Futebol e a imagem da nação

Os elos entre esporte, política e nacionalismo não são novidade para quem procura olhar para o esporte como um pouco mais do que alguns momentos de diversão no final de semana. Muitos foram os políticos que procuraram se utilizar do esporte em busca de legitimação de seu governo, ou mesmo por uma maior identificação com o povo. Nosso atual presidente é um grande exemplo, com suas diversas metáforas futebolísticas, seus encontros com atletas de êxito internacional, ou mesmo explorando sua ligação com o Corinthians, que há poucos meses desviou sua rota de retorno para comemorar a conquista da Copa do Brasil junto ao chefe de nosso Executivo, como mostra a figura abaixo.

Presidente Lula ergue a taça da Copa do Brasil cercado pelos representantes do corinthians: Mano Menezes (Técnico), Jorge Henrique, Dentinho, Cristian, William, André Sanchez (presidente do clube) e Ronaldo). Fonte: Terra.com.br.

Presidente Lula ergue a taça da Copa do Brasil cercado pelos representantes do corinthians: Mano Menezes (Técnico), Jorge Henrique, Dentinho, Cristian, William, André Sanchez (presidente do clube) e Ronaldo. Fonte: Terra.com.br.

Dentro do quadro dos esportes, o futebol ganha relevância por sua popularidade internacional. Como apontou Bill Shankly – o lendário treinador inglês do Liverpool: “algumas pessoas acham que o futebol é uma questão de vida ou morte. Eu posso assegurá-las que ele é muito mais do que isso” [1].

Nessa “coluna” que assino, irei procurar debater as formas com que o futebol teria sido utilizado como meio de identificação nacional ao longo do século XX. Como o esporte mais popular do planeta teria servido de propaganda política não apenas a favor, mas também contra, regimes políticos, governos autoritários e movimentos sociais? E Através deste espaço pretendo trazer à tona alguns exemplos destas relações, tendo mais em vista levantar novas inquietações do que respondê-las.

Neste sentido, decidi por iniciar nossos encontros por uma análise comparativa entre as Nações Unidas e a FIFA (Fédération Internationale de Football Association). Ao se comentar a importância política do esporte pelo mundo, é comum vermos apontado o fato de que a FIFA (Federatión Internationale de Football Association) possui mais países membros do que a ONU (Organização das Nações Unidas).. Pode-se constatar que enquanto a ONU possui 192 membros, a FIFA conta com 208 afiliados. O mesmo acontece com o COI (Comitê Olímpico Internacional), ligado a 205 Comitês Olímpicos Nacionais [2].

Este simples olhar nos mostra algo de importante sobre a importância política do futebol. Dezesseis associações filiadas à FIFA não são parte integrante das Nações Unidas. Muitas podem ser as razões dessa diferença, como será visto a seguir. Mas esta simples comparação é por si suficiente para demonstrar que neste período em que tanto se fala sobre globalização, o futebol parece ser um dos maiores legitimadores de reconhecimento internacional de uma nação. Um olhar mais aprofundado sobre o tema pode trazer maiores esclarecimentos sobre a questão.

Em primeiro lugar, em uma listagem mais superficial dos membros associados à FIFA que não se encontram na ONU, saltam aos olhos a presença de países como Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Nas Nações Unidas, os mesmos possuem uma única representação, o Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte, enquanto possuem representações distintas no que se refere a seu futebol [3]. Reconhecidos internacionalmente como inventores do esporte, tanto os ingleses como seus vizinhos ocupam posição de destaque dentro da estrutura organizacional do futebol internacional, através da International Board [4]. Tal posição de destaque não condiz com a relevância internacional de seleções como País de Gales e Irlanda do Norte. Mesmo tendo participado de apenas uma Copa do Mundo, no caso dos galeses, ou de três, como a Irlanda do Norte. Mesmo sem uma grande participação internacional, a identificação destas seleções com suas nações é evidente. Pode-se citar neste sentido o fato de grandes jogadores que nunca disputaram uma Copa do Mundo, mas se mantiveram fiéis as suas seleções, como o irlandês George Best e o galês Ryan Giggs. Apesar de não terem tido uma oportunidade de brilhar nas maiores competições esportivas internacionais, estes nunca clamaram pela formação de uma seleção do Reino Unido. Seleção esta que já chegou a ser cogitada, para que estes países pudessem contar com uma representação no futebol olímpico. Isso porque o Comitê Olímpico Internacional (COI) não reconhece a Inglaterra, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte como nações independentes, elas são representadas pela mesma entidade olímpica a Associação Olímpica Britânica (British Olympic Association). No entanto, a idéia da formação de uma seleção britânica unificada foi taxativamente recusada. Sua última participação em uma Olimpíada foi em 1956, nos jogos de Melbourne.

