O FUTEBOL NOS JOGOS BOLIVARIANOS DE 1938 II: A IMPORTÁNCIA DOS ESTÁDIOS EL CAMPÍN E CIDADE UNIVERSITÁRIA EM BOGOTÁ

14/10/2019

Por Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No  meu último post aqui publicado em 14 de maio de 2019, abordei a presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, evento poliesportivo ocorrido em Bogotá no âmbito dos festejos do IV centenário da capital colombiana e que contou com a participação de diferentes nações ligadas por questões identitárias com a imagem de Simón Bolívar, que foram Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela.

Tratei, também, sobre como esse evento foi importante para a consolidação dos primórdios da seleção colombiana de futebol, considerando que foi nesse ano de 1938 que se iniciou a formação de um selecionado entendido como nacional no país, dentro dessa modalidade esportiva.

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Estádio Alfonso López pumarejo, da Cidade Universitária, na inauguração dos Jogos Bolivarianos de 1938. Fonte: Universidad EAFIT (https://www.wikiwand.com/en/1938_Bolivarian_Games)

Ainda nesse último post, destaquei a importância da construção de dois estádios para a efetivação não só da competição de futebol, como de todas as disputas ocorridas na agenda esportiva no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938. São esses o Estádio Alfonso López Pumarejo (Estádio da Cidade Universitária), localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colômbia – Sede Bogotá; e do Estádio Nemesio Camacho (El Campín), uma das maiores e mais conhecidas sedes esportiva do país até a atualidade.

As motivações para a efetivação da construção daquelas que se tornariam as duas principais praças esportivas da capital, se deu por distintas questões. Dentre os interesses envolvidos e motivações oriundas da construção dos dois estádios, David Quitián destaca que

En esa ocasión, se decía lo siguiente: Frente al deporte, baste dar algunas indicaciones: […] la construcción del estadio de la Universidad Nacional (parte de um complejo proyecto polideportivo) obedeció a la idea inglesa, perfeccionada por la tradición norteamericana, de un campus donde la energía de la juventud se canalizara en la combinación de estúdio y agonismo sublimado por el deporte, que de hecho es la base em todos los campus en esos países […]. Por el contrario nada menos que Jorge Eliécer Gaitán, con su visión populista y como alcalde de Bogotá, decidió la controversia por el rumbo del deporte al insistir, contra la idea del gobierno, en poner un polo popular alternativo al deporte de la capital, con la creación del estadio Nemesio Camacho, más conocido como El Campín. Fue una decisión de encrucijada. (QUITIÁN, 2009, p. 3)

O governo do presidente Alfonso López Pumarejo (1934-1938), marcado por “La Revolución en Marcha”, construiu caminhos que relacionavam o esporte com o desenvolvimento político e econômico do país. Foi em seu âmbito que se consolidaram, também, os projetos de construção dos dois estádios aqui referendados.

Tentando vincular Bogotá aos ideais inerentes à modernidade, que passavam por um determinado aparato acadêmico e científico, buscou-se assim estabelecer um parâmetro diplomático onde a capital do país fosse vista como um modelo em distintos quesitos:  “López creía que Bogotá debía vincularse estrechamente a la vida de la universidad y opinaba que mantener el estadio dentro de esta última era un buen pretexto para lograrlo” (ACOSTA, 2013, p. 56). Não à toa, foi nesse cenário que o governo comprou os prédios e espaços necessários, então pertencentes a José Joaquim Vargas, para a construção da Cidade Universitária da Universidad Nacional em Bogotá, local onde também seria construído o estádio universitário, que posteriormente foi nomeado com o nome do presidente.

Em 1936 se deu início às obras de urbanização em Bogotá que visavam adequar os espaços universitários na cidade, tendo o Instituto Nacional de Educação Física iniciado no ano seguinte. A planta integrava dois estádios: um para o futebol e outro para o atletismo que, com o tempo, acabaram sendo fundidos em um único projeto, até pela questão da viabilidade econômica. Inclusive, um espaço para a construção de um campo de beisebol, esporte que se consolidou com mais força no caribe do país, havia sido pensado a priori. As obras do estádio Alfonso López Pumarejo se iniciaram em setembro de 1937, tendo sido finalizadas e liberado o estádio para as competições em junho de 1938.

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Estádio Alfonso López Pumarejo na atualidade, localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colombia em Bogotá. Fonte: https://www.eltiempo.com/colombia/otras-ciudades/historia-del-estadio-alfonso-lopez-de-la-universidad-nacional-385994

No caso de El Campín, é importante destacar que o projeto para a construção de um “Estádio Nacional”, é anterior ao de consolidação dos Jogos Bolivarianos enquanto evento festivo no país. Já era previsto na Ley 12 de 1934, que tinha como objetivo a reorganização do Ministério de Educação da Colômbia, dialogando com a Ley 80 que versava sobre a institucionalização da Educação Física e dos esportes no país, que se construísse um estádio de grande porte na Colômbia.

No mesmo ano, em 17 de novembro, um comunicado foi enviado ao então prefeito de Bogotá, Junior Pardo Dávila, onde foi solicitado pela CNEF que “a la Junta Pro Centenario de la ciudad que incluya en los proyectos de obras urbanas el de un Estadiúm (sic) o plaza de deportes, con un presupuesto mínimo de $400.000 (cuatrocientos mil pesos)” (ACOSTA, 2013, p. 53).

Em 1935, foi criada uma junta destinada a desenvolver o projeto de construção do estádio. De início e com o aval presidencial, se pensou em construir um Estádio que se vinculasse à Universidad Nacional (que depois, seria o Estádio da Cidade Universitária, já aqui citado). Porém, a proposta de construir um estádio universitário não foi bem aceita por todos. Por exemplo, Jorge Gaitán, membro do Partido Liberal e um dos maiores nomes desse campo político, se opôs à parte desse olhar então definido por López Pumarejo. Entendia que o estádio deveria ir “além do mundo acadêmico”, sendo assim também “destinado ao povo”.

