PRÁTICAS ESPORTIVAS NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE HELÊNICA

por Fábio Lessa

Professor Associado de História Antiga do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ. Membro do LHIA e do SPORT da UFRJ. Apoio financeiro do CNPq e da FAPERJ. Bolsista Jovem Cientista do Nosso Estado (FAPERJ).

Pensar em práticas esportivas e, principalmente, em Olimpíadas nos remete, quase que automaticamente, aos gregos antigos. Isto porque entre os helenos os valores de coesão social, coletividade e competitividade (agón) já apareciam associados às competições esportivas. Na medida em que compunham a paideía (educação/cultura), as práticas esportivas eram importante elemento de demarcação de fronteiras identitárias, evidenciando o eu e o outro.  Os não gregos, por exemplo, estavam excluídos de tais práticas. Porém, pensar em práticas esportivas gregas pressupõe refletir acerca de rituais e religião. Os gregos antigos competiam num santuário em honra aos deuses da pólis através da ritualização das atividades esportivas.

É recorrente na historiografia contemporânea a afirmação de que todo ato na pólis é um ato religioso; isto significa dizer que a religião, além de obrigatória, se faz presente em todas as relações sociais que um indivíduo possa ter com seus concidadãos. A partir de tal colocação, propomos analisar as práticas esportivas inseridas na esfera ritual, tendo em vista ainda que, “em qualquer tempo ou lugar, a vida social é sempre marcada por rituais” (PEIRANO, 2003, p. 7). Vale enfatizar que o esporte, na Grécia Antiga, se constitui numa prática ritual que atuava na formação do cidadão ideal e na sua demarcação identitária.

Para os gregos antigos, o melhor meio de se comunicar com o sagrado foram os rituais; o que significa dizer que, entrar nesse espaço, pressupunha o conhecimento de ritos e mitos que permitissem a ligação entre os homens e os deuses. Defendemos que o campo das práticas esportivas permitia a efetivação dessa ligação. Os gregos antigos organizaram as relações com o sagrado através de ações como rituais, festivais, procissões, competições atléticas, oráculos, oferendas e sacrifícios animais.

No caso específico dos gregos antigos, cabe às divindades políades a função de regulação social. Elas permitem a integração dos indivíduos aos grupos sociais. Porém, um deus não pode se definir em termos estáticos. As divindades, nos seus respectivos domínios partilhados, unem todo o conjunto do espaço cívico e cimentam o corpo dos cidadãos, o transformando numa comunidade autêntica.

Na medida em que o exercício das práticas esportivas se configura como um ritual religioso, entendemos ser necessário algumas observações sobre as atividades rituais. As pesquisas antropológicas frequentemente concebem o ritual como elemento de coesão social, servindo ainda para dirimir conflitos ou diminuir rivalidades e ao mesmo tempo para transmitir conhecimento. Roberto DaMatta, por exemplo, afirma que os ritos servem para promover a identidade social (DAMATTA, 1997, p. 29). Marc Augé, em sentido semelhante, destaca que as atividades rituais têm por objetivo essencial a conjugação e domínio da dupla polaridade: individual/coletivo e si-mesmo/outro (AUGÉ, 1999, p. 44-5).

Dessa forma, através da prática ritual observamos um questionamento do mundo, do social, do ser individual e relacional, podendo ainda os rituais ser entendidos como parte integrante da vida política coletiva, mas que comportam ações individuais, constituem uma época na vida de um indivíduo.

O ritual, além de ser um elemento de coesão de seus membros e agente de transmissão de valores sociais fundamentais aos jovens, que são reforçados a cada reafirmação, como acontece nas competições esportivas; também pode se entendido como uma linguagem. A atividade ritualizada pode ser entendida como uma linguagem pela qual se efetua a comunicação no interior de um sistema, existindo um conjunto de signos que são incorporados pelos indivíduos e esta incorporação permite a sua decodificação. O ritual comunica socialmente, produzindo sentido para a realidade vivenciada. Porém, não podemos deixar de enfatizar que ritual religioso evidentemente possuía significados diferentes para os diversos grupos e indivíduos.

Retornamos ao antropólogo Roberto DaMatta que, ao estudar a sociedade brasileira contemporânea, reforça o caráter essencialmente social dos ritos, quando afirma que eles “…seriam, assim, modos de dizer algo sobre a estrutura social; mas de dizer algo de um certo ponto de vista”. Pensemos no caso grego a partir do que nos foi dito por R. DaMatta: os rituais praticados pelos gregos antigos são discursos diversos a respeito de uma mesma realidade, cada qual ressaltando certos aspectos essenciais e segundo uma leitura de dentro dessa mesma realidade. Dessa forma, o ritual é um momento totalmente orientado para dentro da sociedade (DAMATTA, 1997, p. 66-7). Podendo ser também entendido como um ato individual ou coletivo que se mantém fiel a certas regras, o ritual tem na repetição um de seus elementos mais significativos, mas se caracteriza pela simples repetição mecânica de gestos.

Não podemos esquecer que a identidade é relacional e que depende de algo de fora dela para se constituir, isto é, da outra identidade. A relação entre gregos e bárbaros no âmbito também das práticas esportivas é o exemplo claro dessa questão. Porém, não podemos perder de vista que a identidade helênica conhece tensões, fissuras e oposições de alteridades internas, ou seja, o outro pode ser o próprio grego, como rival, inimigo, infrator de códigos de comportamento (FIALHO, 2010, p. 114). Mais uma vez o espaço das práticas esportivas pode evidenciar esse quadro de alteridade interna.

Além de plurais e construídas historicamente, as identidades são constituídas por meio da marcação da diferença, o que significa dizer que a identidade depende da diferença.  Afirmar a identidade implica em demarcar fronteiras. É exatamente o que as práticas esportivas propiciam no mundo antigo grego. Atuam, entre outras coisas, na demarcação dos cidadãos frente aos outros; na explicitação das marcas das diferenças. Podemos mencionar que a questão da identidade, da diferença e do outro é um problema social, porque em um mundo heterogêneo, o encontro com o outro, com o estranho, com o diferente, é inevitável, e ao mesmo tempo, se articula perfeitamente com a dinâmica das práticas rituais num mundo politeísta como o grego antigo. E o esporte atua como um dos elementos que demarcam a identidade do heleno frente aos estranhos, aos outros. Podemos afirmar que o cidadão pleno no mundo antigo grego é também um atleta e que a comunidade política se faz representar nas competições atléticas. Nesse sentido, o esporte cria, recria e fortalece a identidade helênica.

Referências:

AUGÉ, M. Por uma Antropologia dos Mundos Contemporâneos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FIALHO, M.C. Rituais de Cidadania na Grécia Antiga. In: LEÃO, D.F.; FERREIRA, J.R.; FIALHO, M.C. (org.). Cidadania e Paideía na Grécia Antiga. Coimbra: CECH, 2010.

PEIRANO, M. Rituais Ontem e Hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

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