Deus abençoe a África

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

Faltam 24 dias para a Copa do Mundo. Será a décima nona edição do principal acontecimento do calendário esportivo global. Dessa vez, a novidade é que a África do Sul será sede do evento. Com o lema “Futebol por um mundo melhor”, é a primeira vez que um país do continente africano sediará o mais popular e prestigiado evento esportivo do planeta, sem exagero.

Explorando essas circunstâncias, em dezembro do ano passado a Warner Bros lançou o filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood. O filme, baseado em fatos reais, narra a maneira pela qual Nelson Mandela, recém-eleito presidente sul-africano, utilizou-se do esporte como ferramenta política. O filme se desenrola no período imediatamente ulterior a extinção do apartheid (em 1990) e às primeiras eleições livres do país (em 1994). É a época também em que a África do Sul sediou a terceira edição da Copa do Mundo de Rugby.

Em meio a um momento político bastante delicado, o Springbooks, maneira como se chama a seleção sul-africana de rugby, conseguiria, afinal, uma vitória cuja importância política residia nas suas implicações simbólicas. Na África do Sul, o rugby, ao lado do críquete, era um esporte de brancos, enquanto o futebol era a modalidade dos negros. O rugby, além disso, é um esporte radicalmente coletivo, cujo sucesso depende mais da integração e entrosamento dos membros da equipe, do que da bravura individual de algum aspirante a herói. Todas essas dimensões, de fato, favoreciam as finalidades políticas almejadas por Mandela: a conciliação de todo o país em torno de um único projeto, a construção da nação. À luz dos seus graves problemas, sobretudo a extrema fragmentação que motivava grupos étnicos rivais a se hostilizarem, o papel do rugby, na África do Sul, em outras palavras, seria o de criar um sentimento de identificação nacional capaz de produzir um estado de coesão que suprimisse as efetivas diferenças que separavam o país.

De certo modo, o lema da Copa de Futebol desse ano sugere a mesma convicção, que é tambem a convicção de Clint Eastwood. De ascendência escocesa e membro do partido republicano, Eastwood é um cineasta que testemunha in lócus os dramas de uma sociedade às voltas com as dificuldades de convívio com a diversidade. Não por acaso, muito recentemente esse assunto foi alvo explícito de um dos seus trabalhos. Grand Torino, de 2008, narra a história de um velho xenófobo e racista (interpretado pelo próprio Clint Eastwood) que vê os costumes do seu antigo bairro radicalmente alterado em função da progressiva presença de imigrantes chineses, em meio a uma vizinhança, ademais, já devidamente dominada pelos chicanos – maneira genérica (e preconceituosa) de se referir a qualquer latino-americano nos Estados Unidos.

Metaforicamente é este tambem o assunto de Invictus: o multicuralismo de um país que atualmente têm mais rádios falando em espanhol do que em inglês; um país que acabara de eleger seu primeiro presidente negro, nascido de uma relação inter-racial entre um queniano e uma norte-americana, empenhado em reformar a política de imigração, propondo, inclusive, a legalização de imigrantes ilegais, o que esbarra fundamentalmente na oposição – pasmem! – do partido republicano. Supondo um plano de similaridade, Invictus reduz as particularidades da sociedade sul-africana a uma rede comum de símbolos, a fim de torná-la culturalmente inteligível – para o “Ocidente” branco e bem nutrido, claro. O filme, nesse sentido, fala de si mesmo, não dos outros. Em última instância, é os Estados Unidos, não a África do Sul o que está nas telas de Eastwood.

Protestos sobre a reforma da política de imigração nos Estados Unidos (maio de 2010)

Mas antes de continuar tentando transpor problemas e sugestões, seria prudente pensar melhor sobre o significado das propostas que sugerem o nacionalismo como uma alternativa para as novas e delicadas questões do mundo contemporâneo. Em que medida o nacionalismo ainda conseguiria cimentar, tanto na África miserável e poliglota, quanto nos Estados Unidos cosmopolita e afluente, um amálgama capaz de transcender as diferenças culturais? Até que ponto a equação dos dilemas sociais em pleno século XXI se resolveriam com a importação de soluções européias do século XIX? Yo no sé, é o máximo que eu ousaria dizer para Eastwood, na língua dos chicanos.

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