O maior clássico de Minas: René Barrientos x Che Guevara

por André Schetino

Há alguns meses atrás tive a oportunidade de ler o trabalho de um aluno sobre a constituição identitária do torcedor cruzeirense. Torcedor fanático do clube, foi mais um aluno que elegeu como objeto de estudos o seu esporte preferido e seu clube de coração. Ao ler o trabalho me interessei particularmente sobre a questão da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro, que ao longo da história se firmou como a maior de Minas Gerais. O tema por certo não é novo, mas dentro do amplo quadro de disputas dentro da rivalidade do clássico mineiro, me chama atenção o embate das bandeiras das torcidas organizadas.

Primeiro com relação ao tamanho. As torcidas disputam já faz um bom tempo o título de maior bandeira de Minas (e do Brasil). De tempos em tempos, surge uma bandeira alguns metros ou centímetros maior do que a anterior. As bandeiras são erguidas no início dos jogos e a cada gol dos times, ocupando toda a largura do anel superior da arquibancada do Mineirão. Com o fechamento do estádio para reformas a disputa fica também adiada, uma vez que as bandeiras são tão grandes que não cabem em um estádio de proporções menores.

Fonte: site oficial Torcida Organizada Galoucura

Em segundo lugar, o caso mais interessante na minha opinião. A constituição da rivalidade a partir da escolha de símbolos para as bandeiras das torcidas. A torcida organizada Máfia Azul, do Cruzeiro, confeccionou várias bandeiras com o rosto de Ernesto Che Guevara, escolhido como um dos símbolos da torcida.

Fonte: site oficial da Torcida Organizada Máfia Azul

Em “resposta”, a Torcida Organizada Galoucura, do Atlético, confeccionou uma bandeira que estampa o rosto do General René Barrientos, que comandou o exército responsável pela captura e execução de Che.

Fonte: site oficial da Torcida Organizada Galoucura

Isso obviamente desencadeou em algumas discussões relativas às posições políticas tanto entre as torcidas como por parte da imprensa. Tanto que a torcida organizada do Atlético mantém em seu site uma nota oficial que explica a escolha do General para estampar a bandeira, reproduzida abaixo:

“Esse cara é 22, só fez loucura…. René Barrientos 100% Galoucura.

O Conselho Administrativo do G.C.R.T.O. Galoucura, deixa aqui de forma oficial, a explicação pelo uso da bandeira do General René Barrientos.

A Galoucura é uma agremiação de torcedores de futebol, não somos partido político e nem temos ligação com qualquer um, não somos movimento revolucionário ou nada do tipo.

A bandeira do General René Barrientos, idealizada por um dos membros do Conselho da Galoucura, tem apenas um objetivo, Rivalidade, assim como, o Galo come a Raposa, René acabou com Che, como o outro lado usa a imagem de Che.

Usamos a imagem de René Barrientos, mas a mídia e muitas pessoas com “birra” da Galoucura já vieram dizer asneiras do tipo: Galoucura apóia a ditadura, Galoucura contra a Democracia.

Carregamos no sangue o orgulho de sermos Atleticanos, Brasileiros, Mineiros, a bandeira do René Barrientos atinge plenamente seu objetivo, a rivalidade, simples, pura e saudável.”

Para além das bandeiras com o rosto de jogadores que foram ídolos dos clubes, em Minas o caso Che Guevara e René Barrientos mostra que a rivalidade entre as torcidas pode relegar questões políticas a um outro plano, transformando o esporte na principal bandeira de luta, ou na luta das bandeiras.

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