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Estádio El Campín sendo construído na década de 1930. Fonte: http://www.infodeportes.com/futbol/estadio/nemesiocamachoelcampin/historia

Gaitán se esforçou para conseguir 350 mil pesos em agosto de 1936, visando a construção do estádio. A partir do Decreto de número 268, ficou destinada tal verba para a construção do “estádio nacional”, tendo os atrasos em sua obra gerado manifestações nas ruas de Bogotá. O estádio acabou sendo inaugurado, tal como o da Cidade Universitária, no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938.

Tais jogos foram, então, centrais na celebração organizada para se festejar o aniversário da capital do país. Foi, no caso do desenvolvimento das práticas esportivas, a “cereja do bolo” de um processo que vinha se desenhando já nas décadas anteriores, a partir da reconfiguração da cidade. E com a nova concepção política a partir da entrada do governo liberal, o esporte incorporava as características centrais do “homem moderno”: “fomentaba la higiene, la salud, la educación, el entretenimiento “sano”, la mejor forma de combatir una vida sedentária y el mejoramiento de la “raza” y su beleza”.(ACOSTA, 2013, p. 58).

Já na inauguração dos jogos, o Estádio da Cidade Universitária recebeu um grande público, digno de grandes eventos mundiais, não só no esporte, mas também como em festas cívicas ou diplomáticas. Importante como marco e pontapé inicial dos jogos, o estádio se caracterizou como um dos pontos altos do evento organizado na Colômbia, tendo logo em sua primeira aparição alcançado um público de mais de vinte mil pessoas. Como é destacado no calor do momento pelo periódico bogotano El Siglo,

Mas de 20.000 personas asistieron al Estadio de la Ciudad Universitaria para presenciar la inauguración de los Juegos. […] En forma solemne se inauguraron en la tarde de ayer los Juegos Deportivos Bolivarianos en el espacioso estadio universitario. Más de seiscientos deportistas que intervendrán en las competências bolivarianas, desfilaron frente a la tribuna presidencial – El Doctor Alfonso López declaró solemnemente inaugurados los juegos – La presentación en el estádio de las delegaciones  deportivas – El emocionante acto de suelta de las palomas que salieron em dirección a los países bolivarianos, anunciando la apertura de los juegos – Las ceremonias protocolarias efectuadas – El despliegue de las banderas, a los acordes de los himnos de los países particulares.(El Siglo, 06 de agosto de 1938, p. 9).

As partidas eram sempre muito exaltadas pela imprensa, que também destacava a beleza dos estádios e a importância desses para a efetivação dos jogos. Um exemplo foi a partida de futebol da seleção do Peru, que seria a campeã dessa modalidade, com a Colômbia. Tendo inaugurado o certame para os colombianos, alguns periódicos aproveitaram-se do fato de ser esse um dos jogos mais esperados até então, para exaltar parte da organização e estrutura construída pelo país para o evento, como o próprio estádio El Campín.(El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3). Como vemos nas páginas de El Espectador:

No menos de 50.000 personas concurreran esta mañana a la inauguración del grande estádio municipal <El Campín>, una de las hermosas realizaciones inauguradas em el centenário. […] Después de que las bandas ejecutaron el himno bolivariano, letra de Alfredo Gómez Jaime, se tocó el himno nacional, en el momento de entrada del presidente con su comitiva. Luégo se inició el desfile de Educación Física y la guardia olímpica […]. Fue digna de admiración la organización del tránsito y la que se desplegó para que el público pudiera entrar y salir com comodidad (El Espectador, 15 de agosto de 1938, p. 3).

Assim, fica notório o quanto o público foi importante para se consolidar os interesses, não só diplomáticos, mas também econômicos dos agentes fomentadores do evento. Se na inauguração do Estádio da Cidade Universitária estiveram presentes um número próximo dos 20.000 espectadores, em El Campín, esse número mais do que dobrou, deixando explícito a formação de um “mercado ao redor” do evento esportivo que se desenvolvia, característica essa importante para a consolidação do campo esportivo colombiano.

Portanto, torna-se possível perceber, com os exemplos aqui explicitados na cidade de Bogotá, que são os estádios El Campín e Cidade Univeristária, o quanto a efetivação de espaços apropriados se fazem importantes para a construção de um público no futebol (e, de forma mais ampla, no esporte), contribuindo assim para a expansão e difusão de tais práticas no âmbito simbólico, cultural e identitário de uma determinada sociedade.

Referências Bibliográficas

ACOSTA, Andrés. Elementos sociohistóricos intervinientes en la construcción de los estadios Alfonso López e El Campín para los primeros Juegos Bolivarianos: Bogotá, 1938. Revista Colombiana de Sociologia, Bogotá, v. 36, n. 01, p. 43-62, jan-jun 2013.

QUITIÁN ROLDÁN, David. Gaitán, el fútbol y la Universidad Nacional. En Asciende, Memorias Cátedra Jorge Eliécer Gaitán. Sociología 50 años. Clase 9. Universidad Nacional, Bogotá, 2009, p. 2-15.

 

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O Equador e o Estado de Exceção

07/10/2019

André Couto

Olá, leitoras(es):

Neste breve post, chamamos a atenção para o momento atual do Equador, e também da própria América Latina.

Este país, neste exato momento, passa por uma crise política e institucional por conta da decretação da situação de Estado de exceção pelo presidente Lenín Moreno, causada por manifestações contra as medidas impopulares do governo equatoriano.

O estado de exceção foi resultante de diversos protestos de movimentos sociais e de categorias profissionais diversas, inclusive de caminhoneiros, paralisando parte da produção e dos serviços no país, assim como as ruas e estradas.

