Craveirinha, o esporte, a Copa do Mundo

por Victor Melo  

  

José Craveirinha é um dos mais importantes literatos moçambicanos. Para além de todas as qualidades de sua obra, nos interessa nesse post sua relação com o esporte e com o Brasil. Diz ele em entrevista a Rita Chaves:  

“Eu devia ter nascido no Brasil. Porque o Brasil teve uma influência muito grande na população suburbana daqui, uma influência desde o futebol. Eu joguei com jogadores brasileiros, como, por exemplo, o Fausto, o Leônidas da Silva, inventor da bicicleta. Nós recebíamos aqui as revistas. Tem um amigo meu que era mais conhecido como Brandão, futebolista brasileiro (…). Havia essas figuras típicas anteriores a um Didi. E também na área da literatura. Nós, na escola, éramos obrigados a passar por um João de Deus, um Dinis, os clássicos de lá. Mas chegados a uma certa altura, nós nos libertávamos. E então nos enveredávamos por uma literatura errada: Graciliano Ramos… Então vinha a nossa escolha; pendíamos desde o Alencar. Toda a nossa literatura passou a ser um reflexo da Literatura Brasileira” (apud Chaves, 1999, p.157).  

O poeta foi na juventude destacado praticante de atletismo, de futebol e de basquete. Sobre sua paixão pela prática esportiva e a simultaneidade desta com seu envolvimento com a literatura, certa feita afirmou:  

“Amigos meus me perguntam: ‘como é que tu te arranjas com o futebol e a poesia? Não dá! Como é que tu consegues? Como é que tu escreves isso se tu jogas futebol?’. E eu respondo que tanto o futebol como a poesia não precisam de árbitros, senão entram em falta e uma coisa recomenda a outra. Havia uma corrente que não aceitava que um futebolista pudesse escrever isso. Eu sempre gostei de esportes e não via lógica em sacrificar um dos gostos só porque parecia mal, porque eu acho que aquilo que também se chama cultura física é cultura, faz parte das vivências do homem” (apud Chaves, 1999, p.143).  

 Descrição da foto: time do Atlético Nacional, clube de Lourenço Marques (atual Maputo), exclusivo de mestiços, aproximadamente 1944 (o uniforme era semelhante ao do São Paulo Futebol Clube). José Craveirinha é o primeiro agachado à esquerda. 

Como jornalista, Craveirinha foi responsável pela seção de esporte do semanário O Brado Africano, um dos veículos pioneiros do movimento nativista em Moçambique. Sobre a importância de tal envolvimento, afirma:  

“Nasci ainda mais uma vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso” (apud Ngomane, 2002, p.15).  

Sua cobertura não se resumia ao tradicional comentário acerca dos resultados das competições: usava seus escritos sobre o esporte para por em discussão a questão colonial, a exclusão, o racismo. Ao escrever sobre futebol, de alguma forma buscava despistar o controle e a censura, inserindo a prática esportiva no quadro de tensões políticas.  

  

 Aproveitando que o Brasil se prepara para organizar a próxima edição da Copa do Mundo de Futebol (2014), lembramos uma de suas poesias, escrita por ocasião da Copa de 1986 (México). Que seus alertas nos possam inspirar (embora particularmente desconfie de que os responsáveis pela organização do evento em terras tupiniquins pouco estão preocupados com isso).  

 

“MUNDIAL” de FUTEBOL NO MÉXICO (em Directo)

Será boato meus beiços a babarem os verdejantes relvados mexicanos

enquanto o povo gasta os dentes em subjectivas bolas de farinha?

Ou no México são reais as roliças nádegas de um Diego Maradona

o presunto mais caro do mais recente futebolismo internacional?

Ligo o televisor e oiço um fulano a perder o fôlego no delírio do gôôô…lo!

tudo via satélite no interior de minha casa sem eu lhe abrir a porta

com medo dos fleugmáticos anglo-saxónicos chefes das zaragatas

e por causa das guapas moças de “shorts” a abanarem as mamas

no centro do écran e sem que o árbitro assinale a falta.

Aqui onde as crianças adeptas do Futebol Clube Tuberculose

roem mandiocas fatais com a tal força anímica

porquê a prioritária urgência em admirar

um lírico Sócrates a falhar platonicamente um golo mais do que certo?

Mas porquê esta fortuita indigestão de futebóis de dólares

saboreados nos olhos via satélite e nas enfermarias

o drama das ampolas de penicilina que não temos?

Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste

a agredir impunemente o triste indefeso Luís de Camões?

Com as hábeis botas do sr. Diego Maradona a chutar-nos

quantos sapatos calçariam os pés dos Meninos

infutebolizados pelo malfazejo júbilo

das hienas soltas nas matas?

Nesta jogada de comida intelevisível

60 xambocadas indemocráticas de massas em directo

mais outras 60 xambocadas em diferido no adiposo

rabiosque fútil do idolatrado “desporto-rei”

com dólares “cash” pagos em Maputo

deliciando o anónimo dono do satélite.

Em honra de todos os membros da FIFA

e todos os espectadores ausentes nas bancadas sol

vamos vivar os maiores craques aztecas

e deixar os heróis dos golos em paz

no território soberano deste papel.

Viva Siqueiros!

Viva!

Viva Orozco!

Viva!

Viva Rivera!

Viva!

E agora palmas à magistral tabelinha

entre os grandes craques mexicanos

Emiliano Zapata e Pancho Villa

heróis do grande campeonato a sério

desde sempre disputado nos pátrios campos do México.

E viva Emiliano Zapata!

Viva!

E viva Pancho Villa!

Viva!

E de fora da grande área do último mundial

dedico aos eternos mártires da bancada sol

este meu humilde golão vitorioso

só com meticais em directo sem satélite

e nem um único dólar em diferido.

Viva o craque Emiliano Zapata!

Viva!

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