A violência e o futebol: uma antiga e reveladora relação.

31 de agosto de 2009

Olá amigos, estou de volta para tratar de um tema caro aos esportes. A violência. No dia 24 de agosto um jogador de futebol desferiu uma voadora em seu adversário poucos instantes  após serem expulsos (El defensor Sergio Jáuregui, de Blooming, le aplicó una patada voladora descalificadora al delantero uruguayo Leonardo Medina en el clásico ante Oriente Petrolero.) As imagens não deixam dúvidas, a covardia é notória e a atitude do atleta reprovável. Desse modo, uma vez mais a violência “assume o lugar” do espetáculo futebolístico e produz discursos de que o futebol não pode ser marcado por esta violência e que, fundamentalmente, essa violência não faz parte do futebol.

http://www.youtube.com/watch?v=S4qHKXkXumY&eurl=http%3A%2F%2Fwww.sportingnews.com%2Fblog%2Fthe_sporting_blog%2Fentry%2Fview%2F31325%2Fyour_face_is_in_the_way_of_my_foot&feature=player_embedded#t=49

Bem, dito isto, precisamos nos deter sobre a história do futebol para verificarmos se os discursos proferidos são efetivamente verdadeiros. Para tornarmos esta análise mais adequada e voltada para o “nosso” futebol, estarei pensando exclusivamente o futebol brasileiro.

Desde a chegada do futebol ao Brasil a violência já foi um tema recorrente. Jornais e revistas daquele período já traziam notas sobre a violência e, fundamentalmente, atribuíam estas condutas as classe populares. Notadamente, uma questão importante para época. Haja vista, as disputas simbólicas e reais que definiam os verdadeiros/legítimos representantes do esporte bretão. a violência, neste sentido, colaborava para a exclusão das camadas populares. vejamos:

Em 02 de julho de 1911, sobre uma partida entre o Botafogo e o América, a diretoria do primeiro publica uma carta que justifica a violência de seus jogadores diante da confusão ocorrida. Num trecho significativo a diretoria escreve que indivíduos

declinavam das características de sportmen, insultando no mais baixo escalão os nossos jogadores e respondendo às espontâneas reclamações das archibancadas, com o emprego de gestos offensivos á moral, somente próprios de indivíduos cuja classificação nos dispensamos de fazer….

…..diante de taes fatos, é bem de ver-se que, não seria possível aos jogadores do primeiro team do botafogo, por mais esforços que fizessem, manter a compostura conveniente

….A diretoria do Botafogo viu realizadas as suspeitas que tinha por denuncia várias de que o América pretendia lançar mão de todos os meios, lícito ou ilícitos próprios ou não do sportmen, para conquistar a victoria do seu primeiro team”.

Numa outra citação podemos verificar que a violência era comum e que os esforços em contê-las já estavam se tornando uma questão para as forças armadas. Ou seja, já era grae naquele período.

“ De novo emittimos estas palavras, referindo-nos ás desagradáveis occurrencias desse match em que até a força armada foi chamada para conter os ânimos dos exaltados… …Somos dos que sempre têm prestado apoio aos referees, porque mais uma vez temos apontado quão árdua e ingrata é essa tarefa”[1].

Claro que a violência empregada no vídeo nada tem haver com questões sociais ou raciais. Mas, é significativa para demonstra que o homem e suas reações (controle e descontrole) são, em algumas circunstância, quando tratamos do esporte em larga escala, imprevisíveis, imponderáveis e, fundamentalmente, inconsequentes.

Enfim, a violência física, bem como a simbólica, sempre esteve presente no futebol. Em momentos diferentes representaram questões sociais, raciais e pessoais e, em alguns casos, houve a conexão de dois ou mais destes itens numa mesma circunstância.  Vale ressaltar também que sempre existiu tentativas de conter a violência, fosse gerada por quaisquer motivação ela sempre foi criticada. devemos lembrar que estamos tratando de Brasil, pois na Inglaterra do século XIX a violência produzia uma outra leitura.

Neste sentido, compreendo que infelizmente continuaremos assistindo vídeos como esses enquanto existir o esporte. Ainda que devam ser combatidos, o descontrole e a violência fazem parte do espetáculo. Mais ou menos graves dependerá muito mais do agente do que do esporte. Para tornarmos essas situações ainda mais pontuais, devemos compreender  o fenômeno esportivo de forma mais ampla e articulada.

Grande abraço para todos,

Ricardo Bull – Historiador

ricardobull2005@hotmail.com


[1] Jornal do Brasil, 12 de setembro de 1912.

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