Origens dos Clássicos I – Rio da Prata

Uma simples partida de futebol pode trazer intensas emoções, transformar-se em um marco histórico, ficar gravada na memória coletiva de um grupo de torcedores apaixonados ou simplesmente na cabeça de uma criança que foi ao estádio pela primeira vez acompanhada pelo pai.
Mas e o que dizer dos clássicos? Como determinados confrontos se tornaram míticos? Qual a origem de rivalidades entre clubes ou selecionados nacionais? Como amor e ódio podem se misturar em 90 minutos tendo como pano de fundo um campo, 22 homens e a bola?
O surgimento dos famosos “clássicos” de futebol será nosso assunto nos próximos posts. Dentro da presente série “Origens dos Clássicos” partimos do sul do continente americano com os primórdios de verdadeiras batalhas entre equipes platinas: RIVER x BOCA e PENAROL x NACIONAL. Como tudo começou.
No super-clássico, termo que os argentinos utilizam para se referir a partida River x Boca, e que segundo o jornalista Alfredo Luis Salvo no livro “Anécdotas Riverplatenses del Superclássico” foi cunhado por seu colega Juan José Lujambo em 1965, a localização geográfica é a semente da rivalidade. O River Plate que atualmente possui abastada sede na fronteira dos bairros de Nuñez com Belgrado bem próximo ao Rio da Prata, onde abriga o famoso Estádio Monumental, também é filho do bairro da Boca, conhecida área do arqui-rival.
É incontestável que o River nasceu primeiro que o Boca, com uma fusão de dois clubes menores, o Santa Rosa e o La Rosales (homenagem a uma corveta que afundou no Prata). Porém uma polêmica gira em torno da data real da fundação do River, 25 de maio de 1901, como defende oficialmente o clube ou o dia 22 de maio de 1904 como apontam evidências relatadas, por exemplo, pelo jornalista Alejandro Fabbri no seu livro “El nacimiento de una passion – Historia de los clubes de fútbol”.
O próprio livro oficial do centenário “Boca el libro del Xentenário” confirma que sua fundação é posterior a qualquer uma das duas datas, pois afirma apaixonadamente no seu início: “El dia 03 de abril de 1905 nació Boca Juniors, el club más popular de la Argentina, el de los equipos campeones, el de emocionante hacedor de passiones multitudinarias que recorren el mundo” (pg -12). Segundo Fabbri teria sido o estudante Santiago Sana que propôs o nome Boca Juniors, acrescentando a expressão inglesa ao nome do bairro em virtude de ser um estudante do idioma e para dar-lhe um toque britânico.
Entretanto a primeira partida disputada entre as equipes ocorreu apenas três anos depois do nascimento do Boca em um jogo amistoso, pois as equipes disputavam diferentes Ligas. No dia 02 de agosto de 1908, o Boca vencia o primeiro super-clássico por 2 a 1.
A primeira disputa oficial pelo torneio da divisão principal ocorreu apenas em 24 de agosto de 1913 no campo do Racing e a vitória foi obtida pelo River por 2×1. Em partidas oficiais, o Boca somente derrota o River depois de 5 jogos com uma vitória de 1 a 0 e segundo reprodução da Gazeta de Buenos Aires feita no livro do “Xentenário” teria ocorrido uma enorme festa nas ruas do bairro.
Um fato importante é que enquanto o River Plate afastava-se da popular área despedindo-se para sempre do bairro da Boca em 1922, mudando para Palermo e posteriormente se estabelecendo definitivamente na nobre zona que se encontra hoje, o Boca tornou-se o seu maior símbolo e mesmo as sua mudanças de sede ocorreram todas dentro da mítica região onde surgiram os principais clubes argentinos. O ícone maior da integração do Boca Juniors com o espaço geográfico consolida-se a partir da sua inauguração em 25 de maio de 1940 e posterior ampliação até meados dos anos 50, “LA BOMOBONERA”.
O super-clássico saiu dos “caminitos de la Boca” espalhou-se pelo território argentinos, fato que segundo o jornalista argentino Alfredo Luis di Salvo, com bastante fleuma portenha, afirma ter o tornado incomparável: “ El clásico es, por excelencia, la máxima expresión del fútbol. El partido al que ambiciona llegar cualquier jugador. No hay un calificativo que llegue a transmitir, en su medida justa, la grandilocuencia de este enfrentamiento. Es la única confrontación deportiva que, por su transcendencia popular, detiene al país entero. No es comparable con los clásicos jugados en otras tierras. Ni el Flamengo- Fluminense, Real-Atlético Madrid, Manchester City – Manchester United, o Inter –Milan, pueden superarlo, porque un Boca-River o River-Boca conmueve e interesa todo un país y no solamente a una región.” (Anedoctas Riverplatenses del Superclásico – Pg 9)
SERÁ  UMA CLÁSSICA PIADA ?

