RACISMO “DE VOLTA” AOS GRAMADOS

Olá amigos,

De tempos em tempos lemos em diários esportivos matérias tratando sobre racismo. Notadamente, a diferença entre os materiais apresentados pela mídia é mínima e sempre circulam sobre os mesmos pontos. Alguns autores questionam a validade e a necessidade das denúncias, outros exploram seus potenciais de venda e, bem poucos, tratam o tema com maior profundidade. Independente do uso e da apropriação feita, racismo é coisa séria e merece um pouco mais de atenção.

Ontem, dia 24 de Junho, na partida pela Taça Libertadores entre Grêmio e Cruzeiro o volante Elicarlos, do clube mineiro, acusou o atacante Maxi Lopez, da equipe adversária, de tê-lo chamado de “macaco”. O fato foi parar na delegacia e acabou se agravando com as abomináveis declarações feitas pelo técnico Paulo Autuori. O técnico da equipe gaúcha, visivelmente, desconhecedor do que seja o racismo e com uma extrema confiança na impunidade deixou claro o seu perfil de cidadão. Ou seja, daquele que enquanto não acontece comigo, permaneço na critica leviana e evasiva.

Ao Sr. Autuori informo que o racismo é crime no Brasil. Uma lei de 1951, a lei 1390/51 – Lei Afonso Arinos, dizia: “constitui infração penal (contravenção penal) …o preconceito de raça ou de cor” foi substituída na Constituição de 1988, em seu art. 5º – inc. XLII, e passou a considerar a prática do racismo como crime inafiançável e imprescritível. Como esse espaço não é o ideal para o debate do direito, já vale a pequena indicação da Lei.

Não sei e não posso apontar culpado ou inocente no ocorrido. Mas, tratar o racismo como um tema menor ou menos grave, que outros tantos que presenciamos no dia a dia, não pode ser admitido. Sobretudo, porque fazer isso é desconhecer a história e a importância do negro para o Brasil, bem como não reconhecer o seu papel na história do futebol Brasileiro.

O racismo sempre esteve presente no Brasil e nos campos de futebol. No entanto, torna-lo aceitável é inadmissível. Durante longos anos o racismo quis paralisar o avanço dos negros no futebol brasileiro. Houve tempos em que as marcas da cor eram decisivas para a entrada, ou não, de atletas e sócios nos clubes esportivos. Mas, a sagacidade, a luta, a força e, sobremaneira, a habilidade destes homens fizeram com que a história “conhecesse” um outro agente social, fundamental para os desdobramentos do nosso país. Os negros.

Equipe de Futebol do Vila Isabel em 1918.

Equipe de Futebol do Vila Isabel em 1918.

Reconheço que deva ser difícil ao Sr. Autuori perceber a gravidade de um ato de racismo. Dois motivos me levam essa conclusão. O primeiro, por ser branco e de uma alta classe social talvez não conheça e nem reconheça a dor da exclusão e do estigma. Já o segundo motivo, o mais importante a meu ver, é saber que só quem sente a dor pode mensurá-la. E, neste sentido, o distanciamento do Sr. Autuori é visível e revelador.

Enfim, não resolvi escrever este pequeno texto para apontar culpado ou inocente no ocorrido, isso a justiça tem obrigação de fazer. Escrevi com a intenção de chamar a atenção dos desconhecedores da  história do Brasil, da história do Futebol brasileiro e, sobretudo, da história dos negros nas terras tupiniquim. Cuidado caro amigos, o desconhecimento leva a ignorância.

Por Ricardo Bull – Historiador

Para saber um pouco mais sobre  futebol e  racismo ver em:

SANTOS, R. P. . Futebo e Racismo no Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Periodico IHGB, p. 131 – 148, 12 jan. 2009.

PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: Uma história do futebol Brasileiro no Rio de Janeiro – 1902 -1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2000.

GOMES, Flávio dos Santos e CUNHA, Olívia Maria. Quase-cidadãos: História e antropologias da pós-emancipação no Brasil – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

GOMES, Flávio dos Santos. Negro e política (1888-1937) – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005.

SCHWARCZ, Lílian Moritz. O espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia da Letras, 1993.

FILHO, Mario. O Negro no Futebol Brasileiro, 4 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.

MELLO, Victor Andrade de. Cidade Sportiva: Primórdios do esporte no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Relume Dumará: FAPERJ, 2001.

SANTOS, Ricardo Pinto e SILVA, Francisco Carlos Texeira. Memória Social dos Esportes – Futebol e Política: A Construção de uma Identidade Nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

ELIAS, Nobert e SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

WIEVIORKA, Michel, Racismo e Modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand Editora, 1995.

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