Stadt im Hintergrund
(1913; Jovens banhistas com cidade ao fundo)
Material: óleo sobre tela, 100,0 x 80,0 cm
(http://www.sammlung.pinakothek.de/de/artwork/Qr4D8M24pE/august-macke/badende-maedchen-mit-stadt-im-hintergrund )

A sequência de obras analisadas até aqui evidencia a variação estilística de August Macke na produção de suas obras, com fortes traços impressionistas em Badende am grünen Abhang e uma crescente intensificação de cores e de formas geométricas nas obras subsequentes, concretizando aquela postura que o crítico de arte Paulo Sérgio Duarte designa de “a grande reviravolta expressionista”: “tomar partido da subjetividade contra as interpretações objetivas da realidade” (DUARTE, 2004). As cenas de banhistas em seus momentos de lazer recebem de August Macke tratamento pictórico diversificado em termos de formas e de luminosidade, que se afasta de uma representação mimética e academicista, rumo às possibilidades ilimitadas que a vanguarda oferecia em termos de inovação artística. Como bem nos lembra Victor Andrade de Melo (2009, p. 48), “[a]utores como Georges Vigarelo (1988) e Alain Corbin (1989) já demonstraram como o aumento da utilização e distribuição da água, bem como a ocupação de praias e rios, tem forte relação com o novo imaginário construído na modernidade”. A obra Badende Mädchen mit Stadt im Hintergrund se insere nesse quadro e, ao mesmo tempo, como já anuncia seu título, apresenta outro elemento: a cidade, pouco perceptível em termos pictóricos para aquele que contempla a tela, que pode divisar alguns elementos geométricos no plano de fundo como sendo de uma torre de igreja e de telhados de casas. Tal cidade poderia bem ser, enquanto motivação para o pintor, Hilterfingen, às margens do Lago de Thun, onde August Macke passou alguns meses, em 1913.

Em primeiro plano, a cena se compõe a partir da representação de algumas figuras femininas, quatro jovens, sendo que três delas estão nuas e banham-se, enquanto uma, de costas para quem contempla a tela, do lado direito, está sentada à margem, vestida. De seu lado esquerdo, jaz no solo a vestimenta de uma das jovens que estão se banhando, um vestido na cor azul, aparentemente idêntico ao vestido da jovem que está sentada à margem, podendo ser um uniforme escolar. Desta feita, é possível reconhecer alguns traços dos rostos das jovens, e a incidência de luz recai sobre seus corpos nus, no centro da tela. Há o predomino de traços curvilíneos na representação dos elementos da natureza e dos corpos das jovens, e de linhas retas da representação da cidade ao fundo, cujos traços se misturam com os traços das folhas das árvores e da densa vegetação às margens do lago.

Por fim, o quinto e último exemplo da presença temática de banhistas na pintura de August Macke é Badende und türkischer Reiter (1912/1913; Banhistas e cavaleiro turco), como representação do uso da água para atividades de lazer:

Badende und türkischer Reiter
(1912/1913; Banhistas e cavaleiro turco)
Material: lápis sobre papel, 28,5 x 39,5 cm – esboço para tapeçaria
(https://www.kunst-fuer-alle.de/deutsch/kunst/kuenstler/kunstdruck/august-macke/345/294/556483/badende-und-tuerkischer-reiter-stickereientwurf/index.htm )

A obra Badende und türkischer Reiter tem suas peculiaridades: a principal delas é o fato de ter sido esboçada para ser tela de tapeçaria. Nota-se que a tonalidade das cores se diferencia sensivelmente das demais obras analisadas, embora guarde certa semelhança no predomínio de traços curvilíneos. Mais uma vez, o título induz à recepção e delimita certa polissemia que a cena pode suscitar, pois duas jovens nuas, com semblantes tensos, olham em direção à figura masculina, um cavaleiro turco, trajando vestes e turbante, montando um cavalo branco rampante. Uma delas está sentada, enquanto a outra está em pé, mas não se visualiza a água. A vegetação rasteira e os arbustos são igualmente representados com traços curvilíneos.

Enfim, a breve análise dessas cinco obras de August Macke nos permitiu constatar questões tanto de ordem estética, quanto de ordem temática. Em termos estéticos, constata-se uma variação significativa de Badende am grünen Abhang, de 1910, com evidentes traços do Impressionismo, para as obras seguintes, todas pintadas no espírito do Expressionismo, algo que nos permite reafirmar o ponto de vista de alguns críticos que consideram August Macke um pintor de transição. Como bem aponta Neusa Cavalcante (2018, p. 16), “[a]s ideias sobre arte, que pairavam no período, negavam a ênfase na imitação e sublinhavam o papel da imaginação e do inconsciente como fatores criativos essenciais, fazendo com que muitos artistas começassem a aceitar as novas liberdades e responsabilidades implícitas nessa atitude”. Ainda segundo a arquiteta e urbanista,

[a]o declarar, em 1890, que uma imagem, antes de ser um cavalo de batalha, um nu, uma anedota ou outros enfeites, é essencialmente uma superfície plana coberta de cores reunidas numa certa ordem, Maurice Denis estabeleceu como princípio da abstração o distanciamento dos laços entre o quadro e seu referente, reafirmando a autonomia da criação. (CAVALCANTE, 2018, p. 16)

Nas obras de August Macke, entretanto, os laços entre quadro e referente ainda se fazem presentes, não obstante a variação estética apontada anteriormente. Além disso, em termos temáticos, como já afirmamos em outros artigos sobre a produção artística desse pintor (CORNELSEN, 2021; CORNELSEN 2022a), a forte relação de Macke com a vida na natureza, desfrutada, sobretudo, nos períodos de residência ou veraneio às margens do Lago Tegern, na Baviera, e do Lago de Thun, aos pés dos Alpes Suíços, fez com que atividades de lazer junto às águas se tornassem fonte de inspiração artística – o banhar-se, o velejar e o caminhar em suas margens, em uma junção entre o desejo de desfrutar o veraneio e a contemplação do belo, que, no caso da representação artística dos corpos nus, coloca em perspectiva também o olhar daquele que os observa.

Todavia, há um contraste significativo a se pontuar, quando comparamos o conjunto de obras, aqui analisado, com outras que retratam, por exemplo, velejadores ou caminhantes nas margens do lago. Enquanto as figuras masculinas e femininas são retratadas vestidas à moda burguesa, com seus trajes alinhados, mesmo desfrutando de momentos de lazer em meio à natureza, nesse conjunto cujo eixo temático é o ato de banhar-se, além da ausência de figuras masculinas, as figuras femininas são retratadas nuas, o que permite, por assim dizer, atrelá-las a uma longa tradição nas artes plásticas que remonta à Antiguidade e também ao Renascimento, mas também ao movimento da FKK, tão intenso no período em que August Macke produziu suas obras, em que o Expressionismo acenava com possibilidades de contestação social e moral. Como bem aponta Victor Andrade de Melo, havia “a concepção de uma nova permissividade para a expressão cultural. Isso ficava bastante notável nos quadros de banhistas, dançarinas, prostitutas e atrizes” (MELO, 2009, p. 142). Haveria, pois, uma variação nos costumes, em que a Freikörperkultur, prática popular ainda nos dias atuais na Alemanha, traria novos ares à rigidez prussiana da Era Guilhermina.

Referências Bibliográficas

AKGIMAGES. Bilder von August Macke, s/d. Disponível em: https://www.akg-images.com/archive/-2UMEBMH6Z1KC.html. Acesso em: 04 jun. 2022.

CAVALCANTE, Neusa. Do Impressionismo à arte abstrata: a influência da fotografia e das teorias da percepção. Paranoá – Cadernos de Arquitetura e Urbanismo. Brasília/DF, n. 21, p. 1-18, 2018. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/paranoa/article/view/24054. Acesso em: 04 jun. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagens do lazer na pintura de August Macke. BELA – Blog dos Estudos do Lazer. Belo Horizonte, 14 dez. 2021. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 04 jun. 2022.
CORNELSEN, Elcio Loureiro. O mundo circense e o jardim zoológico na pintura de Auguste Macke. BELA – Blog dos Estudos do Lazer. Belo Horizonte, 26 de abril de 2022b. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 04 jun. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O velejar como lazer e sua representação na pintura de August Macke. História(s) o SPORT (Blog). Rio de Janeiro, 21 fev. 2022a. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/21/o-velejar-como-lazer-e-sua-representacao-na-pintura-de-august-macke/. Acesso em: 04 jun. 2022.

