Sobre mulheres e montanhas

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

 O motivo dessa semana são três assuntos que me atraem particularmente: a história, o montanhismo e as mulheres. A história da presença das mulheres nesse esporte remonta aos primórdios da modalidade. Elas desempenharam mesmo considerável protagonismo, contrariando em certa medida uma visão em que a participação social feminina é às vezes subestimada. Ainda que tal participação em várias circunstâncias tenha sido, de fato, bastante assimétrica se comparada aos homens, não resulta daí que nenhuma participação tenha sido possível. A pouca visibilidade dessas agentes deve-se mais a inadequação de modelos teóricos que até muito recentemente não se ocupavam seriamente de interrogar o papel das mulheres nos acontecimentos históricos, do que de uma eventual submissão efetiva.

Na Europa, o início do hábito de escalar montanhas por prazer e divertimento está geralmente associado às primeiras ascensões aos Alpes Franceses. Particularmente, cita-se o feito de Jacques Balmat e Michel Gabriel Paccard, que em 1786 atingiram o topo do Mont Blanc. Daí em diante, lista-se uma série de sucessivas proezas que teriam resultado na atual conformação esportiva do montanhismo. Nessa versão, são sempre homens os responsáveis pelo desenvolvimento do esporte.

Recentemente, contudo, pesquisas como a da montanhista espanhola Marta Iturralde têm apresentado uma série de mulheres que, também desde o fim do século XVIII, arriscavam-se em aventuras nas montanhas pelo simples prazer de fazê-lo. Menciona-se, nesse caso, Rosalie Ramon, que escalara o Pico de Entre los Puertos por volta de 1792; Natalie de Noailles, que fazia o mesmo no Pic du Midi de Bigorre por volta de 1800; Hortense de Beauharnais, que explorara o Hourquette d’Ossoue nos anos 1807; Maria Carolina de Nápoles, que estivera na sugestiva Brecha de Rolando em 1828 e assim sucessivamente.

Capa do premiado livro de Marta Iturralde, que reproduz a bela litografia de Grenier, Pyréneisme féminin sous Napoléon III, bastante emblemática sobre os modos de representação da mulher no montanhismo.

No Brasil, datam-se experiências desse tipo ao menos desde 1792. Nessa época, Aeneas Anderson, criado pessoal do chefe da comitiva diplomática inglesa que se dirigia à China, menciona que “o senhor George Stauton, juntamente com um grupo de pessoas, fez uma excursão até uma montanha chamada Pão de Açúcar”. Por volta de 1819, Henry Chamberlain, oficial britânico que veio ao Brasil acompanhando seu pai, o cônsul-geral da Inglaterra, falara de uma “tradição corrente” que, já àquela época, destacava como os primeiro autores da proeza de escalar o Pão de Açúcar, um grupo de jovens fidalgos, pertencentes ao séquito do Embaixador Austríaco Conde Eltz, acompanhados por dois oficiais e alguns marinheiros de duas fragatas, uma austríaca, outra inglesa. A empreitada, de acordo com Henry Chamberlain, teria lhes custado “duas horas de perigos e exaustivos esforços”.

No mesmo sentido, o alemão Carl Seider, que esteve no Brasil entre 1825 e 1835, refere-se a esta montanha como envolta em mil lendas e tradições, entre as quais destaca o enigma da sua primeira ascensão. Segundo ele, teriam sido dois soldados alemães os responsáveis por esse “arriscado lance”, realizado ao tempo da chegada da segunda esposa de D. Pedro, Imperatriz Amélia. O metodista norte-americano Daniel Kidder, durante sua primeira estadia no Brasil entre 1836 e 1837, também dá notícias a esse respeito. O religioso menciona ter colhido informações sobre um marinheiro austríaco, mas também sobre um oficial inferior da marinha norte-americana como o primeiro a conceber e executar o arrojado plano de escalar as escarpas rochosas do Pão de Açúcar.

Aqui também são sempre homens que aparecem como responsáveis pelas realizações. Todavia, entre montanhistas cariocas, existe uma tradição oral que menciona recorrentemente dois episódios, semelhantes a esses, só que realizados por mulheres. O primeiro teria sido de Enrieta Carstiers, uma inglesa que, segundo essa tradição, escalou o Pão de Açúcar e desfraldou em seu topo a bandeira da Inglaterra ainda em 1817. O segundo, que remontaria a 1838, teria sido empreendido pela também inglesa América Vespuci, mais ou menos nos mesmos termos. Interessante que em 1917, o historiador norte-americano William Koebel menciona também um acontecimento em que uma Union Jack teria sido desfraldada no cume do Pão de Açúcar nos princípios do século XIX. Apesar da ausência de provas, Koebel termina por atribuir a façanha a um grupo de marinheiros ingleses.

A descrição do próprio Daniel Kidder é outra que de certo modo também reforça a versão da tradição oral. Além da já citada referência a um marinheiro austríaco e a um norte-americano, Kidder menciona ainda, nominalmente, América Vespuci. O metodista chega, inclusive, a considerar a possibilidade de ela, mulher, ter sido a primeira a tentar (mas sem sucesso) a empresa de escalar o Pão de Açúcar. Para noso informante, a explicação para o episódio não estaria na virtuose ou na coragem da inglesa, mas sim na benevolência e cavalheirismo dos homens, que para não afrontá-la teriam então se desinteressado do assunto. Nas suas palavras: “Tendo, porém, falhado a dama ousada, pode-se supor que, por um gesto de cavalheirismo, os moços estivessem, desde então, desinteressado da tentativa”.

De todo modo, não é inteiramente descabido imaginar que uma mulher tenha sido a primeira pessoa a galgar os 396 metros de altura do Pão de Açúcar, movida pelo simples desejo de contemplar o belíssimo panorama que se descortina de seu topo. Desde então, a despeito dos obstáculos naturais e sociais, a presença das mulheres nesse esporte notar-se-ia de maneira cada vez mais ativa. Hilda de Oliveira, Silvia Bendy, Yaci Fairbairn, Denize Emmer ou Roberta Nunes são algumas das muitas que merecem ser lembradas nesse sentido. Suas realizações esportivas escampam aos pequenos limites do post dessa semana, que já vai se alongando demais. A elas caberiam, com certeza, no mínimo todo um novo capítulo. Até lá, vida longa à presença das mulheres nas montanhas.

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