Uma revista de esportes radicais

Na primeira metade dos anos 1980, surgiu em São Paulo uma revista dedicada aos esportes radicais: Fluir – Terra, Mar e Ar. Não foi a primeira voltada ao público jovem e a modalidades como o surfe. Nos anos 1970 houve iniciativas como Surf Sul (Florianópolis), Quebramar (Santos) e Brasil Surf (Rio de Janeiro).

Publicações de conteúdo mais geral – e não apenas esportivo – também circularam, como Pop e Realce. Esta última daria origem ao programa televisivo de mesmo nome, que fez sucesso e história nos anos 1980 mesclando cobertura de esportes radicais e música – incluindo clipes e entrevistas com a geração que despontava e marcaria o rock brasileiro durante os anos 1980 (vale a pena conferir a linha do tempo com a atuação de Antonio Ricardo e Ricardo Bocão na mídia do surfe). Pop, editada pela Abril Cultural, circulou entre 1972 e 1979.

Em 1983, cinco sócios lançaram aquela que viria a se tornar a principal revista brasileira de surfe. Na primeira capa, o surfe em destaque (num negativo de filme da marca Kodak!) e chamadas para voo livre e bicicross.

Capa da edição de estréia de Fluir (set-out 1984)

Capa da edição de estréia de Fluir (set-out 1983)

A capa e o subtítulo evidenciam o objetivo de se apresentar como uma revista de esportes radicais, disputando terreno com Visual Esportivo, publicada no Rio. Durante cerca de um ano, as modalidades de ar e terra (acrescidas do skate, abordado a partir do número dois) conviveram com o surfe.  Este passou de modalidade central a única. O voo livre foi o primeiro a cair (com o perdão do trocadilho), seguido pelo bicicross e skate. Fluir converteu-se em um título exclusivamente sobre surfe – com uma ou outra pitada de skate e música a cargo do Dr. Anshowinhas  – e logo passou a ocupar o lugar de principal publicação brasileira sobre a modalidade. Sustento a hipótese, até hoje inconteste, de que se trata da revista esportiva publicada há mais tempo de forma ininterrupta no Brasil – Placar, por exemplo, sofreu algumas pausas nos anos 1990.

Nas edições em que as modalidades desapareceram, nenhuma explicação foi dada aos leitores quanto aos motivos para as mudanças. Em edições comemorativas posteriores, a justificativa apresentada em entrevistas com os criadores dizia respeito aos anunciantes, quase todos voltados para o surfe. Acredito que essa tenha sido a razão mais concreta/imediata, mas ela se articula com uma questão de fundo: bicicross, voo livre e skate não produziram, durante os anos 1980, uma cultura própria que gerasse consumo intenso entre praticantes e, principalmente, simpatizantes. Já produtos como bermudas e camisas de marcas ligadas ao surfe foram e são consumidos por crianças, adolescentes, jovens e adultos em diversos lugares do Brasil, muitos deles afastados do litoral.

Para saber mais:

BORGES, Luís Fernando Rabello. O processo inicial de formulação de produtos de mídia impressa brasileira voltados ao público jovem – Um estudo de caso da revista Pop. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), 2003.

GUTENBERG, Alex. A história do surf no Brasil: 50 anos de aventura. São Paulo: Grupo Fluir/Ed. Azul, 1989.

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