PRIMEIRO SUPER-CLÁSSICO DISPUTADO POR MARADONA BOCA 3 x 0 RIVER EM 10/04/1981

O futebol uruguaio surge assim com0 no vizinho platino, a partir de uma notória influência inglesa na sociedade urbana em formação e a criação das primeiras equipes dedicadas ao futebol por descendentes britânicos foram a partir de 1891 através do Al Albion F.C e o C.U.R.C.C (Central Uruguay Railway Criquet Club). Este clube foi fundado oficialmente no dia 28 de setembro por 118 sócios/ trabalhadores da Companhia britânica Central Uruguay Railway, localizada na região de Penarol há 11 kilômetros da cidade de Montevidéu. onde se instalava a empresa. Já na década posterior teria maioria “criolla” ao invés de imigrante, ou seja de membros da elite descendente dos espanhóis.
Apesar de ter se originado como clube de críquete, rapidamente os trabalhadores decidiram praticar também o futebol e suas cores iniciais laranja e negro remetem as raízes ferroviárias. Transformou-se-se em 1913 no Club Atlético Peñarol, uma das equipes mais importantes e populares do país até hoje.
Ao longo da década de 1890, outros clubes de origem inglesa como o, Montevideo Cricket Club, Uruguay Cricket Club, e até mesmo alemã, Deutscher Fussball Club foram fundados ou passaram a ter equipes exclusivas de futebol
Porém ocorre um processo de adesão dos jovens de origem “criolla” com a participação em equipes mistas em formação como Montevideo, Defensa, Títan e Internacional, além do surgimento em 14 de maio de 1899 do tradicional rival do Peñarol, o Club Nacional de Football que seria a primeira instituição exclusivamente “criolla”, surgida com a união de nativos do Montevideo e do Uruguay Atletic, e que adotou inclusive em seu uniforme as cores vermelha e azul em referência ao herói nacional, General Artigas. Mas o futebol uruguaio continuava sendo praticado majoritariamente pelos membros da elite imigrante.
Em 1900, além da formação da liga batizada britanicamente como “Uruguay Association Football League” foi realizado o primeiro campeonato oficial uruguaio, cujo campeão foi o C.U.R.C , porém o Nacional não pode participar, pois sua admissão não foi aceita pelos demais membros fundadores. Segundo o historiador Luzuriaga na sua obra El Football del Novecentos – Origens y desarollo del fútbol em el Uruguay (1875-1915) seria uma expressão do preconceito contra a equipe criolla.
“Tuvo Nacional un comienzo alentador, aunque al año siguiente su solicitud de ingreso a la recientemente creada League uruguaya fue rechazada por considerar que el conjunto de criollos no tenia condiciones suficientes. En realidad, la decisión expresaba el rechazo al nativo, considerado inferior. En eso último año del siglo XIX, pese al contratiempo, Nacional sería un imán para más y más players (pg 71-72)”
Neste mesmo ano ocorreu a primeira partida amistosa disputada entre as duas equipes vencida pelo C.U.R.C por 2 a 0 no Estádio Parque Central e em 1901, a equipe do Nacional foi incorporada a Liga e as partidas passaram a ser mais freqüentes, sendo que até a primeira vitória do Nacional ocorrida em 18/05/1902 por 2 a 1 válida pela Copa Uruguaia foram disputadas quatro partidas com 2 vitórias do C.U.R.C e dois empates.
Iniciava-se assim a história do principal clássico “oriental”. Existem interpretações distintas entre os pesquisadores do futebol uruguaio sobre os fundamentos dessa intensa rivalidade: uma continuação da disputa entre adeptos da prática de críquete e do remo na segunda metade do século XIX, a oposição política entre blancos e colorados ou a tensão existente no início do século entre imigrantes e “criollos”. Quem quiser se aprofundar, um bom início são as fontes apresentadas abaixo.

Visão do público no primeiro clássico Nacional x Penarol transmitido por rádio (08/11/1925)

FONTES
CARRIL, Juan A. Capelán. Nueve décadas de gloria. Montevideo: Estampas SRL Realizaciones; 1990.
CORTINAS, Eduardo Gutierrez. El Padre del siglo. Montevideo; 1999.
DI SALVO, Luís. Anedoctas Riverplatenses del superclásico. Buenos Aires: Catálogos SRL; 2003.
FABBRI, Alejandro. El nacimiento de una pasíon. História de los clubes de fútbol. Buenos Aires: Capital Intelectual; 2006.
LUZURIAGA, Juan Carlos. El Football del Novecientos – Orígenes y desarrollo del fútbol en el Uruguay (1875-1915): Ediciones Santillana; 2009.
ULLOA, Alejandro. El Libro de Xentenário. Buenos Aires: Planeta; 2004.

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