DUARTE, Paulo Sérgio. Expressionismo: ontem e hoje. Zero Hora. Porto Alegre, Caderno de Cultura, 04 dez. 2004. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/roteiropedagogico/publicacao/1020_APC_1020_Expressionismo_artigo.pdf. Acesso em: 05 jun. 2022.

FISCHER, Kurt. Die Geschichte der Freikörperkultur. Deutscher Verband für Freikörkerkultur, out. 2014. Disponível em: https://www.dfk.org/geschichte-der-freikoerperkultur. Acesso em: 04 jun. 2022.

GARB, Tamar. Gênero e representação. In: FRASCINA et al. (orgs.). Moderindade e Modernismo: a pintura francesa no século XIX. São Paulo: Cosac & Naify, 1998, p. 219-290.

KUNST FÜR ALLE, Bilder von August Macke, s/d. Disponível em: https://www.kunst-fuer-alle.de/deutsch/kunst/bilder/kuenstler/August+Macke/345/1/index.htm. Acesso em: 06 dez. 2021.

MEISTERDRUCKE. Bilder von August Macke, s/d. Disponível em: https://www.meisterdrucke.pt/artista/August-Macke.html. Acesso em: 06 dez. 2021.

MELO, Victor Andrade de. Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009.

SAMMLUNG PINAKOTHEK. Bilder von August Macke, s/d. Disponível em: https://www.sammlung.pinakothek.de/de/artist/anxgBP84Eq. Acesso em: 04 jun. 2022.

Notas


[i] Todas as traduções do alemão são de nossa autoria. No original:

Nacktheit bei Sport und Spiel und Baden hatte es schon zu fast allen Zeiten gegeben. Wir denken an die griechischen Athleten, oder an die Badehäuser des frühen Mittelalters und an Goethes Freude am unbekleideten Baden.

[ii] No original:

Gesundheitsförderung und Gesundheitserhaltung, sowie „Zurück zu den natürlichen Ursprüngen“.


Pintou o nono grande na Colômbia? Conheça a história do Deportes Tolima

07/06/2022

por Eduardo Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Em 02 de junho de 2021, escrevi um pequeno texto onde tentei representar um pouco daqueles que são considerados os “maiores clubes do futebol colombiano”. No total, são oito equipes que por mim foram destacadas: Independiente Santa Fé e Millonarios, de Bogotá; América de Cali e Deportivo Cali, ambos da cidade de Cali; Atlético Nacional e Independiente Medellín, de Medellín; Junior Barranquilla e Once Caldas. Essas oito equipes historicamente se destacam como sendo aquelas que ganharam o patamar de “maiores” times do país, envolvendo parâmetros como títulos, torcida, continuidade e disputa nas principais competições do país, dentre outros pontos.

Longe de entender que tais escolhas são definitivas ou mesmo devem ser consideradas como as mais corretas acerca do tema, uma pergunta surge ao se definir tal lista: existe a possibilidade de outras equipes serem também entendidas como grandes e pleitearem um lugar em tal seleto e privilegiado grupo de agremiações? Desde já, destaco que minha resposta é sim!

Como historiador, não posso me privar dos cuidados que devemos ter ao realizar seleções como essas, que muitas das vezes podem desvalorizar questões locais e representativas. Em outros países, por exemplo, a questão daqueles que são considerados “grandes” sempre foi marcada por muitos debates.

Na Argentina, por exemplo, se popularizou a ideia de que o país possui “cinco grandes clubes”, que seriam Boca Juniors, Independiente, Racing, River Plate e San Lorenzo. Até aí tudo bem, já que de fato estamos falando de cinco grandes agremiações que merecem ocupar tal espaço, cada uma com sua história, representação, torcida, títulos e ídolos. E tal escolha possui também referenciais históricos, que remetem às décadas iniciais do século XX, em que estiveram como principais equipes no processo surgimento, expansão e profissionalização do futebol argentino.

Mas daí surgem outras questões: como deixar, por exemplo, o Estudiantes de La Plata, tetracampeão da Libertadores da América, fora de uma lista dos grandes do país? Ou clubes como Huracán, Neweell’s Old Boys, Rosario Central, Vélez Sarsfield e Argentinos Juniors, todos com conquistas, ídolos e muita história? Tais equipes possuem histórias singulares, tendo em diferentes momentos todas pleiteado o título de “sexto grande” do futebol argentino.

No Brasil, se popularizou chamar 12 clubes como grandes, que seriam Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama no Rio de Janeiro; Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo em São Paulo; Atlético Mineiro e Cruzeiro de Minas Gerais; e Grêmio e Internacional no Rio Grande do Sul. Lista merecida, mas também injusta, pois ignora as variações culturais e regionais do Brasil, que possui outras grandes equipes espalhadas por todo seu território. Como deixar de fora o Bahia, primeiro campeão nacional e que fez parte do Clube dos 13; ou o Athletico Paranaense, um dos clubes mais vitoriosos e organizados do país no século XXI; ou mesmo Sport, Coritiba, Fortaleza, Vitória, Ceará….

Enfim, a lista é grande, assim como são todos esses e muitos outros clubes espalhados por todo o Brasil. E esse fator só aflora o debate que destaca a importância da descentralização dos olhares sobre o futebol nacional, ainda muito marcados por narrativas e construções oriundas do eixo Rio-São Paulo.

Destaquei aqui tais exemplos de Argentina e Brasil, países que assim como a Colômbia estão no cenário sul-americano, apenas para demonstrar que uma lista que se propõe a definir os “clubes grandes” de um país, além de não se estática, nunca será considerado uma ciência exata, pelo contrário: leituras e releituras devem ser feitas a todo o momento, se utilizando da história das agremiações nas suas mais variadas facetas como forma de se encontrar um caminho plausível e que possua critério na análise e escolhas realizadas.

No caso da Colômbia, como também destaquei em outra oportunidade, esse olhar cíclico se fez importante na escolha daqueles que poderiam ser considerados “os grandes do país”. Antes fora dessa lista, o Once Caldas passou a ser considerado a “oitava força” colombiana, principalmente pelos desempenhos dos últimos vinte anos e pela conquista da Copa Libertadores da América em 2004 (até hoje, apenas o Once Caldas e o Atlético Nacional conseguiram conquistar a principal competição sul-americana, dentre os clubes colombianos). Somando esses fatores ao desempenho histórico do clube, que é muito tradicional no país desde seus primórdios, se fez valer sua chancela como um dos grandes times da Colômbia.

Com isso, surge uma nova pergunta: o Deportes Tolima, que atualmente é o único clube colombiano que está nas oitavas de final da Copa Libertadores da América 2022 de futebol masculino, deve ser considerado o “nono grande” do país? Minha resposta para essa pergunta é positiva e irei apresentar abaixo um pouco da história do clube como forma de defender tal hipótese.

Equipe do Deportes Tolima. Foto: reprodução.

Fundado em 18 de dezembro de 1954 na cidade de Ibagué, que é a capital do departamento colombiano de Tolima, o Deportes Tolima é um dos clubes mais consistentes da história do futebol colombiano. Desde sua fundação, ocorrida na reta final do período El Dorado do futebol no país (caso queira saber mais sobre esse momento do futebol colombiano, veja aqui), o Tolima só não disputou a primeira divisão (Primera A) do campeonato nacional organizado pela Dimayor  – División Mayor no ano de 1994. E venceu a competição em seu único ano disputando a Primeira B, tendo em 1995 retornado à primeira divisão, de onde nunca mais saiu.

Esse desempenho que representa uma histórica consistência, entretanto, não havia se materializado em conquistas maiores até o século XXI. Mas isso tem se modificado. Desde 2003, o clube já foi três vezes campeão colombiano (2003-II, 2018-I e 2021-I), uma vez campeão da Copa Colômbia (2014) e uma vez vencedor da Superliga da Colômbia (2022).

Time do Tolima comemora o título colombiano em 2018. Foto: Reprodução.

Além das conquistas nacionais, o Deportes Tolima tem se mantido constante também nas disputas de competições internacionais.

Na Copa Libertadores da América, onde irá enfrentar o Flamengo nas oitavas de final da atual edição, está disputando o certame pela nona vez. A equipe já participou do torneio nas seguintes edições: 1982, 1983 2004, 2007, 2011, 2013, 2019 e 2022. Em 1982, logo em seu primeiro ano, chegou no triangular semifinal. Já em 2011, ficou marcado por eliminar o Corinthians na fase eliminatória da competição, o que marcou o último jogo da carreira do atacante Ronaldo, então atleta do clube paulista.

A equipe é ainda a segunda agremiação que mais vezes disputou a Copa Sul-Americana na história, tendo por nove vezes competido no segundo principal torneio de clubes sul-americanos (o Deportivo Cali lidera o ranking com dez participações, que também tem o Atlético Nacional com nove, empatado com o Tolima).

