Porque eu falo do que falam de esporte

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

Recentemente descobri por acaso um livro chamado Do que eu falo quando eu falo de corrida (por curiosidade, Hashiru Koto Ni Tsuite Kataru Toki Ni Boku no Kataru Koto, no original em japonês). O título chamou-me atenção. Soa bem. Seu autor é Haruji Murakami, premiado romancista que tem, inclusive, outros títulos publicados no Brasil (Após o anoitecer, Kafka a beira mar, Minha querida Sputnik), ainda que só agora tenha adentrado no meu limitado mundo cognoscível.

Em Do que eu falo quando eu falo de corrida, Murakami, basicamente, anota reflexões a respeito do seu passatempo predileto: as corridas de longa distância. Para além do testemunho pessoal sobre os sentidos que essa prática assume para a vida de um cidadão comum, o livro também oferece a oportunidade de re-pensar algumas formas ainda bastante correntes de interpretar os sentidos do esporte.

Capa de "Do que eu falo quando falo de corrida"

Haruki Murakami é um fundista amador há mais de 27 anos. Começou a correr por volta de 1983. Seu amadorismo, entretanto, não significa descompromisso. Ainda que ele mesmo se classifique como um corredor mediano, de nível comum, do dia-a-dia, e que a atividade seja praticada de maneira inteiramente desinteressada, no sentido de não pretender auferir dela lucros ou qualquer outro ganho material, a disposição de espírito é séria e dedicada. Murakami prepara-se com treinos sistemáticos, planejando meticulosamente cada seção ou fase da sua preparação: uma hora por dia, seis dias por semana, sessenta quilômetros por semana, duzentos e sessenta quilômetros por mês, dez quilômetros por hora, cinco minutos e meio para cada quilômetro, pelo menos uma maratona todo ano. Uma atividade que em certos períodos constitui-se no eixo central da sua rotina diária, conforme conta-nos em certo trecho do livro.

A fixação de um programa tão regular tem por finalidade, obviamente, alcançar objetivos bem definidos, que no caso de Murakami e de muitos corredores de rua, podem ser subsumidos à performance e ao desempenho. Murakami quer baixar seu tempo na maratona. Apesar de encarar a atividade como um hobby, um passatempo, a prática de Murakami, assim mesmo, está inscrita na órbita do esporte competitivo, de rendimento.

Todavia, tomar o esporte como componente lúdico do tempo livre ou como opção de lazer, tal como faz Murakami, não implica necessariamente descolá-lo do seu universo simbólico típico. Essa é uma interessante lição a ser retida do livro do escritor-corredor. Desempenho e divertimento, lazer e competição, não são termos antinômicos, ao contrário do que dão entender certas formas de entendimento sobre o esporte. A competição (consigo mesmo ou contra outro) pode ser algo extremamente prazeroso, mesmo quando o resultado é negativo. Mais que isso, o esporte, nesses seus termos mais convencionais, pode ser instrumento de aprimoramento pessoal e veículo de auto-realização. Em última instância, é disso que trata Do que eu falo quando eu falo de corrida. “De todos os hábitos que adquiri ao longo da vida, devo dizer que esse [a corrida de longa distância] tem sido o mais útil, o mais significativo […] Para mim, correr é tanto um exercício como uma metáfora. Correndo dia após dia, colecionando corridas, pouco a pouco elevo meu patamar, e cumprindo cada nível aprimoro a mim mesmo”.

O escritor Haruki Murakami preparando-se para a ação

O esporte competitivo nem sempre cumpre papel de vilão. Atribuir-lhe significados educativos ou valores positivos do ponto de vista humanístico, não exige, por obrigação, ter que modificar-lhe certas características. A busca do resultado, da quebra do recorde ou do alto rendimento não é, em si mesmo, alguma coisa que devêssemos evitar. O esporte, afinal, será aquilo que fizermos com que seja.

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