Jornalistas e Cartolas: uma reflexão sobre o jornalismo esportivo como fonte histórica a patir de uma análise do Jornal do Brasil e do Jornal dos Sports no dissídio esportivo dos anos 1930

30/01/2023

por Maurício Drumond

Dentro do campo da História do Esporte, o uso de material da imprensa esportiva como fonte histórica é recorrente, e mesmo natural. Como apontado por Victor Melo et al. (2013, p. 120), “os periódicos, notadamente os jornais, são muito usados nos estudos históricos (…). De fato, provavelmente permanecerão por muito tempo como sua principal fonte”. São raros os trabalhos sobre os esportes, e sobre o futebol no Brasil em particular, que não utilizam matérias do jornalismo esportivo como fontes. E isso não deve ser encarado como um problema. De fato, as páginas dos jornais representam um importante meios de comunicação e de registro que permanecem acessíveis aos pesquisadores, onde um grande volume de informações sobre assuntos relacionados ao esporte podem ser acessadas e interpretadas. Tendo-se em conta um procedimento metodológico adequado, as páginas esportivas são, sem dúvida, um importante manancial de informações para historiadores que se debruçam sobre diferentes aspectos do fenômeno esportivo. O artigo de Tânia de Luca (2010) ainda é um importante ponto de partida para quem busca compreender melhor essa metodologia. De forma bem resumida, pode-se afirmar que em um trabalho de pesquisa histórica, é parte fundamental do ofício do historiado adotar um olhar crítico sobre suas fontes, de modo que este não seja levado à conclusões distorcidas devido ao mal uso de fontes tendenciosas.

No entanto, ainda é possível encontrar obras em que tais fontes parecem ser utilizadas sem esses mínimos cuidados. Onde tem-se a impressão de que os jornais apresentam o passado “como ele realmente aconteceu”, em uma abordagem rankeana da história, no que Melo et al. (2013, p. 120) definem como uma “crença ingênua de que os jornais apenas registram os acontecimentos, sendo, portanto, confiáveis para o relato do passado”. Isso não quer dizer, no entanto, que tais fontes não possam, ou mesmo não devam, ser utilizadas pelos historiadores ou pesquisadores em geral. Deve-se apenas levar tais fatores em consideração ao se proceder com a análise do material utilizado.

Este post tem como objetivo demonstrar a importância de tais cuidados ao se estudar o esporte nas páginas dos jornais. Já fiz apontamentos nesse sentido em outro post aqui no blogue (LINK), sobre a imprensa esportiva na Argentina peronista. O presente trabalho teve início durante minhas pesquisas sobre o esporte no primeiro governo Vargas. Ao analisar a imprensa esportiva carioca no período de 1933 a 1937, foi visível a diferença de enfoque com que diferentes jornais lidavam com o mesmo assunto. Dentre esses, destaco aqui dois dos principais jornais da cidade do Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil (JB) e o Jornal dos Sports (JS). Em um momento no qual a organização esportiva estava dividida entre dois grupos dirigentes antagônicos, o JB e o JS conduziam suas matérias de forma visivelmente parcial, tornando-se porta-vozes dos grupos em conflito, no que Bernardo Buarque de Hollanda (2012) chamou de “cronistas-cartloas”, ou seja, agentes da imprensa esportiva que transitavam entre os campos do esporte e da imprensa.

Para melhor entendermos a questão aqui proposta, faz-se necessária uma breve análise do período em que a organização esportiva nacional esteve dividida entre dois grupos antagônicos, fato conhecido na época como o dissídio esportivo.

O dissídio esportivo

O governo de Vargas teve como uma de suas principais marcas uma profunda ambiguidade, entre modernização e tradição. Por um lado, o país atravessava uma grande modernização econômica e social, com a implementação de ampla gama de políticas sociais, envolvendo a regulamentação da educação, do serviço público, do trabalho e da cultura, por exemplo, e com uma crescente racionalização do aparelho burocrático do Estado, que provia meios administrativos e recursos financeiros a essas políticas. Junto a essa modernização, conviviam fortes características tradicionais, representadas pelas oligarquias regionais que ainda possuíam grande influência junto ao governo.

Tal ambiguidade pode ser também encontrada nas relações entre Estado e esporte, em especial no que se refere à inserção do profissionalismo no Brasil. Um olhar mais superficial sobre a relação entre Getúlio e o esporte poderia apontar para um esforço do Estado na consolidação do regime profissional no esporte brasileiro. Contudo, tal não foi o caso, como pode ser visto no processo de construção do profissionalismo do futebol brasileiro.

Amador desde adoção pelas elites brasileiras no início do século, o futebol se modernizava e os clubes tentavam acompanhá-lo, buscando meios de burlar as barreiras limitadoras do amadorismo vigente. O amadorismo marrom era feito através do pagamento de “bichos” aos jogadores amadores – como não podiam receber salários dos clubes por serem amadores, os jogadores recebiam prêmios por cada jogo disputado.

O amadorismo marrom foi uma das maiores armas utilizadas pelos clubes para manter seus jogadores e aliciar craques de outras equipes. No entanto, no final dos anos 20 e início dos 30, o futebol se profissionalizava na Argentina e no Uruguai, e a Itália descobria os Oriundi – jogadores descendentes de italianos que eram cooptados para times da terra de Mussolini e do calcio. Os clubes de futebol brasileiros começavam a sofrer com um grande êxodo de jogadores brasileiros para o exterior. Em 1931, muitos jogadores paulistas foram parar na Itália, como Filó[1], Del Debbio, Serafini, Pepe e Ministrinho – todos que já haviam defendido a seleção brasileira –, assim como Nininho e Ninão, ambos do Palestra Itália de Belo Horizonte, atual Cruzeiro.

Devido ao êxodo de jogadores para o exterior e o baixo poder aquisitivo dos clubes, o profissionalismo passou a ser visto por alguns como o único caminho a ser seguido rumo à modernização do futebol brasileiro. A ideia de considerar jogadores profissionais verdadeiros trabalhadores ainda enfrentava grandes barreiras, mas não era mais inconcebível.

Alguns clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro passaram então a pleitear a introdução do regime profissional junto à Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Entre esses, encontravam-se os ex-presidentes da CBD Arnaldo Guinle e Oscar Costa, ex-presidente e presidente do Fluminense respectivamente, assim como dirigentes da entidade gestora do futebol paulista, a Apea. Com a recusa por parte da CBD em acatar os termos do regime profissional, Fluminense, Vasco, Bangu e América tomam a iniciativa de romper com a Amea e criam a Liga Carioca de Futebol (LCF), à qual o Flamengo logo aderiu. A LCF adotou o profissionalismo como regime vigente e foi rejeitada pela CBD, que só aceitava entidades amadoras. A nova Liga Carioca teve seu primeiro campeonato em 1933, disputado por América, Bangu, Bonsucesso, Flamengo, Fluminense e Vasco. O Bangu sagrou-se o primeiro campeão do regime profissional no Rio de Janeiro, vencendo o Fluminense na final. Assim, o futebol seguia os passos de outros esportes que haviam criado Ligas paralelas à Amea, como o tênis, em 1931, o atletismo e o basquete, ambos em 1933.

Juntamente com a criação da LCF no Rio de Janeiro, a Apea adota o profissionalismo e se desliga da CBD. Em pouco tempo, as duas entidades recebem o apoio da Federação Fluminense de Esportes (com clubes do estado do Rio de Janeiro, que tinha sua capital na cidade de Niterói, visto que a cidade do Rio de Janeiro era ainda o Distrito Federal), da Associação Mineira Esportes e da Federação Paranaense de Desportos e formam a Federação Brasileira de Football (FBF). Esta representava o futebol profissional em todo o país. Presidida por Sérgio Meira, ligado ao São Paulo, a FBF tinha em seus quadros os maiores clubes do Brasil: América, Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama, Corinthians, Palestra Itália-SP, Santos, São Paulo, Palestra Itália-MG, Atlético Paranaense e Coritiba, entre outros. Já a CBD continuou contando com os clubes das demais federações, como a Bahia e o Rio Grande de Sul, além dos times amadores que não se uniram à FBF, como o Botafogo.

Um olhar mais atento à cisão do futebol brasileiro pode, no entanto, observar que a disputa não era uma mera discordância entre amadores e profissionais. O dissídio representava as próprias contradições do regime vigente. A antiga elite que dirigira o futebol nacional, representada por Arnaldo Guinle, que fora presidente da CBD de 1916 a 1920, perdia o controle da direção do esporte nacional para um novo grupo que ascendia juntamente à Revolução de 1930. Nomes como Luiz Aranha e João Lyra Filho, ligados à CBD e ao Botafogo, passavam a exercer grande influência junto à Confederação Brasileira de Desportos e iam aos poucos assumindo o controle da entidade.

A imprensa esportiva e a pacificação em 1934

Em 1934 aparece a primeira tentativa de fim ao dissídio, logo chamada de pacificação dos esportes. Essa primeira proposta de acordo entre a Confederação Brasileira de Desportos e a Federação Brasileira de Football veio à tona pouco após a desclassificação da seleção brasileira da Copa de 1934, no mês de junho. É importante observar aqui que a precoce eliminação da seleção nacional, que perdeu o jogo eliminatório da estreia, pode ter sido um fator determinante na movimentação de dirigentes da CBD, visando reformar e fortalecer o futebol da seleção nacional, o carro chefe a CBD.

A proposta apresentada previa, entre outras medidas, que a FBF e suas afiliadas especializadas (as federações regionais de futebol) fossem reconhecidas pela CBD, fazendo com que a FBF, então filiada à Confederação Brasileira, dirigisse o futebol nacional. No Rio de Janeiro, a Liga Carioca de Football assumiria o futebol da cidade, com a incorporação de um único clube da Associação Metropolitana de Esportes Athléticos (Amea) a seus quadros – o Botafogo. Dos demais clubes de futebol ligados à Amea, alguns fariam parte de uma liga de amadores – como o Olaria, o Brasil e o Andarahy – e outros entrariam para uma subliga, a segunda divisão da época. Nos outros esportes, o basquete seria dirigido pela Liga Carioca de Basketball, uma das especializadas, e o atletismo teria uma nova liga criada, com a unificação da Amea e da Liga Carioca de Athletismo.

Esse “pacto de paz” foi assinado por dirigentes de ambas as facções em luta, como Arnaldo Guinle (então com o cargo de presidente do Conselho de Administração da LCF), Luiz Aranha (presidente do Conselho de Administração da CBD), Sergio Meira Filho (presidente da FBF) e Eduardo Góes Trindade (presidente da Amea), além de um convidado representante da Liga Argentina de Football, Enrique Pinto.

A repercussão deste acordo ganhou diferentes tons junto aos diferentes órgãos da imprensa esportiva. O Jornal do Brasil, que desde o início do dissídio havia tomado abertamente a defesa da Confederação Brasileira de Desportos e de suas afiliadas, as chamadas entidades ecléticas, não procurava esconder em suas páginas seu descontentamento com o acordo que estava para ser firmado, como pode ser visto em matéria intitulada “A tal ‘pacifiação’”, publicada no dia 05 de junho:

A nota dominante em nossos meios esportivos é a tal “pacificação” que, segundo se afirma, os mentores profissionalistas que para a desgraça do nosso sport, ao que parece, o empolgam no momento, vão impingir aos que se tem batido com sinceridade pela verdadeira causa do sport nacional, concretizada nessa organização magnífica e sem similar no mundo inteiro, que é a Confederação Brasileira de Desportos. (Jornal do Brasil, 05/06/1934, p. 24)

Pode-se observar, por este trecho, que o Jornal do Brasil não escondia de que lado estava e em nome de quem falava. Ao se referir à CBD como uma “organização magnífica e sem similar no mundo inteiro”, não havia dúvida de que o jornal estava contrário ao grupo liderado por Arnaldo Guinle, que, de acordo com o próprio jornal, empolgavam o esporte nacional no momento, mesmo que para a suposta desgraça do mesmo.

O Jornal do Brasil continuaria mostrando sua insatisfação com o acordo firmado em uma série de artigos em que tentava provar que o pacto atendia apenas os interesses da FBF. De acordo com o JB, tal acordo prejudicaria todos os esportes, com exceção do futebol, uma vez que seria o lucro com o futebol que permitiria a Amea e todas as outras entidades ecléticas regionais financiarem os outros esportes. Dessa forma, o jornal publicou uma série de matérias que, ao falarem dessa proposta de pacificação, se referiam a ela em seus títulos como “pretensa pacificação”: “A Pretensa Pacificação que vai Desmantelar o Sport Nacional” (07/06/1934, p. 24), e “A Pretensa Pacificação dos Sports Nacionais” (15/06/1934, p. 25).

Já o Jornal dos Sports, que à época era dirigido por Argemiro Bulcão, apontava a proposta de pacificação como a grande esperança para o bem do esporte nacional. Já em 02 de junho, o jornal estampava com grande destaque em sua primeira página: “Para Grandeza dos Sports Brasileiros a Pacificação Virá!” (Jornal dos Sports, 02/06/1934, p.1). A assinatura do pacto foi vista com muita felicidade pela redação do Jornal dos Sports, que na edição do dia 07 de junho publicou a matéria “Uma Nova Trilha, Tranquila e Esperançosa, para os Sports Nacionaes”, onde dizia:

A pacificação dos sports, hontem feita atravez do pacto firmado pelos “leaders” mais proeminentes das duas facções que lutavam sem desfallecimentos, há mais de um anno, é, antes do mais, uma victória para o próprio sport brasileiro, seu maior beneficiário (…). (Jornal dos Sports, 07/06/1934, p.1)

Ainda que de forma mais velada, é possível ver no Jornal dos Sports sua predileção pela liga especializada. O acordo, tido pelo JB como alog benéfico para a FBF, em prejuízo à CBD, era tratado como “uma vitória para o próprio esporte brasileiro”. O destaque dado cotidianamente aos dois campeonatos organizados simultaneamente pela Amea e pela LCF demonstra a posição do jornal. Se por um lado o Jornal dos Sports destinava a maior parte de suas manchetes de primeira página aos times da LCF – Flamengo, Fluminense e, até 1935, Vasco da Gama –, por outro o Jornal do Brasil dava uma cobertura muito mais ampla aos jogos organizados pela associada regional da CBD, como Botafogo e Olaria, Andarahy e Cocotá, Portuguesa e Mávilis. Nas páginas do JB, até mesmo os jogos da segunda divisão da Amea tinham maior destaque dos que os jogos da LCF, mesmo que se tratasse de jogos como Argentino e América Suburbano, Ideal e Penha, Irajá e Municipal, Brasil Suburbano e União, pela Amea, e Fluminense e Bangu, Bonsucesso e Vaso, pela LCF (Jornal do Brasil, 01/06/1934, p. 22). Um pesquisador desatento, sem conhecimento do futebol carioca, poderia achar que Flamengo e Fluminense não jogaram nesse período, caso se informasse apenas pelo JB.

No final de julho de 1934, aproximadamente dois meses após a assinatura do pacto assinado por Luiz Aranha, uma assembleia de diretores da CBD e representantes de suas entidades filiadas decide rejeitar as bases do pacto firmado em início de junho. Mais uma vez, as respostas dos dois órgãos de imprensa esportiva aqui analisados são díspares no tratamento da questão.

O Jornal dos Sports vê a rejeição do pacto como uma atitude impatriótica, e aponta a Confederação Brasileira de Desportos como culpada pelo fracasso nas negociações. Tal fato pode ser observado na matéria “A Federação Brasileira de Football Considera inexistente o Pacto de Paz!”:

A última tentativa de paz, na qual ambas as correntes cediam parte de suas imposições a bem de uma tranquilidade posterior, vem agora de ruir. Toda a culpa cabe, sem dúvida alguma, aos mentores da C.B.D., que embora reconhecidos pela opinião insuspeita do público como vencidos, ousaram uma vez mais repudiar uma paz, em que na verdade o vencedor não espesinhava o adversário. (Jornal dos Sports, 03/08/1934, p. 1)

Se afastando um pouco mais de sua aparente neutralidade, o Jornal dos Sports apontava claramente um grupo como “vencedor” do embate entre as duas facções – o grupo das especializadas liderado por Arnaldo Guinle. Já o Jornal do Brasil comentou a notícia com um tom de felicitação ao que, sob seu ponto de vista, foi uma atitude de coragem e bom senso dos dirigentes cebedenses. No artigo “A Situação do Sport Nacional”, comenta que a ação foi “natural”, “lógica” e fruto de “bom senso”.