Lenín, que já participara de governo anterior (foi Vice-Presidente do país no governo  socialista Rafael Correa no período de 2007-2013), tem um histórico de diálogo com os movimentos indígenas e se destacou em sua carreira política pela luta das pessoas com deficiência (ele mesmo é um cadeirante por ter sido baleado em uma tentativa de assalto em 1998). Por conta disso, foi nomeado pelo então Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, como enviado especial do Secretário Geral da ONU sobre Discapacidade e Acessibilidade. Ou seja, Lenín não era necessariamente um político com propostas autoritárias e excludentes. Inclusive, em várias ocasiões criticara as atitudes autoritárias de seu antecessor.

Todavia, ao assumir o o governo pelas eleições em 2017, pelo movimento pró-governo Alianza PAIS, passou a adotar uma pauta neoliberal tendo, dentre outras medidas a flexibilização da legislação trabalhista, redução de custos e de investimentos no setor público e admissão de empréstimos no FMI. Cabe lembrar que a crise interna do Alianza PAIS, com o rompimento da relação entre Correa e Lenín, atingiu outros partidos do país, afastando a participação de outros partidos de esquerda da atual gestão.

Uma das medidas mais impopulares e considerada o estopim para os conflitos sociais atuais foi o fim do subsídio para os combustíveis, afetando diretamente os setores e trabalhadores da área do transporte.

Cabe lembrar que o estado de exceção imposto pelo governo já tinha ocorrido no governo anterior, de Rafael Correa, em setembro de 2010, por conta de protestos da categoria de policiais. A Asembleia Nacional (poder legislativo) fora fechado por 5 dias naquela ocasião.

Porém, por agora, Lenín Moreno é acusado pelos setores da esquerda de trair a proposta de continuidade do governo de Rafael Correa e de acordo com parte da imprensa equatoriana, a outorga do estado de exceção é um elemento forte neste quebra cabeça da crise deste país.

Protestos no Equador chegaram ao segundo dia nesta sexta-feira (4) — Foto: Daniel Tapia/Reuters

Enfrentamento entre manifestantes e policiais. Foto: Daniel Tapia/Reuters. Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/04/motoristas-encerram-greve-no-equador-apos-governo-decretar-estado-de-excecao.ghtml

Enquanto isso, o país e as práticas esportivas paralisaram por completo. De acordo com o jornal Ultimas Noticias, a FEF (Federación Ecuatoriana de Fútbol) tomou a iniciativa de suspender a principal partida de futebol na última sexta-feira (04/10) entre LDU e Emelec (dois dos maiores clubes do país) pela Copa Ecuador (similar à nossa Copa do Brasil). O jogo seria realizado em Quito. O caos urbano e social causado pelos protestos e a repressão violenta do governo são os principais receios das federações esportivas no país. Evitar o público torcedor nas ruas tem sido a saída destas agremiações, com pedido oficial ou não do Estado equatoriano.

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Após a decisão pela suspensão do principal jogo de futebol no Equador, várias outras práticas esportivas foram interrompidas como, por exemplo, os Juegos Nacionales Menores (Jogos esportivos infantis), o ciclismo, tenis de mesa e tantas outras modalidades.

Os apreciadores de boxe também tiveram que tirar da sua agenda o evento “Fuego contra fuego”, que seria realizado em 05/10 com cinco combates, sendo o principal disputado pelo local Alexander ‘Diamante Espinoza e o colombiano José Luis Prieto.

A Copa Libertadores da América Feminina que tem sede única durante todo o torneio seria disputada pela primeira vez no Equador. Seria. Porque de acordo com o jornal equatoriano El Comercio, não há previsão de início do principal torneio sul-americano de clubes por lá. As duas principais equipes do país terão que aguardar um posicionamento da CONMEBOL e da FEF.

Deportivo Cuenca y Ñañas se enfrentaron por la final de la SuperLiga femenina. Ambos clubes participarán en la Copa Libertadores femenina. Foto: Archivo EL COMERCIO

Deportivo Cuenca x Ñañas: duas das principais equipes de futebol feminina no Equador. Fonte: https://www.elcomercio.com/deportes/copa-libertadores-femenina-excepcion.html.

Por outro lado, faz parte também das estratégias de alguns manifestantes indígenas e sindicais tomarem estações de televisão e antenas de rádio, dificultando as telecomunicações no interior do país. conforme podemos assistir no vídeo abaixo:

De acordo com o site brasileiro Fórum, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denunciou exageros dos órgãos repressivos do governo de Lenín e a própria Cruz Vermelha informou que seus veículos e funcionários sofreram ataques.

Polícia prende manifestante no Equador nesta sexta-feira (4), um dia depois de o governo decretar "estado de exceção" — Foto: Daniel Tapia/Reuters

Manifestante preso pela polícia. Foto: Daniel Tapia/Reuters. Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/04/motoristas-encerram-greve-no-equador-apos-governo-decretar-estado-de-excecao.ghtml

Poderíamos pensar que o Equador é uma exceção na América do Sul, mas a fragilidade institucional da democracia atinge outros países como o Peru (com a decretação da dissolução do Congresso Nacional) e com a proximidade com as eleições bem polarizadas entre governo e oposição na Bolívia, sem contar com os discursos e práticas antidemocráticas que vemos e vivemos no Brasil quase todos os dias.

Referências:

LONG, Guillaume. A Grande Traição no Equador. Disponível em: https://outraspalavras.net/direita-assanhada/a-grande-traicao-no-equador/.

MANETTO, Francesco. Crise no Peru, Equador e Bolívia eleva tensão política e acirra polarização na região andina. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/04/internacional/1570220008_285079.html.

MOTORISTAS encerram greve no Equador após governo decretar ‘estado de exceção’. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/04/motoristas-encerram-greve-no-equador-apos-governo-decretar-estado-de-excecao.ghtml

ROCHA, Lucas. Indígenas tomam antenas de TV no Equador em segundo dia de Greve Geral contra Lenín Moreno. Disponível em: https://revistaforum.com.br/global/indigenas-tomam-antenas-de-tv-no-equador-em-segundo-dia-de-greve-geral-contra-lenin-moreno/.

SITUACÍON en Ecuador pone en duda la Copa Libertadores de fútbol femenino. Disponível em: https://www.elcomercio.com/deportes/copa-libertadores-femenina-excepcion.html.

