Capoeira é coisa de malandros?

Por Vivian Fonseca

O senso comum costuma associar a capoeira, principalmente até as primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro, como atividades de malandros e de categorias sociais que orbitavam em torno de um ambiente de boemia. Exemplos para isso não faltam: de Manduca da Praia, capoeira que viveu no início do século no Rio e que soube traçar relações proveitosas com figuras de elite que o mantiveram fora da cadeia; até Madame Satã, personagem lendária da região da Lapa que soube enfrentar o preconceito contra o homossexualismo a base de muitas navalhadas e rabos de arraia. No entanto, nem só do universo da rua e da malandragem a capoeira do Rio se alimentou no início do século. Ainda nos anos 1920, uma capoeira voltada para filhos da elite carioca despontou e fez escola pelas mãos de Agenor Moreira Sampaio, o Mestre Sinhozinho de Ipanema.

Sinhozinho fotografado aos 51 anos de idade.

            Por mais que se convencione associar o ensino de capoeira em academia como uma invenção baiana, personificado nos Mestres Bimba e Pastinha, Sinhozinho abre sua instituição de ensino na mesma época, no Rio. Sinhô, como era conhecido, nasceu em 1891, em Santos, filho de um tenente-coronel e chefe político local. Esses dados nos permitem perceber que Sinhozinho, como seu próprio apelido sugere, não provinha das classes baixas, fazendo parte das camadas mais favorecidas. Sua clientela também era composta por rapazes de classe média, em geral jovens de Ipanema e Copacabana. Aprendeu boxe e luta greco-romana, e achando que a capoeira se mostrava pobre para a luta, principalmente a ‘agarrada’, resolveu aplicar alguns dos golpes aprendidos nas outras artes marciais à capoeira. Em sua Escola, a capoeira era praticada sem a utilização de qualquer instrumento musical e o treinamento era auxiliado por levantamento de peso, o que o difere completamente de outros treinamentos de capoeira até finais do século XX. Sinhozinho também atuou como preparador físico, tendo trabalhado, por exemplo, para o América Futebol Clube. Pela sua Escola passaram figuras notórias em nossa sociedade, tais quais: Antonio Carlos Jobim e Rudolf Hermany, lutador e um de seus alunos mais conhecidos.       

Tom Jobim (em primeiro plano) na Academia de Mestre Sinhozinho.

            Alvo de diversas polêmicas, principalmente pela fala de diversos capoeiristas que afirmam que a atividade praticada em sua Academia não era capoeira, Sinhô conseguiu projetar a imagem de sua atividade física para além das ruas. Defendendo a criação de seu mestre, Hermanny, no site que criou em sua homenagem, aponta que “A  capoeira de Sinhozinho era baseada na capoeira  das antigas maltas que tanto perturbaram as autoridades do  Rio de Janeiro durante longos anos e teve pouca influência das modalidades praticadas ao som dos berimbaus”.  Vê-se nessa fala, uma busca de respaldo para a capoeira de seu Mestre, Sinhozinho. Baseando-se em uma suposta tradição de capoeira do século XIX, não poderia haver dúvidas com relação à atividade que Sinhô ensinava.

            Para além dessas questões, Sinhozinho nos ajuda a entender que além da rua e da boemia, a capoeira freqüentou os salões e gingou com parte da fina flor da elite carioca. Elite esta, que já flertava, mesmo que de maneira velada, com a prática de origem negra, ainda no século XIX.

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