Última partida da carreira de Ronaldo “fenômeno” foi contra o Tolima, representando o Corinthians na Libertadores de 2011.

Além de todos os dados, histórias e conquistas aqui apresentadas, o Tolima está entre os nove primeiros colocados dos rankings que medem o desempenho histórico dos clubes colombianos no principal torneio nacional do país, tal como na Copa Libertadores da América, o que representa que a equipe tem cada vez mais fazendo por merecer esse lugar entre os grandes, não só pelos títulos e disputas recentes, mas principalmente pela consistência histórica que se faz ainda mais importante.

Portanto, mais uma vez, gostaria de reiterar que esse texto não possui a intenção de definir quem são, de fatos os “grandes clubes” da Colômbia ou de qualquer outro país. Porém, se com critérios críticos estabelecidos for realizada uma lista dessa natureza em terras colombianas, o Deportes Tolima, pelos pontos já aqui assinalados, cada vez mais pede passagem para, também, ser considerado um dos gigantes do futebol em seu país.

Referências

Deportes Tolima – Site oficial: http://www.clubdeportestolima.com.co

RUIZ BONILLA, Guillermo. La gran historia del fútbol profesional colombiano: 60 años de logros, hazañas y grandes hombres. Bogotá: Ed. DAYSCRIPT, 2008.


Robin Hood de Volta: o Nottingham Forest na Premier League!

30/05/2022

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitoras(es):

O post de hoje trata de um feito ocorrido no último sábado, 28/05/2022: o retorno, após 23 anos, do Nottingham Forest à primeira divisão do Campeonato Inglês de futebol masculino, mundialmente conhecida como Premier League desde 1992, após vencer o Huddersfield Town, por 1 x 0.

Um dos clubes mais antigos da Inglaterra, fundado em 1865, o clube retorna à elite com muita festa não apenas por seus tradicionais torcedores, mas por vários apaixonados por futebol ao redor do mundo, muito provavelmente pela memória de um time vencedor a partir do final dos anos 1970. O Forest fora campeão europeu duas vezes seguidos em 1979 e 1980, tornando o técnico Brian Clough uma das pessoas mais importantes na cidade, praticamente uma lenda. Este período dourado ainda coroou o clube com um Campeonato Inglês (1978) e duas Copas da Liga Inglesa (1978 e 1979). Até esta fase, dentre as taças significativas, o Forest havia conquistado duas Copas da Inglaterra: em 1898 e 1959. Após a fase mais importante, ganharia mais duas Copas da Liga: em 1989 e 1990. É curioso lembrar que o time estava em 1977 na segunda divisão inglesa e teve uma ascensão meteórica nos anos imediatamente seguintes, mesmo mantendo uma infra estrutura relativamente mais simples do que os clubes mais ricos do país.

O retorno atual do Forest à elite justificou, exatamente por conta de seu passado glorioso e nostálgico, uma cobertura atenta da mídia esportiva mundial, inclusive brasileira. A título de exemplos, temos algumas notícias publicadas ontem por sites de periódicos esportivos como o brasileiro GE, o grego Gazzetta, o italiano Gazzetta Dello Sport e o português A Bola, como podemos verificar nos links abaixo.

https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2022/05/29/nottingham-forest-vence-playoff-e-volta-a-premier-league-apos-23-anos.ghtml.

https://www.abola.pt/nnh/2022-05-29/inglaterra-23-anos-depois-historico-nottingham-forest-volta-a-premier-league/943270.

Pouca atenção foi dada para os acessos de Fulham e Bournemouth para a temporada de 2022/2023, não apenas por não terem uma história de conquistas como o time de Nottingham, mas porque na verdade participam da Premier League com muito mais regularidade do que o dono de City Ground (estádio do Forest).

Cabe ressaltar que a EFL Championship (Liga da Segunda Divisão Inglesa) tem se tornado nos últimos anos um dos produtos de grande popularidade do futebol inglês e mundial, com transmissões ao vivo por canais de televisão (no Brasil, a ESPN tem os atuais direitos), públicos pagantes que lotam os estádios e patrocínios específicos para a liga. Do ponto de vista da competição esportiva e da qualidade técnica, tornou-se um dos principais campeonatos no continente europeu. Acrescente-se também à fórmula de acesso, que mescla o sistema de pontos corridos com 24 equipes, de onde se classificam 2 diretamente e uma eliminatória final (entre os quatro melhores que terminaram entre a terceira e a sexta colocação). A final? Não poderia ser diferente do Estádio Wembley, palco mítico do futebol internacional. Reparem na imagem abaixo, a informação sobre o público presente nesta “final”:

Voltando ao Forest, e levando em conta a cobertura da mídia internacional supracitada, além da obra memorialística de Guarnieri (2021), a palavra nostalgia é utilizada mais de uma vez na imprensa esportiva ao retratar este novíssimo trunfo do Forest. A fase áurea do clube é revivida mais uma vez, demonstrando um fenômeno narrativo duplo: a valorização de uma memória de clube vencedor e que deixou uma marca na história do futebol europeu e, ao mesmo tempo, um aprisionamento contínuo a um mundo que dificilmente será revivido. Mas, convenhamos, os torcedores não fazem isso o tempo todo? Pois é, a imprensa esportiva também.

Cabe acompanhar agora qual será o futuro do Forest: um Robin Hood (que é na verdade o mascote do clube) da Premier League, roubando pontos dos maiores times ingleses e se mantendo com regularidade na principal e rica liga inglesa, ou vestirá o uniforme do Xerife de Nottingham, iludido e enganado pelas memórias e nostalgias que ganham vida nas florestas de Sherwood. De qualquer forma, vamos acompanhar.

Referências:

GUARNIERI, Lorenzo. El Nottingham Forest de Brian Clough: de la Segunda División a Bicampeón de Europa En 1000 Días. Librofutbol.com, 2021.


O AVANÇO DO SKATE FEMININO*

23/05/2022

Leonardo Brandão

Historiador e Professor Universitário

@leobrandao77

“Não se nasce mulher; torna-se mulher”. Esta frase pertence a escritora Simone de Beauvoir (1908 – 1986), a qual, através do livro intitulado “O Segundo Sexo”, lançado em 1949, contribuiu para questionar os lugares de sujeito que a sociedade patriarcal reservava para as mulheres, uma vez que a posição das mulheres na sociedade era (ainda é?) determinada por fatores culturais e sociais. A reflexão de Beauvoir exerceu forte influência no movimento feminista e, desde então, muitas conquistas foram obtidas.

Embora, nos últimos anos, estejamos vivendo no país uma espécie de retrocesso civilizatório, ainda assim, quando observamos o skate feminino, há motivos de sobra para nos orgulharmos. Rayssa Leal, Gabriela Mazetto, Yndiara Asp, Virgina Fortes, Pipa Souza, Priscila Morais, Esther Solano, Giovana Dias, Vitória Mendonça, Atali Mendes, Kemily Suiara, Pamela Rosa, Marina Gabriela, Vitória Bortolo, Karen Feitosa, Agatha Pinheiro, entre muitas outras, estão ora elevando o nível das manobras nas competições, ora manobrando em pistas e/ou filmando pelas ruas. Num Brasil que insiste em caminhar para trás, essa maior presença das mulheres no skate é um sinal de progresso.

E o que falar da História do Skate Feminino? Embora saibamos que, desde o início elas sempre estiveram sobre o carrinho, os estudos sobre este tema ainda são escassos. No Brasil, quem ajudou a preencher um pouco dessa lacuna foi a pesquisadora Márcia Luiza Figueira, estudiosa que produziu a primeira tese de doutorado específico sobre skate feminino, intitulado “Skate para meninas: modos de se fazer ver em um esporte em construção”, defendida em 2008 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Num capítulo publicado no livro “Skate & Skatistas: questões contemporâneas”, Márcia Figueira evidenciou algumas conquistas do skate feminino a partir da virada do milênio. Ela lembra que um passo importante no aumento de sua visibilidade foi dado pela revista CemporcentoSKATE em 2001, quando foi inaugurado o encarte 100%SkateGirl, no qual a skatista Giuliana Ricomini estreou a seção “ponto de vista”. No ano seguinte, em 2002, na segunda edição desse encarte, seu editorial explicava:

“Há muito que as meninas ambicionavam um espaço só seu na revista. Pediram, clamaram, reclamaram (e mais uma infinidade de outros verbos). Sobretudo elas ANDARAM de skate. Por isso CONSEGUIRAM […] insistiram em andar de skate, em acertar manobras, em correr campeonatos, em evoluir”.