O gesto da assembleia geral da Confederação Brasileira de Desportos recusando as bases do pacto de 6 de Junho foi natural, lógico, numa demonstração clara de bom senso e eloquente em sua unanimidade. (Jornal do Brasil, 07/08/1934, p. 22)

Na mesma matéria, o Jornal do Brasil ainda ataca o grupo das especializadas (FBF e entidades regionais), acusando-o de manipular os órgãos da imprensa esportiva que se colocavam contra a atitude da assembleia da CBD e ao fim do pacto de paz.

O despeito pelo ruidoso fracasso dessa tentativa, o desespero de não poder humilhar (…) o adversário levaram esse grupo, através de sua imprensa, a atacar justamente aqueles que, num movimento de legítima defesa para o resguardo da própria vida, recusaram o pacto (…). (Jornal do Brasil, 07/08/1934, p. 22)

Ao utilizar a expressão “através de sua imprensa”, o JB deixava claro o papel exercido por veículos como o Jornal dos Sports, privando-se de mencionar que desempenhava o mesmo papel, apenas de outro lado. É interessante observar que a figura do dirigente Luiz Aranha – talvez por sua influência política ou por prestígio pessoal – é exaltada por ambas as correntes da imprensa como um digno dirigente que buscava o melhor para o esporte nacional. Figura proeminente no campo político nacional, ele era irmão de Oswaldo Aranha, membro fundador do Clube 3 de Outubro e amigo íntimo de Getúlio Vargas – que se refere a ele ao longo de seu diário como “Lulu Aranha” (VARGAS, 1995). Luiz Aranha ocupou o cargo de presidente do Conselho Administrativo da CBD durante a presidência de Alvaro Catão, entre 1933 e 1936, e foi presidente da entidade entre 1936 e 1943. Ou seja, ele esteve à frente da entidade durante praticamente toda a disputa do dissídio esportivo.

Dependendo do lado defendido pelo jornal, Luiz Aranha poderia ter sido induzido ao erro de assinar o pato por sua vontade em encerrar a cisão no esporte (como visto pelo JB), como poderia ter sido traído pelos dirigentes da CBD, que rejeitaram seu acordo. Essa última visão ficava clara nas páginas do Jornal dos Sports, como no artigo “A Federação Brasileira de Football Considera inexistente o Pacto de Paz!”, matéria que comentava o fim do pacto de paz e afirmava: “Os srs. drs. Luiz Aranha e Eduardo Trindade, que foram incansáveis baluartes nos últimos estertores da entidade cebedense, viram baldeados todos os esforços desenvolvidos em prol de uma paz digna para as duas correntes” (Jornal dos Sports, 03/08/1934, p. 4).

A primeira tentativa de acordo falhara, e as disputas continuariam por cerca de três anos.

O percurso até o fim do dissídio

Em dezembro de 1934, o Vasco da Gama, campeão carioca daquele ano, decide abandonar as fileiras da LCF após uma breve crise com as diretorias do Flamengo e do Fluminense. O clube dos camisas negras aposta todas as suas fichas no título recém conquistado e, juntamente com o Botafogo, funda uma nova entidade no Rio de Janeiro, a Federação Metropolitana de Desportos (FMD), ligada à CBD. A diretoria vascaína pretende usar de seu prestígio e carregar consigo os pequenos clubes à nova entidade. Bangu e São Cristóvão seguem o exemplo e desligam-se da LCF para se filiar à nova entidade. Em São Paulo, o Palestra Itália – campeão paulista pela APEA – e o Corinthians desligam-se da entidade profissional e fundam a Liga Paulista de Futebol, também filiada à CBD. Em apenas alguns dias a FBF perde três dos maiores clubes de seus quadros, entre eles os campeões do Rio e de São Paulo. Com isso a CBD consegue se reerguer, mas paga um preço por tais aquisições: o fim do amadorismo. Clubes como Corinthians, Palestra Itália, Vasco da Gama e Bangu não voltariam ao amadorismo tão facilmente.

Por mais que a CBD ainda tentasse manter as aparências, é evidente que as coisas já não eram mais como antes. Com a FMD e a Liga Paulista, a CBD adota o “regime livre” – também chamado de regime misto –, concentrando em um mesmo campeonato equipes amadoras e profissionais.

Com a nova configuração das forças do futebol brasileiro, passa-se a falar muito pouco sobre a questão do amadorismo e do profissionalismo. O grande desentendimento que supostamente teria provocado a criação de novas entidades gestoras do esporte não era mais um obstáculo à conciliação das partes. No entanto, a rixa que havia entre os dois regimes ficava mais clara como uma luta entre duas facções pela hegemonia do controle do esporte brasileiro, uma luta entre grupos que agora levantavam as bandeiras das entidades especializadas e ecléticas.

O ano de 1937 assistiu ao fim do dissídio com a chamada “pacificação dos esportes”. Em 1937 a CBD voltou a sofrer importantes baixas em seus quadros. Os clubes de Juiz de Fora decidiram abandonar a Associação Mineira de Futebol, ligada à entidade eclética e alinharam-se à FBF. O Mesmo aconteceu em Porto Alegre, onde os principais times da Liga Atlética Porto Alegrense – Internacional, Grêmio, Força e Luz e Cruzeiro – também passaram para o lado das especializadas. No Rio de Janeiro, o Bangu demonstrou insatisfação em ralação à FMD e seus dirigentes mostraram-se nostálgicos quanto a seu tempo junto à LCF. No início de julho o Bangu pediu seu reingresso nas fileiras das especializadas e abandonou a FMD.

Em 17 de julho de 1937, o América e o Vasco da Gama apresentaram uma proposta de reunificação do futebol carioca. O pacto entre América e Vasco criava uma nova entidade no futebol carioca, à qual todos os grandes clubes da cidade estavam convidados a entrar como membro fundador. Com a criação de uma terceira entidade, tanto a FMD como a LCF seriam dissolvidas. A nova agremiação se filiaria à Federação Brasileira de Futebol e essa, por sua vez, pediria filiação à CBD. Nesta nova organização de forças, a FBF ficaria responsável pelo futebol brasileiro e a CBD (entidade filiada à FIFA) seria a responsável pela representação do Brasil no exterior. Desse modo, todos os clubes brasileiros deveriam se filiar à Federação Brasileira de Futebol, ou não poderiam enfrentar os outros clubes filiados à mesma.

Essa nova divisão de poderes no futebol deixava bem claro quem havia saído do dissídio esportivo como vencedor. A CBD não saía do dissídio com nenhum benefício. Deixaria de comandar o futebol dentro do território nacional e ficaria apenas com o comando da seleção brasileira em disputas internacionais, encargo que já controlava antes do pacto por ser a entidade brasileira filiada à FIFA. Já o grupo ligado à FBF sagrava-se vitorioso na pacificação e assumia o controle do futebol no Brasil. No entanto, esse ponto de vista não era reproduzido por toda a imprensa esportiva carioca.

A imprensa esportiva no fim do dissídio

Em julho 1937, a imprensa esportiva foi surpreendida pela noticio do pacto entre América e Vasco que levariam ao fim do dissídio esportivo. Até meados de junho daquele ano, o Jornal do Brasil acusava as especializadas, a quem chamava de “dissidentes”, de estarem caminhando para o ocaso. Segundo os cronistas do jornal, as entidades rivais à CBD contavam em suas fileiras apenas com o que chamava de “tripé”: América, Flamengo e Fluminense, no Rio de Janeiro. A estes, somavam apenas o Atlético Mineiro, em Belo Horizonte, e a Portuguesa de Desportos, em São Paulo. Já a CBD teria em suas fileiras diversos clubes de renome, como o Botafogo e o Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, o Palestra Itália (atual Palmeiras), o Corinthians, o São Paulo, o Santos e a Portuguesa de Santos, em São Paulo, e o Palestra Itália (atual Cruzeiro) e o América Mineiro, em Minas Gerais.

Essa visão do Jornal do Brasil fica clara na ocasião em que Grêmio e Internacional se filiam à FBF, fortalecendo o grupo dos supostos “dissidentes”, na matéria “Um Bandeamento por Vantagens Momentâneas e Efêmeras”:

Literalmente batidos, encurralados nesse tripé [América, Flamengo e Fluminense], os dissidentes já estavam reduzidos, praticamente aos célebres Fla-Flu que a imprensa amiga proclamava como sendo coisa de outro mundo, embora esses quadros, na realidade, não passem de medíocres, com vários medalhões e uma propaganda formidável para alimentar o fogo sagrado de suas hostes. (Jornal do Brasil, 26/06/1937, p. 25)

Se referindo especificamente ao Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro, a reportagem mais uma vez criticava indiretamente o Jornal dos Sports por seu apoio às entidades especializadas. Além de reclamar da “imprensa amiga” e de sua “propaganda formidável”, o jornal forçosamente depreciava as equipes de Flamengo e Fluminense, referindo-se a elas como “medíocres”. Deve-se ressaltar aqui que Flamengo e Fluminense tinham dois dos melhores quadros do futebol nacional na época, com alguns dos maiores craques brasileiros [2].

Ao receberem a notícia do acordo entre Vasco e América, taxado como “pacto da paz” – como o primeiro pacto o fora três anos antes –, ambos os lados da imprensa procuraram demonstrar terem se saído vitoriosos na disputa. Para isso, mostravam seus dirigentes satisfeitos com o resultado das negociações, e ao mesmo tempo tentavam demonstrar a derrota do adversário com insinuações sobre o descontentamento do lado oposto com o acordo. Dessa forma, o Jornal do Brasil buscava demonstrar a vitória da CBD com uma declaração de Luiz Aranha relatada no artigo “Feita a Paz no Football Brasileiro”:

O dr. Luiz Aranha (…) felicitou a Metropolitana [Federação Metropolitana de Desportos – FMD] pela resolução tomada, mostrou como sempre esteve pronto a estabelecer uma paz honrosa e terminou declarando que a C.B.D. via igualmente com satisfação aproximar-se essa paz subscrevendo também, em nome da entidade máxima do desporto brasileiro a proposta Vasco-América. (Jornal do Brasil, 20/07/1937, p. 16)

Ao mesmo tempo, o jornal tentava mostrar uma possível insatisfação por parte de dirigentes da Federação Brasileira de Football e da Liga Carioca de Football com o pacto, insinuando uma possível derrota destas face ao acordo firmado.

Segundo os comentários que fervilham nas rodas desportivas, o sr. Arnaldo Guinle, que se acha na Europa tratando justamente de assuntos desportivos a ver se consegue alguma coisa em favor da dissidência, se manifestou aborrecido com o assunto e contrário ao pacto.
O América foi também taxado de traidor porque não só concorda em que os dissidentes voltem para a C.B.D., desta ou daquela maneira, mas na C.B.D., como ainda mata o pretexto da especialização pelo qual se batem.
O Dr. Ari Franco, presidente da Liga Carioca de Football, segundo declarações publicadas nos jornais, é contrário à formula apresentada e se dispõe a abandonar o desporto caso seja ela executada. (“Está Iminente a Paz no Football Carioca”, Jornal do Brasil, 20/07/1937, p. 16)

O jornal fazia afirmações que não se comprovaram em nenhuma outra fonte. Arnaldo Guinle não “se manifestou aborrecido” e Ari Franco não “abandonou o desporto”, segundo outras fontes. O mesmo padrão pode ser observado nas páginas do Jornal dos Sports, então já dirigido por Mario Filho.[3] Nesse período o jornal já se mostrava mais claramente ligado ao lado das especializadas, como demonstra uma foto estampada na primeira página do dia 12 de julho de 1937, sob a manchete “A Multidão Viu o ‘Enterro’ da C.B.D.” (Jornal dos Sports, 12/07/1937, p.1). A foto mostra torcedores segurando velas acesas e um pequeno caixão preto com os dizeres “C.B.D. – Galinha Morta”, antes de um jogo entre o Fluminense e um combinado de jogadores argentinos.

No mesmo dia em que o Jornal do Brasil noticiava a declaração de Luiz Aranha a favor da pacificação, o Jornal dos Sports publicou a fala do vice-presidente da FBF, Plínio Leite. Este comandava a entidade na ocasião, em virtude de viagem de Arnaldo Guinle à Europa. Na matéria “A Palavra do presidente em Exercício da F.B.F”, o Jornal dos Sports procura passar uma imagem vencedora da FBF. Segundo a matéria, Plínio Leite teria dito:

O contentamento é geral pelo prenuncio da terminação do dissídio do football nacional. Como vice-presidente da Federação Brasileira de Football cabe-me afirmar que o gesto do América assignando o pacto com o Vasco nada mais é do que ser elle o representante verdadeiro da opinião de todos os seus companheiros de lutas e que com elles estão solidários como sempre estiveram. (Jornal dos Sports, 20/07/1937, pp. 1 e 6)

Assim como o Jornal do Brasil, o Jornal dos Sports também procurou demonstrar uma possível insatisfação com o pacto pelo lado da CBD, de modo a que este aparecesse como o derrotado no processo de pacificação. Como exemplo pode-se apontar duas matérias publicadas no dia 18 de julho, sem maiores destaques na última página da edição. Em “«Traição do Vasco»> Eis como o Sr. Célio de Barros Classificou, Pelo Radio o Movimento em Prol da Paz Sportiva” (Jornal dos Sports, 18/07/1937, p. 6), o jornal menciona uma entrevista de Célio de Barros[4], secretário da CBD à rádio Cruzeiro do Sul, na qual este teria chamado o Vaso da Gama de traidor devido ao pato que firmara com o América. Já a matéria “A Situação do Botafogo é de Expectativa” alegava que o clima no Botafogo era de desaprovação à pacificação, dizendo: “havia até diretores (…) que preferiam ver o club com a sua secção de foot-ball extincta a aceitar uma paz iniciada nas condições do actual movimento” (Jornal dos Sports, 18/07/1937, p. 6).

Considerações Finais

Em 29 de julho de 1937 era realizada a solenidade de fundação da nova entidade que viria a gerir o futebol carioca, a Liga de Football do Rio de Janeiro (LFRJ). Não tardou muito para que o futebol paulista seguisse os passos da pacificação. Com o fim do dissídio em São Paulo, os clubes da Apea se filiaram à Liga Paulista de Futebol (LPF), que inscrevia a Portuguesa de Desportos como membro fundador da entidade e se filiava à Federação Brasileira de Football, agora ligada à CBD. No Paraná a federação Paranaense de Desportos, após um breve afastamento da FBF, voltou a pedir sua inscrição na entidade, também seguindo os parâmetros acordados no Distrito Federal. Em Minas Gerais, o mesmo acontecia com a Liga Esportiva Mineira, assim como em muitos outros estados do país.

Com o fim do dissídio, a paz voltou a reinar no futebol brasileiro. Os outros esportes que já organizavam ligas especializadas seguiram o mesmo caminho traçado pelo futebol, com os clubes se filiando à federação especializada e essa se filiando à CBD. Da mesma forma, a imprensa esportiva abraçou os ideais da paz, selando suas atividades de porta-vozes de entidades em conflito.

Do dia 21 ao 26 de julho, o Jornal do Brasil já repetia diariamente com grande destaque em sua página de “Notícias Desportivas” o confronto entre Flamengo e Fluminense, que ocorreria no dia 26/07. Já o Jornal dos Sports passa a dar maior destaque a notícias envolvendo o Botafogo e o Vasco da Gama em sua primeira página.

Vê-se, desta forma, que uma análise crítica das fontes estudadas é de fundamental importância para um trabalho histórico. Caso um pesquisador menos cuidadoso buscasse olhar o período através de um único veículo da imprensa esportiva, este teria uma visão parcial e desfocada do esporte no período analisado.

Como qualquer outra área da imprensa, da mídia, ou mesmo qualquer outra fonte produzida pelo homem, a imprensa esportiva é feita a partir de um olhar historicamente situado, feita a partir de um ponto de vista específico, por alguém de uma determinada posição social e visando atingir um público em preferencial. Assim, torna-se imprescindível para o pesquisador um olhar mais cuidadoso para a natureza da fonte, sendo ela a imprensa esportiva ou não.


[1] Anfilóquio Guarisi foi contratado pela Lazio e, por também possuir nacionalidade italiana, acabou sendo convocado para a seleção italiana que conquistou a Copa do Mundo de 1934 em casa. Chamado pelos italianos de Guarisi, Filó chegou a disputar um jogo na competição e se tornou o primeiro brasileiro campeão do mundo.

[2] Entre os grandes jogadores da dupla Fla-Flu de 1937, podemos destacar Leônidas da Silva, Romeu, Tim e Hércules, base do ataque da seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1938.

[3] Mario Filho assumiu a direção do Jornal dos Sports em 1936, em meio ao dissídio esportivo, e manteve a política do jornal de fidelidade às especializadas, grupo que ele já defendia das páginas esportivas d’O Globo. De acordo com Rui Castro, Mario Filho teria adquirido o Jornal dos Sports de Argemiro Bulcão com dinheiro financiado de Arnaldo Guinle e José Bastos Padilha (Castro, 2001, p. 133). Padilha era concunhado de Mario Filho (era casado com a irmã de sua esposa) e foi presidente do Flamengo de 1933 a 1938.

[4] Célio de Barros era jornalista, presidente de Sport Club Brasil e importante dirigente da Confederação Brasileira de Desportos e do esporte carioca. O estádio de atletismo situado junto ao Maracanã foi nomeado em sua homenagem.

Referências bibliográficas

DE LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKI, C. (Org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2010.

HOLLANDA, Bernardo Buarque de. O cor-de-rosa: ascensão, hegemonia e queda do Jornal dos Sports entre 1930 e 1980. In: HOLLANDA, Bernardo Buarque de; MELO, Victor A. (Orgs.). O esporte na impresna e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

MELO, Victor A. et al. Pesquisa histórica e História do Esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

VARGAS, Getúlio. Diário.  2V.  São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: FGV, 1995.


O mundo circense na pintura de Marc Chagall

23/01/2023

ELCIO LOUREIRO CORNELSEN


Nos últimos dois anos, temos desenvolvido estudos sobre representações do lazer e do entretenimento nas artes plásticas, sobretudo em obras produzidas nas primeiras décadas do século XX. Especificamente, trabalhamos com pinturas de August Macke (1887-1914)[i] e desenhos de Heinrich Zille (1858-1929)[ii]. Para realizar a análise das obras, tomamos por orientação o procedimento proposto por Victor Andrade de Melo (2009, p. 22) ao partir das imagens para estudar representações artísticas do esporte e do lazer nas artes plásticas: “Isto é, não se tratou de buscar obras que ilustrassem o que as fontes documentais informavam sobre os temas tratados, mas sim partir do que as imagens informavam, não só no que se refere ao tema, como também naquilo que dizia respeito à forma e ao contexto de representação”.

Neste breve estudo, tomaremos por objeto o mundo circense e sua representação em obras do pintor Marc Chagall (Moshe Zakharovitch Shagal; 1887-1985), um dos expoentes da arte moderna e de vanguarda no século XX. Para isso, selecionamos um corpus formado pelas seguintes obras: Le Cirque (1922-1944; O circo), Le Grand Cirque (1956; O grande circo), Le Cirque bleu (1967; O circo azul), Le Cheval de Cirque (1964; O cavalo de circo), e Le Grand Cirque (1967; O circo).

Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o tema do circo foi fonte de inspiração para Chagall ao longo de sua vida. Ainda criança em Vitebsk, distante aldeia natal na Rússia czarista, Chagall demonstrava verdadeira fascinação pelas companhias circenses itinerantes que se apresentavam nos pequenos vilarejos, com seus acrobatas, equilibristas, palhaços e animais. Mais tarde, quando se transferiu para Paris em 1910, aos 23 anos, após ter vivido em São Petersburgo desde 1907, passou a ir regularmente a grandes circos, na companhia de Ambroise Vollard (1866-1939), famoso marchand e curador de exposições de arte na capital francesa, que incentivou a produção artística da jovem geração que acorreu a Paris, considerada à época o centro artístico europeu. Sentado na plateia, Chagall esboçava e desenhava croquis para futuras telas. Inclusive, consta que, no início dos anos 1920, quando Chagall retornou a Paris, Vollard encomendou 19 pinturas em guache que formariam uma série temática sobre circo.

Cartaz de Jules Chéret (1836-1932) para o Nouveau Cirque de Paris (1886)

Fonte: Musée de la publicité, Paris

Circopedia – The Free Encyclopedia of the International Circus (http://www.circopedia.org/File:Nouveau_Cirque_Cheret.jpg )

Na Belle Époque, Paris era um dos principais centros de atrações na Europa, na qual o mundo circense viveu seu florescimento e também teve seu espaço de destaque, com o Le Noveau Cirque (1886-1926), o Le Cirque Fernando (1875-1897), o Le Cirque Mendrano (1873-1962), entre outros, verdadeiros templos de lazer e entretenimento. Certamente, os espetáculos circenses na capital francesa foram fontes de inspiração para as obras de Chagall que contemplam o tema, bem como espetáculos circenses na então capital russa, São Petersburgo, de 1907 a 1909, quando o artista teve aulas de pintura com Léon Bakst e de desenho com Mstilav Dobuzhinsky (MAGALHÃES, 2009, p. 163), entre eles, o Circus Ciniselli (1875-1921).

Cartaz para o Circus Ciniselli em São Petersburgo,

sob direção de Scipione Ciniselli (1900)

Fonte: Circopedia – The Free Encyclopedia of the International Circus

(http://www.circopedia.org/File:Ciniselli_-_Scipione.png )

A atmosfera lúdica e colorida do circo cativou Chagall desde cedo, mesmo com as pequenas companhias itinerantes do período de sua infância, cujos espetáculos eram muito mais modestos do que aqueles que conheceria nas grandes casas circenses de São Petersburgo, Moscou e Paris. O circo lhe transmitia a ideia de um ambiente artístico e de entretenimento em que todos os aspectos da vida eram representados, em uma ampla variação do trágico ao cômico. Os artistas de circo, com seus trajes excêntricos e maquiagem em cores vivas, tornaram-se personagens ideais para povoar as composições oníricas de Chagall.

Espetáculos circenses na pintura de Chagall

Iniciemos nossa análise de pinturas de Marc Chagall que contemplam o tema do circo por Le Cirque, tela em que o artista trabalhou por mais de duas décadas, de 1922, quando emigrou da Rússia em definitivo, a 1944, quando se encontrava exilado nos Estados Unidos, após ter deixado a França em 1941, invadida por tropas alemãs:

Le Cirque

(1922-1944; O circo)

Material: óleo sobre tela, 37,3 x 57,7 cm

(https://musees-nationaux-alpesmaritimes.fr/chagall/collection/objet/le-cirque )

Inegavelmente, as obras de Chagall são marcadas por um intenso hermetismo, fruto de sua poeticidade e lirismo, que resulta do rompimento com o conceito tradicional de arte como narração. Ao contrário, suas obras não narram cenas, elas expressam tanto o trabalho memorialístico do artista na escolha de determinados elementos icônicos, quanto o tratamento do onírico e do subconsciente, em que tais elementos são justapostos, sem produzir, necessariamente, uma unidade de sentido. De acordo com Ekaterina L. Selezneva (2009, p. 30), “para Chagall, o tema é tecido como uma teia de aranha. Os sentidos não se revelam um após o outro: podem ser percebidos todos juntos, oferecendo a possibilidade de uma leitura extremamente complexa”. Podemos afirmar que essa é a principal marca do estilo do pintor russo de origem judaica, naturalizado francês em 1937, sendo que o uso da cor representa o elemento básico de sua pintura, ao ser empregado, fequentemente, para produção de efeito anti-mimético, algo que nos faz lembrar, por exemplo, de obras de Franz Marc (1880-1916), um dos grandes expoentes do Expressionismo alemão. Em Le Cirque, temos um bom exemplo desse hermetismo que marca as obras de Chagall.

Inicialmente, constata-se que Le Cirque sintetiza temporalidades e espacialidades distintas, da infância e da vida adulta do artista, do picadeiro e da aldeia. Certa vez, Chagall afirmou: “Cada pintor nasceu em um determinado lugar: mesmo que, mais tarde, ele reaja a influências de novos ambientes, certa essência, certo perfume de seu país natal sempre persistirá em seu trabalho” (CHAGALL apud SELEZNEVA, 2009, p. 14). Desse modo, entendemos que as raízes judaicas e as memórias dos tempos da aldeia na Bielorússia são elementos fundamentais para se entender a arte chagalliana, incluindo a série dedicada ao mundo circense. Como bem ressalta Selezneva (2009, p. 16),

ao enfatizar sua nostalgia, retornava continuamente a visões inalteradas e amadas, sem classificá-las em sua alma como judaicas, bielo-russas ou russas. Essas imagens eram inerentes à natureza de Chagall, que foi impregnado com a cultura judaica pelo leite materno, e colheu a cultura russa de seu entorno e de suas relações de amizade.

Entretanto, em termos de contextualização há um dado fundamental como pressuposto para se analisar Le Cirque: a origem de sua composição. Após cinco anos, de 1910 a 1914, morando em Paris, período que marcou o ingresso de Chagall no cenário artístico europeu e mundial, o artista retornou a Vitebsk para rever a família e Bella (Berta Rosenfeld), sua noiva, aproveitando uma breve passagem por Berlim, onde expôs obras na galeria de arte do círculo expressionista Der Sturm (A Tempestade), dirigido por Herwarth Walden (1878-1941). Todavia, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em agosto de 1914, Chagall se vê impedido de regressar a Paris. No ano seguinte, casa-se com Bella e segue pintando novas obras e se transfere para São Petersburgo, capital da Rússia czarista, até 1917. Com a Revolução de Outubro, o artista se torna um dos principais nomes para promover o cenário artístico do país segundo diretrizes do novo Estado Soviético. Além de eleito para o cargo de Comissário de Artes da região de Vitebsk em 1918, e de ter fundado a Escola Popular de Arte em sua cidade natal no ano seguinte (MAGALHÃES, 2009, p. 165-166), Chagall pintou sete painéis em tela para compor grandes murais decorativos para o Teatro Municipal Judaico em 2020, na cidade de Moscou, nova capital do país sob o regime soviético (SHATSKIKH, 2018). Nos murais para o Teatro, o circo também se fez presente como tema da arte performática. Conforme Alexandra Shatskikh aponta,

[s]egundo Chagall, tudo no circo era real e autêntico. Animais e palhaços em sua astúcia, as ginastas e os acrobatas com seus corpos criativos atuando no extremo de seu potencial natural, não representavam – na verdade, eram. Os trajes coloridos dos artistas circenses apenas enfatizavam o impacto festivo de sua criação viva.[iii] (SHATSKIKH, 2018; tradução própria)

Todavia, em 1922, decepcionados com os rumos que a arte estava tomando sob a tutela do regime soviético, Chagall e Bella deixam sua terra natal em definitivo, vivem por alguns meses de 2023 em Berlim e se transferem para Paris, para atender ao chamado de Ambroise Vollard, que lhe encomendara algumas ilustrações de livros, incluindo uma série sobre o mundo circense, intitulada Le Cirque de Volard (MAGALHÃES, 2009, p. 41-42). Em um desses trabalhos, o artista refez de memória uma das telas que, originalmente, compunham o mural do Teatro Municipal Judaico de Moscou, a qual designou de Le Cirque. Por anos, Chagall a manteve em seu ateliê e a levou também para a América, quando se exilou em 1941.

Conforme podemos constatar, Le Cirque revela uma densidade de elementos em sua composição: três acrobatas dominam a cena, todos de ponta cabeça, se equilibrando sobre as mãos e sustentando o peso dos corpos com os braços esticados. Eles trajam vestes coloridas distintas, e apenas um deles está com o rosto virado para frente, na direção de quem contempla a cena. Justamente esse acrobata possui algo enrolado em seu braço esquerdo, que o diferencia dos demais: o filactério (tefilin), utilizado enrolado ao braço esquerdo – e também fixado à fronte – por judeus religiosos ao fazerem as orações diárias. Certamente, uma reminiscência do mural decorativo do Teatro Municipal Judaico de Moscou que foi mantida em sua versão de 1944, quando a tela vem a público. Além dos três acrobatas, outras duas figuras se destacam em Le Cirque: dois palhaços, sendo que um está sentado com suas vestes vermelhas em um banquinho, no canto direito inferior da tela, mirando os acrobatas, e o outro está um pouco mais atrás, entre a fileira dos acrobatas e a coluna de mulheres e homens que caminham por trás deles.

Em sua complexidade, Le Cirque estabelece uma relação entre, pelo menos, duas camadas: a do mundo circense e, respectivamente, do universo da aldeia. Ao fundo, vê-se casebres, por trás dos quais o sol crepuscular projeta luminosidade em direção à cena escura que domina a tela. A vaca de ponta cabeça que paira no ar entre os dois palhaços também é uma referência icônica da aldeia nas obras de Chagall. Desse modo, realidade e fantasia se fazem presentes na representação do mundo circense, mas não podemos deixar de notar também certo tom sombrio transmitido por Le Cirque. As figuras humanas que caminham em coluna atrás dos acrobatas podem significar o movimento de fuga daqueles que se viram impelidos a deixar sua terra natal para sobreviver à violência, em decorrência tanto da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, quando ocorreu grande êxodo rumo ao Ocidente, quanto da Segunda Guerra Mundial e da Shoah, que chegara ao fim um ano após o artista ter concluído a obra. Aliás, uma das figuras humanas, posicionada à esquerda, parece tocar violino, e outra, mais ao centro da tela, trajando vestes escuras, carrega algo que parece ser os rolos da Torá, em que a tradição cultural e religiosa é levada por aqueles que são impelidos a deixar seus lugares de origem.

Por sua vez, a segunda obra de Chagall selecionada para análise é Le Grand Cirque, de 1956, que apresenta outros elementos importantes para se entender a representação do mundo circense nas obras desse mestre da pintura moderna:

Le Grand Cirque

(O Grande Circo; 1956)

Material: óleo e guache sobre tela, 159,5 × 308,5 cm

(https://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2017/impressionist-modern-art-evening-sale-n09740/lot.48.html )

A obra Le Grand Cirque, conforme o título indica, se relaciona muito mais com as grandes casas circenses de São Petersburgo e de Paris, do que propriamente com os circos de modestas companhias itinerantes, dos tempos de infância e adolescência de Chagall. Na tela, está presente um conjunto de figuras humanas formado por acrobatas, trapezistas, bailarinas, palhaços e músicos em primeiro plano, e o público ao fundo. Reconhece-se que, especificamente, três grupos são destacados pela luminosidade que incide sobre o tom azul, predominante na tela: ao centro, vemos a figura de uma amazona, com seu vestido branco e tons coloridos, que se equilibra sobre um cavalo preto-esverdeado; do lado direito, pela coloração de suas vestes, em laranja, e de seus cabelos vermelhos, destaca-se a figura de uma violinista, cujo corpo está apoiado nas costas de um acrobata, com corpo em tamanho desproporcional, que se equilibra sobre as mãos no solo, de ponta cabeça; do lado esquerdo, vemos um conjunto composto por cinco figuras em destaque, precisamente uma bailarina, um acrobata, uma contorcionista, um animal, parecendo ser um cavalo, que se equilibra nas patas traseiras e segura uma sombrinha, e uma figura híbrida, com corpo humano e cabeça de bode, que segura um buquê de flores nas mãos.

Com relação a esse último aspecto, cabe aqui uma inferência que nos auxilia na análise da tela: o fato de que Marc Chagall expressa em suas obras um tom de nostalgia, que remete aos tempos de infância e adolescência em Vitbesk. Figuras híbridas como essa que vemos em Le Grand Cirque estão presentes também em outras obras do pintor russo, entre elas, La Danseuse au Bouc ou La Fiancée au Bouquet vert (1945; A Dançarina com o Bode ou A Noiva com o buquê verde), Le Printemps ou Le Bouc au violon (1938, A Primavera ou O Bode com violino), Songe d’une Nuit d’Été (1939; Sonho de uma Noite de Verão), Arlequin à la Lune jaune (1969; Arlequim na Lua amarela) e Le Bouc musician (1982; O Bode músico). Porém, muito antes, nas primeiras telas pintadas por Chagall em Paris que remetem a Vitebsk, a figura do bode já se fazia presente: Moi et le Village (1911; Eu e a Aldeia), La Pluie (1911; A Chuva) e Vitebsk, Scène de Village (1917; Vitebsk, Cena da Aldeia).

