A LETRA E A BOLA II

ESCRITORES E JOGADORES: AS EXPERIÊNCIAS DE CAMPO

Foto: Tiago Santana

Foto: Tiago Santana

 Por Edônio Alves

No primeiro artigo escrito para este blog, no qual nos propusemos realizar uma conversa sistemática sobre a relação do futebol com a literatura – texto intitulado: A letra e a bola: futebol e literatura no Brasil -, apresentamos a idéia geral que a meu ver preside a interação entre essas duas formas de arte e de comunicação estética.

Dizíamos, a princípio (clique aqui para ler o texto), que neste particular, a relação entre os dois campos se dá em dois níveis principais. Um estrutural – a literatura apanharia o futebol enquanto matéria significante, tema do nosso primeiro ensaio -, e outro motivacional: o futebol entraria na literatura como uma extraordinária fonte de preocupações temáticas, com toda a sua gama (ou amálgama) de personagens, tipos humanos, situações, aporias existenciais constitutivas, vicissitudes potenciais que encena, desafios socioculturais que coloca a nossa frente; enfim, o futebol se apresentaria à literatura como uma espécie de espaço de representação em que a sua dimensão ficcional se realiza na prática vivencial enquanto um jogo.

Dizíamos também que essas duas formas de linguagem se constituem de elementos estruturais em comum: tanto num jogo de futebol como numa peça literária, por conseguinte, há sempre uma narração, e, portanto, um narrador ou vários narradores-autores em campo: os jogadores, os locutores esportivos, os repórteres de TV etc, pelo lado do futebol; e as figuras textuais de linguagem – um técnico, um juiz, um goleiro, um torcedor, um observador distanciado e onisciente, conforme o caso, enfim – pelo lado da literatura.

Dizíamos que também nos dois casos, há sempre um tempo a ser decorrido e que, portanto, a coisa se transforma num domínio em que o tempo precisa ser dominado, embora isso seja impossível técnica e conceitualmente falando. Falávamos ainda que se há sempre uma narração, existem personagens e, a partir deles, ações que se desenvolvem no tempo e no espaço; e que, por último, tudo isso  forma um enredo em que se constituem uma partida de futebol em si, ou uma peça literária em particular, seja ela um conto, um romance ou um poema, gênero este de que demos um exemplo demonstrativo naquela oportunidade.

Vamos, portanto, desta feita, tratar aqui da manifestação prática destes aspectos todos da relação da literatura com o futebol. Isto é, tomarmos a partir da análise rápida de um gênero literário – o conto -, a questão no seu segundo desdobramento já apontado: o aproveitamento do futebol pela literatura no seu âmbito motivacional, na sua capacidade de haurir do rico universo do futebol a sua matéria temática de expressão.

E já que vamos tratar do âmbito motivacional, ou seja, dos aspectos do motivo ou do assunto, tomemos como exemplo demonstrativo o tema da motivação mesma, entendida esta como o ato ou o efeito de motivar, acepção tal que, oriunda do campo da psicologia humana, quer expressar a idéia de ter-se motivo para agir, fazer algo, empreender ações no tempo e no espaço, enfim, por obra da nossa força interior (o ânima para os gregos) fazer as coisas andarem. E isto, acrescento, valendo tanto para a vida na sua concepção geral quanto para o jogo de futebol, na sua configuração particular.

Pois bem! Escolhemos aqui dois contos de futebol que pode nos auxiliar no entendimento das questões acima propostas para a interação literatura e futebol. O primeiro chama-se “Novatos”, de autoria do escritor gaúcho Cláudio Lovato Filho. O outro intitula-se “Na boca do túnel”, do escritor carioca Sérgio Sant’ Anna. Ambos têm em comum o fato de serem narrativas ficcionais que têm como personagem-chave a figura do treinador de futebol e, por intermédio dele, expressarem uma reflexão refinada sobre o universo intrínseco do jogo de futebol, mas, também, a partir dele, abordarem a esfera extrínseca da vida no seu âmbito mais geral. Resumindo para simplificar: discutem, por intermédio da ficção literária, o jogo da vida e o jogo da bola.

