A Vida continua…

No post anterior comentei o filme “Isto é Pelé”, de 1974.  A idéia inicial era seguir com filmes brasileiros sobre futebol, mas vamos dar uma mudada.

O trabalho de doutorado que venho desenvolvendo junto ao Laboratório de História do Esporte  (http://www.sport.ifcs.ufrj.br/) tem como base a análise comparativa entre filmes brasileiros e espanhóis que envolvam o tema  futebol, entre 1964 e 1975, ou seja, entre períodos de regimes ditatoriais . Aqui apresento a primeira película espanhola a ser estudada:  “La Vida sigue Igual”, de 1969 (ficha técnica abaixo).  Trata-se de uma “biografia romanceada”  de … Julio Iglesias.  Ele mesmo, o ‘cantante’ internacionalmente conhecido (na verdade, segundo o site oficial do artista, tratar-se-ia do “artista mais popular do planeta, tendo vendido mais de 300 milhões de álbuns e recebido mais de 2600 discos de platina e de ouro em todo o mundo” !  Consultado em 23 de outubro de 2010:   http://www.julioiglesias.com/pt/index.html). 

 Quem nunca foi adepto do repertório e estilo do cantor, como eu, pode não saber, mas um elemento bem difundido da biografia de Iglesias  é que ele teria tentado seguir carreira futebolística. Jogou como goleiro, nas camadas jovens do Real Madrid (“foi um destacado atleta de futebol”;   aí por conta do site oficial). Um outro episódio também teria marcado a vida do artista:  um grave acidente de carro, em 1963, quando Iglesias contava 20 anos.  A colisão “o deixou semi-paralizado durante um ano e meio, existindo poucas hipóteses de poder voltar a andar” (sempre pelo referido site).  Tendo em vista a recuperação e futura popularidade do cantor, estava montada a base de uma história que bem podia virar um filme;  e virou.  “La vida sigue igual” é  uma fita romântica e de superação a partir da interrupção do sonho de um jovem atleta que, impossibilitado de exercer a carreira inicialmente ambicionada e, mesmo de se locomover,  passa a compor canções, ganhar prêmios e se firmar como intérprete.  Para permear essa trajetória é claro que rola um romance.  Iglesias troca a  noiva, que se afastou durante parte importante de sua recuperação, e enamora-se da jovem que o apoiou no seu retiro solitário, em um hotel da costa mediterrânica.

Se quiséssemos contrapor, só para experimentar, “La vida sigue igual”  com “Isto é Pelé”, teríamos, em estilos distintos, duas histórias de heróis.  No caso do filme de Pelé trata-se (como vimos rapidamente) do encontro de uma incomum capacidade atlética com uma obstinada e disciplinada tenacidade para o aprimoramento.  O resultado:  um atleta como nenhum outro (o “atleta do século”). Exemplo/imagem (positiva) para todo brasileiro.   Na película espanhola parece que nos deparamos com a clássica versão da  jornada heróica, com tudo que essa modalidade tem por direito: expectativa/promessa de felicidade, queda, dor, sofrimento, superação e a vitória final, ainda mais enaltecida por conta das dificuldades enfrentadas.

Uma questão seria: como articular essas produções cinematográficas com o tempo social/histórico no qual foram produzidas?  E como colocar ambas para ‘conversar’?   No post anterior demos algumas pistas no que se refere a “Isto é Pelé”. Para  “La vida sigue igual”  talvez devessemos levar em conta o desenvolvimento econômico que a Espaha passava a trilhar entre a segunda metade dos anos 60 e década de 70 (que alguns por lá também nomearam de “milagre ecnonômico”;  ver  CARR, Raymond/ FUSI, Juan Pablo.  España, de la dictadura a la democracia. Barcelona, Editorial Planeta, 1979, p.74-102).  Um crescimento acelerado não é de modo algum estranho a desejabilidade/receptividade de narrativas esperançosas para o futuro.  Mas isso é algo que devemos ver melhor.

Até a próxima! 

La vida sigue igual

Dirigido por Eugenio Martín, 1969 

ESPAÑOLA
ESPAÑA Largometraje
Espectadores: 1.998.728
Recaudación: 238.164,17 € Productoras: 
STAR- FILMS, SA

Intérpretes: 
JULIO IGLESIAS, JEAN HARRINGTON, CHARO LOPEZ, MICKY, FLORINDA CHICO, MAYRATA O”WISIEDO, ANDRES PAJARES, MIGUEL ANGEL CARREÑO Guión: VICENTE MARTIN, LEONARDO COELLO, EUGENIO RUBIO, MIGUEL MARTIN 
Argumento: EUGENIO MARTIN, LEONARDO COELLO, VICENTE RUBIO, MIGUEL MARTIN 
Director de fotografía: JUAN AMOROS 
Música: WALDO DE LOS RIOS 
35 milímetros. Color: Eastmancolor. PANORAMICA.
Duración: 91 minutos Empresa distribuidora: FILMAYER S.A.
Espectadores: 1.998.728
Recaudación: 238.164,17 €

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