Pra não dizer que não falei de flores

O período pós Segunda Guerra Mundial costuma ser apresentado como época de grandes transformações. De fato, ainda que muitas das suas inovadoras dinâmicas não tenham sido propriamente inventadas aí, os anos posteriores a década de 1950 testemunharam acontecimentos bastante singulares, se não pela sua natureza, ao menos pelo seu alcance e intensidade. No Brasil, a aceleração do crescimento econômico, a intensificação do processo de industrialização de vários setores, além da irrevogável urbanização são todos sintomas desse processo.

Profundamente articulados a esse estado de coisas, vê-se o afloramento de costumes de lazer na natureza. A partir de um determinado modo de perceber a vida nas grandes cidades, seus habitantes eram cada vez mais impulsionados ao seio das verdes paisagens. A imagem de uma metrópole como lugar insalubre incentivava viagens e outros divertimentos como contraponto a suposta opressão dos grandes aglomerados. Conforme já formulei em outra oportunidade, “é a ausência de natureza que produz o desejo de natureza”. E não por acaso, a disseminação de uma série de hábitos desse tipo é paralela ao crescimento desta retórica sobre os centros urbanos.

Desde o início dos anos 1960 se intensificou sensivelmente a representação das maiores cidades brasileiras como um “pesadelo de multidões”; lugar onde a vida cotidiana corre cercada dos mais variados tormentos. O barulho, a violência e a poluição concorriam para tornar seus ambientes insuportáveis. A natureza, em contraste, aparecia então como lugar do isolamento, doce refúgio para o insano ritmo da vida moderna. Em parte, era essa estrutura de sentimentos a responsável por incentivar ações e comportamentos ligados à promoção do lazer na natureza.

Já em 1954, inaugurava-se em São Paulo o Parque do Ibirapuera e em 1961, no Rio de Janeiro, criava-se o Parque Nacional da Tijuca e o Parque do Flamengo em 1965. Fora do âmbito governamental, Roberto Menescal fundava, em 1966, também no Rio de Janeiro, o Camping Clube do Brasil, cujo objetivo era criar uma rede nacional de espaços adequados para acampamento. Já no fim da década, em 1969, a prefeitura de São Paulo espalharia cartazes estampando flores e convites para práticas de lazer com a finalidade de suavizar a paisagem da metrópole, e mais ou menos no mesmo sentido, em 1974, se desenvolveria o projeto “Vamos fazer de São Paulo uma cidade agradável”, que previa a plantação de 21.000 árvores. Em Minas Gerais, também por essa época, o governo estadual anunciava a intenção de criar uma praia artificial às margens da lagoa da Pampulha, e, em 1974, o Departamento de Parques e Jardins de Belo Horizonte começava a plantar mais de 400.000 mudas de árvores por toda a cidade, além de encomendar três grandes praças a Roberto Burle Marx. O projeto da praia nunca aconteceu; bem o sabe o litoral capixaba, mas antes do fim dos anos 70, ainda haveria tempo para outras iniciativas, como a da Empresa Brasileira de Turismo, que criaria “um núcleo pioneiro de lazer planejado que visa impedir a degradação do ambiente selvagem pela leva crescente de turistas, cada vez mais atraídos pela vida em contato com a natureza”, conforme informava uma propaganda de 1977.

Era, enfim, um conjunto de medidas perpassando tanto o poder público quanto a sociedade civil, sempre na direção do aprimoramento das condições do consumo simbólico da natureza. Em junho de 1973, o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia fez conhecer sua resolução número 218, que dispunha sobre as competências específicas de cada uma dessas atividades profissionais. A arquitetura paisagística, por exemplo, figurava desde então como competência do arquiteto ou engenheiro arquiteto. Ao mesmo tempo, seu artigo quinto definia ao engenheiro agrônomo a competência pela construção e instalação de parques e jardins. Em maio de 1976 seria criada a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas. Dois anos depois, em 1978, a instituição organizaria em Salvador, na Bahia, o congresso da federação internacional, até que em 1981, em Curitiba, Paraná, seria realizado o primeiro encontro nacional.

De maneira análoga, em 1979, por ocasião do I Encontro de Pesquisadores em Floricultura e Plantas Ornamentais, realizado em Viçosa, Minas Gerais, seria fundada a Sociedade Brasileira de Floricultura e Plantas Ornamentais, que, no ano seguinte, já realizaria seu primeiro congresso brasileiro. Associação de caráter técnico-científica, seu objetivo era e é ainda promover a floricultura como segmento econômico produtivo e vantajoso. Fazia sentido, afinal, desde os meados dos anos 60 o mercado de floricultura vinha ganhando em escala e em volume de negócios no Brasil, tanto que em 1969 foi inaugurado o Mercado de Flores na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP), que ainda hoje é o local do país onde mais se comercializa flores e plantas em geral.

Ao longo de quase todo período compreendido entre a década de 1960 e a de 1970, em suma, pode-se ver testemunhos de diversas espécies que, de alguma forma, falam de uma tal “mania do verde”, que vai desde a freqüência a restaurantes macrobióticos até os novos condomínios residenciais cercados de áreas verdes, passando pela jardinagem ou pelo surgimento de novas modalidades de esportes na natureza,  tudo com o firme propósito de ajudar a enfrentar o concreto da cidade. Pena que o caminho de flores não levou glória e felicidade a todos. A história da urbanização brasileira confirma.

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

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