Começaríamos dizendo que o conto de Cláudio Lovato Filho toma o tema da motivação por um dos seus aspectos correlatos: a influência do tempo sobre ela; ou dito de maneira mais genérica, a ação do tempo sobre todas as coisas; as físicas e as metafísicas; as materiais e as imateriais; todos os corpos e todos os espíritos, enfim. Só que o viés da abordagem – diretamente intrínseca ao universo do futebol -, foca o conflito dilemático entre a paciência de esperar para agir versus a urgência de realizar, e é aqui que flagramos, através da segura exposição de um narrador em terceira pessoa, as reflexões do velho treinador de futebol, Ary Santamaria, às voltas com uma questão atinente ao escopo do futebol, mas, também, a todo o universo como um todo, no qual habitamos e no qual só temos uma atitude geral a tomar enquanto nele vivemos: ou realizamos as coisas no seu devido tempo ou esperamos o tempo certo para realizá-las, coisa que nunca sabemos ao certo.

 A questão que se coloca para o personagem em questão é a seguinte, nas palavras do próprio narrador da história:

“O velho treinador tinha jogadores demais que entravam muito bem durante a partida, mas que, quando colocados em campo desde o início, sumiam em pouco tempo, murchavam, tornavam-se menos do que medíocres. Eram prata-da-casa, promessas de craque, o clube apostava neles, a torcida também, mas ainda não estavam prontos. O legendário Ary Santamaría, treinador de muitas batalhas, sabia que só o tempo faria com que amadurecessem. Mas estava preocupado com as expectativas criadas em torno deles. O clube queria resultados imediatos”.

A partir desse problema prático, toda uma ampla reflexão sobre a vida no geral, refletida no jogo de futebol em particular, é acionada neste conto que realça o poder da experiência transfigurada literariamente na pessoa de um treinador de futebol, para demonstrar uma bem elaborada intersecção do futebol com a vida; da palavra literária com o futebol, e deste com a frágil condição humana.  Se não, vejamos, na seqüência da abordagem pelo técnico da questão do aproveitamento, no jogo, dos seus ainda imaturos jogadores:

“Para muitos era um mistério do futebol. Não para o experiente Santamaria. Ele sabia do que se tratava. Já enfrentara a dificuldade muitas vezes antes. Tinha a ver, acima de tudo, com motivação. Os garotos precisavam sentir a urgência de encontrarem uma solução para a partida. Quando entravam faltando 25 ou 20 minutos, colocavam fogo no jogo, infernizavam a vida dos defensores adversários, assumiam integralmente a missão de salvar o time. Também tinha tudo a ver com o fato de entrarem em campo descansados, claro. Pegavam os zagueiros e os volantes já com a língua de fora e barbarizavam para cima deles. Habilidosos, os meninos tinham gás de sobra e um rico repertório de jogadas, e surpreendiam a todos.

“Quando começavam jogando, porém, caíam logo nas garras do sistema defensivo adversário, tornavam-se presas fáceis de zagueiros e volantes rodados. Dosavam mal a energia, corriam demais no início. Com poucos minutos de jogo já haviam informado as técnicos e jogadores oponentes todo o seu acervo de truques com a bola e sem ela. Acabavam sendo anulados com 10 ou 15 minutos de jogo. Eles iam melhorar, claro. Com o tempo aprenderiam a guardar forças para distribuí-la ao longo de toda a partida, simplificariam algumas jogadas, guardariam aquele drible especial para o momento mais oportuno, aprenderiam a ser venenosos e a dar o bote na hora mais apropriada, na situação mais aguda. Aprenderiam a se fazer de mortos. O jogo jamais perderia a graça para eles só por estarem muito marcados. Mas o clube queria resultados a curto prazo”.

O problema da motivação – e da ação do tempo sobre ela – é enfrentado pelo treinador Santamaria na perspectiva de que essa ação é benéfica às coisas; pelo ângulo de que há sempre um tempo certo para se fazer algo, consistindo a sabedoria humana na paciência bíblica de saber esperar para agir corretamente, conforme o ensinamento do Eclesiastes de que “há tempo para se plantar e há tempo para se colher”, e por aí vai.

Tanto que num certo momento da narrativa, ele se pega pensando na ex-mulher, Júlia, já falecida, e do quanto ele próprio já tinha sido um jovem precipitado e impaciente. Enfim: o encaminhamento da narrativa se dá para uma saída otimista da questão para a qual o narrador aponta um caminho alvissareiro:

“O velho treinador Ary Santamaria pensou então que no ano seguinte ele também teria de estar melhor. Porque tanto os seus garotos quanto ele próprio, assim como todas as outras pessoas, seriam sempre novatos nesta vida”.

“Apesar da melancolia que não parava de crescer dentro dele, Santamaria ainda sentia-se abraçado pela confortante sensação de que sempre se poderá ficar melhor enquanto houver tempo e se tiver espírito inquieto”.