As meninas (eu prefiro o termo mulheres) foram conquistando seus espaços nos veículos de mídia especializado. No ano de 2004, a extinta revista Tribo também passou a dedicar uma seção para elas, intitulado Lilith. Neste mesmo ano, segundo os estudos de Marcia Figueira, Alexandre Vianna, que na época presidia a Confederação Brasileira de Skate (CBSk), afirmou ser “legal ver as meninas se unindo na construção de um espaço e de uma identidade dentro do skate nacional”.

Um marco importante nessa batalha por visibilidade ocorreu em julho de 2006, época da simbólica publicação da centésima edição da revista CemporcentoSKATE. Nela, pela primeira vez, uma skatista aparecia na capa dessa revista. Tratava-se da skatista Eliana Sosco, com uma manobra (noseslide) descendo um corrimão de escadaria, fotografada por Renato Custódio.

Daí em diante muitas outras conquistas ocorreram, como a capa da Ligiane Xuxinha na edição de setembro de 2011 ou o sucesso internacional da skatista Letícia Bufoni, por exemplo. Mesmo no universo acadêmico, surgiram mais mulheres pesquisando a prática do skate. Em 2014, Allana Joyce Scopel defendeu na UFMG a dissertação de Mestrado “A apropriação do Parque da Juventude pelos Skatistas”; e em 2016, na FURG, Juliana Cotting Teixeira defendeu a dissertação “Cenas Urbanas: skatistas, ocupação da cidade e produção de subjetividades”.

Além disso, muitas crews de skate feminino surgiram, como as Pantaneiras Skate Girls na cidade de Campo Grande/MS (encabeçado pela skatista Edduarda Grego) ou as Batateiras, em São Paulo, que surgiram com o intuito de incentivar e fomentar o skate feminino. As Batateiras, inclusive, figuraram no documentário Skate Le Monde, produzido para a televisão francesa TV5 Monde[1].

A história do skate feminino é rica e merece muito mais investigação e registro. As primeiras praticantes, a luta por visibilidade, o preconceito, a corporalidade, questões de gênero, etnia e tantos outros enfoques são possíveis. O trabalho de Marcia Figueira foi pioneiro ao desbravar o assunto, mas outros estudos podem ser feitos. E aí, você skatista que está fazendo ou pretende fazer uma faculdade? Que tal este tema para um Trabalho de Conclusão de Curso? Pois, afinal, vamos combinar que o universo do skate ficou muito mais interessante com a presença das mulheres!

* Este post é uma versão levemente modificada do texto “Sim, elas podem!”, publicado na edição impressa da revista CemporcentoSKATE, edição n. 220, de out/nov de 2021.

[1] O episódio pode ser visto em: https://www.tv5unis.ca/videos/skate-le-monde/saisons/1/episodes/9

 


Corridas de toros en Montevideo durante la dominación portuguesa (1823)

09/05/2022

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

Sociedad y animales en el siglo XIX: espectáculos sangrientos

Durante el siglo XIX, Montevideo tuvo diversas actividades recreativas y algunas de ellas incluían el empleo de animales. Las prácticas de entretenimiento de una sociedad permiten la comprensión de la dinámica social de una población y puede ser muy útil para la comprensión histórica de la estructura socio-cultural de una época.

En el caso montevideano, eran espectáculos muy recurrentes que aglomeraban a muchas personas. Varios de ellos se caracterizaban por el castigo físico tanto con hombres como con animales. De alguna manera era el reflejo de una sociedad marcada por el espectáculo de la sangre y la muerte, que estaban en todos lados. El historiador José Pedro Barrán (2021) describió la sensibilidad del 1800 a 1860  como la “cultura bárbara” y enfatizó en la cuestión del castigo del cuerpo. En este sentido, afirma que “el castigo también incluyó el cuerpo de los animales, sirviendo con frecuencia el hecho mismo de espectáculo y diversión pública” (Barrán, J. P.; 2021, p. 79).

Parte de la diversión de la época colonial, se daba a partir de actividades como las corridas de toros. La primera plaza de toros de Montevideo se construyó en el año 1776. Los españoles eran muy aficionados a los toros y se quiso utilizar ese divertimiento en beneficio de la compostura de las calles que carecían completamente de empedrado. Este citado escenario, construido totalmente en madera y de forma octogonal, subsistió hasta 1780. En 1789 se levantó otro recinto en la Plaza Matriz que duró hasta 1790. Más tarde en un circo levantado en la calle mercado se llegaron a celebrar hasta 122 espectáculos.

Pasaron algunos años sin que volviera a repetirse esa clase de espectáculos, pero en la primera mitad del siglo XIX aparecieron dos plazas de toros: una de ellas en la Plaza Matriz en 1823 (en aquel momento centro de la ciudad), durante la dominación portuguesa. La otra, construida luego de la independencia del territorio Oriental en 1835 en la zona del Cordón. 

La dominación portuguesa y las festividades

Hacia agosto de 1816 comenzaron a cristalizarse los deseos portugueses de instalarse en Montevideo, cuando Carlos Frederico Lecor comandó la invasión con un ejército de unos 5.000 hombres, logrando ingresar a Montevideo en enero de 1817. Luego de tres años de lucha contra el ejército artiguista, los portugueses lograron controlar el territorio Oriental con Lecor a la cabeza. El proceso revolucionario iniciado en 1811 y comandado por José Gervasio Artigas, culminó en 1820 con la derrota del proyecto artiguista. Ya sin recursos y sin hombres, Artigas se retiró al Paraguay en setiembre de 1820 y desapareció de la vida política de la región.

En julio de 1821 se convocó a un Congreso en Montevideo, que votó la incorporación de la provincia al Reino Unido de Portugal, Brasil y Algarve, con el nombre de Provincia Cisplatina. Esta opción fue apoyada por personas de gran peso económico y político, es decir, aquellas que ocupaban importantes cargos en el gobierno, la administración, la justicia, el ejército y las fuerzas militares. “Formaban parte del Club del Barón, nombrado así por el título de Barón de la Laguna concedido a Lecor en 1818, y habían recibido en ese tiempo títulos y distinciones, estancias, ganados y privilegios mercantiles” (Frega, A.; 2016, p. 55-56).  

Durante la dominación portuguesa se reanudaron los espectáculos taurinos en Montevideo en el año 1823. En este caso se celebró la proclamación de la Constitución Portuguesa aprobada en Oporto el 23 de setiembre de 1822. Si bien Brasil proclamó su independencia el 7 de setiembre de 1822, la guarnición portuguesa de Montevideo continuó siendo fiel a Portugal y recién entregó la ciudad a los brasileños en febrero de 1824, comandados por el mismo Lecor.

Tres días duraron los festejos, para los cuales se construyó un tablado en el centro de la Plaza y algunos palcos a los lados para los espectadores de más distinción. (De María, I., 1957, p. 42).

Los toros entraron en el programa de las fiestas públicas de 1823 y la propia Plaza Matriz fue acondicionada a tales efectos. Esta plaza ubicada entre las actuales calles Sarandí, Ituzaingó, Juan Carlos Gómez y Rincón, sirvió de ámbito físico, instalándose las autoridades en el piso superior del Cabildo y Reales Cárceles a fin de presenciar apropiadamente la acción.

Por de contado, la plaza estaba llena de espectadores. Las azoteas, los tejados y los balcones cubiertos de gente. Los del Cabildo los ocupaba el Gobernador, jefes de alta graduación, los cabildantes y otras personas distinguidas. (De María, I., 1957, p. 43).

Los festejos incluían diversas actividades, tal como narra el escritor, historiador, periodista, político y pedagogo uruguayo, Isidoro de María (1815-1906), quien en sus crónicas recogidas en Montevideo Antiguo nos pinta parte de esa realidad:

Hubo comparsas que danzaron en el tablado. Recordamos una en traje de indios, con plumas rosadas ceñidas a la cintura y la cabeza, adheridas a un cinto de galón plateado. Otra de coraza, otra de viejos, con especie de miriñaque formado de arcos de barrica, y otra de oficiales dirigida por el renombrado actor Casacuberta. (De María, I., 1957, p. 42-43).

El tercer día fue el momento de los toros. Desde la noche anterior se arregló la plaza para lidiarlos. Todos los preparativos se hicieron bajo la dirección de Balbín y Vallejo, antiguo y respetable vecino de Montevideo.  

