Futebol é coisa pra… mulher?

 

No dia 07 de junho o Jornal O Globo divulgou os resultados de uma pesquisa sobre os torcedores dos quatro grandes times cariocas, encomendada ao Ibope. A matéria indicava alguns itens do levantamento, dentre os quais destacava a “fidelidade” do torcedor-consumidor e a  alta participação das moças na composição das torcidas. No fluminense e no flamengo elas já seriam maioria (52% e 51%, respectivamente). Uma invasão pra lá de bem vinda a uma seara que, há muito, forjou o bordão “futebol é coisa pra homem!”.  Pois bem, essa é a “deixa” pra essa minha estréia em tão requintado escrete de comentaristas. Futebol não é coisa pra homem?  Sem dúvida essa foi a predominância histórica; não só no futebol, como na imensa maioria das modalidades esportivas. Não obstante,  talvez seja interessante deslocar a perspectiva e,  a partir da observação da prática num país sem tanta tradição futebolística, aproximarmo-nos de um outro tipo de visão. 

 Todo mundo sabe que nos Estados Unidos o futebol (chamado soccer) não goza do mesmo prestígio e sucesso que outras modalidades. E mais, lá o futebol feminino é bem mais comum. Veremos isso na seqüência. Essas noções básicas permitem-nos que possamos explorar melhor, por exemplo, um filme como “Ela é o Cara” (She’s the Man, de Andy Fickman, 2006): obra típica de  uma produção massiva de películas ambientadas nesse verdadeiro universo infinitamente tematizado pela indústria cinematográfica: a High School. No entanto, neste filme temos uma variação (não inédita) do lócus esportivo, normalmente centrado no futebol americano (chama-lo-emos football, doravante) ou no basquete. O enredo básico é o seguinte: Viola (Amanda Bynes) joga no time feminino da escola, mas este foi fechado. Inconformada, veste as roupas do irmão, muda o cabelo e vai tentar a sorte no time masculino. O resto é decorrência narrativa  por demais conhecida de qualquer habitante que teve, na sua mais tenra juventude, e por inúmeras vezes, a companhia das sessões da tarde.

 É evidente, desde essa sumária apresentação, que a moça vai entrar em diversas confusões cômicas ocasionadas pela troca de identidade/sexo;  vai se apaixonar,  provavelmente pelo astro do time (que também provavelmente se sentirá mal pelo grau de intimidade que está desenvolvendo com o “colega” do futebol); essa situação vai gerar conflito e dissolução dos laços, além da necessidade de resolução;  esta vai se dar em uma seqüência final na qual uma partida decisiva será travada;  a protagonista mostrará seu valor, haverá a reconciliação e as (aproximadamente) duas horas de duração padrão terão terminado. Mas então, o que tornaria esse filme digno dessa nossa conversa?  Não sei se a  Amanda Bynes, apesar de ser uma graça, por si só justificaria. Por outro lado, talvez seja interessante observar alguns detalhes secundários, relacionados ao futebol (que, no contexto, serve apenas como ambiente da trama “teen” a ser desenrolada). 

É muito legal, por exemplo, ver  a ampla ignorância (ou simplesmente despreocupação) quanto às regras básicas do nosso futebol. A saída da partida decisiva é dada em dois toques pelo mesmo jogador, e para trás! A preparação para a partida já é também reveladora:  os atletas se pintam:  pintura de guerra, algo totalmente vinculado às inúmeras cenas cinematográficas do football. Há um episódio ainda mais inverossímil.  A personagem da protagonista sai do campo, substituída no primeiro tempo, e volta no segundo:  como se numa partida de basquete ou voleibol. Sem nenhum embaraço. 

Mas o mais marcante mesmo para nós, do “país do futebol”, é a bronca que o diretor do Colégio profere pros dois times, depois de uma porradaria generalizada (após a qual, aliás, nem um cartãozinho amarelo é sacado). No intuito de acalmar os ânimos, o referido sujeito exclama em altos brados: “Se vocês querem brigar, por favor,  façam isso longe do estádio (…) joguem futebol como um bando de meninas. Isso não é futebol americano (…)”. É mole?

Pro senso comum desses gringos o futebol é coisa mais pra menina. Isso se dá por uma chave cultural que leva em conta, dentre outras, a comparação com a modalidade americana, de contato ainda mais intensivo que o nosso futebol.  Deve considerar também o fato de que “Os Estados Unidos transformaram-se na Meca ocidental do futebol feminino” (em 2006, segundo dados da FIFA, “entre os 16 jogos de futebol feminino listados com mais de 40 mil espectadores, 11 haviam ocorrido nos EUA”) [1] .

Torna-se no mínimo curiosa essa outra apreciação que vê o futebol como uma “prática não necessariamente feminina, mas extremamente adequada às mulheres, pois, na comparação com o football, é pensado como ‘pouco violento’”.  Trata-se, como concluí a pesquisadora Simoni Guedes, de “um importante exemplo das formas muito específicas de apropriação das práticas esportivas” [2].     

Homens, mulheres; torcida, praticantes. O futebol não vem com carimbo de exclusividade; é para aqueles que se entendem, de alguma forma, com a pelota e seus múltiplos códigos comportamentais, esportivos, valorativos;  e até pra quem não tem tanta intimidade assim.  Esses dão seu jeito e escrevem alguma coisa sobre o tema.

Abraços e até a próxima.

 

 

PS.  Observei agora que fiz minha estréia blogueira com aquilo que mais me persegue (na verdade é ao contrário): cinema, futebol e mulheres   – não necessariamente nesta ordem. 

 

Luiz Carlos Sant’ana

caoargos@hotmail.com

 


[1] Dados e citações extraídos de GUEDES, Simoni L. “Um dom extraordinário ou ‘cozinhar é fácil, mas quem sabe driblar como Beckham?’:  comentários a partir do filme Driblando o destino”.  In: MELO, Victor A.  &  ALVITO, Marcos (orgs).  Futebol por todo o mundo  – diálogos com o cinema.  RJ, FGV, 2006,p. 50).

 

[2] (Id.: 51).

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