No tempo dos vagabundos

Por Henrique Sena*

Na Bahia, em todas as cidades, encontramos um campinho de várzea.  Seja na capital ou em cidades longínquas lá está o campo onde se reúnem trabalhadores logo nas primeiras horas da manhã para um baba (para quem não sabe é a nossa pelada) antes do trabalho ou as crianças para um “bobinho” no final do expediente escolar. Nas cidades pequenas de beira de estrada faz parte da sua paisagem um campinho e uma igreja. Nos arriscamos a dizer que sem um campinho ou a igreja, uma cidade está incompleta. Já nas cidades litorâneas os campos ficam às margens das praias onde muitas vezes as laterais são as próprias ondas e as calçadas. Nestes campos, os jogadores dependem do fluxo da maré para jogarem.

 

Quando não são os campos, são as próprias ruas que fazem a alegria da garotada. Principalmente para os mais jovens que, muitas vezes como eu mesmo já fui, eram impedidos de jogar pelos mais velhos. Assim, outra opção não menos divertida era gol a gol, brincadeira em que as balizas eram os portões das casas e principalmente o golzinho. Este era um jogo em que a rua era o campo e as laterais eram os passeios das casas. As traves geralmente eram os paralelepípedos que já estavam desprendidos dos passeios ou pedrinhas empilhadas. Quando um carro passava, interrompíamos o jogo torcendo para que o veículo não destruísse as pedras e desmanchasse a trave. Quando isso acontecia, tínhamos o trabalho de chamar o amigo que mediu as traves para dar novamente três ou quatro passos e montar o gol mais uma vez.

 

Ainda existiam diversas variantes do jogo de bola que não se limitavam aos campinhos ou as ruas: tínhamos o “salãozinho” que podia ser realizado na garagem da casa, o bobinho em qualquer espaço e a disputa de pênaltis que, dependendo do lugar, o gol poderia ser dois coqueiros paralelos, o portão de uma casa e por aí vai…

 

Todos esses espaços e variações do futebol apontam para como este esporte, entre os brasileiros, teve uma capacidade se reinventar constantemente se apropriando dos espaços disponíveis. A peculiaridade do futebol dotado de regras simples e de um potencial extraordinário de adaptação de materiais fez do jogo de bola a prática esportiva mais popular do país se constituindo em um forte elemento da nossa identidade.

 

Porém, houve um tempo que não era assim. E foi justamente no período em que o futebol chegava no Brasil. Como já foi amplamente falado e discutido, o jogo bretão chegava a terras brasileiras como mais um elemento da chamada modernidade. E uma das características da construção dessa modernidade foi o processo sistemático de repressão das chamadas culturas populares, a saber a capoeira, os candomblés, os charivaris e serestas de todo o tipo e outras tantas manifestações. As práticas legítimas de grupos historicamente constituídos por negros (as), brancos (as), escravos, libertos, trabalhadores livres na transição do século XIX para XX passariam a ser perseguidas nas ruas, largos e praças, seus principais lugares de manifestação, e substituídas pelos footings, soirées, chás dançantes, os esportes e o futebol.

 

Para a sua consolidação, as práticas culturais advindas da modernidade europeia, no entanto, encontrariam fortes entraves exatamente naquelas culturas que se tentavam extinguir. E mais, no processo de resistência cultural, os populares se apropriariam do moderno futebol na tentativa de manter as ruas e logradouros públicos como um espaço legítimo o que revelava a capacidade dos populares em reinventarem a sua cultura.

 

Em Salvador, a partir de 1906, cinco anos após a chegada do futebol e um ano depois da formação do primeiro campeonato, surgem notas e mais notas nos jornais criticando o jogo de bola praticado não pelos os endinheirados sportmens mas pelos denominados vadios, vagabundos e capadócios. No chamado foot-ball de garotos, foot-ball de vadios ou foot-ball de vagabundos eram garotos e adultos que com os seus babas em ruas, vielas, largos e becos arruinavam os sentidos civilizatórios e modernos do sport:

Foot-ball de garotos

Continua desenfreado e insuportável o foot-ball dos garotos, que absolutamente não atendem a circunstâncias de ocasião nem de lugar, com o que prejudicam enormemente as vidraças das casas, as plantas dos jardins públicos e a tranquilidade dos transeuntes. É uma vergonha uma verdadeira miséria. (Diário de Notícias, Salvador, 07 de novembro de 1906)

 

Nesta mesma nota encontramos a insatisfação de um cavalheiro que foi à redação do jornal se queixar do “prejuízo que lhe têm causado os terríveis vadios que um dia destes lhe deram forte pancada com uma lata e hoje o iam atirando ao chão com formidável trompaço.” Em muitas outras notas aparecem relatos de garotos chutando um pano velho, uma bola de meias e até bexigas de bois. Em 26 de novembro de 1915, o jornal A Tarde publicava que “uma malta de vadios, se reuniam diariamente no campo do Barbalho para jogar um desenfreado foot-ball, com bolas de pano velho. Nas ruas os materiais utilizados para uma partida eram os mais diferentes possíveis. Além disso, os babas não tinham hora nem lugar para acontecer. Em 1912 um leitor do jornal Diário de Notícias residente no Bairro da Lapinha vinha pedir que se chamasse a atenção dos poderes competentes:

(…) para um grupo de desocupados, jogadores de foot-ball ali, onde constantemente arrebentam vidraças e atropelam os transeuntes. É por demais estreito o local onde abusivamente se utilizam para este prejudicial divertimento existindo até uma postura municipal que proíbe tais jogos em lugares não determinados pela intendência já não falando também no abusivo brinquedo das arraias que danificam a toda hora os telhados das propriedades ali (Diário de Notícias, Salvador, 26 de abril de 2012)

 

Já na nota “A doença do sport”, os moradores à rua do Bengala, segundo o jornal A Tarde, sentiam-se incomodados com a persistência de alguns indivíduos, que para patentear seu amor ao esporte, “ficam, todos os dias, a jogar desde as primeiras horas da noite, no ‘campo’ impróprio de uma rua estreita, que assim fica quase intransitável. As famílias ali residentes esquivam-se de sair à noite com medo do desordenado ‘team’”( A Tarde, Salvador, 7 de novembro de 1914)

 

Ao longo das duas primeiras décadas do século XX, são muitas as notas criticando esta prática. Afinal, era inaceitável o uso de uma prática civilizada por “capadócios que, sem a mínima noção do que seja o belo e útil jogo do foot-ball vivem por aí a quebrar vidraças das casas e das igrejas.” ( Diário de Notícias, Salvador, 19 de julho de 1906)

 

São muitas as notícias sobre os vagabundos soteropolitanos e não cabe neste post comentar a maioria delas. Uma coisa, porém, deve ficar registrada. Nos momentos de tensão e de forte repressão aos populares imaginamos uma cultura popular bravamente resistindo com seus atabaques, berimbaus, rodas de samba e capoeira. Isso não deixa de ser verdade, mas é um lugar comum. Também importa-nos saber como se dava este diálogo entre práticas que chegavam para reformar e regenerar e os populares que se utilizavam destas para resistir. E hoje, quando os babas, rachões e peladas por este Brasil afora se tornaram expoentes máximos de uma nacionalidade brasileira é uma boa ideia relembrar vagabundos e vadios que antes de se pensar ou inventar uma nação para o Brasil através do jogo de bola já atribuíam sentidos próprios para o futebol em suas vidas…

 

*Henrique Sena é graduado e mestrando em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana e Membro do Laboratório de História do Esporte e do Lazer. Convidado desta semana para escrever no Blog sobre História do Esporte na Bahia

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