Os Mega Eventos Esportivos como Palco de Afirmação Nacional, ou Considerações Após o Ataque em Cabinda

A Copa Africana de Nações (CAN) se iniciou oficialmente ontem, dia 10/01/10, com o empate entre Angola e Mali. No entanto o torneio teve seu verdadeiro início no dia 08, sexta-feira passada, com o ataque do braço armado do grupo separatista FLEC (Frente de Libertação do Estado de Cabinda) à delegação do Togo, resultando na morte do motorista angolano, de um auxiliar-técnico e do assessor de imprensa togoleses.

Separado do resto do país pela República Democrática do Congo, Cabinda é um enclave angolano que desde a independência de Angola luta por sua separação. Cabinda surgiu após a Conferência de Berlim, em 1885, que dividiu o continente africano entre as nações colonizadoras européias. Após a Conferência, a região do Congo foi dividida em 3, a saber: o Congo Belga (ex-Zaire e atual República Democrática do Congo), o Congo Francês (atual República do Congo) e o Congo Português, atual Cabinda. Em 1956, Portugal decide anexar Cabinda à administração do governador-geral de Angola, visando otimizar suas despesas com o império ultramar. Não é de se admirar, então, que logo após a independência de Angola, em 11 de novembro de 1975, os movimentos pela independência de Cabinda, então unidos sob o FLEC, exigem sua independência de Angola, alegando uma independência histórica de Angola. Outro fator fundamental a ser levado em consideração é a grande riqueza do enclave, responsável por aproximadamente 80% do petróleo produzido em Angola, segundo maior produtor de petróleo do continente africano.

No sentido de estabilizar seu domínio sobre o território e demonstrar à comunidade internacional que a região está sob controle, Angola decidiu fazer de seu maior município, também chamado Cabinda, uma das sedes da CAN, juntamente com Luanda, Benguela e Lubango. Para manter a segurança das seleções do Grupo B (Costa do Marfim, Burkina Faso, Gana e Togo), o governo angolano montou um forte esquema de segurança, que não foi seguido pela delegação togolesa.

A grande aposta de Angola ao se candidatar e investir enormes somas para sediar o torneio continental vai ao encontro de um movimento de afirmação nacional de grande poder simbólico, movimento que teve início no Brasil com a organização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, no Rio. Sediar um mega evento esportivo certamente envolve muito mais do que “organizar uma bela festa”. Em especial entre países em desenvolvimento, a organização de tais mega eventos é na realidade um meio de afirmação simbólica dos países sede junto à comunidade internacional. Afirmação de que são economicamente fortes, capazes de arrecadar as somas necessárias, capazes de atender as rigorosas exigências das Instituições Internacionais que organizam o evento (seja essa a FIFA, o COI ou mesmo a CAF), e também de que são politicamente estáveis, elemento que o governo angolano procurava afirmar ao estabelecer Cabinda como sede.

Como José Eduardo dos Santos, atual presidente de Angola, destacou, organizar tal evento “traduz o prestígio que o país tem vindo a conquistar no concerto das nações”, e é na verdade um grande desafio para o país sede, uma vez que é também um palco de destaque para os mais distintos movimentos contestatórios, como em Munique. Com o incidente em Cabinda, a realização da Copa Africana de Nações em Angola pode não ter o efeito desejado. No entanto, caso a seleção angolana se sagre campeã, o incidente pode se tornar apenas um pequeno contratempo, se comparado aos louros do título.

Novos ataques podem ocorrer, uma vez que grupos armados da FLEC mantém a ameaça sobre as delegações sediadas no enclave. Mas acredito que não veremos novos incidentes. As forças militares angolanas, que já tinham o controle sobre a cidade de Cabinda, estarão ainda mais reforçadas e atentas, e com certeza nenhuma outra delegação irá retornar pela estrada que atravessa a floresta, onde o ataque aos togoleses aconteceu. Agora só nos resta torcer, dentro das quatro linhas, é claro.

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