O macho acuado: o homem do século XXI por Leonardo Bahiense

 

Na esteira da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, houve a construção do que convencionou-se chamar de moral burguesa. A mulher deveria ser casta até o casamento e dedicar-se à família e aos filhos. Esta moral foi fortalecida por contos de fada, por exemplo, “Chapeuzinho Vermelho”. A bem da verdade, o conto existe desde os tempos medievais, contudo, servia bem aos interesses da classe burguesa em ascensão em meados do século XVIII. Nele, vemos uma menina ser comida por um lobo. A tragédia se dá por Chapeuzinho não ter respeitado as ordens da mamãe de seguir diretamente para a casa da vovó – a tarefa da menina era levar doces para a velhinha. “Comer” aqui tem um duplo sentido. Comer no sentido literal, isto é, Chapeuzinho no estômago do lobo e comer no sentido metafórico, quer dizer, com conotação sexual – esta segunda perspectiva torna-se mais clara quando atenta-se para a cor da roupa da menina: vermelho (cor que lembra sexo, mestruação, emoções violentas). Tal conto era um alerta para as filhas de famílias burguesas que deviam respeitar as mães, de sorte a preservarem a pedra preciosa – o hímem intocado – e serem mulheres respeitadas, leia-se, prontas para o matrimônio.

Qual o papel do homem nessa nova moral? Os homens deviam ser provedores, leia-se, disponibilizar os bens do capitalismo nascente à família, notadamente à esposa. As mulheres lutaram contra o “fantasma de Chapeuzinho”, isto é, buscaram se emancipar do sexo masculino. Não aceitaram ser coadjuvantes da história e utilizaram todos os meios disponíveis para isso – já foi dito que os esportes, como o tênis e o ciclismo foram mobilizados politicamente pelas mulheres, no alvorecer do século XX, como instrumentos por meios dos quais elas redimensionaram a sua auto-imagem. E os homens? Eles parecem acuados, continuando a aceitar o papel social que lhes impuseram no século XVIII. Não por outra razão trabalham mais do que seus corpos podem aguentar – o que não significa dizer que as mulheres também não labutem – visto que, por pressões sociais, não conseguem redefinir a noção de masculino. A expressão “homem não chora” parece ainda determinar o que a tessitura social espera do macho no século XXI. Resultado: corpos masculinos doentes, deprimidos, melancólicos. Diante de tal instabilidade, o álcool, o cigarro, as drogas e o sexo representam possibilidades fortuitas de gratificação. As convenções sociais em relação ao macho, levam-no também a uma outra atitude: a agressividade gratuita. O que é igualmente problemático. Os gays representam uma questão à parte. Desde o final do século XIX procuraram construir identidades alternativas ao masculino. Os homoeróticos de São Francisco, Califórnia, naquela época, já se associavam aos médicos com o intuito de serem reconhecidos como enfermos. A estratégia aqui era a seguinte: sendo doentes não podiam ser culpabilizados por sua homossexualidade. Tal artifício não livrou-os do preconceito e, em várias partes do mundo – de São Paulo a Tel Aviv – são uma das principais vítimas da violência. Ser macho não é apenas ter um pênis entre as pernas; é uma construção simbólica. Lutemos por uma nova masculinidade!

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