 Já no conto de Sérgio Sant’ Anna, contudo, o problema toma outra direção. A peça é uma narrativa refinadíssima em que um técnico de futebol, transfigurado em narrador de primeira pessoa – um narrador-personagem – faz também apuradas reflexões sobre a filosofia do jogo da bola e da própria vida, num sentido mais geral, quando esta e este, por razões de contingências especiais, formam um conjunto de fatores sobre os quais se fundem para sustentar uma existência particular. Trata-se aqui, mais particularmente ainda, das experiências de um treinador que assiste a derrota por 7 a 1 do seu time de subúrbio frente a um dos grandes clubes do futebol carioca, no momento em que pressente que está prestes, pela chegada da velhice (simbolizada pelos números acachapantes do placar inexorável e injusto), a abandonar não só o campo do jogo, mas, sobretudo, o da própria existência que se esvai.

O tempo da história é o da duração do próprio jogo – desde a preleção para os seus jogadores no vestiário até o seu final, com o Maracanã já às escuras – durante o qual a palavra reflexiva e contundente de um senhor já experimentado na arte de comandar técnica, tática e disciplinarmente grupos heterogêneos de homens em interação, conjectura sobre o sentido ou inutilidade da vida, e, por extensão, do próprio jogo de futebol que a ele lhe dar sentido. Além de – por uma atitude reflexa – refletir sobre a própria validade da reflexão, o que, neste caso, transformada em literatura, implica o próprio papel desta arte como forma de conhecimento humano. Um narrador que muito bem podia ser definido assim, numa operacional paráfrase ao poeta Fernando Pessoa: “O que em mim conta, está pensando!”

 Aqui, pois – em paralelo com a abordagem anterior do mesmo tema – o que está em jogo enquanto investimento temático extrínseco é a motivação para a vida; a busca de um sentido geral para a existência; a redescoberta de um valor essencial à integridade subjetiva com a qual, através dos sentidos que atribuímos às coisas, justificamos a nossa existência no mundo.

 Neste sentido, veja-se um dos trechos da narrativa que aponta justamente para a falta de sentido de todas as coisas, conforme o ângulo que se olha o mundo ou a posição e circunstância em que se encontra o observador:

“Uma reflexão sobre o futebol, num momento depressivo, quando o seu time perde por quatro a zero quase a terminar o primeiro tempo e você está ali, na boca do túnel, no banco cavado no cimento, tendo uma perspectiva do campo da qual se vêem principalmente pernas correndo de um lado para ou­tro em busca de uma pequena esfera de couro, em meio a rugidos ferozes da platéia, pode levá-lo a perguntar-se, numa ânsia súbita de abandono ou entrega ao destino, à velhice, à morte, se faz algum sentido isso: homens e mulheres de todas as idades a gritar numa paixão histérica por algo que não passa de uma bola entrando nesse ou naquele gol? Caralho, para uma pessoa sensata, que diferença isso pode fazer?”

 Contudo faz, sim, a diferença, o buscar sentido para as coisas, mesmo que através de um jogo – no caso o futebol – em que em última instância a vida se representa. Continuemos com as reflexões do nosso treinador-narrador:

“O silêncio, no vestiário, durante o princípio do intervalo, só é quebrado pelas respirações, que demoram a voltar ao normal. O que pode dizer um téc­nico já derrotado no meio tempo? Mandar, no desespero, como um general que reunisse os frangalhos dos seus soldados para a fase decisiva de uma bata­lha em que não pode render-se, que se lançassem todos ao ataque? Como um touro crivado de bandeirilhas que investisse para a morte?

Não, isso só faria aumentar o fragor da nossa derrota.

– Vocês não seguiram minhas instruções – eu disse, frio, mantendo a mes­ma calma que criou um mito em torno da minha pessoa.  – Vamos fazer, agora, como se fosse um outro jogo que ainda estivesse zero a zero. Vamos usar pelo menos isso a nosso favor: a tranqüilidade dos que nada têm a perder.

    – O Jair, por exemplo, está ali quieto, chupando uma laranja. É um indiferen­te ou um estóico, sei lá. Se dependesse dele, seria até possível virar um jogo desses. Bom, não exageremos, não seria impossível, ao menos, reduzir a diferença na contagem?

– Vamos continuar a fazer… Ou melhor, vamos começar a fazer o que eu mandei desde o princípio. Usar os pontas entrando em diagonal, para não le­var mais um monte de gols e pelo menos não perder a dignidade.

Foi o que eu disse, em meio a um silêncio de morte, mas não pude evitar que uma gota de suor pingasse do meu rosto sobre o terno branco. Já não sou mais o mesmo, penso, tirando um lenço azul do bolso.

