A Fórmula-1 e a nossa vã filosofia

 

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

 

Recentemente o circo da Fórmula-1 foi abalado por um escândalo talvez sem precedentes; para muitos, o maior da história da modalidade.  Em 2008, durante o grande prêmio de Singapura, o piloto da equipe Renault, Nelsinho Piquet, chocou-se contra a mureta de proteção na décima e terceira volta da corrida. O acidente não teria nada de excepcional não fosse a suspeita rede de coincidências ao redor da batida, que aconteceu justamente no momento em que Fernando Alonso, o outro piloto da equipe, se encontrava nos boxes. No planejamento estratégico das corridas, o número de paradas é aspecto decisivo. Menos pit stops garantem menos perda de tempo com o procedimento de parada, abastecimento e troca de pneus; mais pit stops, por outro lado, permitem um carro com menos combustível e, portanto, mais leve e veloz. Com a colisão de Nelsinho Piquet, contudo, o safety car entrou na pista, o que impedia temporariamente as ultrapassagens de acordo com as regras. Assim, Fernando Alonso pode fazer mais paradas, garantindo um carro sempre mais leve, sem ter se afastado muito dos outros veículos, que se encontravam, afinal, alinhados e sem a possibilidade de ultrapassagem. Fernando Alonso, que largara na décima quinta posição venceu o grande prêmio.

Diante do beneficiamento, logo veio a acusação de que o acidente fora intencionalmente arquitetado pela própria escuderia. Seu diretor esportivo, Flavio Briatore, tornou-se o principal suspeito de ter dado ordens para a batida. A Federação Internacional de Automobilismo abriu investigação, ouvindo integrantes da equipe e solicitando as gravações da comunicação via rádio, sem ainda ter chegado a nenhuma conclusão.

Independente do resultado das apurações, o episódio traz a tona os dilemas sobre a verdadeira natureza do esporte. Seria este um fenômeno cosmopolita capaz de engendrar valores humanisticamente edificantes ou, ao contrário, seria apenas um lugar para a competição exacerbada, sem limites nem escrúpulos, visando o lucro e as vantagens utilitárias de toda ordem? Entusiastas e detratores se confrontam sem perspectiva de consenso em polêmicas que às vezes beiram à perda do espírito esportivo.

Algumas teorias sociais razoavelmente aceitas e bem difundidas têm sublinhado os aspectos mais malévolos do esporte. O nome do sociólogo francês Jean Marie Brohm é provavelmente o mais reconhecido nesse sentido. É dele a tese sobre a Sociologia política do esporte, que sumariou os princípios desse tipo de interpretação. Segundo ele, o esporte seria um “puro negócio sem crença nem lei, dominado pelo evangelho da rentabilidade, da rapina, da dominação”; espaço privilegiado para a atuação de “redes de traficantes”, “picaretas” e “mercadores de escravos dos tempos modernos”. A violência, a corrupção, as fraudes, a trapaça generalizada, a ganância, a lavagem de dinheiro, a evasão fiscal e o uso de drogas em geral seriam todos resultados direto da própria lógica da competição esportiva, e não desvios ou deformações ocasionais. “A selva esportiva, aliás, não faz mais do que refletir seu alter ego: a selva da globalização liberal”.

Em parte, tudo isso é verdadeiro e os últimos acontecimentos da Fórmula-1 não deixam mentir. Além da já vergonhosa suspeita sobre a equipe Renault, episódios recentes de espionagem e de estímulos freqüentes a outros comportamentos anti desportivos agravam a crise moral da modalidade.  

O detalhe é que a falta de caráter não foi uma invenção do esporte. O fato das suas arenas terem servido em várias oportunidades como palco privilegiado para a expressão de condutas tão condenáveis, não desabona nem apaga eventos de outra ordem, como quando ele é utilizado para a propagação de mensagens de paz e solidariedade, por exemplo. Entre o céu e a terra, existem mais coisas do que sonha nossa vã filosofia. Ao lado da maracutaia e do cambalacho sabemos de outras realidades bem mais abonadoras.

O esporte é feito por homens e mulheres de carne e osso, e carrega, portanto, suas ambigüidades e contradições, bem como seus méritos e qualidades. Destacar suas derrapagens apenas para condená-lo em bloco é tão estéril quanto inútil. Nesse caso, as posturas que só detratam e também as que só idolatram tendem a ser igualmente limitadas: pois, em última instância, ambas nos impedem de pensar.

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