Respirar é preciso

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

Esportistas da natureza apreciam narrar suas estripulias, talvez tanto quanto vivê-las. Geralmente fazem-no em descontraídos encontros em que expõem epicamente suas aventuras, ora mais, ora menos verídicas. Algumas dessas arrepiantes histórias, contudo, são inegavelmente reais e falam de situações mui, mui arriscadas, em que a sobrevivência depende de nervos de aço e coração de pedra, que quer dizer autocontrole, preparo técnico e uma considerável pitada de sorte.

No período em que convivi com esse universo esportivo ouvi muitas do tipo. Adorava. Ouvi-las representava a oportunidade de sentir através da experiência dos outros, sensações para as quais eu nunca teria coragem. Tratava-se, bem entendido, de um prazer totalmente imaginário. Não pense, leitor, que eu teria satisfação, de fato, em caminhar quilômetros e quilômetros com bolhas nos pés, ser picado por maribondos ou passar fome, frio e sede na montanha.

Todavia, de tanto ouvi-los atentamente, acompanhando-os mentalmente passo a passo, acredito que, no mínimo, aprendi a respeitar vontades que aos olhos de um prudente sedentário pareciam, de início, ligeiramente insensatas, digamos assim. “Uma minoria ousada estará ansiosa para partir sozinha e nenhum obstáculo deve ser colocado em seu caminho; deixe que se arrisque, pelo amor de Deus, deixe que se perca, que seja queimada pelo sol, que passe por dificuldades, que se afogue, que seja comida por ursos, que seja enterrada viva sob avalanches”, reivindica Edward Abbey, ecologista, escritor e desmedido entusiasta da vida ao ar livre. Então sigam-lhe o conselho e deixem, pelo amor de Deus. Deixem e torçam para que o envolvido por tais desejos seja um desconhecido.

Resultados da realização de impulsos assim, encontram-se no livro de Bret Nunn, Vivendo com o perigo, que conta “histórias reais de sobreviventes de grandes aventuras”, altamente recomendado a quem compartilha comigo o sórdido prazer de divertir-se lendo acerca do sofrimento alheio. É a velha fixação antropológica que tenta compreender a racionalidade de comportamentos só aparentemente irracionais. Melhor ainda é que o livro traz apenas histórias de quem venceu a imponderável batalha contra a morte, o que torna a leitura bem menos macabra.

Muitas das histórias narradas por Bret Nunn são de pessoas que decidiram fruir seus passatempos ao ar livre sozinhas. É o caso, por exemplo, de Dale, barman e assíduo praticante de esqui nas horas vagas. Durante um dia que reunia condições muito convidativas para a prática desse esporte, Dale decidiu encaminhar-se para a Timberline Ski Area. Após tomar um teleférico e subir a pé até aproximadamente os 10.000 pés de altura, Dale foi simplesmente surpreendido por uma avalanche. Sua longa experiência como membro da equipe de patrulha da estação, evidentemente não foi suficiente para evitá-la. Soterrado por blocos de gelo, o medo do esquiador era grande, enorme, abissal, até onde posso imaginar. Iniciou por esforçar-se em afastar o pânico, afinal, de agora em diante estaria lutando pela própria vida, e o desespero não iria ajudá-lo. Fez então uma rápida avaliação. Deu-se conta que estava vivo. Era um bom sinal. Além disso, conseguia ainda mexer os dedos das mãos e dos pés. Esse sim era um ótimo indício. “Ele não consegue se mexer, mas pode respirar […] Tudo parece estar bem, exceto o fato de estar preso no fundo da fissura, sob toneladas de neve e gelo” (!).

Mas a situação não era exatamente confortável. Naquela tumba escura e fria havia apenas uma pequeníssima e longínqua fresta por onde entrava minimamente luz e ar. Qualquer deslocamento da neve poderia tapá-la e condenar definitivamente o destino do barman esquiador. Nesse caso, cedo ou tarde, uma voz no fundo da sua mente começaria a fazer exigências, como Bret Nunn descreveu em outro episódio. “Eu preciso respirar”, provavelmente é o que as alucinações da hipotermia fariam-no ouvir nos momentos finais. Era urgente sair dali. E Dale sabia disso.

Girando os punhos e o pescoço, arranhando com os dedos, “cavando, raspando, algumas vezes mordendo a neve”, Dale vai tentando abrir espaços. Cada milímetro é uma conquista. Primeiro permite liberar o braço e enfiá-lo no bolso do casaco; depois os joelhos, o que permite deslizar as mãos para baixo e soltar os esquis que prendiam seus pés. Pouco a pouco o corpo vai se contorcendo. Ele então se arrasta em direção a luz. Depois de um esforço extenuante, Dale finalmente escapa do que o aprisionava. “O ar nunca pareceu tão doce”. Calçando apenas meias, em situação tão patética quanto periclitante, o barman ainda reuniu forças para descer a pé em direção à equipe de resgate.

Casos assim alimentam remotas controvérsias sobre os perigos potenciais de lançar-se sozinho na natureza selvagem. Lembro-me de durante as pesquisas do Urbanidades ter lido mais de um documento nos arquivos dos centros excursionistas em que trabalhei que comentavam sobre passeios solitários na montanha. No contexto dos debates que se desenrolavam na ocasião, a tônica geral era a de desaconselhar enfaticamente tais práticas. Tentei localizar as notas e transcrições que tomei a esse respeito, mas infelizmente não consegui. Provavelmente as perdi durante algumas das muitas mudanças de endereço que fiz nos últimos dois anos.

De todo modo, uma boa e óbvia conclusão, conforme já disse aqui em outra oportunidade, é que “a prática do montanhismo – e acrescentaria agora, dos esportes na natureza de modo geral – expõe seus praticantes a certos níveis de risco, que tentam ser minimizados o mais possível. Acidentes, porém, sempre podem acontecer”. Resta-nos então acompanhá-los, com a adrenalina à mil, torcendo pra que tudo acabe bem. 

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: