Golfe e identidade nacional

Por Victor Andrade de Melo

O título parecerá estranho ao leitor que imaginar que se trata de uma reflexão sobre o Brasil, país no qual justificadamente, mas exageradamente, muitas vezes se considera o futebol como o único responsável por estabelecer uma relação entre o esporte e as construções discursivas sobre a identidade nacional.

Há, na verdade, um pequeno e fascinante país, um arquipélago praticamente perdido no Oceano Atlântico, a meio do caminho entre a América, a África e a Europa, no qual o golfe ocupou, e em certa medida ainda ocupa, lugar de grande importância na construção da idéia de nacionalidade, algo que somente pode se manifestar na íntegra tardiamente, pois a independência só chegou em 1975: Cabo Verde.

Aproveitando que no momento me encontro em Lisboa, trabalhando em um projeto sobre tal país e sobre a experiência esportiva/desportiva na lusofonia, dedico a “terra da morabeza” o post dessa semana.

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A princípio, em seu formato moderno, uma “invenção inglesa”, com a expansão do comércio e dos contatos internacionais, no decorrer do século XIX, a prática esportiva desembarcou em outros países. Nesse processo, as influências não foram lineares e lidaram com as peculiaridades históricas e culturais locais.

O crescimento do uso de navios a vapor tornava necessários entrepostos para abastecimento de carvão. Como Cabo Verde ocupava uma posição geográfica estratégica, no caminho de várias importantes rotas, e dadas as características da baía de Mindelo (Ilha de São Vicente), por lá são instalados diversos depósitos, notadamente de capital inglês. Com isso, houve um surto de desenvolvimento e uma significativa alteração da paisagem da cidade.

Foi nesse contexto que os esportes, entre os quais o golfe, chegaram ao país no fim do século XIX. Essas experiências iniciais, ainda espontâneas, melhor se sistematizaram na década de 1920, quando foram criados alguns clubes (o The Western Athletic Club, o St. Vicent Sport’s Club, o St. Vicent Golf Club e o St. Vicent Lawn Tennis Club) que se fundiram, em 1933, dando origem ao St. Vicent Golf Cape Verde Island and Lawn Tennis Club.

Com o golfe se deu um processo semelhante ao que ocorrera com o cricket. Se a princípio era uma atividade restrita aos estrangeiros (britânicos e em menor grau portugueses funcionários do governo colonial), logo a população local se aproximou, se apropriou e deu um sentido bastante inusitado ao esporte, tão curioso que destacou a Ilha de São Vicente no cenário mundial.

Entre outras peculiaridades, o campo mais tradicional, ao invés de ser um relvado gramado (um “green”), é um “black” (ou um “brown”), já que as terras vulcânicas dificultam o cultivo de grama. Além disso, ao contrário de outros países, construiu-se uma representação de que é uma prática popular. Logo foi compreendido como uma forma de demonstrar a elevada cultura local.

No fim da década de 1930, aproveitando que os ingleses do St. Vicent mudaram de sede, para se afastarem ainda mais dos nativos e dos portugueses que frequentavam o clube, de forma a manter o sentido de exclusividade, os ligados ao governo colonial fundaram uma nova agremiação, o Clube de Golfe de São Vicente (1940), impedindo qualquer participação dos locais, que, descontentes com a decisão, fundaram o Lord Golf e construíram com grande esforço um campo próprio. Nesse momento já havia competições entre os sócios do Clube Sportivo Mindelense e do Grêmio Recreativo Castilho, além de jogos espontâneos.

Não tardou para que os caboverdianos fossem convidados a integrar o Golfe de São Vicente, já que os portugueses não davam conta de manter o clube; com isso deixa de existir o Lord. Em 1969, fundem-se essa agremiação e o St. Vicent, dando origem ao Club Anglo-Português de Golfe, que foi uma das sedes da difusão do pensamento nacionalista caboverdiano nos momentos pré-independência, palco de reuniões políticas e cerimônias que buscavam demonstrar o elevado grau da cultura local. Com a independência (1975), houve nova mudança de denominação: Clube de Golfe de São Vicente.

Essa antiga ligação com esse esporte hoje se vê reforçada pelo desenvolvimento do turismo, uma das alternativas econômicas que têm sido pensadas para Cabo Verde. Grandes empreendimentos que se instalam no país têm como principal mote o golfe.

Isso tem causado grandes mudanças nas representações e muitos conflitos, algo que dramatiza o próprio momento histórico do país. Como fazer parte do cenário internacional com um quadro nacional desfavorável? Como ajustar os interesses comerciais com os ganhos para o conjunto da população? Como ajustar tradição e inovação? Como repensar a identidade caboverdiana nesse novo cenário?

Esse é assunto para outro post. Para concluir, vale lembrar a posição de Eric Wagner (1990), que a exemplo de Paul Darby (2002), ao se perguntar se a difusão do esporte na África não pode ser explicada pela ideia de imposição estrangeira, investe, contudo, no argumento contrário; pode-se observar um processo de africanização da prática:

“Eu acho que nós pensamos demasiadamente em dependência cultural no esporte quando na verdade é o próprio povo que geralmente determina o que quer e não quer, e é o povo que modifica e adapta as importações culturais, o esporte, para atender suas próprias necessidades e valores” (p.402).

 Parece ser mais produtivo considerar não que o esporte substituiu e/ou destruiu as manifestações típicas de cada país, mas sim que ocupou espaço paralelo e foi ressignificado desde o diálogo com as peculiaridades locais, sem negar, todavia, que também em certa medida alcançou-se algo da intencionalidade estabelecida pela matriz europeia, inclusive porque os eventos e agências internacionais esportivas são certamente fóruns de ressonância que interessam aos países, especialmente aos recentemente independentes, como é o caso de Cabo Verde. Darby (2002) resume bem a questão:

“É interessante considerar as capacidades das populações locais para absorver, modificar e adaptar as importações culturais, como o esporte, para atender suas próprias necessidades e valores (…) Além disso, da mesma forma os esportes também serviram como fórum de resistência contra a exploração econômica e cultural externa (…) Isto foi conseguido utilizando o jogo como um mecanismo de expressão política radical e resistência às pressões hegemônicas da Europa, em primeira instância, e posteriormente por aproveitá-lo como uma força mobilizadora na construção e promoção do sentimento de nação, tanto nos limites internos quanto na cena internacional” (p.44).

 O percurso do golfe em Cabo Verde demonstra o quanto parece apropriada essa consideração.

 Para saber mais

 BARROS, Antero. Subsídios para a história do golf em Cabo Verde. São Vicente: Clube de Golfe de São Vicente, 1981.

 BARROS, Antero. Subsídios para a história do cricket em Cabo Verde. Praia: COC/CPV, 1998.

 DARBY, Paul. Africa, football and FIFA: politics, colonialism and resistance. Londres: Frank Cass & Co, 2002.

 WAGNER,  Eric. Sport in Asia and Africa: a comparative handbook. Londres: Greenwood Press, 1990.

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