Rio Vermelho: um arrabalde esportivo nas terras de Salvador

Por:

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog tenho abordado a história do esporte em Salvador e suas práticas iniciais. No post de hoje, falo de um bairro que por ser afastado da parte central da cidade, eram os bondes o melhor meio de se chegar até ele e mesmo assim com dificuldades e também, esta mesma localidade durante muito tempo foi um bairro de veraneio, com suas praias até então límpidas e tranqüilas. Na atualidade este bairro se caracteriza como o local da vida noturna soteropolitana, abrigando de intelectuais a artistas de diferentes áreas. Entretanto, entre fins do séc. XIX e início do século XX este mesmo local foi o cenário adotado pela cidade para suas experiências com a prática esportiva, este bairro é o Rio Vermelho.

Várias foram às modalidades esportivas que tiveram o Rio Vermelho como sede de suas práticas e foram vários os trechos do bairro que tiveram em suas terras o esporte. Dentre estes, podemos falar do críquete, do turfe, do futebol e do tênis.

Um dos locais do Rio Vermelho escolhidos para o esporte foi a Fonte do Boi e por lá se praticou o críquete, esporte trazido para terras baianas pelos ingleses, logo praticado pelos baianos, todavia, não foi um esporte que experimentou sucesso durante muito tempo.

Outra prática esportiva importante nessa época foi o turfe e também este aconteceu no Rio Vermelho, que teve um hipódromo e “onde hoje é o Parque Cruz Aguiar existia o Hipódromo e havia corrida de cavalos… o Hipódromo ficava atrás do atual Teatro Maria Bethânia, aí até onde é hoje a Av. Juracy Magalhães Neto…”[1]. O turfe no Rio Vermelho viveu períodos de grande sucesso, atraindo grande interesse da população para as suas corridas. Acontece que o hipódromo não serviu apenas ao turfe, já que também se praticou o futebol no mesmo espaço.

Muito se fala que o primeiro local escolhido para a prática do futebol em Salvador foi o Campo da Pólvora, onde o futebol não se demorou muito por diversas razões e além do mais, logo o poder público impediu que neste espaço se jogasse o futebol. Desta forma, com o impedimento do Campo da Pólvora passou a ser necessária a constituição de outro espaço para a prática do futebol e é aí que surge o bairro do Rio Vermelho e logo “cuidou-se dos preparativos para que naquele arrabalde fosse realizados campeo-natos (sic) que antes, nos outros locais, ainda não eram realizados (LEAL, 2002, p. 182)”.

Hipódromo do Rio Vermelho.

Fonte: LOPES. Licídio. O Rio Vermelho e suas tradições: memórias de Licídio Lopes. Salvador: FUNCEB, 1984.

 No Rio Vermelho o futebol foi praticado nos mesmos espaços onde havia se dado o turfe, ou seja, ainda não possuía um espaço especifico se valendo da adaptação de outros para acontecer, o que denota sua característica de esporte ainda em fase de organização na cidade de Salvador, mas mesmo assim, experimentou tempos gloriosos, pois “o campo oficial de futebol era aqui no Rio Vermelho, a Liga Bahiana de Desportos Terrestres, e os campeonatos eram disputados aqui. Nessa época, no dia do jogo, o bairro se enchia de gente, os torcedores. Os clubes campeões daquele tempo eram o Ipiranga e o Botafogo…”.[2] 

            Desta forma e sob esta condição, o futebol segue sendo no Rio Vermelho até que veio “uma crise inevitável do foot-ball, crise esta que só pôde ser attribuída aos meios defficientes de conducção para o Rio Vermelho, que motivaram aos poucos, o empalidecimento da estrella do foot-ball (GAMA, 1923, p. 320)”. Reforçando o que pareceu ser o pior problema do futebol no Rio Vermelho, Leal (2002) demonstra que “a cidade se espalhava, havia necessidade de se construir um campo de foot-ball mais próximo do centro para satisfazer a todos os soteropolitanos, já que o esporte bretão tinha crescido acentuadamente e os bondes chegavam ao Rio Vermelho lotados (p. 185).” Mesmo com a mudança do futebol para outro espaço, o Rio Vermelho continuou a ser importante para este esporte, pois, vários clubes passaram ou tiveram sede no bairro e destes, destacamos o Botafogo (1914) e o Ipiranga (1906) que usavam campos no Rio Vermelho.

Fonte: Revista Artes e Artistas: sports, theatro, humorismo e cinema, Ano IV, n. 150, Seção Sportivas, p. 150.

Outro esporte que foi praticado no bairro foi o tênis. Em 1923 foi fundado o Rio Vermelho de Tênis, também no hoje denominado Parque Cruz Aguiar, no mesmo espaço onde existira o hipódromo e o campo de futebol, contando também este clube com atividades de ginástica.

Vários outros foram os clubes existentes no Rio Vermelho ao longo dos tempos, várias ainda foram às modalidades praticadas, todavia, ao mesmo tempo em que o bairro perdeu seus ares de arrabalde, aproximando-se da cidade, o esporte foi também se distanciando, assumindo o bairro outra feição, a da agitação noturna.

 

Referências:

GAMA, M. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: s.e, 1923.

LEAL, G. da C. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

 

 


[1] Depoimento de Bel. Tarquínio Gonzaga no livro Rio Vermelho: projeto histórico dos bairros de Salvador. Salvador: FUNCEB, 1988.

 


[2] Depoimento da Prof. Stella Calmo Teixeira no livro Rio Vermelho: projeto histórico dos bairros de Salvador. Salvador: FUNCEB, 1988.

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