PRÁTICAS INICIAIS DO ESPORTE EM SALVADOR: PRIMEIRO TEMPO

          Entre fins do século XIX e início do XX, o esporte chega à cidade de Salvador (Bahia) levado por pessoas que aportavam nas suas terras vindas diretamente da Europa (europeus ou brasileiros que lá passaram temporadas). Em ambos os casos estas pessoas compunham a chamada elite político-econômica soteropolitana. É assim que Salvador passa a conhecer uma prática tipicamente “moderna”, o esporte. O desejo era de que a cidade e suas pessoas vivenciassem uma nova experiência sócio-cultural que se consolidava na Europa. Isto, num período em que Salvador mantinha características sociais e urbanas que a tornavam diferente de outras cidades que já viviam uma modernização, sejam elas europeias ou brasileiras. Salvador era uma cidade com pequena aspiração industrial, com uma economia assentada na produção agrícola e com grande dependência do mercado externo (RISÉRIO, 2004). Por todas estas condições é que a efetivação do esporte como hábito e modo de vida em Salvador ganha especificidades que lhe definiam limites e perspectivas.

          Nestes tempos e sob estas condições são criados os primeiros clubes em Salvador e a partir disto são também conhecidas as primeiras modalidades esportivas, sempre sob larga influência europeia. O primeiro clube que se tem notícia é o Vitória, clube que ainda existe e tem grande importância para a cidade. Inicialmente chamado de Club de Cricket Victoria e fundado em 1899 pelos irmãos Artur e Artêmio Valente no retorno destes a Salvador após temporada na Europa. Em 1901 o clube passa a se chamar Sport Club Victoria, começando a praticar o futebol no ano seguinte.

          Falando sobre os esportes e a chegada do futebol em Salvador, Geraldo da Costa Leal num livro de memórias sobre a cidade (2002, p. 180) diz o seguinte:

Na Bahia, os rapazes desejavam particar aquela modalidade de esportes, quando chegou à cidade do Salvador, o estudante José Fereira, de alcunha Zuza, que tinha concluído seu curso na Inglaterra e viria para empregar-se no Bank of London, nesta capital. Sabia ele que em Salvador os esportes existentes eramo criket, no Campo Grande, praticado pelos ingleses e as corridas de cavalo no Ground do Rio Vermelho e da Boa Viagem.

          Vemos então que em Salvador a prática esportiva se inicia por esportes como o criquete, abrindo espaços para a posterior chegada e permanência de outros esportes como o futebol e o remo. Para a prática destes esportes na cidade, existiam os campos de futebol e os hipódromos (às vezes juntos), bem como as praças e outros espaços públicos que eram utilizados para o que ainda era comumente chamado de “diversões” modernas. Exemplo disto é esta matéria do Correio do Brasil de 24 de dezembro de 1903 “Realisa-se na próxima sexta-feira mais uma interessante partida de Foot-Ball ao Rio Vermelho, Praça Colombo, dedicada aos bebes em recreio.”

          Nestes tempos iniciais estas novas práticas não deixavam de causar estranheza, gerando por vezes insatisfação contra o que era até então uma novidade, o esporte. Matérias como esta do Jornal A Bahia de 17 de fevereiro de 1902 ilustram isso:

…Muito obsequiarão o abaixo assignado e prestarão um relevante serviço á causa das creanças e ao socego dos Paes, se, pelo seu muito lido jornal se dignarem chamar muito seriamente attenção de quem competir para que sejam prohibidas as bicycletas em rodas de Monumento e coretos ao Campo Grande, afim de não repetir-se a infelicidade por que hontem passei de ver meu filho pela terceira vez atropelado por bicycleta…

          Também o mesmo Geraldo da Costa Leal (2002, p. 181) fala sobre esta resistência ao esporte:

Quantas vezes a cavalaria perseguiu empinadores de arraias, acabou babas em todos os locais, em todas as ruas e em todos os tempos. Como uma confirmação, que seriam muitas se fôssemos anotar. O Diário de Notícias, em 11 de junho de 1907, fazia uma denúncia contra “o foot-ball (futebol) de garotos no Largo de São Bento, que reúnem-se todos os dias naquele largo. É uma turma de desocupados jogando foot-balll, quebrando vidraças, vidros de lampiões públicos, incomodando o transito…”.

           Apesar destas demonstrações de possíveis resistências a iniciante prática esportiva, ao mesmo tempo os jornais estampavam notas sobre jogos e sobre a fundação e mesmo de reuniões de clubes na cidade, como estas do Correio do Brasil de 11 e de 30 de setembro, ambas de 1903.

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados…

O sr. Annibal Petersen, 1º.secretário do “Sport Club Baiano”, teve a delicadeza de nos participar a fundação dessa associação, que se dedica ás modernas diversões do “cricket” e do “foot-ball”, em substituição ao antigo “Sport Club Rio Vermelho”, que foi extincto.

          É possível ver que neste período o esporte é ainda tratado como uma prática simples, restrita a grupos que buscavam divertimentos e formas de se ocupar e fazer passar seu tempo. Exemplo disto é esta nota do Correio do Brasil de 01 de setembro de 1903:

Um grupo de distinctos moços, academicos de medicina, que formam a colonia paulista nesta capital, desde julho organisados com o título de Sport-Club-S. Paulo Bahia, realizou, no domingo ultimo, uma partida deste symphatico divertimento, á praça. Cons. Almeida Couto.

          Com tudo isto é possível compreender que entre fins do século XIX e a primeira década do século XX o esporte ainda aparecia de forma embrionária na cidade, sem caracterizar a constituição de um espaço social próprio, tendo uma pequena circulação entre as pessoas da cidade, sendo mais uma prática restrita a elite político-econômica da cidade de Salvador. Enfim, o esporte nesta fase se mostrava uma experiência social tímida e pequena, não representando mudanças significativas nos hábitos e modos de vida da população. Mudanças maiores só serão vistas a partir da década de dez do século XX, mais ainda a partir da década de vinte. Acontece que aí já são outros tempos, outra história a ser narrada mais a frente. Vem aí o segundo tempo desta história.

            Mais informações em:

GAMA, M. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: s.e, 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. RJ: Versal, 2004.

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