Um jardim de supliciados: uma breve história da execução penal – reflexões sobre o corpo. Leonardo Bahiense – Historiador

 

     O corpo tem história. Olhares distintos foram projetados sobre o corpo ao longo do tempo e do espaço. Durante as Idades Média e Moderna, a Inquisição trouxe dor e sofrimento aos homens de diversas partes da Europa e alhures. Porém, também alimentou o desejo humano pelo perverso. A multidão entrava em êxtase durante as execuções ordenadas pelo Tribunal Inquisitorial. Herege! Herege! Era a palavra proferida por vozes desconhecidas, enquanto Giordano Bruno, acusado de defender a teoria do heliocentrismo, caminhava em direção ao vale da morte. Bruno procurava manter a calma. Diante da fúria dos populares, o filósofo proferia passagens de seus livros. Ao perceber sua atitude, o carrasco reagiu: atravessou, lateralmente, um espeto pelas bochechas do filósofo e um outro, verticalmente, fazendo uma cruz em seu rosto. A cena se completou com o fogo lambendo as carnes de Bruno e roubando-lhe o resto de vida. Sangue, gritos, prazer. Prazer pela perversidade.  

     O século XVIII produziu o Iluminismo. O corpo precisava ser punido, sacrificado. No entanto, mudava-se o argumento. O pano de fundo deixava de ser a heresia, a atitude contra-religiosa, ou o crime de lesa-majestade; no final do setecentos, na França – e, em breve, em outros locais -, executava-se em nome da justiça, da razão de estado. E foi tal razão que levou Luis XVI para a guilhotina. Cartas conspiratórias foram encontradas no Palácio Real. O monarca foi acusado de passar informações sigilosas aos contra-revolucionários austríacos. Graças a atuação dos jacobinos determinou-se a execução real. O carrasco Sanson resistia. Embora se orgulhasse de sua profissão – a ponto de levar os filhos para assistirem as execuções – temia passar para a história como um regícida. Todavia, o destino de Luis XVI já estava definido e Sanson teve que sobrepujar seus medos. O monarca, cabisbaixo, deixou a carruagem e seguiu em direção a guilhotina. A Praça da Revolução estava apinhada. Parecia que todos os franceses estavam ali. O rei parou. Respirou fundo. Olhou para os populares e tentou balbuciar algumas palavras. Sua voz foi sufocada pelo barulho dos tambores. O cutelo caiu sobre seu pescoço grosso e mal colocado na guilhotina. A cabeça não tombou diretamente no saco. Sanson arrancou-lhe e mostrou-lhe as massas. Coágulos pelo chão. Gritos, mais gritos. A histeria tomou conta dos cidadãos. Corria o ano de 1793.  

     Em pouco tempo, os jacobinos provariam do seu próprio veneno: Robespierre transformaria a guilhotina no símbolo da Convenção Montanhesa. Dezenas de mortos por dia. Eram tantas mortes que, quando um condenado colocava o pescoço na guilhotina, sua alma parecia abandonar-lhe o corpo, uma vez que o infeliz via inúmeras cabeças que não tinham sido recolhidas do saco ainda. Era o Período do Terror. Por seu simbolismo, a guilhotina não deve ser vista apenas como uma invenção. Na realidade, trata-se de uma alegoria que se inscreveu no imaginário popular francês como a cantiga seguinte sugere: “O deputado Guillotin/em arte médica/ muito capaz e astucioso/fez uma máquina/para expurgar o corpo francês/de todas as pessoas com ideias /É a guilhotina, olé,/é a guilhotina …”   

     O século XIX bafejou ares de civilização. As execuções não poderiam ser apenas pautadas na razão de estado; deveriam ser também civilizadas. A guilhotina metamorfoseou-se em peça de museu. A forca dividiria espaço com uma nova e terrível máquina: a cadeira elétrica. A ponta do novelo da história da cadeira elétrica deve ser buscada na New York de 1889. Neste ano, William Kremmler tinha destruído o crânio de sua namorada com vinte e seis machadadas. Kremmler poderia ser mais um vagabundo a receber a pena capital; entretanto, passaria para a história como o primeiro homem a ser executado pela cadeira elétrica.

     1890. Prisão Estadual de New York em Auburn. Kremmler sentou-se na cadeira de madeira. Uma máscara de couro foi colocada sobre sua cabeça. Os pulsos e os tornozelos foram presos com correias. Eletrodos foram atrelados em sua cabeça e em suas costas. Na sala, pouco mais de vinte pessoas. O gerador com 1500 volts foi acionado. Durante dezessete segundos a corrente passou pelo corpo de Kremmler, um corpo enrijecido, com os músculos espasmados. Para os médicos a frente daquela execução, a cadeira elétrica significava um novo tratamento ao corpo, mais humano, mais moderno. Contudo, o pior ainda estava por vir. Apesar da energia elétrica ter castigado o seu corpo, o prisioneiro ainda estava vivo. Escutemos a voz de Michael White: “De repente, Kremmler estremeceu e uma espuma escorreu de sua boca, descendo pelo queixo. Recuando horrorizados, os doutores viram o prisioneiro suspirar e viram seu peito mover-se um pouco; Kremmler tentava respirar”. Petrificados, os presentes pareciam não acreditar na cena diante de seus olhos. O gerador foi acionado novamente e a corrente elétrica, uma vez mais, tomou o corpo de Kremmler. Mais de dois minutos. Um cheiro de carne humana queimada no ar. Uma fumaça saia de suas orelhas e o fogo agredia seus cabelos. Algumas pessoas na sala, vitimadas pela náusea, vomitaram.         

     Como a guilhotina, a cadeira elétrica, ficou para trás. A forca segue sua trajetória. Em 2006, a morte de Saddan Hussein, ditador iraquiano, capturado pelas forças militares norte-americanas, no contexto da Guerra do Iraque, se deu através de tal instrumento. 

     As reflexões feitas até aqui nos conduzem a seguinte inferência: a história é como um jardim de supliciados. Todavia, o jardim não é o mesmo ao longo do tempo; aos nossos olhos, suas flores-corpos mudam de cor, de tons. E é este caráter policromático das flores-corpos que mais apetece o historiador.        

Para saber mais:

ANDRESS, David. O Terror: guerra civil e Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Record, 2009.

VOVELLE, Michel. Imagens e imaginário na história: fantasmas e certezas nas mentalidades desde a idade média até o século XX. São Paulo: Ática, 1997.

WHITE, Michael. Rivalidades produtivas: disputas e brigas que impulsionaram a ciência e a tecnologia. Rio de Janeiro: Record, 2003. 

WHITE, Michael. O papa e o here: Giordano Bruno, a verdadeira história do homem que desafiou a Inquisição. Rio de Janeiro: Record, 2003.

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