Ficção e futebol: papos da galera

Por Edônio Alves

Olá pessoal! Dando continuidade a uma série de pequenos ensaios que nos propusemos escrever  para este blog sobre a relação futebol e literatura:(ver aqui textos no blog) -, oferecemos, abaixo, a leitura de mais um conto de ficção em que o futebol é o tema principal de sua fatura literária. O texto intitula-se, Almas da galera, e foi escrito pelo jornalista e escritor João Antônio. Confiram. Boa leitura!

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Trata-se de uma estória curtíssima cuja idéia de força é destacar um momento singular – aliás, dois – entre tantos outros que compõem a cartografia sensitiva, a mentalidade cultural e afetiva da cidade do Rio de Janeiro, neste caso, através da paixão desbragada dos seus habitantes pelo jogo de futebol. Sucessivamente dissertativa (ensaística até) e narrativa, essa história poderia começar assim: “Torcedor doente é redundância”, mas inicia dessa outra forma, em tom epigráfico: “Poucas coisas tão velhas quanto dizer que não há nada mais perdido sobre a terra do que o coração do homem. E talvez ainda não se tenha dito que pouca coisa haverá, tão fiel, quanto o coração de um torcedor”. Pronto, acrescente-se aí a enunciação dêitica do narrador: “Flagrei outra cena, das que me ficaram fundo, bem isolada de outras que mexem com torcedores…”, e se terá o espírito geral que governa técnica e conteudisticamente esse belo conto, de que daremos mostra a seguir.

Bem ao feitio de João Antônio, que compõe um destacado time de narradores de viés etnográfico, a exemplo de um João do Rio (e sua Alma encantadoras das ruas, que parece ter sugerido o título) Antônio de Alcântara Machado, Orestes Barbosa, Benjamim Costalat, entre outros -, aqueles escritores cuja obra parece que tem como atitude estética constitutiva a missão de contar o mundo urbano e suas vicissitudes através de uma alteridade ao mesmo tempo prescrutadora e participante, esse conto se desenvolve através da observação interessada do seu narrador.

 “No comecinho da Ladeira dos Tabajaras, para quem vem do morro e pega a Rua Siqueira Campos, um crioulo na madrugada carregando ao ombro uma bandeira enrolada do Flamengo ia que ia quieto, cabeça pendidda, canseira nas pernas, mariolando”, avança a cena o narrador para depois circunstanciá-la no que ele tem de literariamente reveladora, no sentido epifânico da expressão. “O seu Mengo havia batido o Fluminense. À tarde e à noite, esses lados da cidade estiveram em festa, movimento e tropel. À uma da manhã, o crioulo de cabeça arriada e bandeira ao ombro ia bem cansado. Mas feito um guerreiro”, conclui.

 E aqui, a ecoar no leitor como um grito marcante de um personagem qualquer de uma estória qualquer, a primeira epifania buscada revelar pela atitude etnográfica da narrativa:

 “- Mengo!”

 Susto e surpresa para o que o narrador preparara assim, o leitor, antecipando-lhe o espanto, encantado: “A iluminação fraca da rua o pegava mal e mal, tudo deserto e ele ia muito sozinho lá com seu sonho. O queixo no peito. De repente, deve ter suspirado fundo antes e rasgou. Ele largou pra ninguém um grito arrastado, e que demorou, meio tristeza e desespero. Rindo, forrando, doendo, para ninguém:”.

 – Meeeeennnngggooooo!, repita-se, em tom mais alto, digo.

 Registre-se que agora o narrador aproveita tecnicamente – através de uma digressão curta sobre a virtual espacialidade da cena: “Poderia ter acontecido em Osasco, Camanducaia, Dores do Indaiá ou Copacabana. Deu-se em Copa”- o espanto do leitor, para igualmente mudar de lugar e de foco de observação:

 “Há um botequim xexelento em Copacana, apertado e sujo, na Rua Domingos Ferreira – entre quantos… – onde jamais consegui meter os pés que não ouvisse uma discussão brava, desregrada, enfezada, gritada e, de ordinário, furiosa sobre futebol. Pedir um maço de cigarros ou um café é um custo. A discussão sobre futebol abafa todas as vozes”, registra agora, como se fosse num caderno de campo.

 Não abafa, entretanto, a voz lírica, apaixonada, rapisódica; as vezes dura, as vezes macia, tantas outras compassiva, deste tipo de narrador literário lembrado acima, que conta – e encanta – as cidades e seus habitantes. “(…) Durante anos, engordei como um desafio uma curiosidade. Entrar no tal botequim e não flagrar uma gritaria de futebol. Difícil, senão impossível, isso nunca se deu”, observa, participante, para sapecar outra vez, como num arremate de primeira em direção o gol, ao seu objetivo, a sua outra revelação literária decorrente desta sua visada sobre a cidade.

 “Era meio de semana e se estava longe dos jogos importantes, provavelmente os ânimos estavam desmaiados ou num compasso de espera qualquer, um tempo de defasagem, um intervalo entre grandes acontecimentos.

 “Já era um botequim sem gritarias de futebol. E por um tira-gosto, me mandei pra outra ponta do balcão que já não é de mármore, mas de aço inoxidável.

 “Antes que chegasse ao torresmo ou à azeitona desejada, cortou uma voz lá do fundo, quebrando o silêncio:

 “- Você pra falar de Zico, tem que lavar a boca com álcool antes”.

 Assim, através de uma alteridade humanística e estética a um só tempo – conscientemente empregada a serviço da constituição e manutenção da memória espiritual da comunidade dos homens -, a cidade nos fala pela voz dos seus moradores. Ou seria pela voz dos seus narradores? O escritor João Antônio que nos diga.

PARA LER MAIS SOBRE O TEMA DO FUTEBOL NA FICÇÃO:

11 HISTÓRIAS DE FUTEBOL. Antonio Carlos Olivieri, Daniel Pisa, Domingos Pellegrini, João Antônio, José Roberto Torero, Luiz Galdino, Lourenço Cazarré, Miguel Sanches Neto, Ricardo Soares, Wladimir Catanzaro, Wladyr Nader. Coleção Prosa Presente. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2006.

 

 

 

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