SUSPENDIDO el partido Liga-Emelec por estado de excepción. Disponível em: https://www.ultimasnoticias.ec/futbolero/suspendido-partido-liga-emelec-excepcion.html.


“Pintou o verão!”: surfe, skate e juventude na revista Pop (1972-1979)

23/09/2019

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

No Brasil, durante a década de 1970, os esportes praticados à maneira californiana, principalmente o surfe e o skate, encontraram na revista Geração Pop – chamada somente como Pop a partir de sua edição de número 32 – um dos seus principais meios de comunicação. Colorida e publicada com periodicidade mensal pela editora Abril entre novembro de 1972 e agosto de 1979, essa revista chegou a contar com 82 edições em seus quase sete anos de existência e atingir um considerável público leitor para a época, pois, de acordo com a declaração de sua editora, ela “vendia pelo menos 100 mil exemplares mensais” (MIRA, 2000, p. 154).

A Pop não foi uma revista específica sobre esporte, mas sim uma publicação que aliava a divulgação da música Pop (sobretudo o rock) com diversos temas considerados por ela como de interesse juvenil. Focada em rapazes e moças entre 14 e 20 anos, ela utilizava-se de inúmeras gírias existentes na época para elaborar um clima de maior proximidade com seus leitores e, com isso, gerar certa intimidade no momento da leitura.

A revista Pop teve uma influência muito grande em determinados segmentos juvenis; pois por viverem numa época onde não havia Internet e, segundo entrevistas, num “clima de ditadura”, eles acabavam por ter pouco material disponível em termos de informação cultural. Além disso, foi através da Pop que muitos jovens, durante a metade da década de 1970, conheceram algumas das tendências esportivas da juventude norte-americana, como o surfe, o skate, o bodyboard, entre outros (BRANDÃO, 2014).

Segundo a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, embora a revista Pop tivesse na música sua ancoragem central, ela também passou a “atrair milhares de jovens da classe média e aproximá-los do mercado especializado na venda de novos acessórios e roupas para as atividades esportivas em expansão” (2005, p. 8). Na década de 1970, dentre essas “atividades esportivas em expansão”, encontravam-se de forma reticente nas páginas da revista Pop os esportes praticados à maneira californiana, sobretudo o surfe e o skate. De acordo com o pesquisador Luís Fernando Borges, o propósito dessa revista foi justamente o de buscar um contato com o público jovem, e para isso ela veiculava as últimas novidades surgidas no acelerado mundo da cultura juvenil, recheando suas páginas de artistas como “Elton John, Secos & Molhados, os últimos campeonatos de surf e skate” (2003, p. 07).

Podemos observar um bom exemplo neste sentido ao analisarmos a capa da edição de novembro de 1977 da revista Pop, a qual comemorava, em letras garrafais, que “PINTOU O VERÃO!”, estampando um jogo de imagens fotográficas que, composta tal como um mosaico, objetivava tanto traçar um painel do que se encontrava em seu interior  quanto capturar os olhares de quem passasse por uma banca de revistas: garotas de biquíni, jovens surfistas “entubando” uma onda, astros do rock descontraídos e sem camisa, manobras “de arrepiar” de skatistas em grandes tubos de concreto.

Figura 1: Revista Pop, editora Abril, nº 61, 1977.

A revista Pop se valia dos corpos magros e bronzeados como espetáculo aos olhos e desejos dos leitores. Como nos lembrou o historiador Georges Vigarello (2006, p. 171), trata-se de uma época em que já é possível percebermos um maior ritmo dado às expressões e aos movimentos, com sorrisos mais expansivos e corpos mais desnudos, aspectos esses acentuados pelos espaços de férias, praias e divertimentos. Nesta mesma direção, Sant’Anna (2010, p. 190) sugere que essas manifestações reforçavam “a voga da alegria juvenil”, exaltando a “libertação” do corpo.

O pesquisador ou a pesquisadora que se interessa pela história dos esportes praticados à maneira californiana, sobretudo a história do surfe e a do skate, encontrará nessa revista uma série de elementos convidativos à reflexão. Pelo fato de Pop ter sido a primeira publicação impressa no Brasil dedicada exclusivamente à juventude e pela quantidade considerável de edições publicadas durante a década de 1970, ela é, sem dúvida, uma fonte imprescindível para a compreensão dos esportes californianos e da condição juvenil na história recente.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BORGES, Luís Fernando Rabello. Mídia impressa brasileira e cultura juvenil: relações temporais entre presente, passado e futuro nas páginas da revista Pop. In: Anais do XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Minas Gerais, 2003, p. 1 – 14.

MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura no século XX. São Paulo: Olho d’Água/Fapesp, 2000.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Uma história da construção do direito à felicidade no Brasil. In: FREIRE FILHO, João (org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p. 181 – 193.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Representações sociais da liberdade e do controle de si. In Revista Histórica, São Paulo, v. 5, 2005, p. 1 – 17.

VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.


Malvinas, entre a guerra real e a estreia argentina no Mundial da Espanha

16/09/2019

As vésperas da Copa do Mundo de 1982 realizada na Espanha a cobertura da seleção argentina campeã do mundo que realizaria o jogo de abertura contra a Bélgica estava ofuscada por uma guerra real, batalhas militares e não metafóricas disputas futebolísticas, a defesa de uma nação com armas e não poeticamente com gols.

Diferentemente do que ocorreu durante o mundial anterior com o torneio realizado no país, o grande mecanismo operador de nacionalidade naquela conjuntura era a luta pela afirmação da soberania nas ilhas Malvinas.

Segundo a antropóloga Rosana Guber (2012), as mobilizações populares em torno da guerra contra os ingleses pelo domínio das ilhas se assemelharam as manifestações nacionalistas ocorridas durante a realização do torneio na Argentina em 1978.

“Obviamente diferia del cuadro del 30 de marzo y se asemejaba, más bien, a los festejos de la coronacíon argentina en el Mundial de Fútbol de 1978. Los asistentes se reunían espontaneamente o marchaban desde las cercanias asitios públicos, monumentos y demás lugares simbólicos, transeuntes, famílias, compañeros de trabajo, gruposs de amigos y estudiantes (Clarín, 3/4/82; La Nacíon, 8/05/82) blandían banderitas argentinas de plástico que vendían los “cuentrapropistas” sector que habia crescido en esos años. Los acompañaban automovilistas y tocando bocinas y cantando “Argentina! A diferencia de otros tiempos, a celebracíon promovida por el gobierno denotaba la falta de peligro, vigilância y confrontacíon. No había enemigos a la vista”entre nosotros”. (2012, p.47)

A guerra declarada pela ditadura militar comandada por Leopoldo Galtieri teria sido um elemento de unificação nacional durante os 74 dias sendo considerada em um primeiro momento segundo Guber uma “guerra justa” por grande parte da população. Entretanto com a humilhante derrota e a morte de cerca de 750 jovens soldados após o conflito a guerra passou a ser vista como absurda por boa parte dos argentinos.

No caso das reportagens sobre o conflito bélico teria ocorrido a manipulação constante de informações e estratégias de deturpação dos próprios fatos históricos a partir de duvidosas fontes. Segundo Urlanovsky (2011):

“El 2 de abril de 1982 los argentinos tuvieron la triste oportunidad de leer en sus diarios unos titulares increíbles: “ Tropas argentinas desembarcan en Malvinas” informaba, por ejemplo, Clarín. Lo que sucedío a partir de esa instancia – que no concluye con la finalizacíon de las acciones bélicas- se corresponde com uno de los momentos más horrorosos del país y del periodismo local durante el siglo”. (2011, p.130)

Pode-se perceber que mesmo na Revista El Gráfico, dedicada exclusivamente aos esportes e com uma cobertura direcionada para o Mundial da Espanha além de outras modalidades, a preocupação com a guerra das Malvinas está presente de forma implícita. O editorial do N.3270 por exemplo que possui o seguinte lema “Cada un en lo suyo defendiendo lo nuestro” apresenta a equipe de jornalistas da seguinte forma:

Algo más que un slogan.

Una tomada de conciencia. Un compromiso. La responsabilidad de dar lo mejor de nosotros mismo en el  trabajo cotidiano.Allí donde el deber lo imponga. Y con las armas de todos los dias. Porque una herramienta también es un fusil. Como lo puede llegar a ser la raqueta de Vilas debatiéndose en Roland Garros frente a la juventud de un fenómeno que surge o un volante girando a todo vértigo en el Grande Premio “Islas Malvinas” que supimos compartir con dez solidários pilotos de Latinoamérica. Un arma también es una máquina de escribir, una cámara fotográfica, un grabador, una línea de telex y la opinión comprometida de una revista deportiva. Por eso EL GRÁFICO asumió el compromiso de estar allí, donde la nota lo requiere y los lectores lo esperan. En la habitación de Miami donde Palma ve los guantes esperando su próxima pelea para defender su condición de monarca del mundo. En las canchas de Ferro y Quilmes, donde se jugaron las vibrantes alternativas de los primeros partidos por las semifinales del Campeonato Nacional. Y especialmente en España 82 con el 12 Campeonato Mundial de fútbol  para estar junto al selecionado argentino que espera el momento de inaugurarlo. Hasta allí llegamos con nuestro equipo dispuesto también a jugarse el Mundial. (EL GRÁFICO, N.3270 – 08/06/1982, P.3)

As diversas alusões à metáforas bélicas como “uma ferramenta também é um fuzil” ou “uma arma também é uma máquina de escrever, um gravador, uma câmara fotográfica, etc” denotam o a atmosfera pesada da guerra e o envolvimento que os jornalistas da revista e o próprio país estavam  com o conflito armado.

A ideia de defesa da pátria nos gramados desta vez se limita a esfera esportiva antes do início da Copa, visto que a realidade se materializava de forma concreta com os confrontos e as mortes de jovens argentinos no pacífico sul. As corriqueiras metáforas do futebol como guerra ou espelho da nação sucumbem à brutalidade da batalha real, mas continuam tendo certa ressonância no discurso apresentado pela revista.

Porém apesar do editorial da edição supracitada proliferar referências à luta armada, paradoxalmente a mensagem direcionada a seleção nacional “de todos los hinchas argentinos” contidos na últma página do mesmo número remete a honra, orgulho dos argentinos e a paz:

– Para que recuerden a cada instante, que ustedes son Argentina, a cada instante, siempre en la cancha y fuera de ella.

– Para que comprendan que el privilegio de vestir esta camisa exige responsabilidad, disciplina, respeto por los compañeros, por los rivales y por lo público.

– Para que el sentimiento de orgullo, amor  próprio y verguenza no desaparezca en ningún caso de sus almas.

– Para que sepan que miliones de niños están viendo en ustedes un modelo a seguir.

– Para que los ojos del mundo que los observan sepan que son hijos de un pueblo que ama la paz.

– Para que la habilidad y el talento sigan siendo los fundamentos del êxito.

– Para que mucho más allá del superprofesionalismo impere en ustedes la lealtad y el juego limpio.

–  Para que haya un solo perdedor: la violencia.

– Para que llegue hasta vuestros oídos aquel sonido incomparable dde aliento que llenó las inovidables jornadas de Rosário Central y River Plate.

– Para que ganen aun perdiendo.

– Para que sígan siendo campeones mundiales y en  regreso encuentren un cielo en paz  (EL GRÁFICO: N. 3270 -08/06/1982, P.9

A preocupação com a conduta da equipe, o comportamento civilizado e o “fair play” parecem remeter a imagem do país no exterior através da seleção de futebol. O fato do conflito nas Malvinas estar se encaminhando para o seu desfecho talvez tenha influenciado também o teor desta mensagem que termina clamando por um retorno vitorioso de uma equipe em uma Argentina que não esteja mais em guerra.

