Clarice Lispector e o futebol

Por: Edônio Alves

“Quanto a futebol, um dia entenderei mais. Nem que seja, se eu viver até lá, quando eu for velhinha e já andando devagar. Ou você acha que não vale a pena ser uma velhinha dessas modernas que tantas vezes, por puro preconceito imperdoável nosso, chega à beira do ridículo por se interessar pelo que já devia ser um passado? É que, e não só em futebol, porém em muitas coisas mais, eu não queria só ter um passado: queria sempre estar tendo um presente, e alguma partezinha de futuro”.

Clarice Lispector

 O trecho acima é de uma crônica de Clarice Lispector em resposta a um desafio do cronista esportivo Armando Nogueira, que nos deixou este ano, e que certa vez intimara a sua amiga de jornal a escrever sobre futebol. O título desta crônica, escrita em tom espistolar, digamos assim, é “Armando Nogueira, futebol e eu, coitada”, e foi publicada no Jornal do Brasil em 30 de março de 1968. Certamente, Armando Nogueira, conhecendo o espírito inquieto e enigmático da escritora Clarice, fez o desafio com a intenção de conhecer o seu estado de espírito em relação ao futebol, esporte que ele tanto amava, e pelo que, provavelmente, achava que a escritora não dava a menor bola. Enganou-se. Ela não só curtia futebol – sempre que podia, é bem verdade; e sempre ao lado dos filhos: um botafoguense e outro Flamenguista, ela revela na crônica – como ao tema ela dedicou um dos seus contos o qual sugerimos a leitura, dentro daquele nosso propósito de conversarmos, no espaço desse blog, sobre a relação do futebol com a literatura. A narrativa se intitula, “A procura de uma dignidade”, e segue a linha de sondagem psicológica, típica da autora.

No conto, extremamente interessante e perquiridor, como tudo o que a escritora produziu em matéria de literatura, a palavra, no seu uso literário, serve de meio e símbolo de inquirição da interioridade humana. O texto conta as diatribes de uma certa senhora, beirando os setenta anos de idade, que encontra-se momentaneamente perdida no labirinto de si mesma, ao perceber, de súbito, que por um desastrado engano entrara nos subterrâneos do estádio do Maracanã vazio e de onde tem dificuldade de encontrar a saída.

Este seu périplo inesperado pelo maior estádio do mundo (ia encontrar um grupo de amigos nos seus arredores e inadvertidamente se desviara) lhe serve de experiência-chave para uma constatação dolorosa com a qual é levada a se debater: a de que o homem é um ser contingencial e, por isso mesmo, presa irrevogável do seu próprio destino por determinações do tempo e do espaço. Assim é que ante a descoberta de um desejo irrefreável de fazer amor com um ídolo de TV (o cantor Roberto Carlos), em circunstâncias “fora de época”, responde com uma crise existencial em que a “fome dolorosa de suas entranhas, a fome de ser possuída pelo inalcançável ídolo de televisão”, nos termos do texto, leva- a perceber, de forma dramática, que somos seres inabilitados para convivermos com nosso espaço vivencial (simbolizado pelo labirinto do Maracanã) e, principalmente, com o nosso próprio tempo, figurado, na história, pelo descompasso entre a dignidade metafísica do espírito e a voracidade instintiva do corpo: “Corpo cujo fundo não se via e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos vivos como lagartos e ratos”. E tudo isso aos setenta anos bem vividos, e aos quais, claro, por fim, sucumbe.  Aliás, bem dentro do estado de espírito descrito no trecho da crônica-resposta a Armando Nogueira, que epigrafa esse nosso papo de hoje. Boa leitura!

 Sugestão de leitura:

Armando Nogueira, futebol e eu, coitada – crônica; e A procura de uma dignidade – conto. Ambos In: Donos da Bola. Organização e apresentação de Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Língua Geral, 206. Páginas, 21 e 75, respectivamente.

 

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