En la realización de estas fiestas públicas se percibe una herencia portuguesa de las festividades reales promovidas en el Brasil colonial. En este sentido, el historiador Victor Andrade de Melo (2013) analizó esas actividades en el caso de Río de Janeiro, tratándose de las más comunes y de mayor popularidad durante el período 1763-1822. Para el caso de Brasil, las festividades taurinas coloniales eran

Organizadas para celebrar datas importantes da Coroa portuguesa, evidenciavam a centralidade do monarca, tendo por intuito acirrar os vínculos de fidelidade com a metrópole. Tratava-se claramente de uma estratégia de controle, de exercício da soberania, a partir de uma exposição simbólica do poder monárquico, que incorporava e unifi cava o religioso e o político. (Melo; 2013, p. 366).

En el caso de las festividades por la Constitución Portuguesa había una clara intención de reivindicar a Portugal, mientras que Brasil ya había comenzado su vida independiente en setiembre de 1822.

El espectáculo taurino de 1823 presentaba estas características:

Se formó de tablazón un gran cuadro en la plaza. En el costado del sud se construyó el toril. Los toros eran embolados. A la voz popular de salga el toro, le daban salida y empezaba la cuadrilla la fiesta. Se componía únicamente de banderilleros y capeadores. No había picador, ni espada. Cada tumbo que llevaban los capeadores era una algazara. (De María, I., 1957, p. 43).

Para hacer la diversión más entretenida, se colocaba un muñeco en medio de la plaza, para que el toro lo embistiese. Dentro de una pipa vacía, se metía un hombre y el toro lo llevaba rodando a topadas con el viviente dentro. A la voz de ¡a la uña!; ¡a la uña! dada por los portugueses, cargaban todos sobre el toro y lo despachaban.

Como para fin de fiesta, un criollo, de apellido Trujillo, apareció en el circuito cabalgando en otro, con sus grandes espuelas redomonas, resistiendo los corcovos del alazán, como jinete famoso. (De María, I., 1957, p. 43).

Después de las festividades de 1823 y por tratarse de años convulsionados en el tramo final de las guerras de independencia, hubo que esperar hasta 1835, cuando comenzó la vida institucional del Estado Oriental del Uruguay, para volver a presenciar corridas de toros. Fueron de gran difusión antes y después de la independencia. 

Posiblemente esta interrupción está relacionada a la resistencia que presentaron los orientales a la anexión del territorio como parte de Portugal. Una manifestación de ello fue el intento de revolución que protagonizó en 1823 la asociación secreta de patriotas denominada “Los Caballeros Orientales”. Muchos debieron exiliarse en Buenos Aires, desde donde prosiguieron los trabajos revolucionarios que lograron concretar en 1825.

Referencias:

  • ALONSO, Rosa; SALA, Lucía; DE LA TORRE, Nelson y RODRÍGUEZ, Julio Carlos (1970). La oligarquía oriental en la Cisplatina. Montevideo: Ediciones Pueblos Unidos.
  • BARRÁN, José Pedro (2021). Historia de la sensibilidad en el Uruguay. Montevideo: Banda Oriental.
  • BARRIOS PINTOS, Aníbal (1971). Montevideo. Los barrios (I). Montevideo: Nuestra Tierra. 
  • BRACCO, Diego (2006). Apuntes para la historia de la tauromaquia en Uruguay. En: Revista de Estudios taurinos; v. 1 (n° 22), Murcia (pp. 203-247). 
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • DE MARÍA, Isidoro (1957). Montevideo Antiguo. Tomo I. Montevideo: Biblioteca Artigas.
  • FREGA, Ana (2016). La vida política. En: G. Caetano (Dir.) y A. Frega (Coord.), Uruguay. Revolución, Independencia y construcción del Estado (pp. 31-85). Montevideo: Planeta.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • MELO, Victor Andrade de (2013). As touradas nas festividades reais do Rio de Janeiro colonial. En: Horizontes Antropológicos; v. 19 (n° 40), Porto Alegre (pp. 365-392). 

A solidão do corredor de longa distância (RU, Tony Richardson, 1962)

26/04/2022

Colin Smith (interpretado por Tom Courtenay):
Correr sempre foi algo importante em nossa família. Especialmente correr da polícia. (…). Tudo o que sei é que se deve correr. Correr sem saber porque pelos campos e bosques. E ser o vencedor não é a meta. Mesmo que torcedores malucos estejam vibrando como idiotas. Assim é a solidão de um corredor de longa distância.

A película que trago para esta breve apresentação de hoje não é sobre futebol (como de costume). Venho variando a modalidade e acho que vou continuar assim. Não obstante, até podemos encontrar o jogo bretão nesse magnífico filme de Tony Richardson: A Solidão do Corredor de longa distância (The loneliness of the long distance runner). Trata-se de uma primeira disputa desportiva do protagonista, o jovem Colin Smith (vivido por Tom Courtenay), com seus companheiros de reformatório. Smith rouba a bola de seu desafeto, Stacy (Philip Martin), demonstrando velocidade e chamando a atenção do diretor do Ruxton Towers (Michael Redgrave). A referência ao futebol fica por aí. A não ser, talvez, pela importante advertência que o mesmo diretor faz repetidamente ao seus internos: “Se vocês jogarem conosco, nós vamos jogar com vocês” (If you play ball with us, we play ball with you”). Pra quem não topa jogar (colaborar) é pão e água por três dias. Em Ruxton Towers a regra é clara.

Mas, como nosso jovem foi parar nessa instituição? Isso nós só ficamos sabendo ao longo da fita, a qual se inicia exatamente com o áudio transcrito em epígrafe e o qual sintetiza belamente a proposta da obra. No entanto, ofereçamos uma mini-sinopse, para localização.

Colin Smith é um rapaz pobre, de família complicada na cidade de Nottingham. Seu pai está muito doente (vindo a falecer rapidamente) e a mãe já tem outro pretendente e interesses. Para se distrair, Colin tem o amigo Mike (James Bolam) e uma quase-namorada, Audrey (Topsy Jane). Também sem muita consequência ou reflexão, cometem alguns delitos. “Empréstimo” de carro e, posteriormente, invasão e furto. É por este último motivo que Colin, descoberto, acaba parando no Reformatório. Ao se destacar como corredor, passa a se posicionar melhor na hierarquia e na graça do Diretor. Este último aposta todas as suas fichas no garoto. Sua obsessão é vencer a Cross Conty (uma corrida de 7,5 km), em um torneio que pela primeira vez vai colocar a Ruxton Towers frente a uma Public School inglesa, a Ranley. Esse é o enredo básico.

Esta, porém, não é uma película trivial. É parte importante do chamado novo cinema inglês. Foi baseada em um conto de autoria de Allan Sillitoe, que o publica em 1959. É ele próprio, inclusive, que assina o roteiro do filme. Sillitoe nasceu na mesma Nottingham, na qual se passa a história do nosso corredor. Era filho de um curtidor de peles analfabeto e desempregado durante muitos dos anos da depressão de 1930. “Fez parte do grupo dos ‘angry young men’ dos anos 50”. Escreveu seu primeiro romance, “Saturday night, Sunday morning” (1958), que também virou filme, novamente marcando a nouvelle vague inglesa (Ver: https://www.pipoca3d.com.br/2020/04/o-que-foi-nouvelle-vague-inglesa.html).

A repercussão da obra de Silltoe é considerável. O Iron Maiden produziu uma música homônima a nossa película (https://www.letras.mus.br/iron-maiden/79653/traducao.html). O Economista João Paulo Velloso escreveu um livro, recente, sobre os descaminhos do desenvolvimento nacional e, adivinhem, também o nomeou da mesma forma (https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_asolidaodocorredor.pdf; para mais dezenas de referências, ver https://stringfixer.com/pt/The_Loneliness_of_the_Long-Distance_Runner).

Diretor (Tom Richardson) e atores (Michael Redgreve e, principalmente, Tom Cortenay) apresentam trajetórias importantes no cinema bretão e internacional.  Richardson assinou mais de 40 filmes e foi agraciado com vários prêmios internacionais (https://www.imdb.com/name/nm0724798/?ref_=nmawd_awd_nm). Caberia aqui, portanto, algumas palavras sobre as características da filmagem, produção e afiliação (talvez em outro escrito), mas vou ficar apenas com dois comentários.

A solidão do corredor de longa distância é sugestiva, de cara. Não seria preciso nem ver o filme para intuí-la. Trata-se de um exercício solitário, árduo, longo, exaustivo, no qual a tentação/possibilidade de se parar, de se dar um basta, pode aparecer a cada momento do trajeto. Simultaneamente (talvez estranhamente), as demonstrações de contentamento, satisfação, apego ou de liberdade parecem fazer parte de um rol de lugares-comuns na descrição da atividade por atletas e amadores. Paralelamente, as correlações metafóricas para com a existência de cada um de nós são por demais evidentes. O filme, porém, vai além. De uma dupla forma.

Primeiro, circunstancia uma situação. A difícil rotina de uma parcela da classe trabalhadora (ou sem trabalho) na Inglaterra do fim dos anos 50 e início dos 60 (um contraponto importante e uma presença fílmica fundamental para a trajetória do cinema como expressão cultural). Essa localização no tempo e no espaço (e pelo que se pode inferir, na trajetória do autor do texto/roteiro) confere estofo humano e histórico à trama.

Em segundo lugar (não menos relevante), essa obra, que teria tudo para se inserir no que se pode chamar de filme esportivo ou filme de esporte, é quase um anti-filme esportivo (pelo menos no sentido em que destoa de boa parte dos filmes que tematizam o esporte). Não trata de vencedores; mas também não é uma narrativa da derrota (de como lidar com a derrota). É uma história da conquista (efetivamente solitária e irremediavelmente individual) de uma escolha e de uma decisão potente na qual cruzar ou não a linha de chegada em primeiro lugar se torna uma coisa efetivamente menor do que a maneira como você vai percorrer a longa jornada. Não tenho dúvida que o desfecho narrativo desaponte uma parte da audiência, mas é nele que reside o diferencial e o atrativo da película. Existe um jogo poético entre o modo como a corrida (a competição) acaba e como a vida continua no reformatório, ilustrado pela última sequência fílmica. E existe, é claro, um jogo político entre o mesmo desfecho e a sinalização anterior de Smith, ainda no começo do filme (por volta do minuto 31):

Deixarei eles pensarem que me domesticaram. Mas nunca conseguirão, os desgraçados!

Do remo à vela, de operário a burguês, de subúrbio a zona sul

17/04/2022

Por Victor Melo (victor.a.melo@uol.com.br)

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Salve, povo querido

No meu post de hoje, apresento um extrato da conclusão de meu último livro, “Quando a Lagoa era subúrbio: os clubes náuticos, a produção do espaço e o processo de gentrificação”, disponível em

https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/23/quando-a-lagoa-era-suburbio-os-clubes-nauticos-a-producao-do-espaco-e-o-processo-de-gentrificacao-novo-titulo/

Um abraço grande, Victor.

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Nos anos finais da década de 1930, a nova estruturação do remo fluminense e as mudanças do perfil societário da Lagoa colocaram em xeque a existência da Federação Náutica. Em 1937, Lage e Piraquê anunciaram o desejo de se filiar à Liga Carioca. Ao final, ambos se ligaram à Federação Aquática, deixando, do Distrito da Gávea, somente o Jardinense na antiga entidade que, de toda forma, ainda tentou se manter ativa mobilizando outros associados. A essa altura, a União já estava extinta.

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Garagem do Piraquê. A sede se encontrava em terreno cedido pela prefeitura e era considerada bem instalada, ainda que modesta. Diário da Noite, 26 fev. 1937, p. 6.

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Vale considerar que o Lage deixara de possuir o barracão que mantinha na Lagoa por o proprietário do terreno não querer renovar o contrato de aluguel, interessado que estava no movimento de especulação imobiliária que havia na região. Na verdade, vários clubes foram atingidos nesse processo, no decorrer do tempo perdendo seu lugar para a guarda de material e embarcações.

A despeito disso, sob novo formato e com diferentes protagonistas, paulatinamente as iniciativas de remo se concentraram na Lagoa, não sem resistências, notadamente advindas dos clubes do Centro e de Niterói. De fato, boa parte das agremiações que não conseguiram se instalar na Gávea, no decorrer do tempo, deixaram de participar das regatas, tais como o Natação e Regatas, o Boqueirão do Passeio e o Internacional (sediados na Praia de Santa Luzia), bem como o Icaraí e o Gragoatá (da, na época, capital do Estado do Rio de Janeiro).

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Raia olímpica montada na Lagoa. O Globo Sportivo, 18 jan. 1940, p. 6

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Na Lagoa, é bem verdade, problemas estruturais interferiram no cotidiano dos clubes e na realização de eventos, tais como a mortandade de peixes e o assoreamento, ocorrências que feriam mesmo os desejos da prefeitura e do mercado imobiliário de valorizar e mudar o perfil da região. A propósito, as obras constantes promovidas pelo poder público, em diversos momentos, também criaram empecilhos para o pleno funcionamento das iniciativas náuticas.

Havia ainda a limitação de não haver um pavilhão como o que existiu por quase três décadas em Botafogo. Nesse aspecto, a construção do Estádio de Remo, realizada entre 1953 e 1954, aproximadamente onde antes fora a Praia do Pinto, mesmo sendo uma obra cercada de polêmicas e problemas, foi mais um contundente sinal de que para a Lagoa deslocara-se a prática da modalidade na cidade do Rio de Janeiro, da mesma forma que o foi a chegada de antigos e prestigiosos clubes no bairro – caso do Flamengo e depois do Botafogo e Vasco.

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Regata com público lotando o Estádio de Remo. Manchete Esportiva, 28 jul. 1956, p. 28.

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Houve, portanto, um duplo processo de gentrificação: do esporte e do bairro. Vale a pena lembrar que, a partir de meados da década de 1930, foram fechando suas portas as fábricas sediadas na Gávea. Em 1937, quando se definiu o zoneamento do Rio de Janeiro, excluiu-se a Zona Sul como área industrial. Nesse processo, a prática do remo na Lagoa foi adquirindo um novo sentido, não mais elogiada por ser expressão dos cuidados com os operários, mas sim de um estilo de vida burguês.

A Lagoa passara por muitas mudanças. Ainda que continuasse sendo por algum tempo uma região de baixa densidade populacional, já havia sinais do que seria seu futuro como área nobre da cidade. Logo deixaria de ser encarada como um subúrbio e seria considerada parte de uma Zona Sul valorizada.

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Treino de remo do Flamengo. A Noite, 30 mar. 1939, p. 7.

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No que tange à trajetória das agremiações náuticas pioneiras do Distrito da Gávea, o Piraquê e o Caiçaras se mantêm em funcionamento até os dias atuais, aquele com mais dificuldades, mas sempre permanecendo na Lagoa e Jardim Botânico. O Lagoense se extinguiu em meados dos anos 1930 e o Jardinense em 1939, por decisão dos associados remanescentes em assembleia. O Lage ainda seguiu ativo até a década de 1950, até ser despejado de sua sede na Praia de Botafogo (n. 440) e não ter mais como se manter. Nos seus anos finais, praticamente só acolhia bailes.

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Público acompanhando regata nas margens da Lagoa. O Globo Sportivo, 25 mar. 1939, p. 11.

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Perceba-se como as trajetórias dos clubes náuticos da Lagoa são boas expressões do processo de urbanização do Rio. A União, a princípio, reunia as agremiações do “subúrbio” da Gávea, um espaço que foi se integrando à cidade e passando por mudanças. Uma divergência de uma de suas filiadas deu origem à Liga Náutica, depois Federação Náutica, que atraiu sociedades de outros bairros. Como reação, a União se aproximou ainda mais da Federação Brasileira, majoritariamente formada por setores médios e altos, promotora de regatas na Baía de Guanabara. Com isso, associações prestigiosas também conheceram as águas lacustres da Zona Sul num momento em que a Enseada de Botafogo apresentava problemas para a manutenção dos treinos e organização dos eventos.

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Guarnição do Flamengo a caminho de páreo. O Globo Sportivo, 18 jan. 1940, p. 6.

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Os conflitos, portanto, acabaram por chamar ainda mais a atenção para o potencial náutico da Lagoa. No decorrer do tempo, algumas agremiações ligadas à Federação Brasileira se transfeririam para a Gávea, num momento em que as antigas sociedades náuticas locais enfrentavam dificuldades pari passu com o fim das fábricas que lhes deram apoio. Não surpreende saber que somente o Piraquê manteve as portas abertas, exatamente aquele clube que menos era dependente da experiência fabril, o primeiro a romper com a União.

Entre o público que acompanhava as regatas da Lagoa, a princípio, havia mesmo muita gente, de alguma forma, ligada às empresas fabris, moradores do Distrito da Gávea que possuíam várias opções de lazer, entre os quais os esportes náuticos. A composição societária das agremiações lagoenses era diversa, mas muitos dirigentes, remadores e associados eram funcionários das fábricas. Não me parece equivocado dizer que se tratava de um remo operário num bairro operário.

