Cabo Verde na Copa!

por Victor Andrade de Melo

Já chegamos na reta final de mais uma Copa do Mundo de Futebol, dessa vez com más notícias para a seleção brasileira, e, motivado por uma informação do amigo José Gonçalves, resolvi escrever algo sobre as participações de Cabo Verde no evento máximo do esporte internacional.

 Não, de fato a seleção caboverdiana jamais foi a uma Copa. Na verdade, sua maior conquista internacional foi mesmo uma edição da Taça Amílcar Cabral, um campeonato disputado por equipes nacionais da Zona 2 da Confederação da África (em outra oportunidade escreverei sobre essa competição). Mas o curioso é que constantemente há jogadores nascidos no Arquipélago que alinham em equipes de outros países. Nessa última Copa foram dois: Nani, de Portugal, que lamentavelmente não jogou por problemas de contusão, e Gelson Fernandes, responsável pelo gol que determinou a vitória da Suíça sobre a Espanha.

 Há aqui uma questão de grande relevância, que merece um olhar mais detido: a migração de jogadores africanos para a Europa. Antes, no quadro colonial, esses participavam diretamente das seleções europeias (como é o caso do sensacional Eusébio). Nos dias de hoje, é o dinheiro dos clubes europeus que compra os atletas dos países em desenvolvimento, e não poucas vezes leva a mudanças de nacionalidade dos atletas, algo observável não só com a África e com o futebol, mas também com outros esportes e outros continentes.

 As informações de John Bale (2004) são impressionantes. Em 2002, dos 311 atletas de 16 seleções da Copa da África, 193 jogavam na Europa (ou seja 62%); as equipes de Camarões, Nigéria e Senegal eram quase integralmente formada por jogadores que atuavam fora do país de origem. Em 1999 havia cerca de 890 africanos no futebol europeu; Portugal era um dos países que mais recebia jogadores da África (considerando as várias divisões). Angola era um dos países que mais enviava atletas, sendo que 93% para a antiga metrópole. Enquanto isso, o futebol africano não se desenvolvia na mesma medida.

 A ironia de uma matéria de um jornal caboverdiano sobre uma visita do presidente da FIFA a Cabo Verde dá o tom dos incômodos:

 “Aproveitando que o Joseph Blatter que esteve por essas bandas recentemente agora é um dos nossos, só tínhamos que convencer o homem a aprovar uma lei especial autorizando que, mesmo os atletas que já tenham representado as suas selecções nacionais, possam vestir dez estrelas ao peito. Que bonito, aí a profecia de Nho Puxim poderia mesmo se tornar realidade, e não é que ele quase acertou? Em ano de Mundial, Cabo Verde joga amanhã com Portugal, uma selecção que vai à Copa na Alemanha, nosso adversário naquela épica final. Nunca estivemos tão perto do Mundial, não é verdade?… Há não, se tirarmos os jogos com o Gana, desses nem quero ouvir falar. Já agora, aposto que ganhamos de Portugal, 1 a 0”.

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