Um cão esportivo

por Victor Andrade de Melo 

Como de costume, está excelente a última edição da Revista de História da Biblioteca Nacional (aliás, fica a dica, vale a pena não só fazer uma assinatura como acompanhar as atualizações da página do periódico). 

 O tema central e a capa desse ultimo número é a inspiração do meu post de hoje. 

 

Como lembra, na seção “A imagem da capa”, a historiadora Claudia Thurler Ricci, “o bulldog era um dos principais protagonistas de um passatempo muito apreciado pelos trabalhadores das zonas mineradoras da Inglaterra do século XVIII: a rinha de touros ou o combate entre touros e cães”. 

 Como já vimos em outro post , as touradas antecederam e mesmo integraram os primeiros momentos da constituição do campo esportivo conforme hoje o concebemos. 

 Nesses primeiros momentos de delineamento de uma postura esportiva, quando a prática estava ainda mais relacionada a atividades de diversão no campo , os cachorros eram partes importantes do espetáculo, como podemos ver nas imagens abaixo. 

“Membros do Carrow Abey Hunt”, de Philip Reinagle, (1780, óleo sobre tela, 11,7 x 15,5 cm; acervo de Tate Colletion/Londres/Londres)

“A caça à raposa do Conde de Darlington” (1805), de John Nost Sartorius

  Raças de cães começaram a ser preparadas tendo em conta esses passatempos. Esse foi o caso do bulldog. Como lembra Claudia Ricci: “Ele deveria ser ágil, forte e musculoso; sua estatura baixa facilitaria o seu deslocamento em torno e por baixo do touro; a forma de seu maxilar foi acentuada com o tempo para que pudesse abocanhar o focinho do touro de modo a não soltá-lo”. 

 As iconografias são categóricas: os bulldogs eram parte importante do espetáculo, valorizados e não poucas vezes vendidos a preços elevados. 

  

  

 

  

  

  

Como, então, um cão tão feroz no passado veio a ser retratado, nos anos iniciais do século XX, de maneira tão dócil e simpática, com um chapéu na cabeça, como vemos na capa da Revista de História da Biblioteca Nacional? 

 A velha imagem do bulldog foi eliminada no mesmo processo de disciplinarização e controle, típico do processo de construção do ideário e imaginário da modernidade, que acabou por combater e majoritariamente eliminar essas práticas tidas como “bárbaras”, as substituindo por outras consideradas mais sintonizadas como os sinais dos novos tempos, entre as quais os esportes, que progressivamente expressariam o novo comportamento humano desejado: um corpo que transpirasse força, saúde, vigor, disposição. 

  

   

Zeca Peixoto, uma dos primeiros no Brasil a adotar e exibir um físico forte. Mais informações em: http://www.sport.ifcs.ufrj.br/recorde/pdf/recordeV3N1_2010_51.pdf e em http://www.8p.com.br/zecafloriano/flog/#

  Nesse novo cenário, a antiga fera foi domesticada e passou a ser apresentada como amigo bonachão das crianças, ainda que, como lembra Claudia Ricci, “os músculos fortes, a mandíbula poderosa e os dentes protuberantes continuam lá: são lembretes para qualquer sociedade que se julgue inteiramente domada”. 

Aliás, não surpreende saber que as práticas com animais sigam sendo realizadas, algumas vezes de forma legal, como por exemplo as brigas de galo na Tailândia e as touradas em Portugal e Espanha, outras mesmo como contravenção, como bem atestam alguns personagens da política nacional surpreendidos em uma rinha de galos em 2004. 

 

 

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: