Futebol pra rico x Futebol pra pobre

Olá Amigos !!!

Hoje, dia 15 de junho de 2009, inicio a minha participação regular neste blog. Dentro deste propósito, resolvi retomar um texto por achá-lo conveniente e revelador do que será o meu objetivo neste grupo. Por tratar fundamentalmente de grupos sociais e do debate acerca desta temática o texto a seguir será, espero realmente que seja, um bom pontapé inicial para os nosso encontros.
No dia 11 de novembro de 2008 o site Globo online publicou na coluna opinião um breve artigo sobre o futebol brasileiro . Assinado por Luiz Valério Rodrigues Dias, creditado como economista e cientista político, o texto levanta questões muito interessantes sobre o acesso das classes sociais ao referido esporte. No entanto, compreendo que o tema da forma que foi apresentado necessite de outros esclarecimentos e suscita mais discussões. Em síntese, o autor sugere que os jogos da seleção brasileira se tornaram grandes espetáculos nos quais, as “elites”, formada por políticos, grandes empresários, artistas e emergentes, teriam privilégios de acesso nestes eventos. Aponta também, para o descaso e, de certa forma, as limitações das camadas populares para participarem destes momentos.
Os apontamentos estão corretos. No entanto, vale chamar atenção para o fato de parecerem ser frutos de uma visão romantizada do passado do futebol no Brasil. Uma espécie de saudosismo histórico que, em larga escala, pode comprometer, ou limitar, a compreensão do cenário futebolístico no país. Por que levanto esta discussão?
Engana-se quem pensa que o futebol é um esporte democrático por excelência ou em todas as suas esferas. Engana-se mais ainda quem pensa que um dia isso foi diferente. Desde os primórdios deste esporte, o palco onde é encenado o espetáculo da bola sempre esteve muito bem divido. Entre as arquibancadas do início do século e os camarotes dos nossos dias, sempre existiu o lugar demarcado para as elites e para o povão.

Aquibancada do Estádio do Fluminense em 1907 - Acervo Próprio

A massa iniciou trepada em árvores e barrancos, em seguida foi jogada na geral (hoje fechada, mas ainda sim igualmente romantizada por muitos). O povo ininterruptamente ocupou os piores lugares na contemplação do espetáculo. No entanto, dentro dos estádios, a turba enlouquecida, com suas coreografias, canções e hinos, proporcionam um show à parte para as elites assistirem dos camarotes.

O futebol, e o espetáculo em geral, sempre serviram como fonte de representações simbólicas para as elites. Apesar de comumente ouvirmos discursos saudosistas acerca do passado, os estádios sempre estiveram repletos dos famosos e abastados da sociedade ocupando os melhores lugares. Claro que sempre distantes do “Zé” do povo.

Apesar da desigualdade, o “Zé do povo” insistiu, ainda bem, em participar da festa esportiva. Seja no barzinho da esquina ou na euforia das arquibancadas e gerais, é a alegria e a angústia, a coreografia e o corre-corre vivenciados por milhões de “Zés” do povo que tornaram o futebol um dos maiores espetáculos da terra. Claro que agregado a potencial econômico, político e social do esporte.

Hoje é difícil falar de futebol sem destacar as camadas populares. Fotos, documentários e filmes que retratam este esporte são notadamente marcados por este grupo social. Foi criada uma espécie de simbiose entre o futebol e os grupos populares que dificilmente conseguimos descolar. E nem é necessário.
Se pensarmos na chegada do futebol ao Brasil e nas suas primeiras décadas de existência, verificamos o quanto este cenário era oposto. A maior parte dos destaques jornalísticos era dada às elites do período. Fossem elas políticos ou integrantes das principais famílias da cidade, as imagens são emblemáticas na representação deste grupo como sendo os principais representantes deste esporte.

Por isso, devemos compreender o esporte, não somente o futebol, de forma mais ampliada. Devemos fugir de discursos simplistas ou que minimizem o debate, entendendo o fenômeno em toda a sua complexidade. Ocupamos os piores espaços e pagamos, por vezes, mais caro pelo espetáculo. No entanto, ao mesmo tempo, assumimos como nosso este esporte e nos tornamos protagonistas dele. Assim sendo, destacamos como marcar fundamental desta compreensão a ambigüidade, algumas vezes ocultada neste processo.

O futebol sempre será o esporte do povo, da mesma forma que sempre existirá uma elite tentando forjar e promover um espetáculo particular. Cada um desses grupos se relacione de uma forma diferenciada com o espetáculo. É neste sentido que a ambigüidade se coloca.

Os amistosos da seleção brasileira tornam visíveis um cenário que está presente em toda a história do futebol. Com isso, talvez tenha chegado à hora, de fato, de pensar como está sendo administrado o cenário esportivo. Não queremos, nós, “Zés” do povo, migalhas que nos autorizem a assistir a nossa paixão nacional. Queremos, assim como os famosos e puxa-sacos, privilégios para participar do show. Afinal, somos também protagonistas nesse palco.

Ricardo Bull – Historiador e pesquisador do Laboratório de História do Esporte e do Lazer

Imagem 01Link da Reportagem citada: http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/11/18/o_jogo_brasil_portugal_dom_joao_vi-586446203.asp

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