Haveria, ainda, muito mais elementos a se analisar em Le Grand Cirque, por exemplo, o corpo de um acrobata separado de sua cabeça, que paira no ar, ou mesmo a cabeça azul sem corpo, na parte superior direita da tela, ou as mãos vermelhas. Todos esses elementos aparecem em outras obras de Chagall, o que evidencia não somente uma ressonância entre elas, como também um modo de o pintor trabalhar, pictoricamente, a memória. Le Grand Cirque e as próximas obras a serem analisadas datam dos anos 1950 e 1960, quando o pintor já residia em Saint-Paul de Vence, no Sul da França, e, por certo, resultam de croquis desenhados pelo artista há várias décadas antes. Podemos supor que o modo como Chagall representa, pictoricamente, o circo produz uma junção entre o olhar do adulto que contempla a cena e as reminiscências da infância, inclusive como modo de celebração de suas raízes judaicas em Vitebsk. Não é por acaso, aliás, que Marc Chagall representa o shtetl, a aldeia judaica, e os seres que a habitam – humanos, animais, seres divinos etc. –, em que realidade e fantasia parecem entretecidas, bem ao gosto do universo hassídico do Leste Europeu no qual nasceu e cresceu, em que a harmonia entre homem e animal e a unidade entre divino e terreno ocupam lugar de destaque. Conforme aponta Ekaterina L. Selezneva (2009, p. 28), “o talento de Chagall reuniu os céus e a vida terrena”. E conforme apontamos em outro estudo, “[s]uas numerosas obras representam cenas do cotidiano nos vilarejos judaicos da Rússia czarista” e, ao mesmo tempo, se atrelam “à tradição oral de narrativas do Leste Europeu, sobretudo do shtetl com suas histórias povoadas de figuras fantásticas”. (CORNELSEN, 2006, p. 101). O universo hassídico, sem dúvida, seria um elemento que influenciaria a arte de Chagall por toda sua vida. As palavras de Fábio Magalhães (2009, p. 33), curador da exposição “O mundo mágico de Marc Chagall: o sonho e a vida”, que esteve em cartaz em algumas capitais brasileiras em 2009, dão a dimensão de tal influência:

O hassidismo desenvolveu para a alma popular o sentido profundo das tradições bíblicas. Fortaleceu o sentimento religioso na relação do divino no cotidiano e trouxe para a vida social, na trivialidade dos dias, o júbilo pela criação do mundo e do homem, ou seja, o entusiasmo pelas pessoas, pela natureza e pelas coisas do universo. No hassidismo, a relação com Deus é feita com intensa alegria, à procura do êxtase. Esse sentimento apareceu já nas primeiras obras de Chagall e se manteve como uma melodia constante durante toda a sua vida. Mesmo depois de se transformar em cidadão do mundo, vivendo na França e nos Estados Unidos, ele continuou carregando, consigo, como um caracol, a memória de sua aldeia, do bairro de judeus pobres de Vitebsk.

Desse modo, ao entretecer o divino e o terreno também nas telas que representam o mundo circense, como em Le Grand Cirque, por assim dizer, Chagall promove uma divinização da arte circense, algo que escaparia a uma representação meramente mimética dos espaços e das performances de suas personagens.

Passemos, agora, à análise da obra Le Cirque bleu (1967; O circo azul), que se compõe de outros elementos icônicos:

Le Cirque bleu
(1967; O circo azul)
Material: óleo sobre tela, 34,9 × 26,7 cm
(https://www.tate.org.uk/art/artworks/chagall-the-blue-circus-n06136 )

Mais uma vez, estamos diante de uma tela de Marc Chagall repleta de elementos que, em princípio, não permitem uma associação imediata entre si e demandam contextualização. Assim como em Le Grand Cirque, predomina a cor azul, um atributo do circo, aliás, destacado no próprio título da tela. Uma figura humana domina o centro da tela: uma jovem trajando um colant vermelho, que faz acrobacias aéreas no trapézio, de ponta cabeça. Outras figuras e objetos compõem a cena: um peixe azul na parte superior da tela, algo sempre associado pelos críticos de arte ao pai do pintor, que era comerciante de arenques em Vitebsk; um ramalhete de flores que é lançado por uma mão, também na parte superior da tela, talvez como sinal de reconhecimento à performance da trapezista; um galo verde tocando bumbo no canto superior direito; a cabeça de um cavalo verde em destaque, na parte inferior da tela, sendo que, segundo os críticos de arte, a cor verde nas telas de Chagall representaria o amor; no canto inferior direito, há outras duas figuras humanas que, todavia, não recebem maiores detalhes ou cores distintas, mas nota-se que se trata de uma jovem que flexiona seu corpo segurando um arco, e de um músico que toca violino; outro violino em menores proporções aparece também na cena, sobreposto à lua amarela e brilhante, na parte central direita da tela, o que reforça a impressão de uma cena noturna. Aliás, algo que já aparecia em Le Cirque, na personagem que acompanha a coluna humana em fuga, e Le Grand Cirque, no conjunto de músicos, mas que não foi analisado anteriormente, é o violino, objeto que recebe destaque especial na obra de Marc Chagall. Basta pensarmos na série chagalliana dos violinistas, que figura como a mais conhecida do público em geral. Conforme apontamos no estudo intitulado “De ‘Tévye, o leiteiro’ ao ‘Violinista no telhado’” (C0RNELSEN, 2016, p. 92), no documentário Le Peintre à la tête renversée (O Pintor com a cabeça virada), de Dominik Rimbault (1984), exibido pela TV Cultura dentro da série “Grandes Mestres da Pintura”, entre outros temas, Chagall fala sobre as memórias de infância em Vitebsk, em que havia a figura dos músicos nas cerimônias de casamento:

Sempre gostei de violino, muito. Vocês sabem… Quando ouvia os músicos, eu me comovia. Isso é importante! Não tinha o que olhar. Havia pássaros pretos no céu cinzento. Quando havia violinistas para os casamentos… não havia concertos, não havia Rubinstein…, Yehudi Menuhin… Havia músicos para os casamentos. […] Todos os sábados, o tio Leni punha um talit,[iv] não importa qual, e lia a Bíblia em voz alta. Ele tocava violino como um sapateiro. Meu avô ouvia e sonhava. (RIMBAULT, 1984)

Portanto, devemos entender a composição dessa e de outras telas de Chagall em sua complexidade, pois as perpassam espacialidades e temporalidades distintas, por exemplo, daquele que está sentado na plateia, no circo em Paris, e se entretém – porque, não, também esboçando seus croquis – e que rememora a infância e o circo no vilarejo natal e em outras localidades próximas na Bielorússia ou em São Petersburgo na Rússia. Isso nos permite inferir que o mundo circense do artista russo se difere sensivelmente, por exemplo, daquele representado pelo pintor expressionista August Macke (CORNELSEN, 2022), pois a subjetividade se faz presente em Le Cirque bleu e em outras telas pelo olhar do pintor enquanto parte do público. Além disso, o procedimento anti-mimético adotado por Chagall traz outra qualidade à representação do mundo circense, mesmo em telas nas quais o lirismo e a nostalgia se fazem presentes, como nessa, em que a cor azul, pertencente às cores frias no círculo cromático, se associa à espiritualidade. Sobre o procedimento anti-mimético e o uso de cores Fábio Magalhães tece a seguinte consideração, da qual partilhamos:

Há extraordinária força cromática em sua pintura. Em muitos casos os contrastes de cor pura contrariam a lógica dos seres e dos objetos representados. Uma vaca azul, um rabino vermelho, essa liberdade cromática reforça sua lírica e ajuda a criar um mundo plástico que flutua entre o real e o imaginário, dotado de intensa magia. Também a geometrização trouxe novas possibilidades de tratamento espacial. (MAGALHÃES, 2009, p. 36)

Posto isto, passemos à análise da quarta obra de Chagall, intitulada Le Cheval de Cirque (1964; O cavalo de circo):

Le Cheval de Cirque

(1964; O cavalo de circo)

Material: guache e nanquim sobre papel cartão, 49,5 x 62,8 cm

(http://www.artnet.fr/artistes/marc-chagall/le-cheval-de-cirque-WSX4QeFUieYJTssLfp5v5A2 )

De início, podemos salientar um elemento que, nas três telas anteriores analisadas, não recebe maior destaque: o espectador. Em Le Cheval de Cirque, vemos a galeria ao fundo, em que o público contempla a performance simultânea de diversos artistas circenses: a amazona, ao centro do quadro, que se equilibra sobre o cavalo branco com manchas amarelas; dois acrobatas com suas vestes coloridas, do lado direito, em que um sustenta com um único braço o peso do corpo do outro, que está de ponta cabeça; um equilibrista, na parte superior da tela, parece se sustentar sobre a corda bamba, enquanto outro, do lado esquerdo, junto à figura de um cavalo, parece pairar no ar; na parte baixa da tela, figura um homem, com cartola, talvez o diretor do circo ou mesmo um palhaço, pois tem o rosto pintado. Nota-se ainda, que predominam cores vibrantes em diversos matizes – amarelo, laranja e vermelho, algo que diferencia Le Cheval de Cirque de Le Grand Cirque e Le Cirque bleu, em que predomina a cor azul. De certo modo, as cores vivas evocam uma atmosfera de agitação e intenso movimento, seja dos artistas, seja do público que os contempla. Além disso, outro aspecto difere Le Cheval de Cirque das outras três telas analisadas até aqui: a quase ausência de elementos que se associam ao universo judaico da aldeia. Embora o cavalo seja o elemento destacado pelo próprio título da obra, nota-se um detalhamento muito maior da performance circense na própria perspectiva do picadeiro e de seu entorno. Trata-se, pois, de uma grande casa circense, em que números de trapézio e acrobacia são apresentados ao público simultaneamente.

Por fim, analisaremos a quinta e última tela de Marc Chagall selecionada para análise neste breve estudo, intitulada também de Le Grand Cirque (1967; O grande circo):

Le Grand Cirque

(1967; O grande circo)

Material: litografia colorida sobre papel, 51,5 cm x 37,5 cm (https://www.masterworksfineart.com/artists/marc-chagall/lithograph/le-cirque-the-circus-from-cirque-1967-m512/id/w-7095 )

Em certa medida, Le Grand Cirque (II) dialoga com Le Cheval de Cirque, pois possui cores vibrantes – amarelo, laranja e vermelho – que acentuam a luminosidade da tela e destacam tanto a performance de artistas no picadeiro e no ar, quanto o público que a contempla. Nesse conjunto, identifica-se cinco personagens: dois músicos, sendo que um deles, posicionado na parte inferior esquerda da tela, trajando vestes vermelhas, toca violino, enquanto o outro, na margem direita da tela, toca clarinete; centralizada, figura uma malabarista trajando roupas coloridas, que gira um arco com o braço direito; outras duas figuras femininas estão acima, como se pairassem no ar, sendo que uma delas, trajando vestido azul, parece ser uma amazona que teria saltado do cavalo vermelho em posição rampante, que está a seu lado, enquanto a outra, igualmente com roupas coloridas, parece ser uma trapezista em movimento de vôo.

Embora predomine a performance circense na tela, nota-se a presença de, pelo menos, dois elementos que remeteriam a temporalidades e espacialidades distintas, retomadas pela memória visual: o violino, já destacado anteriormente, e o peixe amarelo tocando bumbo no canto superior esquerdo da tela. Conforme indicado quando da análise de Le Cirque bleu, em geral, críticos de arte apontam o peixe em obras de Chagall como uma alusão à figura paterna, que era comerciante de arenques em Vitebsk. Inclusive, o peixe se faz presente em várias telas, entre elas, em Le petit poisson et le pêcheur (1926; O pequeno peixe e o pescador), Création (1959; Criação), Le Verger (1961; O pomar) e Le Songe du capitaine Bryaxis (1961; O sonho do capitão Bryaxis). Além disso, mais uma vez, o bumbo não é tocado por uma figura humana, mas, sim, pelo peixe, algo que já havia sido detectado na análise de Le Cirque bleu, mas que não havia sido pormenorizado, quando o bumbo é tocado por um galo, outro elemento muito presente em obras do pintor russo, por exemplo, em Le Coq (1928; O galo), Les Mariés et la Tour Eiffel (1939; Os noivos e a Torre Eiffel), Le coq rouge dans la nuit (1944; O galo vermelho na noite), Les Mariés au traineau et au coq rouge (1957; Os noivos com trenó e galo vermelho). Les Amoureux au coq (1957; Os amantes com galo) e Scene de village au coq jaune (1970; Cena do vilarejo com galo amarelo). Interessante notar que o galo figura em obras cujo tema central é o amor, intensamente representado por cores vivas, enquanto o peixe, associado ao pai e às origens na pequena aldeia russa, às águas e à noite, também alude a certa religiosidade, com conotações bíblicas.

O mundo circense nas obras de um mestre da iconicidade – a guisa de conclusão

Marc Chagall figura na célebre galeria de artistas plásticos que representaram o mundo circense em suas obras, entre eles, Georges Seurat (1859-891), Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Georges Rouault (1871-1958), Kees van Dongen (1877-1968), Pablo Picasso (1881-1973), August Macke (1887-1914) e Fernand Léger (1881-1955). Em meio a influências do Cubismo, do Fauvismo e do Expressionismo, detentor de uma obra inclassificável e mística, e de um estilo original e independente, o artista russo desenvolveu uma linguagem própria, a qual se evidencia também em seu amor pela arte orgânica do circo enquanto espaço de performance artística, lazer e entretenimento. Chagall considerava palhaços, equilibristas, acrobatas e atores como seres humanos em todo o seu lirismo e tragicidade, feitos personagens de certas pinturas religiosas.

A análise do conjunto de obras formado por Le Cirque (1922-1944; O circo), Le Grand Cirque (1956; O grande circo), Le Cirque bleu (1967; O circo azul), Le Cheval de Cirque (1964; O cavalo de circo) e Le Grand Cirque (1967; O circo), não obstante várias lacunas e superficialidades que permanecem abertas ou imprecisas neste breve estudo, nos permite, no entanto, certas inferências. A primeira delas diz respeito ao jogo de temporalidades e de espacialidades, que influencia no modo como Chagall representa pictoricamente o mundo do circo. Se o artista esteve atento para um dos principais espaços de lazer e entretenimento, bem como de elevada performance artística, o modo como expressou o circo nas diversas telas analisadas é indissociável de certa nostalgia da infância e de seu torrão natal, a aldeia de Vitebsk, na Bielorússia.

Outro aspecto evidente é certa divinização do espaço do circo resultante do ato de entretecer, iconograficamente, o divino e o terreno a partir da justaposição de certos elementos icônicos não necessariamente associados, em que o sobrenatural irrompe na vida cotidiana. Nostalgia, religiosidade, amor emanam das telas de Chagall, em que o mundo circense e a performance de suas personagens, em meio a um ambiente alegre e multicor, representam uma arte divinamente redimida: “Mon cirque se joue dans le ciel” (“Meu circo se diverte no céu”).

Referências Bibliográficas

CORNELSEN, Elcio Loureiro. De ‘Tévye, o leiteiro’ ao ‘Violinista no telhado’. WebMosaica: Revista do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 83-105, jan./jun. 2016. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/webmosaica/article/view/71159. Acesso em: 19 jan. 2023.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. As artes plásticas e suas representações do lazer: uma questão de olhar social. História(s) do Sport (blog). 03 out. 2022. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/10/03/as-artes-plasticas-e-suas-representacoes-do-lazer-uma-questao-de-olhar-social/ . Acesso em: 05 out. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Banhistas e sua representação na pintura de August Macke. História(s) do Sport (blog). 13 jun. 2022. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/06/13/banhistas-e-sua-representacao-na-pintura-de-august-macke/ . Acesso em: 26 set. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Espaços de lazer em desenhos de Heinrich Zille – um olhar social na Berlim antiga. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 18 out. 2022. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em 18. out. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagens do lazer em desenhos de Heinrich Zille no início do século XX. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 03 ago. 2022. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 26 set. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagens do lazer na pintura de August Macke. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 14 dez. 2021. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 26 set. 2022.

_____. Infância e espacialização do bairro judeu nos romances ‘Bom Retiro’, de Eliezer Levin e ‘A Guerra no Bom Fim’, de Moacyr Scliar. Revista do CESP – v. 26, n. 35, p. 97-106, jan./jun. 2006.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O mundo circense e o jardim zoológico na pintura de August Macke. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 26 abr. 2022. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 26 set. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O velejar como lazer na pintura de August Macke. História(s) do Sport (blog). 21 fev. 2022. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/21/o-velejar-como-lazer-e-sua-representacao-na-pintura-de-august-macke/. Acesso em: 26 set. 2022.

