Futebol e Cinema IV: O corintiano, de Mazzaropi

 

Seguindo o padrão, futebol e cinema.

Mazzaropi foi um fenômeno cinematográfico.  Filmes como “Jeca Tatu” (1959) e “Casinha branca” (1963) contabilizaram oito milhões de pagantes cada!. Ao longo de 30 anos no metiér o ator\diretor estrelou 32 longas, dos quais 14 ele dirigiu[1]

Em “O Corintiano” (1966, direção de Milton Amaral), o comediante encarna um tipo conhecido de qualquer um que tenha um mínimo de contato com a cultura futebolística: o torcedor fanático.  Seu Manuel (Mané, como é conhecido) é corintiano roxo. 

A fita segue uma série de episódios conflitivos e jocosos, como seria de se esperar. O enredo evolui em uma tensão crescente entre o patriarca torcedor e sua família. O conflito cresce tanto pelos exageros do barbeiro-torcedor (Mané não cobra corte de cabelo de quem apresenta carteira de sócio do Coríntias, o que exaspera sua mulher; vive às turras com o vizinho palmeirense; leva um burro (!) para casa e lhe dedica especial atenção, por conta das cores preta e branca que traz no dorso: as cores do Timão. Mané é insuportável…). Não obstante, há ainda um desacerto entre o que Mané perspectiva para o futuro dos seus rebentos e os caminhos que os dois jovens tomam em suas vidas. O clímax dessa tensão implica rompimento\inviabilização da continuidade da relação, com a saída dos filhos de casa. A reconciliação, no final, encerra a trama, re-estabelecendo a harmonia familiar com a afirmação da legitimidade das aspirações juvenis e o reconhecimento das mesmas por Mané. 

Vejamos o caso de Marisa, a filha que quer ser bailarina. A irritação de Mané se dá por conta da associação da aspiração da filha ao “teatro de revista”, no qual “uma porção de moças (…) [se exibem] com a perna de fora, dançando”.  Mané, talvez como muitos pais de seu tempo e lugar social, “não distingue uma coisa da outra”. Numa divertida seqüência explicita-se isso tudo:

Mané chega em casa, com a esposa e encontra a filha, de corpete, ensaiando seus passos ao som da música que vem da vitrola..

 

(Mané) “-  Outra vez essa droga dessa música?

(Marisa) “ – Ih  papai… já vai começar?

(Mané) –  Não, vou acabar com ela [a música]  (…)

(Mané)-  Escuta vamo (sic) parar com essa pouca vergonha aqui. Isso daqui não é teatro de revista, minha filha.

(a mãe intercede) – Isso não se faz Mané; se ao menos você entendesse alguma coisa de balé”

(Mané) – É claro que eu entendo. Sabe o que é balé? É uma porção de moça, com a perna de fora, dançando no teatro (…)

(Marisa) Ora mamãe, papai não distingue uma coisa da outra. O que entende ele sobre arte?

(Mané) –  Arte é futebol, minha filha Você é que não entende disso. Fica aí ouvindo essas músicas chorosas…”

 Mané troca de disco e coloca o hino do Coríntias, a todo volume. Ele preferiria que sua filha fosse uma costureira…. faria gosto se fosse assim.

 Talvez a seqüência mais relevante para situarmos esse filme em seu lugar de produção e opinião seja àquela que leva ao re-encontro entre Mané e Marisa. As pazes com Jair (o filho varão) já estavam consumadas. Este último, junto com a mãe e amigos, insistem para que Mané vá a um espetáculo no teatro;  um show de dança, estrelado por sua filha, sem que o mesmo o soubesse. Ao reconhecê-la, Mané fica indignado e tenta se retirar. No fundo do teatro começa a reclamar e entra em diálogo com um senhor, já anteriormente destacado pela câmera:

(Mané) “-  Isso é uma pouca vergonha!

(Senhor)  – Pouca vergonha? Por quê?

(Mané) –  O senhor ta se divertindo com a filha dos outros. Se fosse a sua não falava a mesma coisa.

(Senhor) –  A minha filha também integra o corpo de baile.

(Mané) –  O quê? Quer me enganar que a tua filha ta dançando aí?

(Senhor) –  E me orgulho muito disso.

(Mané) –  Eu sempre escutei falar que esse serviço de dançarina não é serviço bom…

(Senhor) –  Não diga uma coisa dessas…As moças das melhores famílias da nossa sociedade integram os corpos de baile municipais, as escolas particulares…

(Mané) –  Eu acredito porque é o senhor que ta falando”.

 Mané finalmente cede. Quem seria esse senhor tão convincente, sem nenhuma marcação anterior, sem nome na trama? Um oficial das forças armadas.

 A fé de mané está com os dirigentes da nação. E ele não está sozinho, principalmente nessa primeira fase do regime. Na próxima postagem vamos ver filmes de futebol e cinema com a Ditadura plenamente consolidada e pós o AI5.  Aí veremos como outros filmes sobre futebol lidam com o período.  Até lá!


[1] “Mazzaropi: simples na arte de fazer milhões”.  O Globo, 11 de abril de 2010. Artigo de Rodrigo Fonseca.

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