Futebol e Cinema V: Isto é Pelé !

  

No último post, depois de comentarmos “O Corintiano”, com Mazzaropi (1966), prometemos que iríamos ‘ver’ filmes de futebol com a Ditadura plenamente consolidada. No caso, até já anunciando a sua auto-retirada   -extremamente lerda e mais cheia de idas e vindas do que de forma “gradual”.  Pois bem, o que segue é uma breve apresentação de “Isto é Pelé” (1974).

Trata-se de obra sobre o nome maior do futebol nacional; sobre aquele que anos mais tarde seria eleito o “atleta do século”.  Esse percurso tem, no filme de Luiz Carlos Barreto, com montagem de Eduardo Escorel, (uma dupla de peso), uma marco importante. Repassemos, muito sinteticamente, o que era/é Pelé para o filme em questão.

            A narrativa começa com a despedida de Pelé da Seleção, no Maracanã. Do ‘fim’ parte para o ‘início’, na Suécia, em 1958 e explica: essa jornada “veria nascer o jogador mais completo que já se vira jogar”. A partir dessa afirmação dá-se um corte e vislumbramos Pelé treinando (uma constante na fita). O jogador aparece desempenhando performances em várias modalidades: vôlei, arremesso de dardo, basquete, arremesso de disco… Em off, ouvimos:

“capaz de se destacar em qualquer modalidade de esporte ou atletismo, foi no futebol que encontrou a possibilidade de se realizar plenamente como atleta. Dotado de coordenação muscular perfeita [aparece saltando numa corrida de obstáculos] e de reflexos instantâneos, comprovou ao longo de sua carreira que o futebol não é apenas improvisação. Aprimorou seus recursos naturais com obstinação”. 

Mais à frente, Pelé aparece como professor dos meninos da Vila Belmiro.  Ensina a bater com a esquerda, cabecear, matar no peito etc. Pelé também é colocado ao lado de grandes personalidades da época. Aparece com o Papa; “rainhas e estadistas sobem à tribuna para ver jogar o rei do futebol”; “Todos rendem-se ao seu gênio”;  “Todas as línguas falam da glória de Pelé”.

 

 Vejam, parece que há dois filmes. Um narrando a trajetória (magnífica, aliás) de Pelé e outro explicando como isso é possível.  São interligados, na verdade. Correspondem a uma tese que parece juntar uma pré-disposição (uma potencialidade atlética incrível de Pelé; inata) com uma obstinada e recorrente preocupação com treinamento e aprimoramento. A fórmula fica mais ou menos assim: incomum capacidade atlética + aperfeiçoamento e treinamento contínuo =  um jogador como nenhum outro,  merecedor de admiração internacional.  Isto é o documentário (uma síntese, espero, razoável).

             Para não nos estendermos, basta lembrar do post anterior. Em “O Corintiano”, o futebol filmado serviu parar rir e consentir.  Dialogava com um primeiro momento do Novo Regime: o seu apelo moralizante. Após o Milagre Brasileiro e as propaladas pretensões à grande potência, a linha dialógica parece outra. Vejam, mesmo Pelé, esse monstro de “reflexos instantâneos” e “coordenação muscular perfeita”, teve que superar a “improvisação” e potencializar “seus recursos naturais” com “obstinação”, técnica e disciplina. Não deveriam, os brasileiros e o Brasil (com seus imensos recursos naturais), seguir o mesmo exemplo?  “Isto é Pelé” também parece querer dizer:  isto pode ser o Brasil, com sucesso e reconhecimento internacional.  

            No próximo post, o futebol filmado que bate de frente com o Regime…

Não percam (mas se perderem, acessem depois…) !

Abraços,

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