Modernidade e esporte em Salvador

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

          Na Bahia as ações iniciais de remodelação urbana e de reconfiguração dos comportamentos de seus habitantes, exigências da modernidade, aconteceram mais fortemente no primeiro governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916).

          Neste período os moradores de Salvador conviviam com carências em vários setores da vida pública, com a cidade presa a uma lógica econômica que se não impedia, limitava um maior crescimento e um “progresso”, vivendo fora dos padrões propalados pela modernidade. Por isso, a elite soteropolitana exigia mudanças, num apelo por algo que fizesse a cidade diferente, livre dos vícios “envelhecidos” e livre da “miséria”.

          O que existiu em Salvador foi à tentativa de instalação de um projeto de modernidade, tal como ocorrera no Rio de Janeiro, um projeto que atuaria na reforma urbana da cidade, mas que também mudaria os hábitos e modos de vida da população, alterando assim o cenário da cidade e o cotidiano de seus moradores. Salvador buscava modernizar-se, por sentir-se presa ao seu passado colonial, uma cidade que ainda se via como “atrasada”. Para tal, Salvador teve de conviver com dificuldades que em muito limitavam qualquer aspiração, já que não possuía recursos em seus cofres para tocar o projeto, fazendo isto com que a reforma urbana fosse numa menor escala do que se esperava, frustrando suas elites.

          Em Salvador a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Neste ponto, vemos um dos conflitos deste ideal de modernidade, já que para a construção destas novas cidades, muito do que existia fora colocado abaixo, provocando resistências. Se ruas, avenidas, praças e edifícios foram construídos, outros espaços tradicionais foram derrubados e mais, se uma nova cultura afrancesada era incorporada pela elite, práticas culturais populares foram relegadas, negadas. Todavia, esta ação modernizadora que por vezes mais parecia à ação de um rolo compressor, não fez apagar as marcas já fincadas em solo baiano, marcas estas que estavam colocadas na população que resistira a este processo ou ao menos tentara isto, marcas que ficaram nas limitações deste civilizar-se das cidades, muito por conta das próprias limitações do projeto político. Desta forma, se por um lado crescia uma cidade com aspectos modernos, ricos, por outro não deixava de existir uma pobre, popular.

          Fundamental é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações da modernidade, já que é nela que se apoiam as perspectivas de mudanças do cotidiano das cidades, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir-se um novo povo, com uma nova cultura. Neste caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a alta e moderna cultura. O que se opera realmente é uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação do poder desta elite e as reformas urbanas advindas da modernidade são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava este princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que este mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites e também esta muita das vezes assume para si as práticas populares.

          Podemos compreender que a modernidade vivida em Salvador tentou exatamente descentrar seu povo, levando-o a incorporar o que se via como de mais “civilizado” para a época, exatamente a cultura europeia. Queria-se com isso alterar as identidades locais, construídas nas bases de um país que até então lidara com influências diversas, mesclando-as num contexto associado às especificidades de cada cidade, o que se queria era sobrepujar uma pela outra. Todavia, a modernidade “implantada” acabou sendo reconstruída numa leitura peculiar, acontecendo a partir das formas com que se efetivaram e de sua assimilação ou não pela população.

          É neste cenário e sob estas condições que em Salvador se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, já que este era um dos elementos desta que se mostrava como uma nova era, a modernidade, mas isto já foi visto em outros posts.

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