O caso da seleção Israelense também é interessante. Membro da ONU desde 1949, um ano após sua criação, Israel já contava com um representante na FIFA em 1929, tendo a criação de sua federação de futebol em 12928, 20 anos antes da criação de seu Estado. No mesmo ano foi fundada também a federação de futebol da Palestina, tendo esta se filiado à FIFA apenas em 1998. A seleção palestina se junta à lista de federações de futebol reconhecidas pela FIFA que não possuem representação junto às Nações Unidas. Fora os países britânicos citados acima, nenhuma destas seleções possui posição de destaque no cenário internacional do futebol, sendo a equipe de Hong Kong a de melhor colocação no ranking da FIFA, atualmente na 134ª posição.

Dentro deste grupo vale também destacar a presença de Taiwan – ou República da China –, que apesar de ter ocupado a cadeira da China na ONU até 1971[5], hoje busca ser reconhecida na organização como República da China e tem sua entrada vetada por pressão da República Popular da China, que detém poder de veto no Conselho de Segurança. Taiwan se tornou membro da FIFA ainda em 1954, quando era reconhecida oficialmente pela comunidade internacional como China, tendo permanecido na entidade desde então. De forma similar, as atuais Regiões Administrativas Autônomas chinesas de Hong Kong e Macau figuram entre as federações Chinesas filiadas à FIFA. No entanto, no momento de suas filiações à entidade, em 1954 e 1978 respectivamente, estas ainda eram ligadas à Inglaterra e Portugal, respectivamente.

Assim como Hong Kong e Macau no momento de sua filiação à FIFA, diversas colônias, protetorados, dependências e outras nações não independentes são filiadas à entidade reguladora do futebol. Este é o caso de Porto Rico, Estado livre associado aos Estados Unidos, membro da CONCACAF (Confederation of North, Central American and Caribbean Association Football), assim como as seleções de Anguila, Bermuda e Antilhas Holandesas, entre outras. Outras confederações ligadas à FIFA também possuem membros deste grupo, como Oceania Football Confederation (OFC), que conta com os representantes das Ilhas Cook, de Samoa Americana, ou da Nova Caledônia, por exemplo. Até mesmo a tradicional confederação européia – a UEFA – possui em seu rol de países membros as Ilhas Faroe, território autônomo da Dinamarca localizado no Atlântico Norte.

Pode-se observar assim que há mais envolvido em uma filiação internacional à FIFA do que apenas o direito de participar de uma competição internacional de futebol. O mero reconhecimento internacional de soberania de seu Estado pode não ser suficiente. Fora o caso já abordado do Reino Unido, sete Estados com cadeira na Assembléia Geral das Nações Unidas não possuem representação na entidade maior do futebol mundial. Tanto as Ilhas Marshall como Kiribati, Micronésia, Nauru, Palau e Tuvalu, possuem associações nacionais de futebol, são Estados soberanos – uniram-se à ONU entre 1991 e 2000 –, e não são reconhecidos como países membros da FIFA. Destaca-se entre estes a seleção de Tuvalu, que disputou a competição de futebol dos Jogos do Pacífico Sul 2007, em Samoa. Mesmo sendo derrotada na primeira rodada contra Fiji por 16 a 0, a equipe não filiada à FIFA perdeu de apenas 1 a 0 para a campeã Nova Caledônia e empatou em 1 a 1 com a seleção do Tahiti, 161ª colocada no ranking da FIFA[6]. Além das seis nações acima citadas, deve-se enfatizar o caso do Principado de Mônaco. O microestado europeu, apesar de não ser reconhecido pela FIFA, possui cadeira na ONU e um time de ponta inscrito na liga francesa de futebol – o Association Sportive Monaco Football Club, ou apenas Mônaco. Contando com jogadores da várias nacionalidades, o Monaco chegou a disputar a final do campeonato europeu de clubes, a Liga dos Campeões da UEFA, em 2004.

