Nas montanhas dos talibãs

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

Por volta do dia 31 de julho desse ano, três montanhistas desapareceram ao realizarem caminhadas no Curdistão, região localizada na intercessão dos territórios da Turquia, do Iraque, do Irão, da Síria, da Armênia e do Azerbeijão! Recentemente o episódio veio a público através de relativa difusão nos meios de comunicação brasileiros.

A prática do montanhismo expõe seus praticantes a certos níveis de risco, que tentam ser minimizados o mais possível. Acidentes, porém, sempre podem acontecer. Nesse caso, entretanto, o desaparecimento dos montanhistas, que foi assunto nos noticiários, não se tratou exatamente de acidente. No início de agosto, o governo dos Estados Unidos, que desde 1979 não tem relações diplomáticas com o Irã, fora informado através da embaixada da Suíça em Teerã, que três norte-americanos haviam sido detidos por soldados iranianos depois de atravessarem sem autorização a fronteira do país. O casal Shane Bauer e Sarah Shourd, que há pouco mais de um ano viviam em Damasco, na Síria, resolveram ir com o ex-colega de faculdade Joshua Fattal para um despretensioso passeio de fim de semana pelas montanhas do Iraque. Ao que parece, os desavisados esportistas cruzaram por engano as mal demarcadas fronteiras entre Irã, Iraque e Curdistão, quando então foram presos para averiguações. De acordo com recente declaração do vice-ministro do exterior iraniano, Ali Reza Salari, a prisão é para investigar o “motivo verdadeiro” da entrada dos montanhistas no país.

Não é preciso perspicácia para perceber que o lugar por onde caminhavam os montanhistas é pouco recomendado à passeios. Mesmo assim, turistas têm curiosamente insistido na visita à lugares desse tipo. O bom senso parece às vezes sucumbir ao desejo de apreciar paisagens espetaculares. Existem, inclusive, agências de turismo especializadas na organização de viagens esportivas dessa natureza, com destaque à destinos em zona de conflito. A Great Game Travel, por exemplo, tem como carro chefe o oferecimento de pacotes turísticos ao Afeganistão, cujo ponto alto é o treking pelas belas montanhas do vale do Bamiyan, mountain bike ao redor dos lagos de Band-i-Amirno, ou quem sabe uma estadia compulsória e por tempo indeterminado nas cavernas dos talibãs.

Montanhistas caminham por algum longínquo e perigoso ponto da Eurásia.

No Paquistão, com outras operadoras, a cordilheira do Karakoram é o que justifica a ânsia de aventurar-se num país que sofre com uma insistente instabilidade política. Sucessivas guerras com a Índia, disputas internas e nem mesmo a participação paquistanesa na guerra do Golgo ao lado da Arábia Saudita desanimam os intrépidos turistas. Suas nervosas máquinas fotográficas parecem simplesmente desconhecer o medo e o perigo.

No Nepal, a desconfortável posição geopolítica do páis, expremida entre a China e a Índia, tampouco a guerra civil entre as forças do governo e o Exército Popular de Libertação, tambem não desencorajam o ímpeto expedicionário dos montanhistas. Ao contrário, aliás, esportistas de toda parte visitam o país na esperança mesmo de poder encontrar e interagir com os rebeldes. Segundo a Associação de Agentes de Montanhismo do Nepal, na região de Khumbu, onde fica o monte Everest, é comum que turistas a caminho da montanha ofereçam dinheiro para apoiar a causa da insurreição popular, que de orientação maoísta e liderada pelo Partido Comunista do país, luta contra o regime monárquico e o expansionismo indiano. Talvez por isso as próprias lideranças maoístas já tenham declarado oficialmente que não pretendem fazer mal aos turistas. Montanhistas, por seu turno, se entusiasmam com o recibo atualmente oferecido pelos maoístas em favor dos donativos. O tal recibo, nas mãos dos turistas, se converte numa espécie de macabra recordação.

Agora, com a inevitável intimidade nas relações, guerrilheiros têm já deixado de lado o pudor. Ao invés de ficarem esperando a procura espontânea de viajantes mais destemidos, eles mesmos tomam a iniciativa do encontro. Pousam para fotos com suas beretas e Aks-47 em punho e pedem contribuições em dinheiro. Ninguém nunca negou.

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