O pânico contagioso

Cleber Augusto Gonçalves Dias
cag.dias@bol.com.br

Mais uma vez voltaremos aos incidentes ocorridos durante práticas de lazer na natureza. Tais episódios são particularmente interessantes porque expõem o limite da motivação de seus adeptos. Além disso, o caso de agora, especificamente, oferece também a oportunidade de pensar sobre as origens históricas dessas práticas.

Determinar o momento em que um novo fenômeno se inicia é sempre um desafio para o historiador. No caso do surgimento da disposição para visitar a natureza com finalidades de divertimento, o século XVIII pode ser apontado como um período de agudas transformações. Nessa época, paisagens naturais que antes sequer eram percebidas, ou então eram vistas com olhos de repugnância, pouco a pouco passam a ser apreendidas com outras perspectivas. Doravante, florestas, praias e montanhas transformam-se em sítios bucólicos e pitorescos, ideais para revigorar o corpo e elevar o espírito.

No Brasil, desde essa época, tem-se o registro de testemunhos que adotavam tal ponto de vista. Eram, na maioria dos casos, estrangeiros imbuídos de uma nova sensibilidade diante da natureza, propensos a encarar sua contemplação como possibilidade de deleite e regozijo. Passeios na natureza em geral, caça às borboletas, piqueniques ou a mera contemplação de panoramas em particular, compunham alguns dos seus passatempos preferidos.

No início do século XIX, sobretudo depois da abertura dos portos, em 1808, um número maior de estrangeiros chegava ao Brasil, ao mesmo tempo em que essa nova estrutura de sentimentos diante do mundo natural consolidava-se progressivamente. Naquele fin de siècle, passeios na natureza como banquetes campestres ou a visita ao Corcovado, já estavam plenamente desenvolvidos em sua forma atual, após longo processo histórico de formação.

Após longo processo histórico de formação, cujo inicio remonta ao século XVIII, no fim do século seguinte, passeios na natureza como a visita ao Corcovado, já estavam plenamente desenvolvidos em sua forma atual.

Nesse contexto geral, por exemplo, um missionário metodista norte-americano atracara na baía do Rio de Janeiro, em 1836. Daniel Kidder se auto-intitulava um “apreciador da natureza”, bastante disposto, nas suas palavras, a “excursões campestres”. Mais que isso, a quem procurava exercício ou solidão, o religioso recomendava passeios pelas lindas e soberbas paragens cariocas, como o que ele fizera certa vez pelo Morro de Santa Teresa, lugar que proporcionava, segundo ele, “inefável repouso”. O metodista narra um desses passeios, acompanhado por sua esposa, em que conservara “recordações de emoções bastante vivas”. Não seria para menos. O norte-americano se viu realmente metido em enrascada.

“Estando a cavalo, não prestamos bem atenção na distância […] A beleza panorâmica que nos ia empolgando à medida que subíamos lentamente em direção à base do Corcovado fez-nos esquecer as horas. A certa altura concluímos que poderíamos chegar tão facilmente em casa via Laranjeiras como se voltássemos por Santa Teresa. Apertamos o passo e penetramos pelos vales sombrios que correm pela base da montanha, justamente no momento em que o sol poente atirava os seus últimos raios ao elevado cume. A nossa ausência das latitudes temperadas não tinha sido suficientemente longa para que nos tivéssemos habituado ao rápido crepúsculo dos Trópicos. Antes de nos apercebemos da aproximação da noite, já as trevas haviam envolvido tudo e o seu negro parecia pior comparado à claridade de pouco antes. Mal se podia discernir o estreito caminho coleante, e cada passo que dávamos parecia nos conduzir mais para dentro de um infinito labirinto escuro. À medida que caminhávamos lembrávamos de que diversos autores afirmam serem essas paragens esconderijos de escravos egressos e de salteadores. Vieram-nos, então, à mente cenas de horror que mais agravaram a impressão causada pelas trevas. Era tarde para voltarmos por outro caminho, e, a continuarmos à frente, parecia que nos enredávamos cada vez mais. O pânico é sempre contagioso, e, conquanto nossa companheira não nos desse a perceber seu nervosismo, começamos a nos inquietar por ela. Entretanto, continuamos caminhando lenta e cuidadosamente, guiados pelo instinto quando a vista não nos podia auxiliar. Não nos lembramos de ter jamais experimentado tamanha sensação de alívio quando, depois de atravessarmos o último maciço de vegetação e de descermos em direção ao vale, nos encontramos nas Águas Férreas, e, portanto, no caminho certo. Ganhamos logo ruas iluminadas, e, ao chegarmos em casa às oito horas, em vez de à meia-noite, como receávamos chegar, tivemos a impressão de que os momentos haviam sido horas” (Kidder, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanência no Brasil: Rio de Janeiro e província de São Paulo. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 116-117).

No fim, a aventura fora bem sucedida. Mas nos cento e cinqüenta anos seguintes a realização desses impulsos nem sempre teria a mesma sorte. A fim de continuar tentando entender a razão e os porquês desses aventureiros, voltaremos a outros episódios do tipo mais tarde. Por ora, apenas compartilhamos o alívio dos que finalmente encontraram o caminho certo.

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