MAGALHÃES, Fábio. O mundo mágico de Marc Chagall. In: MAGALHÃES, Fábio (curador). O mundo mágico de Marc Chagall: o sonho e a vida. Exposição na Casa FIAT. São Paulo: Base Sete Projetos Culturais, 2009, p. 32-48.

______. (curador). O mundo mágico de Marc Chagall: o sonho e a vida. Exposição na Casa FIAT. São Paulo: Base Sete Projetos Culturais, 2009.

MELO, Victor Andrade de. Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009.

SELEZNEVA, Ekaterina L. Contextos russos da obra de Chagall. In: MAGALHÃES, Fábio (curador). O mundo mágico de Marc Chagall: o sonho e a vida. Exposição na Casa FIAT. São Paulo: Base Sete Projetos Culturais, 2009, p. 14-31.

SHATSKIKH, Alexandra. The Theatre in the Biography of Marc Chagall. Tretyakov Gallery Magazine. 2018. Disponível em: https://www.tretyakovgallerymagazine.com/articles/special-issue-marc-chagall-bonjour-la-patrie/theatre-biography-marc-chagall. Acesso em: 20 jan. 2023.

Filmografia

RIMBAULT, Dominik. Le Peintre à la tête renversée. 1984, França, colorido, 60 min.

Notas


[i] Artigos de nossa autoria sobre obras do pintor expressionista alemão August Macke:

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Banhistas e sua representação na pintura de August Macke. História(s) do Sport (blog). 13 jun. 2022. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/06/13/banhistas-e-sua-representacao-na-pintura-de-august-macke/. Acesso em: 26 set. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagens do lazer na pintura de August Macke. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 14 dez. 2021. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 26 set. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O mundo circense e o jardim zoológico na pintura de August Macke. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 26 abr. 2022. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 26 set. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. O velejar como lazer na pintura de August Macke. História(s) do Sport (blog). 21 fev. 2022. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/21/o-velejar-como-lazer-e-sua-representacao-na-pintura-de-august-macke/. Acesso em: 26 set. 2022.

[ii] Artigos de nossa autoria sobre obras do pintor, fotógrafo, litógrafo, desenhista e caricaturista alemão Heinrich Zille:

CORNELSEN, Elcio Loureiro. As artes plásticas e suas representações do lazer: uma questão de olhar social. História(s) do Sport (blog). 03 out. 2022. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/10/03/as-artes-plasticas-e-suas-representacoes-do-lazer-uma-questao-de-olhar-social/ . Acesso em: 05 out. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Espaços de lazer em desenhos de Heinrich Zille – um olhar social na Berlim antiga. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 18 out. 2022. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em 18. out. 2022.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagens do lazer em desenhos de Heinrich Zille no início do século XX. BELA – Blog de Estudos do Lazer. 03 ago. 2022. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/author/elcornelsen/. Acesso em: 26 set. 2022.

[iii] No original:

Everything in the circus was real and authentic, according to Chagall. The clever animals and clowns, the gymnasts and acrobats with their creative bodies performing at the very extreme of their natural potential, did not represent — they actually were. The colourful costumes of the circus artistes merely underscored the festive impact of their life creating.

[iv] O talit é um xale usado por judeus religiosos para cobrirem a cabeça ao fazerem as primeiras orações da manhã.


O debate acerca dos esports no campo esportivo: uma pequena reflexão

21/01/2023

Por Eduardo Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Ana Moser assumiu o Ministério do Esporte no atual governo Lula. Foto: Agência Brasil

Nesse início de 2023, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil depois de 12 anos desde sua saída do cargo, muito tem se debatido sobre as escolhas dos nomes que irão representar os diferentes ministérios em seu governo.

Uma das pastas que retornaram com o atual mandato, foi a do Ministério do Esporte, que durante o período de Jair Bolsonaro no poder ficou vinculado à Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania.

Para comandar tal ministério, Lula escolheu o nome de Ana Moser, ex-atleta de vôlei e muito ligada às causas progressistas relacionadas com o esporte, notadamente por sua atuação no Instituto Esporte e Educação (IEE). A escolha de Moser foi muito festejada por aliados do governo, que no geral entenderam ser a nova ministra, de fato, um bom nome para comandar a “velha nova” pasta.

Todavia, uma fala da agora ministra no último dia 10/01/2023, gerou grande debate. Segundo Moser,

A meu ver, o esporte eletrônico é uma indústria de entretenimento, não é esporte. Então, você se diverte jogando videogame, você se divertiu. “Ah, mas o pessoal treina para fazer”. Treina, assim como o artista. Eu falei esses dias, assim como a Ivete Sangalo também treina para dar show e ela não é atleta da música. Ela é simplesmente uma artista que trabalha com entretenimento. O jogo eletrônico não é imprevisível. Ele é desenhado por uma programação digital, cibernética. É uma programação, ela é fechada, ela não é aberta, como o esporte.

Essa perspectiva conceitual do que deve ou não ser entendido como esporte, gera grandes debates e, ao mesmo tempo, divergências no âmbito do campo esportivo. No senso comum, olhares como o da ministra podem ser reproduzidos e, também, utilizados como forma de demarcação daquilo que buscam passar como sendo um “modelo ideal” do que se deve considerar como esporte.

Moser destacou ainda que o objetivo central da pasta será o de olhar para o “esporte social”, ponto importante e que deve ser encarado como um verdadeiro caminho no que se diz respeito ao entendimento do esporte enquanto uma ferramenta de mobilização e mudança na sociedade. Passada a “era dos megaeventos”, focar nos aspectos sociais do esporte são, sem dúvidas, os melhores caminhos para se pensar a importância dessa pasta para o país. A partir dessa perspectiva, Moser ainda enfatizou o porquê de não estabelecer um olhar mais profundo para, por exemplo, os esports.  

Não tenho por objetivo aprofundar neste pequeno texto um olhar necessariamente crítico ao posicionamento da ministra, mas sim de problematizar a própria ideia do que conceitualmente entendemos como esporte, tendo como parâmetro alguns dos avanços e debates oriundos das Ciências Humanas e Sociais (o que, obviamente, não inviabiliza um debate acerca do tema com as perspectivas conceituais de outras áreas/campos). Afinal, os esports são ou não modalidades esportivas?

Tratando-se de forma mais específica das pesquisas acadêmicas sobre o objeto, deve-se ter em conta alguns fatores importantes. Pierre Bourdieu, em seu ensaio intitulado “Como é possível ser esportivo?”, destacou algumas características daquilo que entende como “esporte moderno”. O autor referendou, em um pequeno ensaio mas que foi de grande valia para o campo de Estudos do Esporte, as diferenças existentes entre o esporte moderno e as práticas corporais e de divertimento anteriores à modernidade.

Caracterizando a importância de conceitualmente definir tal objeto, Bourdieu escreveu sobre o que hoje é conhecido como campo esportivo. Para o autor, a história do esporte é

[…] uma história relativamente autônoma que, ainda quando é escondida pelos grandes acontecimentos da história econômica e política, tem o seu próprio ritmo, as suas próprias leis de evolução, as suas próprias crises, em suma a sua cronologia especifica.

Dentro dessas características, é válido enfatizar que para entender uma determinada manifestação como um esporte, no olhar do campo esportivo, se faz necessário que a mesma possua determinadas características, que são:

. Entidades representativas (como os clubes);

. Um calendário próprio e autônomo;

. Um corpo técnico especializado;

. Um mercado ao seu redor.

A verdade é que o conceito de esporte na modernidade não é fechado e nem deve ser entendido como algo não mutável, pelo contrário. O fato é que os esports conglomeram todas as características do campo esportivo, dentro do contexto do século XXI, sendo por si só esses alguns fatores que referendam essa perspectiva conceitual de inclusão de tais modalidades também como “esportivas”.

Obviamente, dentro do mundo acadêmico, a própria concepção daquilo que devemos entender conceitualmente como esporte, pode ser mudada. Os olhares introdutórios de Bourdieu acerca do objeto serviram como pontapé inicial de um campo investigativo e não como linha de chegada. Desde então, inclusive no Brasil, muitos autores já se debruçaram sobre as perspectivas do campo esportivo, aprofundando, criticando, dando novas sugestões ou apontando distintos caminhos acerca do conceito.

Victor Andrade de Melo, por exemplo, aprofundou esse debate em várias ocasiões. Em uma de suas obras, intitulada “Esporte e Lazer: conceitos – uma introdução histórica”, o autor destacou a importância de se estudar o conceito de esporte dentro de uma perspectiva histórica, abarcando vários pontos que podem ser considerados como caminhos para estabelecer um diálogo entre o esporte e as práticas corporais anteriores à modernidade. Assim, problematizou o conceito de “prática corporais institucionalizadas”, entendendo que

A História das Práticas Corporais Institucionalizadas “abarcaria, em um mesmo campo de investigação, sem excluir outras possibilidades de diálogos, práticas sociais como o esporte, a capoeira, a dança, a ginástica, as relativamente recentes práticas físicas ‘alternativas’ (antiginásticas, eutonia etc.), a educação física (entendida enquanto uma disciplina escolar e como uma área do conhecimento), as práticas específicas de períodos anteriores à Era Moderna (da Antiguidade e da Idade Média), entre outras. A despeito dessa conceituação, para facilitar o entendimento e/ou em função de questões operacionais, em muitas oportunidades usamos “história do esporte” como metonímia”.

Com isso, surge-se mais uma questão: modalidades que se referendam menos pela utilização do corpo e mais pelo uso da mente, como é o caso do xadrex e dos próprios esports, devem ser chamados de “esporte”? Manoel Tubino, Fábio Tubino e Fernando Guarrido destacam, na obra “Dicionário Enciclopédico Tubino do Eporte”, que esses seriam os chamados “esportes intelectivos”:

Os esportes intelectivos são aquelas práticas ou modalidades esportivas nas quais há uma dominância de solicitações intelectivas nas disputas. […] Há alguns anos muitos dos atuais Esportes Intelectivos não eram reconhecidos como Modalidades Esportivas pela falta de movimentos convincentes. Entretanto, a partir da Carta Internacional de Educação Física e Esporte da Unesco (1978), que estabeleceu o direito de todas as pessoas ao Esporte, em todas as idades e em qualquer circunstância física, o conceito de Esporte ficou mais abrangente, passando a compreender muitas modalidades que antes não eram percebidas como Práticas Esportivas. Os Esportes Intelectivos, que muitas vezes são tradicionais pelo longo período de existência – e em outras também são ligados a culturas e identidades nacionais -, na verdade enriqueceram bastante o contexto esportivo internacional.

Tendo em vista essas colocações, é válido relembrar um ponto já aqui abordado: a questão da possibilidade de mutação do conceito. No mesmo livro já aqui citado, Victor Melo apontou em 2010 sobre a necessidade de estarmos sempre atentos às mudanças que o fenômeno esportivo nos proporciona, destacando assim que um olhar não apurado poderia se materializar em uma equivocada estagnação do conceito. Já citando inclusive os esports, o autor destacou que

[…] desde o tempo do Telejogo, primeira geração de games, são muitos os jogos eletrônicos que fazem da prática esportiva o motivo central. Aliás, com o Wii, vemos a junção entre o movimento corporal e o que ocorre no monitor, uma nova forma de interação. Alguns mais desconfiados podem afirmar que isso não é esporte. Quero lembrar que nem sempre a movimentação corporal foi parte essencial do fenômeno esportivo […]. Além disso, enquanto prática social que deve ser historicizada, não podemos nos prender a apreensões essenciais: o esporte é aquilo que em cada momento se defina como tal, conceitos relacionados a experiências históricas específicas. […] A questão fundamental é: se mudou a forma de relação com o outro, de relação com o corpo, de representação do corpo, por que não mudaria a concepção do que significa fazer esporte?

A verdade é que, de fato, a perspectiva conceitual acerca daquilo que devemos ou não considerar como esporte, sempre gerará divisão de opiniões. Reconheço esse ponto, tal como reconheço que, para além de um olhar que pode ou não estar equivocado, as colocações da ministra Ana Moser dizem mais respeito ao foco e tratamento que idealiza para a pasta que agora lidera, do que uma opinião em que seja necessariamente contrária aos esports.

Porém, como pesquisador que se debruça sobre o objeto há mais de uma década e que entende que o fazer ciência se constrói com embasamento teórico e conceitual, reitero a importância de se trazer esse debate hoje. Assim, fica nítido que, para além das visões difundidas no senso comum, no âmbito acadêmico não podemos cair em tais armadilhas. Deve-se sempre se fortalecer os olhares e embasamentos acerca dos fenômenos sociais existentes, entendendo que o esporte (tal como qualquer outra manifestação cultural) necessita de um entendimento com base em um conjunto de características que definam o que é o objeto a partir de uma perspectiva científica e social, ignorando assim os achismos, opiniões e visões que fujam dos olhares mais amarrados e consolidados sobre o tema.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Como se pode ser desportista? In: _______. Questões de sociologia. Lisboa: Fim do século, 2003, p. 181-204.

MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos – uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.

TUBINO, Manoel; GARRIDO, Fernando; TUBINO, Fábio. Dicionário enciclopédico Tubino do esporte. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2007.


O NORDESTÃO ESTÁ DE VOLTA!

09/01/2023

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitoras(es):

No post de hoje, vamos falar um pouquinho sobre a Copa do Nordeste, que também é conhecida como Campeonato do Nordeste, Nordestão ou “Lampions League” (este nome em evidente alusão à bilionária e europeia Champions League).

Oficialmente, fora criada em 1994, mas retornaria posteriormente a ser disputada entre 1997 e 2003. Nesse período foi organizada pela CBF, que enxergava na competição uma forma de obter apoio político da região (numerosa em federações de futebol). Porém, só em 2010 teríamos uma nova competição e, a partir de 2013, a continuidade seguiu sem mais interrupções.

Abaixo, seguem imagens do jogo final da edição de 1994.

Durante várias edições, a CBF garantia vagas para os vencedores nas competições sulamericanas como a extinta Copa Conmebol e a atual Copa Sul-Americana. Hoje, a entidade nacional do futebol garante apenas vaga nas fases mais adiantadas da Copa do Brasil.

Cabe lembrar que o torneio atual, versão mais inchada da competição, tem duas fases preliminares antecipando a fase de grupos.

Outra observação importante é de que outros torneios regionais não seguiram adiante, principalmente pela falta de interesse das federações das regiões Sul e Sudeste (como exemplos, a Copa Sul-Minas, Copa Norte, Copa Centro-Oeste e o Torneio Rio-São Paulo, por sua vez, foram disputadas pela última vez em 2002). Há que se pensar que estas federações temiam (e ainda temem) que estas competições pudessem tirar público, patrocínio e interesse dos campeonatos realizados por elas, ou seja, os estaduais.

Exceção é a criação da Copa Verde, criada em 2014 e existente até os dias atuais (neste caso, participam times das regiões Norte, Centro-Oeste e do estado do Espírito Santo).

Apesar da criação do Nordestão em 1994, é importante saber que vários torneios entre equipes nordestinas foram disputados desde pelo menos os anos 1920. O Troféu Nordeste (1923), disputado em Alagoas, foi um dos pioneiros com este objetivo. Outros torneios foram realizados nas décadas seguintes, inclusive, nos anos 1970, um dos mais famosos e bem sucedidos foi o Torneio José Américo de Almeida Filho, disputado na Paraíba. O nome do torneio era homônimo ao estádio em João Pessoa, onde os jogos foram disputados. Todavia, apesar de importantes em suas respectivas épocas, estes torneios tinham muita dificuldade em agregar todos os estados da região, o que se viu também nas primeiras edições da Copa do Nordeste.

Ao longo da história das transmissões televisivas, a Copa do Nordeste não teve muito sucesso nas emissoras abertas. A Esporte Interativo comprou a ideia nos anos 2000 e fez uma campanha publicitária eficiente e lucrativa para ambos os parceiros envolvidos (a própria emissora, clubes e patrocinadores). Na edição atual, os jogos serão transmitidos pelo SBT e ESPN Brasil. Além disso, foi criado um canal de televisão específico: Nosso Futebol, que terá o apoio das operadoras Sky e Claro e serviços de streaming.

