“Para jogar a verdadeira capoeira” – próxima parada: Salvador

Por Vivian Fonseca

Qualquer freqüentador de rodas de capoeiragem já ouviu em algum momento músicas e histórias que nos mandam para a Bahia. A Salvador de várias épocas aparece mobilizada a qualquer momento em rodas nos recantos mais escondidos do Brasil e também nos países mais inusitados:  Japão, Israel, Finlândia, Turquia, Nova Zelândia etc.

O grande aumento no número de praticantes no Brasil e no exterior trouxe um novo movimento para a capoeira. Dos anos 1970 para cá, milhares de mestres e professores passaram a ensinar e a fixar academias no exterior e mestres e capoeiristas mais experientes passam a ser convidados a darem workshops, palestras e a participarem de batizados, festas, jogos e outras cerimônias. Além de mestres e figuras de destaque, alunos de todos os níveis, interessados em aprimorar sua destreza e conhecimento no jogo, viajam em busca de capoeiragem. O destino principal de alunos estrangeiros é, sem sombra de dúvida, o Brasil. E mais especificamente, não só estes, como também brasileiros, em busca de “uma capoeira de qualidade ou de raiz”, viajam para Salvador e, em segundo lugar, Rio de Janeiro. Entendidos como locais onde podem vivenciar as verdadeiras capoeiras, esses espaços, com destaque para a capital baiana, transformaram-se em espécies de Meca, cidades para as quais qualquer capoeirista minimamente comprometido com a prática, deve ir ao menos uma vez durante a vida.

No imaginário de capoeiristas essas duas cidades resumem o que foi e é a capoeira. Essa vontade de viajar para Rio e Salvador pode ser entendida se levarmos em conta a busca por autenticidade na escolha de roteiros turísticos.  O que não deixa de ser uma demonstração moderna de busca pelo sagrado. A força simbólica que os mestres atuantes em Salvador reúnem, faz com que suas leituras da história da capoeira para essas cidades usufruam de legitimidade dentre os praticantes. Ainda, a possibilidade de se vincularem aos grandes mestres baianos do passado. Os Mestres Bimba e Pastinha, os mais conhecidos ao redor de todo o mundo, criaram e desenvolveram suas Academias de capoeira em Salvador, colocando a capoeira baiana no foco dos holofotes. Bimba e Pastinha, ao se firmarem, mesmo depois de mortos, como os grandes símbolos de uma capoeira autêntica e também como mártires, fizeram de Salvador local de peregrinação. Capoeiristas do mundo inteiro, em busca de espaços vistos como importantes na trajetória desses Mestres, viajam e visitam, na grande parte dos casos, os mesmos roteiros.

Diferentemente do que acontece com grande parte dos destinos, para esse tipo de viagem não existem guias, folhetos nem propagandas veiculadas na mídia de massa. Os lugares de viagens são escolhidos porque existe uma expectativa em relação a eles, que inclui viver intensamente o que nos faz fantasiar, no caso a capoeira. Expectativa esta que é construída e mantida por práticas não-turísticas, como o cinema, a televisão, revistas, vídeos etc. Na prática em questão, essa curiosidade é mais intensamente estimulada através de músicas cantadas em rodas de capoeira, histórias contadas sobre mestres cultuados e acontecimentos marcantes em sua história. Essa possibilidade de viver intensamente a capoeira faz com que turistas-capoeiristas enxerguem tradição, autenticidade e verdade em qualquer menção feita à capoeira em terras soteropolitanas. Os turistas viajam pela possibilidade de praticar uma boa capoeira intensamente e, para eles, em Salvador isso seria possível de maneira mais completa pela imersão cultural que a viagem possibilitava. Os turistas vão imbuídos de um desejo por manifestações autênticas e tradicionais, o que faz com que eles vejam o que esperam ver. Rodas comuns transformam-se em grandes eventos que demonstram fortemente a autenticidade do lugar. O olhar é construído através de signos, e o turismo pressupõe uma coleção deles. Podemos entender essa relação tendo em mente o exemplo de Paris, cidade conhecida como a capital do romance e dos casais apaixonados. Ao ver nesta cidade um casal se beijando, lembramos imediatamente da informação de que Paris relaciona-se com paixão e amor, logo, um beijo, que poderia ser visto em qualquer outra cidade do mundo, funciona para fortalecer a imagem de que Paris é a cidade do amor. Como se um casal se beijando fosse uma característica específica da capital francesa. Da mesma maneira acontece com Salvador. Ao ver uma roda, ou outros símbolos relacionados à capoeira, esses turistas-praticantes ratificam suas expectativas construídas antes mesmo da viagem.  De qualquer maneira, independente dessas concepções acerca de Salvador manterem ou não relação clara e direta com o real, essas representações veiculadas em histórias, músicas e papos encontram terreno fértil, fazendo esse nicho turístico cada vez mais forte entre capoeiristas dos mais diversos locais.

 

 

 

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