A busca de reconhecimento internacional e de legitimação nacionalista através do esporte, e principalmente do futebol, é recorrente e não se restringe apenas ao caso de nações emergentes. Algumas regiões, soberanas ou não, ainda buscam reconhecimento oficial pela FIFA. Para estas seleções, foi criada em dezembro de 2003 a Nouvelle Fédération-Board (NF-Board). Entre os membros desta nova organização, possuem destaque as seleções do Tibet, Chechênia, Groenlândia, Ilhas de Páscoa e Mônaco (a seleção do principado, não o clube). Em 2006 a NF-Board organizou a primeira Copa do Mundo VIVA, realizada na Occitânia, região do Languedoc no sul da França. A Copa teve como campeã a seleção da Lapônia, com Mônaco em segundo e Occitânia em terceiro. A competição contou, na prática, com apenas três selecionados. A quarta equipe seria a seleção de Camarões do Sul, que por não conseguirem visto de entrada na França, perderam todos os jogos por WO. A competição acabou esvaziada por uma querela interna entre a NF-Board e a federação de Chipre do Norte, que fez com que esta segunda organizasse, em paralelo à Copa VIVA, outra competição com países membros da NF-Board, chamada Copa ELF (do francês, Igualdade, Liberdade e Fraternidade). A maioria dos integrantes da NF-Board acabaram por participar deste torneio, uma vez que a federação anfitriã cobriria todas as despesas dos participantes. O torneio contou com oito seleções, entre as quais a do Quirguistão, de Zanzibar, a do Tibete e a da Groenlândia. A equipe de Chipre do Norte venceu a seleção da Criméia na final por 3 a 1 e se sagrou a campeã. A equipe do Tibete perdeu os três jogos disputados, sofrendo 14 gols e não fazendo nenhum.

A NF-Board organizou mais uma edição da Copa do Mundo VIVA este ano. Depois da edição de 2008, organizada na Lapônia, a competição foi realizada novamente em junho deste ano, na região da Padânia, no norte da Itália. A seleção local se sagrou bicampeã do torneio (venceu também a edição de 2008), que contou também com a participação das equipes da Occitânia, do Curdistão e da Lapônia, entre outros.

Cartaz da Copa do Mundo VIVA 2009. Fonte: http://www.vivaworldcup.info/

Cartaz da Copa do Mundo VIVA 2009. Fonte: http://www.vivaworldcup.info/

Outro caso que vale mencionar é o da seleção do País Basco. O escrete nacional basco nasceu em plena guerra civil espanhola, em 1937. José Antonio Aguirre, líder político e ex-jogador do Athlético de Bilbao, decidiu formar uma equipe de futebol representando o País Basco para angariar fundos para a guerra. A seleção teve sua estréia no dia 25 de abril de 1937, no estádio parisiense Parc des Princes – um dia antes do bombardeio de Guernica. Lá teve início uma jornada de jogos, divulgando a guerra e o nacionalismo basco. A seleção basca jogou, no período de 1937 a 1939, 30 partidas, tendo enfrentado equipes de nome como Olimpique de Marselha e Spartak de Moscou, além de ter enfrentado seleções da Polônia, Noruega e Dinamarca. Em 1938 a equipe foi atuar em solo Mexicano, onde disputou o campeonato nacional e foi campeã. A seleção permaneceu no México até o final da guerra civil espanhola, em 1939, se dispersando em seguida.  A seleção basca foi reunida novamente apenas em 1979, já com o final do governo franquista. Desde então vem lutando por seu reconhecimento em instituições esportivas internacionais, como a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) e o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Mesmo sem a legitimidade de membro da FIFA, enfrentou seleções como Irlanda (1979), Paraguai (1995), Uruguai (1998) e Gana (2001). A seleção basca tentou, sem sucesso, participar da Eurocopa de 2000, uma vez que o parlamento havia afirmado a legalidade de todas as seleções esportivas bascas. Como protesto, a organização juvenil Gazte Abertzaleak comprou o endereço eletrônico “www.eurocopa2000.org” e postou uma mensagem de protesto a não participação de sua seleção na competição européia, que continua no ar até hoje. No final, a força política da FIFA e da federação espanhola falaram mais alto, e os jogadores bascos participaram da Eurocopa vestindo os uniformes das seleções da Espanha e da França.