Interessante perceber que a Copa do Nordeste foi estendida à categoria sub20, criada em 2001 e assumida pela CBF a partir de 2015, visando uma representatividade diante das principais competições nacionais e, principalmente, fortalecendo a marca principal do torneio.

Imagem 1: Taça da Copa do Nordeste. Fonte: https://cearasc.com/noticia/taca-da-copa-do-nordeste-desembarcou-em-solo.

Acima podemos perceber que a materialidade da taça, em design original é único, tem também a ideia e intenção de revigorar a marca da competição. Não por acaso as “orelhas” da taça também se basearam no principal troféu do futebol europeu, o da Champions League.

Finalmente, apenas para pensarmos algumas questões que podem ser esmiuçadas por pesquisas sobre este tema: 1) Os torneios regionais movimentam quanto dinheiro em patrocínio direto e indireto para os clubes envolvidos? Para o ano de 2022, por exemplo, a projeção era de aproximadamente 31 milhões de reais de arrecadação. 2) É possível aumentar o grau de rivalidade interclubes a partir das disputas destes torneios? 3) Como é a relação dos veículos de comunicação (dentro e fora da região nordeste) com a competição? 4) E a recepção das transmissões televisivas (dentro e fora também)? 5) A Copa do Nordeste é de fato um produto “vendável” para fora do nordeste?

Enfim, questões relevantes de um futebol regional que ganha força em âmbito nacional, principalmente pensando fora do eixo Sul-Sudeste.

Um abraço e até a próxima.

Obs.: Neste 09/01/2023, não poderíamos deixar de pensar nas homenagens que Roberto Dinamite recebeu por conta de seu falecimento no dia de ontem. Não tive a menor pretensão de criar um post sobre o assunto. Porém, segue uma singela lembrança ao ídolo, não só do Vasco, mas daqueles que gostam de gols.


Novo título – “Pequeno, mas de grandes iniciativas”: o Vila Isabel Futebol Clube

09/01/2023

Estimados e estimadas

Com alegria, comunicamos o lançamento de mais um título da coleção “História do Esporte: olhares e experiências”: “PEQUENO, MAS DE GRANDES INICIATIVAS”: O VILA ISABEL FUTEBOL CLUBE (1910-1941). De autoria de Bruno Adriano Silva e Victor Melo, o intuito do livro é, ao discutir a trajetória da agremiação, dedicar atenção a sua participação no delineamento de um perfil para o bairro no qual se encontrava, perceber como suas ações se imbricavam com o entorno de sua sede.

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* “Pequeno, mas de grandes iniciativas”: o Vila Isabel Futebol Clube

Bruno Adriano Rodrigues da Silva

Victor Andrade de Melo

– Versão PDF

Vila.Isabel.EBOOK.2022.CORRETO

– Versão ePaper

https://www.yumpu.com/es/document/view/67466257/vilaisabelebook2022correto

Outros títulos da coleção disponíveis são:

* Quando a Lagoa era subúrbio: os clubes náuticos, a produção do espaço e o processo de gentrificação

Victor Andrade de Melo

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/2022/02/23/quando-a-lagoa-era-suburbio-os-clubes-nauticos-a-producao-do-espaco-e-o-processo-de-gentrificacao-novo-titulo/

– Versão ePaper

https://www.yumpu.com/pt/document/view/67466349/suburbiolagoageralmaterialebook

* Um bairro, um esporte, uma agremiação: o Tijuca Tênis Clube (1915-1931)

Bruno Adriano Rodrigues da Silva

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/2021/09/27/um-bairro-um-esporte-uma-agremiacao-o-tijuca-tenis-clube-1915-1931-novo-titulo/

– Versão ePaper

https://www.yumpu.com/pt/document/view/67466358/tijucatenisclub2021ebook

* A Barra da Tijuca, os Clubes Recreativos e o Processo de Urbanização

Victor Andrade de Melo e João M. C. Malaia dos Santos

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/2021/08/08/um-olhar-sobre-as-revistas-abrahao-barra-da-tijuca-colecao-historia-do-esporte-olhares-e-experiencias/

– Versão ePaper

https://www.yumpu.com/pt/document/view/67466365/suburbiobarraclubesgeral2021ebook

* “Braço é Braço”: o Sportsman Abrahão Saliture

Victor Andrade de Melo

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/2021/08/08/um-olhar-sobre-as-revistas-abrahao-barra-da-tijuca-colecao-historia-do-esporte-olhares-e-experiencias/

– Versão ePaper

https://www.yumpu.com/pt/document/view/67466367/abrahaosalitureebook2021

Outros títulos disponíveis:

*  A Vida Sportiva de Nichteroy

Victor Andrade de Melo

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=Nictheroy

* Rio Esportivo

Victor Andrade de Melo

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/?s=rio+esportivo

* Primórdios do Esporte no Brasil- Rio de Janeiro

Victor Andrade de Melo

Fabio de Faria Peres

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/2021/06/26/mais-um-livro-disponivel-primordios-do-esporte-no-brasil-rio-de-janeiro/

* Esporte Movimento – Tesouros do Esporte: História em Movimento

Victor Andrade de Melo

– Versão PDF

https://historiadoesporte.wordpress.com/2021/06/19/exposicao-esporte-movimento-tesouros-do-esporte-historia-em-movimento-catalogo-para-download/

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MEU PRIMEIRO TEXTO PARA UMA REVISTA DE SKATE

02/01/2023

Leonardo Brandão

@leobrandao77

Historiador e Professor Universitário

 

No início de 2004, período no qual estava terminando meu bacharelado em História na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), publiquei meu primeiro texto sobre skate numa mídia impressa de alcance nacional: a revista 100% Skate (Atualmente a grafia desta revista/mídia digital aparece como CemporcentoSK%TE).

Nesta época, estava escrevendo meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), requisito obrigatório para a obtenção do meu almejado título de historiador. Eu havia resolvido pesquisar (para espanto de alguns professores mais ortodoxos, mas também motivado pelos entusiastas da “Nova História”) a prática do skate; tema até então inédito nos estudos historiográficos no país (havia alguns trabalhos na área da Educação Física, mas nada em História).

Foi neste contexto que tive a coragem de enviar pelos Correios (pois eu não tinha computador e nem acesso fácil à Internet nesta época) um pequeno texto para essa revista da qual já era leitor desde a sua fundação no ano de 1995.

O texto foi enviado com mais dúvidas do que certezas: Será que ele chegaria a seu destinatário? Será que seria lido pelo editor? (na época, o skatista profissional Alexandre Vianna) Será que seria publicado? Algum tempo se passou e, para minha surpresa, recebi pelos Correios a edição impressa da revista em minha residência; nela, havia meu texto publicado! Foi uma festa, mas também o início de uma parceria que se mantém (com períodos de maior e menor intensidade) até os dias atuais.

Relendo esse texto após quase duas décadas de sua publicação, ainda hoje o considero interessante, pois ele nos incita a pensar sobre as possibilidades do corpo. A seguir, reproduzo-o na íntegra para que ele chegue a novos leitores (talvez alguns que nem eram nascidos na época de sua publicação original). Após isso, escrevo outro breve texto atualizando algumas informações nele contidas e finalizo sugerindo alguns links para quem quiser saber mais sobre o assunto aqui tratado.

CONVITE À QUESTÃO: O QUE PODE O CORPO?

Quando, no século XVII, o filósofo holandês Bento Espinosa (1632 – 1677) escreveu “Ética”, um dos livros mais importantes de toda a história da filosofia, ele observou: “Ninguém, na verdade, até o presente, determinou o que pode o corpo, isto é, a experiência não ensinou a ninguém, até o presente, o que, considerado apenas como corporal pelas Leis da Natureza, o corpo pode fazer e não fazer”. Séculos passaram e a questão continua inquietante. Afinal: que pode o corpo?

Transportando essa questão para o universo do skate, ela parece redobrar o seu valor. Pois foi com ele e por ele que o corpo pôde saltar gigantescas escadas, descer corrimãos, andar por transições, bordas, bancos, palcos etc. O skate descobriu novas possibilidades para o corpo e, a cada dia que passa, skatistas demonstram algo novo que ainda se pode fazer com ele: Bob Burnquist provou que o corpo pode dar um looping num tubo, Tony Hawk demonstrou que o 900º é possível numa rampa vertical, outros tantos já exploraram seus corpos de inúmeras maneiras, sempre tentando ultrapassar seus limites e provando que o corpo humano, com um skate sob os pés, pode se superar constantemente, encontrar novos desafios e lugares para andar.

A evolução permanente nas manobras de skate lança o desafio da superação infinita: criar novas manobras, executá-las em lugares inusitados, fazer diferente. O futuro no skate, ao contrário da grande maioria dos esportes, é uma caixa de surpresas a demonstrar que o novo pode ser inventado sempre.

(Texto publicado na edição impressa da revista 100% Skate, n. 74, maio de 2004, p. 96).

Atualizações: Realmente, Bob Burnquist foi o primeiro skatista a realizar um looping num tubo “natural”, isto é, não projetado para o skate. Ele realizou tal façanha no dia 23 de novembro de 2003 às 16h e 20 minutos, tal como consta no site da Transworld Skateboarding listado abaixo. Há relatos, todavia, de que o looping em rampas projetas para o skate havia sido concluído já em 1979 pelo skatista norte-americano Duane Peters. Importante registrar que no ano de 1998, Tony Hawk decidiu recuperar a ideia do looping e o realizou com perfeição, documentando o feito no filme “The End” da Birdhouse. Ainda sobre Bob, o skatista também teve os méritos de realizar o primeiro looping com gap, isto é, com uma abertura na parte superior do tubo. Acerca do giro de 900º, com o passar do tempo, mais rotações foram introduzidas. Em maio de 2020 o skatista curitibano Gui Khury foi o primeiro a realizar o 1080º (três giros completos) numa rampa vertical e entrou para o Guinness World Records (antes dele, em 2012, o skatista Tom Schaar havia conseguido os três giros, mas numa Mega rampa, o que permite maior velocidade e amplitude nas manobras).

 

Para saber mais:

1 – Site da Transworld Skateboarding que afirma o pioneirismo de Bob Burnquist no looping num tubo “natural”.

https://skateboarding.transworld.net/news/bob-burnquist-makes-skateboarding-history/

2 – Veja o próprio Bob Burnquist, em entrevista no Programa Podpah flow cast, recuperando a história dos skatistas que fizeram o looping e citando o nome de Duane Peters e Tony Hawk.

https://www.youtube.com/watch?v=1tTs9iGdThM

3 – Tony Hawk realizando o looping no ano de 1998 em imagens do filme “The End” da Birdhouse:

https://www.youtube.com/watch?v=gO07tMtmByg&t=5s

4 – Vídeo do skatista Gui Khury realizando o primeiro 1080º numa rampa vertical (half-pipe) no canal do youtube do Guinness World Records:

https://www.youtube.com/watch?v=TnwT7rBLKY0


Enquanto Lionel Messi chorou de emoção, o futebol mundial sorriu.

26/12/2022

A Copa do Mundo do Catar terminou consagrando em uma épica final um dos maiores jogadores de todos os tempos, Lionel Messi. O tricampeonato mundial  argentino conquistado após uma boa campanha marcada por fortes emoções acabou coroando o cerebral atleta que já tinha recebido todos os títulos possíveis na sua brilhante carreira futebolística.

A odisseia do herói argentino desde sua primeira participação no longínquo torneio disputado na Alemanha em 2006  passou por diversas provações e dúvidas até a celebrada conquista do último dia 18 de dezembro. Gols, decepções, a frustração de ser derrotado em uma final no Maracanã, a idade chegando, muto suor, sangue e finalmente lágrimas de um campeão mundial. O choro e a intensa comoção de um atleta que sempre se caracterizou pela frieza representaram simbolicamente a conclusão da trajetória de um herói esportivo que para muitos críticos tinha apenas uma face mas que revelou durante esse torneio ter talvez mais que as mil apontadas na clássica obra de Joseph Campbell.

Sobre a questão da idolatria esportiva rapidamente veículos da imprensa e as novas mídias passaram a propagar o eternamente estúpido debate comparativo entre grandes craques do futebol Messi x Maradona x Pelé x Mbappé, provavelmente seu sucessor nos próximos anos como a maior estrela internacional do futebol. Os memorialistas e estatísticos que amam se debruçar nessas comparações não percebem o quanto elas são anacrônicas, insolúveis e robotizadas. Muitas vezes o ser humano é esquecido com todas as suas complexidades e idiossincrasias e quando os grandes craques não conquistam um torneio mundial os “especialistas” tendem a diminuir a importância de suas incríveis carreiras como foi por exemplo com Zico, Sócrates, Platini, Cruyf, Di Stéfano e tantos outros.

Felizmente para Messi, a Argentina e o futebol aquela defesa incrível do goleiro Emiliano Martinez no último minuto da prorrogação estabeleceu na minha opinião algo justo no mundo futebolístico que frequentemente é marcado por profundas injustiças. Tudo bem que segundo o filósofo alemão Immanuel  Kant a ideia de justiça não passa necessariamente pela razão, mas sim pela emoção, pelos sentidos. Sentimos o que é junto ou injusto assim como sentimos o que é bonito ou feio, certo ou errado.

 Mesmo os que torceram contra a Argentina, e aqui no Brasil foram muitos em função principalmente do acirramento recente das rivalidades futebolísticas entre brasileiros e argentinos, e também de alguns argumentos generalistas e profundamente marcados por estereótipos culturais e políticos extremamente equivocados tendem a concordar que o atleta Lionel Messi merecia ser campeão mundial.

Acredito que futuramente o enquadramento de Memória sobre essa Copa para os argentinos, mas também para grande parte dos apaixonados por essa tradição inventada chamada de Copa do Mundo de futebol, independentemente das boas atuações dos atacantes Di Maria e Juan Alvarez, das defesas de Martinez, da marcação incansável do De Paul e da ótima participação do novato técnico Scalone, também Lionel, estará centrada na figura eterna de Messi.

Enquanto a primeira conquista argentina, apesar da boa equipe que jogava coletivamente com destaques como Mario Kempes, Ardiles, Passarela, Tarantini, Filol, ficou maculada pela conjuntura histórica da ditadura do “Processo” e as polêmicas durante a realização do evento no país, o título de 1986 e agora a redenção do futebol argentino e também sul-americano que não vencia uma Copa desde 2002 com o Brasil, ficarão marcados na memória coletiva argentina pelas trajetórias marcantes desses geniais jogadores de futebol.

E nesse caso, na minha opinião ambos já estavam e permanecerão eternamente no panteão dos deuses do futebol, sendo  igualmente geniais, memoráveis e pelo bem da bola também campeões do mundo de seleções.

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Los aportes ingleses al desarrollo deportivo montevideano en el siglo XIX

19/12/2022

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

 

Inglaterra: “cuna” del Deporte Moderno

Como señala R. Velázquez Buendía (2001), lo que hoy se conoce como deporte surgió mediante un proceso de transformación de juegos y pasatiempos tradicionales iniciado por las elites sociales y en el que tuvieron un papel clave las “publics schools” y los “clubs” ingleses. Por lo tanto, el deporte moderno como institución y fenómeno de las actuales sociedades es producto de una ruptura histórica, nació en Inglaterra, cuna de la Revolución Industrial y espacio clásico del modo de producción capitalista, a fines del siglo XVIII y en los albores del XIX, y adquiere una enorme complejidad social y cultural a partir de la segunda mitad del siglo XIX. La revolución industrial estableció la diferencia entre tiempo de trabajo y tiempo de ocio, en cual el deporte pasó a ocupar un lugar significativo.

A su vez, el deporte como institución social propia de las sociedades industriales, tiene una compleja organización, cargado de instituciones, parámetros organizativos, multiplicidad de roles nítidos y sin significación religiosa. En consecuencia, el deporte moderno posee características diferenciales que se originan en las circunstancias sociales y ambientales creadas por el desarrollo de la civilización industrial durante el siglo XIX. Posteriormente, fábricas y deportes se exportaron a prácticamente todo el resto del mundo, creando una nueva etapa de la que el deporte es parte substancial de este fenómeno. 

El deporte moderno es propio de Inglaterra y se caracteriza por: una actividad física e intelectual humana; de naturaleza lúdico/competitiva; institucionalizada que permite el reconocimiento, el control, el desarrollo y la implantación de reglamentos; regidas por reglas que definen las características de la actividad y de su desarrollo; con parámetros organizativos; multiplicidad de roles nítidos y sin significación religiosa. 