A ideia de que os argentinos não devem perder seu orgulho próprio em nenhuma circunstância, que são pacíficos e que a violência deve ser a grande perdedora, pode ser interpretada como uma mensagem pacífica, mas que também tem um conteúdo nacionalista dentro do contexto político em que se encontrava o país.

A seleção argentina estreou sendo derrotada no Estádio Camp Nou pela Bélgica no dia 13 de junho, porém a mais dolorosa derrota para o povo argentino que abalaria definitivamente as estruturas do Processo foi a rendição das tropas um dia depois que provocaria também a saída do ditador argentino com a população aos berros “ Leopoldo borracho, mataste los muchachos”.

Referências:

Guber, Rosana. Por qué Malvinas: de la causa nacional a la guerra absurda. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômoca, 2012.

Urlanovsky, Carlos. Paren las rotativas 1970-2000. 2.Ed. Buenos Aires: Emece,2011.

 


SPORTS NOS SUBÚRBIOS CARIOCAS

02/09/2019

Nei Jorge dos Santos Junior

Quando refletimos sobre a constituição das experiências esportivas na cidade do Rio de Janeiro é comum reduzi-la à espaços com maior visibilidade, ou para ser mais exato: centro e zona sul. Todavia, esse pensamento trilha por uma noção particular de lugar, desconsiderando o contraste e a complexidade na demarcação dos territórios existentes em áreas periféricas. Dessa forma, as múltiplas possibilidades de diversão presentes nessas regiões acabam preteridas e, consequentemente, contribuem para o processo de miopia, em que subjuga espaços periféricos, entre eles os subúrbios, a um status de coadjuvante, ignorando a multiplicidade de práticas existentes nessa região.

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Carta das linhas da Estrada de Ferro Central do Brasil. Fonte: HEMEROTECA DIGITAL: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

De qualquer forma, é crescente o interesse sobre as práticas esportivas e corporais presentes nos subúrbios cariocas. É possível identificar um aumento expressivo no número de estudos que tratam o tema, inclusive aqui no blogue[1]. Vejamos:

As diversões em Bangu são dadas pelos clubs que lá existem. Imagine-se, pois, o que é uma festa ali, onde se reúne o inglês, o francês, o italiano e o brasileiro branco e de cor na mais ampla cordialidade, na mais encantadora harmonia, que não é perturbadora pela distinção de posições sociais e de outros prejuízos abomináveis. Todos ali têm um fim, divertem-se, têm um dever, portarem-se bem; porque lá estão os seus diretores solícitos e prontos, dispensando a todos eles amabilidades, atenções e tanta cousa, tanta que até parecem seus companheiros beber quando são seus dirigentes[2].

No início do século XX já eram muitas as pequenas sociedades voltadas para o esporte nos subúrbios da cidade. Mesmo apresentando uma visão romântica sobre a região, a matéria nos mostra indícios sobre a lógica de articulação inicial desses clubes. A diversão local, a princípio, ficava por ponta das associações, expondo, inicialmente, a importância dessas na construção de elementos na conformação de uma identidade local. Ali frequentavam sujeitos de vários estratos sociais, em clubes espalhados por diferentes bairros, produzindo uma infinidade de práticas, linguagens e costumes. Através delas, podemos desvendar teias de sociabilidades expressivas nas disputas por legitimidade e na atribuição de significados, analisando as tensões latentes sob os sentidos e representações dos esportes à moda suburbana.

Isso significa que a antiga Capital da república, a partir de suas nuances, revelava um fortalecimento de um mercado de entretenimento plural. Não por acaso havia um crescimento significativo de sociedades que se autodenominavam esportivas, recreativas, dançantes, ginásticas, culturais ou carnavalescas. A cidade contava aproximadamente com um número de 1.600 associações, demonstrando que o hábito de associar-se já fazia parte de uma tendência facilmente observável no Rio de Janeiro.

 

 Curiosamente, grande parte dessas associações não estavam localizadas nos bairros mais abastados. Pelo contrário, as regiões central e suburbana reuniam, até mesmo pelo número expressivo de habitantes, a maior parcela das sociedades presentes na cidade. Para se ter ideia, ainda nos primeiros anos de 1910, a região do Grande Andaraí contava com um pouco mais de quarenta associações, fossem elas de caráter esportivo como o Sport Club Andarahy, Andarahy Club  e o Andarahy Athletic Club, fossem aquelas diretamente dedicadas às atividades dançantes ou carnavalescas como o Andarahy Club Carnavalesco, o Flor do Andarahy, o Grêmio Amantes da Folia e o Clube Intrépidos Tico-ticos. Em Bangu, no mesmo período, o número era um pouco menor, porém não pouco expressivo, aproximadamente vinte e cinco associações, divididas entre esportivas, Sport Club Americano, Esperança Foot-ball Club e Bangu Athletic Club, ou direcionadas às atividades recreativas como a Flor da Lyra, o Casino Bangu, a Flor da União e o Grêmio Prazer das Morenas, movimentavam as noites arrabaldinas.

Certamente, fossem em espaços privilegiados para a prática da dança, esportes e ginástica, ou, até mesmo, nas agremiações e ruas localizadas nos arrabaldes suburbanos, é notável a consolidação de uma indústria de entretenimento na transição dos séculos XIX e XX. Por isso, a constituição do campo esportivo não pode ser pensada desarticulada das ações sociais dos subúrbios, tampouco podemos entendê-la ignorando a história da mesma. Dessa forma, talvez caiba uma questão final: com esse amplo leque de clubes e práticas corporais é possível afirmar que a cidade do Rio de Janeiro, independente da região, mantinha um mercado de entretenimento consolidado?

