O fim das touradas?

por Victor Andrade de Melo

Em outro post, exatamente aquele que deu início a nosso blog (https://historiadoesporte.wordpress.com/2009/05/), já tínhamos falado algo sobre as touradas, especificamente sobre as que ocorriam no Rio de Janeiro do século XIX.

Tratar o tema, na sua relação com a história do esporte, trata-se de um esforço de captar as peculiaridades de uma prática anterior à configuração moderna do fenômeno esportivo, que com esse em determinado momento dividiu a construção de sentidos e significados (no início do século XIX), que foi perseguida por não se adequar às novas dimensões simbólicas da modernidade, mas que ainda assim permaneceu dada a sua inserção profunda em algumas culturas, como se pode perceber em algumas regiões de Portugal e Espanha.

Não surpreende, assim, que as corridas de touro tenham sido uma temática constante na obra de muitos artistas espanhóis, em muitos momentos distintos (tais como Francisco Goya, Salvador Dali e destacadamente Picasso, um dos grandes nomes da arte moderna), e mesmo de artistas de outros países, como o francês Edouard Manet.

Pois bem, ontem (18 de dezembro de 2009), naquele país que é mais comumente mais identificado com a prática, a Espanha, um passo foi dado para a proibição das touradas. O Parlamento da Catalunha acatou um abaixo-assinado de 180 mil assinaturas, liderado pelo movimento “Plataforma Prou!” (http://www.prou.cat/castellano/index.php), e por apenas 8 votos decidiu transformar o pedido de proibição em um projeto de lei que terá que ser discutido no ano de 2010.

O “Prou” (Basta!, em catalão) é uma iniciativa legislativa popular apoiada por muitos cidadãos da Catalunha, mas também muito contestada, inclusive por espanhóis de outras regiões autônomas, especialmente daquelas mais ligadas a ideia de uma Espanha unida.

A princípio, parece difícil que esse movimento tenha sucesso por toda a Espanha. É verdade que, lembremos, a tradicional caça às raposas foi também extinta na Inglaterra. Mas por lá essa estava relacionada aos costumes de um pequeno, ainda que poderoso, estrato populacional. As touradas estão profundamente enraizadas em algumas regiões espanholas (e portuguesas).

De qualquer forma, é de se destacar essas ações coletivas que estabelecem tensões ao redor da prática. Além disso, por todo o país há outros movimentos, como o “Gallicia mellor sen touradas” (http://www.galiciamellorsentouradas.org/).

De outro lado, não são poucos os que são a favor, embora não se posicionem tão claramente, e seguem sendo muitos os festivais de touros espalhados por todo o país. Os embates ao redor da questão são incríveis: tradição versus modernidade, identidades nacionais versus identidades locais, a lógica do espetáculo versus a manutenção de um conjunto de valores.

 De qualquer forma, para nós historiadores do esporte, uma questão merece destaque: é interessante ver uma vez mais como os objetos que nos dizem respeito em diferentes níveis dramatizam as múltiplas tensões de uma certo quadro social.

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