Una de las instituciones fundamentales del deporte moderno es el club. El club, entendido como asociación de individuos que se agrupan por tener los mismos intereses nace en Inglaterra antes del siglo XIX. Los primeros clubes deportivos que surgieron fueron fundados con carácter restrictivo por los aristócratas ingleses: el Royal and Ancient Golf Club en 1754 y el Marylebone Cricket Club en 1787. 

La consolidación del deporte moderno es un fenómeno paralelo a la consolidación del imperialismo del siglo XIX. El imperio británico exportó sus prácticas deportivas a los cinco continentes, junto con sus mercancías. De esta manera, se difundió la cultura británica y el fenómeno deportivo, teniendo en algunos territorios mayor receptividad que en otros.

 

Movimiento clubista en Montevideo y desarrollo de los Sports

La presencia inglesa en el Río de la Plata se remonta a la época colonial y se intensificó a partir del momento en el cual se profundizaron los cambios del proceso de la Revolución Industrial en aquel país a mediados del siglo XVIII.

Uno de los episodios en los cuales se evidencia la presencia inglesa en el Rio de la Plata, ocurrió entre 1825 y 1830. Allí se generaron acontecimientos que dieron como resultado la formación del Estado Oriental independiente. Los sucesos transcurren desde la formación de un Gobierno Provisorio en Florida y que tendrá como episodio relevante la Convención Preliminar de Paz, celebrada en 1828 entre delegados del Imperio del Brasil, de las Provincias Unidas y de Inglaterra, bajo la mediación del Lord John Ponsonby. Los resultados de esta Convención fueron ratificados el 4 de octubre de 1828. Uno de los puntos de la Convención Preliminar de Paz, estableció que se debía instalar un Gobierno Provisorio y una Asamblea Legislativa Constituyente que tendría como tarea elaborar la primera Constitución del Uruguay, jurada el 18 de julio de 1830. Así, se inició el Estado Oriental del Uruguay como libre e independiente.

La situación del naciente Estado Oriental era crítica, luego de varios años de revolución y lucha por la independencia (1810-1830). Presentaba un atraso económico caracterizado por la monoproducción ganadera con un sistema de explotación arcaica. A esto, le sucedió la Guerra Grande (1839-1852), que involucró las tendencias políticas del Uruguay y la Confederación Argentina (blancos y colorados: federales y unitarios), el Imperio del Brasil y las potencias industriales en expansión como Inglaterra y Francia. Luego de la Guerra Grande, es que se roturaron tierras. En cuanto al sistema de propiedad, en el medio rural predominó, hasta el día de hoy, el latifundio. En consecuencia, surge un antagonismo entre el campo y la ciudad como núcleos opuestos.

En el Uruguay, la práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. El deporte llegó a Montevideo en el siglo XIX, cuando los ingleses lo introdujeron en el Río de la Plata y en otras partes del mundo, de la mano del ferrocarril, intercambios con la marinería y de la acción de los colegios ingleses. Como señala J. C. Luzuriaga (2009), su difusión en la sociedad uruguaya siguió la misma lógica que en Gran Bretaña y en otros países, pasando de las elites al resto de la población en forma de cascada.

Entre 1830 y 1855 se encuentran las bases del desarrollo deportivo en el Uruguay. Lo más importante en este período, fue la fundación del primer club: el Victoria Cricket Club, fundando por los ingleses, que llevaban el espíritu del deporte, en octubre de 1842. La institución tuvo entre sus concurrentes asociados a la zona de su creación, Pueblo Victoria (próximo al Paso Molino), próximo al saladero del inglés Samuel Lafone, quien fue uno de los impulsores del club. El nombre fue en honor a la reina de Inglaterra, aunque algunas versiones plantean que se debe a la localidad donde realizaban la actividad. 

Los concurrentes realizaban todos los jueves los “Días de Sport” a través de prácticas y partidos de Cricket, deporte más popular en Inglaterra en esa época. Allí estuvo el primer campo de deportes del Uruguay, por esto es que se considera que fueron los ingleses quienes introdujeron el deporte en el Uruguay. Mientras tanto, en Argentina, comienza un proceso similar al Uruguay, caracterizado por la fundación inglesa de clubes a lo largo del siglo XIX.

El club tuvo una breve historia, ya que desapareció como consecuencia del sitio a Montevideo establecido por las fuerzas del Partido Blanco (con apoyo argentino) encabezadas por el Brigadier Oribe y que se prolongó durante toda la Guerra Grande, hasta 1851. Esto implicó, que los ingleses no pudieran salir más de los muros de la ciudad. 

 

El cricket

Si bien existió en nuestro país la experiencia del Victoria Cricket Club, entidad creada en 1842, hubo que esperar hasta la década del sesenta del siglo XIX para ver el surgimiento de los primeros clubes deportivos estables.

Diez años después de la paz del 8 de octubre de 1851 y de la mano de los residentes ingleses, influyentes hombres de negocios, comercio, actividades agropecuarias y de empresas como ferrocarriles, tranvías, aguas corrientes; se consolidará el deporte moderno e institucionalizado en Montevideo.

La fecha que da nacimiento al deporte continuado en el Uruguay, fue el 18 de julio de 1861, cuando en coincidencia con la fecha patria del 31 aniversario de la Jura de la primera Constitución del Uruguay, se fundó el Montevideo Cricket Club en una reunión celebrada en la Confitería Oriental (donde hoy está ubicado el Edificio Central del Banco República), sitio de reuniones de la alta sociedad y de hombres de empresa y negocios. Sus fundadores y primeros integrantes fueron ingleses, que provenían de diferentes áreas, entre ellos se destacan los pioneros del Victoria Cricket Club: J. Pickering, H. Hughes, R. Mac Lean. Junto a ellos participaron hombres vinculados al Banco de Londres y del Río de la Plata y Comercial (O`Neill y Lawry, Ruding y Fuller); a la francomasonería (Lumb, Towers, Fortes, Crane); al Templo Inglés (Hocquart y Adam); quien fuera el primer presidente del “English Club” en 1868 (Krabble); quienes fundarían posteriormente el Montevideo Rowing Club (Gigson, Miles, Stirling, Onslow); comerciantes británicos (Gowland y Oldman), quien construyera el Teatro Solís (Thomas Harver); entre otras personalidades británicas.  

El club tuvo entre sus socios representantes de todos los sectores de la colectividad británica. En 1863 se instala en Montevideo la sucursal del Banco de Londres, y sus funcionarios se asociaron al Montevideo Cricket Club. Como señala J. C. Luzuriaga (2009), dentro de sus miembros asociados, habían tres categorías: a- los de nacionalidad británica y sus hijos, agrupados por sus ocupaciones; b- los oficiales de las naves británicas de estación en el puerto de Montevideo; y c- los alumnos de los centros educativos británicos.

El objetivo deportivo inicial del club se encontraba en la práctica del cricket, basado en los reglamentos de 1774 y las posteriores modificaciones establecidas por el Marylebone Cricket Club de 1787 (fundando en Londres, uno de los clubes de cricket más antiguos y prestigiosos del mundo). El cricket como deporte, tiene sus antecedentes en juegos del siglo XVI, ya en el siglo XVIII gozaba de gran popularidad en las villas y ciudades inglesas.

En 1862 se registra la primera importación desde Inglaterra de material deportivo que conoce el Uruguay: bates y pelotas para la práctica del Cricket, directamente realizada por el Montevideo Cricket Club, estableciendo contactos con el Buenos Aires C. C. De acuerdo a J. Buzzetti y E. Gutierrez Cortinas (1965), citan una nota del diario “El Siglo” del año 1863, que señalaba: “los ingleses se divierten jugando al cricket en una quinta cercana a la Unión y los alemanes haciendo rodar el bolo, en el establecimiento titulado Au Cabanon Chez Pascal”. Para algunos autores, esta sería la primera crónica deportiva criolla.

 

El remo

El proceso económico uruguayo del último cuarto del siglo XIX implicó la fuerte presencia británica en la región. En este sentido, como indican J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas (1965) “en ese clima general, también se extendió el deporte. Y por primera vez se empieza a agitar el ambiente tras la fundación de un club deportivo de regatas, que tomó concreción dentro de la colectividad inglesa” (p. 40).

El 8 de mayo de 1874 surgió una nueva institución deportiva de residentes británicos, un club de remeros: el Montevideo Rowing Club. El contacto portuario y naviero inspiró a un grupo de residentes ingleses a la organización del club. Muchos de sus fundadores estaban ligados directamente a las tareas del puerto: eran dueños de barracas de importación (como Wilson o Elliot); o de muelles particulares (como los de Victoria y Colón); o los industriales relacionados con la reparación de barcos y varaderos (como Federico Humphereys); o simplemente residentes ingleses que ya habían practicado remo en el Támesis (como Fraser o Ludeke). Todos ellos dieron el impulso para fundar un club de remo, ya que los criollos se mostraban indiferentes a deportes como este, aún siendo un país con extensas costas marítimas y fluviales.

La fuerte presencia inglesa en el Río de la Plata supuso la implantación de los deportes modernos. Antes de la fundación del Montevideo Rowing Club, en Argentina el remo comenzó hacia 1857-1858 en la Recoleta. En 1873 apareció el Buenos Aires Rowing Club y tuvo su réplica en Montevideo.

El Montevideo Rowing Club fue fundado en el Hotel Central de Montevideo y según sus actas se reunió la Asamblea Preliminar constitutiva el 8 de mayo de 1874. Sus fundadores fueron 48 y se nombró como presidente de esa asamblea a Samuel Alejandro Lafone Quevedo, quien era hijo del inglés Samuel Fischer Lafone, importante dueño de saladeros de Montevideo. Samuel A. Lafone, al igual que su padre era una figura importante en las esferas económicas y sociales en el Río de la Plata, ligado estrechamente al capital británico. A su vez, Samuel A. Lafone tenía trayectoria en la práctica del remo, en 1870 tripuló el “Lala” que ganó la primera regata trascendente del remo argentino entre el Tigre y el muelle de Buenos Aires. 

 

El turf

La influencia británica se aprecia en el turf, por ejemplo, en las primeras carreras de caballos en Montevideo. En enero de 1855 se iniciaron las carreras extranjeras llamadas también inglesas en las inmediaciones del saladero de Legrís.

Arnaldo Gomensoro (2015) señala que las carreras “a la inglesa” tenían como escenario los hipódromos. El primero de ellos se construyó en Punta Carretas en 1861, donde hoy se ubica el centro comercial (shopping) de esa zona.

En la década del 70 del siglo XIX, más allá de la Plaza de Toros de la Unión funcionaba otro hipódromo inaugurado en 1867 para “Carreras Nacionales”, ubicado en las proximidades de Maroñas a impulso de la “Sociedad Hípica” presidida por el Gral. Francisco Caraballo. Como indica Aníbal Barrios Pintos (1971), hay registros de que en enero de 1872 corrían caballos de José Pedro Ramírez y del Gral. Caraballo y la prensa daba la cifra de $40.000 apostada a los caballos favoritos. 

En 1875 Tomas Tomkinson y un grupo de ingleses estableció un hipódromo en Maroñas con la denominación de “Carreras de los ingleses”, que rápidamente dio animación a la zona. Este hipódromo fue construido en 1874 por la comunidad inglesa. El nombre que recibió el escenario fue “Nuevo Circo Pueblo Ituzaingó”, pero era conocido como el “Circo de Maroñas” en referencia al antiguo propietario de las tierras donde se instaló y donde está emplazado actualmente. Esos terrenos pertenecieron a Juan Maroñas, un importante pulpero de la zona.

El nombre originario del Hipódromo está vinculado al lugar donde nació. Del 19 de octubre de 1874 datan los planos del Pueblo Ituzaingó realizados por Demetrio Isola. En el siglo XX se transformó en uno de los barrios de Montevideo. Originariamente las calles llevaban nombres tales como Victoria, 18 de Julio, Cerrito, Sociedad Hípica. El barrio se trazó en torno a una capilla que había mandado erigir el ciudadano José Pedro Ramírez alrededor de un cuarto de siglo antes, por 1850. Dicha capilla es hoy la iglesia parroquial de Santa Rita y además santuario nacional de dicha santa católica.

El 15 de noviembre de 1888 se fundó el “Jockey Club” de Montevideo. Este hecho fue fundamental en la historia del Hipódromo de Maroñas, debido a que poco tiempo después el escenario fue adquirido por el Jockey Club de Montevideo, organizando las primeras Carreras Nacionales. El hipódromo fue inaugurado oficialmente el domingo 3 de febrero de 1889 la institución inició sus actividades organizando su primera reunión hípica. La primera carrera contó con una numerosa concurrencia, con la asistencia del entonces presidente de la República, general Máximo Tajes, quien fue uno de los representantes de los poderes públicos, dirigentes y socios del “Jockey Club” y miembros de la sociedad montevideana. El club tuvo como primer Presidente a Pedro Piñeyrúa y como vicepresidente a José Pedro Ramírez; Horacio Areco su tesorero y Carlos Sánez de Zumarán como secretario. 

 

El fútbol

En Inglaterra la práctica del fútbol se inició en los colegios secundarios. La misma lógica se repitió en los colegios ingleses de todo el mundo y obviamente también en Uruguay.

En 1874 se creó en Montevideo The English High School y realizó el mismo tipo de enseñanza que la que desarrollaba en Buenos Aires su homónimo, bajo la dirección de Alexander Watson Hutton. Era basada en formación intelectual y cultura física, promoviendo la práctica de todos los deportes. Watson Hutton fue pionero en el desarrollo deportivo de la Argentina, en particular del fútbol, creando la “Argentina Foo-Ball Association League” en 1891 y definitivamente en 1893.

El English High School de Montevideo estuvo inicialmente a cargo de Henry Castle Ayre; y fundó en su colegio un espacio para el deporte: el Montevideo English High School Junior Cricket and Athletic Club. En 1885 llegó a Montevideo William Leslie Poole, quien era bachiller de Cambridge. Se desempeñó como profesor de inglés hasta 1920. Era un sportsman por excelencia, ya que incursionó en fútbol, remo, criquet y rugby y llevaba a sus alumnos a practicar esos deportes a Punta Carretas.

En 1885 se fundó The British School, que era dirigido por Thomas J. Ashe y también impulsó el deporte de acuerdo a los métodos pedagógicos de su país. Sus alumnos tuvieron activa participación en justas atléticas y en los primeros partidos de fútbol, ante el Albion y el CURCC. Ashe también fue figura de relieve actuando en el Montevideo Cricket Club y en el  Montevideo Rowing. 

La última década del siglo XIX inauguró una etapa de cambio en el deporte nacional: a-surgieron numerosos clubes; b- se registró el desarrollo intensivo del fútbol; c- iniciación del proceso de integración masiva del criollo en el deporte.

Desde el punto de vista deportivo, el período se caracterizó por la eclosión futbolística. “Esa eclosión del fútbol, terminará con el primer apogeo de cada uno de los deportes, condenándolos a pequeños círculos o a escasa aceptación popular” (J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas, 1965, p. 63).

Durante esos diez años de eclosión deportiva, se fundaron numerosos clubes: Albion, Central Uruguay Railway Cricket Club (luego llamado Peñarol), Nacional de Regatas, Nacional de Velocipedismo, Nacional de Fútbol y otros. Los repetidos apelativos de “Nacional” revelaban la intención de dejar establecido el criollismo de las agrupaciones.

Una figura clave del primer club específicamente de fútbol en Uruguay y que además tuvo un origen netamente uruguayo fue Henry Candid Lichtenberger Levins. Lichtenberger nació en 1873, era alumno del English School y discípulo de Poole. Tenía 18 años cuando en mayo de 1891 invitó a compañeros del Colegio a fundar un club de fútbol, denominado Football Association. La respuesta fue positiva y el 1° de junio de 1891 el club comenzó a funcionar con 23 miembros. La primera Comisión Directiva estuvo presidida por William Mac Lean, con H. A. Woodcock (secretario), H. C. Lichtenberger (tesorero), Andrews Clark (delegado); J. D. Woosey (capitán) y G. P. Swinden (vicecapitán).