[1] Ver: MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. O esporte nos arrabaldes do Rio de Janeiro: o cricket em Bangu (1904-1912). Movimento, Rio de Janeiro, 2017.; MELO, Victor Andrade de. Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857). Tempo, Niterói, v. 20, n. 37, p. 1-22, 2015.; MELO, Victor Andrade de. Um hipódromo suburbano: a experiência do Club de Corridas Santa Cruz (Rio de Janeiro – 1912/1918). Topoi (Rio J.),  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 40, p. 157-184,  Apr.  2019 .; SANTOS JUNIOR, N. J. A construção do sentimento local: o futebol nos arrabaldes de Andaraí e Bangu (1914-1923). 2012. 126f.  Dissertação (Mestrado em História Comparada) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.;  SANTOS JUNIOR, N.J.MELO, V. A. Recrear, instruir e advogar os interesses suburbanos: posicionamentos sobre o futebol na Gazeta Suburbana e no Bangú-jornal (1918-1920). Revista Movimento, v. 20, p. 193, 2013.; MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010. 489f. Tese (Doutorado em História Econômica) – Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

[2] Gazeta de Notícias, 12 de dezembro de 1907.


Futebol e Estudantes contra o Estado Novo

26/08/2019

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O Documentário “Futebol de Causas” (2009) (https://www.youtube.com/watch?v=by6AqacVw9I), do diretor Ricardo Antunes Martins, mostra um importante panorama sobre a relação entre Política e Esporte, com uma passagem bastante emblemática da história de Portugal. O filme mostra a contribuição decisiva dos jogadores de futebol da Académica de Coimbra nas contestações estudantis e o seu impacto e influência na revolução dos cravos.

À época, Coimbra apresentava condições únicas na realidade do país. Sob o julgo do Estado Novo, num país marcado pela censura e pelo analfabetismo, a voz dos estudantes universitários ecoavam mais alto. Os estudantes beneficiavam-se de terem acesso à informação, ao ensino e à cultura, mas acima de tudo por partilharem experiências que contribuíram para o seu processo de crescimento e formação.

Tendo em vista que os próprios jogadores da Académica , eles também tinham acesso a todo o processo de enriquecimento pessoal e colectivo que a Universidade proporcionava. Como consequência, essa formação contribuiu para um posicionamento social e político ativo por parte dos atletas, culminando no envolvimento nas disputas e reivindicações nos mais diversos episódios da luta estudantil.

A “Crise Acadêmica de Coimbra de 1969” (http://ensina.rtp.pt/artigo/a-crise-academica-de-1969-17-de-abril/ e https://arquivos.rtp.pt/conteudos/40o-aniversario-da-crise-academica/) foi como ficou conhecida a onda de luta estudantil na Universidade de Coimbra durante a primavera e o verão de 1969. Este é um dos marcos da luta contra o regime fascista e que é o apíce de lutas estudantis em contexto internacional (Maio de 1968) e nacional (Crise Académica de 1962 – https://arquivos.rtp.pt/conteudos/crise-academica-de-1962-2/).

Em abril, começou a Crise Acadêmica de 1969, quando o presidente da Direção Geral da Associação Académica foi impedido de falar na inauguração de um prédio na Universidade. As manifestações desenvolveram-se até ao final de julho, com uma greve a exames de dimensão maciça, e com a presença da Académica na final da Taça de Portugal, contra o Benfica. Os jogadores, que também eram estudantes, eram parte ativa da militância e o time era um dos dos principais meios de divulgação e propaganda dos estudantes e dos ideais revolucionários e reivindicativos. Assim, os jogadores aderiram às manifestações fazendo da final da Taça, no Estádio Nacional, um dos maires comícios contra o regime do Estado Novo.

Mais do que um marco na história da Académica de Coimbra, o filme preenche uma lacuna na história do país, como o próprio diretor do filme reconhece eu um texto de sua autoria:

“Inocentemente, quando me propus desenvolver este projecto, estava longe de adivinhar e de imaginar o impacto que iria ter. Admito que parti para o projecto com a sensação que seria um marco simbólico e de espólio importante para a Académica, mas apenas isso. Longe de mim imaginar que estaria a trilhar por campos virgens, muito menos que estava a preencher lacunas históricas no que toca à antecâmara do 25 de Abril. Inicialmente, pretendia fazer apenas uma certa justiça histórica aos jogadores e divulgar as acções, atitudes e carácter destes homens e a forma como se posicionaram, pessoal e politicamente, nas crises académicas e, no fundo, procurar comprovar de certa forma a minha teoria do seu contributo, mais directo ou indirecto, para o abrir de mentalidades do povo português para a realidade social, económica e política do nosso país então pastoreado a chicote por um regime inflexível”. (Fonte: https://www.uc.pt/rualarga/anteriores/27/27_12).

Estendendo-se ao longo de 70 minutos, o filme conta com entrevistas dos principais personagens históricos, sendo ilustrada por imagens de época e de arquivo. Destacam-se as contribuições de alguns dos atores históricos, como Alberto Martins e Celso Cruzeiro, da análise e interpretação de Laborinho Lúcio, ou o testemunho dos jogadores Mário Wilson, José Belo, Mário e Vítor Campos, Mário Torres, Rui Rodrigues, Jorge Humberto e, também, Manuel António, o melhor marcador do Campeonato Nacional em 1969, tendo superando Eusébio.

O seu DVD conta com alguns extras que enriquecem o filme, sobretudo por seu caráter desportivo. Esses complementos podem ser encontrados online: https://vimeo.com/233948411 e https://www.youtube.com/watch?v=okUgEQ6hACY.

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Alfândega, noitadas e mercadorias de presente: uma breve passagem de surfistas sul-africanos pelo Rio de Janeiro

19/08/2019

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A África do Sul tinha papel importante no cenário internacional do surfe na segunda metade dos anos 1970, tanto pela qualidade das ondas de seu território quanto pela participação de surfistas, dirigentes, juízes, empresários e/ou profissionais de mídia, entre outros, oriundos daquele país. Isto se dava concomitantemente ao crescente isolamento internacional do país, que incluía boicotes como forma de pressão contra os sucessivos governos devido à política de segregação racial conhecida como apartheid. Nos últimos anos, tenho me dedicado tanto a investigar o lugar peculiar do surfe em meio ao boicote esportivo internacional, como também às representações do Brasil e do Rio de Janeiro em revistas internacionais.