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Largada de páreo realizado na Lagoa. O Cruzeiro, 30 set. 1939, p. 27.

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Com as mudanças no perfil do Distrito, os clubes deixaram de ser liderados por operários, não sem que houvesse tensões e conflitos. Mais gente de estratos médio e alto começou a protagonizar os caminhos das antigas sociedades náuticas. Surgiu ainda uma agremiação que era plena expressão do processo de gentrificação da Lagoa, o Caiçaras, responsável por dinamizar outra modalidade na região, a vela.

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Regata promovida pelo Caiçaras. O Cruzeiro, 17 jul. 1937, p. 16.

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O processo de gentrificação, contudo, teve que lidar com o surgimento das favelas. Durante algum tempo, até que essas comunidades fossem brutalmente removidas, conviveram resquícios do passado e expectativas de futuro, algo que deixou alguns registros, como a imagem a seguir.

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Na imagem se vê a convivência entre novos clubes (nesse caso, o Monte Líbano), as novas construções habitacionais e os barracos e favelas. O Mundo Ilustrado, 3 set. 1960, p. 7.

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Essa convivência também se registrou no que se refere às iniciativas náuticas. O Caiçaras conviveu durante anos com a favela da Ilha das Dragas, cuja remoção foi marcada por forte resistência.

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À frente, o Clube dos Caiçaras; à direita e à frente, a Favela da Ilha das Dragas. Entre as duas, o Jardim de Alá. Disponível em: http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2017/12/ilha-das-dragas.html

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Seria uma questão de tempo para que o processo de “saneamento social” fosse completo. A matéria de um jornal explicita uma das justificativas utilizadas para a remoção da comunidade da Ilha das Dragas: “A miséria dos favelados causa má impressão aos estrangeiros que frequentam o Clube Caiçaras”. O cronista foi direto ao ponto:

A miséria refletida no amontoado de barracões que se estende por toda ilha é a principal razão porque a diretoria do clube vem forçando o despejo dos favelados. Dizem que o espetáculo é deprimente e que dá má impressão.

Obviamente, havia a questão do saneamento, mas vejamos o que se anunciou em outro periódico: “Os clubes próximos, Caiçaras, Pira-quê e Paissandu, não têm canalização de rede sanitária. Toda matéria é desembocada na Lagoa. Isto é um verdadeiro atentado contra aquele bairro”. Essas críticas, por certo, não tinham a repercussão das condenações que havia às favelas.

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Páreo realizado na Lagoa tendo ao fundo uma das favelas que havia na região. Manchete Esportiva, 28 jul. 1956, p. 9.

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Enfim, o antigo bairro operário, depois marcado pela existência de favelas, se tornou uma região de moradia de gente privilegiada economicamente, um cartão postal de uma cidade que adora exultar suas belezas naturais e a integração harmoniosa dessa com uma cultura exuberante, sempre, contudo, escondendo suas mazelas embaixo do tapete. O que procuramos argumentar é que os clubes náuticos foram indícios e agentes desse processo de transformação.

Inegavelmente, foram produtos e produtores do espaço.

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“Travaram um grande rolo, a pau”: carreiras, jogo do osso e a Porto Alegre que deveria se civilizar

11/04/2022

por Cleber Eduardo Karls (cleber_hist@yahoo.com.br)

E um jogo brabo, pois não é? Pois há gente que se amarra o dia inteiro nessa cachaça, e parada a parada envida tudo: os bolivianos, os arreios, o cavalo, o poncho, as esporas. O facão nem a pistola, isso, sim, nenhum aficionado joga.

(João Simões Lopes Neto – Jogo do Osso)

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João Simões Lopes Neto, possivelmente o maior literato regionalista do Rio Grande do Sul, inicia o seu conto Jogo do Osso (1912) enfatizando: “eu já vi jogar-se uma mulher num tira de taba (sic). Foi uma parada que custou vida… mas foi jogada!” Mesmo considerando-se a licença poética do autor, não é impensável que jogatinas como essa relatada pelo pelotense tenham, realmente, acontecido nos mais distintos rincões do sul do Brasil entre os oitocentos e o início do século passado. No conto de Lopes Neto um pouco do gaúcho rural, arredio, violento, criado no lombo do cavalo é exposto. Personagens literários, mas que em Porto Alegre se materializavam e faziam parte do cotidiano da cidade, dividindo espaço com refinados comerciantes ingleses ou letrados alemães.

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/video/jogos-farroupilhas-veja-as-regras-do-jogo-do-osso-4434717.ghtml

A Porto Alegre do final do século XIX e início do XX era uma cidade de contrastes, um tanto dicotômica. Por um lado, a capital mais meridional do Brasil era um exemplo de modernidade e integração com seus vizinhos platinos. Local de amplo desenvolvimento comercial e cultural. De acordo com os viajantes do Velho Mundo que pelo sul do Brasil aportavam, este destaque era especialmente promovido pela grande quantidade de imigrantes europeus que na capital do Rio Grande do Sul fixavam moradia e desenvolviam suas atividades.

O francês Saint-Hilaire, que esteve no Brasil em parte do primeiro quartel do século XIX, anotou que “aqui (Porto Alegre) lembramos o sul da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador”. Outro ponto destacado é a capacidade associativista, lembrada pelo germânico Reinhold Hensel, que desembarcou no sul do Brasil em 1865 e relatou que os clubes de Porto Alegre reúnem “todos aqueles que tem a educação como exigência e ao mesmo tempo sentem necessidade de entretenimento e sociabilidade”.

Se Porto Alegre era reconhecida como um modelo de desenvolvimento e civilização, levando-se em consideração os aspectos eurocêntricos que balizavam esses conceitos, outras características relacionadas às origens históricas do local apontavam traços de “atraso”, “selvageria”, retratados por viajantes e pela própria imprensa. Esses atributos deveriam ser eliminados, substituídos. Dois exemplos de atividades que são marcantes nessa jornada em busca da “civilização” são as carreiras e o jogo do osso, também conhecido como tava. De uma forma bem simplificada, as “carreiras” eram corridas de cavalo, geralmente realizadas em cancha reta, sem regras muito definidas ou elaboradas. Já a tava é jogada com uma peça homônima. É um osso retirado do calcanhar do boi cujo nome é astrágalo. Basicamente, é um jogo de arremesso, onde a pontuação varia de acordo com a posição da tava após o lançamento.

A exemplo de muitas vozes que buscavam contribuir para que a capital do Rio Grande do Sul se modernizasse, a imprensa da época se posicionava militando por novos hábitos, preferencialmente europeus. A Gazeta de Porto Alegre, em 15 de maio de 1880, destacava que “as carreiras entre nós são em geral por sistema muito primitivo, isto é, corredores em manga de camisa, com o lenço amarrado na cabeça e em cavalos não encilhados”. Era necessária a modernização, a adequação da prática tão comum entre os sul-rio-grandenses ao modo europeu. Conciliar a habilidade do cavaleiro gaúcho, que foi comparado a um centauro, às técnicas e aos cavalos europeus puro sangue seria um fator fundamental para o sucesso do hipismo em Porto Alegre, esse sim, um hábito civilizado. Seguindo a sua campanha, o periódico se colocava destacando que “a civilização tem suas exigências; os usos do século passado não servem para o nosso século; uma populosa cidade, como a nossa, deve possuir um clube de corridas, em que o estrangeiro possa reconhecer o sistema usual em todos os países”.

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Já com relação ao jogo do osso, os registros indicam uma forte perseguição a prática. Em 31 de maio de 1895 a Gazeta da Tarde relatou uma busca numa “tavolagem” no Café e Bilhar situado a Praça da Alfândega. Ainda o artigo denunciou outros locais de jogatina na Rua do Rosário e Ladeira, onde, de acordo com o jornal, “o jogo continua com grande perigo para a tranquilidade doméstica de muita família”. A opinião do periódico fica clara quando ele destaca que “as consequências desse vício são terríveis” ou, ainda, quando aponta que o jogo é o “inimigo da sociedade”.

Relatos de confusões por conta de impasses no jogo do osso não eram raros. O Le Petit Journal de 28 de junho de 1905 relatou que “em uma cancha do jogo da tava (osso) dentro de um cercado, no Arraial da Baroneza, alguns indivíduos que ali se achavam e por questão de paradas, travaram um grande rolo, a pau”. O mesmo jornal, mas agora em 14 de outubro do mesmo ano, destacou que “no pátio existente ao lado da Igreja das Dores, vários vagabundos costumavam jogar o osso, cartas, etc”. O periódico ainda apontou que a polícia compareceu ao local mas conseguiu prender apenas um dos indivíduos envolvidos.

