Bem vindo a Pueirópolis

Belo Horizonte é uma cidade nova, republicana, nascida no ano de 1897. Foi planejada para ser a nova capital de Minas Gerais, substituindo Ouro Preto, símbolo da herança tanto colonial quanto imperial de nosso país. A cidade nasceu sob os ideais modernos, pensados desde o seu traçado às práticas incentivadas para a população: diversões como cafés, teatros, e também os esportes. O ciclismo e o turfe foram os primeiros que tiveram seu desenvolvimento apoiado na nova capital: a construção de um velódromo, no Parque Municipal, e do Prado Mineiro, no bairro homônimo que naquele momento situava-se na periferia da cidade.

Porém, os modernos sports advindos da Europa não vingaram na cidade. Num curto período de tempo, tanto o ciclismo quanto o turfe caíram em desuso. Tal fato incomodava setores da elite belo horizontina. Como práticas tão em voga nas modernas capitais européias e também na capital federal não eram devidamente prestigiadas por seus moradores? A questão extrapolava os esportes e recaía sobre a preferência da população pelo recolhimento, ao invés das diversões nos espaços da cidade. O belo horizontino era considerado, por parte da imprensa, como “fogo de palha”. E a moderna capital transformava-se, nos jornais da época, na cidade do tédio, na pacata Pueirópolis, como nos mostra Marilita Rodrigues:

Essas representações refletem a distância que ainda existia da Belo Horizonte “Cosmopolita” que se queria, que se sonhava para a capital de Minas, da Belo Horizonte “pueirópolis”, pacata, sem a vida  smart daquele tempo. Não seria uma expressão de uma cultura daqueles seus habitantes? Outras análises ainda se fazem necessárias para essa resposta, pois naquele período a cidade contava, ainda, com apenas pouco mais de um ano de vida. Mas, na imagem da cidade, o esporte já trazia a sua marca(…) (RODRIGUES, 2006, p. 115)

 

Marilita nos mostra como essa marca surgia a partir de outras práticas esportivas e de lazer, como a malha, prática das ruas, que por seu caráter popular era “condenada” pelos entusiastas de sports mais nobres, como o ciclismo e o turfe. Além disso, novos trabalhos vem surgindo com objetivo de aprofundamento das análises sobre o lazer nos primeiros anos de Belo Horizonte.

Os sentidos acerca da história do esporte e demais diversões na cidade pouco a pouco vão sendo construídos. Fato é que ao planejarem a cidade, seus idealizadores planejaram também os corpos, os costumes e os modos de vida da população que lá viveria, talvez não sabendo que planejar indivíduos não fosse tão simples quanto planejar ruas e construções. O cidadão Belo Horizonte viveu portanto no contraste, nas tensões entre as práticas projetadas para a nova capital e as práticas efetivas, construídas nas relações entre os habitantes e a nova cidade.

Esse é o ponto de partida dessa coluna, que discutirá o esporte na cidade de Belo Horizonte. Mesmo com o traço cultural do recolhimento, da desconfiança e do recato, está dado o pontapé inicial: existe vida na cidade de Pueirópolis.

 André Schetino

andreschetino@pop.com.br

Para saber mais:

RIBEIRO, Raphael Rajão. A bola em meio a ruas alinhadas e a poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte, 1904-1921. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais –Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2007.

Disponível em: http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/VGRO-7AXN6H

RODRIGUES, Marilita Aparecida Arantes. Constituição e enraizamento do esporte na cidade: uma prática moderna de lazer na cultura urbana de Belo Horizonte (1894-1920). Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais –  Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2006.

Disponível em: http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/VCSA-6XTGT2

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