O que se pode dizer de mim em poucas palavras? Que uso, mesmo nas tardes de verão, um terno imaculado? Que não suo (e para um bom entende dor isso  bastaria)? Que sou uma múmia do futebol que se recusa a morrer (e a vida, para mim, sempre foi o futebol)?”

Com esta indagação pessoal do personagem-narrador  entramos, por fim, no outro aspecto da relação do futebol com a literatura que propugnávamos no texto anterior: o âmbito estrutural que informa estes dois campos de ação e de linguagem humanas, desdobrado na idéia de que a literatura também apanharia o futebol enquanto matéria significante; matéria semiológica sustentada em afinidades constitutivas comuns, pois que a palavra – quando literária – também se sustenta numa relação fluida, sempre em curso, nunca parada, sempre transitiva, do seu corpo físico (o significante lingüístico) para com a coisa que representa (designa): o seu referente a que empresta sentido; o objeto representado. Assim como o futebol, que tem a peculiaridade de ser, na sua multiplicidade fenomênica, uma linguagem singular, posto que não verbal, uma supralinguagem também baseada numa unidade de sentido relacional e objetivamente móvel, cambiante, reversível, que é a relação do corpo humano com uma bola; algo liso e fluido, esférico, sem quinas, pontas, dorso ou face, igual a si mesmo em todas as direções de superfícies.

 Em decorrência disso, dizíamos que a literatura, por ser também uma supralinguagem só redutível a si mesma, está apta a captar o mundo na sua realidade mutável e cambiante, na sua operação alucinante de ser e de não ser, simultaneamente; no seu aspecto de realidade palpável e de irrealidade alucinatória onde, às vezes, o que parece ser, não é; e o que é não parece ser. Uma linguagem esférica, elíptica, portanto, como as curvas de uma bola no ar, apta a produzir, na forma e no conteúdo, a formulação das maiores questões humanas numa operação em que a palavra entra ao mesmo tempo como tema e como veículo deste tema, ou das questões que ele enseja.

 Pois é justamente isso que acontece nessa nossa exemplificação demonstrativa da matéria literária em si mesma – na rápida leitura desses dois contos em análise – com a conclusão das indagações do personagem da história sobre sua própria pessoa; sua condição de treinador de futebol e de narrador literário. Uma boa formalização literária tematizando o futebol em que forma e conteúdo se fundem numa matéria só. Uma matéria que é vida e que é palavra; que é realidade e que é ficção; que, no seu horizonte de limite, demonstra, na prática, que os dois campos mantém uma relação de interação mútua tanto como formas de expressão estética combinatórias e complementares (o jogo dá texto e o texto dá jogo) quanto como fonte de inspiração intrínseca geminada (pode haver jogadas de letra e letra de jogadas) como já demonstrávamos no exemplo do poema do artigo anterior.

Foto: Ed Viggiani

Foto: Ed Viggiani

 Concluamos tudo com a auto-inquirição do nosso personagem-narrador:

 “Eu, um discurso que se articula e se pretende íntegro e real para si e para os outros? Mas não será isso uma convenção, artifício que a qualquer momento poderá estilhaçar-se, esse eu que pronuncia para si e para os outros tal discurso, texto (imaginário?)? Esse eu que se transforma em outro na medida em que dele falo?

 Mas é como se apenas assim, através deste discurso, tornasse-me eu existente, a ilusão se materializasse, o caos se estruturando para formar uma reali­dade além da alucinação. Como se desse modo, somente, pudesse eu sentar­-me outra vez no banco próximo ao gramado, compreender-me dentro de uma função, a de técnico de um time derrotado. Sabendo, estoicamente, que tem de haver alguém que faça esse papel, como tem de existir um modesto bandei­rinha (que às vezes querem enganar), gandulas, espectadores, funcionários do estádio, todos nós acreditando – ou fingindo acreditar – no jogo”.  

 ***

 Para maior aprofundamento no tema, ler:

 CARNEIRO, Flávio. PASSE DE LETRA: FUTEBOL & LITERATURA. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

FRANCO JR, Hilário. A DANÇA DOS DEUSES: FUTEBOL, SOCIEDADE, CULTURA. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PEDROSA, Milton. GOL DE LETRA. Rio de Janeiro: Editora Gol, 1967.

COSTA, Flávio Moreira da. (org.). 22 CONTISTAS EM CAMPO. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

LOVATO FILHO, Cláudio. O BATEDOR DE FALTAS. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.

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