El equipo adoptó una casaca blanca con una estrella roja en el pecho como primer distintivo cuando jugasen contra cualquier club o colegio. El primer estatuto daba cuenta que se trataba de un club uruguayo, donde se rechazaba la presencia de jugadores extranjeros, cualquiera fuese su origen. De acuerdo a J. Buzzetti y E. Guiterrez Cortinas, “no se trataba de negar su ascendencia inglesa, era simplemente el orgullo de sentirse orientales que los impulsaba a expresarse como tales deportivamente” (1965, p. 71).

 

 

Referencias:

  • BARRIOS PINTOS, Aníbal (1971). Los barrios (II). Montevideo: Nuestra Tierra.
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • LABORIDO, Gastón (2018). Origen de las actividades físicas, recreativas y deportivas en Montevideo. En: NEXO Sport (n° 429), dic. 2018, Montevideo (pp. 20-23). 
  • LABORIDO, Gastón (2019). Origen del fútbol en Montevideo y la construcción de su espacio en la prensa. En: Recorde; 12 (n° 1), jan./jul. 2019, Rio de Janeiro (pp. 1-18).
  • LUZURIAGA, Juan Carlos (2009). El football del novecientos. Orígenes y desarrollo del fútbol en el Uruguay (1875-1915). Montevideo: Santillana.
  • REISCH, Matilde (2012). Movimiento clubista y desarrollo deportivo en el Uruguay. En: Cuadernos de Historia 8, Montevideo: Biblioteca Nacional (pp. 19-33).
  • VELÁZQUEZ BUENDÍA, Roberto (2001). El deporte moderno. Consideraciones acerca de su génesis y de la evolución de su significado y funciones sociales. En: Lecturas: Educación Física y Deportes, Revista Digital, Buenos Aires, año 7, nº 36, mayo. Disponible en: http://www.efdeportes.com/efd36/deporte.htm

Revista Recorde: notícias, breve balanço e novo número no ar

15/12/2022

Por Rafael Fortes

Está no ar o número de dezembro de 2022 de Recorde: Revista de História do Esporte, cujo sumário está ao final deste texto. São nove artigos e uma resenha (em dois idiomas). O total de artigos nas duas edições deste ano, 24, provavelmente é o recorde (perdão, não resisti) nestes 15 anos de revista, ao longo dos quais colocamos no ar 30 números, sempre em junho e dezembro, sem atraso. Como se costuma dizer por aí, quinze anos não são quinze dias, nem quinze meses.

A imagem da capa é essa aí embaixo. Está na Brasiliana Fotográfica Digital, da Biblioteca Nacional, e foi sugerida por Victor Melo.

Título: “Em recreio. Um grupo de aprendizes após 10 minutos de ginástica sueca.” NP 145
– Foto de album comemorativo do 5º mês de funcionamento da Escola.
– Local: Maceió (AL)
– Ano: 1910
Fonte: Brasiliana Fotográfica Digital
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/7907

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Aproveito a oportunidade para discorrer um pouco mais sobre a Recorde e alguns desdobramentos recentes.

Após severos problemas nos dois últimos anos, em 2022 conseguimos retomar o padrão de trato com os autores e de prazos nos fluxos de avaliação e publicação. Reformulamos a Equipe Editorial, com a mudança de função de alguns membros e a entrada de outros. Fica aqui meu agradecimento a todos pelo trabalho desempenhado ao longo deste ano, em especial a dois contingentes de colegas queridos:

  • Aos membros do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer, no qual Recorde foi planejada, iniciada e continua sendo feita. Um grande salve àqueles que atuaram como editores responsáveis por anos específicos passados de publicação da revista;
  • Aos que entraram na equipe este ano – Igor Maciel da Silva, Leonardo do Couto Gomes, Letícia Cristina Lima Moraes e Vitor Lucas de Faria Pessoa -, bem como àqueles que colaboraram em diferentes funções. (Todas elas, é sempre importante registrar, não remuneradas, como é costume no nosso sistema científico, há décadas subfinanciado e baseado grandemente em trabalho amador e voluntário, como se estes adjetivos não fossem uma antítese da própria ideia de trabalho.)

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Quanto à circulação e reconhecimento internacional, trago indícios animadores. Um deles é a continuidade da procura por parte de cientistas que escrevem trabalhos em idiomas distintos do português. Em 2022 veiculamos quatro artigos em espanhol (três de pesquisadores sediados na Argentina e um nos Estados Unidos), e uma resenha em inglês (de pesquisador atuante no Canadá).

Temos contado também com o apoio inestimável de periódicos, instituições e colegas do exterior. Entre as publicações científicas, durante anos o Journal of Sport History, por meio de diferentes editores, autorizou que traduzíssemos para a língua portuguesa e publicássemos artigos, medida essencial para o estabelecimento e consolidação de nossa revista. Vale mencionar também Materiales para la Historia del Deporte, periódico sediado na Espanha e que, em certa medida, nos inspirou.

Entre as instituições, obtivemos apoio em dois editais de apoio a periódicos da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). A North American Society for Sport History (NASSH), entidade científica responsável pelo Journal of Sport History, foi fundamental na viabilização do acordo para as traduções mencionado acima.

Quanto aos colegas estrangeiros, tivemos o privilégio de estabelecer diferentes parcerias e colaborações, algumas pontuais, outras duradouras.

Douglas Booth nos apoiou de diferentes formas ao longo dos anos, inclusive cedendo artigos para tradução e viabilizando contatos e parcerias internacionais. O número publicado esta semana traz uma resenha inédita dele a respeito do livro póstumo From Sea-Bathing to Beach-Going: A Social History of the Beach in Rio de Janeiro, Brazil (capa acima), de Bert Barickman, editado por Hendrik Kraay e Bryan McCann. Bert foi um interlocutor de muitos anos e uma das primeiras pessoas a me incentivar a pesquisar as relações entre surfe, juventude e cultura, tema de minha pesquisa de doutorado e de investigações posteriores. Nossa primeira conversa se deu num bar do Arco do Teles. Foi ele quem escolheu o local, próximo à estação das Barcas – o primeiro exemplo da imensa gentileza que o caracterizava, pois eu morava em Niterói. Ao longo dos anos, nos encontrávamos a cada vinda dele ao Rio para sua pesquisa sobre as praias (discorri melhor sobre isso neste texto). Seu trabalho não foi finalizado a tempo por ele, que nos deixou de forma precoce em novembro de 2016. Graças ao trabalho dos editores citados e de outras pessoas, em 2022 finalmente o material rascunhado por Barickman veio à luz. A resenha de Booth – disponível em inglês e em português – faz jus à grandeza da obra, que já tive a oportunidade de ler.

Em vida, Bert infelizmente publicou apenas dois artigos com resultados parciais da pesquisa de mais de uma década. Ao mesmo tempo em que lamentei e lamente imensamente seu falecimento, me vem sempre ao rosto um leve sorriso quando lembro que seu último artigo publicado em vida saiu em junho de 2016 na Recorde: Medindo maiôs e correndo atrás de homens sem camisa: a polícia e as praias cariocas, 1920-1950. Eu e Victor Melo levamos um tempo para convencê-lo, fosse pelo perfeccionismo que lhe marcava, fosse por sua sempre cheíssima agenda de trabalho, na qual muitas vezes doava generosamente tempo para ajudar os outros, sobretudo orientandos e ex-orientandos. O artigo foi traduzido para o inglês e constitui o último e mais extenso capítulo do livro. O original em português que publicamos tem 66 páginas. Porque, né, de que adianta editar voluntariamente uma revista científica se ficarmos limitados a copiar a tacanhez das normas e práticas da maioria dos demais periódicos e das agências de fomento? Neste caso particular, quanto teríamos perdido de uma pesquisa fora-de-série se tivéssemos nos apegado ao máximo de 15 ou 20 páginas exigido por tantas publicações por aí?

O estímulo e interesse de Douglas Booth e de Murray Phillips (atual presidente da NASSH) por Recorde ao longo dos anos tem sido muito importante. O livro Routledge Handbook of Sport History (capa abaixo), organizado por ambos e Carly Adams e lançado em 2021, há um capítulo sobre Recorde na parte 5, dedicada aos periódicos científicos de história do esporte. Sobre a trajetória da revista, foi publicado também, em 2021, o artigo Recorde: Revista de História do Esporte – Um cenário dos seus 13 anos de publicações.

Diversos colegas da América Latina e Península Ibérica também têm colaborado conosco, aos quais agradecemos ao mencionarmos o nome de Pablo Scharagrodsky.

Alguns destes colegas nos concederam entrevistas que vêm sendo publicadas desde que criei esta seção em 2016. Creio que ela contribui para oferecer aos interessados um tipo de diferente de leitura, assim como a possibilitar uma apresentação dos autores, de seus trabalhos e trajetórias de maneira um pouco menos formal e mais livre, bem como saber um pouco de suas trajetórias de vida e de sua ligação com o esporte. Até o momento publicamos entrevistas com os pesquisadores Carles Santacana (realizada por Euclides de Freitas Couto), Douglas Booth, Glen Thompson, João Malaia e Robert Edelman, bem como com a jornalista e narradora Isabelly Morais (realizada por Silvana Vilodre Goellner).

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Aos interessados em publicar, informo que Recorde recebe artigos, resenhas e entrevistas em regime de fluxo contínuo. As contribuições devem ser enviadas diretamente para o email revistarecorde@gmail.com .

Abaixo, como informado no início, segue o sumário da edição atual. Que venham mais 30 números e 15 anos/volumes.

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v. 15, n. 2 (2022)

Sumário

Artigos

Luciano Arancibia Agüero
César Teixeira Castilho, Elcio Loureiro Cornelsen, Gustavo Cerqueira Guimarães
Sarah Teixeira Soutto Mayor, Georgino Jorge de Souza Neto, Silvio Ricardo da Silva
Felipe Tavares Paes Lopes, Camila Caldeira Nunes Dias, Claudio Luís de Camargo Penteado
Lizandra de Souza Lima, Coriolano P. da Rocha Junior
Everton de Albuquerque Cavalcanti, Vinícius Machado de Oliveira, Juliano de Souza, André Mendes Capraro
Marina de Mattos Dantas
Helcio Hebert Neto
Thayla Rebouças de Oliveira, Eduardo Vinícius Mota e Silva

Resenhas

Douglas Booth
Douglas Booth

Marte um (Gabriel Martins, 2022)

06/12/2022


Eunice – Deivinho quer participar de uma missão que se chama Marte Um – colonizar o planeta.
Wellington (pai) – E como faz pra participar disso aí? Custa caro?
Deivinho – Milhões de dólares, pai…
Wellington – Uai, a gente dá um jeito.

Marte um desenvolve os percalços de uma família mineira negra, de classe média baixa. Esse protagonismo fílmico ainda pouco comum não é casual. A obra foi possível a partir do primeiro edital para negros do audiovisual no Brasil (Longa BO Afirmativo 2016), o qual viabilizou ainda Um dia com Jerusa, de Viviane Ferreira e Cabeça de Nêgo, de Déo Cardoso (MATHIAS, Roberta. O espaço é aqui. Disponível em: https://apostiladecinema.com.br/marte-um/. Consultado em 05/12/2022).

O enredo se desdobra pelos conflitos e dificuldades muito cotidianas da família Martins. O prenúncio que as coisas podem piorar parece ser anunciado, logo no início da película, pelo áudio em off da eleição de Jair Bolsonaro. Pois bem, o núcleo familiar é composto pelo porteiro Wellington (Carlos Francisco), sua esposa, a diarista Tercia (Rejane Faria) e seus dois filhos: o pequeno Deivinho (Cícero Lucas) e sua irmã, Eunice (Camila Damião). Wellington é dependente de álcool, mas ostenta uma medalha de quatro anos de abstinência. Tercia trabalha em casas de família, mas a oferta é incerta. Eunice está estudando direito e Deivinho é a grande aposta do seu pai: joga um bolão e parece ter futuro como futebolista. É aqui que entra o gancho para este post. Como já vimos muitas vezes (neste blog e pela literatura especializada), há múltiplas formas do esporte (no caso, o futebol) compor a trama narrativa de uma película. Neste caso, não se trata de um papel central, mas é importante o suficiente para estabelecer os termos de um sério dilema para Deivinho e Wellington e constituir-se em parte estruturante dos vários subtemas da trama. Por isso, talvez, tenha sido exibido no último cinefoot, inclusive na data significativa de 20 de novembro (https://cinefoot.org/filme/marte-um/).

Sumariando bastante, somos paulatina e seguidamente conduzidos a um conjunto de situações conflitivas. Wellington trabalha há anos em um prédio de classe alta. É considerado em seu local de trabalho, mas não ganha o suficiente e tem que lidar com favores não remunerados para a síndica do edifício (situação que vai acabar se tornando trágica). Eunice quer independência. Começa a namorar uma menina (de melhor condição) e conseguem viabilizar as condições para morarem juntas. Inicialmente, Eunice só se sente à vontade de falar sobre seu namoro com o irmão. Tem receio da oposição dos pais. Deivinho também tem seus problemas. É craque, joga com os mais velhos e é disputado pelos times amadores locais. No decorrer da história vai acabar ganhando a chance de entrar em uma “peneira”, com indicação de ninguém mais que Juan Pablo Sorin, ídolo do Cruzeiro, time do coração de seu pai. Sorin (o jogador, que interpreta a si mesmo) se muda para o prédio do zelador e as coisas são arranjadas. Mas, tem um problema. Apesar de gostar da bola, Deivinho quer mesmo é ir pra Marte… Aqui entra uma alusão a uma possível colonização do planeta vermelho até o ano 2030, pela NASA, em uma missão conhecida como Humans to Mars, ou Marte um. Deivinho é inteligente, estudioso e fã de Neil de Grasse Tyson, o astrofísico pop-star americano (HONORATO, Roberto. Um pouco de otimismo em tempos sombrios. Disponível em: https://www.planocritico.com/critica-marte-um/. Consultado em 05/12/2022).

Dona Tercia, por sua vez, vai passar por uma experiência ruim e, aparentemente, entrar ou pensar entrar em um período “carregado”. Vai a médicos e também procura ajuda espiritual.

A dinâmica dos acontecimentos vai ser contundente. A mudança de Eunice e sua relação com uma moça vão gerar resistências; a peneira de Deivinho vai bater com uma palestra de Neil de Grasse Tyson, para a qual o garoto, com a ajuda da irmã, fez de um tudo para conseguir ir e Wellington vai perder o emprego e, claro, ter uma recaída no vício. Mas, chega de spoiler.

Eu destacaria uma ou duas coisas. O conjunto das interpretações é convincente. É intimista e gera uma espiral (descendente, aparentemente) que incomoda (e, nesse sentido impacta). Há também o emprego de um conjunto de recursos narrativos e imagéticos que antecipam ou sugerem o rumo dos desdobramentos, além de claras intenções metafóricas. Colonizar Marte é o tamanho das possibilidades que essa família, com todas as dificuldades, não se permite estabelecer como um interdito. Deivinho poderia vir a brilhar como astro de futebol (um caminho raro, posto que difícil, mas já enfronhado na expectativa de possibilidades de um menino negro, habilidoso), mas ele também pode brilhar nas estrelas. Nem o céu é mais o limite. Daí o traço de otimismo e, diria eu, de militante e potente auto-estima, já assinalado por comentaristas (HONORATO, Roberto. Um pouco de otimismo em tempos sombrios. Disponível em: https://www.planocritico.com/critica-marte-um/. Consultado em 05/12/2022). Deivinho é bom de bola, mas também é bom de ciências. Monta um telescópio, com materiais do ferro velho e com uma lente, herança de seu avô (o qual também era engenhoso). Os Deivinhos podem fazer o que quiserem fazer, é o que nos é dito, filmicamente. E isso vale para os demais membros da família Martins, apesar dos duros empecilhos cotidianos e sociais.

E se os Deivinhos podem ir para marte, por que esse filme não pode ganhar o Oscar? Marte Um é o representante do Brasil na corrida para o Oscar de melhor filme internacional. Nesses tempos de Copa, fica mais essa torcida.

Até a próxima!

Ficha Técnica:

Marte Um – Brasil, 25 de agosto de 2022
Direção: Gabriel Martins
Roteiro: Gabriel Martins
Elenco: Rejane Faria, Carlos Francisco, Camilla Damião, Cícero Lucas, Ana Hilário, Russo APR, Dircinha Macedo, Tokinho e Juan Pablo Sorin.

Disponível em: https://www.planocritico.com/critica-marte-um/. Consultado em 05/12/2022.