Jogos de Identidades: o esporte no meio do Atlântico – Cabo Verde

por Victor Andrade de Melo

Aproveitando que estamos às vésperas de dar início ao Simpósio Internacional “Esporte, Colonialismo e Pós-Colonialismo nos Países de Língua Oficial Portuguesa”, dedico meu post de hoje para dar algumas informações sobre a prática esportiva em Cabo Verde, parte de uma pesquisa que tenho desenvolvido nos últimos anos.

Cabo Verde é um arquipélago de 10 ilhas que foi colônia de Portugal até 1975. Segundo dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Comunidades, o país está, de avião, a aproximadamente 2 horas da África, 3 horas e 30 minutos da Europa e da América, e cerca de 4h30 minutos dos Estados Unidos. Essa situação geográfica acabou por estabelecer uma série de peculiaridades em sua história, inclusive no que toca a sua relação com a metrópole no período colonial, algo que influenciou também no desenvolvimento da prática esportiva

Mapa de Cabo Verde

Foi significativo o número de agremiações fundadas em Cabo Verde entre o quartel final do século XIX e as décadas iniciais do século XX. Se essas iniciativas ainda não expressavam exatamente a efervescência que marcará o arquipélago nas próximas décadas, certamente anunciavam que mudanças estavam em curso.

Naquele contexto histórico, esses grupos tiveram grande importância para a história de Cabo Verde: a) incentivaram a vida pública, promovendo o fortalecimento da elite local; b) ajudaram a configurar uma nova sociabilidade pública feminina; c) contribuíram para a formação intelectual e cultural não só de seus agremiados como de outros interessados dentro do seu raio de ação; d) expressavam o desejo de sincronia com uma estrutura de sensibilidades em construção no cenário internacional; nesse caso, não devemos investir na ideia de que se tratava um processo “mimético”. O caso caboverdiano tem algumas facetas bastante esclarecedoras.

A própria condição de colônia portuguesa trazia para Cabo Verde alguns desdobramentos. Portugal, na sua condição semiperiférica, teve menos influência no desenvolvimento das novas práticas do que aquela metrópole que era mesmo quase um colonizador do colonizador, a Inglaterra.

Bandeira de Cabo Verde

Vejamos que não foi uma característica contumaz dos britânicos impor em suas colônias todos os seus traços culturais, entre os quais os esportes, em muitas oportunidades, inclusive, considerados por eles “inacessíveis” para aqueles que não dispunham, numa visão colonial, dos mecanismos sensórios e intelectuais para entender o seu refinado funcionamento (especialmente os ideais de cavalheirismo e fair play). Tampouco os portugueses, no caso de Cabo Verde, tiveram o claro intuito de usar a prática esportiva como instrumento de controle, de dominação, de disciplinarização. No máximo, com muitas ressalvas, os clubes se constituíram como mecanismo de identificação da elite metropolitana em territórios insulares.

Por que, então, o “colonizado” caboverdiano se envolveu tão rápida e enfaticamente com a prática?

De um lado, há um traço comum com outras colônias africanas: a transição de uma sociedade eminentemente rural para outra com características urbanas ocasionou o rompimento com uma anterior concepção de tempo e contribuiu para a estruturação de uma nova dinâmica e organização dos divertimentos.

De outro lado, há peculiaridades. Uma delas é o fato de que os caboverdianos aprenderam a bem lidar com a dubiedade colonial de Portugal, que sobrepunha Império e nação, postura necessária em função da necessidade de manutenção dos territórios em África, da especificidade do desenvolvimento econômico da metrópole (ao contrário de outras colonizações, a portuguesa não era fruto da industrialização) e da própria construção da ideia de uma nação lusa que extravasava o continente europeu, algo que tinha mesmo relação com as características geográficas do país. Essas dimensões tornaram-se mais contundentes depois dos fatos da Conferência de Berlim (1885) e do Ultimato de 1890.

Foi a partir das brechas e contradições dessa compreensão que foi se constituindo uma proto-nação com aspirações modernas, no meio do Atlântico. Os caboverdianos, assim, ao mesmo tempo em que dialogavam com um processo macro, deram uma solução específica: não esperaram iniciativas de “civilização”, trataram eles próprios de se mostrar “civilizados”, para subverter as considerações do colonizador.

Campo de Golfe em Mindelo, Ilha de São Vicente, o único de terra do mundo

“Civilizados” que eram, em certa medida algo reconhecido pela própria metrópole, que lhes concedia certas exceções no tratamento colonial, podiam exigir radicalmente uma relação diferenciada. Demonstrar hábitos modernos, entre os quais o de fazer esportes e cuidar da saúde e do corpo, reforçava a ideia tão mobilizada, ora mais ora menos explícita e sempre com um fundo rácico, de que Cabo Verde era uma colônia distinta, superior.

O esporte ter-se-á constituído como uma “prática deslizante”, uma das ferramentas que contribuiu para a “reavaliação das bases de legitimação e lealdade nacionais, para a reinterpretação dos seus sentidos e prática para a (re)emergência de novos sujeitos” (Fernandes, 2006, p.33).

Assim, com ênfases distintas nos diversos momentos da história do arquipélago, a construção de uma identidade local contemplou um olhar sobre o esporte (ou pelo menos ele foi um elemento importante nas tensões internas sobre o que deveria ser essa identidade); ao mesmo tempo, essa prática ajudou na consolidação do que deveria ser compreendido como “caboverdianidade”.

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: