FUTEBOL E CINEMA III:  A GINGA DO BRASIL(EIRO)

Em meio à festa da carne aproveitamos uma pausa na folia para re-editar, de forma adaptada e bem reduzida, um texto que produzimos para o livro Esporte e Cinema: novos olhares (MELO, Victor A. & DRUMOND, M. – orgs.  RJ, Apicuri, 2009).  Dessa forma mantemos um triplo propósito: dar continuidade a comentários sobre filmes que lidam com o futebol, fazer um merchandising básico e ainda ganhar tempo para o bloco que sai daqui a pouco. Não é pouca coisa para uma segunda-feira, sob regência de Momo. Apressemo-nos, pois…    

A questão fundamental, aqui, é a seguinte: desconfiar de uma argumentação naturalista/essencialista que visa explicar nossa exuberância e liderança futebolística mundial.

O filme “Ginga – alma do futebol brasileiro” consistirá no nosso objeto de desconfiança. Comecemos constatando, com curiosidade, que essa peça cinematográfica de 2004, produzida e co-roteirizada pelo grande Fernando Meireles, reproduz uma fala altamente naturalizante, quase racial mesmo, em seus fundamentos argumentativos. “Ginga” tem a qualidade cinematográfica e documentária a ser (bem) considerada. Apresenta-nos um mini-quadro sobre dez trajetórias distintas (em termos geográficos, sociais, humanos) de amadores e profissionais do futebol. Belo quadro ilustrativo de milhões de aspirações em um país onde todo mundo já pensou em ser jogador de futebol[1]. Não obstante, é preciso indicar o caráter “essencialista” que perpassa a narrativa cênica. A começar pelo sub-título:  “a alma do futebol brasileiro”.  A isso remete a “ginga”; a esse espírito que move nosso jeito de jogar bola.  Como toda boa entidade etérea, trata-se de objeto natural (ou até sobrenatural; mas de qualquer forma, a-histórica): “A ginga nasce com o brasileiro”, afirma-se. Nós nascemos “com essa arte”.  É de se notar que a mescla “ginga”, futebol, brasilidade e musicalidade (samba – olha o carnaval aí de novo-   e outros ritmos ‘nacionais’) atravessa todo o documentário. A ginga seria um dom que se manifesta não apenas no futebol, mas na integralidade da vida dos brasileiros. Segundo um mestre capoeirista entrevistado, a “ginga” tem raiz, origem: “é uma coisa que vem da África” e repercute em todas as áreas vitais. Insiste-se: música (samba), dança, capoeira, futebol, são todas atividades nas quais o Brasileiro brinca exatamente pela sua ‘gingalidade’ (perdoem o neologismo).

Essa produção é encaminhada por três diretores. E há um bate papo entre eles e demais componentes da equipe, no item de Extras, do DVD.  Meireles, então, esclarece que a idéia era tentar entender por que o brasileiro é bom de bola. Nisso consistia o desafio. A resposta, já sabemos, é a tal da ginga, a qual o cineasta pondera ser uma “palavra misteriosa”;  algo “que procuramos a vida toda”. 

Entende-se, então, porque saímos do cinema com a idéia de que a ginga é nosso “rosebund” coletivo [2].    

 Resumindo. Temos uma película que nos fala sobre nossa especificidade (natureza), talento (equiparável aos maiores) e contribuição para o patrimônio universal (em termos estéticos/culturais/relacionais…):

“Ginga é um jeito de não levar a vida muito a sério e de encarar os problemas com um jogo de cintura, pés e calcanhares. Há 505 anos que os brasileiros vêm gingando pela vida  – e podem recomendar isso para todo mundo” : Rui Castro, citado em “Ginga …”; destaque nosso).

Essa citação final encerra quase tudo. Mesmo quem não está acostumado com o debate sobre natureza/condicionamentos culturais etc. pode, com alguma facilidade, perceber o exagero e inviabilidade de uma tal imaginação “histórica”.  Há 500 anos nem brasileiros existiam; a “ginga” não tinha força explicativa (provavelmente nem tinha existência como palavra, não com esse sentido).  Conceber que nascemos com as características, gostos, práticas, possibilidades com as quais nos deparamos hoje é desacreditar todo processo histórico de construção de tudo isso.  Esta é a “desconfiança” que mencionava inicialmente; este é o ponto a ser pensado, posto que incrível (= difícil de se crer).  

Com “Ginga…”, deparamo-nos com um ensaio interpretativo sobre o “it” que nos permite um emparelhamento de qualidade com o melhor do que é produzido no mundo. Não é só um documentário, é uma resposta a esta candente questão:  o que nos faz ser quem somos; e o que somos frente ao mundo (entendido como o mundo moderno, civilizado…).  E essa resposta não é nova. Vejamos esse fantástico trecho de uma das mais celebradas coleções de história do Brasil, já com mais de quarenta anos.  Trata-se de uma pretensa descrição  – essencialista/fundacional-   dos  combates quando da ocupação holandesa do nordeste do Brasil, à época da colônia, nos idos do século XVII:

“Foi nesse período de luta que se ajuntaram no mesmo esforço as várias raças que constituem o substrato do povo brasileiro. Ainda então foi que se começou a aprimorar o estilo da ‘guerra brasílica’, o do ataque de surpresa,  o da dispersão das tropas, o da mobilidade dos combatentes, o da iniciativa individual. Uma antecipação  do estilo brasileiro de jogar futebol, tão bem fixado por Gilberto Freyre, como ‘um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual…  alguma coisa de dança e de capoeiragem’ ” (Mello, 1968: p. 238; grifo nosso). 

Não se poderia dar o nome de “ginga” a esse conjunto de dança, capoeiragem e “antecipação do estilo brasileiro de jogar futebol”?  Parece evidente que sim.  A “ginga” cumpre , então, sua vocação de essência:  presente no futebol atual e também no início de manifestação pretensamente nacionalista. É um espírito; de pelo menos três séculos.  

Se a “guerra brasílica” expressou uma antecipação de nosso caráter como povo, no campo futebolístico isso teria um paralelo (simbólico, é claro). Nas quatro linhas teria se estabelecido um encontro entre toda uma tradição relativa à busca por critérios de construção de uma nacionalidade brasileira e a sua aproximação harmoniosa com uma fórmula de sucesso dessa expressão: o nosso futebol. 

Vimos, portanto, um esforço de representação fílmica do nacional; a apresentação de um ensaio que elege uma moeda de troca específica para nossa boa inserção à modernidade: nossa “ginga”.  Parece claro, mais uma vez, que o desporto (e o futebol), assim como o cinema, constituem-se em boas coisas para se pensar[3].  Bom carnaval e até a próxima!


[1] “Quem não sonhou em ser um jogador de futebol”?   Skank;  na música:  “É uma partida de futebol”.

[2] Livre alusão à Cidadão Kane.

[3] Conforme clássica démarche da história cultural (ver DARNTON, Robert. O Grande Massacre dos Gatos – e outros episódios da história cultural francesa.  RJ, Graal, 1988, p. XIV).

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