No final do ano passado, no dia 27 de dezembro, uma multidão tomou as ruas de Bilbao para protestar em favor da participação da seleção basca em torneios profissionais (assim como a seleção da Catalunha, que também luta por reconhecimento da FIFA, a seleção basca só pode participar de amistosos). Os manifestantes carregavam bandeiras do País Basco e faixas com os dizeres “País Basco, uma nação, uma seleção, uma federação”.

Vemos assim que o futebol exerce um importante meio de identificação coletiva e de legitimação nacional. Daí advém grande parte de sua relevância política. E assim como o futebol, diversas outras modalidades ocupam posições de destaque em diferentes locais e períodos. A imagem do esporte se confunde com a imagem da própria pátria, em uma enfática confirmação da máxima de Nelson Rodrigues, a seleção é a pátria de chuteiras. Mas de que forma se dá esse processo de identificação da nação moderna e do esporte? Como são estruturadas as representações de senso comum sobre o pertencimento a uma comunidade ou sobre a identidade nacional através do esporte? E de que forma se buscou a utilização do capital simbólico envolvido com o esporte nos diferentes regimes instaurados durante os últimos séculos? Esses serão alguns dos temas abordados nessa coluna.

Um grande abraço e até a próxima.

(Críticas, dúvidas, comentários ou sugestões: mande um email para msdrumond@yahoo.com.br)

Notas:

[1] Em entrevista concedida ao Sunday Times, em 4 de outubro de 1981.

[2] De acordo com seus respectivos sítios eletrônicos: http://www.un.org/en/members/index.shtml, http://www.fifa.com/aboutfifa/federation/associations.html e http://www.olympic.org/uk/organisation/noc/index_uk.asp?id_assoc=8. Acesso em: 06 ago. 2009.

[3] O artigo 10, item 5 do estatuto da FIFA declara que “cada uma das quatro Associações Britânicas é reconhecida como um membro em separado da FIFA” (tradução minha). Disponível em www.fifa.com/mm/document/affederation/federation/fifa%5fstatutes%5f0719%5fen%5f14479.pdf, acessado em 7 ago. 2009.

[4] A International Football Association Board é o órgão internacional regulador das regras do futebol. Apesar de contar atualmente com Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte e mais quatro representantes da FIFA, somando oito membros no total, são necessários os votos de seis membros para que qualquer mudança ocorra nas regras do esporte. Desta forma, a FIFA não pode efetuar qualquer decisão sem a aprovação de duas das federações britânicas, assim como essas necessitam do apoio da FIFA.

[5] A Assembléia Geral da ONU passou a reconhecer a República Popular da China como representante oficial da nação com a Resolução 2758, de 25 de outubro de 1971.

[6] Conforme página da Internet oficial dos XIII Jogos do Pacífico Sul (XIIIth South Pacific Games). Disponível em: http://www.samoa2007.ws/, acesso em: 07 ago. 2009.

Bibliografia sugerida:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional.  Rio de Janeiro: FAPERJ / Mauad, 2002.

ANDERSON, Benedict.  Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e expansão do nacionalismo. Lisboa: Edições 70, 2005.

ARCHETTI, Eduardo P.  El potrero, la pista y el ring: las pátrias del deporte argentino. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2001.

RIORDAN, Jim; KRUGER, Arnd. 1999. The international politics of sport in the 20th century. Oxon, Taylor & Francis.

TOMLINSON, Alan, YOUNG, Christopher. National identity and global sports events: culture, politics and spectacle in the Olympics and the football world cup. New York: SUNY, 2006.

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