Direto de Portugal

Escrevo de Portugal e, tomado pela ambiência local, assim como pelo resultado da última partida do selecionado português na Copa, remeto-me a um marcante confronto entre as duas seleções – ocorrido em 30 de janeiro de 1937.

Na ocasião, em plena guerra civil espanhola, o selecionado luso de Oliveira Salazar se defrontou com o escrete representante da Espanha falangista, no estádio das Salésias [1]. A teatralização do evento foi completa. Grandes faixas celebrando os dois líderes (Salazar e Franco) enfeitavam o estádio, que recebeu um bom público para o período. Após adentrarem o campo, os dois lados se perfilaram para cumprimentar a torcida com a saudação fascista. No entanto, dois jogadores do Belenenses, Mariano Amaro e José Simões, quebraram o protocolo e mantiveram os punhos fechados ao esticarem os braços, ao invés de manterem a mão espalmada como o resto da equipe. A revista “Stadium” – o principal periódico esportivo de Portugal à época –, em sua matéria sobre o jogo, retocou a foto onde os jogadores aparecem fazendo a saudação, tentando disfarçar o protesto dos dois atletas.

Jogadores portugueses fazendo a saudção fascista.

Jogadores portugueses fazendo a saudção fascista.

Detalhe do retoque da imagem

O protesto dos atletas, no entanto, não passaria em branco. Dias após o evento, ambos foram chamados a testemunhas junto às autoridades estdonovistas, juntamente com o técnico Cândido de Oliveira [2]. As investigações não obtiveram grandes resultados.

Portugal venceu por 1 a 0, com gol de Artur de Sousa “Pinga”, e recebeu a taça “General Franco”. Foi a segunda vitória de Portugal contra a Espanha. A primeira acontecera dois meses antes (em 27/11/1937), em Vigo, já sob a Guerra Civil espanhola (até o árbitro era fascista, da Italia). O jogo não foi reconhecido pela FIFA em face à Guerra Civil espanhola.

 _____________________

[1] O estádio das Salésias, do Belenenses, foi o primeiro campo gramado de Portugal, localizado no bairro de Belém, em Lisboa.

 [2] Cândido de Oliveira foi um dos principais treinadores da história do futebol português. Opositor do regime salazarista, foi mandado para o campo de prisioneiros do Tarrafal em 1942, onde permaneceu por 18 meses. Recebeu a liberdade em 1944, com a aproximação do regime dos Estados Unidos, voltando a ocupar seu cargo como técnico do selecionado lusitano.

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: