Honduras: Golpe e Futebol

Desde 28 de junho as ruas de Tegucigalpa foram palco de diversas manifestações. Com o golpe que depôs Manuel Zelaya ainda em seus pijamas, ondas de violência e conflito tomaram por diversas vezes as ruas, seguidos por medidas como toque de recolher e restrições à atuação da imprensa. No entanto, na noite do dia 14 de outubro, a manifestação popular que tomou as ruas era de outra estirpe. Nada de gás lacrimogêneo ou agressão policial. O que havia era a festa pela classificação da seleção nacional para a Copa do Mundo de 2010.

Com a vitória da seleção sobre o tradicional rival El Salvador e um gol dos Estados Unidos contra a Costa Rica nos últimos minutos de jogo, os hondurenhos carimbaram seu passaporte para a África do Sul e por uma noite seus problemas políticos foram deixados de lado, com partidários de ambos os lados se abraçando em uma fraternal festa popular.

Torcedores hondurenhos comemorando a classificação para a Copa do Mundo de 2010 nas ruas de Tegucigalpa.

Torcedores hondurenhos comemorando a classificação para a Copa do Mundo de 2010 nas ruas de Tegucigalpa.

No dia seguinte, no entanto, a festa já tomava contornos políticos mais claros e a disputa passava a ser sobre quem receberia os louros pela classificação, Manuel Zelaya ou Roberto Micheletti. Como presidente em exercício, Micheletti saiu na frente nessa disputa. Decretou feriado nacional no dia 15, uma quinta-feira, e foi ao ar en rede nacional de televisão para celebrar a conquista hondurenha.

Micheletti ainda fez com que o ônibus da delegação, que chegava na capital e se dirigia à catedral de Tegucigalpa agradecer à Nossa Senhora de Suyapa, padroeira do país, mudasse seu percurso e fizesse uma parada junto ao palácio onde funciona o governo, para que Micheletti recebesse os jogadores.

Já Zelaya, em sua posição de exilado político em sua própria casa, se reuniu com alguns colaboradores na embaixada brasileira para assistir a partida e, alguns dias depois, teria recebido a camisa autografada do capitão da equipe hondurenha, Amado Guevara, e posado para fotos. O presidente deposto afirma que os jogadores da seleção nacional são heróis que resistem ao golpe, mas que não possuem a liberdade para expressar suas oppiniões.

A relação entre a federação de futebol e o governo é profunda em Honduras, e não apenas no pós-golpe. A Federación Nacional Autónoma de Fútbol de Honduras (FENAFUTH) é autônoma só no nome. O presidente da federação, Rafael Leonardo Callejas Romero, fora presidente do país de 1990 a 1994 e José Rafael Ferrari, presidente da comissão de seleções da entidade, é um dos barões da mídia hondurenha, possuindo os maiores canais de televisão do país, além de um grande aliando de Roberto Micheletti. Rafael Callejas, acusado de corrupção ao abandonar o governo pelo derrotado Partido Nacional, Callejas buscou refugio junto ao futebol hondurenho. Mesmo no governo de Zelaya, do Partido Liberal, a federação hondurenha buscou ligações com o governo. Callejas nomeou Zelaya como “Presidente de Honra” da seleção, título que Zelaya perdeu juntamente com o golpe.

A realidade é que o binômio futebol e política andam juntos há anos em Honduras. Há 40 anos atrás, uma disputa de futebol entre Honduras e El Salvador pelas eliminatórias para a Copa de 70 – a mesma que ocorrera em 14 de outubro último – foi o estopim de uma breve batalha conhecida como Guerra do Futebol, sobre a qual já escrevi em outro artigo. Agora, como há 40 anos, o futebol é envolvido em um novo conflito em Honduras, ainda que de ordem interna. Futebol e política, uma vez mais, andam de mãos dadas.

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