Passado e futuro ou dinheiro e paixão

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

 Alguém já anotou que entre as muitas invenções da Idade Moderna está o prazer. Explico. A partir do século XVI, homens e mulheres passaram a orientar o fluxo de suas vidas na expectativa de satisfazer seus desejos. Pouco a pouco, esse impulso acabou tornando-se mais que uma simples expectativa, para transformar-se numa quase obsessão. Isto esclarece em parte porque a depressão é constantemente apresentada como a doença da vida moderna. Faz sentido. A crença de que uma vida plena de realizações é possível, faz com que as inevitáveis frustrações sejam também insuportáveis. “Felicidade é a única coisa que deixou de existir no preciso momento em que foi inventada”, disse algum interessante pensador cujo nome me escapa agora.

O costume de vislumbrar a sociedade ideal no harmonioso passado perdido ou no glorioso futuro vindouro também se equaciona mais ou menos pelos mesmos motivos. Saudosismo romântico ou utopias quiméricas são, às suas maneiras, expressões de um perpétuo descontentamento com o presente.

A imagem do havaiano Duke Kahanamoku, prestou-se perfeitamente aos interesses da nascente indústria do turismo norte-america, no momento mesmo em que começava a exploração do arquipélago que o projetara como lenda da natação e mito do surfe.

Interpretações do esporte às vezes também não escapam dessas tendências. “O futebol antigamente era melhor”; é o tipo de avaliação que vez outra emerge a cena do dia. Os motivos para justificar esses e outros comentários do gênero variam de acordo com quem os pronuncia. Todavia, a ganância, o comércio e a ambição pecuniária geralmente são os denominadores comuns. Segundo se diz, “antes, jogava-se por amor à camisa”, até que a monetarização das relações no esporte teria profanado um domínio outrora imaculado.

Esportes na natureza, de maneira geral, conformam-se de maneira particularmente aguda a esse imaginário amadorístico. O surfe, por exemplo, há anos vive sob uma clivagem entre “românticos” e “pés no chão”.  Os primeiros, são representantes de concepções que se querem “mais autênticas”. É o surfe como filosofia e estilo de vida, instrumento para o equilíbrio e harmonia com a natureza. Por outro lado, os segundos, “pés no chão”, são os que se esforçam por explorar comercialmente o esporte, sob a justificativa de adequá-lo às inevitáveis necessidades e exigências dos tempos modernos.

O montanhismo, no mesmo sentido, é outra modalidade que exibe vitalidade em tradições que pretendem rejeitar iniciativas de exploração comercial do esporte. Trata-se, talvez, do esporte que por mais tempo resistiu (e tenta ainda resistir) aos impulsos de profissionalização. Montanhistas que encaram sua prática como business podem mesmo ser tratados com relativa hostilidade simbólica no interior da comunidade. A crítica, nessa perspectiva, é que interesses materiais comprometeriam o longevo sentido de aprimoramento espiritual encerrado pela prática do montanhismo.

Desde o século XIX, a exploração comercial de passeios às montanhas serviu de impulso inicial e condição de possibilidade para o ulterior desenvolvimento do montanhismo, que sempre esteve, de todo modo, profundamente articulado com esse processo.

Pesquisas históricas, contudo, às vezes conseguem exibir aspectos bem menos altruístas no passado desses e de outros esportes. A fase pré-capitalista do surfe, por exemplo, talvez não o tenha sido tanto quanto alguns surfistas gostam de imaginar. O fato da disseminação do hábito havaiano pela Costa Leste dos Estados Unidos (ainda em princípios do século XX) ter se operado, em larga medida, através da nascente indústria do turismo (que chegou a empregar o irretorquível Duke Kahanamoku como garoto-propaganda) é algo geralmente recalcado da memória histórica dessa prática. Da mesma forma, as relações do desenvolvimento do montanhismo com a venda de passeios pelas montanhas da Inglaterra ou da França não contribui exatamente para fortalecer os ideais éticos que mais ou menos desde essa época vigoram nesse esporte.

Nada disso, contudo, pretende desabonar ou desmerecer a paixão e o profundo sentimento de identidade que praticantes encontram cotidianamente nessas modalidades. Ao contrário, aliás, palavras assim servem apenas para lembrar que todas as concepções de esporte trazem consigo alguma verdade. Trata-se, enfim, de algo agenciado por interesses humanos, capaz, portanto, de prestar-se a representar quase tudo que quisermos.

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