De volta as chibatas…

Olá amigos, estamos de volta com um tema que parece ser do século XIX: castigos físicos. Por quê? Porque ainda hoje, século XXI, pessoas pelo mundo afora levam chibatadas e pedradas para pagarem pelos seus erros. Vocês devem estar se perguntando: O que isso tem haver com o futebol, já que esses “costumes” são comuns em países africanos e árabes e a minha participação no blog é relacionada ao futebol e a grupos sociais? Nesse caso, o que chamou a minha atenção foi à vítima. A partir daí, tentei desenvolver uma reflexão sobre o assunto.

Tal fato se passou na capital sudanesa e a vítima foi um astro do futebol nigeriano, contratado por um time local(Stephen Worgu, jogador do al-Merreikh d’ Omdurman). A história é a seguinte: Na última semana, um jogador nigeriano foi condenado a 40 chibatadas por ter ingerido bebida alcoólica e dirigido bêbado. Ademais, terá que pagar cerca de 100 dólares pela violação da lei. Ou seja, um astro do condenado à castigos físicos por beber e dirigir.

No país do futebol e da Lei Seca, se essa onda pega inúmeros campeonatos poderiam ficar prejudicados. Não acham meus amigos? E ainda, mesmo os conhecidos astros/beberrões do nosso futebol, que já se envolveram em acidentes em consequência da mesma motivação, iriam ficar mais atentos à lei. Será? E, por fim, o número de jogadores “farristas” diminuiria nessas condições. mais uma vez, Será? Podemos explorar esse tema a partir de inúmeras possibilidades. Vejamos a que escolhi para iniciar nosso bate-papo. Num país como o nosso, marcado pela distinção de classes, será que poderíamos implantar uma lei como essa e, bem como, será que teríamos cidadãos de “notório destaque” recebendo punições como estas? Não, essa é a minha resposta. porque? vejamos:

Porque no Brasil isso seria impensável? Primeiro vou deixar claro que sou contra o castigo físico, pelo menos para esse tipo de delito, rs (alguns casos considero até que mereçam umas boas chibatas, nos hediondos então.). Num país como o nosso, o problema seria nitidamente marcada pela distinção social, somente os menos favorecidos, possivelmente, receberiam as chibatadas. Os jogadores (população) das várzeas (subúrbios), onde a polícia sempre é mais contundente, receberiam os castigos. Ou será que alguém já imaginou o Adriano, ou mesmo o Ronaldinho, recebendo alguma chibatada no Brasil. Alguém desconfia?

Desde os primórdios nossa relação com a justiça é classista. Afinal, na mais ampla transformação pela qual passou o país, virada do século XIX para XX, os homens passaram a renovaram seus valores morais através do seu dinheiro. Capitanearam, desse modo, uma espécie de escudo contra punições.

O Macho ainda não estava acuado. Ao contrário, era detentor dos plenos poderes. Os grupos dirigentes, as elites, detinham, como ainda hoje, os privilégios sociais. Bastava ter uma boa renda e freqüentar o grupo certo. E, como em todas as esferas da nossa sociedade, o esporte também reproduziu estas marcas.

Mesmo no futebol, reconhecido como o esporte mais popular, as marcas de classe continuam sendo muito fortes, basta olhar e refletir sobre as arquibancadas do inicio do século XX e compara-las aos camarotes dos nossos tempos. Esporte democrático, para quem cara pálida !!!

O individualismo cresceu. O capital assumiu o protagonismo na relação entre as classes. Lênin dramatizou quando disse que o papel do individuo era uma bagatela na história. Ao mesmo tempo, devemos avaliar o coletivismo de Marx, explorado por Lênin, que atribuía tudo as classes. A complexidade é grande e merece um maior detalhamento. Quem sabe noutro momento.

Hoje, o eixo das minhas reflexões foram as distições e ações (simbólicas/reais) aplicadas, de forma diferentes, aos  grupos sociais. Seja no futebol, como em qualquer esfera da sociedade brasileira, somos desiguais por excelência. Parecemos, na melhor das hipóteses, ter implícito em nosso DNA ações e reações adequadas aos diferentes grupos sociais. Ser pobre e preto é quase um convite à punição. Ser rico e branco um passaporte pra céu.  Há quem seriam distribuídas as agressões.

Enfim, um ídolo levar chibatada é, sem dúvida, algo perturbador. Ainda que seja no Sudão. Contudo, eleger os grupos sociais economicamente menos favorecidos, como os únicos passiveis de punição é aterrorizante. Ainda que seja em nas terras distantes de Duque de Caxias.

Abraço para Todos,

Ricardo Bull

contato- ricardobull@ime.eb.br

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