Como fica claro, essas práticas, apesar de comuns, eram marginalizadas e colocadas em um status de inferioridade perante uma Porto Alegre que estava se desenvolvendo. Diversões tradicionais do Rio Grande do Sul como as carreiras e o jogo do osso estavam perdendo espaço para outras atividades estrangeiras, vistas como civilizadas/civilizadoras. É o caso do turfe, das regatas e do ciclismo, por exemplo, que representavam o avanço, a tecnologia e colocavam a capital dos gaúchos em consonância com as grandes metrópoles mundiais.

Cabe destacar que essas práticas não desapareceram por completo. Ainda é comum no interior do Rio Grande do Sul a realização das tão afamadas carreiras, assim como de partidas do jogo do osso. É importante ressaltar que esse último, assim como outros divertimentos tidos como tradicionais como o truco cego, truco de amostra, a bocha campeira, entre outros, foram regulamentados pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) como forma de “preservar e divulgar os hábitos, os costumes, as tradições e o folclore rio-grandense”. Ganharam status de “Esportes Tradicionalistas do Estado do Rio Grande do Sul” e possuem competição de caráter nacional. No entanto, uma série de normas enquadraram os contemporâneos participantes. De acordo com o regulamento do MTG, está proibida a premiação em bebida alcoólica, apostas diretas envolvendo dinheiro ou outros quaisquer valores. Até mesmo esses jogos foram afetados pela moralizante modernidade…

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Medicina, ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX

28/03/2022

Fabio Peres e Victor Melo*

Em posts anteriores1, 2, 3, contamos um pouco sobre a história do processo de legitimação, institucionalização e difusão do saber médico a respeito das práticas corporais, em especial a ginástica, no Rio de Janeiro do século XIX.

Uma das premissas principais dessa história é que a relação entre exercícios corporais e saúde não era a princípio tão óbvia e muito menos incontestada. Tratou-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre agentes, instituições, práticas e saberes que configuravam o campo médico-científico nos oitocentos. Uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade pari passu em que o campo científico também mudava.

Os primeiros indícios desse processo se deram nos anos 1830, conforme apresentado nos posts anteriores. Porém, ainda na década de 1830, é possível identificar algumas modificações no trato do tema nos periódicos médicos científicos.

Novos objetos, abordagens e legitimidades

Mesmo que ainda persistissem alguns traços identificados no Semanário de Saúde Pública (1831-1833), a abordagem sobre a ginástica ganhou maior especificidade. Diferente do caráter mais geral e informativo, começou-se a publicar estudos mais detalhados, ao mesmo tempo em que a autoridade e a legitimidade médica se expandiram para outras esferas.

Embora se perceba a permanência de textos com características ensaísticas – um padrão narrativo no qual há, em geral, uma mistura entre opiniões, reconstrução histórica, julgamentos morais e projetos políticos -, alguns artigos já apresentavam feições, consideradas hoje, por assim dizer mais científicas, cuja audiência principal seria a própria comunidade médica[1]. Tais escritos abordaram de maneira mais detalhada os benefícios da ginástica, sejam eles biológicos ou sociais.

O processo de institucionalização da ginástica passou a progressivamente contar com importantes fundamentos e alicerces das ciências médicas. Isso, todavia, não significou que no interior do campo médico havia consenso absoluto. Valerá prospectar os debates publicados na Revista Médica Fluminense (1835-1841) e na Revista Médica Brasileira (1841-1843), ambas editadas pela antiga SMRJ, já transformada em Academia Imperial de Medicina[2], bem como em outros periódicos médicos da ocasião.

Importa assinalar que naquele momento começaram a circular, em alguns jornais da Corte, algumas matérias sobre a ginástica, nas quais há referências a sua importância para a saúde. Um exemplo é o artigo “Da Ginástica”, publicado em duas ocasiões: no Diário do Rio de Janeiro[3] e no Museu Universal[4]. Além do destaque ao estabelecimento de ensino dirigido por Francisco Amoros[5], na França, o texto salienta que, em 1780, o médico Tissot escreveu a obra Ginástica Medica, em que estabeleceu regras e métodos para os exercícios corporais. De acordo com o artigo, a prática contribuiria para educar homens vigorosos, revertendo a má dirigida educação física da primeira infância, que formaria “arlequins” e “afeminados”.

Em abril de 1836, a Revista Médica Fluminense publica um pequeno trecho da obra Essai general d’education physique, morale et intellectuelle, escrito por Jullien de Paris[6].  O autor, ao defender a necessidade de o médico conhecer o homem físico e moral, sugere que a ginástica é uma estratégia eficiente para manter o equilíbrio do corpo humano.

Mesmo não sendo médico, a preocupação do autor francês com as relações entre saúde e educação acabava por reiterar a importância da medicina no que tange à instrução da infância e da juventude. Na Revista Médica Fluminense já houvera antes uma aproximação entre a ginástica e a formação de crianças e da “mocidade”. Nesse caso, todavia, se tratava de uma obra reconhecida no campo educacional, aprovada e adotada pelo Conselho Real de Instrução Pública francês. O periódico, nesse sentido, procura endossar a autoridade do saber médico a partir do reconhecimento da legitimidade que outras áreas lhe conferem.

Alguns anos depois, em 1839, um artigo sobre pneumonia tuberculosa, de autoria de Mr. Fourcault, é publicado na Revista Médica Fluminense[7]. Ao tratar da influência do clima e dos lugares nas afecções ligadas à doença, o autor destaca o problema da falta de exercícios (passeios, corridas, ginástica, dança e esgrima):

É sobretudo na segunda infância, e ao tocar a época da puberdade, que se deve prevenir a incubação lenta e graduada das moléstias tuberculosas; desditosos os meninos débeis e linfáticos, cuja inteligência prematura se cultiva à custa das forças físicas! Os estudos porfiados, a falta de exercício ao ar livre, alteram sua constituição, e os dispõe às mais graves afecções. Os passeios frequentes, as carreiras, a ginástica, a esgrima, a dança etc., são pois indispensáveis na tenra idade para manter o equilíbrio de uma importante função (p. 112).

A ginástica – entendida como um conjunto específico de técnicas corporais ou como sinônimo de qualquer exercício – passaria, no decorrer do século XIX, a ser citada em diversos estudos associados ao tratamento de moléstias de diferentes naturezas: enxaqueca[8], anemia[9], tísica[10],[11], paralisia[12], ortopedia[13], alienação mental[14], doenças crônicas do coração[15] etc.

Ainda em 1839, um médico publicaria um artigo sobre os benefícios da ginástica em terras brasileiras. Mas essa história ficará para um próximo post.


* Parte do texto foi publicado originalmente em: PERES, Fabio de Faria e MELO, Victor Andrade de. O trato da gymnastica nas revistas médicas do Rio de Janeiro na primeira metade do século 19. História da Educação [online]. 2015, v. 19, n. 46, pp. 167-185. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/2236-3459/46494&gt;. ISSN 2236-3459.

[1] A linguagem, o formato, a análise de dados, a citação de referências e pesquisas acadêmicas no corpo do texto, entre outros, são aspectos que os diferem do gênero ensaio.

[2] Brasil. Decreto de 8 de Maio de 1835. Converte a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro em Academia, com o titulo de Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro; e dá-lhe estatutos. Na ocasião, a Academia passou a receber recursos do Tesouro público.

[3] Diário do Rio de Janeiro, 09/03/1838, p. 1.

[4] Museu Universal, ed. 43, 28/04/1838, p. 341.

[5] Além de diretor do Ginásio Normal de Paris, Francisco Amoros (Valência, 1770 – Paris, 1848) é considerado um dos precursores da Educação Física moderna e um dos difusores do ensino da ginástica na França. Para mais informações, ver Sirvent (2005) e Arnal (2009).

[6] Revista Médica Fluminense, ed. 1, vol. II, abril de 1836, p. 237-243.

[7] Revista Médica Fluminense, ed. 3, junho de 1839, p. 103-112.

[8] Arquivo Médico Brasileiro, dezembro de 1846, p. 89.

[9] Arquivo Médico Brasileiro, janeiro de 1848, p. 73-77.

[10] Arquivo Médico Brasileiro, abril de 1847, p. 175.

[11] O Progresso Médico, 1877, p. 449-457.

[12] Annaes Brasilienses de Medicina, abril de 1852, p. 172-177.

[13] Annaes Brasilienses de Medicina, outubro de 1853, p. 13-16.

[14] Annaes de Medicina Brasiliense, julho de 1848, p. 12-16

[15] O Brasil Médico, setembro de 1888, p. 266-269.