Um dos indícios de uma cultura e economia do surfe fortes em um determinado país nos anos 1970 e 1980 é a existência de publicações especializadas, sobretudo revistas. Criada em 1976 na cidade de Durban e ainda em circulação, Zigzag é a mais longeva e provavelmente a mais importante revista de surfe da África do Sul. A edição de junho-agosto (a periodicidade era então trimestral) de 1979 trouxe matéria a respeito de uma viagem realizada por três surfistas às Américas. Os sul-africanos – um deles, autor do texto – viajaram para Brasil, Peru e Canadá. Eis dois trechos:

“(…) passar pela alfândega no Rio de Janeiro (…) Medo de possivelmente passar horas tentando convencer um funcionário olhudo de que só tenho mercadorias para os pobres ratos de surfe brasileiros. Para minha surpresa, sou liberado após dar ao cavalheiro um exemplar de ZigZag – ele ficou amarradão. A animação de Rico ao ver um funcionário da alfândega de fato sorrindo foi contagiante. Os dias que se seguiram são selvagens com noites loucas e gente amigável vivendo apenas o agora. Rico e sua bela mulher Bia quase me convencem a ficar para o Carnaval, mas o chamado da minha próxima parada é grande demais. 1980 será meu ano de carnaval! (…)

Em verdadeiro estilo sul-americano, um voo de seis horas leva 12 para chegar a Lima após o piloto decidir que precisa de algumas horas de pausa para um lanche e faz uma escala imprevista em São Paulo.” (LARMONT, Mike. The Snow Boogie. Zigzag, jun.-ago. 1979. Tradução minha. Abaixo, a primeira página do texto.)

Gostaria de abordar brevemente quatro pontos no trecho citado. Primeiro, as referências à passagem pelo controle alfandegário na entrada em território brasileiro, ocorrida no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Larmont afirma que estava receoso quanto ao trato que receberia por parte dos funcionários responsáveis pela revista de bagagens e a como classificariam os objetos que trazia – segundo ele, agrados para presentear surfistas brasileiros. Relata ainda ter sido um exemplar da própria Zigzag o argumento final que permitiu o desenrolo (como se diria na linguagem corrente das quebradas cariocas) com o trabalhador da alfândega. Seria este um servidor público da Receita Federal? Acredito que sim, embora não seja possível afirmar ao certo. Seria ele um adepto do surfe ou, ao menos, um interessado na modalidade? Também é difícil dizer, mas parece que o exemplar da publicação despertou interesse no servidor, talvez por gosto pessoal, talvez por configurar um item raro a ser dado de presente a uma pessoa querida. Haveria, além dos números de Zigzag, outros itens/mercadorias trazidos como presente na bagagem? A partir do próprio texto não é possível responder.

Segundo, a recepção por parte de Rico de Souza, surfista com grande circulação e contatos internacionais no período. Acredito que as relações de amizade, acolhimento e/ou reciprocidade estabelecidas entre adeptos de diferentes países foram importantes, tanto para reduzir os altos custos envolvidos nas viagens (ficar na casa de conhecidos eliminava os custos de hospedagem e, em alguma medida, de traslados e alimentação), ajudando a viabilizá-las, quanto por facilitarem o acesso a informações (como condições do mar em diferentes praias) e os trâmites do dia-a-dia (facilita muito a vida do viajante, especialmente o monoglota, estar acompanhado de alguém com conhecimento de hábitos e idioma locais). Esta questão, que tem aparecido em diferentes fontes em minhas pesquisas, ainda não foi explorada pelos estudos históricos sobre o surfe – ao menos aqueles publicados em inglês, espanhol ou português.

Terceiro, algumas das menções ao Brasil e aos brasileiros. O autor destaca a beleza de uma mulher (a anfitriã), usa a palavra selvagem para adjetivar as noitadas (o termo também aparece com frequência nas caracterizações da África do Sul feitas por estrangeiros – brasileiros, inclusive) acompanhadas de “gente amigável” que vivia apenas o presente. As intensas atividades de lazer e o estímulo dos anfitriões quase levam o viajante mudar os planos e esticar a estada para incluir o período do Carnaval.

Por fim, a decisão do piloto de realizar uma escala imprevista durante o voo Rio de Janeiro-Lima é classificada como parte de um “verdadeiro estilo sul-americano” – a ver se tal categorização aparecerá em outras edições quando se menciona o Brasil e demais países do continente. Os sul-africanos seguiram viagem rumo a terras peruanas e, posteriormente, da América do Norte, onde os meses iniciais do ano correspondem ao inverno. No Canadá, como se pode notar nas fotos que ilustram a página, os sul-africanos praticaram esqui e snowboard. Era muito comum, na época, que os adeptos de uma modalidade dedicassem parte relevante do seu tempo a outras. No caso do surfe, aqueles com acesso a áreas com neve (como alguns estadunidenses e franceses, por exemplo), costumavam praticar esportes de inverno durante férias, feriados e períodos com pouca oferta de boas ondas. Esse intercâmbio de modalidades é um aspecto ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a história do esporte que situam seu recorte na segunda metade do século XX – talvez nos levando a acreditar numa excessiva especialização que não correspondia à experiência concreta do adepto comum, e quiçá tampouco de vários atletas de ponta no âmbito competitivo mais comercial/profissional.

Para saber mais

Conferir os trabalhos do historiador Glen Thompson, incluindo sua tese de doutorado Surfing, Gender and Politics: Identity and Society in the History of South African Surfing Culture in the Twentieth-Century, defendida em 2015 na Stellenbosch University. Agradeço a ele por me facilitar a consulta de seu acervo pessoal de revistas sul-africanas, entre as quais a edição mencionada neste texto.

Uma coleção de capas escaneadas de Zigzag está disponível no site de Al Hunt.

A pesquisa que deu origem a este post tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (2017).