A saga da taça das bolinhas, ou um levante traído?

A novela do campeonato brasileiro de 1987 (a Copa União) e do destino da “Taça das bolinhas” voltou à pauta das discussões sobre o futebol nesta semana que passou.

Não quero entrar aqui uma discussão sobre “legalidade x legitimidade” e sobre quem deveria levar a maldita taça das bolinhas, deixarei isso para os jornalistas ou boleiros que queiram ficar em uma discussão baseada na mais na paixão do que em outra coisa. No entanto, acho que o ponto de vista expresso por Rica Perrone pode dar conta do recado para os mais apaixonados.

Gostaria de me ater aqui a um olhar que ainda não vi exposto pela mídia esportiva. Para mim, a Copa União de 1987, como inicialmente fora concebida, pode ser vista como um dos raros momentos da história de nosso futebol (o segundo, para ser mais exato) onde os grandes clubes brasileiros se levantaram contra a CBF e tomaram as rédeas do campeonato.

Após o desastroso campeonato brasileiro de 1986, a CBF alegou não ter condições financeiras  de organizar o campeonato do ano seguinte. Foi então que o recém fundado Clube dos 13 (cuja ata de fundação foi assinada por representantes dos grandes clubes do Rio, de São Paulo, de Porto Alegre, de Minas Gerais e pelo Bahia) organizou a Copa União, com os 13 clubes organizadores e mais três convidados. A CBF, por pressão de equipes alijadas da nova competição decidiu então reger novo o campeonato que já havia sido montado, com patrocínios e tabela acertados.

Fonte: http://blog.classicosdabola.com/2009/06/16/copa-uniao-a-confusao-da-cartolagem/

Gazeta Esportiva de 04/09/1987. Fonte: Clássicos da Bola.

Foi nesse momento que o Rubicão não foi cruzado. Ao invés de manterem sua posição contra a CBF e o regime vigente no futebol brasileiro, buscou-se uma contemporização com a criação de módulos e cruzamentos, que deram origem à Saga da Taça de Bolinhas, ou como definiu Gustavo Poli , o “campeonato sem fim”.

O primeiro levante contra a entidade gestora do futebol brasileiro aconteceu em 1933. Levantando a bandeira do profissionalismo, os grandes clubes do Rio de Janeiro, liderados por Arnaldo Guinle, dirigente do Fluminense e antigo homem forte da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, a antiga designação da CBF) que havia sido suplantado por uma nova geração, separam-se da AMEA (Liga amadora filiada à CBD) e criam a Liga Carioca de Football – LCF. Independente da CBD e sob o regime profissional, a LCF vai ter em seu primeiro campeonato a participação das maiores equipes do então Distrito Federal: Flamengo, Vasco, Fluminense e América. O Botafogo, o único clube grande do Rio de Janeiro a permanecer na antiga liga – uma vez que seus dirigentes estavam no comando da CBD – acabou por conquistar seu tetracampeonato enfrentando equipes como Andarahy, Cocotá, e Mávilis.

Juntamente com a criação da LCF no Rio de Janeiro, a APEA adota o profissionalismo e se desliga da CBD. Em pouco tempo, as duas entidades recebem o apoio da Federação Fluminense de Esportes (com clubes do estado do Rio de Janeiro), da Associação Mineira Esportes e a Federação Paranaense de Desportos e formam a Federação Brasileira de Futebol (FBF), que representa o futebol profissional em todo o país e contava com a maior parte dos grandes clubes de seus respectivos estados. Presidida por Sérgio Meira, ligado ao São Paulo, a FBF tem em seus quadros os maiores clubes do Brasil: Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama, Corinthians, Palestra Itália-SP (atual Palmeiras), Santos, São Paulo, Palestra Itália-MG (atual Cruzeiro), Atlético Paranaense e Coritiba, entre outros. Já a CBD continuou contando com os clubes das demais federações, como da Bahia e do Rio Grande de Sul, além dos times amadores dos estados que não se uniram à FBF, como o Botafogo.

O impasse continuaria, com diversas alterações de filiações em ambos os lados, até 1937. No final, todas as federações acabaram por se unir em um sistema unicamente profissional. No entanto, ao acompanhar os acontecimentos, fica evidente que o grupo ligado aos clubes mais populares acabou assumindo a organização do futebol nacional.

Esse poderia ter sido o resultado do levante de 1987, a reformulação do futebol brasileiro. É claro que a mudança provavelmente não seria muito drástica, visto que os mesmos cartolas se manteriam no poder. Mas abriria espaço para mudanças.  Uma questão muito mais importante do que apenas quem deveria ficar com uma feia “taça de bolinhas”.

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