O GUARANY: UM PRADO POPULAR NO RIO DE JANEIRO DO SÉCULO XIX

Por Victor Andrade de Melo

Sede social do Derby Club, Praça da Constituição

Houve um tempo em que  turfe era como hoje é o futebol; na verdade, até mais! Nos fins de semana, na década final do século XIX, a população do Rio de Janeiro invadia os hipódromos para acompanhar as corridas, ter alguns momentos de diversão, encontrar amigos, flertar e, fundamentalmente, apostar algum dinheiro nas patas dos cavalos. Era gente dos mais diferentes estratos econômicos e grupos sociais, alocados obviamente, em distintos espaços nas tribunas.

O turfe era uma atividade popular, mas somente se considerarmos o aspecto do consumo do espetáculo esportivo. Se as oportunidades de prática de esportes eram bastante limitadas até mesmo para as elites, ainda mais restritas eram as possibilidades para os indivíduos das camadas populares. Os mais “nobres” Jockey Club e Derby Club, ainda que aceitassem a presença do povo nas competições, sempre deixavam claro o seu lugar, criando muitas formas de garantir que se tratava de uma prática que concedia status e distinção aos mais abastados.

Contudo, chegaram a organizar-se agremiações mais populares de corridas de cavalos, como aquelas que realizavam suas atividades no prado da Vila Guarany, no bairro de São Cristóvão. Sobre esse espaço, afirma Cássio Costa (1961):

“as arquibancadas eram de madeira e sem cobertura e os animais que tomavam parte em sua carreira, em sua maioria, eram peludos ou já afastados das pistas do Jockey Club e do Prado Vila Isabel. Um pradozinho de 3a ordem”.

Seguindo o clube Prado Guarany, três outras sociedades de curta duração lá organizaram atividades: O Sport Club, o Hippódromo Fluminense e o Sport Fluminense. Essas agremiações contavam muitas vezes com a presença de bom público, devido aos preços mais baixos de entradas e de apostas, mas também porque se ajustavam mais ao gosto das camadas populares. Embora tivessem instalações menos luxuosas, cavalos “feios e de segunda categoria” e um programa muito confuso, muitas corridas animadas foram no Guarany realizadas.

Mais do que atrair os mais populares, não poucas vezes ali foram encontrados, até mesmo disfarçados e escondidos, indivíduos que pertenciam às elites ou por elas transitavam. Por exemplo, é sabido que se envolveram em confusões no Guarany o capitão de mar-e-guerra Eduardo Wandellok, depois almirante e Ministro da Marinha, e o dr. Bricio Filho, renomado jornalista. José do Patrocínio chegou a ser diretor do Hippódromo Fluminense.

Na verdade, esses clubes foram mesmo marcados pelas confusões. Como lembra Luiz Edmundo (1957):

“Qual velho não se lembrará, hoje, do famoso prado que se chamou Vila Guarany, cognominado Maxixe, que existiu para as bandas da Praia Formosa e do qual se pode dizer que, sendo o mais tribofeiro entre todos os de seu tempo, foi, ainda, o que mais sofreu a ação violenta e justa da massa popular, que vivia constantemente a depredá-lo?”.

Os “tribofes” eram comuns e fartamente divulgados pelos jornais, confusões das mais diferentes ordens: suborno de jóqueis, árbitros que ocasionalmente se equivocavam com os resultados (já que na época não havia muitos recursos eletrônicos); árbitros subornados que “fabricavam resultados”; alguns episódios descaradamente desonestos. Muitas vezes essas ocorrências eram seguidas de violência, depredação dos hipódromos, surra nos jóqueis e proprietários dos animais. Normalmente esses conflitos eram mais graves exatamente no Guarany, embora também fossem constantes nos clubes chics.

Encaro os “tribofes” como uma forma de participação ativa do público. Excluído da possibilidade de influenciar na direção do espetáculo, relegado ao pior lugar dos hipódromos, considerado mero coadjuvante, o público reagia da forma que era possível. Ao se sentir burlado, encerrava qualquer pretensão de “civilidade” e utilizava os recursos de que dispunha: destruía, simbólica e literalmente, a farsa montada.

Os clubes que funcionaram no Guarany vieram a falir em função de sua própria desonestidade e/ou desorganização, mas também muito em decorrência das restrições impostas pelos clubes “nobres” da cidade.  Seus nomes, por exemplo, não eram citados nos livros e periódicos. Nos jornais, suas atividades não conseguiam muito espaço; quando conseguiam, era de forma pejorativa. Quando algumas agremiações se uniram na chamada “Sociedades Solidárias”, o pessoal do prado da Vila Guarany não foi convidado.

Quando o Sport Fluminense resolveu organizar páreos nas quintas-feiras, para fugir da concorrência, os clubes chics resolveram tomar medidas mais diretas. Começaram a proibir cavalos de correr naqueles espaços e até tentaram impedir a frequência dupla: quem fosse visto na Vila Guarany teria proibida sua entrada nos outros hipódromos. O Diário de Notícias, de 16 de outubro de 1886, noticia tal decisão:

 

“UM PRADO EM ESTADO DE SÍTIO – reuniram-se anteontem na secretaria do Jockey Club, os diretores dos Prados Vila Isabel, Derby Club e Jockey Club resolveram que fossem proibidos de correr nos seus prados os jóqueis e animais que corressem no Sport Fluminense, dando como motivo desta resolução não ser o Sport Fluminense uma sociedade constituída debaixo das condições necessárias”.

 

O Sport Fluminense a princípio não se incomodou com tais imposições e sequer dava atenção para a imprensa, que não divulgava suas atividades. Seu perfil, seus intuitos e seu público alvo eram outros. Contudo, com o tempo viu as ações dos outros clubes obterem resultados, reduzindo-se rapidamente o seu número de inscrições e de público, até que definitivamente extinguiu-se; mesmo porque, ao contrário das outras agremiações, não podia contar com as benesses das autoridades governamentais.

Os desenhos das pistas de 4 hipódromos da cidade (o do Prado Guarany não foi incluído na publicação)

Não se pode sequer considerar que os clubes do Prado Guarany chegaram a ser grandes rivais no aspecto financeiro. Em 1887, enquanto o Jockey Club vendeu 114.824 poules e lucrou 2:499$400 e o Derby Club vendeu 297.224 e lucrou 6:778$900, o Hippodromo Fluminense e o Sport Fluminense (criados e extintos no decorrer do referido ano), somados, venderam 21.085 poules e lucraram 524$700.

Os clubes “nobres”, na verdade, vislumbravam o que poderiam perder se essas agremiações mais populares aumentassem sua popularidade e/ou modificassem o sentido da prática do turfe na cidade. Tratava-se de uma estratégia de seleção e controle, de garantia de manutenção dos sentidos originais concebidos para o esporte, ligados aos interesses dos mais poderosos.

 Trata-se, de fato, de uma tensão que marca desde os primórdios a constituição do campo esportivo.

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