Domingo de diversões em subúrbio de Bogotá

Por Álvaro do Cabo (texto) e Rafael Fortes (fotos e edição)

Aproveitando a recente passagem pela capital colombiana para participação no Congresso Latino-Americano de Comunicadores (ALAIC 2010), além de visitarmos espaços culturais como o Centro Cultural Gabriel García Márquez, Museu do Ouro e Museu Botero (o famoso “pintor das gordinhas”), no final de semana nos dedicamos ao turismo futebolístico.


Estádio El Campín, Milionários 2x0 América de Cáli.

Acompanhados de nosso hermano David Leonardo Quitián Róldan – jornalista esportivo, sociólogo e autor de um informativo livro sobre o futebol colombiano – conhecemos no sábado o famoso Estádio El Campín, público, que está sendo remodelado para o Mundial Sub-20 que se realizará no país em 2011. Assistimos a um clássico nacional:  Milionários 2 x 0 América de Cali.


Torcida barra-brava do Milionários

Além do baixo nível técnico da partida, os fatos que nos impressionaram foram: a quantidade de policiais e sucessivas revistas que ocorrem antes da entrada nas arquibancadas; a proibição de entrar com cintos que tenham fivela, situação que enseja uma atividade comercial informal de guardia-cinturones no entorno do estádio (paga-se aproximadamente R$ 2 a um guardador para deixar o cinto, recebe-se uma senha e, após o jogo, procura-se o guardador em um dos canteiros próximos à saída, entrega-se a senha e retira-se o pertence), e as torcidas no estilo barra brava – que costumamos associar à Argentina –, pulando e cantando ininterruptamente, com muitos dos hinchas sem camisa, apesar da baixa temperatura na chuvosa noite de sábado.


Estádio de Techo, placa na entrada da torcida visitante

Porém, a partida que mobilizou nosso último dia na cidade é que realmente espelha a paixão pelo futebol nos rincões latino-americanos. Um domingo no parque no distante (do Centro) Barrio Kennedy, onde acompanhamos o derby La Equiedad Seguros x Real Cartagena, pela mesma 11a. rodada do Campeonato Colombiano.

Com capacidade para 8 mil pessoas, o Estádio de Techo, também público e conhecido como “Goles en Paz”, fica em um aprazível bairro do subúrbio de Bogotá que leva como alcunha o nome do ex-presidente norte-americano e foi construído no terreno de um antigo hipódromo. O estádio faz parte de um complexo de lazer da empresa seguradora Equiedad, composto também pelo parque de diversões “Atracciones Mundo Aventura” e área verde.

Passamos pela minuciosa revista – desta vez mantendo nossos cintos – e subimos as escadarias do estádio para nos posicionarmos junto às cabines de rádio e imprensa, próximo a animados torcedores do Cartagena, clube da cidade histórica situada no litoral norte. Porém, os cartageneros das Índias apresentaram um péssimo futebol na primeira etapa e logo sofrem o primeiro tento, assinalado pelo argentino Ariel Carrero aos 6 minutos. A equipe do Equiedad  controla bem a partida, tem jogadores habilidosos e demonstra um futebol superior ao das tradicionais equipes que vimos na véspera e que são os maiores campeões da Colômbia, com treze títulos cada. Equiedad e Real Cartagena encontravam-se à frente na tabela, ocupando respectivamente a quarta e a quinta posições.

Nosso correspondente Álvaro do Cabo pega um refrigerante no intervalo.

Fim da primeira etapa e pausa para provar o refrigerante Postobon, empresa que patrocina o campeonato, inclusive nomeando-o (Liga Postobon). Servido pela “chica postobon” Andrea, a gaseosa lembra ícones do ramo no Brasil como Guaraná Jesus ou Radar ou a famosa soda amarelada peruana Inca Cola. Com uma coloração rosada, o sabor é mais para Posto que para bom.

Durante o intervalo pudemos observar também a performance das “porristas”. Não referimos a pessoas alcoolizadas, pois bebida alcoólica também é proibida nos estádios colombianos, mas sim às cheerleaders locais.

Mesmo com o placar desfavorável,  a torcida cartagenera toca flauta, canta, dança ritmos caribenhos e adora aparecer para a televisão local. Responsável pela cobertura dos jogos do Equiedad para o periódico esportivo Nuevo Estádio, David (cuja matéria sobre a peleja está aqui) nos explica que, provavelmente, a maioria se constitui de atuais moradores de Bogotá que se sentem representados pelo Real canarinho.

Animadoras de torcida do Equiedad agitam pompons e exibem bandeira durante substituição.

No início do segundo tempo um petardo na trave com a bola amarela Golty parece anunciar que o Real equilibrará a partida. E a torcida, eufórica, pede a entrada do ligeiro atacante Kevinson Palomino. Diversas substituições nas equipes. Quando a mudança é no Equiedad, está sempre presente uma “porrista” levando uma bandeira com propaganda da companhia seguradora – mercantilização do futebol é isso aí. Quando Palomino pega na bola a torcida, inflamada, grita “Prende la moto” (incentivo para o atacante acelerar).

As mudanças no alviverde Equidad funcionam melhor e a equipe mantém o domínio da partida. Aos 28 minutos da segunda etapa, um dos reservas, Johnny Cano, aproveita boa jogada de contra-ataque e amplia o placar. Mesmo com o placar adverso, a torcida visitante segue cantando e fazendo presepadas para a televisão local. Aos 38, comemora bastante o gol de Cardozo, em um bate-rebate na área típico das jogadas de abafa executadas pelos times em desespero. No mesmo instante surge um arco-íris ao fundo, próximo a montanha russa do parque. Haveria um empate heróico para a equipe dourada ao final do arco-íris?

Nos minutos finais, pressão com bolas alçadas na área, torcida gritando “Si se puede”, mas a superioridade técnica e organização tática prevalecem. O time/empresa  Equiedad vence o histórico Real por 2×1. A bandeira da Universidad de Cartagena com foice e martelo é recolhida, enquanto ambas as torcidas aplaudem suas equipes.

Festival de cores atrás da meta. Balões: rosa (refrigerante patrocinador da liga), azul (logotipo da liga, com a mesma marca de refri), alviverde (patrocinadora/dona da equipe local), amarelo (bola oficial). E o barco viking girando no parque de diversões.

Em um momento que se fala tanto da espetacularização do futebol e seus malefícios, a diversão de estar presente num Domingo no Parque de um subúrbio de Bogotá e assistir um jogo de futebol no real sentido de buscar entretenimento para o sagrado dia de descanso demonstra que, independentemente, das grandes marcas esportivas, dos superatletas globalizados, da alta técnica das partidas, dos interesses econômicos de companhias de seguros ou de marcas de refrigerante, o futebol continua sendo fonte de prazer, adrenalina e emoção para os espectadores, assim como os freqüentadores de um parque de diversões.

Mesmo em uma sociedade altamente militarizada, com toque de recolher,  dividida pelo poder das guerrilhas, dos paramilitares e da nociva influência norte-americana, uma simples partida dominical de futebol entre um time-empresa e um Real-histórico pode promover a diversão de se assistir goles en paz.

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